Perspectivas de ajuste fiscal ajudam a controlar a inflação, mas o que jogou a inflação para baixo foi a recessão e seu efeito nas contas externas
A inflação está em queda acelerada, segundo o Banco Central deve fechar 2017 no centro da meta, de 4,5%, e o mercado dá sinais de acreditar nessa possibilidade. Tendo recuperado a credibilidade perdida nos tempos de Dilma Rousseff, o BC iniciou um movimento consistente de cortes na taxa básica de juros, que deve levá-la a 9,5% anuais no fim do ano — ou, quem sabe, como alguns já começam a acreditar, até 7,5%. Isso produzirá um alívio para famílias e empresas endividadas, capaz de impulsionar a economia e fazê-la ingressar em terreno positivo no segundo semestre, com possibilidade de crescer acima de 1% no ano.
De acordo com os economistas que produzem essa narrativa perigosamente otimista — as estimativas de organismos multilaterais para o crescimento da economia brasileira em 2017 não passam, no momento, de 0,2% a 0,5% —, o circuito virtuoso que está em vias de se concretizar é o resultado dos novos horizontes descortinados depois do impeachment e das reformas endereçadas pelo governo Temer. Para eles, a imposição de limites aos gastos públicos, incluindo incontornáveis restrições numa excessivamente generosa Previdência Social, ataca os desequilíbrios fiscais, corretamente diagnosticados por uma equipe econômica competente, como o principal fator de constrangimento ao crescimento no Brasil.
Não é possível afirmar que esse desenho narrativo se enquadre na moderníssima categoria dos “fatos alternativos” — eufemismo de informação falsa ou pelo menos descolada da realidade, já costumeiro nas redes sociais e recém-invocado pela equipe de comunicação do presidente americano Donald Trump para justificar afirmações levianas do novo mandatário. Os desequilíbrios fiscais contribuem sem nenhuma dúvida para ampliar incertezas, que afetam as decisões de investimento, cruciais para assegurar os espaços do crescimento. Mas isso se dá, antes de qualquer outra razão, porque os desajustes fiscais restringem a capacidade de investir do governo — o elemento-chave não só para promover expansão direta da economia, mas, muito além disso, para induzir as inversões privadas.
Também é possível creditar a nova tendência de bom comportamento da inflação às promissoras expectativas quanto a um futuro equilíbrio fiscal. Mas aqui o argumento se mostra mais frágil. A inflação está caindo agora, e a contribuição efetiva do lado fiscal, que ainda não está totalmente garantida, bem ou mal, só produzirá efeitos a médio prazo.
Melhor creditar a queda da inflação à retração da demanda, configurada pelo maior e mais longo recuo histórico do PIB e a seus impactos em outros elementos cruciais para a marcha dos preços, em especial a taxa de câmbio.
Favorecida pelo anterior ajuste dos preços administrados e da cotação do dólar, é possível dizer, embora poucos digam — e os narradores da virtuosidade da atual política econômica estão entre os que não dizem nada a respeito — que a inflação desce a ladeira amparada no surpreendente resultado do setor externo, ele também obtido por causa da recessão duradoura e profunda, que mantém o câmbio sossegado. Um sobrevoo na história dos resultados obtidos com o sistema de metas de inflação dá sustentação empírica a essa suspeita.
Nos 18 anos transcorridos desde sua introdução em 1999, o tripé macroeconômico — metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal — só levou a inflação ao centro da meta em quatro ocasiões. Com exceção do resultado de 2000, nas outras três ocasiões, a balança comercial e o saldo em transações correntes foram excepcionalmente favoráveis. Em 2006, 2007 e 2009, quando também o centro da meta foi atingido, o setor externo bombou e o real pode se valorizar, puxando a inflação para baixo, sem pressão cambial.
É lícito concluir, diante dessa constatação, que, para controlar a inflação, o tripé só tem funcionado com o concurso de uma quarta perna — a do setor externo. Mesmo que não batam os recordes de 2016, as contas externas prometem manter muito bom desempenho em 2017. Um quase sinônimo de câmbio comportado, se o fator Trump não tumultuar demais os mercados globais de ativos, e, em consequência, de calmaria inflacionária.