Alta ocorre às vésperas do lançamento do Desenrola 2.0, enquanto inadimplência segue elevada e juros permanecem em 14,5% ao ano
A proporção de famílias brasileiras endividadas alcançou 80,9% em abril de 2026, o maior patamar da série histórica registrada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Os dados foram divulgados na última quinta-feira, 7, pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.
O índice avançou 0,5 ponto porcentual em relação a março, quando estava em 80,4%, e registrou o quarto mês consecutivo de recorde histórico. O cartão de crédito segue como a principal modalidade de dívida entre os brasileiros, concentrando também algumas das taxas de juros mais elevadas da economia. Em seguida aparecem os carnês de loja e o crédito pessoal.
O aumento do endividamento ocorre na véspera do lançamento do Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas que será assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A primeira edição da iniciativa, lançada em 2024, reuniu cerca de 15 milhões de participantes.
Em ano eleitoral, Lula tem intensificado o discurso em defesa da redução do endividamento das famílias. Em evento recente, o presidente chegou a cobrar publicamente o ministro da Fazenda, Dario Durigan, para que “tente resolver” o problema das dívidas no país. A movimentação ocorre em meio ao desgaste da popularidade do governo. Segundo levantamento do portal Poder360, a desaprovação do petista atinge 61%, o msaior nível desde 2024.
Os dados da CNC mostram também deterioração nos indicadores de inadimplência. O porcentual de famílias com contas em atraso chegou a 29,7% em abril, acima dos 29,1% registrados no mesmo mês do ano passado. Já o índice de famílias que afirmam não ter condições de quitar as dívidas vencidas permaneceu em 12,3% pelo segundo mês consecutivo.
Entre os consumidores inadimplentes, quase metade — 49,5% — acumula débitos atrasados há mais de 90 dias. O tempo médio de atraso ficou em 65,1 dias, estabilidade observada pelo terceiro mês seguido. Segundo a CNC, a manutenção desse indicador decorre da melhora da renda média das famílias, embora o cenário geral ainda seja de forte comprometimento financeiro.
Endividamento cresceu entre todas as faixas de renda
Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, 83,6% possuem dívidas, e 38,2% têm contas em atraso. Na faixa entre três e cinco salários mínimos, o endividamento chegou a 82,8%, com inadimplência de 28%.
Entre os lares com renda de cinco a dez salários mínimos, 80,1% estão endividados, enquanto 22,7% enfrentam atrasos nos pagamentos. Já entre as famílias com renda superior a dez salários mínimos, o índice de endividamento atingiu 70,8%, com inadimplência de 15%.
A CNC avalia que o quadro deve continuar pressionado nos próximos meses. As projeções da entidade indicam nova elevação do endividamento em maio, dependendo do comportamento da renda e da inflação de itens essenciais, como energia elétrica e combustíveis. O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, afirmou que o atual nível da taxa Selic continua sendo um dos principais fatores para a manutenção do endividamento em níveis elevados.
“O aumento das incertezas no cenário econômico global levou a uma
recente revisão quanto ao ritmo de flexibilização da política
monetária no Brasil”, disse Bentes. “A percepção dominante
atualmente é que, até o fim do ano, os juros caiam menos que o
esperado anteriormente. Se confirmado esse cenário, os níveis de
endividamento tendem a se manter em patamares elevados por mais
tempo.