sexta-feira, 8 de maio de 2026

'Os elefantes e a porta dos fundos', por Eugênio Esber

 Justiça, da política e até de áreas supostamente técnicas, como a CVM, a xerife do mercado de capitais


Câmara dos Deputados, o brasão da CVM e o STF - Foto: Montagem Revista Oeste/Luiz Silveira/STF/Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados/Divulgação/Freepik 


N esta semana, o ministro do STF, Flávio Dino, voltou a exercer a arte de distribuir um biscoito retórico para saciar a avidez da imprensa por frases de efeito. “Eu me impressiono, e não é de hoje…”, principiou Sua Opulência. “Ando em Brasília exercendo cargo desde 1999… Eu nunca vi tanto elefante pintado de azul desfilando por essa Esplanada. O elefante é grande, está pintado de azul e está desfilando na frente de todo mundo. Como ninguém viu?”

Referia-se ao modelo fraudulento de negócios que Daniel Vorcaro construiu, no qual oferecia aos incautos clientes do Banco Master um papel que os remuneraria 30%, 40% acima dos padrões do mercado. 

A pergunta de Dino é ótima, mas um tanto cínica e, de certo modo, defeituosa. Cínica, porque ele deveria se incluir na questão: “Como é que ninguém viu, e eu inclusive?” Afinal, o método de Vorcaro para levar adiante sua pirâmide financeira contou com a cooptação de ministros (atuais e ex) do Supremo Tribunal Federal, a Corte que Dino integra e que possui apenas 11 inquilinos. Um elefante, ali, incomoda — e muito. Dois, então, nem se fala.


Ministro Flavio Dino em sessão plenária do STF (06/05/2026) - Foto: Luiz Silveira/STF

E por que a pergunta de Dino é defeituosa? Porque o verbo está no passado — “Como ninguém viu?”, questionou Sua Corpulência. Deveria ter usado o gerúndio. “Como ninguém está vendo?” Um dos dois paquidermes que há mais de cinco meses pisoteiam o macio carpete do STF traz no lombo o ministro Alexandre de Moraes, que até hoje não explicou o contrato de R$ 129 milhões que sua esposa firmou com o banco Master. Moraes tampouco se explicou sobre o significado da mensagem que um apavorado Vorcaro passou a ele uma hora antes de sofrer o cumprimento de um mandado de prisão — “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” 

O segundo elefante, vermelho de nascença, desfila a poucos metros de Flávio Dino todos os dias e diverte a elegante e togada plateia, suspendendo em sua tromba o ministro Dias Toffoli, que por muitos anos escondeu sua condição de sócio do resort/cassino Tayayá, um empreendimento que o liga à família de Daniel Vorcaro. 

Apesar de incompleta e defeituosa, a pergunta formulada esta semana por Dino durante audiência pública no STF, “Como ninguém viu?”, é  importante para o tema deste artigo, que tratará de uma instituição até agora poupada da celeuma pública sobre o caso Master. Refiro-me à Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, que no âmbito do jornalismo econômico, é geralmente apresentada como a xerife do mercado de capitais. 

Em tradução livre do economês, significa dizer que a CVM existe para que os brasileiros possam investir com segurança no mercado de ações e em fundos de investimentos, sabedores de que não serão vítimas de truques, manipulações e, principalmente, crimes.


Brasão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) - Foto: Divulgação

É aqui que a porca, ou o elefante, torce o rabo. Como se verá logo adiante. No momento em que Dino recorria, sem demonstrar constrangimento, a metáforas paquidérmicas, transcorria no STF uma audiência pública sobre a constitucionalidade de uma taxa de fiscalização que a CVM cobra de quem opera no mercado de capitais. 

Aproveitando a presença na sessão do secretário-executivo do Banco Central, Rogério Antônio Lucca, o ministro perguntou que diacho o BC e a CVM faziam para atuar de forma conjunta na fiscalização de fundos usados para lavar dinheiro do crime organizado. Um questionamento óbvio, dado que a Polícia Federal encontrou, em duas operações de 2025, a Carbono Oculto e a Compliance Zero, evidências de operações que ligam negócios do PCC a alguns atores da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. No caso da Compliance Zero, que levou o Banco Master à liquidação e colocou Daniel Vorcaro na cadeia, o rastilho das investigações não chegou apenas à Faria Lima, como andou declarando à imprensa o decano do STF, Gilmar, mas à própria Suprema Corte. São os elefantes que Dino não vê. Nem Gilmar.


Ministro Gilmar Mendes em sessão plenária do STF (06/05/2026 - Foto: Luiz Silveira/STF

Na resposta ao questionamento de Dino, o dirigente do Banco Central fez uma fala centrada nos protocolos de colaboração que vigoram entre a autoridade monetária e a CVM, e no compromisso mútuo que as casas têm de trabalhar em colaboração com a Polícia Federal, o Ministério Público, etc. etc. Tudo muito estruturado, em teoria. Mas, no mundo real, Daniel Vorcaro, que acaba de entregar ao ministro André Mendonça uma proposta de acordo para delatar seus cúmplices, e quem sabe seus chefes, subornava altos funcionários do Banco Central. 

E inflava seus balanços com ativos fictícios ou supervalorizados por meio de operações realizadas por uma ciranda de fundos que, segundo a Polícia Federal, cumpria o propósito de lavar dinheiro oriundo de negócios ilícitos do crime organizado.

E assim, escondendo prejuízos e fabricando lucros em balanços que eram peças de ficção, o Master pôde sustentar, sob as barbas do BC e da CVM, um negócio com aparência de legalidade: captar agressivamente compradores para CDBs que pagavam até 140% do CDI, que é o título negociado entre bancos. 

Que o Banco Central tem muitas explicações a dar, todos sabem. A CVM não fica atrás, diante do emaranhado de fundos de investimento que operam em cascata, muitos deles com um cotista único e sem a mínima transparência, repassando dinheiro uns aos outros em questão de dias, horas ou minutos para que, no final do tubo, um valor inicialmente pequeno saísse supervalorizado para entrar diretamente no ecossistema de empresas e fundos em que o Master tinha participação. No balanço, o banco parecia mais robusto e saudável do que de fato era. 

Nesta ciranda, tinham papel preponderante fundos como o Reag e o Trustee, entre vários fundos e empresas de fachada — Brain Realty, Brain Cash, D Mais, High Tower, Anna, Astralo 95, Growth 95… e por aí vai


Banco Master e Reag - Foto: Shutterstoc

Chamado a depor na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em fevereiro, o presidente interino da CVM, João Accioly, explicou aos senadores que o Master não era vítima dos gestores desonestos dos fundos nos quais tinha participação. Ao contrário: o banco de Daniel Vorcaro ajudava os fundos a superdimensionar seus ativos porque assim o balanço do Master era anabolizado. 

“É um me engana que eu gosto”, resumiu Accioly, interpretando a posição de Vorcaro. Quem não gostou foi o universo de vítimas do banco — aplicadores, fundos de pensão, bancos que abastecem o Fundo Garantidor de Créditos, lesado em mais de R$ 50 bilhões; e, em última análise, os brasileiros que arcarão com a conta final, pagando juros mais altos quando tomarem crédito. Além, é claro, do BRB, o banco do Distrito Federal, que hoje agoniza empanturrado com carteiras de crédito fraudulentas que comprou do Master a um custo superior a R$ 11 bilhões.

É curioso observar que, no debate político, a Comissão de Valores Mobiliários desfruta de sombra e água fresca, se comparada ao minucioso escrutínio público sobre a conduta do Banco Central no caso Master. Pouquíssima importância é dada pela imprensa ao que se passa na CVM. Mas é preciso prestar mais atenção no colegiado, hoje presidido interinamente por João Accioly. Começando por aí. Por que a interinidade do presidente?


O presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Carlos de Andrade Uzeda Accioly, fala sobre sobre a fiscalização do Master na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado (24/02/2026) - Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

Aviso que essa história fará você lembrar da novela Jorge Messias. Em 7 de janeiro, Lula enviou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a indicação de Otto Lobo para assumir a presidência da CVM. Alcolumbre congelou o assunto por três meses. Por fim, em 10 de abril, tirou a indicação da gaveta e a enviou à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), o foro competente para a realização da sabatina. 

Com a mesma fleuma, o presidente da CAE, senador Renan Calheiros, segura até hoje a sabatina de Otto Lobo porque desconfia que o indicado de Lula está na área de influência de Vorcaro. Calheiros, como se sabe, quer ver o circo Master pegando fogo. Ele tem interesse na celeridade das investigações sobre o escândalo por entender que as revelações vão desgastar seu arquirrival em Alagoas, o deputado Arthur Lira. Ex-presidente da Câmara dos Deputados, Lira é apontado como um dos sustentáculos políticos do lobby de Daniel Vorcaro no Congresso Nacional, ao lado de figuras do centrão, como Ciro Nogueira. De onde Calheiros tirou essa crença de que Otto Lobo, de perfil técnico, e aparentemente sem vinculações políticas, faz o jogo de Daniel Vorcaro?  



Senador Renan Calheiros (MDB-AL), presidente da CAE, no Senado (10/02/2026) - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Aqui, é preciso fazer uma breve retrospectiva. Lobo chegou ao cargo de diretor da Comissão de Valores Mobiliários em janeiro de 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro. A indicação dele foi aprovada pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, com base em um relatório favorável de… Ciro Nogueira. 

Ciro foi o parlamentar que, em 2024, apresentou, sem sucesso, o projeto conhecido como “Emenda Master”, porque propunha aumentar, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Depois que Vorcaro foi preso e teve seu telefone apreendido, veio a público mensagem em que o então banqueiro, teclando para a namorada, referiu-se a Ciro Nogueira como “um dos meus grandes amigos de vida”. 

Na sabatina, se houver, Lobo será confrontado com críticas a posturas que adotou em processos envolvendo questões regulatórias — inclusive de interesse de fundos do ecossistema Master. O episódio mais significativo envolveu os interesses do Banco Master e de Nelson Tanure na Ambipar, empresa protagonista de um escândalo que mereceria um artigo à parte.

Em 2025, a CVM julgava se Ambipar deveria fazer uma oferta pública de aquisições de ações (OPA). Seguindo o parecer da área técnica, o presidente da Comissão, João Pedro Nascimento, e outra diretora, Marina Copola, votaram em favor da obrigatoriedade da OPA. Mas Otto Lobo e João Accioly empataram a votação ao decidir contra a imposição da oferta pública — acolhendo a posição que interessava a Vorcaro e a Tanure, acionistas relevantes da Ambipar. Com o 2 a 2, sucedeu-se, então, um fato estranhíssimo.


Indicado para o cargo de diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Otto Eduardo Fonseca de Albuquerque Lobo, em pronunciamento, à mesa, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado (05/07/2021) - Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Três semanas depois, o presidente da CVM, João Pedro Nascimento, renunciou à presidência do colegiado, alegando razões pessoais. Otto Lobo, então o mais antigo na Comissão, assumiu a presidência e, mesmo interinamente na função, proferiu voto de minerva contra a realização da oferta pública de ações. Independentemente de questões paroquiais da política alagoana, Renan Calheiros deveria marcar a sabatina de Otto Lobo. E conduzir a sabatina com o maior rigor possível. O país precisa de explicações. 

E a CVM, a quem compete fiscalizar os fundos de investimento, precisa deixar muito claro que está preparada para isso e disposta a dar combate à ciranda de fraudes que lava dinheiro para o crime organizado, muito especialmente o PCC, a multinacional do crime que já atua em 18 Estados norte-americanos e expõe o Brasil ao risco de sanções duríssimas de Washington. Se os elefantes do crime organizado transitam à vontade entre os círculos do poder, é urgente fechar a porta dos fundos.


Eugênio Esber - Revista Oeste