Não são os ignorantes, não são os marginalizados que formam a vanguarda da violência política americana, mas os que passaram anos nas melhores universidades do país
“Não podeis imaginar que ira e tristeza tomam toda a vossa alma quando uma grande ideia, que guardastes por longo tempo como sagrada, é apanhada pelos ignorantes e arrastada para a rua, diante de tolos como eles, e de repente a encontrais no mercado, irreconhecível, enlameada, absurdamente apresentada, sem proporção, sem harmonia — o brinquedo de patifes estúpidos!” (Fala do liberal Stepan Trofimovitch Verkhovensky em Os Demônios, de Dostoievski)
O Skeptic Research Center — instituto de pesquisa da Skeptic Society, organização sem fins lucrativos dedicada a promover o ceticismo científico — acaba de publicar uma pesquisa que confirma uma realidade já intuída por observadores atentos há décadas. Intitulada “Support for Political Violence Among Americans”, a pesquisa revela o seguinte: o “apoio à violência política” nos Estados Unidos cresce proporcionalmente ao nível de escolaridade.
Sim. Quanto mais diplomas, mais disposição para justificar — e, em alguns casos, celebrar — o uso da força contra adversários políticos. Leia-se novamente, devagar: não são os ignorantes, não são os marginalizados, não são os sem-acesso que formam a vanguarda da violência política americana contemporânea.
São os educados. São os que passaram anos — e empenharam fortunas — nas melhores universidades do país. São, em suma, os produtos mais acabados do sistema educacional que as elites progressistas construíram, financiaram e defendem com unhas e dentes contra qualquer tentativa de reforma.
Os dados chegam num momento em que a violência política de motivação esquerdista deixou de ser hipótese e tornou-se padrão documentado. Thomas Matthew Crooks atirou em Donald Trump numa tarde de julho de 2024, ferindo-o na orelha e matando um espectador. Dois meses depois, Ryan Wesley Routh tentou de novo. Em setembro de 2025, um militante com munições gravadas com símbolos da ideologia de gênero e do antifascismo assassinou Charlie Kirk num campus universitário — o homem que talvez mais simbolizasse, na América contemporânea, a crença de que o confronto civilizado de ideias ainda é possível.
E, há alguns dias, Cole Tomas Allen tentou matar Donald Trump durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca em Washington. Três atentados em menos de dois anos contra o mesmo homem. Um assassinato consumado contra o maior debatedor conservador de sua geração. Não é uma onda. É um Zeitgeist.
A pergunta que a pesquisa do Skeptic Research Center obriga a formular — e que a grande imprensa americana insiste em ignorar — é a seguinte: onde esse clima de opinião foi produzido? Quem são os responsáveis por tornar concebível a ideia do assassinato político de atores públicos legítimos como defesa da democracia e da própria civilização? A resposta não requer investigação jornalística sofisticada. Requer apenas memória e honestidade intelectual, duas qualidades em escassez crescente precisamente nos ambientes que mais se gabam de cultivá-las.
Mas, felizmente, essas qualidades não faltaram a todos os intelectuais contemporâneos ao fenômeno. Alan Bloom, por exemplo, foi o primeiro a nomear o problema com a precisão exigida. Em The Closing of the American Mind (“o fechamento da mente americana”), publicado em 1987 — quando a maioria dos intelectuais progressistas ainda fingia que as universidades americanas eram templos da livre investigação —, Bloom diagnosticou que o relativismo cultural havia produzido, paradoxalmente, não mentes abertas, mas mentes fechadas: estudantes incapazes de fazer julgamentos morais, incapazes de hierarquizar valores, incapazes de distinguir o bem do mal, exceto quando se tratava de condenar o Ocidente, a tradição e o pensamento conservador, para os quais reservavam uma certeza moral inabalável.
Roger Kimball aprofundou o diagnóstico em Tenured Radicals — livro cujo título (“radicais graduados”) antecipou com presciência os resultados da pesquisa supracitada. Nele, Kimball documentou com minúcia o processo pelo qual a geração de 1968 — derrotada nas ruas em seu projeto revolucionário — marchou sobre as instituições e tomou de assalto os departamentos universitários, instalando uma nova ortodoxia mil vezes mais intransigente do que aquela contra a qual se levantaram.
O que Bloom e Kimball descreveram nos anos 1980 e 1990, Helen Pluckrose e James Lindsay analisaram na sua forma mais recente e mais sofisticada em Cynical Theories (“teorias do Cinismo”): a mutação do relativismo pós-moderno em teoria crítica aplicada — uma ideologia que abandonou qualquer pretensão de busca da verdade e se converteu, abertamente, num instrumento de poder. Não se trata mais de investigar a realidade, mas de “desconstruir” estruturas de opressão — e depois, por óbvio, substituí-las pelas suas próprias. Não se trata de formar cidadãos capazes de pensar, mas de recrutar ativistas dispostos a agir, inclusive — ou sobretudo — com violência e terror.
No livro The Shadow University (“a universidade paralela”), Alan Kors e Harvey Silverglate documentaram as consequências práticas dessa transformação: códigos de conduta orwellianos, tribunais disciplinares que negam o devido processo, um ambiente de vigilância e delação que tornaria invejoso qualquer comissário político soviético. Já Jonathan Rauch, em Kindly Inquisitors (“inquisidores gentis”), alertou para o fato de que a supressão do debate livre não era um acidente do projeto progressista universitário, mas o seu produto lógico: um sistema que substitui a persuasão pela coerção e o argumento pela acusação moral não pode, por definição, tolerar a discordância.
E, em The Coddling of the American Mind (“a codificação da mente americana”), Greg Lukianoff e Jonathan Haidt abordaram a dimensão psicológica do problema, concluindo que uma geração educada a enxergar palavras como violência, desconforto intelectual como trauma e discordância como agressão estava, clinicamente, mais predisposta à violência real — porque sua arquitetura cognitiva não distingue entre o debate e o perigo, entre o argumento e o ataque.
Por vias diferentes, todas as obras mencionadas — às quais se poderiam acrescentar muitas outras — chegam a uma mesma conclusão: quando se passa anos ensinando jovens que certas ideias são literalmente perigosas, que certos discursos causam dano físico, que determinados pensadores são ameaças à sobrevivência de grupos vulneráveis, não se deve espantar quando alguns desses jovens concluem que eliminar fisicamente a fonte do perigo é um ato de autodefesa — ou, pior, de heroísmo moral.
O assassino de Charlie Kirk, lembremos, explicou o crime com uma frase que poderia ter saído de qualquer manual de teoria crítica aplicada: “Eu não aguentava mais o ódio dele”. Trata-se da inversão revolucionária prototípica, ensinada aos alunos: a vítima é o agressor; o algoz, o justiceiro. Há um outro autor que não poderíamos deixar de mencionar: David Horowitz, que viveu de dentro essa transformação do espírito dos jovens numa “eficiente e fria máquina de matar” — como diria Ernesto Che Guevara, doutor honoris causa em terrorismo.
Filho de comunistas, militante da Nova Esquerda nos anos 1960, testemunha do assassinato de uma amiga por membros dos Panteras Negras, e depois o mais lúcido dos renegados, Horowitz desenrolou — em livros como Radical Son (“filho radical”) e The Black Book of the American Left (“o livro negro da esquerda americana”) — o fio condutor que liga a violência revolucionária dos anos 1960 à violência “democrática” de hoje: a convicção, jamais abandonada, de que o adversário político não é um cidadão com quem se discorda, mas um inimigo da humanidade a ser neutralizado.
Com efeito, a diferença entre os Weathermen que explodiram bombas nos anos 1970 (tendo um deles sido mentor intelectual de Barack Obama, aliás) e o militante contemporâneo que celebra o assassinato de Kirk no X (antigo Twitter) é apenas de método — e, às vezes, nem isso. Em The Victim’s Revolution, Bruce Bawer mostrou como os estudos de identidade institucionalizaram essa lógica: ao dividir o mundo entre opressores e oprimidos, entre os que têm direito à voz e os que devem ser silenciados, a academia americana construiu uma gramática moral que torna a violência não apenas compreensível, mas virtuosa — desde que dirigida contra os alvos corretos.
Ben Shapiro talvez tenha sido o mais direto ao nomear o mecanismo: a esquerda cultural americana opera por intimidação sistemática, transformando o medo em instrumento de conformidade — conclui ele em Bullies: How the Left’s Culture of Fear and Intimidation Silences Americans (“Bullies: como a cultura de medo e intimidação da esquerda silencia os americanos”). \
O que a pesquisa do Skeptic Research Center revela é que essa intimidação parece estar chegando ao seu paroxismo: quando a cultura da intimidação se normaliza o suficiente, alguns dos intimidados decidem que a única resposta à ameaça percebida é a violência física, de preferência letal. O círculo fecha-se sobre si mesmo, e a universidade americana — que começou prometendo libertar as mentes — termina produzindo, com eficiência industrial, recrutas para uma guerra civil que ainda não tem esse nome, mas já tem suas vítimas.
Há, contudo, uma nesga de esperança — pequena, mas real. A própria existência de pesquisas como a do Skeptic Research Center, de obras como as de Haidt, Lukianoff, Pluckrose e Lindsay, de movimentos como o FIRE (Foundation for Individual Rights and Expression, ou “fundação de proteção aos direitos e expressão do indivíduo”), e de uma geração crescente de jovens americanos insatisfeitos com a ortodoxia progressista, e aparentemente dotados de uma clareza moral que seus pais da geração Baby Boomer não tiveram, sugere que o paciente não está clinicamente morto.
A universidade americana está doente — gravemente doente —, mas ainda há médicos dispostos a fazer o diagnóstico correto. O problema é que, como toda boa pesquisa médica sabe, nomear a doença não é curá-la. E, entre o diagnóstico e a cura, as vítimas continuam se acumulando.
Flávio Gordon - Revista Oeste