segunda-feira, 4 de maio de 2026

'Congresso, inimigo do povo' — o brado eterno da Nomenklatura lulopetista;, por Flávio Gordon

A esquerda se recusa a aceitar que a soberania do Parlamento se sobreponha à sede de punição do regime




Nesta sexta-feira, 30 de abril de 2026, o Congresso Nacional fez o que o Congresso Nacional existe para fazer: legislar. Com 318 votos na Câmara e 49 no Senado — margens folgadas, inequívocas, soberanas —, os parlamentares derrubaram o veto presidencial ao PL da Dosimetria, restabelecendo regras de cálculo de penas que o próprio Código Penal já previa e que o STF, no julgamento dos condenados pelo 8 de janeiro, havia deliberadamente ignorado.

Horas depois, como era de se prever, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, anunciou que o partido recorreria ao Supremo ainda nesta sexta-feira. “Não tenho dúvida de que até amanhã a gente anuncia a judicialização”, disse, com a desenvoltura de quem, apesar do mantra partidário contra a “criminalização da política”, agora não vê nenhuma contradição em usar o Judiciário para anular a decisão do Legislativo — e não vê porque, para o lulopetismo, não há contradição alguma: há apenas a revolução, e os instrumentos que, a cada momento, melhor a servem. 

Trotski cunhou a expressão “o longo braço da revolução” para descrever a capacidade do projeto revolucionário de perseguir seus inimigos além das fronteiras, além do tempo, além de qualquer limite legal ou moral.

O PT não precisa de braços tão longos: seus inimigos estão aqui, a algumas horas de Brasília, uma gente humilde e trabalhadora, cumprindo penas que simplesmente não observaram a regra do concurso formal de crimes, consagrada no Código Penal há décadas. O Congresso corrigiu a distorção. 

O regime, que vetou a lei em cerimônia comemorativa dos três anos do 8 de janeiro — com todo o simbolismo vingativo que o gesto carregava —, agora corre aos companheiros de toga (cujo destino deveria ter sido o mesmo de Bessias) para desfazer o que o Parlamento fez. 


No Brasil de 2026, quando o Legislativo legisla contra os interesses do regime, o Executivo chama o Batman coletivo - Foto: Alessandro Dantas/PT 

O nome técnico disso é judicialização. O nome político é outro: é a recusa de aceitar que a soberania do Parlamento se sobreponha à sede de punição de um regime que transformou o Judiciário em arma revolucionária contra os adversários. Num Estado Democrático de Direito digno do nome, o Legislativo legisla e o Executivo executa. No Brasil de 2026, quando o Legislativo legisla “errado” — isto é, quando legisla contra os interesses do regime —, o Executivo chama o Batman coletivo.

Em paralelo, já mobiliza os seu imbecil coletivo — seus intelectuais orgânicos e seus artistas subvencionados — para dar início a mais uma campanha contra o “Congresso, inimigo do povo”. O povo, bem entendido, sendo a Nomenklatura lulopetista. 

Flávio Gordon - Revista Oeste

domingo, 3 de maio de 2026

' Repensando Churchill: Arrastando a América para a guerra — novamente', por Ralph Raico

 

Nota da edição:

O artigo a seguir é a quarta parte do ensaio Repensando Churchill do historiador libertário Ralph Raico. No texto, existe uma crítica contundente que desmistifica Winston Churchill, retratando-o não como um herói, mas como um político oportunista viciado em guerras.

Clique aqui para ler a parte 1 – Repensando Churchill: Churchill como um ícone e Oportunismo e Retórica

Clique aqui para ler a parte 2 – Repensando Churchill: Churchill e o “novo liberalismo”

Clique aqui para ler a parte 3 – Repensando Churchill: Primeira Guerra Mundial e Período Entreguerras


Em setembro de 1939, a Grã-Bretanha entrou em guerra com a Alemanha, em decorrência da garantia de proteção que Chamberlain foi levado, pelo pânico, a conceder à Polônia em março. Lloyd George classificou essa garantia como “irrefletida”, enquanto Churchill a apoiou. Ainda assim, em sua história da guerra, Churchill escreveu: “Aqui estava, finalmente, uma decisão, tomada no pior momento possível e sobre a base menos satisfatória, que certamente levaria ao massacre de dezenas de milhões de pessoas”1. Com a guerra em curso, Winston foi reconduzido ao seu antigo cargo de Primeiro Lorde do Almirantado. Então, no primeiro mês da guerra, algo surpreendente aconteceu: o presidente dos Estados Unidos iniciou uma correspondência pessoal não com o Primeiro-Ministro, mas com o chefe do Almirantado britânico, contornando todos os canais diplomáticos usuais2.

As mensagens trocadas entre o presidente e o Primeiro Lorde foram cercadas por um sigilo intenso, culminando no caso de Tyler Kent, o funcionário de cifras americano na embaixada dos Estados Unidos em Londres, que foi julgado e preso pelas autoridades britânicas. O problema era que algumas das mensagens continham referências ao acordo de Roosevelt — ainda antes do início do conflito — para uma cooperação claramente não neutra com uma Grã-Bretanha participante na guerra3.

Em 10 de junho de 1939, George VI e sua esposa, a Rainha Mary, visitaram os Roosevelt em Hyde Park. Em conversas privadas com o rei, Roosevelt prometeu apoio total à Grã-Bretanha em caso de guerra. Ele pretendia estabelecer uma zona no Atlântico a ser patrulhada pela Marinha dos Estados Unidos e, de acordo com as anotações do rei, o presidente afirmou que “se avistasse um submarino, afundaria imediatamente e depois lidaria com as consequências”. O biógrafo de George VI, Wheeler-Bennett, considerou que essas conversas “continham o germe do futuro acordo de bases por destróieres, bem como do próprio Acordo de Empréstimo e Arrendamento”4. Ao se comunicar com o Primeiro Lorde do Almirantado, Roosevelt sabia que estava em contato com o único membro do gabinete de Chamberlain cuja disposição beligerante se equiparava à sua.

Em 1940, Churchill finalmente se tornou Primeiro-Ministro, ironicamente no momento em que o governo Chamberlain renunciou por causa do fiasco da Noruega — que Churchill, mais do que qualquer outro, ajudou a provocar5. Assim como havia se oposto a uma paz negociada após a queda da Polônia, continuou a resistir a qualquer sugestão de negociações com Hitler. Muitos dos documentos relevantes ainda permanecem sob sigilo — depois de todos esses anos6. —, mas é claro que existia um forte partido da paz no país e no governo. Ele incluía Lloyd George na Câmara dos Comuns e Halifax, o Ministro das Relações Exteriores, no gabinete. Mesmo após a queda da França, Churchill rejeitou as renovadas propostas de paz de Hitler. É isso, mais do que qualquer outra coisa, que supostamente fundamenta sua grandeza. O historiador britânico John Charmley provocou uma onda de protestos indignados ao sugerir que uma paz negociada em 1940 poderia ter sido vantajosa para a Grã-Bretanha e para a Europa7. Um historiador de Yale, escrevendo no New York Times Book Review, referiu-se à tese de Charmley como “moralmente repugnante”8. No entanto, o trabalho acadêmico detalhado de Charmley sustenta o ponto crucial de que a recusa inflexível de Churchill até mesmo em ouvir termos de paz em 1940 condenou aquilo que ele afirmava ser mais caro para si — o Império e uma Grã-Bretanha não socialista e independente nos assuntos de política externa. Pode-se acrescentar que isso provavelmente também condenou o povo judeu na Europa9. É impressionante que, meio século depois dos fatos, ainda existam teses críticas sobre a Segunda Guerra Mundial que permanecem fora dos limites do debate histórico.

Lloyd George, Halifax e outros estavam abertos a uma paz de compromisso porque compreendiam que a Grã-Bretanha e os territórios sob domínio britânico, sozinhos, não poderiam derrotar a Alemanha10. Após a queda da França, o objetivo de Churchill de alcançar a vitória total só poderia se concretizar sob uma condição: que os Estados Unidos fossem arrastados para outra guerra mundial. Não é de admirar que Churchill tenha colocado toda a sua energia em garantir exatamente isso.

Após uma conversa com Churchill, Joseph Kennedy, embaixador americano na Grã-Bretanha, anotou: “Os britânicos gastarão todo o tempo disponível tentando descobrir como nos fazer entrar na guerra”. Ao partir de Lisboa em um navio com destino a Nova York, Kennedy implorou ao Departamento de Estado que anunciasse que, caso o navio viesse a explodir misteriosamente no meio do Atlântico, os Estados Unidos não considerariam isso motivo para entrar em guerra com a Alemanha. Em suas memórias inéditas, Kennedy escreveu: “Achei que isso me daria alguma proteção contra Churchill colocar uma bomba no navio”11.

Os temores de Kennedy talvez não fossem exagerados. Pois, embora envolver a América já tivesse sido importante para a política britânica na Primeira Guerra Mundial, isso era condição indispensável para a política de Churchill na Segunda Guerra Mundial. Em Franklin Roosevelt, ele encontrou um cúmplice disposto.

Não é motivo de discussão que Roosevelt, por meio de suas ações e declarações privadas, demonstrava claramente a intenção de entrar na guerra antes de 7 de dezembro de 1941. Os debates se concentraram em questões como seu possível conhecimento prévio do ataque a Pearl Harbor. Em 1948, Thomas A. Bailey, historiador diplomático de Stanford, já apresentava o verdadeiro argumento favorável a Roosevelt:

“Franklin Roosevelt enganou repetidamente o povo americano no período anterior a Pearl Harbor (…). Ele era como um médico que precisa contar mentiras ao paciente para o próprio bem do paciente (…). O país era esmagadoramente não intervencionista até o próprio dia de Pearl Harbor, e uma tentativa aberta de conduzir o povo à guerra teria resultado em fracasso certo e, muito provavelmente, na derrota de Roosevelt em 1940, frustrando completamente seus objetivos finais”12.

O próprio Churchill nunca se preocupou em ocultar o papel de Roosevelt como co-conspirador. Em janeiro de 1941, Harry Hopkins visitou Londres. Churchill o descreveu como “o mais fiel e perfeito canal de comunicação entre o Presidente e eu (…) o principal sustentáculo e inspirador do próprio Roosevelt”:

“Logo compreendi o dinamismo pessoal de [Hopkins] e a importância extraordinária de sua missão (…) ali estava um enviado do Presidente de suprema importância para nossa sobrevivência. Com olhar brilhante e uma paixão contida e serena, ele disse: ‘O Presidente está determinado a que vençamos a guerra juntos. Não tenha dúvidas quanto a isso. Ele me enviou aqui para lhe dizer que, a qualquer custo e por todos os meios, ele o sustentará até o fim, não importa o que lhe aconteça — não há nada que ele não fará dentro dos limites do que está ao alcance humano’. Ali estava ele, magro, frágil, doente, mas absolutamente irradiando uma compreensão refinada da Causa. Tratava-se da derrota, ruína e destruição de Hitler, com exclusão de todos os outros propósitos, lealdades e objetivos”13.

Em 1976, o público finalmente tomou conhecimento da história de William Stephenson, o agente britânico de codinome “Intrepid”, enviado por Churchill aos Estados Unidos em 194014. Stephenson estabeleceu sua base no Rockefeller Center, com ordens para utilizar quaisquer meios necessários para ajudar a levar os Estados Unidos à guerra. Com pleno conhecimento e cooperação de Roosevelt, e com a colaboração de agências federais, Stephenson e seus cerca de 300 agentes “interceptavam correspondência, realizavam escutas telefônicas, arrombavam cofres, sequestravam (…) espalhavam rumores” e constantemente difamavam seus alvos preferenciais, os “isolacionistas”. Por meio de Stephenson, Churchill exercia, na prática, controle sobre a organização de William Donovan, o embrião do serviço de inteligência dos Estados Unidos15.

Churchill chegou até mesmo a participar da enxurrada de propaganda pró-britânica e anti-alemã que saiu de Hollywood nos anos anteriores à entrada dos Estados Unidos na guerra. Gore Vidal, em Screening History, observa com perspicácia que, a partir de cerca de 1937, os americanos foram expostos a um filme após o outro glorificando a Inglaterra e os heróis guerreiros que construíram o Império. Como espectadores dessas produções, diz Vidal: “Não servíamos nem a Lincoln nem a Jefferson Davis; servíamos à Coroa”16. Uma figura central de Hollywood na produção dos filmes que “estavam nos tornando estranhamente ingleses” foi o emigrado húngaro e amigo de Churchill, Alexander Korda17. Vidal escreve de forma bastante apropriada:

“Para aqueles que hoje consideram desagradável a propaganda sionista, só posso dizer que a pequena e valente Israel de hoje deve ter aprendido muito com os pequenos e valentes ingleses da década de 1930. Os ingleses mantiveram uma intensa campanha de propaganda que acabaria por penetrar toda a nossa cultura (…) Hollywood foi infiltrada, de forma sutil e não tão sutil, por propagandistas britânicos”18.

Enquanto os americanos estavam sendo propagandeados, os dois conspiradores discutiam como provocar hostilidades diretas entre os Estados Unidos e a Alemanha. Em agosto de 1941, Roosevelt e Churchill se encontraram na conferência do Atlântico. Ali produziram a Carta do Atlântico, com suas “quatro liberdades”, incluindo “a liberdade em relação à necessidade” — um cheque em branco para difundir a Sozialpolitik anglo-americana pelo mundo. Quando Churchill retornou a Londres, informou o gabinete sobre o que havia sido acordado. Trinta anos depois, os documentos britânicos foram divulgados. Eis como o New York Times relatou as revelações:

“Documentos do governo britânico anteriormente ultrassecretos, tornados públicos hoje, afirmam que o presidente Franklin D. Roosevelt disse ao Primeiro-Ministro Winston Churchill, em agosto de 1941, que estava procurando um incidente que justificasse o início de hostilidades contra a Alemanha nazista (…) Em 19 de agosto, Churchill relatou ao Gabinete de Guerra, em Londres, outros aspectos da reunião em Newfoundland [Carta do Atlântico] que não foram tornados públicos (…) ‘Ele [Roosevelt] estava claramente determinado a fazer com que eles entrassem. Se submetesse a questão da paz e da guerra ao Congresso, eles a debateriam por meses’, acrescentam as atas do gabinete. ‘O presidente disse que travaria a guerra, mas não a declararia, e que se tornaria cada vez mais provocador. Se os alemães não gostassem, poderiam atacar as forças americanas (…) Tudo deveria ser feito para forçar um incidente’”19.

Em 15 de julho de 1941, o almirante Little, da delegação naval britânica em Washington, escreveu ao almirante Pound, o Primeiro Lorde do Mar: “a maior esperança de trazer a América para a guerra está nos esquemas de escolta até a Islândia, e esperemos que os alemães não demorem a atacá-los”. Little acrescentou, talvez em tom de brincadeira: “Caso contrário, acho que seria melhor organizarmos um ataque com nossos próprios submarinos, de preferência contra a escolta!” Algumas semanas antes, Churchill, buscando uma oportunidade para levar a América à guerra, escreveu a Pound a respeito do navio de guerra alemão Prinz Eugen: “Seria melhor, por exemplo, que ela fosse localizada por um navio americano, pois isso poderia levá-la a abrir fogo contra esse navio, proporcionando assim o incidente pelo qual o governo dos Estados Unidos ficaria tão grato”20. Incidentes no Atlântico Norte de fato ocorreram, cada vez mais, à medida que os Estados Unidos se aproximavam da guerra contra a Alemanha21.

Mas Churchill não negligenciou a “porta dos fundos para a guerra” — envolver os Estados Unidos com o Japão — como forma de levar a América ao conflito com Hitler. Sir Robert Craigie, o embaixador britânico em Tóquio, assim como o embaixador americano Joseph Grew, trabalhava intensamente para evitar a guerra. Churchill instruiu seu Ministro das Relações Exteriores, Anthony Eden, a enquadrar Craigie:

“Ele deve certamente ser informado imediatamente de que a entrada dos Estados Unidos na guerra, seja contra a Alemanha e a Itália, seja contra o Japão, é plenamente compatível com os interesses britânicos. Nada na esfera de armamentos pode se comparar à importância de o Império Britânico e os Estados Unidos atuarem como co-beligerantes”22.

Churchill colocou toda a sua influência em jogo para endurecer a política americana em relação ao Japão, especialmente nos últimos dias antes do ataque a Pearl Harbor23. Um crítico simpático a Churchill, Richard Lamb, escreveu recentemente:

“Era justificável que [Churchill] tentasse provocar o Japão a atacar os Estados Unidos? (…) em 1941, a Grã-Bretanha não tinha perspectiva de derrotar a Alemanha sem o auxílio dos EUA como aliado ativo. Churchill acreditava que o Congresso jamais autorizaria Roosevelt a declarar guerra à Alemanha (…) Em tempos de guerra, as decisões dos líderes nacionais devem ser tomadas de acordo com seu efeito sobre o esforço de guerra. Há verdade no velho ditado: ‘No amor e na guerra, vale tudo’”24.

Não é de admirar que, na Câmara dos Comuns, em 15 de fevereiro de 1942, Churchill tenha declarado, a respeito da entrada da América na guerra: “Foi isso que sonhei, que busquei, isso foi o motivo pelo qual trabalhei, e agora se concretizou”25.

Os admiradores de Churchill de modo algum usam contra ele seu papel em levar a América à Segunda Guerra Mundial. Pelo contrário, contam isso a seu favor. Harry Jaffa, em sua defesa desinformada e frenética, parece ser a última pessoa viva que se recusa a acreditar que o Homem de Muitos Séculos tenha tido qualquer responsabilidade pela entrada da América na guerra: afinal, não foram os japoneses que bombardearam Pearl Harbor?26

Mas e quanto à República Americana? O que significa para nós o fato de um presidente ter colaborado com um chefe de governo estrangeiro para nos envolver em uma guerra mundial? A questão teria importado pouco a Churchill. Ele não tinha qualquer preocupação com os Estados Unidos como uma nação soberana e independente, com seu próprio caráter e seu lugar no conjunto das coisas. Para ele, os americanos eram apenas parte dos “povos de língua inglesa”. Ele vislumbrava uma cidadania comum para britânicos e americanos, uma “fusão”, no caminho para a hegemonia mundial anglo-americana27.

Mas a intriga entre Churchill e Roosevelt deveria, ao que se poderia supor, importar aos americanos. Aqui, no entanto, a crítica é interrompida antes mesmo de começar. Um postulado moral de nossa época é que, na busca pela destruição de Hitler, tudo era permitido. Ainda assim, por que seria evidente por si só que a moral exigia uma cruzada contra Hitler em 1939 e 1940, e não contra Stalin? Naquele momento, Hitler havia matado milhares, mas Stalin já havia matado milhões. De fato, até junho de 1941, os soviéticos se comportaram de forma muito mais assassina em relação aos poloneses em sua zona de ocupação do que os nazistas na deles. Cerca de 1.500.000 poloneses foram deportados para o Gulag, sendo que aproximadamente metade morreu nos primeiros dois anos. Como escreve Norman Davies: “Stalin estava superando Hitler em seu desejo de reduzir os poloneses à condição de uma nação escrava”28. Evidentemente, havia considerações de equilíbrio de poder que criavam distinções entre os dois ditadores. Mas ainda não foi explicado por que deveria existir um duplo padrão segundo o qual um compromisso com um ditador seria “moralmente repugnante”, enquanto a colaboração com o outro seria moralmente irrepreensível29.




Ralph Raico - Mises Brasil

Ives Gandra Martins: 'Honra não tem preço, tem valor'

 O silêncio diante da injúria não é sinal de fraqueza, mas de superioridade


Dupla medonnha Gilmar Mendes-Alexandre de Moraes - Foto: Roberto Jayme/TSE

Ministros do Supremo Tribunal Federal têm se considerado atingidos em sua honra por críticas de fulano, beltrano, sicrano e, inclusive, de candidatos à Presidência.

Pessoalmente, tenho uma opinião a respeito da indenização por danos morais. Certa vez, participava de um congresso no Rio de Janeiro com o ministro Moreira Alves, e nós dois tínhamos como tema da palestra a “quantificação de indenização por danos morais”. 

Naquela oportunidade, o ministro Moreira Alves, grande civilista, defendia que nós temos que quantificar a honra e que se trata de um pretium doloris — um preço da dor. Desde aquela época, entretanto, defendi a tese de que a minha honra não tem preço.

Nunca vou entrar com uma ação judicial contra alguém que pretenda me ofender. Conhecendo quem sou e sabendo que, às vezes, trata-se de uma mera agressão, nunca respondo, pois a melhor forma de responder é não dando atenção. 

Ao contrário do ministro Moreira Alves, que defendeu a necessidade de haver um pretium doloris, dizia e digo o seguinte: a honra não tem preço; ela não está no mercado, valendo “tanto” ou “tanto”. Eu defendia e continuo defendendo que a honra verdadeira não tem preço. 

Mas o que vemos hoje tem, sobretudo, um viés político, pois quando se procura atingir um candidato à Presidência da República, um deputado, um senador ou um ministro da Suprema Corte, a pessoa reage, demonstrando que realmente foi afetada pela manifestação de quem está dizendo. 

Além disso, a judicialização das críticas — especialmente por parte de quem detém o poder — acaba por criar um efeito inibidor na liberdade de expressão. Quando figuras públicas reagem a qualquer contestação com processos, não protegem apenas sua honra; inadvertidamente, sinalizam que o debate democrático é perigoso e deve ser contido. Isso transforma o Poder Judiciário em uma arena de vaidades, onde questões que deveriam ser resolvidas no campo do debate público ou da indiferença soberana passam a ocupar uma pauta que deveria ser reservada a temas de real interesse coletivo. 

É preciso distinguir, portanto, a crítica ácida ou o insulto gratuito da calúnia ou difamação propriamente ditas, que possuem contornos legais definidos. A honra, em sua acepção subjetiva — o sentimento que temos de nós mesmos —, não pode ser tutelada pelo Estado. Quando um magistrado ou um político utiliza a máquina judicial para punir ofensas menores, ele transfere a outros a responsabilidade por sua própria estabilidade emocional, o que, ironicamente, diminui a estatura moral do cargo que ocupa.

Reafirmo: quem tem, verdadeiramente, honra pouco se importa com a opinião alheia. A pessoa mais importante — que é Cristo, para mim o próprio Deus — não deu atenção aos ataques que sofreu e perdoou a todos quando estava na cruz. Ora, nós, que somos um ponto temporário no universo, dizer “fui atacado na minha honra e ela tem um preço” é, no mínimo, curioso. 



A judicialização das críticas — especialmente por parte de quem detém o poder — acaba por criar um efeito inibidor na liberdade de expressão - Foto: Reprodução/Redes sociais 


Quem ataca, sim, demonstra que não tem honra. E quem reage está dando um preço à sua honra e, ao mesmo tempo, desvalorizando-a. Por esta razão, pessoalmente, nunca respondo, nem dou atenção. 

Acredito, pois, que a melhor forma de mostrar que aquela agressão não vale nada é desconsiderá-la; é não dar importância, considerá-la sem relevo. Sendo assim, ao contrário do meu queridíssimo e saudoso amigo Moreira Alves, eu sempre dizia e digo: a minha honra não tem preço.


O silêncio diante da injúria não é sinal de fraqueza, mas de superioridade. Quem ocupa postos de mando deve compreender que a autoridade não emana da capacidade de silenciar críticos através de sentenças, mas da solidez de um caráter que entende que a verdadeira honra, por ser inalienável, jamais deveria ser objeto de compensação pecuniária. 

Quem dá preço à sua honra é porque, realmente, a ela não dá muito valor.

 - Ives Gandra Martins - Revista Oeste

Inflação castiga o Nordeste - antigo curral eleitoral da Arena e, mais recente, do larápio Lula e de seus capachos - e corrói poder de compra do povo

 Preços de alimentos, aluguel e combustível sobem com mais força na região de menor renda do país


Inflação castiga o Nordeste e supera média nacional  - Reprodução

A inflação no Nordeste, principal reduto eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignora as previsões nacionais e atinge em cheio o bolso da população mais pobre. Das dez capitais brasileiras com maior alta no preço da cesta básica, seis ficam no território nordestino. O custo de vida na região sobe de forma desproporcional logo que o rendimento médio dos moradores é o mais baixo do Brasil.

O Recife ilustra o cenário crítico. A cesta básica na capital pernambucana saltou para R$ 654,62 entre janeiro e março. A alta de quase 10% no primeiro trimestre representa o dobro da inflação prevista pelo Banco Central para o ano inteiro. Enquanto isso, São Paulo registrou um reajuste de apenas 4,49% no mesmo período.

Recife - reprodução


Comida e combustível nas alturas

O transporte encareceu logo que o conflito no Irã começou a mexer no mercado de petróleo. O preço da gasolina no Nordeste subiu 10,35% em poucas semanas, atingindo a média de R$ 6,93 por litro. O diesel acompanhou a disparada com alta de 26,25%, a maior variação registrada em todo o território nacional segundo a ANP.

O setor imobiliário também impõe reajustes pesados aos nordestinos. Aracaju, Maceió e Natal aparecem no topo do índice FipeZap com as maiores altas no aluguel residencial do país. O reajuste médio em Aracaju chegou a 7%, superando com folga os índices de metrópoles como São Paulo e Porto Alegre. 

A crise pesa mais no Nordeste, o principal reduto eleitoral do presidente Lula, devido à fragilidade financeira dos lares. Com uma renda per capita de R$ 1.340, os moradores da região comprometem quase todo o ganho mensal com sobrevivência. Qualquer variação na luz, água ou transporte urbano,

 que subiu 20% em Fortaleza, destrói o poder de compra e aumenta as dívidas da população 



Erich Mafra - Revista Oeste 

sábado, 2 de maio de 2026

Como os sindicatos prejudicam os trabalhadores, relata George Reisman

 

Talvez uma maioria substancial das pessoas, ainda acreditam que, independentemente de quaisquer problemas que possam ter causado, os sindicatos são, em essência, uma instituição que existe no interesse vital dos assalariados. De fato, muitos acreditam que são os sindicatos que se interpõem entre o assalariado comum e uma vida de salários de subsistência, jornadas de trabalho exaustivas e condições de trabalho terríveis.

Os sindicatos e o público em geral ignoram quase totalmente o papel essencial desempenhado pela queda dos preços na obtenção de salários reais crescentes. Eles veem apenas o aumento dos salários monetários como digno de consideração. De fato, em nosso ambiente de inflação crônica, preços que realmente caem são relativamente raros.

No entanto, a única coisa que pode explicar um aumento dos salários reais em todo o sistema econômico é uma queda nos preços em relação aos salários. E a única coisa que consegue isso é um aumento na produção por trabalhador. Mais produção por trabalhador — uma maior produtividade do trabalho — serve para aumentar a oferta de bens e serviços produzidos em relação à oferta de mão de obra que os produz. Dessa forma, reduz os preços em relação aos salários e, assim, eleva os salários reais e o padrão de vida geral.

O que faz com que os salários monetários aumentem em todo o sistema econômico não é o que está por trás do aumento dos salários reais.

Os aumentos nos salários monetários são, essencialmente, resultado apenas do aumento da quantidade de dinheiro e do consequente aumento no volume geral de gastos no sistema econômico. Na ausência de um aumento da produtividade do trabalho, o aumento da oferta monetária e dos gastos levaria a um aumento dos preços igual ou superior ao aumento dos salários. Esse resultado é evitado apenas pelo fato de que, ao mesmo tempo em que a quantidade de dinheiro e o volume de gastos estão aumentando, a produção por trabalhador também está aumentando, fazendo com que os preços subam menos do que os salários. Uma queda nos preços ainda está presente na forma de preços mais baixos do que seriam se apenas um aumento na quantidade de dinheiro e no volume de gastos estivesse em vigor.

Com exceções relativamente menores, os salários reais em todo o sistema econômico simplesmente não aumentam por causa de salários monetários mais altos. Essencialmente, eles aumentam apenas devido a uma maior oferta de bens e serviços em relação à oferta de mão de obra e, portanto, devido a preços mais baixos em relação aos salários. A verdade é que os meios pelos quais o padrão de vida do assalariado individual, do empresário individual e do capitalista é elevado, e os meios pelos quais o padrão de vida do assalariado médio no sistema econômico é elevado, são muito diferentes. Para o indivíduo, trata-se de ganhar mais dinheiro. Para o assalariado médio no sistema econômico, trata-se do pagamento de preços mais baixos.

O que essa discussão mostra é que o aumento dos salários monetários que os sindicatos buscam não é, de forma alguma, a fonte do aumento dos salários reais e que a fonte do aumento dos salários reais é, na verdade, o aumento da produtividade do trabalho, que sempre opera do lado da queda dos preços, e não do aumento dos salários monetários.

De fato, os esforços dos sindicatos para aumentar os salários monetários opõem-se profundamente ao objetivo de elevar os salários reais e o padrão de vida. Quando os sindicatos buscam elevar o padrão de vida de seus membros por meio do aumento de seus salários monetários, sua política acaba inevitavelmente se resumindo a uma tentativa de tornar o trabalho de seus membros artificialmente escasso. Esse é o único meio que têm para aumentar os salários de seus membros. Os sindicatos não têm muito poder real sobre a demanda por mão de obra. Mas frequentemente alcançam um poder considerável sobre a oferta de mão de obra. E sua técnica real para aumentar os salários consiste em tornar a oferta de mão de obra, pelo menos no setor ou ocupação específica com a qual um determinado sindicato se preocupa, o mais escassa possível.

Assim, sempre que podem, os sindicatos tentam obter controle sobre a entrada no mercado de trabalho. Eles buscam impor programas de aprendizagem ou fazer com que o governo imponha requisitos de licenciamento. Tais medidas têm o objetivo de conter a oferta de mão de obra no setor e, assim, permitir que aqueles que têm a sorte de serem admitidos nele obtenham rendimentos mais elevados. Mesmo quando os sindicatos não conseguem reduzir diretamente a oferta de mão de obra, a imposição de suas exigências salariais acima do mercado ainda tem o efeito de reduzir o número de empregos oferecidos no setor e, consequentemente, a oferta de mão de obra no setor capaz de encontrar trabalho.

Os aumentos artificiais de salários impostos pelos sindicatos resultam em desemprego quando salários acima do mercado são impostos em todo o sistema econômico. Essa situação ocorre quando é possível formar sindicatos com facilidade. Se, como nos Estados Unidos atualmente, basta que a maioria dos trabalhadores de um estabelecimento decida que deseja ser representada por um sindicato, então os salários impostos pelos sindicatos passarão a vigorar mesmo nos setores não sindicalizados.

Os empregadores dos setores não sindicalizados se sentirão obrigados a oferecer aos seus trabalhadores salários comparáveis aos que os trabalhadores sindicalizados recebem — na verdade, possivelmente até salários ainda mais altos —, a fim de garantir que eles não se sindicalizem.

Aumentos salariais generalizados, que excluem um grande número de trabalhadores de inúmeras ocupações, exercem extrema pressão sobre os níveis salariais de quaisquer áreas do sistema econômico que ainda permaneçam abertas. Essas áreas limitadas poderiam absorver o excesso de trabalhadores de outros setores a níveis salariais baixos o suficiente. Mas as leis de salário mínimo impedem que os níveis salariais nesses setores remanescentes caiam o suficiente para absorver esses trabalhadores.

Do ponto de vista da maioria daqueles que tiveram a sorte de manter seus empregos, a consequência mais grave dos sindicatos é a contenção ou a redução direta da produtividade do trabalho. Com poucas exceções, os sindicatos combatem abertamente o aumento da produtividade do trabalho. Fazem isso praticamente por uma questão de princípio. Opõem-se à introdução de máquinas que economizam mão de obra, alegando que isso causa desemprego. Opõem-se à concorrência entre os trabalhadores. Como Henry Hazlitt apontou, eles forçam os empregadores a tolerar práticas de protecionismo, como a clássica exigência de que os foguistas, cuja função era carregar carvão em locomotivas a vapor, fossem mantidos nas locomotivas a diesel. Eles impõem esquemas de trabalho artificial, como exigir que tubos entregues em canteiros de obras já com rosca sejam cortados nas extremidades e tenham uma nova rosca feita no local. Eles impõem classificações de trabalho restritas e exigem que especialistas sejam contratados com remuneração diária para realizar trabalhos que outros poderiam facilmente fazer — por exemplo, exigir a contratação de um gesseiro para reparar danos acidentais causados a uma parede por um eletricista, danos que o próprio eletricista poderia facilmente reparar.

Para quem compreende o papel da produtividade do trabalho no aumento dos salários reais, deve ficar claro que a política dos sindicatos de combater o aumento da produtividade do trabalho os torna, na verdade, os principais inimigos do aumento dos salários reais. Por mais radical que essa conclusão possa parecer, por mais que ela entre em contradição com a visão predominante de que os sindicatos são a principal fonte do aumento dos salários reais nos últimos cento e cinquenta anos ou mais, o fato é que, ao combater o aumento da produtividade do trabalho, os sindicatos combatem ativamente o aumento dos salários reais!

Longe de serem responsáveis pelas melhorias no padrão de vida do trabalhador médio, os sindicatos operam em ignorância quase total sobre o que realmente eleva o padrão de vida do trabalhador médio. Em consequência de sua ignorância, eles são responsáveis por desigualdades artificiais nas taxas salariais, pelo desemprego e por manter baixos os salários reais e o padrão de vida do trabalhador médio. Todas essas consequências destrutivas e antissociais derivam do fato de que, enquanto os indivíduos aumentam o dinheiro que ganham por meio do aumento da produção e da oferta geral de bens e serviços, reduzindo assim os preços e elevando os salários reais em todo o sistema econômico, os sindicatos aumentam o dinheiro pago a seus membros exatamente pelo caminho oposto. Eles reduzem a oferta e a produtividade da mão de obra e, assim, reduzem a oferta e elevam os preços dos bens e serviços que seus membros ajudam a produzir, reduzindo, com isso, os salários reais em todo o sistema econômico.



George Reisman, Mises Brasil

Estudo mostra contrastes entre capitalismo e socialismo, por Victória Batalha

 

Levantamento do Instituto Millenium e do Ranking dos Políticos reúne dados de países na Europa, na Ásia e na América Latina


Estudo mostra contrastes entre capitalismo e socialismo

Um levantamento divulgado pelo Instituto Millenium em parceria com o Ranking dos Políticos reúne dados para comparar trajetórias econômicas de países que adotaram modelos distintos de organização econômica. 

Divulgado nesta sexta-feira, 1º, o material apresenta indicadores de crescimento, inflação e renda em nações da Europa, da Ásia e da América Latina. A análise inclui casos como Venezuela, Polônia, Alemanha e as Coreias.

Comparação destaca diferenças de desempenho econômico No caso da Venezuela, o levantamento mostra que o país figurava entre os mais ricos da América Latina nos anos 1970. Décadas depois, registrou inflação de 1.000.000% em 2018 e queda superior a 70% do Produto Interno Bruto (PIB) desde 2013. 

O material também aponta a saída de mais de 7 milhões de pessoas do país. O que mudou de um tempo para o outro? Antes, o país era cap

No caso da Venezuela, o levantamento mostra que o país figurava entre os mais ricos da América Latina nos anos 1970. Décadas depois, registrou inflação de 1.000.000% em 2018 e queda superior a 70% do Produto Interno Bruto (PIB) desde 2013. 

O material também aponta a saída de mais de 7 milhões de pessoas do país. O que mudou de um tempo para o outro? Antes, o país era capitalista. Depois, lidou — e ainda lida — com a ditadura socialista. 

 

Venezuela já foi um dos países mais ricos da América Latina em 1970 - Foto: Reprodução/ X 

Reprodução/ X Já a Polônia apresentou trajetória distinta. Segundo o estudo, o país enfrentou baixo crescimento e dificuldades econômicas nas décadas de 1970 e 1980, quando vivia sob o regime comunista. A partir dos anos 1990, com mudanças na estrutura econômica, o PIB per capita mais que triplicou. O crescimento médio ficou próximo de 4% ao ano por décadas. 

O levantamento também inclui comparações entre Alemanha Ocidental (capitalista) e Alemanha Oriental (socialista), durante o período de divisão do país, além dos casos de Coreia do Sul e Coreia do Norte. Nos exemplos citados, o levantamento aponta diferenças de renda, como um PIB abaixo de US$ 2 mil para a Coreia do Norte e de US$ 30 para a Coreia do Sul. O conteúdo reforça indicadores de produtividade e condições econômicas ao longo do tempo. 

Outro ponto abordado envolve restrições à mobilidade em regimes comunistas e socialistas. O conteúdo menciona que, na Alemanha Oriental, a saída do país era tratada como crime, com registros de tentativas de fuga e mortes ao longo do período.

O Ranking dos Políticos e o Instituto Millenium divulgaram as informações em peças visuais que elas próprias produziram. Em geral, as duas instituições apresentam os dados como exemplos de trajetórias econômicas distintas em contextos históricos semelhantes.


Victória Batalha -  Revista Oeste

'Jorge Messias, o estafeta rejeitado', por Carlo Cauti

 


Jorge Messias, advogado-geral da União, durante sabatina na CCJ do Senado - 29/04/2026 | Lula Marques/Agência Brasil 

O Senado Federal deu um recado claro: quem nasce estafeta não morrerá ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Mensagem entregue por meio da pior derrota da história do terceiro governo Lula. Os senadores fizeram o que não acontecia desde 1894: rejeitaram uma indicação do presidente da República para o STF.

Sete minutos. É quanto tempo levou para o Senado enterrar o nome que Lula anunciara com pompa em novembro do ano passado. Foram cinco meses entre o anúncio e a sabatina, o intervalo mais longo desde a redemocratização. Tanta demora para tanto vexame. 

E o placar: 42 votos contra, 34 a favor. A conta é simples e brutal. Num plenário com 79 dos 81 senadores presentes, ou seja, sem desculpa de ausências, o governo nem chegou perto do que precisava.


.Não adiantou exonerar temporariamente ministros para que voltassem ao Senado e votassem junto com a tropa governista. Muito menos empenhar R$ 12 bilhões em emendas parlamentares nos dias que antecedem a sabatina 


O objetivo do Planalto era emplacar Messias no Supremo para ter mais um ministro para chamar de seu. Os senadores não concordaram. 

A cena final não poderia ser mais emblemática. A oposição comemorou. A base governista “estava sem entender a situação”, segundo noticiou a própria imprensa simpática ao governo. Não entendiam. É difícil, de fato, entender como um governo que chegou ao poder prometendo costurar o país deixou de costurar os votos necessários para emplacar um homem de sua inteira confiança na cadeira mais cobiçada do Judiciário brasileiro.

Mas o problema não foi apenas a capacidade política do Executivo. Foi a qualidade humana do postulante a ministro. 

Office boy da Dilma Em 16 de março de 2016, a Polícia Federal divulgou uma ligação telefônica interceptada entre a então presidente Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Nela, Dilma avisava ao companheiro: “Eu tô mandando o Bessias junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse”. 

O “papel” era um documento que garantiria foro privilegiado a Lula, retirando-o das mãos do então juiz Sergio Moro. O “Bessias” era Messias, apelido que a pronúncia nasal de Dilma eternizou na história política do país. O menino de recado entregou o envelope. Mas o plano não deu certo. 

Lula foi preso mesmo assim. Só que o estafeta ficou. E voltou. Em 2023, chegou a recompensa da fidelidade. Com Lula de volta ao Planalto, Messias foi nomeado Advogado-Geral da União. 

Não perdeu tempo e cuidou de retribuir com generosidade. Concretizando uma tara histórica do petismo: a censura. Messias criou a chamada Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, o “Ministério da Verdade” do PT: um órgão do Executivo com poder de definir o que é desinformação e o que deve sumir da internet. 

Trata-se, portanto, de uma excrescência jurídica impensável em qualquer democracia. Mas como tudo no petismo começa trágico e termina grotesco, a tal de Procuradoria do Messias rejeitou sistematicamente todas as denúncias contra as inverdades divulgadas pelo próprio governo, enquanto cumpria com zelo o papel de silenciador das críticas ao PT. 


Ao arrepio da Constituição, que garante a liberdade de expressão no Brasil, Jorge Messias criou o ‘Ministério da Verdade’ dentro a AGU de Lula - Foto: Lula Marques/Agência Bra

Quando Elon Musk se recusou a obedecer a ordens ilegais do ministro Alexandre de Moraes de bloquear contas de usuários brasileiros, Messias foi ao microfone defender o bloqueio do X no Brasil com a mesma desenvoltura de quem carrega envelope. 

Definiu a censura de 39 dias como “um antes e um depois” na soberania digital do país. Mas não pronunciou uma só palavra sobre a afronta que essas ordens secretas representavam à liberdade de expressão. 

Quando jornalistas brasileiros e o americano Michael Shellenberger publicaram os “Twitter Files Brasil”, revelando a campanha de censura conduzida nas sombras por Moraes e pelo Tribunal Superior Eleitoral, Messias reuniu-se com representantes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos para insinuar que o trabalho jornalístico era um “ataque coordenado da extrema-direita 

Quatro dias depois da publicação, mandou uma notícia-crime contra os repórteres ao próprio Moraes, alegando risco ao “Estado Democrático de Direito”. 

No escândalo do roubo do INSS, a AGU de Messias tentou blindar o instituto e seus líderes ligados ao PT de múltiplas ações que buscavam reaver valores descontados ilegalmente dos aposentados — e, por ironia macabra, a lista de entidades com bloqueios de bens pedidos pela AGU excluiu uma associação cujo diretório é comandado pelo próprio irmão de Lula. Detalhes

Na época das enchentes no Rio Grande do Sul, Messias não titubeou em investigar aquilo que outro inimigo da liberdade, Paulo Pimenta, considerava como “notícias falsas”. O então ministro das Comunicações de Lula não tolerava críticas à ineficiência do governo e elaborou uma lista de proscrição de jornalistas, influenciadores e políticos que postaram nas redes sociais denunciando a incapacidade de gerenciar a crise. Messias acatou o pedido, e pediu uma investigação até mesmo contra o nosso Alexandre Garcia. 

Nos anos seguintes, Messias tentou censurar tudo o que desagradasse o Planalto. Das denúncias sobre a tentativa de controlar as movimentações do Pix até qualquer crítica contra Erika Hilton. 

Esse era o homem que Lula queria instalar no Supremo: o fiel escudeiro, o procurador da causa, o guardião jurídico do projeto de poder. Alguém que, chegando ao STF, completaria uma composição de três ministros com histórico de envolvimento ativo em censura, ao lado de Alexandre de Moraes e Flávio Dino, que quando era ministro da Justiça tentou intimidar redes sociais e, já no Supremo, mandou destruir livros. 

Pior, completaria a tríade de ministros nomeados por Lula não por notável saber jurídico ou ilibada reputação, conforme prevê a Constituição Federal de 1988. Mas apenas para premiar a fidelidade canina dos auxiliares mais desprovidos de espinha dorsal e amor próprios. Como o Messias. 


O presidente Lula da Silva e o advogado-geral da União, Jorge Messias - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A humilhação é dupla. É um vexame do próprio Messias, que passou a vida servindo ao PT com a discreta dedicação de quem sabe que a recompensa virá, que recebeu do presidente a indicação mais cobiçada que um jurista pode receber no Brasil, que atravessou oito horas de sabatina na CCJ e que, em seguida, viu o plenário derrubá-lo em menos tempo do que leva para aquecer um café. 

Ao sair, disse que “o Senado é soberano” e que “faz parte do processo democrático saber ganhar e saber perder”. Palavras de circunstâncias que não escondem uma profunda irritação e uma incredulidade quase inocente. Mas ditas por alguém que dedicou boa parte de sua gestão na AGU para restringir exatamente o tipo de soberania popular e de processo democrático que o acabara de derrotar.

Mas a votação do Senado é, mais ainda, a vergonha de Lula. Uma derrota inédita em 132 anos não é algo corriqueiro. É um sinal. Em ano eleitoral, com candidatura ainda não declarada, mas amplamente especulada, com um governo de popularidade em queda, Lula não conseguiu segurar os votos dos próprios aliados. 

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que nas semanas anteriores articulou o ambiente para a derrota, nem precisou aparecer para dar o golpe de misericórdia: o placar já estava decidido antes de a sessão terminar.


Presidente do Senado, Alcolumbre, durante a sessão que rejeitou Messias para o STF – 29/04/2026 | Foto: Lula Marques/Agência Brasil 


A velha mídia continua repetindo que a base governista “não entendeu”. Não entendeu o que, exatamente? Não entenderam porque ninguém havia avisado. Ou porque quem devia avisar já sabia o que viria e preferiu calar. 

A Waterloo de Lula 

As consequências dessa derrota para o governo são graves, duradouras e algumas não serão visíveis imediatamente. 

A cadeira no STF ficará vaga por tempo indeterminado. Mesmo querendo, Lula dificilmente indicará outro nome nos próximos meses. Não conseguiria aprovar ninguém. A derrota foi demasiado ruidosa, o custo político de uma nova sabatina antes das eleições seria insuportável. 

A Corte opera com dez ministros em vez de 11, e o governo perde sua janela para ampliar a influência na cúpula do Judiciário. Eram cinco indicados por Lula na composição atual; continuarão quatro. 

Mais grave ainda é o sinal enviado ao Congresso e ao eleitorado. Quando o Senado rejeita um nome presidencial para o STF pela primeira vez desde Floriano Peixoto, não está apenas barrando um indivíduo. Está dizendo que o Executivo perdeu capacidade de articulação. Está dizendo que os aliados não confiam nos aliados. Está dizendo que o governo entrou em modo de sobrevivência eleitoral e que cada senador passou a votar olhando para outubro, não para o Palácio do Planalto. 

Os próximos meses serão marcados por esse cálculo frio. Com as eleições de outubro no horizonte, cada parlamentar da base irá medir o custo de associar-se a um presidente que não entrega votos para si próprio. A pauta econômica, sempre difícil, ficará ainda mais emperrada. 

As reformas que o governo precisaria aprovar encontrarão um Congresso ainda menos generoso. E a oposição, que saiu da sessão comemorando, terá nessa votação um símbolo permanente: a prova de que o governo sangra, de que pode ser derrotado, de que a blindagem se desfez. 

Messias era um estafeta. Foi mandado com o papel. O Senado não assinou. E devolveu o envelope.


Carlo Cauti - Revista Oeste