sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Folha faz apologia à corrupção e ao golpe. Dá espaço para Lula, o corrupto, pregar eleições já

Cátia Seabra - Folha de São Paulo


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta quinta (19), que o PT se dedique a uma campanha pela antecipação das eleições presidenciais de 2018.

"Não podemos esperar 2018. Precisamos saber se temos forças para antecipar. A gente pode suportar. Mas o brasileiro não aguenta esperar", afirmou.

Falando para cerca de 400 militantes petistas, Lula apelou para que superem suas divergências. O ex-presidente disse que o PT precisa apresentar propostas capazes de reconquistar o eleitor, em vez de se apresentar como um partido de "oposição, contestação e protesto".

Segundo ele, isso é para "partido que tem quatro deputados".

"Não podemos fazer uma ação política de resistência. Gritamos 'Fora Temer', e o Temer está lá. Gritamos 'não vai ter golpe' e teve".

Alice Vergueiro/Folhapress
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa do 6º Congresso Nacional do PT
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa do 6º Congresso Nacional do PT

Líder das pesquisas eleitorais no primeiro turno, embora perca na maioria dos cenários em segundo turno, ele listou, entre suas propostas, medidas para aquecimento da economia, ainda que seja necessário o aumento da dívida pública.

Lula foi recebido aos gritos de "Volta, Lula" e "Brasil Urgente, Lula presidente". 

Ao discursar no ato de lançamento do congresso nacional do partido, programado para junho, ele pediu que o partido faça uma reflexão sobre suas derrotas.

"A esperança que construímos no país virou uma certa desesperança", reconheceu.

Durante discursos, a plateia exibia cartazes criticando a possibilidade de acordo com partidos da base governista para a eleição no Congresso gritava "Fora Temer" e "Maia não".

As 5 Vantagens de fazer um MBA em cidades pequenas

Paula Braga - O Estado de São Paulo

Um texto ótimo para abrir a cabeça em relação à escolha da universidade que pretende prestar nos Estados Unidos pela coach e amiga, Livia Zillo.  Aproveitem!


A decisão de realizar um MBA nos Estados Unidos sempre vem acompanhada da empolgação de morar em cidades como New York e Los Angeles, centros urbanos que já foram tema de inúmeros filmes de Hollywood e estão sempre no radar dos brasileiros que adoram viajar.
livia-1
Muitos candidatos à procura do programa de MBA mais adequado se apaixonam por NYU, Columbia, UCLA ou Stanford, porque já sabem que acompanhada dessa experiência estudantil vem a chance de morar por um ou dois anos nas metrópoles que abrigam essas excelentes escolas. Nesse processo de seleção, muitas escolas são desconsideradas por estarem localizadas em cidades pequenas, normalmente do interior americano. Escolas de Negócio como Darden, Kenan-flagler, Olin, Binghamton, e outras, oferecem excelentes programas de MBA com as inúmeras vantagens de cidades pequenas. Dentre estas vantagens, as que mais se destacam são:

1. Baixo custo de vida
Uma das maiores vantagens das cidades universitárias é financeira! Os aluguéis são muitos mais acessíveis do que em metrópoles e a condução, quando não é de graça, possui um custo simbólico. Outros custos que você economiza no seu budget: estacionamento, móveis (muitas lojas de artigos usados em excelente estado ou semi-novos), gasolina (pois você se locomove bem menos e enfrenta pouco trânsito), restaurantes, entre outros.

2. Atividades sociais e culturais
Uma cidade universitária não terá a mesma gama de museus ou atrações turísticas e artísticas do que New York City por exemplo, no entanto, o conselho da cidade e a própria universidade se encarregam de manter diversas atividades sociais e culturais na agenda. Peças de teatro, concertos musicais, inúmeras festas, reuniões e maratonas de corrida são frequentemente organizadas, então acredite, você sempre estará ocupado. Próximo à maioria das cidades universitárias, normalmente existem metrópoles onde concertos e restaurantes renomados existem e você facilmente consegue acesso a ingressos de shows e reservas. Assim você escolhe quando decide ter mais sossego ou mais agito!

3. Mais energia e foco
A vida de um estudante de MBA gira em torno de diversos acontecimentos que se desenrolam ao mesmo tempo. Os sociais com os amigos, os cursos, provas, trabalhos em grupo, networking com empresas, semanas de career trek, apresentações, recrutamento, e entre tantas outras atividades. Morando em uma cidade pequena, o gasto de energia que o estudante dispende para realizar todas essas atividades é muito menor do que morando em uma metrópole, onde você precisa considerar coisas como trânsito e em que parte da cidade será a reunião do grupo. As metrópoles também apresentam uma variedade enorme de atividades, que segundo os estudantes, podem distrair e gerar frustação por simplesmente não poderem participar de tudo.

4. Infraestrutura de cidade grande
Quem julga que cidades americanas universitárias são despreparadas e atrasadas economicamente, muito se engana. Excelentes e conhecidos mercados, shoppings, outlets, cinemas, teatro, academias, hotéis, estão também localizados nestas cidades pequenas ou em cidades muito próximas. A estrutura e qualidade de vida nada deixa a desejar!

5. Comunidade
Durante o MBA, logo o estudante entende que as pessoas a seu redor são sua nova, não tão provisória família. O senso de comunidade é muito maior nas cidades universitárias, uma vez que a menor quantidade de atividades aleatórias pela cidade acaba concentrando os alunos em programas em comum, incentivando fortes laços de conexão e companheirismo.

Como moradora de uma cidade universitária há um ano e meio, e viajante frequente eu posso atestar que a qualidade de vida e as experiências são muito mais significantes por aqui. E depois de experimentar essa vida completa e agradável, New York eu só quero por um fim de semana!
livia-3
Livia Zillo
Com 10 anos de experiência na carreira acadêmica e um Doutorado em Ciências, ela decidiu praticar olhar o mundo além das lentes de um microscópio e tornou-se Coach de Vida, de Carreira e Consultora de MBA. Viajante e curiosa, é instigada por desafios e apaixonada por fazer a diferença na vida de seus clientes. Vive nos Estados Unidos, na redoma do MBA como esposa de estudante e acompanha o processo de pertinho, enquanto se desenvolve pessoal e profissionalmente.

"À espera de algo mais do que corte de juros", editorial de O Globo

Há uma agenda de discussão sobre as causas de taxas elevadas no país, mas também acerca das razões que levam a economia a conviver com um elevado custo do dinheiro


A aceleração dos cortes na taxa básica de juros (Selic), pelo Conselho de Política Monetária, do Banco Central, gerou uma compreensível melhoria no ânimo diante de 2017. 

Depois de duas reduções consecutivas de 0,25 ponto, a mudança de patamar no corte para 0,75, ficando a Selic em 13%, reflete, por óbvio, uma percepção otimista da direção do Banco Central diante do comportamento da inflação nos próximos meses. Percepção compartilhada com o mercado.

O BC, conforme a ata da última reunião do Copom, continua a trabalhar com uma estimativa de aproximadamente 4% para a inflação deste ano — contra 6,29% em 2016 —, abaixo da meta de 4,5%. Já o mercado, cujas projeções são reunidas no relatório Focus, divulgado pelo BC, reduziu a mediana de suas estimativas, em uma semana, de 4,81% para 4,5%.

O sentido positivo de sondagens, projeções e análises foi confirmado pelo próprio presidente do BC, Ilan Goldfajn, em entrevista, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, em que disse ser a diminuição de 0,75 ponto da Selic o “novo ritmo” da política monetária.

O conteúdo da ata do último Copom e a declaração de Goldfajn levam os analistas a refazer projeções. Os efeitos são benéficos em geral, inclusive na questão fiscal, porque a diminuição de juros corta também as elevadas despesas na remuneração dos títulos públicos.

Como todo presidente de banco central, Ilan evita compromissos com tendências de política monetária, bem como rejeita relacionar a decisão do Copom de acelerar os cortes na Selic à conjuntura recessiva e de elevado desemprego. Tem sido a perda de pressão da inflação que leva o Copom a relaxar a política monetária —, e tudo pode ser revertido caso este cenário troque de sinal.

O fato é que, devido às características brasileiras, os juros ocupam um espaço no debate econômico maior do que em outros países. Isso porque, salvo curto período sob Dilma em que as taxas foram reduzidas de forma voluntarista e tiveram de subir novamente diante da inexorável elevação da inflação, os juros, desde a redemocratização, têm sido elevados.

Há intenso debate acadêmico sobre o assunto. E de fato é necessário tratar das causas desta tendência patológica brasileira de a economia ter de conviver com um dos referenciais básicos de qualquer sistema produtivo, os juros, fora do esquadro em termos mundiais.

É certo que descontrole nos gastos é parte do diagnóstico, e também um mercado de crédito muito regulado, com grande parcela de financiamentos subsidiados.

E há ainda a questão mais ampla dos próprios incentivos ao crescimento. A redução de juros não é por si só suficiente para fazer a economia voltar a crescer. São necessárias ações específicas com este objetivo. A agenda do crescimento, portanto, vai além da Selic.


 


 

"Alegria e dor nos calendários", por Deonísio da Silva

Com O Globo

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda


A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis.

Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas.

O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro.

Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc.

Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos.

Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do Latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação.

As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor.

Os cardeais da Santa Sé, príncipes herdeiros da monarquia mais antiga do mundo, vestem vermelho ou púrpura, esta última a cor preferida das altas insígnias da realeza e da magistratura. De resto, tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar.

O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday.

Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo Latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender.

Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”.

A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos.


Paulo Nogueira Batista Jr.: "Tempo cruel"

Com O Globo

Otto sobrevive como personagem de Nelson Rodrigues


Otto Lara Resende, figura pública e escritor célebre em sua época, é hoje quase ignorado. 

As novas gerações não têm a mais vaga ideia de quem possa ter sido — um exemplo notável de como o tempo pode ser cruel com celebridades de certo feitio. Curiosamente, Otto sobrevive não pelos seus escritos, mas como personagem folclórico de um dos seus amigos: Nelson Rodrigues — este, sim, até hoje lembrado, lido e citado.

Com 13, 14 anos, eu já gostava de ler jornal. Lia inclusive os artigos do Nelson e do Otto no GLOBO. Os do Otto não me tocavam. Faltavam vivacidade e vibração. As crônicas do Nelson eram mais turbulentas e interessantes. Ele desancava sem dó os ídolos da esquerda, entre eles Godard, aquele cineasta francês. Eu nunca ia ao cinema e não tinha noção da Nouvelle Vague, mas achava Godard o fim.

Otto tinha perfil diferente. Era um inigualável frasista e contador de casos. O Nelson costumava dizer que o Estado brasileiro deveria pagar um taquígrafo para ir atrás do Otto, anotando o que ele dizia, as pérolas, as críticas certeiras, as frases cintilantes, os paradoxos surpreendentes, tudo que ele mesmo nunca chegava a botar no papel. O Otto verbal e sonoro, ao vivo e a cores, formava um contraste intrigante com o Otto escrito e publicado, bolorento e insípido.

Décadas depois, fui apresentado ao Armando Nogueira, que conheceu bem tanto o Nelson como o Otto. Falamos sobretudo do Nelson, mas a certa altura da conversa comentei a dissonância entre a pessoa física e a pessoa literária do Otto. O Armando concordou e contou que o próprio Nelson dizia que, para escrever bem, o Otto teria que, primeiro, ser “currado por três crioulões no Aterro do Flamengo”.

O Otto era provavelmente um pouco almofadinha, levava uma vida privilegiada, gostava de um conforto, de aninhar-se em empregos e posições de destaque. Não podia arriscar, portanto. Tinha que contemporizar, silenciar, fazer concessões. Já o Nelson não fugia de polêmicas. Ao contrário, gostava de cultivá-las, não tinha medo de ser desagradável, de fustigar as idiotices triunfantes.

Nietzsche dizia que o grande homem tem que ser contra o seu tempo. Para alcançar a imortalidade, ele não pode ser um participante pacífico e acomodado da sua época e dos preconceitos da sua época. E, realmente, sem a coragem — que talvez seja a virtude primordial — o brilho, a criatividade, a inteligência caem no vazio, não têm sobrevida. Não por acaso, foi Nelson, e não Otto, que ficou para sempre. Nelson, contestado e até odiado em seu tempo, entrou para a História. Otto sobrevive, na melhor das hipóteses, como personagem do amigo, na ilustre companhia do Sobrenatural de Almeida, do Palhares (aquele que não respeitava nem as cunhadas), da Cabra Vadia e da Grã-Fina das Narinas de Cadáver.

O Armando Nogueira me relatou, na mesma ocasião, um episódio emblemático. Um dia, o Nelson e o Otto estavam caminhando pela Avenida Atlântica. O Otto disse: “Nelson, você está atacando demais as esquerdas!”.

O Nelson ouviu a advertencia do amigo e indagou: “Voce acha realmente que eu ataco demais as esquerdas?”. O Otto resolveu ser mais enfático: “Qualquer dia você leva um tiro!”. O Nelson, espantou-se: “Corro mesmo o risco de levar tiro?”. O amigo confirmou, sem pestanejar. O Nelson ficou pensativo um instante e então perguntou: “Se eu morrer, você escreve a meu respeito?”. O Otto: “Claro!”.

E o Nelson: “Mas exagera, viu, exagera!”.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

"Trumponomics em marcha", por José Paulo Kupfer

Com O Globo

A economia brasileira é candidata a enfrentar sacolejos derivados da acomodação de Trump aos paineis de controle da Casa Branca


Começa hoje um dos experimentos internacionais potencialmente mais explosivos nessas últimas sete décadas pós-Segunda Guerra. A chegada de Donald Trump à Presidência do país mais influente do planeta, não por coincidência também a maior e mais inovadora economia do mundo, é, sem exagero, um evento com ares assustadores.

Todas as expectativas de que o bilionário falastrão e narcisista moderaria suas atitudes e ameaças — depois de, com elas, seduzir um eleitorado tão desconfiado das instituições políticas e sociais quanto desesperançado com os rumos da economia — não resistiram ao período de transição entre a eleição e a posse. Trump não só continuou agredindo e comprando briga com meio mundo, como reafirmou a disposição de aplicar as ideias geopolíticas e econômicas protecionistas e xenófobas que anunciou ao longo da campanha presidencial.

Resta a crença no poder moderador do célebre sistema de pesos e contrapesos da democracia americana. Ele foi testado inúmeras vezes nos últimos 240 anos e, no final, sempre se saiu bem. Agora, com as duas casas do Congresso sob domínio dos republicanos, que, apesar de discórdias internas, levaram Trump ao topo, os riscos de que não aguente o tranco se amplificaram.

A economia sob Trump, se ele levar adiante as promessas de campanha, viverá conflitos variados, com repercussões importantes para o resto do mundo. As políticas fiscal e monetária tenderão a ir cada uma para um lado, promovendo tensões também na área área cambial. A expansão fiscal embutida no “programa" econômico do novo presidente pode esbarrar na previsível — e já insinuada — reação da política de juros do Federal Reserve, o banco central independente americano.

A base do protecionismo de Trump, além do poder de dissuasão política do qual o presidente dos Estados Unidos é naturalmente investido, se assenta em um dólar mais desvalorizado ante as demais moedas, principalmente aquelas de grandes exportadores para o mercado americano — China, Japão e outros asiáticos, Alemanha e outros europeus, México. Um dólar que estimule exportações e iniba importações, contudo, depende de uma taxa de juros de referência relativamente mais baixa. As pressões inflacionárias que o corte de impostos e uma expansão nos gastos públicos — com redução de despesas sociais, mas aumento nos investimentos em defesa e infraestrutura —, acenados por Trump, podem deflagrar pressões inflacionárias que conduziriam a contrações da política monetária, com elevação de juros e, em consequência, viés de valorização para a taxa de câmbio.

Não há uma diferença essencial, três décadas e meia depois, entre o Reaganomics, do então presidente Ronald Reagan, nos anos 80, e o Trumponomics, em marcha a partir de hoje. A lógica de estimular a oferta, com redução de tributos e aumento de gastos, como forma de promover emprego e gerar crescimento, só funcionou no curto prazo e exigiu, para enfrentar uma inflação que já avançara para dois dígitos ainda no governo anterior, do democrata Jimmy Carter, e continuou acima de 10%, nos primeiros anos do presidente republicano Ronald Reagan, taxas de juros exorbitantes, sobretudo para a economia americana, nas alturas de 20%.

A pancada nos juros americanos resultou, sobretudo nos países emergentes — então ainda chamados, talvez mais apropriadamente, exceto China e Coreia, de “em desenvolvimento” —, caso bem definido do Brasil, em crises de dívida externa e décadas perdidas de crescimento. Não com a mesma intensidade, abrangência ou duração, o perigo com Trump é a reprodução daquele cenário de dificuldades.

Parece inevitável uma reciclagem dos capitais financeiros em direção aos Estados Unidos, com implicações negativas nos mercados cambiais e, mais ainda, no conjunto das dívidas externas carregadas pelas empresas de países emergentes. Nesse conjunto, a economia brasileira, antes que perguntem, embora mantenha posição confortável em reservas internacionais, é sim candidata a enfrentar sacolejos derivados da acomodação de Trump aos painéis de controle da Casa Branca.



Nelson Motta: "A escola dos sonhos"

O Globo

Era o que eu queria: desenhar móveis, eletrodomésticos, logomarcas, cartazes, capas de livros e de discos


Entrei na Faculdade Nacional de Direito com 18 anos, sem a menor convicção ou vocação. 

Logo na primeira semana, detestei tudo, as aulas chatíssimas, a política estudantil no diretório. Fiquei quase dois anos enrolando, não ia nunca e nem fazia provas. Eu gostava mesmo era de música, fazia letras, tinha um conjunto com Francis Hime, mas não podia viver daquilo. Tinha que ser doutor. Minha mãe ameaçava: “Se você não se formar, vai ser a vida inteira ‘seu’ Nelsinho.”

Por mais que lhe agradasse ter um herdeiro do seu escritório de advocacia, diante de minha total inaptidão, meu pai sentenciou: “Larga essa merda. Você não tem nada a ver com isso.”

Em 1965, saí da faculdade e, sem muito entusiasmo, pensei em fazer Arquitetura. Mas quando soube que o governador Carlos Lacerda tinha criado uma moderníssima faculdade de design, a Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), vi que era isso que eu queria, desenhar móveis, eletrodomésticos, logos, cartazes, capas de livros, de discos.

Vestibular duríssimo, mais de 700 concorrentes para 30 vagas. Estudei muito e passei.

A Esdi era uma maravilha, aprendíamos Teoria da Informação com Décio Pignatari, História da Arte com Flávio de Aquino, Fotografia com Humberto Franceschi, Design com o alemão Karl Heinz Bergmiller, tínhamos oficinas de metal, de madeira, de gesso, laboratório de fotografia e até uma moviola, em que foram montados vários filmes do Cinema Novo.

Eu amava a Esdi, mas, depois de três anos felizes, seduzido pelas aulas de Comunicação do mestre Zuenir Ventura, fui fazer um estágio no “Jornal do Brasil” e, três meses depois, era contratado e abandonava a escola, onde aprendi muito para minha vida profissional, assim como os ex-alunos Euclydes Marinho, grande roteirista de “Malu mulher” e “Felizes para sempre?”, e o celebrado fotógrafo Walter Carvalho, diretor de “Raul, o início, o fim e o meio”.

Hoje fiquei sabendo que a Esdi vai fechar, vítima da falência do Estado do Rio, da incompetência e corrupção de seus governos. Tenho vontade de chorar, tenho que fazer alguma coisa, nem que seja uma crônica no jornal.