Blog Ricardo Setti - Veja
Não era raro o elegante Bellini, retratado aqui em
1961, sair de campo com a cabeça sangrando, resultado do encontrão com
adversários
O
enigma do capitão Bellini
Reportagem de Natalia
Cuminale, publicada em edição impressa de VEJA
Bellini não conseguiu decorar um texto de míseras quatro linhas. “A partir daí, passei a prestar atenção e percebi que ele esquecia tarefas simples do cotidiano”, conta Giselda, mulher do jogador. “Se pedia que fizesse uma compra pequena no mercado, de cinco itens, por exemplo, ele voltava sem pelo menos dois produtos.” O diagnóstico médico, por exclusão, foi Alzheimer.
Nos dezesseis anos seguintes, a doença levou embora datas, nomes, rostos e lembranças. Completamente alienado do mundo e de si próprio, o elegante Bellini morreu aos 83 anos, em 20 de março último, de falência respiratória.
Neurologista do zagueiro desde 2008, o pesquisador Ricardo Nitrini desconfia, no entanto, de que seu paciente possa ter sido vítima de um distúrbio de sintomas muito semelhantes aos do Alzheimer, a encefalopatia traumática crônica. Mais comum entre jogadores de futebol americano e hóquei, lutadores de boxe e de MMA, a doença está associada a concussões frequentes na cabeça.
Como a diferenciação entre a encefalopatia e o Alzheimer só pode ser feita por meio da análise anatomopatológica, a família doou o cérebro de Bellini ao banco de encéfalos humanos, da Universidade de São Paulo, um dos maiores do mundo, do qual Nitrini é um dos diretores.
Hoje, fatias e fragmentos da massa encefálica do jogador estão guardados em lâminas de microscópio e freezers a 80 graus negativos, entre outros 3 000 cérebros. A causa da morte do capitão da seleção de 1958, que fez história também no Vasco e no São Paulo, deve ser definida até junho.
O cérebro de Bellini foi doado ao banco de encéfalos
humanos da USP, um dos maiores do mundo (Foto: Alexandre Schneider)
A suspeita de que Bellini tenha sido acometido pela encefalopatia traumática crônica está baseada em seu estilo de jogo. Com 1,82 metro, o zagueiro usava e abusava das jogadas aéreas. “Atleta de forte impulsão, ele foi um dos melhores cabeceadores que o Brasil já teve”, diz José Macia, o hoje treinador Pepe, ex-Santos e seleção.
Quando Bellini entrava em campo, as concussões eram
frequentes. A quantidade de cabeçadas dadas por ele ultrapassava em cerca de 30%
as cinco que um jogador sem o perfil de Bellini costuma dar em uma única
partida. Além disso, até a década de 80 as bolas eram feitas de couro e, em dias
de chuva, chegavam a pesar mais de meio quilo — hoje, graças aos avanços
tecnológicos, elas estão bem menos suscetíveis à absorção de água, e portanto
mais leves.
Inicialmente batizada como demência pugilística, a encefalopatia traumática crônica foi descrita pela primeira vez em 1928 num artigo da revista científica The Journal of American Medical Association (Jama) assinado pelo patologista americano Harrisson Martland. Seu estudo baseou-se em lutadores de boxe vítimas de tremores típicos do Parkinson, vertigem e alterações cognitivas, características do Alzheimer.
Em 1957, foi estabelecido que os primeiros sintomas da doença tendem a aparecer, em média, dezesseis anos depois do fim da carreira nos ringues. Há a suspeita de que o Parkinson de Muhammad Ali seja, na realidade, encefalopatia. Nove em cada dez pugilistas profissionais apresentam lesões cerebrais permanentes, decorrentes dos socos.
Mike Webster (camisa escura) morreu em 2002, aos 50
anos, vítima da encefalopatia traumática crônica (Foto: George Gojkovich/Getty
Images)
Há modalidades ainda mais suscetíveis a danos cerebrais. Em 2002, a violência do futebol americano começou a ser questionada. Depois de fazer a análise anatomopatológica do cérebro do jogador Mike Webster, do Pittsburgh Steelers, o patologista nigeriano Bennet Omalu, da Universidade da Califórnia, alertou para os perigos do esporte no desenvolvimento de problemas neurodegenerativos.
Conhecido como Iron Mike e considerado por muitos como o melhor jogador da liga nacional de futebol americano, Webster, ao morrer, em 2002, com apenas 50 anos, apresentava um quadro de demência, depressão e amnésia. Na ocasião, a NFL, liga de futebol americano, alegou que o esporte era seguro e acusou Omalu de praticar “medicina vodu”.
Em 2008, a neuropatologista Ann McKee, da Universidade de Boston, começou a estudar a encefalopatia traumática crônica. Hoje, ela possui um banco com mais de duas centenas de cérebros de ex-jogadores e tornou-se referência no assunto. “Se o cérebro é submetido a concussões repetitivas, num ciclo vicioso e sem que ele possa se recuperar, há o acúmulo de uma proteína chamada tau”, disse Ann a VEJA.
“É um processo extremamente tóxico que leva as células cerebrais à morte.” Um jogador de futebol americano sofre entre 900 e 1 500 concussões por temporada — o equivalente a até 93 batidas por jogo.
Define-se como concussão um golpe repentino na cabeça, levando a uma interrupção temporária na atividade cerebral. Um dos mecanismos mais comuns é quando o cérebro chacoalha.
“O choque contra as paredes do crânio leva às lesões”, diz o médico Renato Anghinah, chefe do serviço de reabilitação cognitiva pós-traumatismo cranioencefálico do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Toda vez em que há contusão, as células neurais podem morrer ou sofrer rupturas que as impedem de funcionar adequadamente.”
Com isso, ocorre a liberação da proteína tau, encontrada no interior dos neurônios. Duas horas depois da pancada, ela é depositada no cérebro e lá permanece por cerca de três meses. Se as concussões são frequentes, o depósito de tau é sempre renovado.
Na encefalopatia traumática crônica, a proteína tende a se depositar no tálamo, na amígdala e no córtex frontal, estruturas cerebrais responsáveis por manter as funções básicas do organismo, pelas emoções mais primárias e pelas funções executivas.
A ciência ainda busca desvendar os mecanismos por trás das concussões repetitivas. “Investigamos as diferenças genéticas entre os esportistas que desenvolvem a doença e os que permanecem saudáveis”, diz Ann. Ela foi a primeira a descrever um caso de encefalopatia traumática crônica em um jogador de futebol, o americano Patrick Grunge, em fevereiro deste ano.
Agora espera ansiosa pelos resultados da anatomopatologia do cérebro de Bellini.