sexta-feira, 1 de maio de 2026

'Um dia histórico', por Rodrigo Constantino

 Eu não sei o que vem por aí. Ninguém sabe. Mas sei que estamos perdendo a guerra faz tempo e temos todo direito de celebrar a vitória em uma batalha importante


Reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado durante sabatina do advogado-geral da União, Jorge Rodrigo Araújo Messias indicado rejeitado para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) - Foto: Montagem Revista Oeste/Lula Marques/Agência Bras

Q uarta-feira, dia 29 de abril de 2026, o Senado fez história. Pela primeira vez em mais de um século, uma indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF) foi vetada na sabatina. Os senadores de oposição realizaram um importante trabalho, com comentários que desconstruíram a farsa criada por Jorge Messias e perguntas que expuseram suas contradições entre promessas futuras e passado concreto.

 Durante a sabatina, lembrei até da piada em que o Diabo mostra um Inferno maravilhoso e animado para o recém-morto, e depois que ele se encanta e escolhe passar a eternidade lá, descobre que era tudo mentira, que só há cinza, calor infernal e tédio absoluto. 

Antes ele era potencial cliente e o Capeta estava em campanha; depois era tarde demais, pois o contrato vitalício já havia sido assinado. Republicano, sereno, constitucionalista, cristão, defensor das liberdades e contra o aborto: eis a roupagem conservadora usada pelo indicado de Lula. 

Aí você lembra que é só um ator. Que petista jamais será Reagan, Thatcher ou Churchill. Eles sabem o que é certo e popular, mas se recusam a fazer na prática. “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”, disse La Rochefoucauld. 

O governo Lula torrou cerca de R$ 12 bilhões em emendas parlamentares para comprar votos e aprovar seu despachante, mas o centrão embolsou o dinheiro e não entregou a aprovação do ministro da AGU. O recado foi claro: Alcolumbre se mobilizou contra Lula, pois queria Pacheco no STF. Lula declarou “guerra” após a derrota. E o Brasil torce pela briga nesse caso. 


A manobra de Davi Alcolumbre para tentar colocar Rodrigo Pacheco no STF impõe uma dura derrota a Lula e deflagra uma guerra aberta nos bastidores de Brasília - Foto: Lula Marques/ Agência Brasil


Eu não sei o que vem por aí. Ninguém sabe. Mas só sei que estamos perdendo a guerra faz tempo e temos todo direito de celebrar a vitória em uma batalha importante. Depois de ver a cena do deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL e da oposição na Câmara, beijando a testa de Messias antes da sabatina, muita gente quase jogou a toalha: puro suco de Brasil. Mas o dia terminou com uma vitória inesperada para a maioria. 

“Bessias” barrado. Veto da Dosimetria cai. Mudança na jornada 6×1 é rejeitada. Alcolumbre, após guerra declarada pelo Lula, tira da gaveta um pedido de impeachment de Moraes ou Toffoli. Estão deixando a gente sonhar? Talvez seja delírio. Mas sem dúvida essa derrota de Lula e seu capacho alimenta a esperança de que mais mudanças importantes possam vir pela frente. Ninguém aguenta mais tanto abuso supremo. 

A decepção ficou por conta do ministro André Mendonça. Talvez pelo “corporativismo evangélico”, o mesmo que pode explicar o afago exagerado de Sóstenes em Messias, o ministro “terrivelmente evangélico” lamentou profundamente a derrota do colega na sabatina: “Respeito a decisão do Senado, mas não posso deixar de externar minha opinião. O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo. Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF.

E amigo verdadeiro não está presente nas festas; está presente nos momentos difíceis. Messias, saia dessa batalha de cabeça erguida. Você combateu o bom combate! Deus o abençoe! Deus abençoe nosso Brasil!”.


O lamento público de André Mendonça pela derrota do candidato governista expõe um corporativismo religioso que fala mais alto do que a isenção esperada de um ministro do STF | Foto: José Cruz/Agência Brasil


Deus abençoe nosso Brasil, sem dúvida! E por isso mesmo nos sentimos abençoados com essa derrota. Afinal, tudo que os brasileiros decentes não merecem nesse momento é mais um lulista na Corte Suprema, para perseguir conservadores e censurar cidadãos que criticam o presidente condenado por corrupção. O governo e o STF precisam dar uma guinada para que possamos endireitar o país. 

E a lição que fica para a oposição é esta: cada um tem seu papel nessa luta, e a união faz a força. Não importam tanto os motivos, que nem sempre serão nobres; importam os resultados. Assim como foi importante ter Eduardo Cunha ao lado para o impeachment de Dilma, foi crucial contar com Alcolumbre e seus colegas do centrão para essa derrota de Messias. 

Essa mentalidade será fundamental para uma vitória da direita em outubro…

Rodrigo Constantino - Revista Oeste