terça-feira, 28 de abril de 2026

‘Faxina’ afasta 8 ministros do Supremo da Venezuela que perseguiam a oposição

 Destituição foi articulada pelo representante de Trump em Caracas


Maikel Moreno, destituído do Tribunal Supremo, foi um dos símbolos de uma era de perseguições a opositores da tirania e da blindagem do ditador da Venezuela.



A “faxina” promovida no regime ditatorial da Venezuela pelo governo Donald Trump promoveu uma das mudanças mais significativas na transformação do regime em uma democracia, com a destituição de oito ministros do Tribunal Supremo de Justiça, todos envolvidos em decisões cruéis, de condenações e perseguiçao a oposidores do chavismo.

Foram substituídos os agora ex-ministros Maikel Moreno, Elsa Gómez, Edgar Gavidia, Carmen Alves, Henry Timaure, Malaquías Gil, Juan Carlos Hidalgo Pandares e Luis Damiani Bustillos.

Essa nova fase da Venezuela ocorre após a queda e prisão do tirano Nicolás Maduro, que aguarda julgamento em uma penitenciária de Nova York. Desde então, cúmplices da ditadura em diversas instâncias têm sido afastados para responderem pelos seus crimes. Agora chegou a vez desses integrantes do equivalente na Venezuela ao Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro.

Homem de confiança de Trump na Venezuela, John Barrett é quem conduz as providências que reorganizam o país.

O principal símbolo do mando da ditadura no Tribunal Supremo de Justiça foi seu presidente: Maikel Moreno. Ele liderou iniciativas para blindar a ditadura dos crimes que cometia, incluindo prisões ilegais, tortura e assassinato, para além de censura à imprensa e perseguição de opositores.

Diário do Poder

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Agentes da Gestapo tupiniquim, leia-se PF, pedem para cidadão retirar faixa de 'ladrão' em cidade que ia receber Lula

 Vídeo que circula nas redes sociais mostra a interação do morador com os agentes; eles mencionam que superiores poderiam 'impor' a retirada do material




Um morador de Presidente Prudente (SP) foi abordado por agentes da Polícia Federal (PF) para retirar uma faixa com a palavra “ladrão” exibida na janela de seu apartamento, na cidade que receberia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta segunda-feira, 27. Fontes ouvidas pela equipe de Oeste confirmaram que os agentes envolvidos pertencem à corporação. 

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra a interação do morador com os agentes da PF. Nas imagens, eles mencionam que superiores poderiam “impor” a retirada do material. 


Sam Pacher - Um morador de Presidente Prudente foi abordado por agentes da PF por exibir uma faixa com a palavra “ladrão” na sua própria janela, em um prédio proximo a um evento que receberia o presidente Lula. Policiais chegam a dizer que superiores iriam “impôr” a retirada da faixa que Mostrar mais 


Segundo o relato, a faixa não citava diretamente o nome de Lula. Outras faixas, que se encontram no mesmo condomínio, também mostram frases de apoio ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-SP).


Adolfo Padilha - O vídeo dura 3 minutos mas vale a pena porque se nada fizermos estaremos cada vez mais presos e calados. A indignação pode durar uma vida inteira — principalmente quando nada é feito. E amanhã pode ser com você. Em Presidente Prudente, moradores são intimados a retirar faixas de protesto contra o governo. No maior estado do país, a pergunta fica: até onde vai o direito de se manifestar, e o silêncio daqueles que tinham que colocar a cara a tapa ? Se vc concordar compartilhe. Ok ! View all 135 comments Add a comment... View more on Instagram 🟡🟢 Faça parte desse Brasil 🟢🟡 Clique aqui para falar com a nossa equipe e ganhe um presente exclusivo! 


O vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o ministro da Educação, Leonardo Barchini estiveram na cidade do interior paulista para inaugurações e entregas nas áreas de saúde e educação. 

Lula, que se recupera de cirurgia para retirada de câncer de pele, não viajou para Presidente Prudente.

 Reações de políticos diante da postura de agentes da PF Em publicação nas redes sociais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) criticou a ação dos agentes da PF. Ele destacou o fato de a faixa com “ladrão” não fazer referência direta ao petista. 


Nicholas Ferreira - A faixa não tava nem o nome do Lula… a carapuça serviu? SPACE LIBERDADE @NewsLiberdade Homem é interrogado pela PF por ter uma faixa escrito “ladrão” na janela de seu apartamento, em prédio próximo a evento que receberia o Lula Os agentes disseram que os superiores poderiam impor a retirada da faixa, mesmo sem ter o nome do Lula nela. 


O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), classificou o episódio como “absurdo”. Em publicação, afirmou que a faixa estava na propriedade do morador e indagou a atuação dos agentes. Nikolas Ferreira @nikolas_dm · Seguir A faixa não tava nem o nome do Lula… a carapuça serviu? SPACE LIBERDADE @NewsLiberdade Homem é interrogado pela PF por ter uma faixa escrito “ladrão” na janela de seu apartamento, em prédio próximo a evento que receberia o Lula Os agentes disseram que os superiores poderiam impor a retirada da faixa, mesmo sem ter o nome do Lula nela. 


Já o vereador paulistano Rubinho Nunes (União) afirmou que houve violação de liberdade de expressão. Ele, que é advogado, disse esperar apuração dos órgãos competentes e criticou a eventual retirada do material.


Rubinho Nunes - ABSURDO! Com uma faixa escrita “ladrão” na janela de um morador em Presidente Prudente. A PF foi até o local antes de um evento com Alckmin e avisou que, no dia, os “superiores” viriam com mais rigor. Detalhe: a faixa nem citava Lula. A carapuça serviu? Facção mandando no Mostrar mais


Com informações de Rachel Diaz - Revista Oeste

Contratada da J&F por R$11 milhões pagou comprador de cotas de Toffoli no resort

 Advogada que atua em sala compartilhada pagou milhões à PHB e a um banco suspeito de ligação com facção


Joesley e Wesley Batista, controladores da J&F (JBS, PicPay etc.) | Foto: Divulgação / Grupo J&F


Documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) expõe que uma advogada que faturava R$ 9 mil mensais em sala compartilhada em Goiânia recebeu R$ 11,5 milhões da J&F e da JBS, em dezembro de 2023. Segundo reportagem do Estadão desta segunda-feira (27), Maisa de Maio Lima Marciano repassou R$ 3,5 milhões deste montante recebido para Paulo Humberto Barbosa, dono da holding que comprou cotas do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, no Resort Tayayá. Além disso, advogada repassou R$ 6,9 milhões ao BK Bank, investigado por suspeita de ligação com uma facção paulista.

O escritório da advogada contratada pelas companhias dos irmãos Joesley e Wesley Batista recebeu R$ 8 milhões em 15 de dezembro de 2023 da JBS. No mesmo dia, o Coaf identificou o repasse ao BK Bank. E, três dias depois, a J&F, que controla a JBS, pagou outros R$ 3,5 milhões. E este valor foi repassado pela empresa da advogada, no mesmo dia 18, ao dono da PHB Holding.

Ministro Dias Toffoli (STF), e o Resort Tayayá – (Foto: Rosinei Coutinho/STF | Sam Pancher/Metropoles)

Paulo Humberto Barbosa já advogou para a JBS. E, em 21 de fevereiro de 2025, sua holding comprou as últimas cotas da empresa da qual Toffoli é sócio, no resort Tayayá, no Paraná. O ministro chegou a confirmar o negócio com entre a PHB e a Maridit Participações, de sua família, após investigação da Polícia Federal revelar pagamento de R$ 35 milhões via fundos usados pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Em dezembro de 2023, quando houve repasses milionários para Maisa Marciano, o ministro Dias Toffoli suspendeu a multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência da J&F com o Ministério Público Federal (MPF). O pedido da defesa da companhia alegou irregularidades no processo decorrentes da Operação Spoofing, que apontou conluio acusatório entre o MPF e a Justiça Federal, para condenações no escândalo do “petrolão” investigado na Operação Lava Jato.

Elos e suspeitas

Além das cotas adquiridas pela PHB, o Fundo Arllen, ligado a Vorcado, comprou em 27 de setembro de 2021 as primeiras cotas da Maridit no resort paranaense. E a revelação dos negócios levaram o ministro a deixar a relatoria do caso Master, no STF, em investigação sobre a maior fraude financeira da história do Brasil.

Paulo Humberto Barbosa reagiu com irritação à reportagem do Estadão: “Estou doido para processar vocês. Essa informação de vocês é falsa, fraudulenta. Vai você e o gerente do banco para a cadeia. Vou fazer questão de colocar o senhor na cadeia. Moleque! Vá para o quinto dos infernos”.

Em março, a revelação de outro repasse da J&F, de R$ 25,9 milhões, para a PHB, levou Toffoli a se pronunciar, reforçando que o negócio da Maridt foi feito sem participação da companhia dos irmãos Batista, “exclusivamente com a PHB Holding”. E o ministro ressaltou que todas movimentações financeiras estão declaradas às autoridades.

O BK Banking foi apontado na Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, como suspeito de favorecer crimes do PCC por atuar com as chamadas “contas bolsão”, que embaralha dinheiro de diversos clientes e dificulta o rastreamento das origens dos recursos. A movimentação suspeita da fintech atinge R$ 17,7 bilhões e envolveria exploração de jogos de azar, venda de combustíveis adulterados e fraudes metrológicas na venda de combustível.

Ao Estadão, o BK disse não integrar a relação comercial entre seus clientes e terceiros, negou receber e enviar recursos em seu nome para a empresa mencionada. “Todas as transações processadas por meio de sua plataforma são devidamente identificadas e registradas nas contas individualizadas dos clientes, com origem e destino dos recursos, garantindo elevados padrões de transparência e rastreabilidade”, disse a nota do BK Bank.

A JBS e a J&F informaram em nota que os pagamentos ao escritório de Maisa Marciano se referem a produtos ou serviços jurídicos prestados e comprovados.

“A empresa [JBS] não dispõe de informações sobre movimentações financeiras desse fornecedor para terceiros. A Companhia aguarda que a reportagem esclareça qual a conexão entre suas operações e as transferências de recursos relatadas”, disse a JBS, ao Estadão.

“A J&F mantém auditorias independentes que certificam e confirmam a governança e a retidão dos processos internos. Todo pagamento realizado pela J&F se refere a produtos ou serviços comprovadamente prestados, mediante emissão de nota fiscal e recolhimento de todos os tributos devidos”, manifestou-se a J&F, também em nota.

Diário do Poder solicitou à assessoria de imprensa do STF um posicionamento do ministro Dias Toffoli sobre a reportagem. E publicará eventuais esclarecimentos. O espaço segue aberto para todos os citados pela reportagem.

Diário do Poder

Sob Lula, endividamento das famílias atinge recorde em fevereiro, diz Banco Central

Dados divulgados nesta segunda-feira, 27, mostram que 49,9% dos lares enfrentam comprometimento financeiro




O mais recente levantamento do Banco Central sobre o endividamento das famílias mostra que o comprometimento financeiro atingiu novo patamar em fevereiro, alcançando 49,9%. Esse índice, divulgado nesta segunda-feira, 27, representa o maior já registrado pela instituição. O aumento foi de 0,1 ponto porcentual no mês e de 1,3 ponto porcentual ao longo do último ano.

Além desse avanço, o relatório traz outro dado relevante: a fatia da renda familiar comprometida com dívidas chegou a 29,7%. Esse porcentual teve elevação de 0,2 ponto porcentual em fevereiro e de 1,9 ponto porcentual em 12 meses, indicando aumento expressivo da pressão financeira sobre as famílias brasileiras.

Na divisão por perfil, empresas marcaram taxa de 2,7%, enquanto pessoas físicas ficaram em 5,3%.

O relatório evidencia também que, entre os créditos com recursos livres — onde bancos e clientes negociam diretamente as condições —, a inadimplência teve leve queda de 0,1 ponto porcentual, atingindo 5,7% em março.


Banco Central divulgou nesta segunda-feira, 27, dados sobre endividamento | Foto: Divulgação/BC


Crescimento do crédito e recuo nos juros do cartão 

No mês de março, o crédito ampliado para o setor não financeiro avançou para R$ 21,0 trilhões, valor que corresponde a 162,3% do PIB. O Banco Central atribui esse resultado principalmente à redução de 3,1% nos títulos públicos. Endividamento das famílias atinge recorde em fevereiro, diz BC Já a taxa de juros do cartão de crédito rotativo caiu 7,6 pontos porcentuais em março, chegando a 428,3% ao ano. O juro do cartão parcelado também diminuiu, com recuo de 4,4 pontos porcentuais, e alcançou 192,1% ao ano. A taxa global do cartão de crédito ficou em 93,2% ao ano, com redução de 2,6 pontos porcentuais segundo o Banco Central. 


Loriane Comeli - Revista Oeste

Flávio Gordon: E tentaram novamente...

A pergunta que a grande imprensa se recusa a formular é a única que importa: quem escreveu o roteiro que trouxe esse homem até ali?


O ex-presidente Donald Trumpo, no comício, logo depois do atentado - 13/7/2024 | Foto: Reprodução/Twitter/X


Na noite do sábado 25, Cole Tomas Allen, 31 anos, residente de Torrance, Califórnia, rompeu os cordões de segurança do jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca empunhando múltiplas armas — entre elas um fuzil —, disparou ao menos meia dúzia de tiros e feriu um agente do Serviço Secreto, salvo pelo colete à prova de balas. É o terceiro atentado contra Donald Trump em dois anos. Alguém ainda se atreve a chamar isso de coincidência? 

Quando Tyler Robinson assassinou Charlie Kirk, em setembro passado, escrevi nestas páginas sobre a estrutura espiritual do ódio revolucionário — essa pseudo-transcendência do ressentimento que substitui a busca do bem pela perseguição obsessiva do mal a destruir. Robinson explicou o crime com uma frase que merece ser gravada em bronze como documento de época: “Eu não aguentava mais o ódio dele”. O sujeito que acabara de cometer um homicídio atribuía o ódio à vítima — um notório apologista do diálogo, que construiu a carreira inteira sobre o confronto civilizado de ideias.


Trata-se da inversão revolucionária em estado puro: o algoz se proclama vítima no exato instante em que aperta o gatilho. O professor Olavo de Carvalho observava que essa inversão entre sujeito e objeto — entre vítima e algoz, entre perpetrador e mártir — é o traço permanente de todas as manifestações revolucionárias, de  Trump: 

tentaram novamente...  Stalin a Pol Pot, e o método de pensamento essencial da intelectualidade ativista: enxergar tudo às avessas e só admitir como verdade o contrário do que os fatos dizem. O assassino de Kirk não descobriu um inimigo: ele o fabricou. Como diagnosticou André Glucksmann, “o ódio precede e predetermina o objeto que fabrica para si mesmo”.


Cole Tomas Allen é o herdeiro direto dessa lógica — e o produto previsível de um ambiente cultivado durante anos nas universidades onde professores transformam militância em catequese, nos estúdios de Hollywood onde o vilão é invariavelmente um conservador, nas redações onde qualquer dissidência do consenso progressista é enquadrada como “fascismo”. Quando se passa uma década chamando um homem de Hitler e ameaça existencial à democracia — com a autoridade de quem ocupa as cátedras e os palácios da cultura —, não se pode fingir surpresa quando um espécime mais coerente que a média resolve tirar a metáfora do papel e levá-la ao Washington Hilton com um fuzil. 

A inversão está completa: o atirador se vê, com toda a certeza moral de um cruzado, não como agressor mas como defensor — não como perpetrador de violência, mas como seu antídoto. Eric Voegelin chamava isso de consciência pneumopatológica: a deformação espiritual de quem, ao rebelar-se contra a estrutura transcendente da realidade, inverte todos os seus termos e transforma o ódio no sacramento de uma religião às avessas.

Trump sobreviveu. E disse, com a economia de palavras de quem já passou por isso antes: “O show continua”. Mas a pergunta que a grande imprensa se recusa a formular — porque formulá-la exigiria nomear a própria responsabilidade — é a única que importa: quem escreveu o roteiro que trouxe esse homem até ali?


Flávio Gordon - Revista Oeste

‘Rabos presos’: Lula distribui meio bilhão em emendas parlamentares em 14 dias

Desde janeiro foram pagos R$2,5 bilhões a deputados federais e senadores


Lula (PT) - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


O desgoverno Lula (PT) distribuiu mais de R$500 milhões em emendas parlamentares nas últimas duas semanas. No total, já são mais de R$2,5 bilhões em emendas pagas pela administração petista, este ano. Há 14 dias, o total era de pouco mais de R$2 bilhões. As emendas individuais dos parlamentares custaram R$1,35 bilhão aos pagadores de impostos, enquanto R$1,17 bilhão custearam as emendas de bancadas. A informação é da Coluna Claudio Humberto, do Diário do Poder.

Os números estão na transparência do Tesouro Nacional. O Portal da Transparência do governo Lula contabiliza apenas R$269 milhões.

A previsão do governo é pagar R$13 bilhões (já empenhados), este ano, diz o Portal da Transparência. O Orçamento prevê de R$50 bilhões.

Em 2025, foram pagos R$28,9 bilhões em emendas parlamentares, segundo o Tesouro Nacional.

Com informações do Diário do Poder

domingo, 26 de abril de 2026

'Um aviltante coaxar', por Flávio Gordon

O lábio inferior empresta ao rosto do ministro uma fisionomia inequivocamente batráquia


O decano do STF, Gilmar Mendes, durante o evento Brazil Conference, nos EUA - 12/5/2025 - Foto: Valter Campanato/Agência Brasi


“A boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6,45) 

Houve, na entrevista de Gilmar Mendes a Renata Lo Prete, um momento que merece ser examinado com a atenção que se dedica aos documentos históricos — não, obviamente, por revelar alguma novidade, mas pela candura com que confirma o que já se sabia. Questionado pela jornalista sobre se o Inquérito das Fake News, depois de sete anos de tramitação, aberto de ofício em violação flagrante ao princípio acusatório, não teria se convertido em instrumento de poder pessoal, o decano do Supremo respondeu com a placidez de quem nunca foi seriamente contrariado: “Eu tenho a impressão de que o inquérito continua necessário e ele vai acabar quando terminar”. A frase não é uma resposta jurídica. É a tradução, para o português institucional do século XXI, de uma proposição muito mais antiga: L’état, c’est moi.


As horas seguintes do sujeito foram de mais entrevistas — uma ao Metrópoles, outra ao programa JR Entrevista, da TV Record. Sempre instado a explicar por que acionara o inquérito contra Romeu Zema — cujo delito consistiu em satirizar, por meio de bonecos animados, a promiscuidade entre dois colegas de toga —, Mendes argumentou que a sátira tem limites e que a honra de homens públicos merece proteção, e recorreu ao seguinte exemplo: “Imagine que comecemos  a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo?”

A pergunta, formulada com a entonação de quem acredita estar construindo uma tese, é na verdade a sua própria refutação — e algo consideravelmente pior. Num único período, o ministro que processa um político por sátira recorre, espontaneamente, à insinuação de homossexualidade como paradigma de ofensa intolerável, revelando, sem perceber, a arquitetura moral de sua própria concepção de desonra.

Gilmar Mendes também caçoou do sotaque mineiro de Zema — segundo ele algo difícil de entender, “um dialeto próximo do português”, “uma língua lá do Timor-Leste, um tétum ou coisa assim”. Ao observador atento era fácil notar o ódio por detrás da carranca lustrosa do burocrata de toga. E era-lhe fácil por conta de um tique que já se tornou marca registrada do grotesco personagem: o lábio inferior oscila, como que movido por uma insuflação do saco vocal, num frêmito convulsivo e repetido que, somado à expressão geral de condescendência satisfeita, empresta ao rosto do ministro uma fisionomia inequivocamente batráquia — a de um Bufo togadus que, ao engolir um inseto particularmente volumoso, experimenta ao mesmo tempo o prazer da deglutição e a consciência da própria magnificência. 

E aqui a psicanálise, em geral superestimada como instrumento de análise política, presta um serviço legítimo. Freud chamava de Fehlleistung — o ato falho, o lapso revelador — aquele momento em que o inconsciente irrompe através da fachada da intenção consciente e diz, em voz alta, o que o sujeito julgava ter guardado. Gilmar Mendes não pretendia passar a impressão de estar insultando Zema nem, muito menos, confessar o seu próprio código moral. 

O que pretendia era defender a dignidade das instituições (que, se fossem mesmo dignas, não aceitariam esse Groucho Marx como sócio). Mas o exemplo escolhido — entre todos os exemplos possíveis, numa língua que dispõe de léxico vastíssimo para nomear ofensas — foi precisamente aquele que equipara a homossexualidade à injúria. O inconsciente não conhece a negação: ele simplesmente fala.

Ou, no caso, infla o saco vocal. Bufo togadus parece acreditar genuinamente no que diz. Outrora achei tratar-se apenas de um cínico, mas comportamento é algo mais perturbador que o cinismo: é a consciência absolutamente tranquila de quem tanto confunde o interesse das instituições com o seu próprio, que a distinção lhe parece hoje não apenas desnecessária, como incompreensível. O tribunal “tem sido vilipendiado” — e, portanto, os vilipendiadores devem ser processados. O inquérito “continua necessário” — necessário para blindá-lo, razão pela qual continuará. Zema “sapateia” com uma língua “próxima do português” — e, portanto, deve ser investigado.

Em cada caso, a conclusão precede a premissa; a vontade do ministro é o silogismo inteiro. O lábio treme, o papo avança, e a frase sai com aquela untuosidade particular de quem toma os próprios vícios por razão de Estado. A cada saltito de autoblindagem, a cada aviltante coaxar de ódio pelo público, o país vai sendo mais destruído e afundada no lodo em que, afinal, toda criatura anfíbia se sente bem.


Flávio Gordon - Revista Oeste