domingo, 10 de maio de 2026

Conta dos cartões de Vorcaro usados por cúmplices chega a R$104 milhões

 

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Divulgação/Banco Master).


A investigação do Banco Master terá o desafio de identificar parceiros ou “amigos de vida” que usavam cartões de crédito ilimitados em nome de Daniel Vorcaro e expedidos pelo seu próprio banco. A suspeita é que entre 2019 e 2025 foram “distribuídos” mais de R$104 milhões a agentes públicos por meio de 80 a 90 cartões de crédito de Vorcaro que recebiam para gastar à vontade. Rastrear compras de investigados, como carrões. pode ser um começo, observa o deputado Evair de Melo (PP-ES).

Cartões ‘na faixa’

Eles usavam cartões e senhas do banqueiro e podiam gastar como quisessem, como no aluguel de jatinhos, jantares e viagens de luxo.

CPMI quis investigar

Os gastos de Vorcaro em cartões chamaram a atenção da CPMI do INSS, lembra Evair, mas a maioria governista barrou a investigação.

Mensagens trocadas

Suspeitos negam que Vorcaro tenha pagado seus cartões. Verdade: ele pagou boletos em seu nome, mas os gastos foram feitos pelos “amigos”.

Vazou, entregou

Conversa vazada de Vorcaro com Léo Serrano, seu operador financeiro, trata do pagamento de cartões com Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo.

Diário do Poder

Karl Marx e seu caminho escatológico para o comunismo, por Murray N. Rothbard

 

Karl Marx, como o mundo sabe, nasceu em 1818 em Tréveris, uma venerável cidade na região da Renânia, quando o local ainda pertencia à Prússia.  Marx era filho de um ilustre jurista e neto de um rabino.  Efetivamente, o pai e a mãe de Marx eram descendentes de rabinos. O pai de Marx, Heinrich, era um racionalista liberal que não teve problema algum com sua conversão forçada ao luteranismo, a religião oficial, em 1816.  O que é pouco conhecido é que, ainda criança, Karl Marx, já batizado, era um dedicado cristão. 

Em seus ensaios escritos 1835, época de sua formatura no Gymnasium, o jovem Marx já apresentava indícios de como seria seu desenvolvimento futuro.  Seu ensaio acerca do tópico “Sobre a União dos Fieis a Cristo” apresentava um conteúdo evangélico ortodoxo, mas também continha alusões ao fundamental tema da “alienação” que mais tarde ele encontraria em Hegel.  A discussão de Marx sobre a “necessidade da união” a Cristo enfatizava que esta união colocaria um fim à tragédia da suposta rejeição de Deus aos homens não predestinados, como pregam os protestantes. Em outro ensaio, “Reflexões de um Jovem Sobre a Escolha de uma Profissão”, Marx expressava preocupação quanto ao seu próprio “demônio da ambição”, a grande tentação que ele sentia em “atacar Deus com veemência e amaldiçoar a humanidade”.

Tendo primeiro frequentado a Universidade de Bonn e depois a prestigiosa nova Universidade de Berlim para estudar Direito, Marx rapidamente se converteu ao ateísmo militante, mudou de curso para filosofia e se juntou a um Doktorklub formado por jovens hegelianos (de esquerda), dos quais ele rapidamente se tornou líder e secretário geral.

A guinada ao ateísmo rapidamente deu ao “demônio da ambição” de Marx o total controle sobre sua mente. Particularmente reveladores sobre o caráter tanto do Marx jovem quanto do Marx adulto são os vários poemas que ele escreveu, a maioria deles perdidos até serem recuperados em anos recentes.[1]  Quando os historiadores discutem estes poemas, eles tendem a desprezá-los como sendo rudimentares anseios românticos; mas o problema é que estes poemas são coerentes demais com as doutrinas sociais
e revolucionárias de Marx para serem negligentemente descartados.  Seguramente temos aqui uma situação em que um Marx unificado (o jovem e o velho) é revelado de maneira vívida e incisiva.  Assim, em seu poema “Sentimentos“, dedicado à sua namorada de infância e futura esposa Jenny von Westphalen, Marx expressava sua megalomania e sua enorme sede de destruição:

O paraíso eu abrangeria,

Traria o mundo para mim;

Vivendo, odiando, planejaria

Que minha estrela brilhasse forte até o fim.

E

… Mundos para sempre eu destruiria,

Já que não posso criar nenhum outro mundo;

Já que meu clamor ninguém perceberia.

Esta é uma clássica expressão do suposto motivo do ódio e da rebeldia de Satanás contra Deus.

Em outro poema, Marx escreve sobre seu triunfo após ele ter destruído o mundo criado por Deus:

Com desdém lançarei meu desafio

Bem na face do mundo,

E verei o colapso desse pigmeu gigante

Cuja queda não extinguirá meu ardor.

Então vagarei semelhante a um deus,

Vitorioso, pelas ruínas do mundo

E, dando às minhas palavras uma força dinâmica,

Sentir-me-ei igual ao Criador

E em seu poema “Invocação de Alguém em Desespero“, Marx escreve:

Estabelecerei
o meu trono muito acima de todos

Frio e monstruoso será o seu topo

O pavor supersticioso será a sua base

E a negra agonia será o seu condutor.[2]

O tema satânico é explicitamente apresentado em seu poema “O Violinista“, dedicado a seu pai:

Os vapores infernais elevam-se

E preenchem o meu cérebro

Até eu enlouquecer e meu coração

Se transformar dramaticamente.

Vê esta espada?

O príncipe das trevas

Vendeu-a para mim.

E

Com Satanás fiz meu acordo,

Ele escreve as partituras e marca o compasso;

Eu toco e canto a marcha da morte

Com rapidez e desembaraço.

Particularmente instrutivo é o inacabado e longo drama poético escrito por Marx em sua juventude, chamado Eulanem, uma Tragédia.  No decorrer deste drama, o herói, Eulanem, realiza um notável monólogo, verbalizando prolongadas invectivas e exsudando ódio pelo mundo e pela humanidade, um ódio à criação e uma apologia à total destruição do mundo.

Eis como o protagonista Eulanem verbaliza sua fúria:

Arruinado, arruinado. Meu tempo esgotou-se.

O relógio parou, a casa do pigmeu desmoronou.

Breve apertarei a eternidade ao peito,

E breve bradarei gigantescas maldições sobre a humanidade.

Ah! Eternidade! Ela é a nossa eterna mágoa ?

Nós próprios automatizados, cegamente mecânicos,

Feitos para sermos o calendário louco do Tempo e do Espaço,

Não tendo propósito, a não ser o de acontecer, o de sermos
arruinados,

Para que haja algo para ser arruinado ?

Se existe algo que nos devora,

Entregar-me-ei para ser engolido por ele, embora deixando o
mundo em ruínas —

Este mundo que se avoluma entre mim e o Abismo,

Eu o reduzirei a pedaços com as minhas contínuas maldições.

Lançarei meus braços ao redor da sua rude realidade:

Abraçando-me, o mundo morrerá silenciosamente.

E então mergulhará no nada absoluto,

Extinto, sem qualquer vida — isso sim seria realmente
viver!

E

… o mundo plúmbeo nos aprisiona,

E nós estamos acorrentados, despedaçados, vazios,
apavorados,

Eternamente acorrentados a este bloco de mármore do Ser …

e nós —

Nós somos os macacos de um Deus frio.[3]

Tudo isso revela aquele espírito que frequentemente parece animar o ateísmo militante.  Ao contrário do ateísmo não-militante, o qual expressa uma simples descrença na existência de Deus, o ateísmo militante parece crer implicitamente na existência de Deus, tendo como objetivo supremo odiá-Lo e iniciar uma guerra para destruí-Lo.  Tal espírito foi claramente revelado na resposta do ateu militante Bakunin ao famoso comentário teísta do deísta Voltaire: “Se Deus não existisse, seria necessário criá-Lo.”  Ao qual o lunático Bakunin respondeu: “Se Deus existisse, seria necessário destruí-Lo”. Foi este ódio a Deus como sendo criador maior do que ele próprio o que aparentemente inspirou Karl Marx.

Outra característica desenvolvida por Marx logo cedo em sua juventude e por ele jamais abandonada — e que apresentava indícios do que ele viria a se tornar — era sua desavergonhada parasitagem sobre amigos e parentes.  Já em 1837, Heinrich Marx, repreendendo o estilo desmesuradamente gastador do jovem Karl, escreveu-lhe dizendo que “a partir de um certo momento … você espertamente descobriu ser conveniente manter um silêncio aristocrático; estou me referindo à torpe questão do dinheiro.”  Com efeito, Marx pegava dinheiro de qualquer fonte disponível: seu pai, sua mãe e, durante toda a sua vida adulta, de seu resignado amigo e abjeto discípulo Friedrich Engels.  Todos eles aditivavam a capacidade de Marx de gastar dinheiro como água.[4]

Um insaciável gastador do dinheiro alheio, Marx seguidamente reclamava de sua escassez de meios financeiros.  Ao mesmo tempo em que parasitava Engels, Marx continuamente se queixava com seus amigos de que a generosidade de Engels nunca era o suficiente.  Assim, em 1868, Marx reclamou que não
conseguiria sobreviver com uma renda anual menor do que £400-£500, uma soma fenomenal quando se considera que os 10% mais ricos da população da Inglaterra naquele período ganhavam uma renda média de apenas £72 por ano.  Com efeito, Marx era tão esbanjador que, em 1864, ele rapidamente exauriu uma herança de £824 legada por um discípulo alemão, bem como uma contribuição de £350 dada por Engels naquele mesmo ano.

Ou seja, Marx conseguiu dilapidar a magnânima quantia de quase £1.200 em dois anos, e, dois anos depois, aceitou outra doação de £210 de Engels para pagar suas recém-acumuladas dívidas.  Finalmente, em 1868, Engels vendeu todas as suas ações da fábrica de algodão da família e combinou com Marx uma “pensão” anual de £350 a partir dali.  Ainda assim, as seguidas queixas de Marx sobre sua “falta de dinheiro” não diminuíram.[5]

Assim como ocorreu com vários outros parasitas e pedintes ao longo da história, Karl Marx afetava ódio e desprezo pelo exato recurso material que ele estava tão ávido para mendigar e usar tão impulsivamente. 
A diferença é que Marx criou toda uma filosofia acerca de sua atitude depravada em relação ao dinheiro.  O homem, bradava Marx, estava dominado pelo “fetichismo” do dinheiro.  O problema era a existência dessa coisa maléfica, e não as atitudes voluntariamente adotadas por algumas pessoas em relação a ela.  O dinheiro era vilipendiando por Marx como sendo “a proxeneta entre … a vida humana e os meios de sustentação”, “a prostituta universal”.  A utopia do comunismo era uma sociedade em que este flagelo, o dinheiro, seria abolido.

Karl Marx, o autoproclamado inimigo da exploração do homem por outro homem, explorou seu devoto amigo Friedrich Engels não apenas financeiramente, como também psicologicamente.  Apenas três meses
depois da esposa de Marx, Jenny von Westphalen, ter dado à luz sua filha Franziska em março de 1851, sua empregada Helene (“Lenchen”) Demuth, que morava com eles e a qual Marx havia “herdado” da família aristocrática de Jenny, também deu à luz o filho ilegítimo de Marx, Henry Frederick. Desesperadamente preocupado em manter o alto nível das aparências burguesas e em salvar seu casamento, Marx jamais reconheceu seu filho.  Em vez disso, ele persuadiu Engels, um notório mulherengo, a assumir a paternidade do menino. 

Tanto Marx quanto Engels tratavam o infeliz Henry com total desprezo, sendo que o ressentimento de Engels por estar sendo utilizado desta maneira torpe presumivelmente fornecia a ele uma boa desculpa para o mau trato.  Marx frequentemente colocava o menino Henry para fora de casa, e jamais permitiu que ele visitasse sua mãe.  Como declarou Fritz Raddatz, biógrafo de Marx, “se Henry Frederick Demuth era filho da Karl Marx, o exortador da nova humanidade viveu uma mentira que durou quase uma vida, além de ter desprezado, humilhado e repudiado seu único filho.”[6]

Engels, é claro, ficou com a tarefa de arcar com as despesas da educação de Henry.  Mas o menino, no entanto, foi treinado para assumir seu lugar na classe operária, longe do estilo de vida de seu pai verdadeiro, o quase-aristocrático líder do oprimido proletariado mundial.[7]

O gosto pessoal de Marx pela aristocracia durou toda a sua vida.  Quando jovem, ele se afeiçoou ao seu vizinho, o Barão Ludwig von Westphalen, pai de Jenny, e dedicou sua tese de doutorado ao barão.  Naturalmente, o esnobe proletário comunista sempre insistiu que Jenny estampasse “nascida von Westphalen” em seu cartão de visita.

Quanto a Engels, este se recusou a se casar com sua amante, Mary, porque ela era de origens “humildes”.  Após a morte de Mary, sua irmã Lizzie se tornou a amante de Engels.  Engels generosamente se casou com Lizzie no leito de morte dela “para conceder a ela seu ‘último prazer’.”

 

Este artigo foi extraído de trechos do livro Economic Thought Before Adam Smith — An Austrian Perspective on the History of Economic Thought.

 


[1] Os poemas foram majoritariamente escritos em 1836 e 1837, em seus primeiros meses em Berlim.  Dois destes poemas constituíam a primeira obra publicada de Marx, o Berlin Atheneum, de 1841.
Quase todos os outros foram perdidos.

[2] Richard Wurmbrand, Era Karl Marx um Satanista? (Westchester, 111: Crossway Books, 1986), pp. 12-13.

[3] Para a tradução completa do texto de Eulanem, ver Robert Payne, The Unknown Karl Marx (New York: New York University Press, 1971), pp. 81-3.  Também excelente na análise tanto dos poemas quanto do fato de Marx ser fundamentalmente um messiânico é Bruce Mazlish, The Meaning of Karl Marx (New York: Oxford University Press, 1984).

O pastor Wurmbrand (ver nota 2) chama atenção para o fato de que Eulanem é um anagrama de Emanuel, o nome bíblico de Jesus, e que tais inversões de nomes santos são práticas comuns em cultos satânicos.  No entanto, não há nenhuma evidência de que Marx tenha sido membro de cultos desse tipo. 
Wurmbrand, op. cit., note 45, pp. 13-14 e passim.

[4] Friedrich Engels (1820–95) era filho de um proeminente industrial fabricante de algodão, que também era um convicto pietista, da área de Barmen, na Renânia.  Barmen era um dos principais centros do pietismo na Alemanha, e Engels teve uma criação estritamente pietista.  Ateu e hegeliano já em 1839, Engels foi parar na Universidade de Berlim e na Juventude Hegeliana em 1841, em seguida passando a frequentar os mesmos círculos de Marx, de quem ele rapidamente se tornou amigo em 1844.

[5] Ver os esclarecedores cálculos em Gary North, Marx’s Religion of Revolution: The Doctrine of Creative Destruction (Nutley, NJ: Craig Press, 1968), pp. 26-8. Ver também ibid. (2nd ed., Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1989), pp. 232?56.

[6] Fritz J. Raddatz, Karl Marx: A Political Biography (Boston: Little Brown & Co., 1978), p. 134.

[7] O zelo de Marx em esconder sua imprudência foi comparável apenas ao zelo dos historiadores do establishment marxista em suprimir a verdade sobre Henry Frederick Demuth até bem recentemente.
Embora a verdade já fosse conhecida por marxistas proeminentes, como Bernstein e Bebel, a notícia sobre a paternidade ilegítima de Marx só foi divulgada em 1962 no livro Marx, de Werner Blumenberg.  Ver em particular W.O. Henderson, The Life of Friedrich Engels (London:Frank Cass, 1976), II, pp. 833-4.
Alguns marxistas leais ainda se recusam a aceitar os fatos inquietantes.  Veja o amoroso e dedicado trabalho do falecido líder da ala “draperita” do movimento trotskista, Hal Draper Marx-Engels
Cyclopedia
(3 vols, New York: Schocken Books, 1985).


Murray N. Rothbard  - Mises Brasil

sábado, 9 de maio de 2026

As visitas de Friedrich Hayek ao Brasil, por Joaquim Fernandes Martins

 

Nota do autor:

Este artigo serve como um resumo de uma pesquisa aprofundada das visitas de Friedrich Hayek ao Brasil. O texto está organizado em ordem cronológica e tenta manter o escopo de Hayek em solo brasileiro. A principal obra que temos disponível sobre esses eventos históricos é o livro “Hayek no Brasil”, organizado por Cândido Mendes. O livro traz à luz ideias de Hayek debatidas por brasileiros da época, em um panorama muito mais amplo do que o pretendido pelo texto a seguir.

A primeira visita de Hayek ao Brasil, em 1957

A primeira vinda de Friedrich Hayek ao Brasil se inicia com quatro cartas trocadas entre o economista austríaco e Eugênio Gudin, que também era membro da Mont Pelerin Society. Na época, Hayek estava indo para Buenos Aires dar uma série de palestras no Centro de Difusión de la Economía Libre, entre os dias 21 de abril a 8 de maio daquele ano. Ele teria que ficar no Brasil na sua volta, aguardando seu voo. Por isso, Hayek correspondia com Gudin com uma espécie de “pedido de ajuda” para organizar duas palestras e assim financiar sua estadia no Rio de Janeiro enquanto esperava seu voo.

As palestras foram ministradas nos dias 13 e 15 de maio, em uma segunda-feira e uma quarta-feira. Ao todo, Hayek ficou cinco dias no Rio de Janeiro, do dia 11 ao 16 de maio. As palestras ocorreram no auditório do edifício Presidente Carlos de Campos (antigo Ministério da Fazenda), situado na Avenida Graça Aranha, 182, 5° andar.

O tema da primeira palestra foi “O progresso e o poder criador de uma civilização livre”, que não havia sido acordado com Gudin nas cartas. Podemos inferir o que foi dito, visto que, para Hayek, o progresso ocorre espontaneamente pelas livres forças de mercado, que alocam melhor o capital produtivo e a mão-de-obra. Uma civilização livre é aquela em que o estado não intervém na economia, permitindo que indivíduos empreendam sem restrições excessivas nem concorrência de empresas estatais. Assim, dado título da primeira palestra, podemos imaginar uma defesa da liberdade econômica como base do desenvolvimento social.

Com relação à segunda palestra, com o tema “Pleno emprego, planejamento e inflação”, Hayek se inspirou em seu artigo publicado na Revista Brasileira de Economia naquele mesmo ano. Nas suas palavras:

Nos anos que decorreram desde a guerra, o planejamento central, o “pleno emprego” e a pressão inflacionista têm sido, em quase todo o mundo, os três fatores dominantes da política econômica. Destes, apenas o pleno emprego pode ser considerado, em si, como desejável. Planejamento central, direção ou controle governamental, qualquer que seja o nome que se lhe dê, é, na melhor das hipóteses, instrumento que deve ser julgado em função dos resultados obtidos. Sem dúvida alguma a inflação, mesmo “reprimida”, é um mal, ainda que digam alguns ser um mal necessário se outros fins desejáveis devem ser alcançados. É parte do preço que pagamos por estarmos comprometidos numa política de pleno emprego e de planejamento central.

A segunda visita de Hayek, em 1977

Em 1977, o Brasil vivia sob a ditadura do general Ernesto Geisel, que havia lançado em 1974 o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), uma estratégia de crescimento liderada pelo estado, com maciços investimentos em empresas estatais e setores de base. Era exatamente o oposto do que Hayek pregava. Nesse ambiente, vários setores empresariais começavam a criticar abertamente a estatização da economia, e a chegada do Nobel austríaco serviu de munição intelectual para esses grupos. O convite foi feito pelo engenheiro Henry Maksoud (1929-2014), que ainda traria Hayek para o Brasil em mais uma oportunidade. O intuito desta visita era para divulgar o que Maksoud chama de “verdadeiro conceito de democracia”.

Ao contrário de Chile e Argentina, onde Hayek foi recebido por altos escalões e mobilizado como legitimador, no Brasil ele teve recepção “fria” e pouco instrumental por parte do governo, sendo centralmente apropriado por um circuito civil-empresarial. A maior autoridade com quem se encontrou foi José Carlos de Almeida Azevedo, Capitão de Mar e Guerra e na época reitor da UnB (1976-1985). Curiosamente, Azevedo autorizou a Polícia Militar a invadir o campus para inibir uma greve estudantil meses antes da visita de Hayek. Azevedo foi também um fervoroso crítico das teses de aquecimento global e da proliferação dos cursos de medicina no Brasil.

O itinerário foi composto por três das principais cidades do nosso país, sendo elas em ordem de visitação: Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

Em Brasília, Hayek faz sua primeira visita à UnB, onde não ministrou nenhuma palestra ou seminário. Em seguida, partiu para o Congresso Nacional, acontecimento esse que se tornou um tanto quanto folclórico. De acordo com Diário do Congresso Nacional, um único deputado registrou a presença de Hayek na Câmara, para um plenário vazio, no dia 28 de novembro de 1977, uma segunda-feira. O mais cômico da história é que essa recepção fria ao Nobel de 1974 contrasta com a calorosa recepção da atriz holandesa do cinema erótico Sylvia Kristel, conhecida pela personagem Emanuelle em filme de mesmo nome. A atriz foi assediada por uma malta de políticos, inclusive o então presidente da Câmara Marco Maciel, do ARENA. Curiosamente, logo após elogiar o filme, Maciel foi questionado sobre onde o havia assistido, já que o filme era proibido no Brasil. O político disse não se lembrar da ocasião em que apreciou a obra censurada.

É interessante refletir sobre a diferença gritante das duas recepções. De um lado, Friedrich Hayek, um dos principais pensadores do século XX, laureado com o prêmio Nobel de economia de 1974, capaz de influenciar o pensamento econômico e político de centenas de milhares de pessoas, teve uma recepção fria, quase esquecida pelo tempo. Do outro, uma atriz pornográfica, que também tocou centenas de milhares de pessoas, mas de uma forma diferente, digamos mais carnal do que intelectual. Esse é o espelho do Brasil, tanto da década de 1970 quanto de hoje.

Após a visita a Brasília, Hayek partiu para São Paulo, onde visitou o Instituto de Pesquisa Econômica da USP (IPE/USP). Lá, encontrou-se pela manhã com o professor e economista Antonio Carlos Rocca, e depois partiu para o primeiro dos três seminários que faria. Os eventos ocorreram todos às 19h30, no auditório do Grupo Visão, que comportava mais de mil pessoas.

No primeiro seminário, com o tema “A geração de riqueza – economia de mercado”, Hayek defende o livre mercado e critica qualquer forma de monopólio estatal ou privado, argumentando que praticamente nenhum monopólio conseguiu se sustentar por muito tempo sem o apoio do estado.

O segundo seminário, no dia 1º de dezembro de 1977, teve o tema “Método da democracia”, em que Hayek apresentou o conceito de demarquia, algo que seria aprofundado em sua última visita ao Brasil. A demarquia é uma alternativa à democracia “ilimitada”, distinguindo liberalismo de democracia: democracia seria “uma doutrina sobre o que a lei deve ser”, enquanto demarquia seria “uma doutrina sobre a maneira de determinar qual será a lei”. Em entrevista à Folha de São Paulo, Hayek detalhou o funcionamento de sua proposta política.

Entre o fim do dia 1º e começo do dia 2 de dezembro, Hayek foi conduzido para o Rio de Janeiro para finalizar seu itinerário. A visita marcou o retorno do economista à capital fluminense depois de duas décadas. De fato, o dia 2 de dezembro de 1977 foi denso para o professor Hayek. Às 11h, ele concedeu uma entrevista para a Revista Visão e, às 15h, conversou com o Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo.

Em seguida, realizou seu terceiro e último seminário, na Fundação Getúlio Vargas, focando no tema “O dinheiro e o estado”, em que provavelmente apresentou o conceito de moeda privada. Hayek defende que o estado não deve ter o monopólio de emissão da moeda e que alternativas ao dinheiro estatal surgiram naturalmente na sociedade, acreditando que a iniciativa partiria de bancos privados idealmente sem reservas fracionárias.

Hayek encerrou o dia, e sua segunda visita ao Brasil, com um encontro com seu correspondente Eugênio Gudin, em sua casa, onde Hayek e sua esposa jantaram com o casal de amigos.

A terceira visita de Hayek, em 1979

A visita de 1979 foi particularmente breve, em função de uma escala a caminho do Peru. Hayek chegou ao Rio de Janeiro em 14 de novembro, sendo recepcionado por Henry Maksoud no aeroporto. Dois dias depois, embarcou para Lima, onde participou do workshop “Democracy and the Market Economy“, organizado por Hernando de Soto e Manuel Ayau.

No Brasil, Hayek proferiu apenas uma palestra de mais de três horas em São Paulo e concedeu entrevistas às revistas Visão (publicada em 10 de dezembro) e Veja (publicada em 19 de dezembro). No debate que se seguiu à palestra, ele “recusou o título de conhecedor do Brasil, alegando não conhecer bem a realidade brasileira”, mas se posicionou contra a estatização e criticou a política brasileira de combate à inflação por considerá-la intervencionista.

A entrevista concedida ao jornalista José Paulo Kupfer para a Veja tornou-se um documento histórico do pensamento hayekiano. Hayek defendeu, entre outros pontos: a soberania do sistema de preços sobre qualquer planejamento estatal; que crises econômicas como a de 1929 “não são causadas pelo mercado, mas por erros na política monetária”; que “a inflação nada mais é do que um aumento exagerado na quantidade de dinheiro em circulação”; e que o controle de preços “leva à escassez e, esta, ao planejamento central, cujo fim é o socialismo, e o socialismo é um equívoco”. Ele manifestou ainda esperança no programa econômico de Margaret Thatcher na Inglaterra e criticou duramente John Maynard Keynes e seus discípulos.

A quarta e última visita de Hayek, em 1981

A última visita de Hayek ao Brasil ocorreu entre os dias 3 e 13 de maio de 1981, vindo da Argentina. Essa foi a mais extensa e simbolicamente rica de suas visitas. O roteiro incluiu três cidades: Santa Maria (RS), São Paulo e Brasília.

A visita a Santa Maria é uma das maiores curiosidades da viagem. Em 1981, a cidade tinha menos de 200 mil habitantes e era apenas a quinta maior do quinto estado mais populoso do país. A iniciativa partiu de dois estudantes de graduação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Adivo Paim Filho e Walter Schley (então presidente do Diretório de Estudantes de Humanidades). Ao saberem que Hayek viajaria de Buenos Aires a São Paulo, convenceram Henry Maksoud de que Santa Maria estava no caminho e merecia uma parada. O resultado surpreendeu: como a UFSM não tinha um auditório suficientemente grande, a palestra foi transferida para uma universidade privada e 500 pessoas lotaram o espaço. A Prefeitura de Santa Maria concedeu a Hayek o título de “Visitante Ilustre”, cujo diploma original foi preservado nos Hayek Papers da Hoover Institution.

Em São Paulo, Hayek ministrou dois dias de seminários no Auditório Maksoud, abordando temas como democracia e demarquia, no dia 7 de maio, e distribuição de renda e positivismo jurídico, no dia 8 de maio (data de seu aniversário de 82 anos).

Em Brasília, realizou dois seminários na UnB, nos dias 11 e 12 de maio. O conteúdo, incluindo sessão de perguntas e respostas conduzida por Henry Maksoud, foi publicado no livro “Hayek na UnB” (1981, Editora UnB). O evento reuniu figuras proeminentes do liberalismo brasileiro, como Eugênio Gudin, Octávio Gouvêa de Bulhões, Roberto Campos e o próprio Maksoud.

Durante os seminários, Hayek classificou os pensadores em três categorias: “construtivistas” (à esquerda), “libertários” (à direita) e “muddleheads” (centro). Quando Maksoud perguntou como ele se definia politicamente, Hayek respondeu que se considerava um “whig cético”, na tradição de David Hume e Edmund Burke. Nessa mesma ocasião, ele criticou o termo “social”, dizendo que nada do que leva “social” no nome, como “justiça social”, tem sentido: “A linda expressão ‘social’ é, portanto, neste sentido, uma weasel word, que podemos utilizar para despojar qualquer dos clássicos termos do seu significado apenas lhe adicionando a palavra ‘social’”. Hayek também voltou a criticar o monopólio estatal de emissão de moeda e até tirou do bolso uma nota de um cruzeiro que guardara de sua visita anterior e perguntou à plateia quanto aquela nota valia de fato.

O evento encerrou a última visita de Hayek ao Brasil com chave de ouro. As visitas de um dos principais expoentes da Escola Austríaca de Economia ao Brasil foram de fato grandes oportunidades para estudantes, pensadores e políticos. É difícil quantificar o quanto nosso país aprendeu, ou poderia ter aprendido, com as palestras de Hayek, mas relembrar esses eventos é o primeiro passo para resgatar as lições e renovar as esperanças para as ideias da liberdade.



Joaquim Fernandes Martins - Mises Brasil