quarta-feira, 4 de março de 2026

CPMI acha digitais da J&F no roubo aos aposentados e relator pede quebra de sigilos

 

Irmãos medonhos Wesley e Joesley Batista, donos do J&F. (Fotos: Agência Senado).


O grupo J&F dos irmãos Batista, dono da JBS e do banco PicPay, pode ter os sigilos bancário e fiscal quebrados pela CPMI do INSS. Segundo requerimento do relator, Alfredo Gaspar (União-AL), a empresa dos notórios Joesley e Wesley Batista repassou R$55,7 milhões a empresas de Danilo Trento, investigado no esquema bilionário que saqueou aposentados. Gaspar quer também convocar José Antônio Batista Costa, sobrinho dos Batista, ex-CEO da J&F e chefe do conselho do PicPay.

Timing

O pedido na CPMI aponta que os pagamentos suspeitos da J&F ocorreram durante os 5 meses do programa “Meu INSS Vale+”.

Caminho

O Meu INSS Vale+ adiantava benefícios a aposentados cadastrados. Ou seja, o PicPay antecipava dinheiro para depois cobrar do INSS.

Operação

O J&F pagou empresas de Trento, suspeito de ter facilitado o programa durante a gestão no INSS de Alessandro Stefanutto, preso pela PF.

Ligação

As empresas de Trento são investigadas por receber de associações como Ambec e AAB, que descontava até de falecidos, segundo a CGU.

Diário do Poder

terça-feira, 3 de março de 2026

'O segregacionismo do governo Lula', por Victor Gonzaga

 

A democracia, frequentemente celebrada como um sistema de representação igualitária e busca pelo bem comum, cada vez mais tem mostrado sua verdadeira face como um mecanismo para intensificar conflitos sociais. Essa visão, enraizada na tradição liberal clássica e na Escola Austríaca de Economia, argumenta que o regime democrático não elimina a exploração, mas a redistribui por meio de coerção estatal sancionada pelo voto.

Inspirados em pensadores como Ludwig von Mises, críticos como Ralph Raico destacam como o estado democrático se torna um campo de batalha, onde grupos organizados capturam o poder para transferir recursos e privilégios, fomentando antagonismos entre classes, ideologias e setores sociais. No Brasil contemporâneo, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), essa dinâmica se manifesta de forma evidente, com o uso de narrativas políticas e culturais para dividir a população, promovendo uma polarização que beneficia o poder estabelecido às custas da coesão social.

Para entender como a democracia pode alavancar divisões, é essencial distinguir a perspectiva liberal do conflito social da visão marxista tradicional. Enquanto o marxismo foca na luta entre burguesia e proletariado baseada na propriedade dos meios de produção, liberais clássicos como Charles Comte, Charles Dunoyer e Augustin Thierry identificam o verdadeiro embate entre produtores – aqueles que geram riqueza por meio de trocas voluntárias no mercado – e políticos, que se apropriam coercitivamente através do poder do estado.

No âmbito democrático, o sufrágio universal e o estado de bem-estar ampliam essa predação: decisões majoritárias, cobertas por um véu de legitimidade eleitoral, permitem a supressão de direitos individuais em nome de “benefícios sociais”. Como observa o professor Hoppe em Democracia, o Deus que falhou, o estado democrático incentiva grupos a maximizarem ganhos às custas dos outros, transformando a política em uma “pilhagem legalizada”.

No Brasil, essa crítica ganha contornos práticos com confete e enredos de samba. O governo Lula, em vez de promover harmonia, políticas e comunicações oficiais exacerbam antagonismos entre classes econômicas, grupos religiosos e ideologias políticas, criando uma sociedade fragmentada onde o “nós contra eles” sustenta o poder.

Um caso ilustrativo ocorreu em fevereiro de 2026, quando o perfil oficial da Casa Civil da Presidência da República no X (antigo Twitter) publicou um meme baseado em diálogos do reality show Big Brother Brasil. A postagem ironizava cidadãos com renda mensal superior a R$ 5 mil, rotulando-os como meros “playboys”, enquanto exaltava aqueles com rendas inferiores como possuidores de “carisma alto”, já que agora não mais precisariam pagar imposto de renda. Essa narrativa não apenas simplifica a complexidade econômica – ignorando que muitos “playboys” são trabalhadores que sustentam famílias e pagam impostos elevados –, mas reforça um conflito entre classes aos moldes marxistas.

O último episódio que pode ilustrar essa situação ocorreu durante o Carnaval de 2026, no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Financiado parcialmente com verbas públicas – o que levanta questões sobre uso eleitoral de recursos estatais –, o desfile incluiu uma ala chamada “Neoconservadores em Conserva”, retratando evangélicos, representantes do agronegócio, defensores de valores tradicionais e críticos do governo dentro de latas de conserva. Essa sátira, vista por muitos como deboche à fé cristã e ao conservadorismo, provocou reações imediatas de parlamentares e lideranças religiosas, que acusaram a encenação de ultrapassar a sátira para o preconceito.

Como argumenta a tradição austríaca, isso não apenas gera ressentimento – entre pagadores de impostos e beneficiários, ou entre grupos religiosos e seculares –, mas compromete a base produtiva da sociedade. Ao contrário da narrativa de que a democracia mitiga o conflito de classes, ela o perpetua no Brasil, transformando cidadãos em “inimigos” a serem combatidos e segregando a população entre “bons e maus” (dentro das considerações do governo atual). Como alerta Raico, a democracia moderna não promove justiça, mas um campo de antagonismo permanente. No fim, o povo dividido é um povo mais fácil de governar – uma lição que os governos aplicam com maestria.


Victor Gonzaga - Mises Brasil

Porta voz do covil do ex-presidiário Lula, Folha agora classifica blindagem a Toffoli como um 'escárnio'

Gilmar Mendes suspendeu quebra de sigilo da empresa de colega em processo arquivado de 2021


Os ministros Dias Toffoli (esquerda) e Gilmar Mendes durante sessão do STF - Brasília (DF), 5/12/2024 - Foto: Bruno Peres/Agência Brasil 


Um editorial publicado pelo jornal Folha de S.Paulo nesta terça-feira, 3, classifica como um “escárnio” a decisão do ministro Gilmar Mendes que suspendeu a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt. A empresa tem entre seus sócios o ministro Dias Toffoli e era alvo de uma providência investigativa determinada pela CPI do Crime Organizado. O texto afirma que a manobra “achincalha os ritos processuais” e sugere a existência de um “jogo combinado” nos bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF).

A canetada de Gilmar Mendes ocorreu dentro de um mandado de segurança de 2021, impetrado originalmente pela produtora Brasil Paralelo no contexto da CPI da Covid. O editorial destaca que o processo estava arquivado e não possui nenhuma relação com o Banco Master, com Toffoli ou com a atual CPI. Ao ressuscitar o caso, a manobra direcionou o pedido da Maridt diretamente ao gabinete de Gilmar, relator da ação antiga.


‘Espírito de corpo’ no Supremo 

Editorial aponta que a retórica tempestuosa de Gilmar Mendes — que classificou a quebra de sigilo como “destituída de idoneidade” — serve para esconder a falta de substância jurídica da medida. O jornal destaca que o STF tem o dever de observar procedimentos rudimentares, mas que os ministros agem com um “espírito de corpo” que contamina a Corte. 

Além do gesto de Gilmar, o texto menciona a decisão do ministro André Mendonça, que na quinta-feira 26, dispensou os irmãos de Toffoli de deporem na mesma comissão parlamentar. 

A pressão sobre a cúpula do Judiciário aumentou após a descoberta de mensagens no celular de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, que citam o ministro Dias Toffoli. O editorial reforça que a sociedade exige respostas sobre os “laços pouco republicanos” entre o ministro e o ex-banqueiro. 

Para o jornal, as iniciativas “heterodoxas” em favor de Toffoli levantam questionamentos sobre o que o ministro estaria escondendo. O texto conclui que os membros do STF precisam entender que não estão acima das leis e que a cúpula do Judiciário não pode se envolver com o crime organizado sob o pretexto de proteger garantias individuais.


Com informações de Erich Mafra - Revista Oeste

Renato Gaúcho deve ser o novo técnico do Flamengo. Filipe Luís demitido após perder dois títulos para equipes inferiores

 

Renato Gaúcho deve ser anunciado nas próximas horas


O técnico Filipe Luís foi demitido pelo Flamengo após a goleada por 8 a 0 sobre o Madureira que chancelou a vaga na final do Campeonato Carioca.


O UOL apurou que a decisão foi comunicada a Filipe Luís pelo diretor de futebol do Fla, José Boto, logo depois da entrevista coletiva no Maracanã.


A decisão pegou o treinador de surpresa, já que não havia qualquer sinalização prévia ou sentimento de que isso poderia acontecer, apesar da perda dos dois títulos neste início de temporada: Supercopa do Brasil e Recopa.


O Flamengo perdeu este ano dois títulos importantes para equipes inferiores, Corinthians e Lanus (argentino). A torcida, decepcionada, já se afastava do Maracanã. Os últimos jogos mostravam públicos pequenos para a grandeza do Clube. Um dos  mais poderosos do Mundo. Muitos protestos, inclusive nesta segunda-feira, mesmo com a vitória de 8 x 0 sobre o clube de São Paulo que sequer foi à final do campeonato paulista. 

Renato Gaúcho é um nome forte para assumir o Flamengo. O que pode ocorrer nas próximas horas, já que o rubro negro decide o Campeonato Cariosa com o Fluminense neste domingo. 



segunda-feira, 2 de março de 2026

Como o estado destrói o empreendedorismo - Priscila Contim

 

No Brasil o tempo dá voltas sem sair do lugar: a cada período eleitoral surgem as mesmas pautas, um lado quer estatizar ainda mais a economia e o outro deseja “enxugar o estado[1]” — termo pertinente, se considerarmos que o aparato estatal é um grande bloco de gelo derretendo. Os partidários dessa segunda vertente, convencionalmente chamados de direita, defendem uma espécie de livre mercado. Entretanto, há um desequilíbrio crônico pendendo para o estatismo, em que até mesmo a direita visa implementar esse livre mercado através do estado; uma contradição raramente notada.

Mas será que um mercado livre garantido dessa forma é capaz de gerar prosperidade? Para entender essa questão, consideremos um caso extremo: o que aconteceria se uma economia extremamente estatizada, feito Cuba, se tornasse livre da noite para o dia?

Além das dificuldades de mobilizar o capital — cujo conceito é muito mais fluido que sua existência concreta em máquinas, equipamentos e plantas industriais —, temos um outro fator: a falta de conhecimento sobre como agir no mercado. Poderíamos imaginar imigrantes cubanos que foram para os Estados Unidos e outros países, adquiriram riqueza e cultura capitalista, retornando a sua terra e infundindo nela capital e conhecimento empresarial. Mas e se não houvesse esse aporte externo? Seja dos conhecimentos trazidos pelos expatriados, seja adquiridos por outros meios? A economia conseguiria retornar aos seus anos de glória?

Os cubanos saberiam perceber livremente oportunidades econômicas, criar produtos e serviços novos, gerenciar capital usando contabilidade, construir cadeias de produção, distribuir produtos da maneira mais eficiente? Quanto tempo levaria para reaprenderem sozinhos as técnicas de negócios e empreendedorismo? Essas perguntas, longe de insinuarem qualquer incapacidade do povo cubano, servem para refletir sobre a importância da cultura empreendedora num país.

Alguém poderia responder que isso seria facilmente resolvido com um plano nacional de transição que conduziria as pessoas ao melhor gerenciamento dos recursos. Mas, com isso, não estaríamos confiando novamente na capacidade do estado de coordenar as atividades econômicas? Como o estado educaria essas pessoas para os negócios? Contrataria especialistas estrangeiros? Se assim fosse, estaria recorrendo a um aporte de saber externo; o que afirma precisamente que o conhecimento empreendedor não é inato.

Outros poderiam objetar, apelando à ideia de que o empreendedorismo é conhecimento natural ao ser humano, um conhecimento tácito. Entretanto, o conhecimento tácito também necessita de experiência para se desenvolver. Se o indivíduo nunca teve a experiência concreta do mercado, poderia simplesmente saber como funciona e como agir? Se esse conhecimento é tão natural e universal, por que a humanidade cometeu tantos erros econômicos gravíssimos ao longo da história; erros que levaram até à queda de impérios?

Afinal, o conhecimento empreendedor é inato ou cultural?

O início da morte lenta do empreendedorismo

No início do século XX, houve uma grande bifurcação na economia entre a organização macroeconômica, a análise dos grandes agregados regionais e nacionais, como se fossem entidades à parte e independentes da vida comum; e a e microeconômica, a atividade mecânica de indivíduos puramente racionais que invariavelmente otimizam o lucro.

A microeconomia neoclássica já existia antes dessa ruptura, foi dela que surgiu a ideia do homo economicus: um ser humanoexplicado por uma função matemática, uma força mecânica que atua sobre ele, impelindo-o a buscar um lucro objetivo dado por outra função matemática. Os macroeconomistas, sendo na maioria amantes da matemática como explicação de tudo quanto existe, pegaram emprestado a imperiosidade numérica dos modelos microeconômicos e a transportaram ao âmbito macro, acreditando que o que funcionasse ao indivíduo funcionasse ao governo.

Assim, inspirando-se na contabilidade e técnica empresarial, aplicaram seus princípios ao estado, como se fosse uma grande empresa. Após fortíssimas críticas a esse procedimento, os macroeconomistas passaram a dizer que a macroeconomia não era a simples soma das partes, mas um sistema complexo. Esse tipo de sistema é definido como aquele em que as interações entre as partes produzem propriedades emergentes, não previsíveis pela análise isolada dos componentes. Os macroeconomistas passaram a alegar que a economia nacional, por ser um sistema complexo, opera segundo leis diferentes daquelas que governam a ação individual — uma afirmação conveniente que os dispensa de fundamentar suas teorias nas realidades praxeológicas básicas da ação humana. O simples fato de um sistema ser complexo não significa que viole ou transcenda as leis fundamentais que governam seus componentes.

Muitos autores utilizam essa falácia para justificar intervenções estatais que, alegadamente, “coordenam” a economia de formas que indivíduos isolados jamais conseguiriam. Porém, ironicamente, essa argumentação ignora a própria complexidade concreta da economia — com milhões de agentes, preferências mutáveis, conhecimento disperso e contextos específicos — o que torna impossível que um planejador central possua a informação necessária para tomar decisões superiores às decisões descentralizadas dos próprios agentes econômicos.

Por mais que os macroeconomistas afirmem que o estado é outra coisa – e não a mera soma dos  indivíduos –, todo o modelo de intervencionismo governamental emula a atividade empreendedora individual. Baseado na teoria de que produtividade é uma função matemática que impera sobre as atividades econômicas, acreditam ainda que o estado, executando as atividades da mesma forma, obterá êxito. Assim, o governo adota técnicas de gestão empresarial e contabilidade, como se o estado fosse uma grande empresa que precisa gerir seu fluxo de caixa para coordenar a produção nacional.

Assim, sendo a eficiência uma mera função, o estado poderia controlar a economia através de um grupo de burocratas ou mesmo de um computador. Os aficionados por ficção científica acreditam ser possível, no futuro, criar supercomputadores ou inteligências artificiais capazes de organizar totalmente a economia, como se nenhum conhecimento humano subjetivo fosse necessário, como se a própria economia não fosse a interação orgânica entre necessidades e desejos humanos, influenciados pela cultura, religião e circunstâncias particulares; enfim, como se o cálculo econômico numa economia socialista fosse possível.

A Supressão do Empreendedorismo Individual

É precisamente nesse contexto que surgiu a ideia de que os problemas econômicos não podem ser solucionados em âmbito individual, mas somente pelo governo através de suas políticas públicas macroeconômicas. Assim, se instaurou a crença de que a economia depende intimamente do Ministério da Fazenda e que basta decretar livre comércio, através de uma canetada, que tudo estará resolvido. Porém, isso não é possível, porque a economia é precisamente a atividade do homem mediante seus meios e fins; sendo o principal desses meios a própria cultura.

O empreendedorismo é uma categoria de ação, uma atitude que consiste em continuamente procurar, descobrir ou criar novos fins e meios. A função empresarial, em sentido estrito, é basicamente descobrir e avaliar oportunidades de alcançar um fim ou conseguir algum lucro, tendo em conta as circunstâncias e o modo de aproveitá-las[2].

Todo ser humano age; caso contrário, trata-se de um vegetal. Porém, para a manifestação da ação empreendedora em sua forma plena, é preciso uma cultura que possibilite seu desenvolvimento. A cultura, em seu sentido antropológico ou sociológico, pode ser definida como aquele todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, lei, costumes e outras muitas capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade[3]. Tudo aquilo que é inerente, mas social, carece da sociedade para desenvolver-se. Um exemplo disso é a linguagem. Se um menino é criado por animais, ou se uma pessoa se cria sozinha em uma floresta, apesar de ter a potência de se expressar linguisticamente, por não ter o aporte e estímulo cultural, não irá se desenvolver.

O indivíduo nasce com uma base orgânica e potências humanas sociais. O quanto essas potencialidades se realizarão depende da harmonia entre as capacidades físicas, de temperamento e de inteligência do indivíduo, e o meio natural e social em que vive. A época histórica pode excitá-las e desenvolvê-las, permitir que se desenvolvam ou dificultar-lhes a expressão[4]. Se a cultura inibe ou impede o desenvolvimento da potência, esta simplesmente não se manifestará.

A atitude empreendedora, potência humana que é, depende da organização social. Sua manifestação necessita de condições concretas: que cada pessoa ou família possa ter meios de produção, iniciar negócios, oferecer serviços, criar produtos, negociar livremente com outros. Além disso, é necessário que a eficiência e busca pelo lucro não seja socialmente condenada. Essa liberdade econômica não é meramente um arranjo entre muitos possíveis, mas uma condição necessária para a própria capacidade criadora em sua dimensão econômica.

morte da técnica e o fim da capacidade criadora

A faculdade empreendedora fundamental é o alertnesses, ou perspicácia[5]. Mas perceber as oportunidades não é o suficiente, é preciso ação. Para agir e obter os melhores resultados é necessário técnica. O empreendedorismo é, portanto, parcialmente um uma inclinação do espírito e parcialmente uma técnica.

A técnica, technē no sentido aristotélico[6], não é meramente um conjunto de procedimentos mecânicos transmitidos de geração em geração. É, antes, conhecimento vivo incorporado na prática, sabedoria construída através de incontáveis tentativas, erros e refinamentos ao longo do tempo[7]. Cada ofício, cada arte, cada habilidade produtiva carrega consigo séculos de experimentação humana condensada em gestos, ritmos e percepções que transcendem qualquer manual escrito. Assim sendo, faz parte da cultura. Quando uma técnica desaparece, não se perde apenas um método de fazer coisas, mas toda uma tradição de pensar, resolver prolemas, perceber a matéria e suas possibilidades.

A economia e a sociedade são dinâmicas, nada é conquistado para todo o sempre, principalmente a riqueza, cuja natureza não é estática, que necessita ser reconquistada dia após dia, caso contrário se esvairá. Exemplos notórios são: as cidades mineiras durante o ciclo do ouro, os engenhos produtores de açúcar no Nordeste, municípios cafeicultores paulistas; casos em que, após o fim dos respectivos ciclos, nunca mais recuperaram sua vitalidade econômica. Isso ocorreu pois não desenvolveram uma cultura empreendedora diversificada, mas uma economia monocultural e frágil. Quando a mina se esgotou, o preço do açúcar caiu e o café migrou para outras regiões, não havia uma classe empreendedora capaz de identificar novas oportunidades, de criar novos negócios, de adaptar-se às circunstâncias alteradas. A população dependia de um único setor, de grandes empregadores, de políticas governamentais, mas nunca aprendeu  a empreender; ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos da América, desde sua colonização[8].

Outro exemplo paradigmático é Brasília, capital federal do Brasil, que desde sua fundação em 1960 foi estruturada em torno do aparato estatal. Diferentemente de cidades que surgem organicamente da atividade comercial, produtiva e empreendedora, Brasília nasceu como sede do poder político; nunca desenvolveu uma economia genuinamente produtiva independente do estado. A maior parte de sua população vive direta ou indiretamente de dinheiro público: servidores públicos federais, funcionários de estatais, empregados que prestam serviços ao governo, lobistas, consultores políticos, toda uma economia parasitária que gira em torno dos recursos tomados do setor produtivo do restante do país. Não há indústrias significativas, não há agricultura, não há um setor empresarial robusto criando riqueza genuína[9].

Esta é a morte da cultura empreendedora em sua forma mais pura: uma cidade inteira estruturada em torno da negação da economia, da produção e criação de valor. A consequência civilizacional é devastadora: gerações inteiras são doutrinadas a crer que a riqueza vem de cargos públicos, concursos, conexões políticas, mas nunca de criar produtos, oferecer serviços e satisfazer consumidores. O espírito empreendedor é amputado desde a infância, pois a sociedade não valoriza a criação de riqueza, mas sua apropriação através do estado. O vencedor é quem consegue acesso aos cofres públicos.

A cultura empreendedora não é algo que surge ex nihilo, mas precisa ser cultivada e desenvolvida. Exige um ambiente que valorize a independência, a assunção de riscos e a responsabilidade individual. Necessita também o direito pleno à propriedade privada ― não condicionado a subjetivismos socializantes ―, moeda forte e liberdade comercial. Quando essas condições desaparecem, a cultura empreendedora definha. E, com ela, o próprio país.

fim da capacidade criadora humana com o fim da economia individual

Uma economia deixa de ser individual quando o cidadão comum se torna mero empregado de grandes organizações burocráticas ou joguete de manipulações do mercado. Todas as decisões econômicas significativas passam a ser tomadas por tecnocratas distantes; assim, o planejamento central substitui a iniciativa descentralizada. A potência empreendedora morre: as novas gerações crescem subservientes, passivas, incapazes de imaginar que poderiam ser outra coisa, senão peças numa engrenagem alheia à força individual.

Se tudo quanto existe é a ideia de que o estado é o grande gestor, que precisa coordenar as atividades econômicas, independentemente da criatividade e conhecimentos individuais — sendo ele mesmo incapaz de gerir milhões de pequenas empresas —, a única possibilidade nesse esquema é a formação de grandes conglomerados econômicos. É a releitura do socialismo no século XXI: não a desapropriação direta dos meios de produção, mas a tentativa de controle e coordenação do capital através de megacorporações, nas quais o homem é um mero fator altamente substituível.

As consequências disso não são apenas econômicas: são antropológicas. O ser humano deixa de ser homo agens, senhor de sua vida, para tornar-se homo sovieticus, peão de planos alheios. O resultado é o empobrecimento generalizado, material e espiritual. Quanto mais longa e intensa é a estatização de um país, piores são as consequências civilizacionais: o povo precisa reaprender tudo o que foi sistematicamente destruído; o que pode levar séculos ou nunca acontecer. Engana-se quem pensa que a morte da capacidade criadora, base fundamental do ocidente ― em todo seu potencial artístico, filosófico, tecnológico, econômico ―, pode ser corrigida com uma simples caneta. A criatividade humana não se decreta.


[1]  A escolha de escrever sempre o termo estado (poder público) com letra minúscula vem da recusa à distinção tipográfica que sugere uma pretensa superioridade metafísica ou moral do poder público sobre os indivíduos e suas associações voluntárias.

[2]     HUERTA DE SOTO, Jesús. A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

[3]     TYLOR, Edward B. Primitive Culture. Londres: John Murray, 1871.

[4]     FREYRE, Gilberto. Sociologia: Introdução ao Estudo dos seus Princípios. São Paulo: É Realizações Editora, 2009. p. 124.

[5]     HUERTA DE SOTO, Jesús. A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.

[6]      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro VI, 1140a1-20. Tradução de Edson Bini. 4. ed. São Paulo: Edipro, 2014.

[7]     Sobre conhecimento tácito incorporado na prática, ver: POLANYI, Michael. The tacit dimension. Chicago: University of Chicago Press, 1966. cap. 1.

[8]     Sobre a atividade empreendedora e descentralizada nas colônias do norte dos Estados Unidos, ver: FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1963. p. 43.

[9] DISTRITO FEDERAL. Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF). Produto Interno Bruto do Distrito Federal. Brasília: IPEDF, 2025. Disponível em: https://www.ipe.df.gov.br.



Priscila Contim - Mises Brasil

Filho do ex-presidiário Lula, Lulinha admite viagem a Portugal paga por lobista do INSS

Filho de Lula da Silva explicou que ida ao país europeu com o Careca do INSS ocorreu para visitar uma fábrica de Cannabis medicinal


Lulinha, filho do presidente Lula da Silva, e Careca do INSS: repasses suspeitos | Foto: Reprodução/X 


O empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha e filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, relatou a pessoas próximas que o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, pagou suas despesas de voo e hotel em uma viagem a Portugal. A informação é do jornal O Estado de S. Paulo.

Lulinha explicou que a ida ao país europeu com Antunes, que está preso por suspeita de corrupção ligada a fraudes bilionárias no sistema previdenciário, ocorreu com o objetivo de visitar uma fábrica envolvida no cultivo de Cannabis para uso medicinal. Ele negou, porém, ter firmado qualquer parceria ou recebido outros pagamentos do lobista. 

O nome do filho do presidente foi associado formalmente ao de Antunes a partir do depoimento de um ex-funcionário do lobista à Polícia Federal, que indicou suposta sociedade e pagamentos de R$ 300 mil mensais ao empresário. 


Investigação da Polícia Federal e quebra de sigilo


Polícia Federal - Foto: Senado Federal 


Mensagens obtidas pela investigação mostram quando Antunes trata de pagamentos de R$ 300 mil destinados ao “filho do rapaz”, mas sem especificar a identidade. A Polícia Federal apura se o termo faz referência a Lulinha. Além disso, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS determinou a quebra do sigilo bancário de Lulinha por causa da ligação com Antunes, que segue preso por supostos repasses milionários a ex-dirigentes do órgão.

Segundo fontes próximas ao filho do presidente consultadas pelo Estadão, Lulinha teria conhecido Antunes por meio da empresária Roberta Luchsinger, investigada por também receber pagamentos do lobista. Eles relataram que a viagem ocorreu no fim de 2024, em voo de primeira classe e com hospedagem paga por Antunes. À época, receberam o convite para conhecer uma fábrica de Cannabis medicinal, mas sem fechar negócio. 

Ainda de acordo com interlocutores, Lulinha afirma não ter envolvimento no esquema do INSS nem conhecimento prévio das es de Antunes, reforçando que nunca recebeu valores do lobista. Ele declarou que a relação surgiu unicamente por meio de Roberta Luchsinger, ex-candidata do PT a deputada estadual e conhecida por atuar em Brasília na representação de interesses de empresas perante órgãos federais.


Atuação de Antunes e detalhes da viagem de Lulinha 

Antunes, além de atuar no setor de benefícios do INSS, é proprietário da World Cannabis, empresa de Cannabis medicinal sediada em Brasília. Em registros do Ministério da Saúde, tanto ele quanto Roberta figuravam como representantes de empresas distintas. O lobista buscava informações sobre regulamentação da Cannabis na Anvisa e, segundo Lulinha, encontros para tratar do tema ocorriam na residência de Roberta, no Lago Sul, em Brasília. Lulinha relatou que discutiu temas técnicos sobre cultivo indoor e sugeriu soluções tecnológicas, mas negou qualquer vínculo comercial. Segundo ele, participava de reuniões sociais e familiares, sem envolvimento nos negócios do Careca do INSS. “Nunca recebi qualquer valor dele e isso pode ser comprovado em meus extratos bancários”, explicou.

No início de novembro de 2024, ambos viajaram juntos, de primeira classe, para Lisboa, partindo do Aeroporto de Guarulhos. A existência da viagem foi revelada pelo site Metrópoles e confirmada por depoimentos à Polícia Federal. Apesar disso, ainda não há documentos que esclareçam oficialmente quem pagou as despesas.


Revista Oeste 

domingo, 1 de março de 2026

Flávio Gordon - 'Sob um Estado criminoso'

 Pesquisa mostra que 91,5% dos brasileiros acreditam que facções criminosas dominam a política e a Justiça


Maioria esmagadora da população brasileira acha que crime organizado domina a Justiça e a polícia - Foto: Agência Brasil 


Segundo pesquisa divulgada pela AtlasIntel com a Bloomberg, em parceria com a 91,5% dos brasileiros acreditam que facções criminosas dominam a política e a Justiça. É um dado estarrecedor: em cada dez brasileiros, mais do que nove acreditam viver sob governo do crime. O dado, aliás, faz recordar a recente declaração do presidente da Unafisco, segundo a qual, no Brasil, seria menos perigoso investigar o PCC do que altas autoridades da República. 

Obviamente, para os nossos juristocratas autoproclamados “editores da sociedade”, tudo não passa de um delírio coletivo causado pela disseminação de fake news na internet, numa operação calculada pelo “novo populismo digital extremista” (ou seja, pela direita) para atacar a credibilidade das instituições republicanas. Mas esses juristocratas não devem ser ouvidos sobre isso. Afinal, eles são os principais responsáveis pelo descrédito dessas instituições, e por, uma vez em posição magisterial, portar-se como delinquentes, como quando usam a força para perseguir inimigos, fazem gestos de degola, erguem o dedo do meio para a sociedade e anunciam — sem ser de forma jocosa — que “cabeças vão rolar”. Portanto, o resultado da pesquisa traduz uma percepção empírica: o crime organizado deixou de ser um problema de polícia e tornou-se uma variável institucional. 

A percepção é justa e correta. Ao longo dos últimos anos, assistimos à consolidação do Estado bandidólatra, que parece desprezar o cidadão de bem — esse termo de tão fácil compreensão, apesar de xtrair esgares de ódio da elite cultural uspiana —, na medida em que nutre um amor materno pelo delinquente, um carinho patológico pelo homicida. A empatia que certa esquerda nega aos fetos humanos abortados é concedida, generosamente, aos facínoras mais violentos. O traficante vira “vítima do sistema”; o policial, suspeito em potencial.


Estátua da Justiça com STF ao fundo - Foto: Gustavo Moreno/STF


Não é casual. A vitória da polícia é vivida, nesse imaginário, como derrota ideológica. O que exaspera a esquerda narcoafetiva que assou a dominar o Estado brasileiro não é o sangue do criminoso — cuja dimensão humana não lhe interessa, já que marxistas enxergam classes, não pessoas —, mas o vislumbre de um Estado que ousa agir como Estado. Cada operação policial bem-sucedida é um tiro no coração de uma visão de mundo que romantiza a desordem urbana como etapa necessária da revolução social.

No plano cultural, o fenômeno roça o clínico. A hibristofilia — o fascínio erótico por criminosos violentos — já foi observada por Carlinhos Oliveira em Terror e Êxtase e ganhou expressão pública na curiosa relação do cineasta João Moreira Salles com Marcinho VP, líder do Comando Vermelho. Não se trata de casos isolados, mas de sintomas de um ambiente intelectual que estetiza o crime e demoniza a repressão.


Vista aérea da Esplanada dos Ministérios, em Brasília - Foto: Reprodução/Agência Senado

Quando 91,5% da população afirma que facções influenciam os altos postos da República, não está apenas expressando medo. Está registrando uma evidência histórica recente: o avanço de facilitadores, cúmplices e garantidores políticos de um ecossistema criminoso que se infiltrou nas instituições. A narcoafetividade deixou de ser um capricho universitário e incorporou-se à própria estrutura do Estado. 

O povo percebeu. E, ao menos desta vez, a intuição popular está anos luz à frente da teoria.


Flávio Gordon - Revista Oeste