Em vez de promover uma discussão séria, boa parte das elites
políticas e midiáticas optou por tratar a crítica ao modelo vigente
como sinal de intolerância ou preconceito
Ataque a facadas em Belfast e a violenta resposta popular provocam tensão e crise social no Reino Unido, relata a imprensa local - Foto:
Shutterstock
H
á quase duas semanas, a Irlanda do Norte registra cenas de
fortes protestos que rapidamente ganharam repercussão
internacional. As manifestações começaram depois de um
bárbaro ataque a faca ocorrido na cidade de Belfast, que
deixou um homem gravemente ferido. A vítima, Stephen Ogilvie,
sofreu ferimentos graves no rosto, no pescoço e nas costas, além de
perder o olho esquerdo durante o ataque. Testemunhas conseguiram
conter o agressor até a chegada da polícia, evitando consequências
ainda mais graves.
O agressor é Hadi Alodid, cidadão sudanês de 30 anos e requerente de
asilo com autorização para permanecer no Reino Unido. Ele foi preso
no local, acusado de tentativa de homicídio, posse de arma branca e de
ameaçar de morte um funcionário do sistema público de saúde
britânico, ficando sob custódia das autoridades. Alodid obteve
permissão de permanecer na Grã-Bretanha por meio de um
controverso sistema de tramitação acelerada, após preencher um
questionário de dez páginas do ministério do interior, em vez de
passar pelo processo padrão — e muito mais rigoroso — de entrevista
presencial.
Vídeos da agressão se espalharam pelas redes sociais e serviram de
catalisador para a explosão de indignação que já vinha se acumulando
há muito tempo. Carros foram incendiados. Confrontos tomaram as
ruas.
Protestos se multiplicaram
Há dias, manifestações contra a
19/06/2026, 19:35 Imigração em massa: o alerta na Europa - Revista Oeste
https://revistaoeste.com/revista/edicao-327/imigracao-em-massa-o-alerta-na-europa/ 3/17
imigração em massa reuniram dezenas de milhares de pessoas em
diferentes cidades da Europa.
Polônia, Itália, Espanha, Irlanda, Suécia,
Escócia e Inglaterra registraram atos que, embora distintos entre si,
compartilham uma mesma mensagem: uma parcela crescente da
população europeia acredita que seus governos perderam o controle
da política migratória e se recusam a ouvir preocupações legítimas de
seus próprios cidadãos.
O episódio de Belfast não criou essa insatisfação. Apenas a revelou.
Durante anos, o debate sobre imigração na Europa foi conduzido de
maneira superficial. De um lado, estavam aqueles que defendiam
fronteiras praticamente abertas em nome de princípios humanitários.
De outro, aqueles que alertavam para os impactos sociais, culturais e
econômicos de uma imigração em massa sem critérios claros de
integração.
Em vez de promover uma discussão séria, boa parte das
elites políticas e midiáticas optou por tratar qualquer crítica ao
modelo vigente como sinal de intolerância ou preconceito.
O resultado foi previsível.
Questões reais deixaram de ser discutidas
até se transformarem em crises políticas.
Milhões de europeus observam mudanças profundas em seus bairros,
em suas escolas, em seus sistemas de saúde e em suas cidades. Muitos
sentem que as autoridades não apenas ignoram suas preocupações,
mas frequentemente procuram desqualificá-las.
A consequência
natural desse processo foi o crescimento de movimentos políticos que
prometem fazer exatamente aquilo que os governos tradicionais se
recusaram a fazer: controlar as fronteiras e reduzir os fluxos
migratórios.
Existe uma tendência de simplificar esse debate e apresentá-lo apenas
como uma discussão sobre números.
Não é disso que se trata. A
questão central é confiança. Uma democracia depende da convicção
de que os governantes estão ouvindo os governados. Quando milhões
de pessoas passam a acreditar que suas preocupações são
sistematicamente ignoradas, a confiança nas instituições começa a se
deteriorar.
A crise migratória europeia tornou-se, acima de tudo, uma crise de
representação política. Há também uma dimensão econômica que não
pode ser ignorada.
Em diversos países europeus, cidadãos trabalham sob uma das
maiores cargas tributárias do mundo. Pagam impostos elevados para
financiar sistemas de saúde, educação, transporte e assistência social.
Ao mesmo tempo, governos destinam bilhões de euros a programas
voltados para requerentes de asilo e recém-chegados.
A questão não é a existência de ajuda humanitária. Sociedades
civilizadas sempre demonstraram solidariedade diante de tragédias e
perseguições reais. O problema surge quando uma parcela
significativa da população passa a perceber que o Estado parece mais
eficiente para atender quem acaba de chegar do que aqueles que
sustentam o sistema há décadas.
Famílias enfrentam dificuldades para adquirir moradia. Jovens adiam
projetos de vida devido ao custo crescente dos imóveis. Hospitais
operam sob pressão. Serviços públicos enfrentam filas cada vez
maiores. Nesse contexto, muitos cidadãos se perguntam por que
governos parecem encontrar recursos ilimitados para novas políticas
migratórias enquanto afirmam não possuir recursos suficientes para
resolver problemas antigos que afetam seus próprios contribuintes.
Ignorar essa pergunta não a faz desaparecer. Pelo contrário. Ela
retorna às urnas. E foi exatamente isso que ocorreu nos Estados
Unidos em 2024. A vitória avassaladora de Donald Trump na última
eleição presidencial americana não pode ser compreendida apenas
como um fenômeno partidário. Ela refletiu uma percepção
compartilhada por milhões de americanos de que o governo federal
havia perdido o controle da fronteira e deixado de priorizar as
necessidades dos próprios cidadãos.
A questão migratória ocupou papel central naquela eleição porque
tocava em temas muito maiores do que imigração. Falava de
soberania, segurança, responsabilidade fiscal e confiança
institucional. Muitos americanos sentiam que trabalhavam, pagavam
impostos e respeitavam as leis enquanto o governo direcionava
recursos cada vez maiores para pessoas que haviam entrado
ilegalmente no país.
Independentemente da posição ideológica de cada eleitor, essa
percepção era politicamente poderosa. A Europa começa a viver um
processo semelhante. Mas existe uma dimensão ainda mais profunda,
frequentemente evitada pelas elites políticas do continente.
A
dimensão civilizacional.
Durante séculos, a Europa foi mais do que uma expressão geográfica.
Foi uma civilização moldada por uma herança cultural, filosófica e
religiosa profundamente influenciada pelo cristianismo. Suas
universidades nasceram em ambientes cristãos. Suas catedrais
moldaram suas cidades.
Sua arte, sua literatura, suas instituições e até
sua compreensão da dignidade humana carregam marcas dessa
tradição.
A imigração em massa transformou essa discussão em algo muito
mais complexo do que uma questão de mercado de trabalho ou
assistência social.
Milhões de europeus observam a chegada de populações provenientes
de contextos culturais e religiosos profundamente diferentes daqueles que moldaram historicamente suas sociedades. Em muitas cidades,
bairros inteiros passaram por transformações rápidas e significativas.
O debate sobre integração deixou de ser teórico e tornou-se uma
experiência cotidiana.
Ao mesmo tempo, uma parte significativa das elites europeias parece
ter desenvolvido uma relação ambígua com a própria herança cultural
do continente.
Enquanto igrejas esvaziam-se, tradições históricas são
frequentemente tratadas como símbolos de um passado problemático
e referências cristãs desaparecem gradualmente do espaço público,
muitos cidadãos observam que a Europa parece menos disposta a
defender sua própria identidade do que qualquer outra civilização do
planeta.
Essa percepção alimenta uma inquietação crescente. Não apenas
sobre quem está chegando, mas sobre aquilo que os próprios
europeus ainda desejam preservar. A preocupação manifestada por
muitos cidadãos não se limita à segurança ou à economia.
Ela envolve
a continuidade histórica de suas nações, a preservação de costumes,
tradições e valores que consideram fundamentais para sua identidade
coletiva.
Os defensores das políticas migratórias atuais frequentemente
respondem que a imigração sempre fez parte da história das
sociedades ocidentais. A observação é verdadeira. Os próprios Estados
Unidos são resultado de sucessivas ondas migratórias.
Ainda assim, muitos europeus argumentam que a discussão não pode
ser reduzida simplesmente ao fato de haver imigração. Para eles, a
questão envolve também a distância cultural entre as populações que
chegam e as sociedades que as recebem.
A Califórnia oferece um contraste interessante. Embora receba um
grande número de imigrantes, a maioria vem de países latinoamericanos cuja herança histórica foi profundamente influenciada
pelo cristianismo. Existem diferenças linguísticas, econômicas e
nacionais importantes, mas também há referências culturais
compartilhadas que facilitam processos de integração.
Na Europa, parte do debate gira em torno de um fenômeno diferente.
Milhões de recém-chegados são muçulmanos que vieram de regiões
marcadas por tradições religiosas, estruturas sociais e visões de
mundo significativamente distintas daquelas que moldaram
historicamente as sociedades europeias.
Para muitos cidadãos, a
preocupação não está apenas na quantidade de imigrantes, mas na
velocidade e na profundidade das transformações culturais
produzidas por fluxos migratórios de grande escala.
É nesse contexto que questões relacionadas à identidade nacional, ao
cristianismo, à integração e à preservação de valores históricos
passaram a ocupar um espaço cada vez maior no debate político
europeu.
Esse é um dos motivos pelos quais o debate migratório se tornou tão
intenso. Ele deixou de ser apenas uma discussão sobre fronteiras e
transformou-se numa discussão sobre pertencimento.
Os defensores das políticas migratórias atuais frequentemente
respondem lembrando que a Europa sempre recebeu influências
externas, e que a diversidade faz parte da história do continente. E há
verdade nessa observação. A história europeia é marcada por trocas
culturais constantes.
Mas existe uma diferença importante entre imigração gradual e
imigração em massa. Existe diferença entre integração e
transformação acelerada, entre acolher indivíduos e alterar
profundamente o perfil demográfico de sociedades inteiras em um
período relativamente curto.
Essas distinções são precisamente o que
milhões de europeus tentam colocar no centro da discussão.
Durante muito tempo, entretanto, a reação das elites foi negar a
legitimidade dessas preocupações. Hoje, a realidade política
demonstra o fracasso dessa estratégia.
Partidos favoráveis a controles migratórios mais rígidos avançam em
praticamente todo o continente. Governos que antes defendiam
políticas mais abertas passaram a endurecer suas posições.
A própria
União Europeia discute mecanismos para acelerar deportações e
reforçar controles fronteiriços. Nada disso aconteceu por acaso, mas
porque a distância entre governantes e governados tornou-se grande
demais para ser ignorada.
O episódio de Belfast, assim como tantos outros acontecimentos
recentes, não deve servir para alimentar ódio contra imigrantes ou
hostilidade contra pessoas que buscam uma vida melhor.
Generalizações são injustas e intelectualmente preguiçosas.
Mas
tampouco deve servir para silenciar uma discussão legítima.
Toda sociedade tem o direito de decidir quem entra em seu território,
em quais condições entra e quais valores devem ser compartilhados
para garantir a coesão social. Essa não é uma posição extremista. É
um princípio básico de soberania.
O grande erro de muitos líderes
europeus foi acreditar que poderiam transformar profundamente
suas sociedades sem consultar adequadamente aqueles que viveriam
as consequências dessas decisões.
Agora a reação chegou e ela aparece nas ruas, nas urnas e nas
pesquisas. E continuará aparecendo enquanto milhões de cidadãos
sentirem que suas preocupações são tratadas com desprezo.
A grande questão da Europa não é se a imigração deve existir. Todas as
sociedades modernas recebem imigrantes.
A questão é quem define
os limites desse processo, quais critérios orientam sua condução e
quais elementos de uma civilização merecem ser preservados. A
história mostra que sociedades saudáveis conseguem equilibrar
abertura e continuidade, acolher sem perder a própria identidade, e
adaptar-se sem esquecer quem são.
A Europa ainda procura esse
equilíbrio.
E talvez a principal lição dos acontecimentos recentes seja justamente
esta: quando governos deixam de ouvir seus próprios cidadãos
durante tempo demais, os cidadãos acabam encontrando outras
formas de serem ouvidos.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste