P ena que o sumiço do cabelo que já existiu no alto da cabeça de Gilmar Mendes tenha limitado a mudança às partes laterais. Se ali existisse ao menos um punhado de fios grisalhos, os efeitos da tintura preta seriam muito mais visíveis — e o noticiário jornalístico teria captado a mensagem emitida pela reforma capilar: o decano do Supremo Tribunal Federal está apaixonado. Quando isso acontece, raríssimos setentões resistem à tentação de fazer bonito com providências rejuvenescedoras que sempre incluem, além da coloração do teto, canhestras demonstrações de bravura sublinhadas por bravatas e bazófias. Tudo vale a pena para impressionar a nova namorada.
No caso de Gilmar, o amor está no ar por causa de Morgana de Almeida, 58 anos, ministra do Tribunal Superior do Trabalho desde 2021. Nascida em Toledo, no Paraná, ela ingressou na magistratura em 1992. Foi casada com Pepe Richa, filho e irmão de ex-governadores de Estado. No começo de abril, seis meses depois de separar-se da advogada Guiomar Feitosa, o ministro do STF resolveu mostrar publicamente, com aparições em restaurantes de Brasília, que seu coração batia em descompasso pela ministra do TST. É por isso que acaba de pintar os cabelos. Foi também por isso que encenou, na última semana de abril, o espetáculo da valentia temerária.
O ato inaugural, consumado numa sessão do STF, foi concebido para que, além da namorada, todos os inimigos soubessem com quem estavam lidando. “Lá no meu Mato Grosso as pessoas dizem: ‘não me convide para dançar, porque eu posso aceitar’. Adoro ser desafiado”, advertiu no começo do falatório. Terminada a sessão, chamou para a briga desafetos não identificados: “Me tiraram pra dançar e aceitei”, comunicou. Nos três dias seguintes, soltou o verbo em sete entrevistas, todas de bom tamanho, concedidas a diferentes veículos. A maratona recordista foi tão surpreendente quanto desastrada.
Até o mais distraído dos capinhas sabe que Gilmar é um oceano de vaidade. Por liderar há dez anos a bancada que controla o Supremo, acha que é ele, não o presidente Edson Fachin, quem deve falar em nome da Corte. Acha que, por falar alemão, é a maior sumidade do Egrégio Plenário. Acha que a história do Direito Constitucional se divide em antes de GM e depois de GM. Por imaginar-se capaz de, em três segundos, sacar do coldre repleto de argumentos a resposta matadora, também achava que era o entrevistado mais ágil e certeiro do Brasil. Tudo somado, só o decano poderia derrotar, sozinho, os inimigos da democracia que teimam em criticar o Supremo. A doutora Morgana certamente se derreteria de admiração, calculou o matogrossense apaixonado. Errou feio.
Pausa para a lição, ilustrada por um caso exemplar: exibir-se para a namorada é perigoso. Além de inventividade e talento, exige muita sorte. Foi o que aprendi em Paris no outono de 1982, quando passei alguns dias hospedado no apartamento onde moravam minha irmã Patrícia e o marido Marinho Abbud, meu velho amigo. “Domingo tem jogo”, foi logo avisando o médico, que passava os dias úteis concentrado no Hospital Necker, escala essencial na trajetória que o transformaria num grande nefrologista. Os domingos eram monopolizados pelo time que fundara e havia batizado de Internacional Futebol Clube.
Um nome perfeito. Para conseguir pelo menos mais 10 titulares, convocou dois brasileiros, um francês e estrangeiros vindos da Itália, da Nigéria, da Argélia e de outros países africanos. Depois de autodenominar-se Falcão (ou “Falcao”, porque quase ninguém conseguia pronunciar o “a” com til), rebatizou o restante do time com nomes dos demais craques da seleção brasileira. Além de fundador, Marinho era o técnico, o meia-armador, o capitão, o dono da bola e, por ter transformado um campo no Bosque de Vincennes na arena do Internacional, um supercartola. A equipe adversária era formada por gente que aparecia por lá à procura de uma pelada carente de futebolistas.
No domingo da minha estreia, apareceu um brasileiro que se declarou atacante e bom de bola. A exclamação da moça ao seu lado informou que se tratava da nova namorada do craque de 20 anos. Imediatamente contemplado com a camisa 9, ele reagiu ao apito inicial como um genuíno centroavante de ofício: postou-se na linha horizontal da grande área. Aos 15 minutos do primeiro tempo, o ponta-direita fez um cruzamento a meia altura. E então o brasileiro que ninguém conhecia resolveu impressionar a namorada com o mais plástico dos lances: um gol de bicicleta.
Deu tudo errado. Ao jogar-se para o alto, estendeu o corpo meio metro acima da trajetória da bola. Pior: esqueceu de baixar um dos braços para abrandar a colisão entre as costas e o solo sem gramado. O pé direito chutou o vazio e o corpo desabou num pedaço de terra repleto de cascalho e minúsculos pedregulhos. Sem condições físicas para continuar em campo, foi depositado por dois companheiros ao lado da namorada, que passou o resto do jogo extraindo com uma pinça pequenos bólidos que haviam perfurado a pele. O casal não voltou a ser visto por lá. Mas o enfado no rosto da enfermeira improvisada avisava que o namoro deveria acabar naquele domingo.
O desempenho de Gilmar Mendes na maratona verbal foi tão lastimável quanto o do infeliz camisa 9. O ministro equivocou-se na escolha dos alvos a atacar e dos parceiros a defender. Enganou-se na seleção dos temas a discutir e dos argumentos a apresentar. Convencido de que seria tratado com brandura de cúmplice por todos os entrevistadores, teve de ouvir perguntas e réplicas incômodas. Em vão, tentou camuflar com sorrisos amarelos a irritação denunciada por tremores do beiço debruçado sobre a mandíbula imensa.
ilmar Mendes, ministro do STF - Foto: Carlos Alves Moura/STFAinda na fase de aquecimento, Gilmar antecipou o fiasco. Indignado com o senador Alessandro Vieira, que pediu seu indiciamento no relatório da falecida CPI do Crime Organizado, o decano anexou o relator à multidão aglomerada no Inquérito do Fim do Mundo — e afirmou que essa ilegalidade parida há mais de seis anos não pode chegar ao fim antes da eleição. Inconformado com a audácia do exgovernador Romeu Zema, que sugeriu a prisão dos ministros envolvidos no escândalo do Banco Master, Gilmar zombou do sotaque mineiro, que qualificou de dialeto semelhante ao falado em TimorLeste. Zema revidou com um vídeo em que marionetes satirizavam os métodos do adversário.
O que faria Zema se um vídeo na internet recorresse à sátira para apresentá-lo como homossexual?, perguntou Gilmar em outra entrevista. O candidato à Presidência pelo Partido Novo mirou o fígado do oponente: a pergunta revelava que Gilmar considera igualmente criminosos ladrões e homossexuais. Desprovido de balas na agulha, o decano exumou antigos palavrórios favoráveis à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nos tropeços seguintes, o decano insultou, menosprezou ou agrediu gente que acredita em pesquisa de opinião, gente que patrocina pesquisa de opinião, gente que rejeita a doação da vaga no STF a uma sumidade como Jorge Messias, gente que participa de CPIs e gente que associa ministros togados ao caso Master — além de jornalistas que fazem a pergunta certa e das Forças Armadas.
De volta às sessões do tribunal, Gilmar exibe uma toga em frangalhos, um olho roxo, um braço na tipoia, hematomas no tórax e escoriações. Seu estado de saúde não é melhor que o daquele jovem brasileiro depois da desastrosa bicicleta em Paris. Além da chance de cravar um golaço, o centroavante provavelmente perdeu a namorada. O ministro que se cuide. Poderá perder Morgana se a decepção com o cortejo de entrevistas e pronunciamentos não for menor que a admiração causada por fios de cabelo agora negros como as asas da graúna.
Augusto Nunes - Revista Oeste