terça-feira, 30 de agosto de 2016

Janaina Paschoal chora e rebate Dilma em sessão no Senado

A advogada Janaina Paschoal
A advogada Janaina Paschoal (Alessandro Shinoda/Folhapress)
Veja
A advogada de acusação do processo de impeachment, Janaina Paschoal, chorou no final de sua fala a favor do afastamento definitivo de Dilma Rousseff. Janaina usou seu tempo de acusação para rebater pontos da defesa da petista, mas se emocionou e pediu desculpas à presidente afastada durante sessão da fase final do julgamento do impeachment no Senado Federal, nesta terça-feira.
“Finalizo pedindo desculpas à senhora presidente. Não por ter feito o que fiz, mas por eu ter lhe causado sofrimento. Sei que a situação que está vivendo não é fácil. Muito embora não fosse meu objetivo, causei sofrimento. E eu peço que ela [Dilma Rousseff], um dia entenda que eu fiz isso pensando também nos netos dela”, disse emocionada.
Durante seu discurso, Janaina rebateu as falas sobre misoginia da presidente na sessão desta segunda no Senado e disse que ninguém pode ser “perseguido por ser mulher”, mas também “ninguém pode ser protegido por ser mulher”. A advogada afirmou que agiria da mesma forma caso a presidente fosse homem.
Janaina, que é uma das signatárias do impeachment, também citou Deus ao longo de seu tempo de fala. “Se tiver alguém fazendo algum tipo de composição neste processo é Deus”, se referindo às menções da defesa e da própria presidente afastada de que foi vítima de conluios de partidos da oposição e do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Vice de Janot participa de ato ‘contra o golpe’ e anti-Temer - Vídeo

Rodrigo Rangel - Veja




Em vídeo, número dois da PGR aparece segurando faixa em protesto que chama o processo de impeachment de golpe e pede a saída do presidente em exercício


Vice-procuradora-geral da República Ela Wiecko
Ela Wiecko, vice-procuradora-geral da República: a número dois de Rodrigo Janot participou de manifestação contra o que chama de “golpe” (Igo Estrela/ Futura Press/VEJA)
Era para ser apenas mais um ato de militantes contrários ao impeachment de Dilma Rousseff. Desta feita, a manifestação, para denunciar o que os partidários da petista chamam de “golpe”, fora em Portugal, na companhia do acadêmico Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra. Em alto e bom som, os presentes gritavam “Fora, Temer”. A gravação do ato foi parar na internet, como parte do plano de mostrar a mobilização internacional contra a queda de Dilma.
“Somos contra o golpe, a favor da democracia no Brasil, e tudo faremos internacionalmente para mostrar que esse golpe é realmente um golpe que visou com que os golpistas tentassem parar a luta contra a corrupção que estava a ser iniciada no Brasil. É preciso que os golpistas não tenham seu caminho aberto, é preciso, para isso, que os honestos regressem à política e que a democracia volte a vigorar em toda a sua plenitude no Brasil”, diz Sousa Santos, antes de ser seguido pelos manifestantes erguendo cartazes contra o presidente interino, aos gritos de “Fora, Temer”.
Aqui no Brasil, o vídeo foi exibido na TVT, a TV dos Trabalhadores, ligada à CUT. Nada demais, não fosse um detalhe: entre os presentes, apresentados como estudantes de um curso de verão, aparece ninguém menos que a vice-procuradora-geral da República no Brasil, Ela Wiecko Volkmer de Castilho, número dois de Rodrigo Janot. A gravação data de 28 de junho deste ano. Ela Wiecko aparece segurando uma faixa onde se lê “Fora Temer. Contra o golpe!” –  de óculos escuros, aparentemente envergonhada, sem a empolgação dos demais, mas participando do ato.
Assista ao vídeo:
Ela Wiecko assumiu a vice-procuradoria-geral da República em 2013. Foi escolhida para o posto pelo próprio Rodrigo Janot. Por mais de uma vez, ela integrou a lista tríplice de candidatos ao posto máximo do Ministério Público. Atualmente, Ela Wiecko conduz, na Procuradoria-Geral, a “Operação Acrônimo”, que tem entre os alvos o governador mineiro Fernando Pimentel, do PT.
A VEJA, Ela Wiecko disse não ver problemas em participar da manifestação. “Eu estava de férias, em um curso como estudante. Não posso pensar nada? Não posso ter liberdade de manifestação? Isso é um pouco exagerado. Fui discreta, estava junto, e não tive protagonismo maior”, afirmou. “(Isso) é um patrulhamento que impede a pessoa de ser o que ela é.” Perguntada sobre o que pensa acerca do processo de impeachment, agora em sua fase derradeira no Senado, ela respondeu: “Eu acho que, do ponto de vista político, é um golpe, é um golpe bem feito, dentro daquelas regras. Isso a gente vê todo dia, é parte da política”.
A vice-procuradora-geral disse ver com reservas a figura do presidente em exercício, Michel Temer. “Tem muita gente que pensa como eu dentro da instituição (Ministério Público Federal). Eu estou incomodada com essas coisas que estão acontecendo no Brasil. Não me agrada ter o Temer como presidente. Ele não está sendo delatado? Eu sei que está”, afirmou, antes de encerrar a conversa, por telefone.

Alexandre Garcia e o depoimento de Dilma no Senado

G1 com Bom Dia Brasil


A presidente não se negou a responder às perguntas, mas não convenceu os seus críticos. Assunto para o comentário de Alexandre Garcia.
“A presidente, depois de discurso de 45 minutos, dispôs-se a responder perguntas até o fim da noite da segunda-feira. Foram 14 horas se submetendo a perguntas e as respondendo, o que é elogiável. Mas com esse gesto, ela participou do processo que chamou de golpe o tempo inteiro e coroou o longo período em que exerceu o direito de defesa. E não respondeu à pergunta sobre se considera que o presidente do Supremo, ao presidir o julgamento, estaria participando do que ela chama de golpe; tampouco respondeu à pergunta sobre ela considera ou não golpe o impeachment de Collor, de que o PT participou ativamente.
Ela respondeu à exaustão que não cometeu crime. Brilhou menos nas respostas aos seus opositores que no texto escrito, lido na abertura da sessão. Defendeu-se até o fim mostrando que o Brasil estaria no melhor dos mundos se ela não fosse atrapalhada pelas elites, a mídia, Eduardo Cunha e a crise mundial, mas não respondeu por que, na região, apenas Brasil, Argentina e Venezuela não cresceram no ano passado.
Ao fim do longo dia, observadores avaliaram que não houve alteração nas expectativas de voto dos juízes-senadores. E hoje será outro longo dia, talvez o último”, destaca o comentarista.




Míriam Leitão: "Dilma e as elites"

Com Alvaro Gribel -  O Globo

A presidente Dilma disse que as elites econômicas querem derrubá-la, porque sua eleição feriu seus interesses. Entre 2014 e 2015, o governo deu pelo menos R$ 94 bilhões só em redução de impostos às empresas, além de subsídios através do BB e do BNDES. Na sua defesa, ontem, atuaram Kátia Abreu e Armando Monteiro, que lideraram os donos de terra e a indústria.
Dilma citou várias vezes esse inimigo: “as elites econômicas e políticas”. O mesmo bordão do ex-presidente Lula. Sempre foi falso, mas agora soa ainda mais estranho diante dos fatos e números.
Segundo Kátia Abreu, a presidente foi a que mais ajudou o agronegócio e a CNA. A entidade reúne os grandes proprietários rurais e entre outras ações, nos últimos anos, tentou suspender a divulgação pelo Ministério do Trabalho da lista suja das empresas flagradas com trabalho escravo.
A política econômica do PT beneficiou os grandes empresários através das desonerações, dos subsídios, de barreiras comerciais, de decisões que favoreciam as empreiteiras contra o meio ambiente. O Tesouro elevou a dívida pública em 8% do PIB, R$ 500 bilhões, para transferir para o BNDES e, assim, o banco emprestar para empresas com subsídio. Foram muitas as políticas que favoreceram os empresários.
Os pontos do processo viraram motivo para um diálogo de surdos. Cada lado sustenta a sua convicção. Sobre o uso do Banco do Brasil, a presidente Dilma repetiu, até cansar os ouvidos alheios, que a lei é de 1992 e que os outros presidentes também deram “subvenções” ao Plano Safra. O problema não é o Plano Safra, mas o fato de que o Tesouro não pagou o que devia ao Banco do Brasil e isso se transformou em uma operação de crédito bilionária. Os bancos privados receberam em dia; os públicos, só depois de muita pressão.
A presidente Dilma foi bem no discurso lido, em que o ponto alto foi a luta da sua juventude. Acertou também ao mostrar a contradição do governo Michel Temer: o Brasil elegeu uma mulher e assumiu um grupo sem mulher alguma entre os ministros. Ao dizer — nove vezes no discurso lido — que o processo no Congresso é um golpe, ela mostrou que não estava ali para conquistar votos e preferia o confronto. Até nos pequenos detalhes. Um senador levantou uma questão, e ela respondeu que ele estava mal informado. Outro reclamou da falta de diálogo e nem recebeu resposta. Senadores faziam discursos políticos, e ela respondia com respostas técnicas nas quais frequentemente se perdia. Dilma se atrapalhou em datas e teses e deu respostas que pareceram contraditórias aos especialistas e incompreensíveis a quem não acompanha a economia. Que sentido faz falar em “tapering”? (A propósito: redução dos estímulos monetários americanos)
Dilma tem razão ao dizer que no programa que a elegeu não havia a proposta — apresentada agora pelo presidente Michel Temer — de teto para os gastos públicos por 20 anos. Não havia também a proposta de um tarifaço de energia que elevaria a inflação a dois dígitos. Pelo contrário, como lembrou ontem o senador Aécio Neves, no último debate antes das eleições, Dilma afirmou que a inflação era zero e que só os pessimistas diziam o contrário.
A presidente culpou a crise internacional pela queda de 3,8% do PIB no ano passado. Os fatos: dos 191 países cuja economia é acompanhada pelo FMI, 180 tiveram desempenho melhor do que o do Brasil. Nos dez que tiveram quedas maiores estão Líbia, em guerra, e Venezuela, em caos econômico e político.
Durante o governo de Dilma algumas questões sociais avançaram como a participação da mulher e dos negros na estrutura do governo. O meio ambiente foi desprezado em favor dos interesses das grandes empreiteiras. A política energética sofreu uma desastrada intervenção. Mas o governo está caindo por ter desrespeitado a lei que o PT não assinou, a Lei de Responsabilidade Fiscal, e por ter jogado o país na mais profunda recessão de que se tem notícia. As pedaladas não foram apenas no Plano Safra, foi a prática comum nos anos Dilma. As estatísticas fiscais foram fraudadas com truques que inventavam receita, escondiam despesas, e usavam bancos públicos como se fossem uma extensão do caixa do Tesouro. Foi sistemático, foi uma política de governo.

Adriano Pires: “O PT destruiu o setor elétrico”

Márcio Juliboni - O Antagonista e o Financista



Um dos maiores especialistas em energia do país, Adriano Pires diz que o governo Temer tem de perseverar para recolocar a casa em ordem



O Brasil vive uma temporada de rescaldo. Para cada lado que se olha, encontram-se ruínas fumegantes de setores atingidos pelas políticas desastrosas dos governos petistas. Um dos mais afetados é o elétrico, praticamente quebrado pela intervenção de Dilma, em 2012. “O PT fez uma política de terra arrasada no setor”, resume Adriano Pires, fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura. Confira os principais trechos da conversa com O Financista.

O Financista: O que significa a atual onda de empresas e ativos à venda no setor elétrico?

Adriano Pires:
 O setor elétrico foi uma grande vítima dos governos petistas, a ponto de ter sido praticamente destruído. Basicamente, o que Dilma quis fazer, com a medida provisória de 2012, foi baixar as tarifas em um momento de alta dos custos. Depois, quando ganhou a eleição, ela precisou dizer a verdade: o setor estava quebrado. Veio o tarifaço na conta de luz. Isso representou, na prática, um racionamento forçado de energia, já que os brasileiros reduziram o consumo diante do preço alto. Dilma literalmente desligou o setor elétrico.

O Financista: Como empresas de um setor quebrado podem atrair compradores?

Pires:
 Isso depende muito do modelo que o governo Temer adotará para o setor. Os ativos à venda não são ruins. O que é necessário é uma política setorial mais pró-mercado.

O Financista: Como?

Pires:
 Primeiro, mudando a regulamentação das distribuidoras, que foram as mais penalizadas pela política petista. Também é preciso criar uma política de venda de ativos da Eletrobras e tornar a Aneel mais transparente. Outra coisa que devemos considerar é que, nos últimos anos, a matriz elétrica ficou mais dependente de fontes intermitentes, aquelas que dependem de algumas condições para gerar energia, como a solar e a eólica. Além disso, as usinas a fio d´água também transformaram as hidrelétricas em fontes intermitentes: se há chuvas, temos energia; caso contrário, não. Precisamos reduzir a dependência em relação ao clima. Para isso, é preciso colocar as usinas térmica na base do sistema, e não apenas como backup.

O Financista: Mas as térmicas não encarecem a energia?

Pires:
 No fundo, elas podem ajudar a moderar a tarifa. Atualmente, elas só são ligadas em caso de escassez de oferta, quando as hidrelétricas estão com reservatórios baixos. Se elas estiverem na base, poderão balancear a oferta das hidrelétricas. Além disso, seriam usinas que consomem gás natural, que é mais barato e bem menos poluente. Outra iniciativa para baratear a energia é promover leilões regionais, com base nas vantagens comparativas de cada local: solar, eólica, hidrelétrica, termelétrica.

O Financista: Voltando a potenciais investidores: por enquanto, só os chineses demonstraram interesse.

Pires:
 As empresas chinesas são estatais e, portanto, sua lógica de investimentos é diferente da de empresas privadas. Até ontem, o Brasil apresentava um elevado risco político, econômico e regulatório. Isso praticamente proíbe investidores privados de se arriscarem por aqui. Já os chineses têm outra lógica: eles aumentam seus ganhos com uma estratégia casada de venda de equipamentos, por exemplo. Agora, com o governo Temer, os investidores privados devem voltar.

O Financista: Em quanto tempo o setor pode se recuperar?

Pires:
 É difícil dizer. Primeiro, porque o PT fez uma política de terra arrasada no setor. Segundo, porque vai levar tempo para arrumar tudo. O importante é que o dever de casa começou a ser feito. Se o governo continuar nesse rumo pró-mercado, acho que já podemos atrair investidores no ano que vem. O que devemos evitar são as empresas que se dispõem a trabalhar com “taxas de retorno patrióticas” – aquelas artificialmente baixas, apenas para promover populismo tarifário. Só dois tipos de empresas aceitam isso: aquelas que estão lucrando por outros meios, como vimos com as empreiteiras da Lava Jato, e as aventureiras, que não sabem onde estão entrando: assumem riscos indevidos, quebram e deixam todos na mão.

Foi há 500 anos que Leonardo da Vinci atravessou os Alpes de mula para chegar à sua última casa

Lucinda Canelas - UOL
Levava consigo a célebre Mona Lisa e milhares de desenhos e outros manuscritos. O mestre da Renascença passava, assim, a ser o pintor do rei de França. O seu atelier no palácio de Francisco I já está aberto ao público.

  • Em Setembro faz 500 anos que Leonardo da Vinci, um dos mestres incontestados do Renascimento, chegou a casa do seu último mecenas, o monarca francês Francisco I. Foi no Palácio de Clos Lucé, no Vale do Loire, a escassos 700 metros do castelo real de Amboise, que o artista italiano viveu os últimos três anos, dividindo o seu tempo entre a arte e a ciência. Trabalhava nos jardins e no atelier, rodeado de algumas das pinturas que fez questão de manter até ao fim, entre elas a célebre Mona Lisa, o retrato que ainda hoje continua a intrigar académicos e curiosos, dando origem a um sem-número de teorias, umas mais fundamentadas do que outras. Diz-se que recebia com frequência o rei, que para ali chegar percorria um túnel subterrâneo que liga o castelo ao palácio de meados do século XV e assim mantinha discretas as suas visitas ao pintor.
    As divisões que Leonardo (1452-1519) terá ocupado em Clos Lucé estão agora totalmente restauradas. Desde Junho, é possível percorrer três novas salas em que foi recriado o ambiente de trabalho do mestre, e que estavam até aqui encerradas. O seu atelier, a biblioteca e o gabinete de curiosidades (um espaço onde arte e ciências naturais se encontravam, “antepassado” daquilo a que hoje chamamos “museu”) foram recompostos com todo o cuidado, procurando reproduzir mobiliário, desenhos, frescos e até a luz ao mais ínfimo pormenor, recorrendo a documentação da época.
    Sobre a mesa vêem-se agora pigmentos vários – sanguínea e terra de Siena, entre muitos outros – e utensílios para trabalhar em papel e metal: há compassos e réguas, penas de ganso e pontas de prata, mas há também velas, lupas e pontas-secas que usava, certamente, para a gravura. Nas prateleiras estão arrumadas reproduções dos livros que nunca deixava para trás, grossos volumes em papel velino de obras de cientistas-historiadores como Claudio Ptolomeu e Plínio, o Velho.
    François Saint-Bris, presidente do Palácio de Clos Lucé, faz parte da família que em 1854 comprou esta propriedade carregada de história e abriu as suas portas ao público. Depois de 15 anos de trabalhos, que custaram 12 milhões de euros, inteiramente autofinanciados (este palácio-museu recebe 360 mil visitantes por ano), a última casa de Leonardo, a mesma onde o rei francês passou boa parte da infância, tem agora uma atmosfera muito próxima da que teria no Renascimento, disse ao diário francês Le Monde o presidente e proprietário: “Era preciso devolver a Leonardo o que lhe era devido – o espírito e a aparência do século XVI.”
    As obras de conservação e restauro que permitem mostrar Clos Lucé como ele seria quando o mestre da Renascença ali viveu e trabalhou fazem parte de um ambicioso projecto de intervenção que começou em 2003 com o restauro das fachadas do palácio e da capela e a criação do Parque Cultural Leonardo da Vinci, com 20 modelos das suas máquinas à escala natural. Seguiram-se melhoramentos no exterior do edifício e nos jardins  em 2008 foi inaugurado um espaço com muitas das mais de 300 espécies botânicas desenhadas pelo artista  até que, nos últimos seis anos, os trabalhos passaram a concentrar-se no interior.
    O quarto onde terá morrido e de onde se via muito bem o castelo do rei ficou terminado em 2011, enriquecido com preciosos móveis da época, escreve o diário francês, chamando a atenção para um contador napolitano em ébano e marfim que aparece em grande destaque nas fotografias do site oficial do palácio. Quatro salas na cave mostram o Leonardo-engenheiro em 40 modelos das suas máquinas construídos a partir dos esboços e das anotações que deixou. São aeroplanos, tanques, helicópteros, automóveis, máquinas visionárias que reflectem o génio de um homem que viveu sempre à frente do seu tempo e que, muito provavelmente, gostaria de ver instalado nos domínios de Clos Lucé, recentemente acrescentados, o centro de investigação em arte e ciência que a família Saint-Bris, segundo o jornal britânico The Telegraph, planeia ali ter construído até 2025.

    Três pinturas na bagagem

    Leonardo da Vinci tinha 64 anos quando atravessou os Alpes de mula, carregando três das pinturas em que trabalhou até morrer, a 2 de Maio de 1519. Segundo os relatos conhecidos, tê-lo-ão acompanhado nessa longa viagem o seu fiel criado milanês, Battista de Villanis, e Francesco Melzi, o discípulo dilecto a quem deixaria em testamento os seus manuscritos e desenhos. É que, além das pinturas – Mona LisaSão João Baptista e A Virgem e o Menino com Santa Ana –, Leonardo levava consigo milhares de notas e esboços sobre astronomia, hidráulica, anatomia, arquitectura, cosmologia, geologia e até paleontologia reunidos nos seus famosos cadernos, hoje espalhados por várias instituições em todo o mundo, como as bibliotecas Britânica (Londres) e Ambrosiana (Milão), o Museu Victoria & Albert (Londres) e o Castelo Sforzesco (Milão), a impressionante casa dos duques de Milão (um deles, Ludovico Sforza, foi o grande patrono do mestre da Renascença).
    Para perceber o papel que este palácio francês tem no seu percurso, é preciso lembrar que Leonardo chegou a França depois de ter passado vários anos de um lado para o outro em Itália. Tinha-se estabelecido finalmente em Roma, no Palácio Belvedere, quando conheceu Francisco I, um rei fascinado pela arte que parece ter encontrado naquele homem de 63 anos que já trabalhara para duques e papas, autor de A Virgem dos Rochedos e de A Última Ceia, uma verdadeira inspiração.
    Dizem alguns historiadores que Leonardo estaria cansado, sem dinheiro, e que não lhe seria indiferente o sucesso de alguns dos artistas seus contemporâneos, bastante mais novos do que ele, que naquela altura trabalhavam em grandes encomendas no Vaticano: Miguel Ângelo (1475-1564) estava a pintar o tecto da Capela Sistina e Rafael (1483-1520) fora chamado para decorar as dependências papais, ali mesmo ao lado.
    Não terá sido preciso muito, por isso, para que o artista aceitasse o convite do rei francês, que se prontificou a conceder-lhe uma avultada pensão anual e o título de “Primeiro Pintor e Engenheiro e Arquitecto do Rei”.
    Nos anos que viveu em Clos Lucé, além de pintar – pouco  e de dar continuidade às suas investigações nos mais diversos domínios do conhecimento, Leonardo não se cansou de trabalhar para o monarca. Concebeu festas sumptuosas, desenhou casas móveis capazes de acomodar uma corte em itinerância, projectou um sistema de canais e comportas ligando o Vale do Loire a Lyon, e deixou inacabados os planos para um castelo real em Romorantin, que deveria vir a ser a nova capital de França. Diz-se até que o projecto do Palácio de Chambord, um dos mais espectaculares do vale, tem a sua mão, embora não haja nenhuma prova concludente do traço do artista naquele que foi o pavilhão de caça de Francisco I.
    No Loire, o mestre italiano dedica-se, sobretudo, a projectos de engenharia, reservando algum tempo para receber a visita de cardeais e embaixadores, figuras de prestígio no círculo de Francisco I e noutras cortes europeias.
    Para muitos o palácio e os seus jardins estão hoje demasiado disneyficados; para outros, as reconstituições, seja do atelier e do quarto, seja das máquinas voadoras no jardim, ajudam a transportar os visitantes no tempo (mesmo que não cheguem a levantar voo). Pena é que as placas que indicam que se chegou a Clos Lucé tenham escrito “o lugar onde morreu Leonardo Da Vinci” e não “o lugar onde viveu”.
    O pintor florentino estava doente há já vários meses quando morreu. Ao contrário do que alguns românticos julgam ter lido nos textos de Giorgio Vasari (1511-1574), arquitecto e pintor italiano mais conhecido pelas suas biografias de artistas, não o fez nos braços do rei francês, que estava a pelo menos um dia de viagem. Mas isso não diminui a amizade que haveria entre ambos – dizem as crónicas citadas pela família Saint-Bris que Francisco I costumava chamar-lhe “pai”.

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