sexta-feira, 8 de maio de 2026

A geração que salvou o Ocidente, por Ana Paula Henkel

O Dia da Vitória na Europa marcou não apenas o fim de um conflito devastador, mas também a sobrevivência de uma civilização que havia sido levada ao limite


Grandes multidões na Trafalgar Square celebram o Dia da Vitória na Europa ( VE Day) em Londres, marcando o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa e a derrota da Alemanha nazista - Foto: Reuters/PA Archive/PA Images 

O início de maio sempre traz consigo uma das datas mais simbólicas da história do século 20. Nos dias 7 e 8 de maio de 1945, a Alemanha nazista assinava sua rendição incondicional, encerrando oficialmente a Segunda Guerra Mundial na Europa. 

O chamado VE Day — Victory in Europe Day, o Dia da Vitória na Europa — marcou não apenas o fim de um conflito devastador, mas também a sobrevivência de uma civilização que, naquele momento, havia sido levada ao limite. 

Naquele momento, o colapso da Alemanha nazista era inevitável. Berlim estava cercada, Adolf Hitler havia tirado a própria vida e o que restava do Terceiro Reich tentava negociar uma rendição diante do avanço das forças aliadas. Depois de quase seis anos de combate, o continente finalmente se aproximava do fim de uma guerra que havia consumido nações inteiras. 

Na madrugada de 7 de maio de 1945, na cidade francesa de Reims, representantes do alto comando alemão assinaram a rendição incondicional diante das forças aliadas. Horas depois, uma nova cerimônia seria realizada em Berlim para formalizar definitivamente o encerramento da guerra na Europa. A rendição entrou em vigor às 23 horas e um minuto do dia 8 de maio. 


A rendição incondicional do Terceiro Reich alemão sendo assinada nas primeiras horas da manhã de segunda- feira, 7 de maio de 1945, no Quartel-General Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas (SHAEF) em Reims, no nordeste da França. O Chefe do EstadoMaior do Exército Alemão, coronel-general Alfred Jodl, é visto assinando o documento de rendição. À esquerda, o major Wilhelm Orenius; à direita, o almirante alemão von Friedeburg - Foto: Keystone Press Agency/ZUMA Press Wire)

Oitenta anos depois, o VE Day continua sendo muito mais do que uma efeméride militar. Ele permanece como um lembrete poderoso sobre o que acontece quando sociedades livres demoram a reconhecer ameaças profundas, relativizam sinais evidentes de decadência moral ou acreditam que prosperidade e conforto são suficientes para sustentar uma civilização indefinidamente.

E talvez seja justamente por isso que a lembrança daquela geração provoque uma sensação tão desconfortável e, ao mesmo tempo, tão inspiradora nos dias atuais. Vivemos uma época marcada por corrupção sistêmica, degradação institucional, cinismo político e crescente perda de confiança nas estruturas que deveriam sustentar a vida pública. 

No Brasil, a sensação de esgotamento moral se tornou parte da rotina nacional. Escândalos sucessivos, aparelhamento ideológico, erosão da credibilidade das instituições e um ambiente de permanente tensão política criaram em muitos brasileiros a impressão de que estamos presos em um ciclo interminável de decadência. 


Há uma fadiga coletiva difícil de ignorar. 

Muitos já não acreditam que honestidade seja possível na política. Outros passaram a enxergar a corrupção como um elemento inevitável da vida nacional. E há ainda os que simplesmente desistiram de acompanhar os acontecimentos, anestesiados por anos de escândalos, impunidade e promessas vazias.

Mas talvez um dos maiores perigos de períodos assim seja justamente a normalização da decadência. Civilizações raramente colapsam de uma única vez. Na maior parte do tempo, elas se deterioram lentamente, enquanto parcelas crescentes da sociedade passam a aceitar como inevitável aquilo que, em outros momentos históricos, seria considerado intolerável. 

Foi exatamente isso que parte da Europa viveu nas décadas que antecederam a Segunda Guerra Mundial. A ascensão do nazismo não aconteceu de forma instantânea. Ela foi precedida por anos de crise econômica, fragilidade institucional, radicalização política, perda de confiança nas lideranças tradicionais e erosão gradual dos limites morais da vida pública. 

Muitos preferiram acreditar que os excessos seriam passageiros. Outros imaginaram que seria possível acomodar o radicalismo dentro da normalidade institucional. E houve também aqueles que simplesmente não quiseram enxergar a gravidade do que estava acontecendo. 

Quando o mundo finalmente compreendeu a dimensão da ameaça, milhões de vidas já haviam sido destruídas. O VE Day representou o instante em que essa longa noite começou a terminar.

21 de maio de 1945 – Alemanha – Uma corneta soa no Dia da Vitória na Europa, o dia em que a Alemanha se rende - Foto: Keystone Press Agency/ZUMA Press Wire

As imagens de maio de 1945 continuam impressionantes porque carregam algo raro na história humana: o alívio coletivo de sociedades inteiras que sobreviveram a uma ameaça existencial. Em Londres, Paris, Nova York e tantas outras cidades, multidões ocuparam as ruas com uma mistura de alegria, exaustão e incredulidade. 

Homens e mulheres que haviam passado anos convivendo com bombardeios, medo, racionamento e perdas inimagináveis finalmente podiam respirar novamente. A escuridão havia, finalmente, chegado ao fim. 

Mas aquelas celebrações possuíam uma sobriedade impossível de ignorar. A guerra havia deixado dezenas de milhões de mortos. Cidades inteiras estavam destruídas. Famílias haviam sido despedaçadas. Campos de concentração revelavam ao mundo uma escala industrial de barbárie que parecia incompatível com qualquer ideia de civilização moderna.

Nada daquilo permitia o triunfalismo vazio. Ainda assim, existia uma compreensão profunda de que algo fundamental havia sido preservado. O Ocidente sobrevivera a páginas profundamente perturbadoras. E isso só havia sido possível porque uma geração inteira compreendeu, com clareza absoluta, o que estava em jogo.

É impossível olhar para aquela geração sem perceber o contraste com o nosso tempo. Homens extremamente jovens atravessaram oceanos, desembarcaram em praias tomadas por fogo inimigo, suportaram invernos brutais, avançaram sobre cidades destruídas e permaneceram em combate durante anos porque entendiam que a guerra não dizia respeito apenas a disputas territoriais ou interesses econômicos.

Tratava-se da sobrevivência de princípios civilizacionais básicos diante de uma ideologia que havia transformado o Estado em instrumento de perseguição, terror e eliminação sistemática da dignidade humana. Aquela geração não era perfeita. 

Nenhuma geração é. Mas havia nela algo que parece cada vez mais raro no mundo contemporâneo: a capacidade de reconhecer que existem causas maiores do que conforto individual, conveniência política ou interesses imediatos. 

Talvez por isso o VE Day continue emocionando tantas pessoas décadas depois. Simplesmente por nos obrigar a lembrar que sociedades livres não sobrevivem apenas graças a instituições, riqueza ou tecnologia. Elas sobrevivem quando ainda existem pessoas dispostas a protegê-las. 

E aqui está uma das grandes questões do nosso tempo.

O que acontece com uma sociedade quando ela perde completamente a capacidade de distinguir decadência de progresso? Quando a corrupção deixa de provocar indignação? Quando a mentira passa a ser tratada como método político aceitável? Quando o medo de confronto moral paralisa instituições, lideranças e até parcelas da população? 

O Brasil enfrenta hoje, em escala diferente e circunstâncias incomparáveis, dilemas que envolvem exatamente essa erosão 08/05/2026, 22:53 A geração que salvou o Ocidente - Revista Oeste https://revistaoeste.com/revista/edicao-321/a-geracao-que-salvou-o-ocidente/ 6/13 gradual da confiança pública e da clareza moral. 

Vivemos em um país onde escândalos bilionários se acumulam há décadas sem produzir a transformação estrutural que muitos imaginavam inevitável. Um país onde decisões absurdas frequentemente são absorvidas pela rotina política sem reação proporcional da sociedade. Um país em que boa parte da população já não acredita plenamente nem na imparcialidade das instituições, nem na honestidade do sistema político, nem na estabilidade das regras democráticas. A vida que vai seguindo. E vamos ficando anestesiados. 

Esse tipo de desgaste é corrosivo porque destrói algo essencial para qualquer sociedade saudável: a confiança de que vale a pena, mesmo diante do que parece intangível, seguir lutando. Se essa força desaparece, o cinismo começa a ocupar todos os espaços. E nossas almas. Foi Roger Scruton quem escreveu que civilizações dependem da capacidade de transmitir lealdade, pertencimento e continuidade entre gerações. Quando isso se rompe, sobra apenas fragmentação, ressentimento e vazio moral. 

Talvez seja exatamente por isso que datas como o VE Day continuem tão importantes. 

Elas nos lembram que períodos de enorme escuridão histórica já existiram antes — e que sociedades livres foram capazes de atravessálos quando ainda havia homens e mulheres dispostos a assumir responsabilidades difíceis. 

Oitenta anos depois da vitória aliada na Europa, o mundo volta a discutir soberania, segurança nacional, fragilidade institucional, radicalização ideológica e defesa da civilização ocidental. 

O retorno desses temas não acontece por acaso. Ele revela uma percepção crescente de que estabilidade histórica jamais é garantida. 

Ao longo das últimas décadas, parte do Ocidente acreditou que prosperidade econômica, globalização e avanços tecnológicos tornariam antigos conflitos civilizacionais irrelevantes. Mas a realidade se encarregou de lembrar que ameaças nunca desaparecem completamente. 

Elas apenas mudam de forma. Hoje, vemos democracias pressionadas por radicalismos internos, polarização extrema, autoritarismos modernos, terrorismo, guerras híbridas, manipulação tecnológica e crises de confiança institucional. Vemos também uma dificuldade crescente de sociedades abertas em defender seus próprios valores sem hesitação ou culpa. 

Nesse contexto, a lembrança da geração do VE Day ganha uma dimensão ainda mais poderosa porque nos obriga a fazer perguntas desconfortáveis. 

Ainda somos capazes de reconhecer ameaças antes que elas se tornem grandes demais? Ainda existem instituições dispostas a proteger princípios fundamentais, mesmo sob pressão política? Ainda existem sociedades capazes de distinguir liberdade de permissividade, tolerância de covardia moral, prudência de omissão?

E talvez a pergunta mais importante de todas: ainda existem pessoas dispostas a sair do conforto — que aquela geração nos proporcionou — para defender aquilo que torna uma civilização digna de ser preservada? 

O VE Day não foi apenas o fim de uma guerra. Foi a demonstração de que a civilização depende, em momentos decisivos, da coragem de pessoas comuns que se recusam a aceitar a barbárie como destino inevitável.


Comemorações do Dia da Vitória na Europa (VE Day). Milhares de pessoas se reuniram em frente à Mansion House. O Lord Mayor de Londres é visto na varanda - Foto: Reuters/PA Archive/PA Images 

E talvez seja essa a principal lição deixada por aquela geração. A história nunca garante que sociedades livres irão sobreviver. 

Ela apenas mostra que, quando sobrevivem, quase sempre é porque houve homens e mulheres capazes de compreender, a tempo, que o preço da coragem pode ser alto — mas que o preço da omissão costuma ser muito maior. 

A aura do dia 8 de maio de 1945 não foi produzida apenas por estratégias militares ou superioridade industrial. Ela é sustentada, até  hoje, pelas lições de uma geração inteira de homens e mulheres que compreendeu, talvez de forma mais clara do que qualquer geração posterior, o que realmente estava em jogo. 


Comemorações do Dia da Vitória na Europa (VE Day). Milhares de pessoas se reuniram em frente à Mansion House. O Lord Mayor de Londres é visto na varanda - Foto: Reuters/PA Archive/PA Images 

E talvez seja essa a principal lição deixada por aquela geração. A história nunca garante que sociedades livres irão sobreviver. Ela apenas mostra que, quando sobrevivem, quase sempre é porque houve homens e mulheres capazes de compreender, a tempo, que o preço da coragem pode ser alto — mas que o preço da omissão costuma ser muito maior. 

A aura do dia 8 de maio de 1945 não foi produzida apenas por estratégias militares ou superioridade industrial. Ela é sustentada, até  hoje, pelas lições de uma geração inteira de homens e mulheres que compreendeu, talvez de forma mais clara do que qualquer geração posterior, o que realmente estava em jogo. 


Ana Paula Henkel - Revista Oeste

'Os elefantes e a porta dos fundos', por Eugênio Esber

 Justiça, da política e até de áreas supostamente técnicas, como a CVM, a xerife do mercado de capitais


Câmara dos Deputados, o brasão da CVM e o STF - Foto: Montagem Revista Oeste/Luiz Silveira/STF/Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados/Divulgação/Freepik 


N esta semana, o ministro do STF, Flávio Dino, voltou a exercer a arte de distribuir um biscoito retórico para saciar a avidez da imprensa por frases de efeito. “Eu me impressiono, e não é de hoje…”, principiou Sua Opulência. “Ando em Brasília exercendo cargo desde 1999… Eu nunca vi tanto elefante pintado de azul desfilando por essa Esplanada. O elefante é grande, está pintado de azul e está desfilando na frente de todo mundo. Como ninguém viu?”

Referia-se ao modelo fraudulento de negócios que Daniel Vorcaro construiu, no qual oferecia aos incautos clientes do Banco Master um papel que os remuneraria 30%, 40% acima dos padrões do mercado. 

A pergunta de Dino é ótima, mas um tanto cínica e, de certo modo, defeituosa. Cínica, porque ele deveria se incluir na questão: “Como é que ninguém viu, e eu inclusive?” Afinal, o método de Vorcaro para levar adiante sua pirâmide financeira contou com a cooptação de ministros (atuais e ex) do Supremo Tribunal Federal, a Corte que Dino integra e que possui apenas 11 inquilinos. Um elefante, ali, incomoda — e muito. Dois, então, nem se fala.


Ministro Flavio Dino em sessão plenária do STF (06/05/2026) - Foto: Luiz Silveira/STF

E por que a pergunta de Dino é defeituosa? Porque o verbo está no passado — “Como ninguém viu?”, questionou Sua Corpulência. Deveria ter usado o gerúndio. “Como ninguém está vendo?” Um dos dois paquidermes que há mais de cinco meses pisoteiam o macio carpete do STF traz no lombo o ministro Alexandre de Moraes, que até hoje não explicou o contrato de R$ 129 milhões que sua esposa firmou com o banco Master. Moraes tampouco se explicou sobre o significado da mensagem que um apavorado Vorcaro passou a ele uma hora antes de sofrer o cumprimento de um mandado de prisão — “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” 

O segundo elefante, vermelho de nascença, desfila a poucos metros de Flávio Dino todos os dias e diverte a elegante e togada plateia, suspendendo em sua tromba o ministro Dias Toffoli, que por muitos anos escondeu sua condição de sócio do resort/cassino Tayayá, um empreendimento que o liga à família de Daniel Vorcaro. 

Apesar de incompleta e defeituosa, a pergunta formulada esta semana por Dino durante audiência pública no STF, “Como ninguém viu?”, é  importante para o tema deste artigo, que tratará de uma instituição até agora poupada da celeuma pública sobre o caso Master. Refiro-me à Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, que no âmbito do jornalismo econômico, é geralmente apresentada como a xerife do mercado de capitais. 

Em tradução livre do economês, significa dizer que a CVM existe para que os brasileiros possam investir com segurança no mercado de ações e em fundos de investimentos, sabedores de que não serão vítimas de truques, manipulações e, principalmente, crimes.


Brasão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) - Foto: Divulgação

É aqui que a porca, ou o elefante, torce o rabo. Como se verá logo adiante. No momento em que Dino recorria, sem demonstrar constrangimento, a metáforas paquidérmicas, transcorria no STF uma audiência pública sobre a constitucionalidade de uma taxa de fiscalização que a CVM cobra de quem opera no mercado de capitais. 

Aproveitando a presença na sessão do secretário-executivo do Banco Central, Rogério Antônio Lucca, o ministro perguntou que diacho o BC e a CVM faziam para atuar de forma conjunta na fiscalização de fundos usados para lavar dinheiro do crime organizado. Um questionamento óbvio, dado que a Polícia Federal encontrou, em duas operações de 2025, a Carbono Oculto e a Compliance Zero, evidências de operações que ligam negócios do PCC a alguns atores da Faria Lima, centro financeiro de São Paulo. No caso da Compliance Zero, que levou o Banco Master à liquidação e colocou Daniel Vorcaro na cadeia, o rastilho das investigações não chegou apenas à Faria Lima, como andou declarando à imprensa o decano do STF, Gilmar, mas à própria Suprema Corte. São os elefantes que Dino não vê. Nem Gilmar.


Ministro Gilmar Mendes em sessão plenária do STF (06/05/2026 - Foto: Luiz Silveira/STF

Na resposta ao questionamento de Dino, o dirigente do Banco Central fez uma fala centrada nos protocolos de colaboração que vigoram entre a autoridade monetária e a CVM, e no compromisso mútuo que as casas têm de trabalhar em colaboração com a Polícia Federal, o Ministério Público, etc. etc. Tudo muito estruturado, em teoria. Mas, no mundo real, Daniel Vorcaro, que acaba de entregar ao ministro André Mendonça uma proposta de acordo para delatar seus cúmplices, e quem sabe seus chefes, subornava altos funcionários do Banco Central. 

E inflava seus balanços com ativos fictícios ou supervalorizados por meio de operações realizadas por uma ciranda de fundos que, segundo a Polícia Federal, cumpria o propósito de lavar dinheiro oriundo de negócios ilícitos do crime organizado.

E assim, escondendo prejuízos e fabricando lucros em balanços que eram peças de ficção, o Master pôde sustentar, sob as barbas do BC e da CVM, um negócio com aparência de legalidade: captar agressivamente compradores para CDBs que pagavam até 140% do CDI, que é o título negociado entre bancos. 

Que o Banco Central tem muitas explicações a dar, todos sabem. A CVM não fica atrás, diante do emaranhado de fundos de investimento que operam em cascata, muitos deles com um cotista único e sem a mínima transparência, repassando dinheiro uns aos outros em questão de dias, horas ou minutos para que, no final do tubo, um valor inicialmente pequeno saísse supervalorizado para entrar diretamente no ecossistema de empresas e fundos em que o Master tinha participação. No balanço, o banco parecia mais robusto e saudável do que de fato era. 

Nesta ciranda, tinham papel preponderante fundos como o Reag e o Trustee, entre vários fundos e empresas de fachada — Brain Realty, Brain Cash, D Mais, High Tower, Anna, Astralo 95, Growth 95… e por aí vai


Banco Master e Reag - Foto: Shutterstoc

Chamado a depor na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em fevereiro, o presidente interino da CVM, João Accioly, explicou aos senadores que o Master não era vítima dos gestores desonestos dos fundos nos quais tinha participação. Ao contrário: o banco de Daniel Vorcaro ajudava os fundos a superdimensionar seus ativos porque assim o balanço do Master era anabolizado. 

“É um me engana que eu gosto”, resumiu Accioly, interpretando a posição de Vorcaro. Quem não gostou foi o universo de vítimas do banco — aplicadores, fundos de pensão, bancos que abastecem o Fundo Garantidor de Créditos, lesado em mais de R$ 50 bilhões; e, em última análise, os brasileiros que arcarão com a conta final, pagando juros mais altos quando tomarem crédito. Além, é claro, do BRB, o banco do Distrito Federal, que hoje agoniza empanturrado com carteiras de crédito fraudulentas que comprou do Master a um custo superior a R$ 11 bilhões.

É curioso observar que, no debate político, a Comissão de Valores Mobiliários desfruta de sombra e água fresca, se comparada ao minucioso escrutínio público sobre a conduta do Banco Central no caso Master. Pouquíssima importância é dada pela imprensa ao que se passa na CVM. Mas é preciso prestar mais atenção no colegiado, hoje presidido interinamente por João Accioly. Começando por aí. Por que a interinidade do presidente?


O presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Carlos de Andrade Uzeda Accioly, fala sobre sobre a fiscalização do Master na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado (24/02/2026) - Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

Aviso que essa história fará você lembrar da novela Jorge Messias. Em 7 de janeiro, Lula enviou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a indicação de Otto Lobo para assumir a presidência da CVM. Alcolumbre congelou o assunto por três meses. Por fim, em 10 de abril, tirou a indicação da gaveta e a enviou à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), o foro competente para a realização da sabatina. 

Com a mesma fleuma, o presidente da CAE, senador Renan Calheiros, segura até hoje a sabatina de Otto Lobo porque desconfia que o indicado de Lula está na área de influência de Vorcaro. Calheiros, como se sabe, quer ver o circo Master pegando fogo. Ele tem interesse na celeridade das investigações sobre o escândalo por entender que as revelações vão desgastar seu arquirrival em Alagoas, o deputado Arthur Lira. Ex-presidente da Câmara dos Deputados, Lira é apontado como um dos sustentáculos políticos do lobby de Daniel Vorcaro no Congresso Nacional, ao lado de figuras do centrão, como Ciro Nogueira. De onde Calheiros tirou essa crença de que Otto Lobo, de perfil técnico, e aparentemente sem vinculações políticas, faz o jogo de Daniel Vorcaro?  



Senador Renan Calheiros (MDB-AL), presidente da CAE, no Senado (10/02/2026) - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Aqui, é preciso fazer uma breve retrospectiva. Lobo chegou ao cargo de diretor da Comissão de Valores Mobiliários em janeiro de 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro. A indicação dele foi aprovada pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, com base em um relatório favorável de… Ciro Nogueira. 

Ciro foi o parlamentar que, em 2024, apresentou, sem sucesso, o projeto conhecido como “Emenda Master”, porque propunha aumentar, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. Depois que Vorcaro foi preso e teve seu telefone apreendido, veio a público mensagem em que o então banqueiro, teclando para a namorada, referiu-se a Ciro Nogueira como “um dos meus grandes amigos de vida”. 

Na sabatina, se houver, Lobo será confrontado com críticas a posturas que adotou em processos envolvendo questões regulatórias — inclusive de interesse de fundos do ecossistema Master. O episódio mais significativo envolveu os interesses do Banco Master e de Nelson Tanure na Ambipar, empresa protagonista de um escândalo que mereceria um artigo à parte.

Em 2025, a CVM julgava se Ambipar deveria fazer uma oferta pública de aquisições de ações (OPA). Seguindo o parecer da área técnica, o presidente da Comissão, João Pedro Nascimento, e outra diretora, Marina Copola, votaram em favor da obrigatoriedade da OPA. Mas Otto Lobo e João Accioly empataram a votação ao decidir contra a imposição da oferta pública — acolhendo a posição que interessava a Vorcaro e a Tanure, acionistas relevantes da Ambipar. Com o 2 a 2, sucedeu-se, então, um fato estranhíssimo.


Indicado para o cargo de diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Otto Eduardo Fonseca de Albuquerque Lobo, em pronunciamento, à mesa, na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado (05/07/2021) - Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Três semanas depois, o presidente da CVM, João Pedro Nascimento, renunciou à presidência do colegiado, alegando razões pessoais. Otto Lobo, então o mais antigo na Comissão, assumiu a presidência e, mesmo interinamente na função, proferiu voto de minerva contra a realização da oferta pública de ações. Independentemente de questões paroquiais da política alagoana, Renan Calheiros deveria marcar a sabatina de Otto Lobo. E conduzir a sabatina com o maior rigor possível. O país precisa de explicações. 

E a CVM, a quem compete fiscalizar os fundos de investimento, precisa deixar muito claro que está preparada para isso e disposta a dar combate à ciranda de fraudes que lava dinheiro para o crime organizado, muito especialmente o PCC, a multinacional do crime que já atua em 18 Estados norte-americanos e expõe o Brasil ao risco de sanções duríssimas de Washington. Se os elefantes do crime organizado transitam à vontade entre os círculos do poder, é urgente fechar a porta dos fundos.


Eugênio Esber - Revista Oeste

Fórmula do endividamento permanente, por Adalberto Piotto

 famílias brasileiras para um programa ineficaz, populista e perverso que faz a festa dos bancos


Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante assinatura da Medida Provisória referente ao Novo Desenrola Brasil, no Palácio d Planalto. Brasília - DF (4/5/26) - Foto: Montagem Revista Oeste/Ricardo Stuckert/PR/IA 

N o último 1º de Maio, o governo Lula completou 3 anos e 4 meses do seu cansativo terceiro mandato. Isso significa dizer que teve todo esse tempo para melhorar a vida das famílias brasileiras e só agora, às vésperas da eleição de outubro, pressionado pela perda de popularidade e pelas pesquisas que mostram a oposição com chances maiores de vitória, é que voltou a lançar um programa para conter o endividamento familiar. O primeiro havia sido logo no primeiro ano, que deu errado porque o endividamento aumentou tanto em número de inadimplentes quanto no valor do calote. Neste ano, em que a esquerda viu mais uma vez o fiasco que se tornou nas ruas, Lula dobra a aposta na fórmula do fracasso que maltrata o cidadão de baixa renda diariamente, vendendo-lhe o sonho de sair do endividamento para entregar um pesadelo. 

Se no 1° de Maio de anos anteriores, Lula anunciava aumentos do salário mínimo, neste, a “estrela” foi um programa para aliviar a dívida das famílias, que cresceu justamente pela trágica política econômica do próprio governo petista. Não se trata apenas de retrocesso; é tragédia repetida. Depois de ter recebido de Bolsonaro o país com dinheiro em caixa, economia crescendo, estatais dando lucro, máquina enxuta e desburocratizada, além de condições econômicas para a queda da taxa Selic, o que Lula e seu governo têm a propor é um programa para tirar famílias sufocadas por dívidas de juros escorchantes dos bancos. Os mesmos bancos que Lula adora dizer que “nunca ganharam tanto dinheiro como em seus governos”. É verdade. Porque vão ganhar de novo.

O Desenrola 2 deve ser explicado sob três premissas: ineficaz, porque o alívio às famílias será temporário; populista, porque é eleitoreiro e não ataca as razões reais do endividamento familiar; e perverso, ao fazer com que apenas os bancos ganhem de fato. É caso vergonhoso de “transferência de renda regressiva”, que é quando os recursos de pessoas com menor renda são transferidos para o andar de cima, neste caso, as instituições financeiras. Não pretendo aqui levar o leitor a desistir de algum refresco nas dívidas. 

Mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Pela metodologia do Banco Central, a situação é igualmente preocupante: quase 50% da renda familiar está comprometida com dívidas. Um outro dado chama ainda mais atenção: 30% da renda mensal é para pagar empréstimos. Quem está com febre alta precisa rapidamente de algum antitérmico. O problema é quando o governo de plantão, que corre contra o tempo e a impopularidade, nunca se dispôs a tratar a doença. Talvez porque seja ele próprio a infecção. 

Desesperado pela reeleição, Lula 3 estica a corda da irresponsabilidade e empurra as famílias mais pobres a aderirem a um programa que, como já se viu lá atrás, é apenas o prenúncio de um novo programa de renegociação de dívidas lá na frente. O Desenrola 2, de agora, é o começo do Desenrola 3 no futuro. É Lula com mais um cabresto econômico em quem está desesperado para tirar a corda do pescoço. Os números e os fatos são inequívocos. O programa atual não ataca nenhum dos problemas reais que fizeram o endividamento das famílias disparar nos últimos três anos. A política econômica atual estourou as contas do país. O governo federal gasta mais do que arrecada desde o primeiro dia de governo. Para se financiar, recorre a empréstimos no mercado financeiro e se torna concorrente do assalariado que não conseguiu fechar o mês. Quando o governo “drena” o estoque de recursos no mercado, só por isso os juros já sobem. E, estruturalmente, faz a sociedade inteira pagar pelos seus erros. 

Seja um banco ou o cidadão, quando se compra um título do Tesouro Nacional, está-se comprando dívida do governo brasileiro, que não consegue pagar seus gastos crescentes com o que arrecada de tributos. E olha que esse atual governo aumentou impostos já existentes ou criou novas alíquotas quase 30 vezes. Nada disso bastou, porque a dívida bruta ultrapassou os R$ 10 trilhões no final do ano passado, sendo que R$ 8,6 trilhões são só do governo federal. Em todos os três anos de mandato até aqui, o governo fechou no vermelho, a cor do PT. O ano de 2026 tende a ser negativo também. Fernando Haddad, o ministro da Fazenda, já deixou o cargo para concorrer ao governo de São Paulo. O legado foi um rastro de destruição das contas públicas.


Ministro da Fazendo Fernando Haddad ao lado do presidente Lula - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 

Gasto fiscal elevado, assistencialismo ineficiente de bolsas sem porta de saída e carga tributária asfixiante geram inflação que, no final do dia, reduz o poder de compra das famílias. As mesmas que vão recorrer a empréstimos caros dos bancos porque há despesas que não podem esperar. Segundo análises mais recentes, o cartão de crédito, com juros superiores a 400% ao ano no rotativo, tem sido usado para compras em supermercados, remédios e contas da casa. Justamente os itens afetados pela inflação recente. Até o limite do possível, nenhuma dona de casa ou pai de família vai postergar o almoço de hoje para amanhã. Tampouco vai deixar de pagar a conta de luz. O risco é de ter a energia cortada. 

Endividar-se no cartão é uma dívida cara e de curto prazo, mas a única saída acessível, porque o máximo que pode acontecer é ser incluído na lista dos devedores. Foi o que aconteceu. Segundo a Serasa Experian, em março deste ano, o número de inadimplentes com o CPF negativado chegou a 83 milhões de brasileiros. Algo em torno de 10 milhões a mais se comparado a julho de 2023, quando o governo Lula lançou o Desenrola 1. Ao recorrer uma vez mais a um programa que piorou o endividamento, insiste no erro porque está interessado apenas em possíveis dividendos eleitorais.

Nem mesmo os eventuais efeitos positivos do primeiro programa, que trouxe alguma redução da inadimplência, e alguns pretensos aperfeiçoamentos no modelo atual de refinanciamento das dívidas, nada disso consegue mitigar as falhas estruturais dessa nova tentativa. O que é feito num ambiente contaminado por políticas públicas deletérias de gente ruim de serviço, que ignora ou evita corrigir os próprios erros, uma síntese do terceiro mandato de Lula, cada vez mais parecido com Dilma, não tem a mínima chance de dar certo no longo prazo. No Desenrola 1, de 2023, foram renegociados R$ 53 bilhões. 

Desde o fim de maio de 2024, quando o programa foi finalizado, houve aumento de R$ 61 bilhões de novos calotes até o início deste ano. Mais que dobrou o valor da dívida com atrasos superiores a 90 dias, segundo relatório recente do Banco Central. Há quem coloque a culpa na falta de educação financeira da média da população, em dívidas de jogos ou até na irresponsabilidade com o orçamento familiar. É razoável supor que esses fatores podem ter tido alguma influência em parte dos casos. Mas, quando a política econômica é ruim, a parcela de culpa das famílias se dilui dentro de uma conjuntura econômica que as asfixia. 

O atual governo é fonte de crises inflacionárias e de instabilidade política que afetam a capacidade das empresas e pessoas em aumentar a produtividade e gerar renda. É um redemoinho que frustra planos até de quem é muito severo com as contas pessoais. Quando o número de empresas que pedem recuperação judicial cresce, como está acontecendo, e as famílias estão endividadas, tira-se a capacidade da sociedade de fazer o país crescer. O governo torna-se um sanguessuga do espólio que tenta sobreviver. E de onde já não se espera nada bom é que não vem nada bom mesmo. 

Veja que o outro grande debate proposto pelo governo, movido novamente por interesse eleitoral, é reduzir a escala 6×1 de trabalho sem estudos de impacto que possam prever as consequências. Os grandes afetados serão o comércio e o setor de serviços, os dois maiores geradores de empregos, que absorvem trabalhadores, muitos de baixa qualificação, ou jovens do primeiro emprego. São exatamente os setores que têm sido estrangulados pelo aumento de impostos federais, insegurança jurídica, escolhas diplomáticas do governo e baixa oferta de mão de obra pelo assistencialismo das bolsas, quando beneficiários se negam a ter carteira assinada para não perderem o benefício mensal. 

Atualmente, em nove Estados brasileiros, há mais dependentes do Bolsa Família do que trabalhadores com carteira assinada. Todos nas regiões Norte e Nordeste, alguns dos Estados mais pobres e violentos do país, onde Lula teve — e pretende voltar a ter — a maioria dos votos. Não se mede o sucesso de um país por alta demanda de assistência social. São o desenvolvimento econômico e social pleno, o aumento da autonomia e o ambiente favorável à inovação e ao empreendedorismo que trazem sucesso a um país e seu povo. Lula joga contra. Aposta tudo no assistencialismo.


Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA 

Não bastasse o descalabro de gerar rombos fiscais sem fim, retroceder em reformas econômicas herdadas de governos anteriores, que tiraram o país do atraso, e estar sob a acusação de protagonizar ou dar guarida a novos escândalos de corrupção, como o roubo de aposentados do INSS e o caso do Banco Master, o governo federal insiste em manter os mais pobres na pobreza. E este é o problema principal.

 O governo não busca resolver os problemas estruturais da sua política econômica que gera danos ao orçamento das famílias. O Desenrola 2 só quer ganhar a simpatia momentânea do eleitorado mais pobre, dando a eles um alívio nas contas até a eleição de outubro. É típico de governos de esquerda. Mas, como sempre, não tem almoço grátis. O dinheiro que vai pagar as dívidas será do próprio trabalhador ou de todos os brasileiros. Sabe a bondade com o chapéu alheio? 

Vai ser assim de novo. Dois fundos públicos vão garantir a renegociação no Desenrola 2: o FGTS, a poupança do trabalhador formal que contribui mensalmente com descontos em folha de pagamento, e o Fundo Garantidor de Operações (FGO), um fundo público criado essencialmente para subsidiar o crédito, normalmente para novos empreendimentos, ou seja, aquecer a economia, não para pagar dívidas. 

No projeto do governo, as dívidas do cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia, justamente as modalidades com juros mais altos, de pessoas físicas com renda de até 5 salários mínimos (cerca de R$ 8.105), poderão ser renegociadas se tiverem mais de 3 meses de atraso e tempo máximo de até 2 anos. O limite da dívida por banco é de R$ 15 mil e os descontos podem chegar a 90%, com juros de até 1,99% ao mês. Há carência de 35 dias e o prazo de pagamento máximo é de 4 anos. Como forma de retirar as pessoas da lista de inadimplentes e devolver o crédito a elas, o modelo até parece aceitável. 

Mas está muito longe de ser bom, eficiente ou oferecer uma vida nova ao devedor. Primeiro, porque o ambiente econômico do governo continua ruim. Sem reformas bem-feitas, com a máquina do governo Lula gastando muito mais do que arrecada, sem políticas para gerar novos investimentos, com alta carga tributária, inflação subindo de novo e juros altos, consequência de todo esse desarranjo governamental de Lula 3, a maioria dos pagadores da dívida atual tende a se tornar novamente devedora, como aconteceu entre o primeiro e o segundo Desenrola. Os números estão aí. As dívidas e o aumento de inadimplentes também. Sem política econômica bem feita, sem cortes nos gastos do governo, não tem mágica. Mas o próprio modelo do Desenrola é uma afronta à inteligência do brasileiro.


Foto: Shutterstock 

O programa permite usar até 20% do saldo do FGTS, até o limite de R$ 1 mil, para amortizar ou quitar completamente a dívida. Três problemas aqui. Quem usar o FGTS perde o direito ao saqueaniversário pelo valor utilizado. E como o dinheiro é do trabalhador, ele deveria decidir quanto e quando usar. E, se decidir usar, vai colocar parte de seu FGTS, que em 2024, último dado oficial divulgado, teve rendimento de 6,05%, para pagar dívidas que só a modalidade do cartão de crédito chegou a cobrar juros que atingiram 451,5% ao ano em 2025. Entre as famílias endividadas, 85% citam o cartão como a principal razão do endividamento. 

Mesmo com a possibilidade de desconto de 90% da dívida, ainda assim, o devedor vai pagar muito mais do que deveria. A combinação padrão do país de juros escorchantes e spread insano é insustentável. 

Spread é a diferença entre o que o banco cobra de você num empréstimo e quanto ele paga de rendimento numa aplicação. O valor do spread varia muito no Brasil, mas é sempre bastante desfavorável ao cliente. Se pegarmos a aplicação financeira mais popular, a poupança, que rende pouco mais de 6% ao ano, e os juros do cartão, bem acima dos 400% ao ano, a diferença entre 400 e 6 é o spread entre a aplicação financeira e a forma de crédito mais popular do país. Faço aqui um exercício do verdadeiro pesadelo pelo qual passa o brasileiro que recorre ao cartão de crédito. Imagine um cliente que deixou de pagar uma fatura de R$ 1 mil e, depois de 2 anos, quer pagar essa dívida pelo Desenrola 2:

. Dívida inicial: R$ 1.000 

• Juros mensais do rotativo do cartão: 15,09% (440% aa) 

• Dívida acumulada em 2 anos: R$ 29.160 

• Valor renegociado com 90% de desconto: R$ 2.916 

• Taxa de renegociação: 1,99% ao mês 

• Valor das parcelas (48 meses): R$ 93 

• Valor total pago no final do novo contrato: R$ 4.464 


Apesar de toda a renegociação, o cliente ainda vai pagar 4,4 vezes o valor da dívida inicial, se optar pelo parcelamento máximo de 48 vezes. Se não usar o FGTS, o valor será de R$ 2.916. Os mesmos R$ 1 mil corrigidos pelo período de 2 anos, presos no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, que o trabalhador não pode usar quando fez a dívida, hoje seriam apenas R$ 1.124,66. Ou seja, por mais que sair do endividamento seja uma boa notícia, o trabalhador estará usando a sua “poupança” de rendimento baixo para pagar uma dívida de juros absurdos. É a realidade de um sistema bancário com alta concentração numa economia em que o setor produtivo, e consequentemente a renda de quem trabalha, padece. 

Mas tem algo ainda mais estranho nesse programa do governo. Para atrair os bancos para o Desenrola 2, o governo está colocando R$ 10 bilhões do FGO, o Fundo Garantidor de Operações, como garantia contra novos calotes. Para os bancos, é um enorme atrativo. Mas bem mais que isso. Em muitos casos, a dívida já foi quase ressarcida ao banco ou praticamente paga. A legislação brasileira prevê uma ferramenta chamada Provisão de Devedores Duvidosos (PDD), que é quando os bancos declaram no balanço a dívida do cliente inadimplente como um valor difícil de receber. Na contabilidade, isso entra como despesa, sem incidência de impostos. 

A depender de quando fez a declaração, o banco pode ter deixado de pagar em impostos um valor muito aproximado dessa dívida. Ou seja, mesmo com 90% de desconto, o banco não perde. Se juntar a garantia do FGO — com risco praticamente zero de não receber —, é o paraíso para o sistema financeiro. Quando Lula disse lá atrás que nunca “os bancos ganharam tanto” como em seus governos, ele não estava mentindo. Não desta vez. O Desenrola 2 pode até tirar brasileiros endividados da lista do calote, dar um certo alívio num momento de economia ruim, apesar da propaganda do governo. Mas será só passageiro. 

O que o governo Lula quer mesmo é o voto de famílias desesperadas que ele mesmo levou ao endividamento e ao desespero. Lá na frente, porque a política econômica desastrada não vai mudar, faz-se o Desenrola 3, 4, 5. E sabe-se lá quantos mais. É populismo atroz em mais uma tentativa de tutela política para fazer o eleitor se sentir devedor do governo. Porque, até agora, as pesquisas têm mostrado que esse messianismo populista da esquerda não tem conseguido reverter os índices crescentes de impopularidade do presidente.


O que o governo Lula quer mesmo é o voto de famílias desesperadas que ele mesmo levou ao endividamento e ao desespero - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 

Adalberto Piotto - Revista Oeste

'Gilmar apaixonado', segundo Augusto Nunes

 


Ministro do STF, Gilmar Mendes - Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

P ena que o sumiço do cabelo que já existiu no alto da cabeça de Gilmar Mendes tenha limitado a mudança às partes laterais. Se ali existisse ao menos um punhado de fios grisalhos, os efeitos da tintura preta seriam muito mais visíveis — e o noticiário jornalístico teria captado a mensagem emitida pela reforma capilar: o decano do Supremo Tribunal Federal está apaixonado. Quando isso acontece, raríssimos setentões resistem à tentação de fazer bonito com providências rejuvenescedoras que sempre incluem, além da coloração do teto, canhestras demonstrações de bravura sublinhadas por bravatas e bazófias. Tudo vale a pena para impressionar a nova namorada. 

No caso de Gilmar, o amor está no ar por causa de Morgana de Almeida, 58 anos, ministra do Tribunal Superior do Trabalho desde 2021. Nascida em Toledo, no Paraná, ela ingressou na magistratura em 1992. Foi casada com Pepe Richa, filho e irmão de ex-governadores de Estado. No começo de abril, seis meses depois de separar-se da advogada Guiomar Feitosa, o ministro do STF resolveu mostrar publicamente, com aparições em restaurantes de Brasília, que seu coração batia em descompasso pela ministra do TST. É por isso que acaba de pintar os cabelos. Foi também por isso que encenou, na última semana de abril, o espetáculo da valentia temerária. 

O ato inaugural, consumado numa sessão do STF, foi concebido para que, além da namorada, todos os inimigos soubessem com quem estavam lidando. “Lá no meu Mato Grosso as pessoas dizem: ‘não me convide para dançar, porque eu posso aceitar’. Adoro ser desafiado”, advertiu no começo do falatório. Terminada a sessão, chamou para a briga desafetos não identificados: “Me tiraram pra dançar e aceitei”, comunicou. Nos três dias seguintes, soltou o verbo em sete entrevistas, todas de bom tamanho, concedidas a diferentes veículos. A maratona recordista foi tão surpreendente quanto desastrada. 


Gilmar Mendes antes e depois de ter os cabelos tingidos - Foto: STF/SCO

Até o mais distraído dos capinhas sabe que Gilmar é um oceano de vaidade. Por liderar há dez anos a bancada que controla o Supremo, acha que é ele, não o presidente Edson Fachin, quem deve falar em nome da Corte. Acha que, por falar alemão, é a maior sumidade do Egrégio Plenário. Acha que a história do Direito Constitucional se divide em antes de GM e depois de GM. Por imaginar-se capaz de, em três segundos, sacar do coldre repleto de argumentos a resposta matadora, também achava que era o entrevistado mais ágil e certeiro do Brasil. Tudo somado, só o decano poderia derrotar, sozinho, os inimigos da democracia que teimam em criticar o Supremo. A doutora Morgana certamente se derreteria de admiração, calculou o matogrossense apaixonado. Errou feio. 

Pausa para a lição, ilustrada por um caso exemplar: exibir-se para a namorada é perigoso. Além de inventividade e talento, exige muita sorte. Foi o que aprendi em Paris no outono de 1982, quando passei alguns dias hospedado no apartamento onde moravam minha irmã Patrícia e o marido Marinho Abbud, meu velho amigo. “Domingo tem jogo”, foi logo avisando o médico, que passava os dias úteis concentrado no Hospital Necker, escala essencial na trajetória que o transformaria num grande nefrologista. Os domingos eram monopolizados pelo time que fundara e havia batizado de Internacional Futebol Clube. 

Um nome perfeito. Para conseguir pelo menos mais 10 titulares, convocou dois brasileiros, um francês e estrangeiros vindos da Itália, da Nigéria, da Argélia e de outros países africanos. Depois de autodenominar-se Falcão (ou “Falcao”, porque quase ninguém conseguia pronunciar o “a” com til), rebatizou o restante do time com nomes dos demais craques da seleção brasileira. Além de fundador, Marinho era o técnico, o meia-armador, o capitão, o dono da bola e, por ter transformado um campo no Bosque de Vincennes na arena do Internacional, um supercartola. A equipe adversária era formada por gente que aparecia por lá à procura de uma pelada carente de futebolistas. 

No domingo da minha estreia, apareceu um brasileiro que se declarou atacante e bom de bola. A exclamação da moça ao seu lado informou que se tratava da nova namorada do craque de 20 anos. Imediatamente contemplado com a camisa 9, ele reagiu ao apito inicial como um genuíno centroavante de ofício: postou-se na linha horizontal da grande área. Aos 15 minutos do primeiro tempo, o ponta-direita fez um cruzamento a meia altura. E então o brasileiro que ninguém conhecia resolveu impressionar a namorada com o mais plástico dos lances: um gol de bicicleta. 

Deu tudo errado. Ao jogar-se para o alto, estendeu o corpo meio metro acima da trajetória da bola. Pior: esqueceu de baixar um dos braços para abrandar a colisão entre as costas e o solo sem gramado. O pé direito chutou o vazio e o corpo desabou num pedaço de terra repleto de cascalho e minúsculos pedregulhos. Sem condições físicas para continuar em campo, foi depositado por dois companheiros ao lado da namorada, que passou o resto do jogo extraindo com uma pinça pequenos bólidos que haviam perfurado a pele. O casal não voltou a ser visto por lá. Mas o enfado no rosto da enfermeira improvisada avisava que o namoro deveria acabar naquele domingo. 

O desempenho de Gilmar Mendes na maratona verbal foi tão lastimável quanto o do infeliz camisa 9. O ministro equivocou-se na escolha dos alvos a atacar e dos parceiros a defender. Enganou-se na seleção dos temas a discutir e dos argumentos a apresentar. Convencido de que seria tratado com brandura de cúmplice por todos os entrevistadores, teve de ouvir perguntas e réplicas incômodas. Em  vão, tentou camuflar com sorrisos amarelos a irritação denunciada por tremores do beiço debruçado sobre a mandíbula imensa.

ilmar Mendes, ministro do STF - Foto: Carlos Alves Moura/STF

Ainda na fase de aquecimento, Gilmar antecipou o fiasco. Indignado com o senador Alessandro Vieira, que pediu seu indiciamento no relatório da falecida CPI do Crime Organizado, o decano anexou o relator à multidão aglomerada no Inquérito do Fim do Mundo — e afirmou que essa ilegalidade parida há mais de seis anos não pode chegar ao fim antes da eleição. Inconformado com a audácia do exgovernador Romeu Zema, que sugeriu a prisão dos ministros envolvidos no escândalo do Banco Master, Gilmar zombou do sotaque mineiro, que qualificou de dialeto semelhante ao falado em TimorLeste. Zema revidou com um vídeo em que marionetes satirizavam os métodos do adversário. 

O que faria Zema se um vídeo na internet recorresse à sátira para apresentá-lo como homossexual?, perguntou Gilmar em outra entrevista. O candidato à Presidência pelo Partido Novo mirou o fígado do oponente: a pergunta revelava que Gilmar considera igualmente criminosos ladrões e homossexuais. Desprovido de balas na agulha, o decano exumou antigos palavrórios favoráveis à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nos tropeços seguintes, o decano insultou, menosprezou ou agrediu gente que acredita em pesquisa de opinião, gente que patrocina pesquisa de opinião, gente que rejeita a doação da vaga no STF a uma sumidade como Jorge Messias, gente que participa de CPIs e gente que associa ministros togados ao caso Master — além de jornalistas que fazem a pergunta certa e das Forças Armadas. 

De volta às sessões do tribunal, Gilmar exibe uma toga em frangalhos, um olho roxo, um braço na tipoia, hematomas no tórax e escoriações. Seu estado de saúde não é melhor que o daquele jovem brasileiro depois da desastrosa bicicleta em Paris. Além da chance de cravar um golaço, o centroavante provavelmente perdeu a namorada. O ministro que se cuide. Poderá perder Morgana se a decepção com o cortejo de entrevistas e pronunciamentos não for menor que a admiração causada por fios de cabelo agora negros como as asas da graúna. 


Augusto Nunes - Revista Oeste

Por que os piores chegam ao poder, por Friedrich A. Hayek

 

Nota do Editor

Com frequência, observamos que as posições do governo estão cheias de pessoas cuja moralidade é, no mínimo, questionável. De fato, do ponto de vista moral, os políticos tendem a sofrer de uma grave deficiência. Por definição, desejam que a sociedade se molde de acordo com suas crenças e estão dispostos a muita coisa para fazer valer seus ideais.

Há formas de se organizar a política de uma nação que são capazes, em determinado nível, de refrear a ascensão de pessoas inescrupulosas que nada mais desejam do que o poder. No entanto, quanto mais caminhamos em direção a uma sociedade planificada, mais contornos totalitários ela assume, e isso se dá porque tais sistemas criam a oportunidade de ascensão das piores pessoas.

No capítulo 10 de sua obra “O Caminho da Servidão”, Friedrich Hayek, que hoje completaria 127 anos, explica por que “os homens inescrupulosos têm mais probabilidade de êxito numa sociedade que tende ao totalitarismo”. Hayek também explica quais as condições necessárias para tornar possível a planificação da sociedade e a direção unificada dos assuntos públicos: a aprovação de uma maioria da população com características tão comuns quanto negativas.

Em tempos em que nosso país caminha firme à concentração de poder sob o discurso apaixonado, inflamatório e demagogo do socialismo, a leitura de Hayek se faz necessária.

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Texto extraído do capítulo 10 de O Caminho da Servidão

 

Todo poder corrompe, e o poder absoluto corrompe de maneira absoluta. – Lord Acton

Analisaremos agora uma ideia que, se de um lado serve de consolo para muitos que consideram inevitável o advento do totalitarismo, de outro enfraquece sobremodo a resistência dos que a ele se oporiam com todas as forças se lhe compreendessem a natureza. Trata-se da ideia de que os aspectos mais repelentes dos regimes totalitários se devem à casualidade histórica de esses regimes terem sido estabelecidos por canalhas e bandidos. Se, na Alemanha, a criação de um regime totalitário levou ao poder os Streichers e Killingers, os Leys e Heines, os Himmlers e Heydrichs — argumenta-se –, isso sem dúvida poderá provar a perversidade do caráter alemão, mas não que a ascensão de tais homens seja consequência inevitável de um regime totalitário. Por que não seria possível que o mesmo sistema, se necessário à consecução de objetivos importantes, fosse dirigido por indivíduos honestos para o bem da comunidade?

Não devemos iludir-nos supondo que todas as pessoas de bem são forçosamente democratas ou desejam fazer parte do governo. Muitos prefeririam confiá-lo a alguém que reputam mais competente. Embora isso possa ser importante, não há erro ou desonra em aprovar uma ditadura dos bons. O totalitarismo, ouve-se dizer, é um sistema poderoso tanto para o bem como para o mal, e o fim para o qual é usado depende inteiramente dos ditadores. Aqueles que julgam não ser o sistema que cumpre recear, e sim o perigo de que ele venha a ser dirigido por maus indivíduos, poderiam até ser tentados a prevenir esse perigo fazendo com que ele fosse estabelecido antes por homens de bem.

Não há dúvida de que um sistema “fascista” inglês ou americano diferiria muito dos modelos italiano ou alemão; por certo, se a transição fosse efetuada sem violência, poderíamos ter esperanças de que surgisse entre nós um líder melhor. E, se eu tivesse de viver sob um regime fascista, preferiria indubitavelmente um que fosse dirigido por ingleses ou americanos a qualquer outro. Entretanto, isso não quer dizer que, julgado pelos padrões atuais, um sistema fascista inglês viesse no fim a revelar-se muito diferente ou muito menos intolerável do que seus protótipos. Há razões de sobra para se crer que os aspectos que consideramos mais detestáveis nos sistemas totalitários existentes não são subprodutos acidentais mas fenômenos que, cedo ou tarde, o totalitarismo produzirá inevitavelmente. Assim como o estadista democrata que se propõe a planejar a vida econômica não tardará a defrontar-se com o dilema de assumir poderes ditatoriais ou abandonar seu plano, também o ditador totalitário logo teria de escolher entre o fracasso e o desprezo à moral comum. É por essa razão que os homens inescrupulosos têm mais probabilidades de êxito numa sociedade que tende ao totalitarismo. Quem não percebe essa verdade ainda não mediu toda a vastidão do abismo que separa o totalitarismo dos regimes liberais, a profunda diferença entre a atmosfera moral do coletivismo e a civilização ocidental, essencialmente individualista.

O “embasamento moral do coletivismo” foi, é claro, muito debatido no passado; mas o que nos interessa em nosso estudo não é sua base moral e sim seus resultados morais. Nos debates habituais sobre os aspectos éticos do coletivismo pergunta-se se este é exigido pelas convicções morais existentes, ou se devem existir certas convicções morais para que o coletivismo produza os resultados esperados. A questão que estudaremos, entretanto, é: que atitudes morais serão geradas por uma organização coletivista da sociedade, e por que ideias morais tal sociedade tenderá a ser dirigida? A interação da moral e das instituições poderá fazer com que a ética resultante do coletivismo seja totalmente diversa dos ideais morais que levam a exigir a implantação desse mesmo coletivismo. Embora nos inclinemos a pensar que, como o desejo de um sistema coletivista nasce de elevados motivos morais, em tal sistema se desenvolverão as mais altas virtudes, não existe, na realidade, nenhuma razão para que qualquer sistema estimule necessariamente aquelas atitudes que concorrem para o fim a que ele se destina. As ideias morais dominantes dependerão em parte das qualidades que conduzem os indivíduos ao sucesso num sistema coletivista ou totalitário e, em parte, das exigências do mecanismo totalitário.

Devemos agora voltar por um momento ao estágio que precede a supressão das instituições democráticas e a criação de um regime totalitário. Nesse estágio, a exigência geral de uma ação governamental rápida e decidida torna-se o elemento dominante da situação, enquanto a insatisfação com o curso lento e trabalhoso dos processos democráticos faz com que o objetivo seja a ação em si. É então que o homem ou o partido que parecem bastante fortes ou resolutos para “fazerem as coisas funcionar” exercem maior sedução. “Forte”, neste sentido, não indica apenas uma maioria numérica, pois o povo está insatisfeito justamente com a ineficácia das maiorias parlamentares. O que as pessoas procuram é um homem que goze de sólido apoio, de modo a inspirar confiança quanto à sua capacidade de realizar o que pretende. E aqui entra em cena o novo tipo de partido, organizado em moldes militares.

Nos países da Europa Central, os partidos socialistas já haviam familiarizado as massas com organizações políticas de caráter semimilitar, que tinham por objetivo absorver tanto quanto possível a vida privada dos seus membros. Para conferir um poder esmagador a um grupo, bastava estender um pouco mais o mesmo princípio, buscando a força não no imenso número de votos garantido em eleições ocasionais, mas no apoio absoluto e irrestrito de um grupo menor, porém perfeitamente organizado. Para conseguir impor um regime totalitário a toda uma nação, o líder deve em primeiro lugar reunir à sua volta um grupo disposto a submeter-se voluntariamente à disciplina totalitária que ele pretende aplicar aos outros pela força.

Embora os partidos socialistas tivessem poder político suficiente para obter o que desejassem, desde que resolvessem empregar a força, relutaram em fazê-lo. Sem o saber, tinham assumido uma tarefa que só poderia ser executada por homens implacáveis, prontos a desprezar as barreiras da moral reinante. Muitos reformadores sociais aprenderam, no passado, que o socialismo só pode ser posto em prática por métodos que seriam condenados pela maioria dos socialistas.

Os velhos partidos socialistas sentiam-se inibidos por seus ideais democráticos; não possuíam a insensibilidade necessária à execução da tarefa por eles escolhida. É importante notar que, tanto na Alemanha como na Itália, o êxito do fascismo foi precedido pela recusa dos partidos socialistas a assumir as responsabilidades do governo. Repugnou-lhes empregar os métodos que eles próprios haviam apontado. Ainda esperavam pelo milagre de um acordo da maioria em torno de um plano especial para a organização de toda a sociedade. Outros já haviam aprendido que, numa sociedade planificada, não se trata mais de saber sobre o que concorda a maioria do povo, mas qual é o maior grupo cujos membros encontraram um grau de acordo suficiente para tornar possível a direção unificada de todos os assuntos públicos; ou, caso não exista nenhum grupo bastante numeroso para impor suas ideias, de que forma e por quem ele pode ser criado.

Há três razões principais para que um grupo numeroso, forte e de ideias bastante homogêneas não tenda a ser constituído pelos melhores e sim pelos piores elementos de qualquer sociedade. De acordo com os padrões hoje aceitos, os princípios que presidiriam à seleção de tal grupo seriam quase inteiramente negativos.

Em primeiro lugar, é provavelmente certo que, de modo geral, quanto mais elevada a educação e a inteligência dos indivíduos, tanto mais se diferenciam os seus gostos e opiniões e menor é a possibilidade de concordarem sobre determinada hierarquia de valores. Disso resulta que, se quisermos encontrar um alto grau de uniformidade e semelhança de pontos de vista, teremos de descer às camadas em que os padrões morais e intelectuais são inferiores e prevalecem os instintos mais primitivos e “comuns”. Isso não significa que a maioria do povo tenha padrões morais baixos; significa apenas que o grupo mais amplo cujos valores são semelhantes é constituído por indivíduos que possuem padrões inferiores. É, por assim dizer, o mínimo denominador comum que une o maior número de homens. Quando se deseja um grupo numeroso e bastante forte para impor aos demais suas ideias sobre os valores da vida, jamais serão aqueles que possuem gostos altamente diferenciados e desenvolvidos que sustentarão pela força do número os seus próprios ideais, mas os que formam a “massa” no sentido pejorativo do termo, os menos originais e menos independentes.

Se, contudo, um ditador em potencial tivesse de contar apenas com aqueles cujos instintos simples e primitivos são muito semelhantes, o número destes não daria peso suficiente às suas pretensões. Seria preciso aumentar-lhes o número, convertendo outros ao mesmo credo simples.

A esta altura entra em jogo o segundo princípio negativo da seleção: tal indivíduo conseguirá o apoio dos dóceis e dos simplórios, que não têm fortes convicções próprias, mas estão prontos a aceitar um sistema de valores previamente elaborado, contando que este lhes seja apregoado com bastante estrépito e insistência.

Serão, assim, aqueles cujas ideias vagas e imperfeitas se deixam influenciar com facilidade, cujas paixões e emoções não é difícil despertar, que engrossarão as fileiras do partido totalitário.

O terceiro e talvez mais importante elemento negativo da seleção está relacionado com o esforço do demagogo hábil por criar um grupo coeso e homogêneo de prosélitos. Quase por uma lei da natureza humana, parece ser mais fácil aos homens concordarem sobre um programa negativo — o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em melhor situação — do que sobre qualquer plano positivo. A antítese “nós” e “eles”, a luta comum contra os que se acham fora do grupo, parece um ingrediente essencial a qualquer ideologia capaz de unir solidamente um grupo visando à ação comum. Por essa razão, é sempre utilizada por aqueles que procuram não só o apoio a um programa político, mas também a fidelidade irrestrita de grandes massas. Do seu ponto de vista, isso tem a vantagem de lhes conferir mais liberdade de ação do que qualquer programa positivo. O inimigo, seja ele interno, como o “judeu” ou o “kulak”, seja externo, parece constituir uma peça indispensável no arsenal do líder totalitário.

Se na Alemanha o judeu se tornou o inimigo, cedendo em seguida o lugar às “plutocracias”, isso foi decorrência do sentimento anticapitalista em que se baseava todo o movimento, o mesmo acontecendo em relação à escolha do kulak na Rússia. Na Alemanha e na Áustria, o judeu chegara a ser encarado como o representante do capitalismo porque a antipatia tradicional votada por vastas classes da população às atividades comerciais tornara tais atividades mais acessíveis a um grupo praticamente excluído das ocupações mais respeitadas. É a velha história: a raça alienígena, admitida apenas nas profissões menos nobilitantes, torna-se objeto de ódio ainda mais acirrado precisamente por exercê-las. O fato de, na Alemanha, o antissemitismo e o anticapitalismo terem a mesma origem é de grande importância para a compreensão do que tem acontecido naquele país, embora os observadores estrangeiros poucas vezes se deem conta disso.

Considerar a tendência universal da política coletivista ao nacionalismo como decorrência exclusiva da necessidade de um apoio sólido seria negligenciar outro fator não menos significativo. Com efeito, é questionável que se possa conceber com realismo um programa coletivista que não atenda aos interesses de um grupo limitado, ou que o coletivismo possa existir sob outra forma que não a de um particularismo qualquer, nacionalista, racista ou classista. A ideia de uma comunhão de propósitos e interesses com os próprios semelhantes parece pressupor maior similaridade de ideias e pontos de vista do que aquela que existe entre os homens na qualidade de simples seres humanos. Se não podemos conhecer pessoalmente todos os outros componentes do nosso grupo, eles terão de ser pelo menos do mesmo tipo dos que nos cercam, terão de pensar e falar do mesmo modo e sobre os mesmos assuntos, para que nos possamos identificar com eles.

O coletivismo em proporções mundiais parece inconcebível, a não ser para atender aos interesses de uma pequena elite dirigente. Ele por certo suscitaria problemas, não só de natureza técnica, mas sobretudo moral, que nenhum dos nossos socialistas estaria disposto a enfrentar. Se o proletário inglês tem direito a uma parcela igual da renda atualmente proporcionada pelos recursos financeiros do país, assim como ao controle do emprego desses recursos, porque eles resultam da exploração, então pelo mesmo princípio todos os hindus teriam direito não só à renda mas também ao uso de uma parcela proporcional do capital britânico.

Que socialistas, porém, pensam de fato em repartir de maneira equitativa, entre toda a população da terra, os atuais recursos de capital? Para todos eles, o capital pertence não à humanidade, mas à nação — embora, mesmo no âmbito da nação, poucos ousem sustentar que as regiões mais ricas devem ser privadas de “seus” bens de capital para auxiliar as regiões mais pobres. Os socialistas não estão dispostos a conceder ao estrangeiro aquilo que proclamam como um dever para com os seus concidadãos. De um ponto de vista coletivista coerente, os direitos dos países pobres a uma nova divisão do mundo são de todo justificados — embora, se fossem aplicados com lógica, aqueles que os reivindicam com maior insistência acabassem quase tão prejudicados quanto as nações mais ricas. Têm, por conseguinte, o cuidado de não fundamentar suas exigências em princípios igualitários, mas numa pretensa capacidade superior de organizar outros povos.

Uma das contradições inerentes à filosofia coletivista é que, embora baseada na moral humanista aperfeiçoada pelo individualismo, só se mostra praticável no interior de um grupo relativamente pequeno. Enquanto permanece teórico, o socialismo é internacionalista; mas ao ser posto em prática, na Alemanha ou na Rússia, torna-se violentamente nacionalista. Esta é uma das razões por que o “socialismo liberal”, tal como o imagina a maioria das pessoas no mundo ocidental, é apenas teórico, ao passo que a prática do socialismo é em toda parte totalitária. No coletivismo não há lugar para o amplo humanitarismo do liberal, mas apenas para o estreito particularismo do totalitário.

Se a “comunidade” ou o estado têm prioridade sobre os indivíduos, se possuem objetivos próprios superiores aos destes e deles independentes, só os indivíduos que trabalham para tais objetivos podem ser considerados membros da comunidade. Como consequência necessária dessa perspectiva, uma pessoa só é respeitada na qualidade de membro do grupo, isto é, apenas se coopera para os objetivos comuns reconhecidos, e toda a sua dignidade deriva dessa cooperação, e não da sua condição de ser humano. Os próprios conceitos de humanidade e, por conseguinte, de qualquer forma de internacionalismo são produtos exclusivos da atitude individualista e não podem existir num sistema filosófico coletivista.[1]

Além do fato fundamental de que a comunidade coletivista só pode chegar até onde exista ou possa ser estabelecida uma unidade de propósitos individuais, vários elementos contribuem para fortalecer a tendência do coletivismo a tornar-se particularista e exclusivista. Destes, um dos mais importantes é que o desejo de identificação do indivíduo com um grupo resulta com frequência de um sentimento de inferioridade, e por isso tal desejo só será satisfeito se a qualidade de membro do grupo lhe conferir alguma superioridade sobre os que a este não pertencem. Às vezes, ao que tudo indica, o próprio fato de esses instintos violentos que o indivíduo é obrigado a refrear no seio do grupo poderem ser liberados numa ação coletiva contra os estranhos constitui mais um incentivo para fusão de sua personalidade com a do grupo.

Uma profunda verdade está expressa no título do livro de Reinhold Niebuhr, Moral Man and Immoral Society (O Homem Moral e a Sociedade Imoral) — embora seja difícil aceitar conclusões a que chega a sua tese. Na verdade, como diz ele em outra obra, “o homem moderno tende a se considerar uma pessoa de moral elevada por ter delegado seus vícios a grupos cada vez mais numerosos”.[2] Agir no interesse de um grupo parece libertar os homens de muitas restrições morais que regem seu comportamento como indivíduos dentro do grupo.

A atitude de muitos planejadores de nítida oposição ao internacionalismo explica-se também pelo fato de que, no mundo atual, todos os contatos exteriores de um grupo constituem obstáculos ao planejamento efetivo da esfera em que este pode ser empreendido. Não é, pois, mera coincidência se conforme descobriu com pesar o organizador de um dos mais abrangentes estudos coletivos sobre o planejamento, “os ‘planejadores’ são, em sua maioria, nacionalistas militantes”.[3]

As propensões nacionalistas e imperialistas dos planejadores socialistas — muito mais comuns do que em geral se admite — nem sempre são tão flagrantes como no caso dos Webb e de alguns outros fabianos primitivos, nos quais o entusiasmo pela planificação se somava, de modo característico, à veneração para com as grandes e poderosas unidades políticas e ao desprezo pelos pequenos estados. Referindo-se aos Webb na ocasião em que os conheceu, há quarenta anos, afirmava o historiador Elie Halévy que

seu socialismo era profundamente antiliberal. Não odiavam os conservadores, eram até muito tolerantes com eles; entretanto, mostravam-se implacáveis para com o liberalismo gladstoniano. Era no tempo da guerra dos bôeres e tanto os liberais quanto aqueles que começavam a constituir o Partido Trabalhista haviam-se alinhado aos bôeres contra o imperialismo britânico, em nome da liberdade e da humanidade. Mas os dois Webb e seu amigo Bernard Shaw não os apoiaram. Eram ostentosamente imperialistas. A independência das pequenas nações poderia ter alguma importância para um individualista liberal mas, para coletivistas como eles, nada significava. Ainda ouço Sidney Webb a explicar-me que o futuro pertence às grandes nações administrativas, onde os funcionários governam e a polícia mantém a ordem.

Em outra parte, Halévy cita a afirmação de Bernard Shaw, mais ou menos da mesma época, de que “o mundo pertence necessariamente aos estados grandes e poderosos, e os pequenos devem ser incorporados, a eles ou esmagados e aniquilados”.[4]

Citei por extenso essas passagens, que não deveriam surpreender num relato sobre os precursores alemães do nacional-socialismo, porque apresentam um exemplo muito característico da glorificação do poder que facilmente conduz do socialismo ao nacionalismo e que tanto influencia as concepções éticas de todos os coletivistas. No que se refere aos direitos das pequenas nações, Marx e Engels pouco diferiam da maioria dos outros coletivistas coerentes, e as opiniões que ambos expressaram ocasionalmente a respeito dos tchecos ou dos poloneses assemelham-se às dos nacional-socialistas contemporâneos.[5]

Enquanto para os grandes filósofos sociais individualistas do século XIX, como Lord Acton ou Jacob Burckhardt, e mesmo para socialistas contemporâneos como Bertrand Russell,que herdaram a tradição liberal, o poder sempre se afigurou o supremo mal, para o coletivista puro ele é um fim em si mesmo. O próprio desejo de organizar a vida social segundo um plano unitário nasce basicamente da ambição de poder, mas não apenas disso, conforme destacou Russell com propriedade. Esse desejo resulta sobretudo do fato de que, para realizar seu objetivo, os coletivistas precisam criar um poder de uma magnitude jamais vista até hoje — poder exercido por alguns homens sobre os demais — e de que seu êxito dependerá do grau de poder alcançado.

Isto permanece válido ainda que muitos socialistas liberais orientem suas ações pela desastrosa ilusão de que, privando os indivíduos do poder que possuem num sistema individualista e transferindo-o à sociedade, lograrão acabar com o próprio poder. O que todos aqueles que usam esse argumento esquecem é que, concentrando-se o poder de modo a empregá-lo a serviço de um plano único, ele não será apenas transferido mas aumentado a um grau infinito; e que, enfeixando-se nas mãos de um só grupo uma autoridade antes exercida por muitos de forma independente, cria-se um poder infinitamente maior — tão amplo que quase chega a tornar-se um outro gênero de poder.

É de todo errôneo afirmar, como por vezes se faz, que o grande poder exercido por uma comissão de planejamento central “não seria maior do que o poder exercido conjuntamente pelas diretorias das empresas privadas”.[6] Numa sociedade baseada na concorrência, ninguém exerce uma fração sequer do poder que uma comissão planejadora socialista concentraria nas mãos; e se ninguém o pode empregar de modo intencional, não passa de abuso de linguagem afirmar que este se encontra nas mãos de todos os capitalistas reunidos. Falar do “poder conjuntamente exercido pelas diretorias das empresas privadas” é apenas manipular palavras, se essas diretorias não se unem para uma ação comum — o que significaria, é evidente, o fim da concorrência e a criação de uma economia planificada. Fracionar ou descentralizar o poder corresponde, forçosamente, a reduzir a soma absoluta de poder, e o sistema de concorrência é o único capaz de reduzir ao mínimo, pela descentralização, o poder exercido pelo homem sobre o homem.

Já vimos como a separação dos objetivos políticos e dos objetivos econômicos representa uma garantia essencial da liberdade individual e como, em consequência, tal separação é atacada por todos os coletivistas. Devemos acrescentar agora que a “substituição do poder econômico pelo político”, tão demandada hoje em dia, significa necessariamente a substituição de um poder sempre limitado por um outro ao qual ninguém pode escapar. Embora possa constituir um instrumento de coerção, o chamado poder econômico nunca se torna, nas mãos de particulares, um poder exclusivo ou completo, jamais se converte em poder sobre todos os aspectos da vida de outrem. No entanto, centralizado como instrumento do poder político, cria um grau de dependência que mal se distingue da escravidão.

Das duas características principais de todo sistema coletivista — a necessidade de um sistema de objetivos aceito por todos os membros do grupo e o desejo imperioso de conferir ao grupo o máximo de poder para realizar tais objetivos — brota um sistema moral definido, que em certos pontos coincide e em outros se contrapõe violentamente ao nosso. Dele difere, entretanto, num detalhe que torna questionável podermos aplicar-lhe o termo “morar”: tal sistema não deixa à consciência individual a liberdade de aplicar suas regras próprias, nem mesmo conhece quaisquer regras gerais cuja prática seja exigida ou permitida ao indivíduo em todas as circunstâncias. Isso torna a moral coletivista tão diferente daquilo que conhecemos como moral que é difícil encontrar nela qualquer princípio — o que, no entanto, ela possui.

A diferença de princípio é praticamente a mesma que já consideramos em relação ao estado de Direito. Como o Direito formal, as regras da ética individualista são gerais e absolutas, por mais imprecisas que possam parecer sob certos aspectos. Prescrevem ou proíbem um tipo geral de ação, sem levar em conta se num caso específico o objetivo último é bom ou mau. Trapacear ou roubar, torturar ou trair segredos é considerado mau, apresentem ou não consequências prejudiciais em determinado caso. E sua maldade intrínseca não se altera, mesmo que em dadas circunstâncias ninguém venha a sofrer por isso, e mesmo que tais ações tenham sido praticadas em nome de um propósito elevado. Embora por vezes sejamos forçados a escolher entre dois males, estes não deixam por isso de ser males.

Na ética individualista, o princípio de que o fim justifica os meios é considerado a negação de toda a moral. Na ética coletivista, torna-se a regra suprema; não há literalmente nada que o coletivista coerente não deva estar pronto a fazer, desde que contribua para o “bem da comunidade”, porque o “bem da comunidade” é para ele o único critério que justifica a ação. A “razão de estado”, em que a ética coletivista encontrou a sua formulação mais explícita, não conhece outros limites que não os da conveniência — a adequação do ato particular ao objetivo que se tem em vista. E o que a “razão de estado” afirma no tocante às relações entre diferentes países aplica-se também às relações entre diferentes indivíduos no estado coletivista. Não pode haver limites para aquilo que o cidadão desse estado deve estar pronto a fazer, nenhum ato que a consciência o impeça de praticar, desde que seja necessário à consecução de um objetivo que a comunidade impôs a si mesma ou que os superiores lhe ordenem.

Dessa ausência de normas absolutas e formais na ética coletivista não se infere, naturalmente, que a comunidade não estimule certos hábitos úteis do indivíduo, e que não condene outros. Ao contrário, ela se interessará muito mais pelos hábitos individuais de vida do que uma comunidade individualista. Ser membro útil de uma sociedade coletivista requer qualidades muito precisas, as quais devem ser fortalecidas por uma prática constante. A razão por que designamos essas qualidades como “hábitos úteis”, uma vez que não é possível denominá-las virtudes morais, é que nunca se permitiria ao indivíduo colocar essas regras acima de quaisquer ordens positivas ou deixar que se tornassem um obstáculo à realização dos objetivos concretos da comunidade. Elas apenas servem para preencher as lacunas deixadas pelas ordens diretas ou pela indicação de finalidades concretas. Jamais, entretanto, poderão justificar um conflito com a decisão da autoridade.

As diferenças entre as virtudes que continuarão a ser valorizadas num sistema coletivista e aquelas que virão a desaparecer são bem elucidadas por uma comparação entre as virtudes atribuídas aos alemães, ou melhor, ao “prussiano típico”, mesmo por seus piores inimigos, e aquelas que lhes são negadas pela opinião geral, mas que o povo inglês, com alguma razão, se orgulhava de possuir em alto grau. Poucos deixarão de admitir que os alemães, em geral, são laboriosos e disciplinados, detalhistas e enérgicos a ponto de se mostrarem insensíveis, conscienciosos e coerentes em qualquer tarefa à qual se dedicam; que possuem um acentuado senso de ordem, dever e estrita obediência à autoridade, e que muitas vezes dão provas de grande capacidade para o sacrifício pessoal e de admirável coragem diante do perigo físico. Essas virtudes fazem do alemão um instrumento eficiente na execução de uma tarefa prescrita, e todas elas foram cuidadosamente ensinadas no velho estado prussiano e no novo reich, também sob o domínio prussiano.

O que se supõe faltar ao “alemão típico” são as virtudes individualistas da tolerância e do respeito pelos demais indivíduos e suas opiniões; o pensamento independente e aquela integridade de caráter que fazem o indivíduo defender suas convicções perante um superior — qualidades que os próprios alemães, em geral cônscios de não possuírem, chamam Zivilcourage; a consideração pelos fracos e doentes; e o saudável desprezo e antipatia pelo poder, que somente uma longa tradição de liberdade pessoal pode criar. Parece faltar-lhes ainda quase todas essas pequenas porém importantes qualidades que facilitam as relações entre os homens numa sociedade livre: a bondade e o senso de humor, a modéstia pessoal, o respeito pela privacidade e a fé nas boas intenções de seus semelhantes.

Após tais considerações, não causará surpresa a ninguém que essas virtudes individualistas sejam ao mesmo tempo virtudes eminentemente sociais, qualidades que suavizam os contatos sociais e que tornam menos necessário, e ao mesmo tempo mais difícil, o controle que vem de cima. São virtudes que florescem onde quer que tenha prevalecido a sociedade de tipo individualista ou comercial e que, inversamente, inexistem quando predomina a de tipo coletivista ou militar — diferença que se pode (ou se podia) observar nas várias regiões da Alemanha, como agora se observa entre as ideias que reinam naquele país e as ideias características do Ocidente. Até bem pouco, pelo menos, nas regiões da Alemanha que mais longamente estiveram expostas às forças civilizadoras do comércio – as antigas cidades comerciais do sul e do oeste e as cidades hanseáticas – os conceitos éticos em geral tinham muito mais afinidade com os dos povos ocidentais do que com aqueles que hoje prevalecem em toda a Alemanha.

Seria, no entanto, injusto considerar as massas que sustentam um regime totalitário destituídas de qualquer fervor moral só porque prestam apoio irrestrito a um sistema que a nós se afigura a negação dos melhores valores morais. Para a sua grande maioria, é justamente o contrário que se verifica: a intensidade das emoções morais em que repousa um movimento como o nacional-socialista ou o comunista talvez só possa ser comparada à dos grandes movimentos religiosos da história. Uma vez admitido que o indivíduo é simples instrumento para servir aos fins da entidade superior que se chama sociedade ou nação, manifesta-se necessariamente a maior parte dessas características dos regimes totalitários que nos enchem de horror. Da perspectiva coletivista, a intolerância e a brutal supressão da dissidência, o completo desrespeito pela vida e pela felicidade do indivíduo são consequências essenciais e inevitáveis dessa premissa básica. O coletivista pode aceitar esse fato, e ao mesmo tempo afirmar que seu sistema é superior àqueles em que se permite que interesses individuais “egoístas” criem embaraços à plena realização das metas visadas pela comunidade. Quando os filósofos alemães repetidas vezes caracterizam como imoral em si mesma a busca da felicidade pessoal e apenas digno de louvor o cumprimento do dever imposto, estão usando de completa sinceridade, por mais incompreensível que isso pareça às pessoas educadas numa tradição diferente.

Onde existe uma finalidade comum e soberana, não há lugar para uma moral ou para normas gerais. Até certo ponto, nós próprios experimentamos isso durante a guerra. A guerra e o perigo mais grave, no entanto, levaram os países democráticos a uma situação que só de longe se assemelhava ao totalitarismo, poucas vezes prejudicando os demais valores em função de um objetivo único. Mas quando toda a sociedade é dominada por alguns fins específicos, é inevitável que, vez por outra, a crueldade se torne um dever; que ações que nos revoltam, tais como o fuzilamento de reféns ou o extermínio de velhos e doentes, sejam tratadas como meras questões de conveniência; que arrancar centenas de milhares de indivíduos de suas casas e transportá-los compulsoriamente para outro lugar se converta numa linha de ação política aprovada por quase todos, menos pelas vítimas; ou que ideias como a “conscrição das mulheres para fins de procriação” possam ser consideradas a sério. O coletivista tem sempre diante dos olhos uma meta superior para a qual concorrem essas ações e que, no seu modo de ver, as justifica, porque a busca do objetivo social comum não pode ser limitada pelos direitos ou valores de qualquer indivíduo.

Mas enquanto para a massa dos cidadãos do estado totalitário é muitas vezes a dedicação desinteressada a um ideal — embora esse ideal nos pareça detestável — que os leva a aprovar e até a praticar tais atos, o mesmo não se pode alegar em favor dos dirigentes da política estatal. Para ser um auxiliar útil na administração de um estado totalitário não basta que um indivíduo esteja pronto a aceitar justificações capciosas de atos abomináveis. Deve estar preparado para violar efetivamente qualquer regra moral de que tenha conhecimento, se isso parecer necessário à realização do fim que lhe foi imposto. Como o chefe supremo é o único que determina os fins, seus instrumentos não devem ter convicções morais próprias. Cumpre-lhes, acima de tudo, votar uma fidelidade irrestrita à pessoa do líder; em seguida, o mais importante é que sejam desprovidos de princípios e literalmente capazes de tudo. Não devem possuir ideais próprios que desejem realizar, nenhuma ideia sobre o que é justo ou injusto que possa criar obstáculos às intenções do líder. Desse modo, as posições de mando oferecem àqueles que possuem convicções morais semelhantes às que têm guiado os povos europeus poucos atrativos que compensem a repugnância causada por muitas das tarefas a executar, e escassas oportunidades de satisfazer os desejos mais idealistas, de recompensar os inegáveis riscos, o sacrifício da maioria dos prazeres da vida privada e da independência pessoal que esses postos de grande responsabilidade sempre impõem. A única satisfação é a da ambição do poder em si mesmo, o prazer de ser obedecido e de fazer parte de uma máquina perfeita, imensamente poderosa, diante da qual tudo deve ceder.

Por outro lado, embora pouco haja para induzir homens bons, segundo nossos padrões, a aspirar a cargos de importância na máquina totalitária, e muito para afastá-los dessas posições, haverá oportunidades especiais para os insensíveis e os inescrupulosos. Será preciso desempenhar tarefas de inegável crueldade, mas que não podem deixar de ser executadas, a serviço de alguma finalidade superior, com a mesma perícia e a mesma eficiência que quaisquer outras. Havendo, assim, necessidade de ações intrinsecamente nocivas e que todas as pessoas ainda influenciadas pela moral tradicional relutarão em fazer, a disposição para praticar tais ações converte-se no caminho da ascensão social e do poder. Numa sociedade totalitária, são numerosas as posições em que é necessário praticar a crueldade e a intimidação, a duplicidade e a espionagem. Nem a Gestapo, nem a administração de um campo de concentração, nem o ministério da Propaganda, nem a S.A. ou a S.S. (ou seus equivalentes italianos ou russos) são lugares favoráveis à prática de sentimentos humanitários. E, no entanto, é exercendo esses cargos que se chega às posições supremas no estado totalitário. É corretíssima a conclusão do ilustre economista americano que, após enumerar os deveres das autoridades num estado coletivista, afirmou:

Eles seriam obrigados a fazer essas coisas, quisessem ou não; e é tão reduzida a probabilidade de o poder ser exercido por homens que detestem a sua posse e exercício quanto a de alguém extremamente bom e sensível vir a ser feitor de escravos.[7]

Não nos é possível, todavia, esgotar aqui o assunto. O problema da seleção dos líderes está intimamente ligado ao amplo problema de selecioná-los segundo as opiniões que essas pessoas exibem, ou melhor, de acordo com a presteza com que se adaptam a um corpo de doutrinas em constante transformação. E isto nos conduz a um dos mais característicos aspectos morais do totalitarismo: sua relação com as virtudes que se incluem na denominação geral de veracidade e seus efeitos sobre estas. Trata-se de assunto tão amplo que requer um capítulo especial.

 


[1] É inteiramente dentro do espírito do coletivismo que Nietzsche faz Zaratustra dizer: “Até agora mil metas existiram, porque mil pessoas existiram. Mas falta ainda o grilhão para os mil pescoços, pois ainda falta a meta única. A humanidade não tem uma meta. Mas dizei-me, ó irmãos, eu vos peço: se falta uma meta à humanidade, não é a própria humanidade que está faltando?”.

[2] Citado de um artigo do dr. Niebuhr por E. H. Carr, em The Twenty Years’ Crisis, 1941. p. 203.

[3] Mackenzie, F., org. Planned Society, Yesterday, Today, Tomorrow: A Symposium. 1937. p. XX.

[4] Halévy, E. L’ère des Tyrannies, Paris, 1938, p. 217. e History of the English People, Epílogo, v. I, pp. 105-6.

[5] Cf. Marx, Karl, Revolution and Counter-revolution, e a carta de Engels a Marx datada de 23 de maio de 1851.

[6] Russell, Bertrand, The Scientific Outlook, 1931, p. 211.

[7] Knight, F. H. em The Journal of Political Economy, dez. 1938, p. 869. 



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