A pergunta que a grande imprensa se recusa a formular é a única que importa: quem escreveu o roteiro que trouxe esse homem até ali?
Na noite do sábado 25, Cole Tomas Allen, 31 anos, residente de Torrance, Califórnia, rompeu os cordões de segurança do jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca empunhando múltiplas armas — entre elas um fuzil —, disparou ao menos meia dúzia de tiros e feriu um agente do Serviço Secreto, salvo pelo colete à prova de balas. É o terceiro atentado contra Donald Trump em dois anos. Alguém ainda se atreve a chamar isso de coincidência?
Quando Tyler Robinson assassinou Charlie Kirk, em setembro passado, escrevi nestas páginas sobre a estrutura espiritual do ódio revolucionário — essa pseudo-transcendência do ressentimento que substitui a busca do bem pela perseguição obsessiva do mal a destruir. Robinson explicou o crime com uma frase que merece ser gravada em bronze como documento de época: “Eu não aguentava mais o ódio dele”. O sujeito que acabara de cometer um homicídio atribuía o ódio à vítima — um notório apologista do diálogo, que construiu a carreira inteira sobre o confronto civilizado de ideias.
Trata-se da inversão revolucionária em estado puro: o algoz se proclama vítima no exato instante em que aperta o gatilho. O professor Olavo de Carvalho observava que essa inversão entre sujeito e objeto — entre vítima e algoz, entre perpetrador e mártir — é o traço permanente de todas as manifestações revolucionárias, de Trump:
tentaram novamente... Stalin a Pol Pot, e o método de pensamento essencial da intelectualidade ativista: enxergar tudo às avessas e só admitir como verdade o contrário do que os fatos dizem. O assassino de Kirk não descobriu um inimigo: ele o fabricou. Como diagnosticou André Glucksmann, “o ódio precede e predetermina o objeto que fabrica para si mesmo”.
Cole Tomas Allen é o herdeiro direto dessa lógica — e o produto previsível de um ambiente cultivado durante anos nas universidades onde professores transformam militância em catequese, nos estúdios de Hollywood onde o vilão é invariavelmente um conservador, nas redações onde qualquer dissidência do consenso progressista é enquadrada como “fascismo”. Quando se passa uma década chamando um homem de Hitler e ameaça existencial à democracia — com a autoridade de quem ocupa as cátedras e os palácios da cultura —, não se pode fingir surpresa quando um espécime mais coerente que a média resolve tirar a metáfora do papel e levá-la ao Washington Hilton com um fuzil.
A inversão está completa: o atirador se vê, com toda a certeza moral de um cruzado, não como agressor mas como defensor — não como perpetrador de violência, mas como seu antídoto. Eric Voegelin chamava isso de consciência pneumopatológica: a deformação espiritual de quem, ao rebelar-se contra a estrutura transcendente da realidade, inverte todos os seus termos e transforma o ódio no sacramento de uma religião às avessas.
Trump sobreviveu. E disse, com a economia de palavras de quem já passou por isso antes: “O show continua”. Mas a pergunta que a grande imprensa se recusa a formular — porque formulá-la exigiria nomear a própria responsabilidade — é a única que importa: quem escreveu o roteiro que trouxe esse homem até ali?
Flávio Gordon - Revista Oeste
