terça-feira, 19 de maio de 2026

Trailer do filme de Bolsonaro é divulgado; veja

Divulgação aumenta expectativa para a estreia do filme

 

Ator Jim Caviezel, em seu papel interpretando Jair Bolsonaro, no filme 'Dark Horse'. (Foto: Divulgação/Flávio Bolsonaro/Trailer do filme).


O trailer do filme “Dark Horse”, que retrata o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), foi divulgado nesta terça-feira (19) e rapidamente movimentou as redes sociais, despertando curiosidade entre apoiadores e críticos.

Publicado pelo senador, filho do ex-presidente e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o vídeo apresenta uma narrativa intensa sobre a trajetória do ex-mandatário, destacando momentos que marcaram sua ascensão política e sua chegada ao Palácio do Planalto.

Veja abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=nd915FgLkAY&pp=ygUUZmlsbWUgJ0RhcmsgSG9yc2UnLiA%3D

Trailer do filme de Bolsonaro é divulgado; veja Divulgação aumenta expectativa para a estreia do filme 19/05/2026 15:00 | Atualizado 19/05/2026 15:02 ACESSIBILIDADE: text_increase text_decrease Ator Jim Caviezel, em seu papel interpretando JairBolsonaro, no filme 'Dark Horse'. (Foto: Divulgação/FlávioBolsonaro/Trailer do filme

flaviobolsonaro
 

- Já vazou o trailer do filme mais aguardado do ano, que retrata a história de um verdadeiro herói: @jairmessiasbolsonaro.

Em breve, em todos os cinemas. @darkhorsefilme

Com uma estética cinematográfica forte e cenas carregadas de emoção, o trailer aposta em uma visão épica da caminhada de Bolsonaro na política nacional.

Entre os trechos exibidos, aparecem referências à campanha presidencial de 2018, discursos emblemáticos, manifestações populares e episódios que aliados classificam como momentos de resistência e enfrentamento ao sistema político tradicional.

Na publicação, Flávio Bolsonaro afirmou que a produção “retrata a história de um verdadeiro herói” e chamou o longa de “o filme mais aguardado do ano”.

Mael Vale - Diário do Poder

Vorcaro é transferido de cela na PF e tem maior restrição de visita de advogados

 


Ex-banqueiro deixou cela especial da corporação em meio às negociações de delação.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi transferido de cela, na noite desta segunda-feira, 18, na Superintendência da Polícia Federal (PF). A informação foi divulgada inicialmente pelo portal Metrópoles e confirmada por Oeste. 

Vorcaro estava alocado em uma cela especial, como a que ficou o expresidente Jair Bolsonaro. Agora, o empresário ficará em um espaço destinado a presos comuns. O local é considerado de transição para as detenções feitas pela PF

No novo local, os advogados estão com mais restrição para visitar o cliente. Agora, podem ir apenas dois profissionais simultaneamente, em apenas 30 minutos, durante a manhã e a tarde.

local para onde foi transferido, o ex-banqueiro não terá acesso a banheiro próprio. A cela, segundo aliados, estaria com condições do Complexo da Papuda.

A Polícia Federal não comentou oficialmente a transferência. Segundo informações divulgadas sobre o caso, a decisão teria sido tomada pela administração da corporação com o conhecimento do ministro André Mendonça, do STF.

A mudança de cela também ocorre em meio às negociações da delação premiada. Até o momento, não existe acordo fechado, e a proposta entregue não teve grande receptividade pelos investigadores. 

Vorcaro está preso preventivamente desde 19 de março deste ano, no âmbito das investigações sobre fraudes em operações do Master. 


Davi Vittorazzi e Cristyan Costa - Revista Oeste

Delação pode ter fracassado: Mendonça manda Vorcaro de volta para cela comum

 Até mesmo as visitas dos advogados sofreram restrições impostas pelo ministro


O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master - Foto: Reprodução/redes sociais


O ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi transferido nesta segunda-feira (18) para uma outra cela, na superintendência da Polícia Federal em Brasília, e submetido pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), submetido às “regras de funcionamento ordinária” do cárcere. Uma das consequências da mudança é a restrição a visitas de advogados com a frequência que se verificava até agora. Investigado por fraude no Banco Master e outros crimes, Vocaro está sob prisão preventiva desde 19 de março.

Ele foi retirado das acomodações antes ocupadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e levado a uma cela comum, onde são colocados presos de passagem pela superintendência. Pode significar que ele estaria na iminência de ser levado de volta à Papuda, caso se confirme que fracassou sua tentativa de acordo de delação premiada.

Informações divulgadas pelo site Metrópoles indicam que a nova cela de Vorcaro não teria sequer um banheiro decente. “O local, na avaliação dos aliados do banqueiro, seria pior do que qualquer cela existente na Papuda, na Papudinha e até na Penitenciária Federal de Brasília, onde ele já ficou preso”, diz o site.

Se antes o Vorcaro poderia receber os advogados entre 9h e 17h, agora as visitas estão limitadas a duas vezes ao dia, trinta minutos cada. os advogados somente poderão visitar Vorcaro duas vezes ao dia, por 30 minutos cada, e sem instrumentos de trabalho. Até então, Vorcaro podia receber advogados das 9h às 17h, sem restrições.

Diário do Poder

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Ancelotti inclui Neymar na lista dos convocados para a Copa do Mundo

Treinador da Seleção Brasileira fez o anúncio nesta segunda-feira, depois de evento musical, no Museu do Amanhã




O técnico Carlo Ancelotti encerrou o maior mistério que já antecedeu alguma convocação da Seleção Brasileira. Neymar estará na Seleção Brasileira que vai para a Copa do Mundo de 2026. O treinador anunciou os 26 convocados nesta segunda-feira, 18, em cerimônia antecedida por um evento musical, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com direito a vista para a Ponte Rio-Niterói e os aviões decolando e pousando no Aeroporto Santos Dumont. Entre os nomes estão também o do goleiro Weverton, do Grêmio, que, apesar de veterano e campeão olímpico, foi considerado uma surpresa.

Até mesmo Ancelotti, enquanto assistia às performances, mostrava ansiedade, sentado na primeira fileira da ampla plateia, ao lado da mulher, Mariann Barrena McClay. Agarrava uma pasta com os nomes dos convocados, durante os discursos. O objetivo de Ancelotti foi o de montar uma Seleção Brasileira equilibrada e versátil. Ele chamou, para isso, jogadores que podem atuar em mais de uma posição, como Danilo e Ibañez, que funcionam como laterais e zagueiros. O meia Danilo, do Botafogo, também mostra habilidade em fechar os espaços quando jogou na Europa, defendendo o Milan (2019-2020), o Lyon (2020-2022) e o West Ham (2022-2026). 


O momento antes de Ancelotti anunciar Neymar, o técnico mesmo declarou: “Agora vai ser bonito”. A plateia comemorou muito a convocação de Neymar, chegando até a interromper a continuidade da cerimônia. Com o projeto de ir à Copa, Neymar retornou ao Santos no dia 31 de janeiro de 2025 e seu contrato atual tem validade até 31 de dezembro de 2026. Nesta passagem, atuou em 45 jogos oficiais, com 18 gols marcados e nove assistências. Ele foi fundamental, no final de 2025, para manter o Santos na Série A. 

No fim da temporada, passou por uma artroscopia para corrigir uma lesão no menisco medial do joelho esquerdo. Voltou a jogar em fevereiro e, desde então, se esforçou para atuar em todas as partidas, sem se machucar. Tal esforço foi reconhecido por Ancelotti, que, em todas as convocações, vinha ressaltando a importância de os jogadores estarem em ótimas condições físicas para serem convocados. 

Marrocos, às 19 horas (horário de Brasília), no MetLife Stadium, na região metropolitana de Nova York; na segunda rodada enfrenta o Haiti em 19 de junho, às 22 horas, no Lincoln Financial Field, na cidade de Filadélfia; e encerra a fase de grupos em 24 de junho, contra a Escócia, às 19 horas, no Hard Rock Stadium, na região metropolitana de Miami.


Confira a lista dos convocados para a Seleção Brasileira

Goleiros 

Alisson – Liverpool (ING) 

Ederson – Fenerbahçe (TUR) 

Weverton (Grêmio) 


Zagueiros 

Marquinhos – PSG (FRA) 

Gabriel Magalhães – Arsenal (ING) 

Bremer – Juventus (ITA)

 Ibañez – Al-Ahli (SAU) 

Léo Pereira – Flamengo 

Wesley – Roma (ITA) 

Danilo – Flamengo 

Alex Sandro – Flamengo 

Douglas Santos – Zenit (RUS)


Meio-campistas 

Casemiro – Manchester United (ING)

Bruno Guimarães – Newcastle (ING) 

Danilo – Botafogo 

Fabinho – Al-Ittihad (SAU) 

Lucas Paquetá – Flamengo 


Atacantes 

Endrick – Lyon (FRA) 

Luiz Henrique – Zenit (RUS) 

Igor Thiago – Brentford (ING) 

Matheus Cunha – Manchester United (ING) 

Raphinha – Barcelona (ESP) 

Rayan – Bournemouth (ING) 

Vinicius Jr. – Real Madrid (ESP) 

Neymar – Santos 

Gabriel Martinelli – Arsenal (FRA)


Revista Oeste

Deflação: os maiores mitos, por Jörg Guido Hülsmann

 

 

A possibilidade de uma deflação é algo que sempre assombra o establishment político e econômico das democracias ocidentais. De um ponto de vista econômico, seus temores são compreensíveis. Considere as três seguintes proposições básicas de economia monetária:

De acordo com a primeira proposição, tanto a quantidade de dinheiro quanto o nível de preços são irrelevantes para a riqueza de uma nação. As empresas e as famílias podem produzir com êxito quaisquer quantias de bens de consumo, a qualquer nível de preço e com qualquer quantia nominal de dinheiro. Os propulsores fundamentais do bem-estar humano são a poupança, a tecnologia e o empreendedorismo – e não a quantidade de dinheiro e os níveis de preço.

De acordo com a segunda proposição, conquanto mudanças na oferta monetária não afetem a riqueza de uma nação no agregado, elas alteram a distribuição de recursos entre os membros da sociedade. No caso de um aumento da oferta monetária, por exemplo, os primeiros a receber essa quantia adicional de dinheiro se beneficiam à custa de todos os outros membros, a quem só mais tarde chegará essa nova quantia. Note que esses efeitos redistributivos resultam não apenas de mudanças na quantidade de dinheiro, mas também de quaisquer mudanças na oferta de qualquer bem. Há uma diferença significante entre a moeda e todos os outros bens, mas apenas em regimes em que a moeda é fiduciária – isto é, um papel-moeda decretado moeda corrente pelo governo, inconversível e de curso forçado. O que nos leva à terceira proposição:

Um regime de moeda fiduciária facilita consideravelmente a redistribuição de recursos dentro de uma sociedade. Esse regime permite que os donos das impressoras do papel-moeda e seus aliados políticos e econômicos se enriqueçam bem mais rapidamente e a um custo muito menor do que qualquer outro produtor em qualquer outro campo. Isso explica por que os governos tentaram, durante séculos, estabelecer um papel-moeda. E explica por que, após terem atingido esse objetivo no século XX, os governos e seus aliados entraram em uma rota exponencial de crescimento. O estado assistencialista explodiu durante o século XX, e os setores bancário e financeiro (principalmente Wall Street) cresceram mais rápido do que praticamente qualquer outro setor da economia.

Isso não teria sido possível se houvesse um mercado de moedas livres e conversíveis, simplesmente porque ninguém aceitaria cédulas cujo poder de compra depende apenas dos caprichos do seu criador/impressor. E, de fato, um papel-moeda nunca existiu em um mercado de moedas livres.[1] Houve apenas moeda fiduciária – moeda que o governo impõe sobre seus cidadãos. O papel-moeda é decretado por lei como sendo de curso forçado, o que significa que você e eu somos forçados a aceitá-lo como pagamento, mesmo que tenhamos estipulado contratualmente que o pagamento seria em outras commodities. Ademais, em muitos países o papel-moeda é protegido contra a concorrência de seus principais opositores – como as moedas feitas de metais preciosos – por meio do código tributário; isto é, aplica-se um imposto sobre vendas e um imposto sobre ganhos de capital para esses metais, mas não para o papel-moeda. Ou seja, o papel-moeda é uma moeda monopolista; ela enriquece poucos à custa de todos os outros.

A fobia de deflação que assombra as elites é, portanto, a reação racional daqueles que lucram com os privilégios que o atual regime inflacionista – presente em todos os países do globo – lhes garante, e que mais têm a perder caso esse regime seja revertido em uma reviravolta deflacionária. Uma inflação perene se baseia em um monopólio. Já a deflação traz o vento fresco e sadio do livro mercado. As elites genuínas iriam dar boas vindas à deflação exatamente por essa razão: porque elas devem sua posição de liderança exclusivamente ao apoio voluntário dos outros membros da sociedade. Elas nada têm a temer em relação à deflação – uma diminuição da oferta monetária – porque sua liderança está baseada nos benéficos serviços que fornecem aos seus concidadãos – serviços esses que iriam perdurar não importam quais mudanças viessem a ocorrer na oferta monetária ou no nível de preços.

Mas grande parte da nossa atual elite é composta por uma “falsa elite”, também chamada de “empreendedores políticos”. Essas pessoas devem grande parte de sua renda e de seu poder de decisão a privilégios legais que os protegem contra a concorrência e que os enriquecem à custa de todas as outras pessoas. As fortunas de muitos empreendedores políticos são direta ou indiretamente atribuíveis ao monopólio monetário do Banco Central. Foi somente por causa desse monopólio que os Bancos Centrais puderam criar uma expansão da oferta monetária sem sofrer qualquer tipo de restrição. E foi essa inflação que, por sua vez, financiou uma expansão sem precedentes das atividades dos governos federais e estaduais, e das atividades de todos aqueles que dependem basicamente de seus esforços lobistas junto ao Banco Central para atingirem uma posição de status – quando o certo seria depender da qualidade de seus produtos e serviços para alcançar e manter essa posição de liderança.

Portanto, é bem compreensível que os empreendedores políticos temam a deflação. A deflação acaba com a sua fonte ilegítima de renda e os coloca finalmente em pé de igualdade com todos os outros membros da sociedade, cujas rendas se baseiam nos esforços e serviços fornecidos em um ambiente competitivo.

Mas esses privilégios somente podem sobreviver por causa de uma difundida ignorância sobre a verdadeira natureza da deflação.[2] Um olhar mais detalhado revela que o ataque à deflação se baseia diretamente em uma litania de mitos inflacionistas. E são esses que atacaremos agora.

Mito #1: não é possível ganhar dinheiro e ter lucros quando o nível de preços cai

A maior parte de nossa análise vai lidar com a deflação no sentido de uma diminuição da oferta monetária. Esse é o caso mais interessante do ponto de vista político porque poucos economistas, bem como os leigos, estão prontos para admitir que haja qualquer benefício com esse tipo de deflação. Mas antes de nos concentrarmos neste caso, examinemos brevemente o caráter da deflação sob uma conotação algo distinta, a saber, no sentido de uma queda no nível geral de preços. Esse tipo de deflação atrai muito menos crítica do que o outro tipo, mas pode ser útil lidar primeiro com esse tipo, como forma de aquecimento para discussões subseqüentes.

Assim sendo, será verdade que uma pessoa não pode ganhar dinheiro e ter lucros quando o nível de preços cai? A resposta é não. Uma atividade de sucesso não depende em nada do nível de preços, mas, sim, do spread (diferença) entre os preços – ou, mais precisamente, da diferença entre a receita de venda e o custo da despesa. Mas tal diferença pode existir, e de fato existe, sob qualquer nível de preços e mesmo quando há um declínio constante nos preços. A razão essencial é que os empreendedores podem antecipar um declínio nos preços, assim como eles podem antecipar um aumento dos preços. Se eles anteciparem um declínio futuro na receita de suas vendas, eles irão forçar para baixo os preços atuais dos fatores de produção, garantindo dessa forma tanto uma produção lucrativa bem como emprego para todos aqueles dispostos a trabalhar. E foi exatamente isso que aconteceu nos poucos períodos da história moderna em que a deflação não foi impedida por meio de contra-medidas inflacionistas.

Por exemplo, tanto os EUA quanto a Alemanha desfrutaram de sólidas taxas de crescimento no final do século XIX, quando o nível de preços caiu em ambos os países durante mais de duas décadas. Nesse período, os salários nominais permaneceram estáveis de modo geral, mas a renda efetivamente aumentou em termos reais porque a mesma quantia de dinheiro podia comprar cada vez mais bens de consumo. Tão benéfico foi esse período deflacionário para a grande massa que ele acabou levando à primeira grande crise da teoria socialista, que havia previsto exatamente o oposto para o capitalismo desenfreado. Eduard Bernstein e outros revisionistas surgiram e passaram a defender um socialismo modificado. Atualmente, precisamos desesperadamente de mais um revisionismo – um revisionismo deflacionista, para esclarecer.

Mito #2: conquanto preços em queda seja algo bom, uma demanda agregada insuficiente é algo ruim

Essa é uma variante do mito #1. Apesar de os defensores desse mito admitirem que preços menores são vantajosos para o consumidor, eles alegam existir desvantagens óbvias para os produtores. Particularmente, haveria poucos incentivos para se investir em qualquer tipo de negócio em um ambiente de preços descendentes. Já retrucamos esse argumento mostrando que o nível absoluto de preços futuros é irrelevante para um empreendimento lucrativo. O fator relevante é a possibilidade de se obter um spread entre as receitas de venda e os custos da despesa, e essa possibilidade existe independentemente dos movimentos do nível de preços.

Entretanto, nosso anti-deflacionista pode vir com a seguinte objeção: para que haja empreendimentos lucrativos em épocas de preços em queda, deve-se pressupor que os empresários podem forçar para baixo os preços dos fatores de produção, antecipando-se ao evento. Mas se eles não lograrem êxito, eles não investirão em absolutamente nada. CQD.

Mas esse argumento omite o fato de que todos os recursos, em qualquer período de tempo, estão investidos em algum uso. Por exemplo, nossos prescientes empreendedores seriam incapazes de forçar para baixo os preços dos fatores em duas situações: ou porque os donos dos fatores não estão dispostos a vendê-los a preços mais baixos, ou porque outros empreendedores ofereceram preços levemente maiores. Nesse último caso, evidentemente não há ausência de investimentos e atividades produtivas. Os fatores em questão foram comprados e vendidos – e ainda a preços menores do que teriam sido em épocas inflacionárias. E mesmo no primeiro caso, os fatores foram investidos – eles foram investidos no “estoque de reservas” do dono desses fatores, e tal demanda por reservas cumpre uma função social tão útil quanto qualquer outra forma de demanda.

Mito #3: não é possível ganhar dinheiro e ter lucros quando a oferta monetária diminui

Os seres humanos são capazes não apenas de antecipar uma queda do nível de preços, mas também as conseqüências de uma oferta monetária decrescente. Tais antecipações irão normalmente acelerar o processo deflacionário e fazê-lo chegar rapidamente ao “ponto mínimo” de uma oferta monetária estável. Deve-se fazer uma distinção entre dois casos: A) um sistema bancário de reservas fracionárias operando com uma moeda-commodity, tal como ouro ou prata, e B) um sistema baseado em papel-moeda.

No caso A, a oferta física de ouro ou prata obviamente não pode desaparecer no ar, o que significa que ainda haverá uma base mínima de moedas de ouro ou prata caso haja uma deflação de cédulas redimíveis nessas commodities. (Como o sistema é de reservas fracionárias, significa que há uma maior quantidade de células redimíveis em circulação do que há ouro e prata nos bancos). Tal deflação normalmente começa quando mais e mais pessoas se recusam a aceitar essas cédulas como meio de pagamento, e normalmente termina em uma corrida aos bancos, quando mesmo aquelas pessoas que possuem cédulas não mais desejam mantê-las e, assim, correm ao banco que as emitiu para redimi-las em ouro ou prata. Após essa corrida, a oferta monetária encolhe consideravelmente porque todas as notas sem o respectivo lastro em ouro ou prata (notas emitidas por causa do sistema de reservas fracionárias) desaparecem de circulação. Mas o estoque de dinheiro metálico permanece e fornece um nível mínimo de base monetária, abaixo da qual a oferta monetária não tem como cair. Não há motivo para que esse processo deflacionário não termine em poucas horas ou em poucos dias. Quando ele acabar, muitos bancos estarão quebrados e muitos empreendedores estarão falidos também, pois financiaram suas empresas com dívidas (moeda sem lastro) ao invés de com capital real. Isso explica por que o atual establishment, que é totalmente financiado por dívida, resiste ferozmente à deflação. Mas isso não significa que a produção não possa continuar sem essa elite – na realidade, a produção pode e irá continuar sob nova gestão.

No caso B, não há um ponto mínimo capaz de parar esse processo deflacionário que reduz a oferta de papel-moeda. Quando as pessoas não mais desejam carregar um papel-moeda e passam a se desfazer dele a qualquer preço, o resultado será um contínuo declínio do poder de compra desse dinheiro, que por sua vez acaba convencendo aqueles que ainda o mantêm de que é melhor se livrar dele, e quanto mais cedo, melhor. O resultado é uma espiral deflacionária: menos gente disposta a manter o dinheiro – menor poder de compra – menos gente disposta a manter o dinheiro – menor poder de compra, e por aí vai, até que enfim o papel-moeda desaparece completamente de circulação. Mas note que isso não significa que a economia irá necessariamente voltar a um estado de puro escambo. O que normalmente acontece em tal situação é as pessoas passarem a utilizar outras formas de dinheiro, tais como moedas de ouro e prata, ou papel-moeda estrangeiro. A espiral deflacionária, portanto, tem o efeito saudável de substituir um tipo inferior de dinheiro – inferior do ponto de vista dos usuários – por outro superior. Novamente, não há motivo para que esse processo não se complete em poucos dias. E, portanto, não há motivo para se imaginar que a produção não irá recomeçar rapidamente sob nova gestão.

Mito #4: deflação acarreta um crescimento econômico mais lento do que quando há inflação

Alguns defensores da inflação admitem que a produção pode de fato continuar após uma deflação, e possivelmente até mesmo durante uma deflação. Mas eles alegam que o crescimento econômico será seriamente restringido pelos ajustes necessários, de modo que seria preferível evitar a deflação através da inflação – ou, como eles dizem, reflação.

É difícil discutir tais alegações na ausência de uma definição consensual sobre o que é crescimento econômico. Mas, não obstante, a seguinte consideração é aplicável: o problema de se ajustar a uma deflação no sentido de uma diminuição da oferta monetária é um problema inerentemente de curto-prazo. É uma questão de identificar quais projetos de investimento são mais lucrativos (e, portanto, mais socialmente benéficos) sob as novas condições criadas pela deflação. Na pior das circunstâncias, a deflação induz os empresários e os donos dos fatores de produção a reter seus ativos para evitar desperdiçá-los em riscos extravagantes. Portanto, a deflação é inerentemente sóbria, prudente e financeiramente conservadora.

Em contraste, a inflação constantemente atrai capital para projetos de investimentos que, em condições normais, não encontrariam apoio espontâneo de outros membros da sociedade – capitalistas, trabalhadores e clientes -, mas que se tornam viáveis somente porque são financiados, direta ou indiretamente, com dinheiro oriundo da impressora do banco central. O exemplo mais patente é o estado assistencialista, que é financiado não porque haja qualquer perspectiva de retorno futuro, e não porque atraia uma quantia suficiente de doações voluntárias, mas somente porque ele é sustentado por uma quantia crescente de dívidas, que um dia serão pagas com mais dinheiro oriundo da impressora. Isso tudo sem nem mencionar o fato, enfatizado apenas pelos economistas austríacos, de que a inflação pode induzir a más alocações inter-temporais do capital, o que gera os ciclos econômicos.

Considerando-se os enormes desperdícios que andam lado a lado com a inflação, não é desarrazoado assumir que a deflação irá estimular o crescimento econômico no longo prazo e também no imediato, seguindo-se qualquer definição de crescimento que enfatize as escalas de valores dos membros individuais da sociedade, ao invés de algum critério arbitrário de justiça social.

Mito #5: a deflação é particularmente opressiva para grupos de baixa renda

O principal ativo das pessoas relativamente pobres é a sua mão-de-obra, e a mão-de-obra é um ativo relativamente não específico, o que significa que pode ser utilizada em vários ramos da indústria. Se um trabalhador não mais pode se manter empregado em sua atual posição, ele sempre terá a possibilidade de encontrar um novo emprego em outro lugar, ainda que a um menor preço de mercado. Em contraste, pessoas relativamente ricas normalmente obtêm a maior parte de sua renda através de ativos financeiros. Em última instância, esses ativos estão relacionados à propriedade de bens de capital, que por sua vez são ativos altamente específicos – muito frequentemente, eles só podem ser utilizados da mesma maneira em que atualmente o são. Se esse uso não mais for lucrativo, haverá uma queda relativamente dramática em seu preço de mercado, normalmente para um valor de sucata.

Disso, conclui-se que a deflação afeta mais os grupos de alta renda do que os de baixa renda.

Mito #6: a deflação destrói o crédito do estado

É verdade que a deflação – principalmente a deflação no sentido de contração da oferta monetária – tornará impossível para um governo pagar sua dívida pública. E também é verdade que, exatamente por isso, será impossível durante algum tempo o governo obter novo crédito.

Mas é um mito acreditar que temos de esperar por uma deflação para que isso ocorra. A dívida pública está em crescimento exponencial e nenhuma autoridade do governo sequer fala em pagá-la. O fato é que os governos ocidentais já estão em uma situação delicada há muito, situação essa que inevitavelmente irá terminar ou em hiperinflação ou em falência geral do estado. É apenas uma questão de tempo até que os governos acabem por destruir completamente sua própria credibilidade – e a deflação simplesmente iria acelerar esse processo.

Mas não deixemos de observar que existem efeitos potencialmente benéficos associados à falência do estado. Em particular, os governos estariam novamente dependentes apenas da tributação para obter todos os seus recursos, e isso põe um freio saudável em seu desejo irrefreável de expansão.

Mito #7: a deflação cria desemprego

O desemprego de um fator de produção ocorre somente em dois casos: A) se o dono do fator não está disposto a alugá-lo pelo preço oferecido a ele, ou B) se a lei o impede de fazê-lo. Portanto, não é verdade que salários declinantes geram desemprego por si só. As pessoas não ficam simplesmente desempregadas. Elas apenas escolhem não trabalhar para um empregador sob as condições (pecuniárias e não-pecuniárias) oferecidas a elas. Agora, é claro que nenhuma pessoa lúcida aceitaria trabalhar para alguém se o salário oferecido não lhe der condições de subsistência. Mas esse não é o caso em uma deflação. Lembre-se que, nesse caso, todos os preços caem, e assim o declínio dos salários é compensado por um declínio paralelo dos preços dos bens de consumo. É verdade que pode não haver sempre um paralelo exato entre salários e preços dos bens de consumo, mas quaisquer desvios serão temporários e podem ser facilmente aliviados por algum tempo com o auxílio da família, dos amigos e de instituições de caridade.

O desemprego involuntário vai surgir em uma deflação somente se houver leis de salário mínimo que impeçam o trabalhador de oferecer seus serviços a valores menores. Mas esse desemprego claramente não resulta da deflação, e sim das leis do salário mínimo, que são uma clara violação da liberdade de associação.

Mito #8: a deflação gera fardos desiguais e arbitrários para os cidadãos

É verdade que a deflação gera pesados ônus para muitos indivíduos. Por exemplo, considere o fato de que atualmente a grande maioria de famílias americanas contraiu um número considerável de dívidas, geralmente na forma de hipotecas imobiliárias. Se houver uma contração da oferta monetária, a renda das famílias irá declinar, tornando impossível o pagamento dessas dívidas. Assim, será necessário renegociar as dívidas, e alguns indivíduos terão de requerer falência. Também é verdade que a deflação traz conseqüências desiguais para os indivíduos. Em um ambiente deflacionário, alguns irão prosperar mais do que teriam prosperado no atual regime inflacionário, enquanto outros ficarão piores. Finalmente, deve-se admitir que é difícil conciliar essas redistribuições com a noção que cada um tem sobre o que é justo e injusto.

Portanto, onde está o mito? O mito consiste na crença de que é somente a deflação que gera fardos desiguais e arbitrários para os cidadãos. A verdade é que o atual regime inflacionista não é de maneira alguma menos redistributivo e arbitrário do que qualquer deflação possa jamais ser. A inflação constantemente redistribui a renda das pessoas de maneira inversa: ela tira daquelas que de fato oferecem bens e serviços genuínos e dá para aquelas que desfrutam de afinidades políticas com os senhores que comandam a impressora.

Mesmo que a inflação seja usada “apenas” para impedir uma iminente deflação, os efeitos dessa redistribuição desigual e arbitrária não podem ser evitados. Portanto, o mínimo que podemos dizer é que a deflação certamente não é mais injusta do que a inflação. E, como veremos mais abaixo, há realmente benefícios bem tangíveis que podem ser obtidos da deflação, o que de fato a torna preferível a uma inflação contínua. Mas antes de discutirmos esse ponto, lidemos brevemente com outra questão:

Mito #9: levará décadas para se resolver as contendas jurídicas causadas pela deflação

Não teríamos sido otimistas ao assumir que a deflação pode ser uma questão de horas ou dias? Não seria mais razoável crer que a deflação irá perturbar um grande número de contratos de longo prazo, desde contratos hipotecários até aluguéis de imóveis, passando por títulos e contratos industriais? Assim, não seria verossímil imaginar que os tribunais levariam uns vinte anos ou mais para resolver todos os diversos pedidos de indenização e conseqüentes apelações?

É verdade que, conquanto o ajustamento da estrutura de preços às novas condições criadas pela deflação pode durar apenas algumas horas ou dias (mas pode durar muito mais se intervenções do governo obstruírem o processo de ajustamento), a solução de contendas jurídicas pode levar períodos de tempo muito mais longos. Mas baseando-se em evidências empíricas, é certamente um exagero assumir que seriam necessários mais do que alguns meses.

Considere a deflação alemã que se iniciou após a falência do Darmstädter Bank, em 31 de julho de 1931, e que durou algo como dois anos. A crise rapidamente pôs em risco a liquidez, não apenas do setor bancário, mas também de praticamente todos os outros ramos da indústria alemã. Relações contratuais sofreram enormes distorções, e isso não apenas gerou falências em uma escala sem precedentes, como também gerou um grande número de revisões de contratos prévios, tanto dentro quanto fora dos tribunais, e finalmente uma moratória de todos os pagamentos. O desemprego atingiu quase 7 milhões de pessoas, a produção parou em várias empresas, os salários despencaram, assim como todos os outros preços. A queda radical dos preços imobiliários colocou em risco o setor hipotecário, assim como todos os títulos financeiros lastrados em hipotecas.

Como esses problemas foram enfrentados? Bom, o problema do desemprego sequer foi atacado, uma vez que o próprio governo criou as condições sob as quais o desemprego se tornou inevitável: seguro-desemprego e leis de salário mínimo. O resultado foi inquietação social e doze anos de Nacional-Socialismo.

Porém, os problemas relacionados à resolução de contendas jurídicas foram tratados rápida e eficientemente, em parte porque os tribunais alemães, no rastro da hiperinflação de 1923, tinham ganhado alguma experiência em lidar com mudanças dramáticas no poder de compra do dinheiro. Em um grande número de casos, as disputas sequer chegaram às cortes do estado, pois foram resolvidas por arbitramento privado. Quanto aos casos remanescentes, alguns foram resolvidos em cortes do estado; para os outros foram criadas uma série de quatro leis de emergência, sendo a última delas votada no parlamento em 8 dezembro de 1931. Assim, poucos meses após a deflação ter se iniciado, todas as instituições e ferramentas jurídicas essenciais já estavam em vigor e funcionando bem eficientemente.

Não há motivos para imaginar que as coisas seriam tratadas de maneira menos eficiente no mundo moderno, principalmente se os estudiosos do campo jurídico dedicarem suas energias à análise dos problemas em jogo.[3]

Mito #10: a deflação não gera qualquer benefício líquido positivo

Já admitimos que, quando se considera a distribuição do ônus entre todos os cidadãos, uma forte contração da oferta monetária está simplesmente em pé de igualdade com aumentos da oferta monetária. Porém, há um detalhe: por estarmos tão acostumados a um ambiente inflacionário, já sabemos como lidar com ele. Assim, o que aconteceria se deixássemos uma deflação ocorrer? Será que isso não nos imporia todo um novo processo de reajustamento? Mesmo que esse ajustamento seja apenas algo temporário, ele ainda envolve custos para todos os membros da sociedade. Portanto, quais seriam os benefícios da deflação que possam estimular um cidadão responsável a endossá-la? Sempre lembrando que o cidadão não sabe se vai estar no lado vencedor desse processo de redistribuição de soma zero que a deflação gera no curto prazo. Nesse ponto, entra em cena a seguinte consideração.

Antes de tudo, a deflação é um mecanismo muito eficiente para acelerar os ajustes que devem ser feitos para se adaptar às novas circunstâncias quando há uma grande crise financeira. A razão é que, como vimos acima, a deflação afeta os preços dos fatores de produção muito mais do que os preços dos bens de consumo. Como conseqüência, a deflação aumenta a diferença entre as receitas de venda e os custos da despesa – em outras palavras, a taxa de juros -, e assim cria poderosos incentivos para se aumentar a poupança e os investimentos.

Segundo, e igualmente importante, a deflação é um processo único que tem o potencial de destruir as mesmas instituições que produzem a inflação perene: os bancos de reservas fracionárias e os criadores de papel-moeda fiduciário (“bancos centrais”). A destruição dessas instituições eliminaria a “vantagem marginal” desfrutada pelo financiamento por endividamento em detrimento do auto-financiamento. Em outras palavras, o poder econômico e social será retirado do Banco Central e de todos os outros bancos para ser devolvido aos cidadãos individualmente. As empresas irão operar em bases financeiras e patrimoniais muito mais sólidas, com muito mais capital próprio e com um grau de endividamento muito menor, ao passo que as famílias irão, muito mais do que antes, poupar primeiro para só depois adquirir uma casa. Além do mais, a destruição da máquina inflacionária irá destruir o principal motor financeiro do estado assistencialista. Os governos terão, daí em diante, de obter seus recursos exclusivamente através da tributação, algo que está sujeito a um controle social muito maior do que o método vergonhosamente furtivo de se adquirir recursos através da inflação da oferta monetária.

Mito #11: deixar que a deflação ocorra é “passivismo”

À luz da nossa discussão precedente, ficou claro que deixar que a deflação ocorra em nada se equipara a uma resignação apática perante o poder de forças misteriosas e perante obscuros mecanismos de mercado. A deflação pode cumprir funções sociais extremamente úteis, e aqueles que apreciam a liberdade individual e respeitam a inviolabilidade da propriedade privada têm motivos sólidos para se esforçar conscientemente para deixar que a deflação siga seu curso. Na verdade, deixar que a inflação ocorra é que significa uma resignação apática – resignação perante o poder de um monopólio monetário que prospera com a ignorância alheia, e que beneficia toda uma rede política à custa da sociedade civil capitalista.


Jörg Guido Hülsmann - Mises Brasil

Disputa por contrato milionário em São Paulo é o pano de fundo de denúncia do Intercept contra a família Bolsonaro

Briga por edital do WiFi Livre SP envolve empresas ligadas ao executivo Mauro Motoryn, parente de um dos editores do site de esquerda


Flávio, Jair, Eduardo e Carlos viraram alvo do Intercept Brasil - Foto: Reprodução/Flickr/Jair Bolsonaro


A disputa por contratos do programa WiFi Livre SP está na origem da crise que envolve a organização não governamental (ONG) Instituto Conhecer Brasil, a produtora GoUp Entertainment e o filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com informações obtidas por Oeste, a ofensiva que pôs a empresária Karina Ferreira da Gama no radar do Ministério Público (MP) e do Supremo Tribunal Federal (STF) começou antes mesmo da publicação das reportagens do site Intercept Brasil sobre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o financiamento do longa-metragem. 

O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, passou a integrar o programa WiFi Livre SP em 2024, depois de ser selecionado em edital da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo. Criado pela administração municipal para ampliar o acesso gratuito à internet em regiões de maior vulnerabilidade social, o WiFi Livre SP prevê a instalação de pontos de conectividade em favelas da capital paulista. 

O atual ciclo de expansão do programa previa a instalação de 5 mil pontos de internet gratuita. Contudo, em razão de problemas orçamentários, a prefeitura reduziu a meta para 3,2 mil pontos. O valor do contrato, inicialmente estimado em R$ 108 milhões, também caiu para R$ 69,2 milhões. 





A articulação da Surf Telecom Antes da entrada da ONG, o WiFi Livre SP orbitava principalmente empresas privadas do setor de telecomunicações. Uma delas era a Surf Telecom, operadora já ligada a fases anteriores do programa municipal de conectividade. 

No edital de 2024, a Surf acabou rejeitada pela prefeitura, em razão de inconsistências apontadas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), órgão responsável pela fiscalização de contratos e serviços ligados à administração municipal. Com o objetivo de aumentar a competitividade do edital, a prefeitura abriu espaço para entidades do terceiro setor participarem da expansão do programa. 

O Instituto Conhecer Brasil venceu o certame e contratou empresas especializadas para executar a parte técnica da operação. A Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda. foi uma das companhias responsáveis pela instalação, manutenção e suporte dos links de internet utilizados em favelas atendidas pelo programa.

Empresários ligados ao setor afirmam que a Surf, conhecida em Brasília pelo lobby no segmento de telecomunicações, pressionou pela descontinuidade do contrato do instituto com a prefeitura. Esse movimento envolveu tentativas de retirar a ONG de áreas estratégicas da expansão da rede comunitária por meio da cooptação da Ultra IP.

Documentos obtidos por Oeste mostram que a articulação com a Ultra IP virou caso de polícia. Em inquérito instaurado pelo 78º Distrito Policial dos Jardins, em São Paulo, a Polícia Civil relata que o Instituto Conhecer Brasil acusou a Ultra IP de interromper cerca de 800 links de internet instalados em comunidades vulneráveis atendidas pelo WiFi Livre SP. Segundo a ONG, a Ultra IP apresentou “reiterados descumprimentos”, “inconsistências técnicas e administrativas” e resistência para corrigir problemas apontados durante a execução do contrato. 

Karina Ferreira da Gama relatou à Polícia Civil uma tentativa de extorsão por parte da Ultra IP, com cobrança de aproximadamente R$ 2,5 milhões. Segundo o inquérito, a empresária afirmou ter sofrido “pressões indiretas”, ameaça de exposição midiática e  divulgação de informações internas do instituto se o montante não fosse pago.


As ligações do Intercept com a Surf 

O conflito empresarial ganhou novos capítulos depois que o Intercept Brasil passou a publicar a série de reportagens sobre Flávio, Vorcaro e o financiamento de Dark Horse. Um dos autores das publicações é o jornalista Paulo Motoryn, editor do site de esquerda. 

Ele é parente de Mauro Motoryn, atual diretor de desenvolvimento da Surf Telecom — empresa que orbitava o ecossistema do WiFi Livre SP antes da entrada do Instituto Conhecer Brasil no programa municipal de conectividade. Mauro atua há décadas nos bastidores dos mercados de publicidade institucional, telecomunicações e comunicação política da capital federal. 

Durante o primeiro governo Lula, ganhou projeção nacional no setor publicitário pela proximidade com nomes centrais do escândalo do Mensalão, como o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, o ex-presidente do Banco Popular Ivan Guimarães e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Em 2008, ganhou influência em Brasília durante a disputa pelos contratos de publicidade do governo federal enquanto presidia a agência 141 Brasil Comunicação, ligada ao grupo internacional WPP. No governo Dilma Rousseff, atuou como gerente de projeto da Secretaria Nacional de Juventude.

Em entrevistas recentes, Mauro assumiu posições políticas alinhadas ao campo da esquerda. Ao site Brasil 247, por exemplo, classificou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “grande estrela” das Diretas Já. Em artigo publicado no site Congresso em Foco, disse ser militante desde a juventude, criticou o governo Bolsonaro e defendeu políticas públicas inspiradas nos governos petistas. 

Nos últimos anos, Mauro passou a atuar no setor de telecomunicações e hoje ocupa posição estratégica na Surf Telecom, operadora ligada a projetos de conectividade social, operadoras virtuais e expansão de internet em regiões periféricas.


Paulo Motoryn · 3rd+ Investigative Journalist @Intercept Brasil 2mo PT/BR: 

Fiquei honrado por ter sido selecionado como fellow do programa Bridging Divides, no Global Migration Institute da Toronto Metropolitan University. Estarei no Canadá durante o mês de abril, quando terei a oportunidade de estudar redes transnacionais da extrema direita e discursos anti-imigração em diálogo com pesquisadores, jornalistas e profissionais de diversas áreas e países. É uma experiência que representa tanto um reconhecimento quanto um passo importante para fortalecer meu trabalho investigativo. EN: I am honored to have been selected as a fellow in the Bridging Divides program at the Global Migration Institute at Toronto Metropolitan University. I will be in Canada during the month of April, when I will have the opportunity to study transnational far-right networks and anti-immigration narratives, engaging with researchers, journalists, and professionals from diverse fields and countries. This experience represents both a recognition of my work and an important step in strengthening my investigative reporting. 


Edilson Salgueiro - Revista Oeste

sábado, 16 de maio de 2026

Mendonça e CPMI do INSS reagem a troca de delegado da PF que investigava Lulinha

Não pode existir investigação sob suspeita de interferência política", afirma Alfredo Gaspar, ex-relator da CPMI


Ministro André Mendonça,no STF - Foto: Rosinei Coutinho/STF

Inclui o ministro André Mendonça, relator  no STF, e a cúpula da CPMI do INSS, dedicados a investigar o roubo bilionário aos aposentados e pensionistas brasileiros, a forte reação à substituição do delegado da Polícia Federal que investigava Fabio Luis Lula da Silva, o Lulinha, suspeito de manter parceria com Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como um dos mentores e dos mais beneficiados com o desconto não autorizado de mensalidades associativas destinadas a entidades criadas para para esse fim.

Conhecido por sua discrição, o ministro do Supremo Tribunal Federal apenas deixou vazar o seu “incômodo” com a substituição do delegado Guilherme Figueiredo Silva , a coordenação do caso.que investigava Lulinha, mas o ex-presidente e o ex-reator da CPMI do INSS fizeram duras declarações sobre o que consideram “interferência” no trabalho da PF.

“Não podemos aceitar aparelhamento dentro de uma instituição tão importante”, afirmou indignado o deputado Alfredo Gaspar (União-AL). “Não pode existir investigação sob suspeita de interferência política. A lei deve valer para todos.””

Gaspar disse ainda que no exercício da relatoria na CPMI do INSS, pediu o indiciamento de Lulinha por entender haver fortes indícios de vínculos dele com o maior ladrão de aposentados e pensionistas do Brasil: o Careca do INSS. “E a Polícia Federal seguia o mesmo caminho. O Brasil não aceita blindagem”, destacou em postagem nas redes sociais.

A PF investigava o filho de Lula a partir de depoimentos como o de um ex-assessor do “Careca do INSS”, que apontou o pagamento de R$300 mil mensais a Lulinha, mas agora  investigação saiu da Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários e foi para a Coordenação de Inquéritos em Tribunais Superiores (Cinq).

O PF divulgou nota afirmando que a mudança “foi concebida para assegurar maior eficiência e continuidade às investigações, uma vez que a Cinq possui estrutura permanente voltada justamente à condução de operações sensíveis e complexas com tramitação perante o STF (Supremo Tribunal Federal).

O senador Carlos Viana (Podemos-MG), que foi presidente da CPMI do INSS, enviou ofício imediatamente, ainda nesta sexta-feira (15), questionando o diretor-geral da Polícia Federal sobre a troca.

Diário do Poder

'Netanyahu, o New York Times e a velha isca', por Flávio Gordon

Jornal americano já publicou propaganda soviética em 1937e 1971, e o comunismo comemorou; agora, resta saber se o Hamas vai comemorar a mais recente reportagem sobre supostos abusos de Israel contra presos palestinos



Netanyahu anunciou que processará o New York Times e seu colunista Nicholas Kristof por difamação. O motivo é um artigo publicado em 11 de maio no qual Kristof descreve um suposto padrão de violência sexual generalizada por parte de soldados, colonos e guardas prisionais israelenses contra detentos palestinos. Netanyahu chamou o texto de uma das mentiras mais “hediondas e distorcidas” já publicadas pela imprensa moderna contra Israel, acusando o jornal de tentar criar uma “falsa simetria” entre os terroristas do Hamas e os soldados israelenses. O Times, fiel a si mesmo, defendeu a reportagem. 

Muita gente vai torcer o nariz para Netanyahu. Processar um jornal cheira a autoritarismo, a silenciamento, a intolerância à crítica. Por um lado, trata-se de uma reação compreensível. Por outro, talvez ela seja precipitada, porque, a despeito do que se pense do primeiroministro de Israel, o fato é que o New York Times tem antecedentes no hábito de recepcionar propaganda ideológica oriunda de poderes totalitários. E eles são documentados. 

O mais antigo desses antecedentes remonta aos anos 1930, quando o correspondebte usou as páginas do Times para encobrir o Holodomor — o genocídio por fome imposto por Stalin à Ucrânia, que matou entre três e sete milhões de pessoas. Enquanto camponeses ucranianos morriam às dezenas de milhares por semana, Duranty escrevia que os relatos de fome eram “grandemente exagerados” e que “não havia fome” na URSS — uma mentira que o regime soviético cultivava com esmero e que o Times estampava com a autoridade de seu nome. O prêmio Pulitzer concedido a Duranty nunca foi formalmente revogado, apesar das campanhas nesse sentido. É uma mancha que o jornal carrega até hoje.

Quatro décadas depois, a história se repetiria — desta vez não com um correspondente cúmplice, mas com uma operação orquestrada desde fora, da URSS, em plena Guerra Fria. A responsável pela operação foi a Novosti, nominalmente a agência russa de notícias, mas que, para todos os efeitos práticos, sempre foi um braço da KGB — com credencial de imprensa, oficiais de inteligência distribuídos pelo corpo editorial, atuação em 110 países e um presidente com status de ministro de Estado. O episódio é relatado pela escritora russa Izabella Tabarovsky, especialista em antissemitismo.

o começo dos anos 1970, o presidente da Novosti era Ivan Udaltsov. Em 27 de janeiro de 1971, ele enviou um memorando ao Comitê Central do Partido Comunista da URSS relatando as conquistas recentes da agência em sua campanha para “combater a propaganda sionista” no exterior. O texto é uma peça notável — não apenas pelo que revela sobre os métodos soviéticos, mas pela desfaçatez com que esses métodos eram documentados internamente. Udaltsov estava orgulhoso do que descrevia.

Entre as realizações que relatava com satisfação ao Comitê Central, uma se destacava: a publicação, no New York Times, do artigo de um colaborador da Novosti chamado Spartak Beglov. Para seu crédito, os editores do jornal nova-iorquino até trocaram o título original — “Os Führers e os Camisas-Pardas do Neorracismo”, que explorava a suposta “afinidade espiritual entre o sionismo e o fascismo” — pelo mais neutro “Uma Visão Soviética sobre os Judeus”. E flanquearam o texto com colunas de dois líderes do movimento pelos judeus soviéticos. Mas publicaram.

O artigo de Beglov era uma operação de dois andares. 

No primeiro andar, ficava a isca: a condenação de Meir Kahane e da Liga de Defesa Judaica, grupo político radical que aterrorizava representações soviéticas nos EUA. Era uma posição com a qual a maioria dos judeus americanos concordaria sem hesitar — e os propagandistas soviéticos sabiam disso muito bem. 

No segundo andar, bem escondido, ficava o anzol: a equiparação sistemática entre sionismo e nazismo, e a caracterização de todo judeu americano identificado com Israel como “fanático sionista” e quinta-colunista contra a paz mundial. Udaltsov registrou a conquista com evidente satisfação. O veneno havia chegado ao destino. Isso não transforma o Times de 2026 em veículo da KGB. A Guerra Fria acabou, a Novosti deixou de existir. 

Mas revela algo sobre a permeabilidade histórica do jornal a narrativas que, embaladas em linguagem humanista — direitos humanos, vítimas, testemunhos —, encontram passagem sem que os filtros editoriais disparem. Em 1931, a isca era a admiração pelos “avanços” do socialismo soviético. Em 1971, era a condenação de Kahane. Em 2026, é o sofrimento palestino — causa legítima, que não precisa de fabricações para se sustentar. 

O problema não é a pauta. 

É a metodologia: fontes não verificadas, ligadas a redes afiliadas ao Hamas, e uma publicação estrategicamente cronometrada para coincidir — e obscurecer — um relatório independente israelense sobre a violência sexual cometida pelo Hamas no 7 de outubro. Netanyahu pode ter seus próprios motivos para processar o Times. Motivos que nem sempre coincidem com a busca desinteressada pela verdade. Mas a desconfiança dele em relação ao jornal não nasce do nada. 

\Nasce de uma história. E essa história, quem se der ao trabalho de pesquisar, está bem documentada — em memorandos arquivados, em artigos acadêmicos sobre a campanha antissionista soviética, em registros que nem Stalin nem a KGB tiveram o cuidado de destruir.

O Times publicou propaganda soviética em 1931. Publicou de novo em 1971. Nas duas ocasiões, talvez o tenha feito de boa fé. Mas publicou. E quem se beneficiou — Stalin primeiro, Udaltsov depois — comemorou. Será dessa vez o Hamas a comemorar?


sexta-feira, 15 de maio de 2026

'Banco' Master financiou 7 eventos com cúpula - leia-se, 'cartel lula-stf-globolixo' - de Brasília no exterior

Instituição de Daniel Vorcaro bancou fóruns frequentados por ministros do STF e políticos de peso


 esquerda, Augusto Lima, sócio do Banco Master; à direita, Daniel Vorcaro, fundador da instituição financeira - Foto: Divulgação/Master


O Banco Master pagou as despesas de pelo menos sete eventos voltados para as principais autoridades dos Três Poderes. As conferências aconteceram entre 2022 e 2025, anos que marcaram a explosão no crescimento da instituição financeira antes de sofrer liquidação judicial. O número de eventos foi levantado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A maioria das reuniões ocorreu em hotéis de luxo na Europa e nos Estados Unidos. O dono do banco, Daniel Vorcaro, utilizou os fóruns para construir uma rede de contatos com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), magistrados e congressistas. As cidades escolhidas para os encontros foram Nova York, Londres, Roma, Paris e Cambridge. 


Mensagens e comemoração nos bastidores 

O banqueiro comemorou o trânsito livre com os juízes em mensagens enviadas para a ex-namorada em abril de 2024. Vorcaro realizou uma palestra em Londres, no 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, do qual era patrocinados oficial. 'Acabei de dar o discurso para os ministros. Todos ministros do Brasil. Do STF, STJ, etc. E euzinho discursando”, escreveu o empresário.

A lista de apoios financeiros inclui o Summit Valor Econômico Brazil–USA, feito em Nova York pelo Grupo Globo. O Banco Master figurou como o investidor principal do debate. A Globo informou em nota que a captação segue o mercado tradicional de mídia e que o seminário não serviu para reuniões secretas de relacionamento.


Ministros no circuito europeu

O dinheiro de Vorcaro bancou também o 2º Fórum Esfera Internacional, em Roma. O evento reuniu o então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, e o ministro Dias Toffoli. O banqueiro dividiu o palco de debates com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), político que o empresário classifica em suas conversas privadas como um grande amigo. 

Dias Toffoli compareceu a outra agenda financiada pelo Master no hotel Fairmont, em Copacabana, durante o 23º Fórum Empresarial Lide. A marca do banco apareceu ainda na Brazil Conference, realizada por alunos brasileiros nas universidades norte-americanas Harvard e MIT.


Erich Mafra -  Revista Oeste

'Cazarré no campo de reeducação da GloboNews', por Flávio Gordon

 O ator, que lançou um curso sobre masculinidade, foi convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com professores ideólogos


Juliano Cazarré - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução Instagram 

No texto 'A Crise na Educação' (1957), a filósofa Hannah Arendt diz que a base do totalitarismo é uma concepção pedagógica da política. Em suas palavras: “A educação não pode desempenhar nenhum papel na política porque na política se lida sempre com pessoas já educadas. Aqueles que se propõem a educar adultos, o que realmente pretendem é agir como seus guardiões e afastá-los da atividade política. Como não é possível educar adultos, a palavra ‘educação’ tem uma ressonância perversa em política — há uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem uso da força.” 

Pois foi exatamente um ambiente de pedagogia política que a GloboNews armou para Juliano Cazarré no último dia 12. Cazarré, que nas últimas semanas ganhou visibilidade ao anunciar um curso e um congresso sobre masculinidade voltados a homens católicos, foi convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com professores ideólogos de extrema esquerda. 

A matéria do dia, formulada pela apresentadora com a solenidade de quem proclama verdades autoevidentes, era esta: existe uma “epidemia de violência contra as mulheres”, e o ator, ao falar em masculinidade sem pedir desculpas por isso, deveria se sentir um cúmplice. Os debatedores escalados para instruir o processo eram uma psicanalista feminista e um “consultor sobre equidade de gênero e raça” — o tipo de profissão parida em faculdades de ciências humanas cujos objetos de estudo inexistem fora das próprias fórmulas ideológicas que os criaram. 


Cazarré anunciou o evento “O Farol e a Forja”, um retiro de três dias voltado exclusivamente para homens - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Felizmente, Cazarré recusou sujeitar-se à empreitada. Gentilmente, mas com firmeza. Foi o bastante para revelar aquilo que a intelligentsia progressista insiste em chamar de “debate”: um monólogo interrompido, de tempos em tempos, pela presença inconveniente de alguém que discorda — e que por isso deve dar a mão à palmatória “progressista”. 


“Os homens matam as mulheres” 

A cena que mais merece atenção no tal “debate” não foi a recusa de Cazarré em deixar-se educar por ideólogos munidos de suas ferramentas de distorção do real. Foi a fala da psicanalista feminista. 

“Os homens”, disse ela, “matam as mulheres”. Não alguns homens. Não uma fração criminosa e patológica. 

Os homens — o sexo, a categoria, o conjunto. Como se o cromossomo Y fosse, por determinação biológica ou cultural, uma sentença de morte para as pessoas do entorno. Se alguém, naquele mesmo estúdio, tivesse afirmado que “os negros roubam” ou que “os nordestinos são violentos”, o programa teria sido interrompido, as câmeras teriam sido apagadas, e o responsável pela fala estaria em vias de responder a processo. 

A generalização coletiva infamante — atribuir a todo um grupo o comportamento desviante de uma minoria — é reconhecida, pela boa filosofia e pelo bom senso, como o mecanismo primordial do preconceito. Mas há, no cardápio progressista, um grupo que ainda pode ser difamado em bloco, sem custo social, sem processo, sem a menor fricção: os homens. E a psicanalista o fez, sem corar, diante das câmeras. Não satisfeita, acrescentou que os homens são uma “ameaça perene” às mulheres.


Cromossomos X e Y - Foto: Shutterstock 

Mas façamos aqui umas contas de padaria que a “especialista” não quis fazer. O Brasil conta com aproximadamente 855.714 homens sentenciados ou presos provisoriamente — por qualquer crime, do furto ao homicídio. A população masculina total é de cerca de 99,3 milhões. A divisão elementar resulta em 0,86%. Ou seja, menos de um homem em cada cem tem passagem pelo sistema penal, por qualquer delito. 

Imaginemos, por generosidade intelectual ao argumento contrário, que a subnotificação é enorme, que boa parte dos crimes não resulta em processos criminais e que muitos autores jamais são presos. Multipliquemos então esse 0,86% por dez — uma inflação astronômica, sem paralelo em qualquer estimativa séria. Chegamos, pois, a 8,6%. Arredondando: 9%. Ou seja, mesmo na hipótese mais catastrofista, teríamos que concluir que 91% dos homens brasileiros não cometem crime algum — muito menos crime que resulte na morte de alguém. 

Noventa e um por cento! Temos uma supermaioria que trabalha, cria filhos, paga impostos, cuida de pais idosos, entra em prédios em chamas, conserta a rede elétrica depois de tempestades, desce a minas, limpa o esgoto que a cidade produz. Homens que protegem e servem — mulheres e homens, indiscriminadamente — muitas vezes ao custo da própria vida. Essa maioria, a psicanalista varreu para baixo do tapete da narrativa, que só tem espaço para os 9%. E mesmo esses, note-se, raramente chegam perto de um crime de morte.


Bombeiros homens - Foto: Shutterstock

A psicanalista, que professa conhecer os meandros da psique humana, comete aqui um erro que qualquer epistemólogo de primeiro ano saberia nomear: toma a exceção pela regra, o desvio pelo universal, o patológico pelo normal. É como se um oncologista, depois de tratar tumores a vida inteira, concluísse que o corpo humano é, por natureza, uma fábrica de câncer. O diagnóstico não segue da evidência. Segue da agenda. Mas, no centro de reeducação ideológica da GloboNews, uma militante com uma fala tão extremista como “os homens são uma ameaça perene às mulheres” não é tida por extremista, nem radical, nem adepta de um discurso de ódio aos homens. Ao contrário, ela foi escalada como um dos profissionais responsáveis por “educar” o “extremista” Juliano Cazarré. 

A “epidemia” que não existe O programa foi apresentado à audiência como um debate sobre o papel dos homens “num contexto de epidemia de violência contra as mulheres”. A escolha da palavra “epidemia” é politicamente calculada: epidemias pedem estado de emergência, poderes excepcionais e a suspensão do debate racional. Quem questiona medidas sanitárias no auge de uma pandemia? Quem questiona a narrativa da epidemia feminicida? 

Examinemos os dados que a narrativa da epidemia sistematicamente deforma. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 45.747 homicídios no Brasil em 2023. Desde 2018, quando houve uma redução na letalidade, a média tem se mantido mais ou menos essa – entre 40 e 50 mil homicídios por ano. Aproximadamente 20 homicídios por cem mil habitantes. Apesar da redução dos últimos anos, trata-se de um número muitíssimo elevado, que coloca o país como um dos mais violentos do mundo.

Diante desse cenário, há realmente um fenômeno particularmente alarmante de assassinatos de mulheres? De acordo com aqueles mesmos institutos de pesquisa, os homens representam cerca de 90% das vítimas de homicídio. O argumento feminista padrão é que, além da criminalidade violenta em geral, as mulheres são vítimas de um crime específico, motivado exclusivamente pelo fato de serem mulheres. Esse tipo criminal específico ganhou o neologismo feminicídio — o termo que serve de argumento simbólico da espécie de ativismo misândrico que se viu no centro de reeducação da GloboNews.

Em 2024, segundo os dados, foram registrados 1.492 feminicídios: uma taxa de 1,4 por 100 mil mulheres. É claro que essas mortes merecem toda a atenção do Estado e da sociedade — mas elas não configuram, em nenhuma leitura honesta dos dados, uma epidemia. 

Para efeito de comparação: no mesmo ano, os homicídios dolosos totais no Brasil atingiram 35.565 vítimas, das quais mais de 32 mil eram homens. O grito de horror da mídia e dos “especialistas” é seletivo e bem calibrado. Há ainda um detalhe metodológico que raramente aparece nos debates televisivos: parte do crescimento nos registros de feminicídio se deve a mudanças na tipificação legal, não necessariamente a um aumento real dos crimes. 

O percentual de homicídios de mulheres classificados como feminicídio passou de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024 — crescimento explicado, em grande parte, pelo aprimoramento institucional na identificação e classificação dos casos, conforme reconhecem os próprios pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quando o instrumento de medição muda, o número medido muda — isso não significa necessariamente que o fenômeno cresceu.


O nome e a coisa: sobre a ambiguidade conveniente do termo “feminicídio”

Introduzido no Código Penal brasileiro pela Lei 13.104/2015, o tipo penal feminicídio abrange duas situações distintas: crimes em contexto de violência doméstica e familiar, e crimes motivados por ódio ou discriminação à condição de mulher. São dois eixos muito diferentes — um contextual, outro intencional — frequentemente colapsados num único conceito como se fossem a mesma coisa. Na prática, a esmagadora maioria dos casos enquadrados como feminicídio ocorre no primeiro eixo: o doméstico. 

O que nos dizem os dados? Que 80% dos casos são cometidos por companheiros ou excompanheiros; que 64% ocorrem dentro de casa; que os gatilhos imediatos são ciúme, separação, álcool, ressentimento, impulsividade criminosa. O assassino não mata “a mulher” como categoria abstrata. Mata aquela mulher, naquele relacionamento específico, numa explosão de desordem interior que diz mais sobre seu caráter e suas patologias do que sobre qualquer projeto ideológico de dominação masculina.


Foto: Shutterstock

Por óbvio, isso não diminui a gravidade do crime. Diminui, entretanto, a legitimidade da explicação totalizante que o ativismo de gênero fabrica em cima dele. Quando se substitui a pergunta “por que este homem matou?” pela pergunta “em que sistema simbólico de opressão este crime se inscreve?”, a resposta já vem embutida na pergunta. A teoria fecha-se sobre si mesma, impermeável a qualquer evidência contrária. Isso não é ciência; é ideologia com verniz acadêmico. 

Cazarré até que tentou levantar esse questionamento sobre a imprecisão do termo feminicídio, e sobre a necessidade de algum registro material de ódio generalizado às mulheres para se caracterizar um homicídio feminino como feminicídio. Mas não teve tempo de desenvolver o raciocínio, tendo sido interrompido com jargões militantes do tipo “controle sobre os corpos femininos” e etc. 

Quando tentava aludir ao seu exemplo próprio de conduta masculina, como contraponto à acusação permanente (implícita ou nem tanto) de que conteúdos como o do seu curso levam ao feminicídio, o ator era respondido com frases como “não podemos nos restringir ao seu caso pois precisamos olhar para as masculinidades, no plural”. Ou seja, toda vez que o convidado tentava puxar a conversa para a realidade concreta e para homens de carne e osso, os ideólogos do programa tratavam de reconduzi-la ao plano das abstrações e do idioma hiperideologizado da esquerda identitária. 

Acrescente-se ao contexto ideológico da invenção do “feminicídio” uma assimetria classificatória reveladora: não existe categoria equivalente, com a mesma força simbólica e atenção política, para homens mortos por parceiras. Não porque esses casos sejam inexistentes — existem —, mas porque não se encaixam no modelo interpretativo dominante. A lente ilumina intensamente um lado do fenômeno e deixa o outro na penumbra. 

O resultado é uma percepção pública sistematicamente distorcida, fabricada não pela realidade, mas pelo recorte ideológico de quem decide o que merece ser visto. “Nem todo homem mata, mas é sempre um homem” — como disse a psicanalista feminista, esquecendo-se que não, nem sempre é homem o autor de um homicídio. No mundo real, fora do universo mental da militância, mulheres também cometem violência doméstica — em frequência comparável à dos homens, nos casos de violência não letal, conforme demonstrado por décadas de pesquisa acadêmica, sintetizadas pelo sociólogo Murray Straus, da Universidade de New Hampshire, e analisadas pelo filósofo David Benatar em The Second Sexism: Discrimination Against Men and Boys — e, embora estatisticamente em menor número, também matam seus parceiros no contexto de crimes passionais.


Livro The Second Sexism de David Benatar - Foto: Divulgação 


A masculinidade que “nunca trouxe nada de bom” A reeducadora de Cazarré sentenciou, sem titubear: o modelo de masculinidade no qual o homem é provedor e a mulher é cuidadora “não funciona”. “Ele tem mais de cem anos”, disse ela, “e não deu certo”. 

E, com uma autocomiseração que seria cômica se não fosse televisionada em horário nobre: “Nós estamos morrendo por falta de os homens ouvirem as nossas críticas.” A psicanalista valeu-se ainda da técnica da denúncia contra o manterrupting para falar sem ser contraditada. A afirmação merece ser respondida com a seriedade que lhe cabe — que é pouca, mas não nenhuma. O modelo criticado — o homem que trabalha, protege, provê — não tem “mais de cem anos”. Ele é tão antigo quanto a organização humana em famílias, anterior à escrita, à roda e a qualquer “consultor de equidade de gênero”. 

Foi esse modelo, com todas as suas tensões, que ergueu civilizações, descobriu continentes, desenvolveu vacinas, atendeu feridos em campos de batalha, construiu o encanamento que leva água até a casa da psicanalista, a rede elétrica que alimenta o estúdio da GloboNews e o hospital onde nasceram seus filhos. 

Dizer que ele “não deu certo” não é uma análise histórica. É uma amnésia voluntária a serviço de uma tese. E aqui o programa revelou sua maior omissão. Em nenhum momento a psicanalista mencionou — nem de passagem, nem por acidente — a gigantesca proporção masculina em profissões de risco e sacrifício. Os bombeiros que entram em edifícios em chamas são, de modo esmagador, homens. Os policiais que patrulham bairros violentos de madrugada são, na sua imensa maioria, homens. 

Os que limpam o esgoto, consertam a rede elétrica em dias de tempestade, trabalham nas minas, constroem as estradas — homens, homens, homens. Esses homens protegem e servem mulheres e homens indiscriminadamente, todos os dias, com frequência ao custo da própria saúde e da própria vida. Seriam eles também, como sugere a psicanalista feminista, uma “ameaça permanente” às mulheres?


Membros da Guarda Municipal participam de um desfile em comemoração à independência do Brasil na cidade de Salvador, Bahia (07/09/2014) - Foto: Shutterstock


No best-seller The Myth of Male Power, Warren Farrell observou, com sua ironia precisa, que a mídia produz especiais perguntando “o homem da casa ao lado molesta meninas?” — mas jamais produz especiais intitulados “o homem da casa ao lado salva meninas?”, embora os bombeiros que resgatam crianças sejam, de forma esmagadora, homens. A narrativa seleciona. E o que ela seleciona diz mais sobre sua agenda do que sobre a realidade. 

Cazarré saiu do programa de pé. Recusou a contrição, não assinou a confissão, não pediu perdão por ser quem é. Ao se recusar a aceitar as premissas do julgamento, o ator fez o que qualquer pessoa intelectualmente honesta deveria fazer diante de um tribunal disfarçado de debate: pediu as evidências. E as evidências, como vimos, não sustentam o veredito. 

O feminismo contemporâneo, em sua versão mais militante, transformou uma causa legítima — o combate à violência real contra mulheres reais — num dispositivo retórico a serviço de uma agenda política que tem muito mais a ver com a conquista de poder institucional e simbólico do que com a proteção de qualquer vítima concreta. 

Reconhecer isso não é negar a gravidade da violência doméstica. Trata-se apenas de recusar que uma narrativa — por mais eloquente, por mais amplificada pela grande mídia, por mais repetida em estúdios com iluminação profissional — substitua o esforço mais difícil e mais honesto de compreender a realidade que pretende nomear. Mas a realidade, para a intelligentsia progressista, sempre foi um detalhe incômodo. E a GloboNews tem bons microfones, boas câmeras e luz boa o suficiente para não precisar dela.


'Cazarré no campo de reeducação da GloboNews', por Flávio Gordon