A esquerda se recusa a aceitar que a soberania do Parlamento se sobreponha à sede de punição do regime
Nesta sexta-feira, 30 de abril de 2026, o Congresso Nacional fez o que o Congresso Nacional existe para fazer: legislar. Com 318 votos na Câmara e 49 no Senado — margens folgadas, inequívocas, soberanas —, os parlamentares derrubaram o veto presidencial ao PL da Dosimetria, restabelecendo regras de cálculo de penas que o próprio Código Penal já previa e que o STF, no julgamento dos condenados pelo 8 de janeiro, havia deliberadamente ignorado.
Horas depois, como era de se prever, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, anunciou que o partido recorreria ao Supremo ainda nesta sexta-feira. “Não tenho dúvida de que até amanhã a gente anuncia a judicialização”, disse, com a desenvoltura de quem, apesar do mantra partidário contra a “criminalização da política”, agora não vê nenhuma contradição em usar o Judiciário para anular a decisão do Legislativo — e não vê porque, para o lulopetismo, não há contradição alguma: há apenas a revolução, e os instrumentos que, a cada momento, melhor a servem.
Trotski cunhou a expressão “o longo braço da revolução” para descrever a capacidade do projeto revolucionário de perseguir seus inimigos além das fronteiras, além do tempo, além de qualquer limite legal ou moral.
O PT não precisa de braços tão longos: seus inimigos estão aqui, a algumas horas de Brasília, uma gente humilde e trabalhadora, cumprindo penas que simplesmente não observaram a regra do concurso formal de crimes, consagrada no Código Penal há décadas. O Congresso corrigiu a distorção.
O regime, que vetou a lei em cerimônia comemorativa dos três anos do 8 de janeiro — com todo o simbolismo vingativo que o gesto carregava —, agora corre aos companheiros de toga (cujo destino deveria ter sido o mesmo de Bessias) para desfazer o que o Parlamento fez.
O nome técnico disso é judicialização. O nome político é outro: é a recusa de aceitar que a soberania do Parlamento se sobreponha à sede de punição de um regime que transformou o Judiciário em arma revolucionária contra os adversários. Num Estado Democrático de Direito digno do nome, o Legislativo legisla e o Executivo executa. No Brasil de 2026, quando o Legislativo legisla “errado” — isto é, quando legisla contra os interesses do regime —, o Executivo chama o Batman coletivo.
Em paralelo, já mobiliza os seu imbecil coletivo — seus intelectuais orgânicos e seus artistas subvencionados — para dar início a mais uma campanha contra o “Congresso, inimigo do povo”. O povo, bem entendido, sendo a Nomenklatura lulopetista.
Flávio Gordon - Revista Oeste