domingo, 15 de janeiro de 2017

"Um suspiro da economia", editorial do Estadão

O alento na atividade econômica percebido quase no fim do ano passado parece mostrar pelo menos uma preciosa reserva de energia


Sinais vitais da economia brasileira melhoraram em novembro. Com isso, junta-se mais uma notícia positiva aos bons sinais acumulados neste início de ano – perspectiva de uma boa safra de grãos, inflação em queda e um novo e mais vigoroso corte dos juros básicos pelo Banco Central (BC). No entanto, seria precipitado interpretar o aumento da atividade, naquele mês, como um começo de retomada. Não se pode esquecer o fraco movimento do comércio em dezembro, num cenário de severo desemprego e de consumo ainda muito retraído. Faltam dados para uma avaliação mais segura da tendência recente. Mas o alento, ou suspiro, percebido quase no fim do ano parece mostrar pelo menos uma preciosa reserva de energia. Não é algo desprezível, depois de dois anos de funda e penosa recessão.
A novidade mais importante sobre os negócios veio de fonte oficial. Em novembro, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), também conhecido como prévia do Produto Interno Bruto (PIB), foi 0,2% superior ao de outubro. Esse aumento compensou com minúscula folga o recuo de 0,15% na passagem de setembro para outubro.
Mesmo com essa reação, os números acumulados no ano continuaram muito ruins. O resultado de 11 meses foi 4,76% inferior ao de um ano antes. O acumulado em 12 meses ficou 4,96% abaixo do estimado para o período imediatamente anterior. Todos esses números são da série com desconto de efeitos sazonais. Nessa mesma série, o indicador de novembro foi 2,08% mais baixo que o de igual mês de 2015.
A média do trimestre encerrado em novembro foi 0,55% menor que a do período de julho a setembro. Será uma surpresa, segundo especialistas do mercado ouvidos na sexta-feira, se a taxa dos três meses finais do ano tiver sido positiva ou mesmo nula. Pela última estimativa do BC, o PIB deve ter diminuído 3,4% em 2016.
A segunda informação positiva apareceu no mesmo dia no Monitor do PIB, divulgado mensalmente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e elaborado com base nos critérios do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Segundo o Monitor, o PIB aumentou 0,67% de setembro para outubro. Ainda ficou 1,5% abaixo do estimado para o mês correspondente de 2015, mas essa foi a menor diferença negativa registrada nesse tipo de comparação em 2016. Também este detalhe parece indicar um começo de reação, mas uma conclusão desse tipo, neste caso, também seria frágil.
A maior parte das comparações com os números do ano anterior continua negativa. Assim continuaram também as taxas acumuladas em 12 meses. Houve melhora durante o ano, mas nos 12 meses até novembro a variação acumulada ainda foi uma queda de 4%. Nesse mês, o investimento produtivo, medido pela formação bruta de capital fixo, foi 5,8% menor que o de um ano antes. No trimestre encerrado em novembro o valor investido foi 8,1% inferior ao dos três meses correspondentes de 2015. Também esse relatório confirma a perda de musculatura da economia brasileira, pelo enorme recuo das aplicações em máquinas, equipamentos, instalações empresariais, obras de infraestrutura e outros tipos de construções.
Pelo menos no setor privado o investimento produtivo só deverá recuperar-se muito lentamente, porque a ociosidade é enorme.
Quando a economia voltar a crescer ainda haverá muita capacidade produtiva disponível. Em novembro as fábricas ocuparam apenas 76,6% da capacidade instalada, apenas 0,1% a mais que em outubro.
Um ano antes o nível de ocupação era de 77,5%. Estes números aparecem no terceiro relatório panorâmico divulgado na sexta-feira passada, da série de indicadores publicada regularmente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Pelo relatório, o faturamento real cresceu 4,5% em novembro e as horas de trabalho na produção aumentaram 0,7%. Mas o emprego diminuiu 0,3% e a massa real de salários encolheu 2,3%, mantendo-se um cenário desfavorável à retomada do consumo. A nova redução de juros é só um passo para o enfrentamento dos obstáculos. Mas foi uma novidade muito bem recebida nos mercados.