Liberdade exige domínio sobre os próprios impulsos e o reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos
Foto: Montagem Revista Oeste/IA
EDIÇÃO 33
D
urante décadas, discussões sobre a guerra cultural americana
foram frequentemente tratadas como disputas abstratas,
confinadas a universidades, livros, movimentos políticos ou
debates filosóficos sobre o significado de liberdade, identidade
e natureza humana. Nesta semana, porém, dois ex-jogadores da NBA
encontraram uma maneira bastante concreta de obrigar uma das
maiores ligas esportivas femininas do mundo a enfrentar algumas dessas
perguntas.
Enes Kanter Freedom e, em seguida, Royce White anunciaram
formalmente sua intenção de participar do draft da WNBA, a liga
profissional americana de basquete feminino, de 2027. Ambos decidiram
utilizar as próprias regras e o discurso de inclusão da liga para colocar
diante dela uma questão que deveria ser elementar para qualquer
competição esportiva feminina: se o sexo biológico deixa de estabelecer a
fronteira da categoria, qual é exatamente o critério que define quem pode
competir entre mulheres?
Enes Kanter Freedom e, em seguida, Royce White anunciaram formalmente sua intenção de participar do draft da WNBA de 2027-| Foto:
Reprodução/Redes Sociais
A iniciativa foi recebida por alguns como uma provocação, mas reduzi-la
a um embate político ou ideológico apenas significa perder aquilo que a
tornou relevante. Kanter e White construíram uma espécie de
experimento lógico, perspicaz é absolutamente necessário.
Em vez de escreverem manifestos contra a participação de “atletas trans”
— homens — em competições femininas, decidiram levar determinadas
premissas culturais às últimas consequências. A resposta da WNBA
tornou a contradição ainda mais evidente. A liga condenou o que
classificou como iniciativas de “má-fé”, afirmou que atualmente não
existe uma questão concreta de elegibilidade envolvendo atletas
transgêneros e reiterou seu “compromisso com a competição justa e a
inclusão”.
Ao mesmo tempo, o acordo coletivo determina que a WNBA
seja disputada por mulheres sem apresentar uma definição detalhada de
identidade de gênero aplicável à categoria.
A questão ultrapassa em muito duas antigas estrelas do basquete. A
WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão que, durante
praticamente toda a existência do esporte moderno, pareceu dispensar
explicações: homens e mulheres são biologicamente diferentes, e essas
diferenças possuem consequências relevantes para a competição atlética. Se isso não fosse verdade, a própria existência de uma categoria
feminina seria desnecessária.
O esporte para as mulheres nasceu
precisamente do reconhecimento de que igualdade de dignidade não
significa identidade física e de que proteger uma categoria feminina
exige reconhecer diferenças que nenhuma decisão administrativa ou
ideologia pode eliminar A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão, homens e mulheres são biologicamente diferentes .
A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão, homens e mulheres são biologicamente diferentes - Foto: Reuters
As principais vítimas dessa confusão não são os homens que “se sentem
como mulheres” e que desejam competir conosco, nem mesmo os que
fazem do tema um experimento político. São as atletas, reais mulheres,
que dedicaram anos de treino a uma categoria que existe precisamente
para protegê-las da desigualdade física inerente ao sexo. Quando essa
proteção é relativizada em nome da inclusão, o que se perde não é
apenas uma regra: é a própria razão de ser do esporte feminino.
O episódio poderia terminar aí como mais uma controvérsia americana
de 2026, não fosse uma coincidência particularmente interessante do
calendário. Neste sábado, 15 de agosto, completam-se 57 anos do início
de Woodstock, o festival realizado em uma fazenda em Bethel, no Estado
de Nova York, que reuniu centenas de milhares de jovens e se tornou um
dos símbolos mais poderosos da contracultura dos anos 1960. Mais de
400 mil pessoas passaram pelo local para assistir a artistas como The
Who, Janis Joplin, Santana, Jefferson Airplane, Creedence Clearwater
Revival e Jimi Hendrix. Woodstock foi anunciado como uma experiência
de três dias de paz e música e acabaria eternizado como a grande
fotografia de uma geração que pretendia transformar muito mais do que
o gosto musical dos Estados Unidos.
Seria historicamente absurdo afirmar que Woodstock produziu as
disputas sobre identidade de gênero do nosso tempo. Seria igualmente
absurdo observar as transformações culturais ocorridas nos últimos 57
anos sem reconhecer a importância da revolução da qual aquele festival
se tornou a vitrine mais conhecida. Woodstock não inventou a
contracultura, a revolução sexual, o movimento hippie ou a rebelião
contra as instituições tradicionais. Tudo isso já estava acontecendo. O
festival ofereceu, porém, palco, música, juventude e uma narrativa
extraordinariamente poderosa a uma mudança cultural que questionava
a autoridade, a moral sexual, a religião, a família e muitas das
convenções herdadas pelas novas gerações. A oposição à Guerra do
Vietnã, as lutas pelos direitos civis, os assassinatos políticos da época e a
profunda desconfiança em relação às instituições faziam parte daquele
ambiente, e seria intelectualmente desonesto ignorar que muitos
daqueles jovens possuíam razões legítimas para questionar
determinados aspectos da sociedade em que viviam.
O problema começou quando a correção de abusos passou
progressivamente a se confundir com uma revolta contra a própria
existência de limites. Uma autoridade podia ser injusta, mas disso não
decorria que toda autoridade fosse opressiva. Algumas tradições podiam
precisar de correção, mas disso não decorria que toda tradição fosse um
instrumento de dominação. A moral podia ser utilizada hipocritamente,
mas disso não decorria que toda restrição moral fosse inimiga da liberdade. A família podia apresentar falhas, como qualquer instituição
humana, mas disso não decorria que a família tradicional precisasse ser
desconstruída.
A revolução cultural avançou justamente nessa fronteira,
transformando a libertação de determinadas injustiças numa suspeita
cada vez maior em relação às próprias estruturas que estabeleciam
deveres, responsabilidades e limites.
A liberdade sexual foi uma das expressões mais evidentes dessa
transformação. Drogas foram romantizadas como instrumentos de
expansão da consciência. A rejeição de convenções tornou-se
demonstração de autenticidade. A transgressão ganhou prestígio cultural
precisamente por ser transgressão.
Woodstock não foi responsável por
cada uma dessas ideias, mas tornou-se inseparável delas e ofereceu ao
mundo uma imagem sedutora de uma sociedade que poderia abandonar
antigas restrições e descobrir uma forma mais autêntica de existência.
Era uma promessa poderosa, especialmente para uma geração jovem
que havia aprendido a desconfiar daqueles que lhe diziam como viver.
Neste sábado, 15, completam-se 57 anos do Woodstock, o festival realizado em uma fazenda em Bethel, no Estado de Nova York = Foto: Reprodução/Redes Sociais
Cinco décadas e meia oferecem uma vantagem que os participantes de
qualquer revolução jamais possuem: a possibilidade de observar os
frutos.
A contracultura não permaneceu numa fazenda em Bethel. Aqueles
jovens cresceram, e muitas das ideias que representavam rebelião contra
o establishment passaram gradualmente a ocupar o próprio establishment.
Elas entraram nas universidades, no entretenimento, na publicidade, na
imprensa, nas empresas e nas instituições responsáveis pela formação
das gerações seguintes. Conceitos que haviam começado como desafios à
cultura dominante passaram, em muitos ambientes, a definir a própria
cultura dominante.
A grande ironia dos anos 1960 é que uma geração
que se orgulhava de desafiar as instituições conquistou enorme
influência sobre as instituições que entregaria aos seus filhos e netos.
Nesse processo, uma mudança particularmente importante ocorreu na
compreensão da liberdade. Para grande parte da tradição ocidental,
liberdade nunca significou simplesmente ausência de limites. A
liberdade exigia também domínio sobre os próprios impulsos,
responsabilidade pelas próprias escolhas e reconhecimento de uma
realidade que existe independentemente de nossos desejos.
O indivíduo
livre não era aquele que podia transformar qualquer vontade em direito,
mas aquele capaz de governar a si mesmo. Quando essa compreensão
começa a desaparecer, o limite deixa de ser visto como condição para o
exercício responsável da liberdade e passa a ser tratado como inimigo a
ser derrotado.
A contradição fica ainda mais aguda quando se observa que a mesma
cultura que celebrou a libertação do indivíduo agora exige que
instituições, ligas esportivas, escolas e empresas reconheçam e validem
“identidades fluidas” como se fossem fatos objetivos.
A revolução que
começou desafiando autoridades externas terminou criando novas
autoridades, apenas com premissas diferentes.
É justamente nesse ponto que uma fazenda de 1969 e uma quadra de
basquete de 2026 começam a pertencer à mesma conversa cultural.
Quando a liberdade encontrou a biologia.
Entre Woodstock e a WNBA existem 57 anos de transformações,
movimentos, ideias e disputas que jamais poderiam ser reduzidos a uma
única linha causal. Existe, porém, uma continuidade intelectual que
merece ser examinada. Se a liberdade é progressivamente compreendida
como a capacidade de libertar o indivíduo de qualquer definição
recebida, chega um momento em que a revolução encontra uma fronteira
particularmente resistente: a própria realidade.
O corpo humano passa
então a ser tratado não como parte constitutiva de quem somos, mas
como mais uma limitação diante da qual a vontade individual reivindica
soberania — a última fronteira da revolução.
O esporte tornou essa contradição impossível de esconder justamente
por lidar com uma realidade mensurável. Cronômetros, força,
velocidade, altura, massa muscular e desempenho não respondem a
slogans.
A categoria feminina existe para reconhecer diferenças físicas
entre os sexos e permitir que mulheres tenham condições justas de
competir. Defender essa categoria não diminui a dignidade de qualquer
pessoa, assim como reconhecer diferenças biológicas não estabelece
uma hierarquia de valor humano. Significa apenas aceitar que igualdade
e diferença podem coexistir — uma conclusão perfeitamente normal até
que a guerra contra os limites tornou o normal objeto de controvérsia.
Biologia não é de esquerda ou direita.
Foi isso que Kanter e White perceberam. Ao anunciarem sua intenção de
participar do recrutamento da liga feminina de basquete, eles retiraram
a discussão do conforto das formulações abstratas e a entregaram a uma
instituição que precisa estabelecer regras. Regras que deveriam proteger
a realidade e não uma agenda ideológica ridícula que fere mulheres. Uma
liga pode publicar manifestos sobre inclusão, organizar grupos de
trabalho e condenar aqueles que considera agentes de má-fé, mas, em
algum momento, precisa responder à pergunta objetiva sobre quem está
autorizado a entrar em quadra.
A WNBA anunciou que “continuará
discutindo o tema com suas equipes”, enquanto as notícias provocadas
pelos dois ex-atletas ganharam dimensão nacional.
Nada disso exige transformar Woodstock numa caricatura. A música foi
extraordinária. A criatividade daquela geração é inegável. Muitos
daqueles jovens desejavam sinceramente paz num país traumatizado.pela guerra, pelo conflito racial e pela violência política.
Uma crítica
conservadora séria não precisa fingir que tudo o que existia antes dos
anos 1960 era bom para reconhecer que nem tudo o que foi destruído
depois deles precisava desaparecer. Civilizações maduras são capazes de
corrigir tradições injustas sem concluir que tradição é sinônimo de
opressão, combater autoridades abusivas sem destruir a autoridade
legítima e ampliar espaços de liberdade sem declarar guerra à
responsabilidade, à natureza humana e à verdade.
Esse talvez seja o ponto em que a coincidência entre Woodstock e a
controvérsia da WNBA deixa de ser apenas uma curiosidade do
calendário. Toda revolução contra os limites acaba, cedo ou tarde,
encontrando um limite que não consegue abolir. Durante décadas, a
cultura ocidental experimentou empurrar essas fronteiras cada vez mais
longe. Agora, em alguns dos debates mais intensos do nosso tempo,
chegou ao corpo humano.
Os jovens que foram a Woodstock em 1969 queriam derrubar limites
para descobrir quem realmente eram. Cinquenta e sete anos depois, duas
antigas estrelas da NBA obrigaram uma instituição esportiva feminina a
enfrentar uma pergunta que deveria ser infinitamente mais simples: o
que é necessário para preservar uma categoria criada para mulheres?
Woodstock prometeu liberdade sem fronteiras. Cinco décadas depois, a
fronteira que se recusa a desaparecer é o corpo. E nenhuma liga
esportiva, por mais inclusiva que pretenda ser, consegue abolir a biologia
apenas por decreto.
Woodstock não acabou. Só mudou de endereço. Agora que seus herdeiros
encontram dificuldades até para explicar onde terminam a vontade
individual e a realidade, talvez tenha chegado o momento de reconhecer
algo essencial: nem todos os limites que aquela revolução derrubou
eram, de fato, inimigos da liberdade.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste