sábado, 2 de maio de 2026

Como os sindicatos prejudicam os trabalhadores, relata George Reisman

 

Talvez uma maioria substancial das pessoas, ainda acreditam que, independentemente de quaisquer problemas que possam ter causado, os sindicatos são, em essência, uma instituição que existe no interesse vital dos assalariados. De fato, muitos acreditam que são os sindicatos que se interpõem entre o assalariado comum e uma vida de salários de subsistência, jornadas de trabalho exaustivas e condições de trabalho terríveis.

Os sindicatos e o público em geral ignoram quase totalmente o papel essencial desempenhado pela queda dos preços na obtenção de salários reais crescentes. Eles veem apenas o aumento dos salários monetários como digno de consideração. De fato, em nosso ambiente de inflação crônica, preços que realmente caem são relativamente raros.

No entanto, a única coisa que pode explicar um aumento dos salários reais em todo o sistema econômico é uma queda nos preços em relação aos salários. E a única coisa que consegue isso é um aumento na produção por trabalhador. Mais produção por trabalhador — uma maior produtividade do trabalho — serve para aumentar a oferta de bens e serviços produzidos em relação à oferta de mão de obra que os produz. Dessa forma, reduz os preços em relação aos salários e, assim, eleva os salários reais e o padrão de vida geral.

O que faz com que os salários monetários aumentem em todo o sistema econômico não é o que está por trás do aumento dos salários reais.

Os aumentos nos salários monetários são, essencialmente, resultado apenas do aumento da quantidade de dinheiro e do consequente aumento no volume geral de gastos no sistema econômico. Na ausência de um aumento da produtividade do trabalho, o aumento da oferta monetária e dos gastos levaria a um aumento dos preços igual ou superior ao aumento dos salários. Esse resultado é evitado apenas pelo fato de que, ao mesmo tempo em que a quantidade de dinheiro e o volume de gastos estão aumentando, a produção por trabalhador também está aumentando, fazendo com que os preços subam menos do que os salários. Uma queda nos preços ainda está presente na forma de preços mais baixos do que seriam se apenas um aumento na quantidade de dinheiro e no volume de gastos estivesse em vigor.

Com exceções relativamente menores, os salários reais em todo o sistema econômico simplesmente não aumentam por causa de salários monetários mais altos. Essencialmente, eles aumentam apenas devido a uma maior oferta de bens e serviços em relação à oferta de mão de obra e, portanto, devido a preços mais baixos em relação aos salários. A verdade é que os meios pelos quais o padrão de vida do assalariado individual, do empresário individual e do capitalista é elevado, e os meios pelos quais o padrão de vida do assalariado médio no sistema econômico é elevado, são muito diferentes. Para o indivíduo, trata-se de ganhar mais dinheiro. Para o assalariado médio no sistema econômico, trata-se do pagamento de preços mais baixos.

O que essa discussão mostra é que o aumento dos salários monetários que os sindicatos buscam não é, de forma alguma, a fonte do aumento dos salários reais e que a fonte do aumento dos salários reais é, na verdade, o aumento da produtividade do trabalho, que sempre opera do lado da queda dos preços, e não do aumento dos salários monetários.

De fato, os esforços dos sindicatos para aumentar os salários monetários opõem-se profundamente ao objetivo de elevar os salários reais e o padrão de vida. Quando os sindicatos buscam elevar o padrão de vida de seus membros por meio do aumento de seus salários monetários, sua política acaba inevitavelmente se resumindo a uma tentativa de tornar o trabalho de seus membros artificialmente escasso. Esse é o único meio que têm para aumentar os salários de seus membros. Os sindicatos não têm muito poder real sobre a demanda por mão de obra. Mas frequentemente alcançam um poder considerável sobre a oferta de mão de obra. E sua técnica real para aumentar os salários consiste em tornar a oferta de mão de obra, pelo menos no setor ou ocupação específica com a qual um determinado sindicato se preocupa, o mais escassa possível.

Assim, sempre que podem, os sindicatos tentam obter controle sobre a entrada no mercado de trabalho. Eles buscam impor programas de aprendizagem ou fazer com que o governo imponha requisitos de licenciamento. Tais medidas têm o objetivo de conter a oferta de mão de obra no setor e, assim, permitir que aqueles que têm a sorte de serem admitidos nele obtenham rendimentos mais elevados. Mesmo quando os sindicatos não conseguem reduzir diretamente a oferta de mão de obra, a imposição de suas exigências salariais acima do mercado ainda tem o efeito de reduzir o número de empregos oferecidos no setor e, consequentemente, a oferta de mão de obra no setor capaz de encontrar trabalho.

Os aumentos artificiais de salários impostos pelos sindicatos resultam em desemprego quando salários acima do mercado são impostos em todo o sistema econômico. Essa situação ocorre quando é possível formar sindicatos com facilidade. Se, como nos Estados Unidos atualmente, basta que a maioria dos trabalhadores de um estabelecimento decida que deseja ser representada por um sindicato, então os salários impostos pelos sindicatos passarão a vigorar mesmo nos setores não sindicalizados.

Os empregadores dos setores não sindicalizados se sentirão obrigados a oferecer aos seus trabalhadores salários comparáveis aos que os trabalhadores sindicalizados recebem — na verdade, possivelmente até salários ainda mais altos —, a fim de garantir que eles não se sindicalizem.

Aumentos salariais generalizados, que excluem um grande número de trabalhadores de inúmeras ocupações, exercem extrema pressão sobre os níveis salariais de quaisquer áreas do sistema econômico que ainda permaneçam abertas. Essas áreas limitadas poderiam absorver o excesso de trabalhadores de outros setores a níveis salariais baixos o suficiente. Mas as leis de salário mínimo impedem que os níveis salariais nesses setores remanescentes caiam o suficiente para absorver esses trabalhadores.

Do ponto de vista da maioria daqueles que tiveram a sorte de manter seus empregos, a consequência mais grave dos sindicatos é a contenção ou a redução direta da produtividade do trabalho. Com poucas exceções, os sindicatos combatem abertamente o aumento da produtividade do trabalho. Fazem isso praticamente por uma questão de princípio. Opõem-se à introdução de máquinas que economizam mão de obra, alegando que isso causa desemprego. Opõem-se à concorrência entre os trabalhadores. Como Henry Hazlitt apontou, eles forçam os empregadores a tolerar práticas de protecionismo, como a clássica exigência de que os foguistas, cuja função era carregar carvão em locomotivas a vapor, fossem mantidos nas locomotivas a diesel. Eles impõem esquemas de trabalho artificial, como exigir que tubos entregues em canteiros de obras já com rosca sejam cortados nas extremidades e tenham uma nova rosca feita no local. Eles impõem classificações de trabalho restritas e exigem que especialistas sejam contratados com remuneração diária para realizar trabalhos que outros poderiam facilmente fazer — por exemplo, exigir a contratação de um gesseiro para reparar danos acidentais causados a uma parede por um eletricista, danos que o próprio eletricista poderia facilmente reparar.

Para quem compreende o papel da produtividade do trabalho no aumento dos salários reais, deve ficar claro que a política dos sindicatos de combater o aumento da produtividade do trabalho os torna, na verdade, os principais inimigos do aumento dos salários reais. Por mais radical que essa conclusão possa parecer, por mais que ela entre em contradição com a visão predominante de que os sindicatos são a principal fonte do aumento dos salários reais nos últimos cento e cinquenta anos ou mais, o fato é que, ao combater o aumento da produtividade do trabalho, os sindicatos combatem ativamente o aumento dos salários reais!

Longe de serem responsáveis pelas melhorias no padrão de vida do trabalhador médio, os sindicatos operam em ignorância quase total sobre o que realmente eleva o padrão de vida do trabalhador médio. Em consequência de sua ignorância, eles são responsáveis por desigualdades artificiais nas taxas salariais, pelo desemprego e por manter baixos os salários reais e o padrão de vida do trabalhador médio. Todas essas consequências destrutivas e antissociais derivam do fato de que, enquanto os indivíduos aumentam o dinheiro que ganham por meio do aumento da produção e da oferta geral de bens e serviços, reduzindo assim os preços e elevando os salários reais em todo o sistema econômico, os sindicatos aumentam o dinheiro pago a seus membros exatamente pelo caminho oposto. Eles reduzem a oferta e a produtividade da mão de obra e, assim, reduzem a oferta e elevam os preços dos bens e serviços que seus membros ajudam a produzir, reduzindo, com isso, os salários reais em todo o sistema econômico.



George Reisman, Mises Brasil

Estudo mostra contrastes entre capitalismo e socialismo, por Victória Batalha

 

Levantamento do Instituto Millenium e do Ranking dos Políticos reúne dados de países na Europa, na Ásia e na América Latina


Estudo mostra contrastes entre capitalismo e socialismo

Um levantamento divulgado pelo Instituto Millenium em parceria com o Ranking dos Políticos reúne dados para comparar trajetórias econômicas de países que adotaram modelos distintos de organização econômica. 

Divulgado nesta sexta-feira, 1º, o material apresenta indicadores de crescimento, inflação e renda em nações da Europa, da Ásia e da América Latina. A análise inclui casos como Venezuela, Polônia, Alemanha e as Coreias.

Comparação destaca diferenças de desempenho econômico No caso da Venezuela, o levantamento mostra que o país figurava entre os mais ricos da América Latina nos anos 1970. Décadas depois, registrou inflação de 1.000.000% em 2018 e queda superior a 70% do Produto Interno Bruto (PIB) desde 2013. 

O material também aponta a saída de mais de 7 milhões de pessoas do país. O que mudou de um tempo para o outro? Antes, o país era cap

No caso da Venezuela, o levantamento mostra que o país figurava entre os mais ricos da América Latina nos anos 1970. Décadas depois, registrou inflação de 1.000.000% em 2018 e queda superior a 70% do Produto Interno Bruto (PIB) desde 2013. 

O material também aponta a saída de mais de 7 milhões de pessoas do país. O que mudou de um tempo para o outro? Antes, o país era capitalista. Depois, lidou — e ainda lida — com a ditadura socialista. 

 

Venezuela já foi um dos países mais ricos da América Latina em 1970 - Foto: Reprodução/ X 

Reprodução/ X Já a Polônia apresentou trajetória distinta. Segundo o estudo, o país enfrentou baixo crescimento e dificuldades econômicas nas décadas de 1970 e 1980, quando vivia sob o regime comunista. A partir dos anos 1990, com mudanças na estrutura econômica, o PIB per capita mais que triplicou. O crescimento médio ficou próximo de 4% ao ano por décadas. 

O levantamento também inclui comparações entre Alemanha Ocidental (capitalista) e Alemanha Oriental (socialista), durante o período de divisão do país, além dos casos de Coreia do Sul e Coreia do Norte. Nos exemplos citados, o levantamento aponta diferenças de renda, como um PIB abaixo de US$ 2 mil para a Coreia do Norte e de US$ 30 para a Coreia do Sul. O conteúdo reforça indicadores de produtividade e condições econômicas ao longo do tempo. 

Outro ponto abordado envolve restrições à mobilidade em regimes comunistas e socialistas. O conteúdo menciona que, na Alemanha Oriental, a saída do país era tratada como crime, com registros de tentativas de fuga e mortes ao longo do período.

O Ranking dos Políticos e o Instituto Millenium divulgaram as informações em peças visuais que elas próprias produziram. Em geral, as duas instituições apresentam os dados como exemplos de trajetórias econômicas distintas em contextos históricos semelhantes.


Victória Batalha -  Revista Oeste

'Jorge Messias, o estafeta rejeitado', por Carlo Cauti

 


Jorge Messias, advogado-geral da União, durante sabatina na CCJ do Senado - 29/04/2026 | Lula Marques/Agência Brasil 

O Senado Federal deu um recado claro: quem nasce estafeta não morrerá ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Mensagem entregue por meio da pior derrota da história do terceiro governo Lula. Os senadores fizeram o que não acontecia desde 1894: rejeitaram uma indicação do presidente da República para o STF.

Sete minutos. É quanto tempo levou para o Senado enterrar o nome que Lula anunciara com pompa em novembro do ano passado. Foram cinco meses entre o anúncio e a sabatina, o intervalo mais longo desde a redemocratização. Tanta demora para tanto vexame. 

E o placar: 42 votos contra, 34 a favor. A conta é simples e brutal. Num plenário com 79 dos 81 senadores presentes, ou seja, sem desculpa de ausências, o governo nem chegou perto do que precisava.


.Não adiantou exonerar temporariamente ministros para que voltassem ao Senado e votassem junto com a tropa governista. Muito menos empenhar R$ 12 bilhões em emendas parlamentares nos dias que antecedem a sabatina 


O objetivo do Planalto era emplacar Messias no Supremo para ter mais um ministro para chamar de seu. Os senadores não concordaram. 

A cena final não poderia ser mais emblemática. A oposição comemorou. A base governista “estava sem entender a situação”, segundo noticiou a própria imprensa simpática ao governo. Não entendiam. É difícil, de fato, entender como um governo que chegou ao poder prometendo costurar o país deixou de costurar os votos necessários para emplacar um homem de sua inteira confiança na cadeira mais cobiçada do Judiciário brasileiro.

Mas o problema não foi apenas a capacidade política do Executivo. Foi a qualidade humana do postulante a ministro. 

Office boy da Dilma Em 16 de março de 2016, a Polícia Federal divulgou uma ligação telefônica interceptada entre a então presidente Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Nela, Dilma avisava ao companheiro: “Eu tô mandando o Bessias junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse”. 

O “papel” era um documento que garantiria foro privilegiado a Lula, retirando-o das mãos do então juiz Sergio Moro. O “Bessias” era Messias, apelido que a pronúncia nasal de Dilma eternizou na história política do país. O menino de recado entregou o envelope. Mas o plano não deu certo. 

Lula foi preso mesmo assim. Só que o estafeta ficou. E voltou. Em 2023, chegou a recompensa da fidelidade. Com Lula de volta ao Planalto, Messias foi nomeado Advogado-Geral da União. 

Não perdeu tempo e cuidou de retribuir com generosidade. Concretizando uma tara histórica do petismo: a censura. Messias criou a chamada Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, o “Ministério da Verdade” do PT: um órgão do Executivo com poder de definir o que é desinformação e o que deve sumir da internet. 

Trata-se, portanto, de uma excrescência jurídica impensável em qualquer democracia. Mas como tudo no petismo começa trágico e termina grotesco, a tal de Procuradoria do Messias rejeitou sistematicamente todas as denúncias contra as inverdades divulgadas pelo próprio governo, enquanto cumpria com zelo o papel de silenciador das críticas ao PT. 


Ao arrepio da Constituição, que garante a liberdade de expressão no Brasil, Jorge Messias criou o ‘Ministério da Verdade’ dentro a AGU de Lula - Foto: Lula Marques/Agência Bra

Quando Elon Musk se recusou a obedecer a ordens ilegais do ministro Alexandre de Moraes de bloquear contas de usuários brasileiros, Messias foi ao microfone defender o bloqueio do X no Brasil com a mesma desenvoltura de quem carrega envelope. 

Definiu a censura de 39 dias como “um antes e um depois” na soberania digital do país. Mas não pronunciou uma só palavra sobre a afronta que essas ordens secretas representavam à liberdade de expressão. 

Quando jornalistas brasileiros e o americano Michael Shellenberger publicaram os “Twitter Files Brasil”, revelando a campanha de censura conduzida nas sombras por Moraes e pelo Tribunal Superior Eleitoral, Messias reuniu-se com representantes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos para insinuar que o trabalho jornalístico era um “ataque coordenado da extrema-direita 

Quatro dias depois da publicação, mandou uma notícia-crime contra os repórteres ao próprio Moraes, alegando risco ao “Estado Democrático de Direito”. 

No escândalo do roubo do INSS, a AGU de Messias tentou blindar o instituto e seus líderes ligados ao PT de múltiplas ações que buscavam reaver valores descontados ilegalmente dos aposentados — e, por ironia macabra, a lista de entidades com bloqueios de bens pedidos pela AGU excluiu uma associação cujo diretório é comandado pelo próprio irmão de Lula. Detalhes

Na época das enchentes no Rio Grande do Sul, Messias não titubeou em investigar aquilo que outro inimigo da liberdade, Paulo Pimenta, considerava como “notícias falsas”. O então ministro das Comunicações de Lula não tolerava críticas à ineficiência do governo e elaborou uma lista de proscrição de jornalistas, influenciadores e políticos que postaram nas redes sociais denunciando a incapacidade de gerenciar a crise. Messias acatou o pedido, e pediu uma investigação até mesmo contra o nosso Alexandre Garcia. 

Nos anos seguintes, Messias tentou censurar tudo o que desagradasse o Planalto. Das denúncias sobre a tentativa de controlar as movimentações do Pix até qualquer crítica contra Erika Hilton. 

Esse era o homem que Lula queria instalar no Supremo: o fiel escudeiro, o procurador da causa, o guardião jurídico do projeto de poder. Alguém que, chegando ao STF, completaria uma composição de três ministros com histórico de envolvimento ativo em censura, ao lado de Alexandre de Moraes e Flávio Dino, que quando era ministro da Justiça tentou intimidar redes sociais e, já no Supremo, mandou destruir livros. 

Pior, completaria a tríade de ministros nomeados por Lula não por notável saber jurídico ou ilibada reputação, conforme prevê a Constituição Federal de 1988. Mas apenas para premiar a fidelidade canina dos auxiliares mais desprovidos de espinha dorsal e amor próprios. Como o Messias. 


O presidente Lula da Silva e o advogado-geral da União, Jorge Messias - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A humilhação é dupla. É um vexame do próprio Messias, que passou a vida servindo ao PT com a discreta dedicação de quem sabe que a recompensa virá, que recebeu do presidente a indicação mais cobiçada que um jurista pode receber no Brasil, que atravessou oito horas de sabatina na CCJ e que, em seguida, viu o plenário derrubá-lo em menos tempo do que leva para aquecer um café. 

Ao sair, disse que “o Senado é soberano” e que “faz parte do processo democrático saber ganhar e saber perder”. Palavras de circunstâncias que não escondem uma profunda irritação e uma incredulidade quase inocente. Mas ditas por alguém que dedicou boa parte de sua gestão na AGU para restringir exatamente o tipo de soberania popular e de processo democrático que o acabara de derrotar.

Mas a votação do Senado é, mais ainda, a vergonha de Lula. Uma derrota inédita em 132 anos não é algo corriqueiro. É um sinal. Em ano eleitoral, com candidatura ainda não declarada, mas amplamente especulada, com um governo de popularidade em queda, Lula não conseguiu segurar os votos dos próprios aliados. 

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que nas semanas anteriores articulou o ambiente para a derrota, nem precisou aparecer para dar o golpe de misericórdia: o placar já estava decidido antes de a sessão terminar.


Presidente do Senado, Alcolumbre, durante a sessão que rejeitou Messias para o STF – 29/04/2026 | Foto: Lula Marques/Agência Brasil 


A velha mídia continua repetindo que a base governista “não entendeu”. Não entendeu o que, exatamente? Não entenderam porque ninguém havia avisado. Ou porque quem devia avisar já sabia o que viria e preferiu calar. 

A Waterloo de Lula 

As consequências dessa derrota para o governo são graves, duradouras e algumas não serão visíveis imediatamente. 

A cadeira no STF ficará vaga por tempo indeterminado. Mesmo querendo, Lula dificilmente indicará outro nome nos próximos meses. Não conseguiria aprovar ninguém. A derrota foi demasiado ruidosa, o custo político de uma nova sabatina antes das eleições seria insuportável. 

A Corte opera com dez ministros em vez de 11, e o governo perde sua janela para ampliar a influência na cúpula do Judiciário. Eram cinco indicados por Lula na composição atual; continuarão quatro. 

Mais grave ainda é o sinal enviado ao Congresso e ao eleitorado. Quando o Senado rejeita um nome presidencial para o STF pela primeira vez desde Floriano Peixoto, não está apenas barrando um indivíduo. Está dizendo que o Executivo perdeu capacidade de articulação. Está dizendo que os aliados não confiam nos aliados. Está dizendo que o governo entrou em modo de sobrevivência eleitoral e que cada senador passou a votar olhando para outubro, não para o Palácio do Planalto. 

Os próximos meses serão marcados por esse cálculo frio. Com as eleições de outubro no horizonte, cada parlamentar da base irá medir o custo de associar-se a um presidente que não entrega votos para si próprio. A pauta econômica, sempre difícil, ficará ainda mais emperrada. 

As reformas que o governo precisaria aprovar encontrarão um Congresso ainda menos generoso. E a oposição, que saiu da sessão comemorando, terá nessa votação um símbolo permanente: a prova de que o governo sangra, de que pode ser derrotado, de que a blindagem se desfez. 

Messias era um estafeta. Foi mandado com o papel. O Senado não assinou. E devolveu o envelope.


Carlo Cauti - Revista Oeste

'Formando terroristas', por Flávio Gordon

 Não são os ignorantes, não são os marginalizados que formam a vanguarda da violência política americana, mas os que passaram anos nas melhores universidades do país 


Estudantes e aliados se reúnem perto da Universidade Howard e depois marcham até o Franklin Park para protestar contra o governo Trump e o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) em Washington, DC, EUA (30/01/2026) - Foto: Reuters/Celal Gunes/Anadolu


“Não podeis imaginar que ira e tristeza tomam toda a vossa alma quando uma grande ideia, que guardastes por longo tempo como sagrada, é apanhada pelos ignorantes e arrastada para a rua, diante de tolos como eles, e de repente a encontrais no mercado, irreconhecível, enlameada, absurdamente apresentada, sem proporção, sem harmonia — o brinquedo de patifes estúpidos!” (Fala do liberal Stepan Trofimovitch Verkhovensky em Os Demônios, de Dostoievski)


O Skeptic Research Center — instituto de pesquisa da Skeptic Society, organização sem fins lucrativos dedicada a promover o ceticismo científico — acaba de publicar uma pesquisa que confirma uma realidade já intuída por observadores atentos há décadas. Intitulada “Support for Political Violence Among Americans”, a pesquisa revela o seguinte: o “apoio à violência política” nos Estados Unidos cresce proporcionalmente ao nível de escolaridade. 

Sim. Quanto mais diplomas, mais disposição para justificar — e, em alguns casos, celebrar — o uso da força contra adversários políticos. Leia-se novamente, devagar: não são os ignorantes, não são os marginalizados, não são os sem-acesso que formam a vanguarda da violência política americana contemporânea. 

São os educados. São os que passaram anos — e empenharam fortunas — nas melhores universidades do país. São, em suma, os produtos mais acabados do sistema educacional que as elites progressistas construíram, financiaram e defendem com unhas e dentes contra qualquer tentativa de reforma. 

Os dados chegam num momento em que a violência política de motivação esquerdista deixou de ser hipótese e tornou-se padrão documentado. Thomas Matthew Crooks atirou em Donald Trump numa tarde de julho de 2024, ferindo-o na orelha e matando um espectador. Dois meses depois, Ryan Wesley Routh tentou de novo. Em setembro de 2025, um militante com munições gravadas com símbolos da ideologia de gênero e do antifascismo assassinou Charlie Kirk num campus universitário — o homem que talvez mais simbolizasse, na América contemporânea, a crença de que o confronto civilizado de ideias ainda é possível. 

E, há alguns dias, Cole Tomas Allen tentou matar Donald Trump durante o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca em Washington. Três atentados em menos de dois anos contra o mesmo homem. Um assassinato consumado contra o maior debatedor conservador de sua geração. Não é uma onda. É um Zeitgeist.


O ativista e comentarista de direita americano Charlie Kirk joga chapéus para a multidão pouco antes de ser baleado durante um discurso na Universidade de Utah Valley, em Orem, Utah, EUA (10/9/2025) - Foto: Reuters/Trent Nelson/The Salt Lake Tribune 

A pergunta que a pesquisa do Skeptic Research Center obriga a formular — e que a grande imprensa americana insiste em ignorar — é a seguinte: onde esse clima de opinião foi produzido? Quem são os responsáveis por tornar concebível a ideia do assassinato político de atores públicos legítimos como defesa da democracia e da própria civilização? A resposta não requer investigação jornalística sofisticada. Requer apenas memória e honestidade intelectual, duas qualidades em escassez crescente precisamente nos ambientes que mais se gabam de cultivá-las.

Mas, felizmente, essas qualidades não faltaram a todos os intelectuais contemporâneos ao fenômeno. Alan Bloom, por exemplo, foi o primeiro a nomear o problema com a precisão exigida. Em The Closing of the American Mind (“o fechamento da mente americana”), publicado em 1987 — quando a maioria dos intelectuais progressistas ainda fingia que as universidades americanas eram templos da livre investigação —, Bloom diagnosticou que o relativismo cultural havia produzido, paradoxalmente, não mentes abertas, mas mentes fechadas: estudantes incapazes de fazer julgamentos morais, incapazes de hierarquizar valores, incapazes de distinguir o bem do mal, exceto quando se tratava de condenar o Ocidente, a tradição e o pensamento conservador, para os quais reservavam uma certeza moral inabalável. 

Roger Kimball aprofundou o diagnóstico em Tenured Radicals — livro cujo título (“radicais graduados”) antecipou com presciência os resultados da pesquisa supracitada. Nele, Kimball documentou com minúcia o processo pelo qual a geração de 1968 — derrotada nas ruas em seu projeto revolucionário — marchou sobre as instituições e tomou de assalto os departamentos universitários, instalando uma nova ortodoxia mil vezes mais intransigente do que aquela contra a qual se levantaram.


O livro Tenured Radicals de Roger Kimball - Foto: Divulgação 

O que Bloom e Kimball descreveram nos anos 1980 e 1990, Helen Pluckrose e James Lindsay analisaram na sua forma mais recente e mais sofisticada em Cynical Theories (“teorias do Cinismo”): a mutação do relativismo pós-moderno em teoria crítica aplicada — uma ideologia que abandonou qualquer pretensão de busca da verdade e se converteu, abertamente, num instrumento de poder. Não se trata mais de investigar a realidade, mas de “desconstruir” estruturas de opressão — e depois, por óbvio, substituí-las pelas suas próprias. Não se trata de formar cidadãos capazes de pensar, mas de recrutar ativistas dispostos a agir, inclusive — ou sobretudo — com violência e terror. 

No livro The Shadow University (“a universidade paralela”), Alan Kors e Harvey Silverglate documentaram as consequências práticas dessa transformação: códigos de conduta orwellianos, tribunais disciplinares que negam o devido processo, um ambiente de vigilância e delação que tornaria invejoso qualquer comissário político soviético. Já Jonathan Rauch, em Kindly Inquisitors (“inquisidores gentis”), alertou para o fato de que a supressão do debate livre não era um acidente do projeto progressista universitário, mas o seu produto lógico: um sistema que substitui a persuasão pela coerção e o argumento pela acusação moral não pode, por definição, tolerar a discordância. 

E, em The Coddling of the American Mind (“a codificação da mente americana”), Greg Lukianoff e Jonathan Haidt abordaram a dimensão psicológica do problema, concluindo que uma geração educada a enxergar palavras como violência, desconforto intelectual como trauma e discordância como agressão estava, clinicamente, mais predisposta à violência real — porque sua arquitetura cognitiva não distingue entre o debate e o perigo, entre o argumento e o ataque.


Foto: Shutterstock 

Por vias diferentes, todas as obras mencionadas — às quais se poderiam acrescentar muitas outras — chegam a uma mesma conclusão: quando se passa anos ensinando jovens que certas ideias são literalmente perigosas, que certos discursos causam dano físico, que determinados pensadores são ameaças à sobrevivência de grupos vulneráveis, não se deve espantar quando alguns desses jovens concluem que eliminar fisicamente a fonte do perigo é um ato de autodefesa — ou, pior, de heroísmo moral. 

O assassino de Charlie Kirk, lembremos, explicou o crime com uma frase que poderia ter saído de qualquer manual de teoria crítica aplicada: “Eu não aguentava mais o ódio dele”. Trata-se da inversão revolucionária prototípica, ensinada aos alunos: a vítima é o agressor; o algoz, o justiceiro. Há um outro autor que não poderíamos deixar de mencionar: David Horowitz, que viveu de dentro essa transformação do espírito dos jovens numa “eficiente e fria máquina de matar” — como diria Ernesto Che Guevara, doutor honoris causa em terrorismo. 

Filho de comunistas, militante da Nova Esquerda nos anos 1960, testemunha do assassinato de uma amiga por membros dos Panteras Negras, e depois o mais lúcido dos renegados, Horowitz desenrolou — em livros como Radical Son (“filho radical”) e The Black Book of the American Left (“o livro negro da esquerda americana”) — o fio condutor que liga a violência revolucionária dos anos 1960 à violência “democrática” de hoje: a convicção, jamais abandonada, de que o adversário político não é um cidadão com quem se discorda, mas um inimigo da humanidade a ser neutralizado. 


David Horowitz discursando na CPAC 2011 em Washington, D.C., EUA (12/02/2011) - Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons


Com efeito, a diferença entre os Weathermen que explodiram bombas nos anos 1970 (tendo um deles sido mentor intelectual de Barack Obama, aliás) e o militante contemporâneo que celebra o assassinato de Kirk no X (antigo Twitter) é apenas de método — e, às vezes, nem isso. Em The Victim’s Revolution, Bruce Bawer mostrou como os estudos de identidade institucionalizaram essa lógica: ao dividir o mundo entre opressores e oprimidos, entre os que têm direito à voz e os que devem ser silenciados, a academia americana construiu uma gramática moral que torna a violência não apenas compreensível, mas virtuosa — desde que dirigida contra os alvos corretos. 

Ben Shapiro talvez tenha sido o mais direto ao nomear o mecanismo: a esquerda cultural americana opera por intimidação sistemática, transformando o medo em instrumento de conformidade — conclui ele em Bullies: How the Left’s Culture of Fear and Intimidation Silences Americans (“Bullies: como a cultura de medo e intimidação da esquerda silencia os americanos”). \

O que a pesquisa do Skeptic Research Center revela é que essa intimidação parece estar chegando ao seu paroxismo: quando a cultura da intimidação se normaliza o suficiente, alguns dos intimidados decidem que a única resposta à ameaça percebida é a violência física, de preferência letal. O círculo fecha-se sobre si mesmo, e a universidade americana — que começou prometendo libertar as mentes — termina produzindo, com eficiência industrial, recrutas para uma guerra civil que ainda não tem esse nome, mas já tem suas vítimas. 

Há, contudo, uma nesga de esperança — pequena, mas real. A própria existência de pesquisas como a do Skeptic Research Center, de obras como as de Haidt, Lukianoff, Pluckrose e Lindsay, de movimentos como o FIRE (Foundation for Individual Rights and Expression, ou “fundação de proteção aos direitos e expressão do indivíduo”), e de uma geração crescente de jovens americanos insatisfeitos com a ortodoxia progressista, e aparentemente dotados de uma clareza moral que seus pais da geração Baby Boomer não tiveram, sugere que o paciente não está clinicamente morto. 

A universidade americana está doente — gravemente doente —, mas ainda há médicos dispostos a fazer o diagnóstico correto. O problema é que, como toda boa pesquisa médica sabe, nomear a doença não é curá-la. E, entre o diagnóstico e a cura, as vítimas continuam se acumulando.


Flávio Gordon - Revista Oeste  

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guilherme Fiuza e 'A violência de boa aparência'

 Negacionistas estão em grande forma. Novo atentado contra Trump já caiu na máquina de moer realidade. A tropa da “desinformação” consentida não brinca em serviço


Foto: Montagem Revista Oeste/IA


A arte de maquiar a violência não é para qualquer um. Transformar em alegoria uma ação para tirar a vida de alguém é coisa de profissional. Basta um clique dos influenciadores modernos para transmutar verdade em ficção. O resultado está aí: uma horda de distraídos (mais ou menos conscientes) acreditando que o atentado do Washington Hilton foi uma armação. 

Cada um acredita no que quiser, você poderá ressalvar. Perfeitamente. Mas no momento em que um contingente expressivo da sociedade passa a acreditar que a chuva cai para cima, inegavelmente temos um problema. 

Não cabe aqui dar voltas em torno dos tipos de truque à disposição na praça para lidar com o atentado. 


A saber: 

• “foi tudo armação”; 

• “análises” sobre proveitos políticos do episódio; 

• “constatações” de que a culpa é da vítima, conforme os cânones do humanismo de folhetim.


Não faz diferença. O fato é que a humanidade hoje flerta fervorosamente com a terceirização dos sentidos. O que seria isso? É simples: cada vez mais juízos individuais são formados por indução propagandística — em detrimento do velho sentir/pensar/dizer. Talvez seja até um erro falar em juízos individuais. Nos últimos anos, a opinião pública frequentemente foi um arrastão de Instagram.


O presidente dos EUA, Donald Trump, é escoltado para fora do local enquanto um atirador abre fogo durante o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, em 25 de abril de 2026 - Foto: Reuters/Bo Erickson


Exagero? Pode ser. Mas então alguém precisa explicar como se consolidam cada vez mais impressões — e expressões — coletivas inteiramente alheias aos fatos. 

Donald Trump é um indivíduo que preside a maior democracia do planeta e está sendo caçado à bala na cara de todo mundo. Ele foi eleito pelo povo. E seus maiores embates são contra regimes autoritários. Não é normal a complacência de pessoas e instituições com essa caçada vergonhosa. Todos teriam a obrigação de repudiar sumariamente essas teses de “armação”, por exemplo — a começar pela imprensa. 

Estão todos brincando de videogame com o vilão providencial. Quantas arbitrariedades têm estado escondidas sob esse antitrumpismo de fanfarra? Desde 7 de outubro de 2023, a civilização está devendo uma prova cabal de humanidade. É bom se adiantar, antes que o preço da brutalidade embelezada fique alto demais.


Guilherme Fiuza - Revista Oeste

Guilherme Fiuza e 'A violência de boa aparência'

Negacionistas estão em grande forma. Novo atentado contra Trump já caiu na máquina de moer realidade. A tropa da “desinformação” consentida não brinca em serviço


Foto: Montagem Revista Oeste/IA


A arte de maquiar a violência não é para qualquer um. Transformar em alegoria uma ação para tirar a vida de alguém é coisa de profissional. Basta um clique dos influenciadores modernos para transmutar verdade em ficção. O resultado está aí: uma horda de distraídos (mais ou menos conscientes) acreditando que o atentado do Washington Hilton foi uma armação. 

Cada um acredita no que quiser, você poderá ressalvar. Perfeitamente. Mas no momento em que um contingente expressivo da sociedade passa a acreditar que a chuva cai para cima, inegavelmente temos um problema. 

Não cabe aqui dar voltas em torno dos tipos de truque à disposição na praça para lidar com o atentado. 


A saber: 

• “foi tudo armação”; 

• “análises” sobre proveitos políticos do episódio; 

• “constatações” de que a culpa é da vítima, conforme os cânones do humanismo de folhetim.


Não faz diferença. O fato é que a humanidade hoje flerta fervorosamente com a terceirização dos sentidos. O que seria isso? É simples: cada vez mais juízos individuais são formados por indução propagandística — em detrimento do velho sentir/pensar/dizer. Talvez seja até um erro falar em juízos individuais. Nos últimos anos, a opinião pública frequentemente foi um arrastão de Instagram.


O presidente dos EUA, Donald Trump, é escoltado para fora do local enquanto um atirador abre fogo durante o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, em 25 de abril de 2026 - Foto: Reuters/Bo Erickson


Exagero? Pode ser. Mas então alguém precisa explicar como se consolidam cada vez mais impressões — e expressões — coletivas inteiramente alheias aos fatos. 

Donald Trump é um indivíduo que preside a maior democracia do planeta e está sendo caçado à bala na cara de todo mundo. Ele foi eleito pelo povo. E seus maiores embates são contra regimes autoritários. Não é normal a complacência de pessoas e instituições com essa caçada vergonhosa. Todos teriam a obrigação de repudiar sumariamente essas teses de “armação”, por exemplo — a começar pela imprensa. 

Estão todos brincando de videogame com o vilão providencial. Quantas arbitrariedades têm estado escondidas sob esse antitrumpismo de fanfarra? Desde 7 de outubro de 2023, a civilização está devendo uma prova cabal de humanidade. É bom se adiantar, antes que o preço da brutalidade embelezada fique alto demais.


Guilherme Fiuza - Revista Oeste

Ana Paula Henkel e 'A indústria do extremismo'

A organização que passou décadas classificando outros grupos como ameaças à democracia agora se vê obrigada a responder diante da Justiça 


O diretor do FBI, Kash Patel, participa de uma coletiva de imprensa com o procurador-geral interino, Todd Blanche, após a acusação do Southern Poverty Law Center por lavagem de dinheiro, no Departamento de Justiça em Washington, DC (21/04/2026) | Foto: Reuters/Nathan Posner/Anadolu 


N a última semana, os Estados Unidos foram sacudidos por um escândalo que, para muitos americanos, parecia simplesmente impensável há poucos anos. Uma das organizações mais poderosas, influentes e protegidas da esquerda americana contemporânea acabou formalmente colocada no centro de uma investigação federal envolvendo acusações de fraude eletrônica, fraude bancária e lavagem de dinheiro. 

Em 1971, a Southern Poverty Law Center, uma ONG que nasceu prometendo combater o extremismo nos Estados Unidos, apresentouse como uma espécie de guardiã moral da sociedade americana, uma organização dedicada a identificar grupos racistas, movimentos violentos e ameaças à convivência civil.


Membros da equipe inicial do SPLC se reúnem para ouvir as notícias sobre uma decisão da Suprema Corte referente ao reajuste das cadeiras no Congresso. Na frente: Joe Levin; da esquerda para a direita, Michael Fidlow, primeiro diretor de arrecadação de fundos; Jo Brazell, arrecadação de fundos; Dave Watson, arrecadação de fundos (redigiu cartas de arrecadação de fundos); Mamie Goldsmith, trabalhava no setor de correspondência; Julian Bond; Beverly Hughes; Jackie Alexander, assistente administrativa - Foto: Relatório do SPLC de maio de 1974


Durante décadas, o SPLC ocupou uma posição quase intocável dentro da vida pública americana. Seus relatórios ajudaram a moldar políticas de empresas de tecnologia, decisões de plataformas digitais e até análises dentro do próprio governo federal. Bancos utilizavam seus relatórios para encerrar relações comerciais com determinadas organizações. Empresas de mídia social recorreram às listas produzidas pelo grupo para justificar censura, bloqueios e desmonetizações. 

Ao longo dos anos, o Southern Poverty Law Center também se transformou em um fenômeno financeiro. A organização recebeu centenas de milhões de dólares em doações, acumulou patrimônio bilionário e passou a integrar a elite institucional progressista americana. Entre seus apoiadores estiveram grandes fundações, empresários, celebridades, executivos do Vale do Silício e nomes influentes do universo político e cultural dos Estados Unidos


SPLC ocupou uma posição quase intocável dentro da vida pública americana | Foto: Shutterstock 

Especialmente durante a ascensão política de Donald Trump, o Southern Poverty Law Center ampliou enormemente sua influência sobre o debate público americano. Relatórios, listas e classificações produzidos pela organização passaram a ser utilizados constantemente por grandes veículos de imprensa, plataformas digitais e comentaristas políticos para associar movimentos conservadores ao extremismo. Em muitos casos, organizações religiosas, grupos conservadores e lideranças da direita americana passaram a ser retratados dentro de uma lógica de “ameaça democrática” baseada justamente nas classificações produzidas pelo SPLC. 

O fenômeno se intensificou durante o primeiro mandato de Donald Trump, mas foi em 2020, durante a corrida presidencial, que a retórica de que o presidente americano representava uma ameaça existencial à democracia americana passou a dominar parte significativa da imprensa nos Estados Unidos. 

Nesse ambiente, relatórios produzidos pelo Southern Poverty Law Center ganharam status quase oficial na definição de quem deveria ser considerado “extremista”, “radical” ou “grupo de ódio”. Movimentos conservadores como o Turning Point USA, liderado por Charlie Kirk, passaram a ser associados pela imprensa progressista a discursos extremistas ou perigosos.


Memorial na sede da Turning Point USA, depois que Charlie Kirk foi morto com tiros enquanto falava na Universidade do Vale do Utah - Foto: Shutterstock

Ao mesmo tempo, plataformas digitais e empresas de tecnologia utilizavam essas classificações para justificar censura, bloqueios, campanhas de desmonetização e restrições de alcance contra grupos conservadores e religiosos.

Há duas semanas, memorandos internos revelaram que o FBI, durante o governo Joe Biden, chegou a monitorar grupos católicos ligados à missa tradicional em latim e ambientes religiosos conservadores, alimentando acusações de perseguição ideológica contra setores religiosos que passaram a ser vistos, em determinados círculos políticos e burocráticos, como potenciais focos de radicalização doméstica. 

No entanto, os últimos dias expuseram, mais uma vez, a profunda hipocrisia dos autoproclamados “tribunais da virtude” nos Estados Unidos. 


A máquina do ódio exposta 

O indiciamento federal desta semana do Departamento de Justiça americano ao Southern Poverty Law Center é um golpe devastador para uma organização que construiu sua influência nacional justamente se apresentando como autoridade moral no combate ao extremismo e à corrupção ética da sociedade americana. 

Segundo o promotor-geral interino, Todd Blanche, e o chefe do FBI, Kash Patel, centenas de milhões de dólares teriam sido movimentados por meio de empresas de fachada e estruturas financeiras utilizadas para ocultar pagamentos destinados a informantes ligados justamente a grupos extremistas, incluindo — pasmem! — organizações neonazistas e remanescentes da própria Ku Klux Klan.

A ironia histórica é evidente. 

A organização que passou décadas classificando outros grupos como ameaças à democracia agora se vê obrigada a responder diante da Justiça americana por acusações de corrupção, manipulação financeira, falta de transparência e trabalhos com grupos extremistas.

E talvez exatamente por isso o escândalo tenha provocado tamanho terremoto político em Washington. 

O caso rapidamente ultrapassou o universo jurídico e se transformou em uma discussão muito mais profunda sobre poder ideológico, influência institucional e manipulação política nos Estados Unidos contemporâneos. 

O escândalo do Southern Poverty Law Center obriga os Estados Unidos a revisitarem novamente o passado racial americano, a Ku Klux Klan, as leis Jim Crow e a relação histórica desses movimentos com o velho establishment democrata do sul dos Estados Unidos.


O procurador-geral interino Todd Blanche participa de uma coletiva de imprensa com o diretor do FBI, Kash Patel, após a acusação do Southern Poverty Law Center de lavagem de dinheiro, no Departamento de Justiça em Washington, D.C., em 21 de abril de 2026 - Foto: Reuters/Nathan Posner/Anadolu 

A história como espelho 

A Ku Klux Klan surgiu em 1865, logo após a Guerra Civil Americana. A escravidão havia sido abolida. O sul derrotado enfrentava a ocupação federal. E milhões de negros recém-libertos passavam, pela primeira vez, a existir juridicamente como cidadãos americanos.

No ambiente caótico da Reconstrução americana, antigos oficiais confederados, elites locais e políticos sulistas começaram a organizar resistência ao novo modelo político defendido por Washington. O Partido Republicano de Abraham Lincoln defendia a manutenção da União, o fim da escravidão e o uso do poder federal para garantir direitos civis aos negros libertos. 

No sul, porém, muitos governos estaduais continuavam controlados por democratas ligados à antiga estrutura confederada. Foi nesse contexto que nasceu a Ku Klux Klan.


Membros da Ku Klux Klan desfilando em Washington, D.C., em 1926 | Foto: Shutterstock

Inicialmente criada como uma fraternidade secreta no Tennessee, a organização rapidamente se transformou em um movimento terrorista doméstico. Seus integrantes utilizavam assassinatos, espancamentos, incêndios e intimidação para impedir negros americanos de votar, estudar, ocupar cargos públicos ou exercer direitos garantidos pela Constituição.

É impossível compreender esse período sem reconhecer um fato histórico frequentemente tratado de forma seletiva no debate contemporâneo: durante décadas, a estrutura política segregacionista do sul-americano esteve profundamente associada ao Partido Democrata. Foram políticos democratas sulistas que lideraram grande parte da resistência à Reconstrução republicana. Foram governos estaduais democratas que sustentaram leis segregacionistas. 

E foi nesse ambiente político que a Ku Klux Klan encontrou espaço para crescer. Ao longo do final do século 19, os estados do sul passaram a institucionalizar a segregação racial por meio das chamadas leis Jim Crow. Escolas separadas. Ônibus separados. Em muitos lugares, negros americanos eram praticamente impedidos de votar através de taxas eleitorais, testes de alfabetização manipulados e intimidação sistemática. 

Ao contrário da imagem simplificada frequentemente apresentada hoje, o racismo institucional americano não surgiu como fenômeno abstrato ou desconectado da política partidária. Ele estava integrado às estruturas de poder do velho sul democrata. A Ku Klux Klan sofreria repressão parcial do governo federal no final do século 19, mas renasceria com força no início do século 20. 

Nos anos 1920, a nova KKK expandiu-se para estados do norte e do meiooeste, reuniu milhões de membros, organizou marchas em Washington e infiltrou-se em governos locais. Somente nos anos 1950 e 1960, durante o movimento dos direitos civis liderado por figuras como Martin Luther King Jr., o sistema Jim Crow começou finalmente a ser desmontado por legislação federal.


Martin Luther King Jr. dirige-se a uma multidão na escadaria do Lincoln Memorial, onde fez seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, durante a marcha de 28 de agosto de 1963 em Washington, D.C. - Foto: Wikimedia Commons


O fato essencial permanece: a estrutura política que sustentou a segregação racial no sul americano durante grande parte da história moderna sempre esteve ligada ao establishment democrata. 

E é justamente nesse terreno histórico delicado que surge o Southern Poverty Law Center. 

O SPLC nasceu combatendo grupos racistas reais e violentos, incluindo remanescentes da Ku Klux Klan. O problema começou quando a organização passou a expandir continuamente o conceito de extremismo. 

Seu famoso hate map (“mapa do ódio”) tornou-se ferramenta poderosa dentro da cultura política americana contemporânea. Empresas de tecnologia passaram a utilizar os relatórios do SPLC como referência para censura. Bancos encerraram relações comerciais com organizações listadas pela ONG e cidadãos comuns. Universidades utilizaram seus materiais em treinamentos ideológicos. E órgãos federais passaram a consultar relatórios produzidos pela organização. 

Agora, com o indiciamento federal do próprio SPLC, toda essa discussão retorna de forma ainda mais intensa. O escândalo não representa apenas uma possível crise criminal ou financeira. Ele revela algo mais profundo sobre o funcionamento contemporâneo do poder político e cultural nos Estados Unidos.

Durante décadas, instituições privadas passaram a ocupar um espaço quase oficial na definição dos limites aceitáveis do debate público. Organizações como o SPLC deixaram de atuar apenas como entidades civis independentes e passaram a exercer influência concreta sobre todos os setores da sociedade americana — exportando o manual de perseguição para outros países, inclusive o Brasil. 

O problema começa quando instituições desse tipo passam a acumular poder sem transparência proporcional, sem responsabilidade pública equivalente e sem limites claros entre ativismo político e autoridade moral. 

A história americana sempre foi marcada por disputas profundas sobre liberdade, autoridade e identidade nacional. E uma das lições mais importantes dessa história talvez seja justamente esta: nenhuma organização, nenhum partido e nenhuma instituição está imune aos riscos do poder quando deixa de aceitar limites, questionamentos e responsabilidade pública. 

Em democracias livres, ninguém deveria possuir o monopólio da virtude.


Ana Paula Henkel - Revista Oeste