quinta-feira, 7 de maio de 2026

Antonio Rueda, presidente do União Brasil (ex Arena, PDS e PFL) é um dos próximos nomes que a PF deve mirar depois de Ciro Nogueira

 


Antonio Rueda - Reproduçáo


O senador Ciro Nogueira - Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Depois da operação cob ntra o senador Ciro Nogueira, nesta quinta-feira, 7, a Polícia Federal (PF) mira outro alvo: Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, apurou a coluna com fontes a par do assunto. O nome de Rueda passou a chamar atenção da PF após aparecer em mensagens encontradas em um dos celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Isso porque os diálogos sugerem interlocução entre o empresário e o dirigente, em virtude de a PF ter identificado referências ao escritório de Rueda. 

Há pouco tempo, Rueda admitiu parceria com a instituição financeira, mas ressaltou que se tratou de prestação de serviços. 

O trabalho teria envolvido “dezenas de pareceres e centenas de reuniões, incluindo mais de mil audiências, cerca de 20 mil protocolos e aproximadamente 400 acordos”, conforme Rueda. 

Os investigadores tentam esclarecer se houve apenas relação profissional entre as partes ou atuação política em favor de interesses de Vorcaro.


Operação contra Ciro Nogueira





Na manhã de hoje, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra Nogueira autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Há exatamente um mês, Oeste informou que a corporação o faria. Além de Nogueira, a PF fechou o cerco no entorno de Felipe Vorcaro, um dos primos do ex-banqueiro. 

Entre outros elementos, as investigações apontaram supostos pagamentos a Nogueira. Mensagens trocadas entre Vorcaro e seu parente, em janeiro de 2025, revelam dificuldades de Felipe com o “aumento dos pagamentos” ao “parceiro brgd”. Cinco meses depois, Vorcaro cobrou o primo pelo atraso de dois meses nos repasses a “ciro”. 

Em resposta, Felipe interpelou: “Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”.

Cristyan Costa - Revista Oeste

PF cita hotel de luxo em NY e viagens pagas a Ciro Nogueira por Vorcaro, ex-dono do Master

Investigação aponta que senador teria recebido hospedagens, restaurantes, cartão bancário e vantagens milionárias ligadas a Vorcaro


O senador Ciro Nogueira (PP-PI) |-Foto: Andressa Anholete / Agência Senado


A Polícia Federal apontou, em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria recebido vantagens indevidas do empresário Daniel Vorcaro, incluindo hospedagens em hotel de luxo em Nova York, viagens internacionais, restaurantes de alto padrão e uso de cartão bancário para despesas pessoais.

Segundo a investigação da quinta fase da Operação Compliance Zero, Vorcaro teria bancado estadias do senador no hotel Park Hyatt New York, localizado em uma das regiões mais valorizadas de Manhattan. As diárias da suíte presidencial podem chegar a US$ 35 mil, cerca de R$ 172 mil na cotação atual.

A PF não detalha qual acomodação foi utilizada nem o valor total gasto, mas afirma que as despesas incluíam hospedagens, deslocamentos e gastos atribuídos ao parlamentar e à sua acompanhante. Em mensagens interceptadas pelos investigadores, o operador Léo Serrano questiona Vorcaro sobre o pagamento de despesas do senador:

“[…] Eh pros meninos continuarem pagando restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”

Vorcaro responde:

“Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.

De acordo com a PF, o cartão teria sido utilizado para custear despesas pessoais do senador durante viagens internacionais. Os investigadores também afirmam haver indícios de que Ciro Nogueira adquiriu uma participação societária avaliada em R$ 13 milhões por apenas R$ 1 milhão, além de receber pagamentos mensais de R$ 300 mil, que, segundo relatos obtidos pela investigação, chegaram posteriormente a R$ 500 mil.

Em troca, segundo a PF, o parlamentar teria atuado em favor de interesses do Master.

O relatório cita a apresentação de uma proposta para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, medida que teria sido elaborada com participação de integrantes da instituição financeira. A operação cumpre dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária no DF, PI, SP.

Raimundo Nogueira está descrito como “agente de sustentação formal e operacional” de empresas ligadas ao núcleo familiar do senador. Em nota, a defesa de Ciro negou irregularidades e afirmou que o próprio está à disposição para prestar esclarecimentos.

Lucas Soares - Dário do Poder

Cármen Lúcia segura ação sobre fichas sujas há 4 meses

Ação completou quatro meses parada no gabinete da ministra


Ministra do STF, Cármen Lúcia. (Foto: Antonio Augusto/STF).


Condenados por improbidade administrativa que se tornaram ficha suja, como é o caso do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda (PSD), tentam retornar à cena política após a flexibilização da Lei da Ficha Limpa, no ano passado. Para viabilizar a candidatura, o Supremo Tribunal Federal (STF) precisa deliberar sobre o assunto.

A manobra unificou em oito anos o prazo para inelegibilidade para os candidatos impedidos de se candidatar. O projeto antecipou o início da contagem para a condenação ou a renúncia e unifica em oito anos o período de inelegibilidade, com limite de 12 anos em caso de múltiplas condenações.

No Senado, o texto que afrouxou as regras foi relatado por Weverton Rocha (PDT-MA), o mesmo relator da fracassada indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e da frutífera indicação de Flávio Dino.

A lei foi questionada no STF pelo Rede Sustentabilidade, que pediu medida cautelar para suspender a manobra. A relatoria do processo saiu para a ministra Cármen Lúcia, que há quatro meses não anda com a tramitação da ação, que já conta com manifestação pelo deferimento da Procuradoria-Geral da República.

Ex-governador José Roberto Arruda recebendo propina de Durval Barbosa. Foto: Reprodução


Além de Arruda, condenado por improbidade administrativa em desdobramentos da Operação Caixa de Pandora, decisão confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em outubro de 2025, políticos como o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (Republicanos), e o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos), precisam de decisão da Corte para ter validada eventual candidatura.

Rodrigo Vilela - Diário do Poder

quarta-feira, 6 de maio de 2026

'Seus Amigos & Vizinhos' encontra um rico complicador

 


Imagem: divulgação


A série Seus Amigos & Vizinhos (Apple TV) surgiu discretamente com uma proposta original. Num subúrbio de gente muito rica, Coop (Jon Hamm, de Mad Men) mergulha na decadência. Enfrenta um divórcio, perde quase tudo para a mulher (que se casa com um astro do basquete), é demitido. Mas se nega a perder o status. 

Para manter seu padrão de vida, Coop passa a realizar pequenos furtos nas mega mansões da vizinhança – relógios, obras de arte, jóias, livros raros. Imersos na opulência, as vítimas nem percebem que foram roubadas. Coop vende os objetos para um interceptador e continua podendo comprar seus ternos caros e manter seu carrão.

Na primeira temporada, Coop entrou bem. Num de seus roubos, ele levou um tombo, desmaiou e despertou ao lado de um cadáver. Foi acusado de assassinato, se livrou da acusação e tocou a vida. Agora na segunda temporada ele retoma sua vida de furtos, que quer transformar em sua nova profissão. 

Mas surge um complicador: Owen Ashe (James Marsden), um ricaço que adora exibir sua fortuna e fazer promessas de grandes investimentos a quem estiver interessado. Contar os detalhes de seu envolvimento com Cooper é dar spoiler. Mas a trama ficou mais robusta e complexa. E é dos mega ricos em suas opulentas mansões. Afinal, como dizia o carnavalesco Joãozinho Trinta, “quem gosta de miséria é intelectual”.


Dagomir Markezi - Revista Oeste

O mercado conhece Hayek e nem sabe disso, escreve Leonardo Losada Filho

 

Há momentos em que a teoria não emerge dos livros, mas da própria realidade. E, quando isso ocorre, ela costuma se apresentar de forma mais clara do que em qualquer formulação abstrata. Não como um sistema fechado de ideias, mas como uma intuição viva, quase inevitável, que se revela na prática antes mesmo de ser compreendida em sua totalidade. Estive recentemente em um grande evento empresarial em São Paulo, um desses ambientes onde decisões são tomadas, relações estabelecidas e percepções sobre o mercado circulam com intensidade. Em meio a uma conversa aparentemente comum, ouvi uma frase que, à primeira vista, parecia apenas pragmática. Um empresário, ao comentar sobre as mudanças no mercado, disse: “é bom quando lançamos uma RFI, porque assim conseguimos entender como o mercado está pensando”.

A frase passou como tantas outras que surgem em contextos semelhantes. Mas há algo nela que merece ser interrompido, examinado com mais atenção. Há ali uma implicação silenciosa, porém profunda: a admissão de que o tomador de decisões não sabe. Em um ambiente corporativo que valoriza controle, previsibilidade e assertividade, reconhecer a própria ignorância não é um gesto trivial. Ao contrário, tende a ser evitado ou disfarçado. Ainda assim, é precisamente esse reconhecimento que torna possível uma decisão mais adequada à realidade. Não por virtude intelectual, mas por necessidade prática.

Uma RFI, ou Request for Information (pedido de informação, em inglês), é um instrumento utilizado quando uma empresa ainda não possui clareza plena sobre um problema ou sobre as soluções disponíveis. Ao acioná-la, a organização não busca apenas respostas, mas perspectivas. Busca compreender como diferentes agentes interpretam uma mesma questão e quais caminhos são considerados viáveis dentro de um determinado contexto. O que está em jogo, portanto, não é apenas a coleta de informações, mas a tentativa de acessar algo que não pode ser produzido internamente de forma completa. Ao recorrer ao mercado, o empresário reconhece, ainda que de maneira implícita, que o conhecimento relevante para a decisão não está concentrado dentro da sua estrutura.

Mais do que isso, há um reconhecimento ainda mais sutil: esse conhecimento talvez não esteja concentrado em lugar algum. Ele está disperso, fragmentado, distribuído entre indivíduos que operam sob condições distintas, com experiências, percepções e informações que não podem ser plenamente agregadas. É nesse ponto que a experiência prática encontra uma das formulações mais profundas da teoria econômica do século XX, desenvolvida por Friedrich Hayek. Para Hayek, o problema econômico fundamental não é simplesmente alocar recursos, mas utilizar conhecimento que está inevitavelmente disperso na sociedade.

Esse conhecimento ao qual Hayek se refere não é apenas técnico ou estatístico. Ele é, em grande medida, local, contextual e muitas vezes tácito. Trata-se de informações que dizem respeito a circunstâncias específicas de tempo e lugar, percepções individuais, oportunidades momentâneas e restrições concretas que não podem ser plenamente capturadas por qualquer estrutura central. Diante disso, o problema econômico assume uma forma distinta daquela frequentemente imaginada. Não se trata de encontrar a melhor solução a partir de um conjunto completo de dados, mas de coordenar ações em um ambiente onde esses dados nunca estão integralmente disponíveis. A ignorância, nesse sentido, não é uma falha eventual, mas uma condição permanente.

É precisamente nesse cenário que o mercado adquire sua função mais sofisticada. Ele não deve ser compreendido apenas como um ambiente de trocas, mas como um processo contínuo de descoberta. Um mecanismo por meio do qual informações dispersas são reveladas, testadas e, em certa medida, coordenadas sem a necessidade de um centro organizador.

Quando diferentes fornecedores respondem a uma RFI, o que se observa não é apenas competição. Cada resposta representa uma interpretação distinta do problema, uma leitura particular do contexto, uma proposta construída a partir de conhecimentos que não estão disponíveis para os demais. O conjunto dessas respostas forma um mosaico de perspectivas que nenhuma organização seria capaz de produzir isoladamente. O empresário que consulta o mercado, portanto, não está apenas ampliando suas opções. Ele está participando de um processo mais amplo de coordenação de conhecimento. Um processo que depende justamente do fato de que esse conhecimento está distribuído e não pode ser reunido de forma completa em um único ponto.

Aqui reside uma inversão que merece atenção. A RFI, tradicionalmente compreendida como uma etapa preliminar de compra, revela-se como um instrumento epistemológico. Ela não serve apenas para selecionar fornecedores, mas para acessar uma realidade que não pode ser apreendida de maneira centralizada. Não se trata, portanto, de uma limitação a ser superada com mais dados, mais tecnologia ou maior capacidade analítica. Trata-se de reconhecer que o conhecimento necessário para decisões complexas não é centralizável. E que qualquer tentativa de tratá-lo como tal incorre em uma simplificação da própria realidade.

Aquele empresário não estava apenas descrevendo uma prática de mercado. Estava, sem saber, operando um princípio. Um princípio que antecede a própria formulação teórica e que se manifesta sempre que indivíduos, diante da incerteza, recorrem ao todo para compreender aquilo que são incapazes de conhecer sozinhos.

 Leonardo Losada Filho -Mises Brasil


terça-feira, 5 de maio de 2026

Penduricalhos no salário de Messias somam mais de R$83 mil em três meses

 


Advogado-Geral da União (AGU), Jorge Messias. (Foto: ASCOM AGU)


Rejeitado para a cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Jorge Messias, que ainda pode se consolar chefiando a Advocacia-Geral da União (AGU), faturou mais de R$83,1 mil em penduricalhos de janeiro a março, última data disponível do seu holerite. O contracheque do “Bessias” tem como remuneração básica bruta o valor de R$78.805,71, mas o abate-teto salva o pagador de impostos de ter que bancar a fatura e morde R$$46.593,83 do montante.

Manobra

O salário de Messias foi engordado com “verbas indenizatórias” e “distribuição de saldo de horários advocatícios”.

Marajá na AGU

Os honorários extras, por ter feito o que já é pago para fazer, somaram R$77,2 mil, sendo R$35,2 mil apenas em fevereiro.

Na conta

O restante (R$5,9 mil) veio da nebulosa “verba indenizatória”: R$2,1 mil em janeiro; valor que se repete em fevereiro, e R$1,6 mil em março.

Só em penduricalhos

Messias recebeu em 90 dias o que o brasileiro levaria quase dois anos (22 meses) ganhar, considerando salário médio de R$3,7 mil (Pnad).

Diário do Poder

segunda-feira, 4 de maio de 2026

'Hayek por ele mesmo – Parte I' - Friedrich A. Hayek

 

Nota do editor:

Este artigo integra um dos capítulos do livro Hayek na UnB. O capítulo em questão consiste na transcrição das palavras proferidas por Hayek diante do público presente na ocasião e foi dividido em duas partes. O evento ocorreu entre os dias 11 e 12 de maio de 1981, há quase 45 anos.


É claro que, de vez em quando, fazem-se reflexões a respeito de tudo que nos ocorreu e, à medida que se vai envelhecendo, nos tornamos muito mais conscientes das diferenças entre a visão de quem tem 60 anos ou mais e a dos ingênuos começos, o que gradualmente nos leva àquilo que se imagina ser uma visão abrangente das coisas.

Confesso que adoro ler biografias ou autobiografias de outros intelectuais, já que muito aprendo com elas. Mas esse tipo de literatura também me causa certas dúvidas. Um dos problemas é que não gosto quando as pessoas, ao invés de ler os trabalhos de um autor, preferem ler a respeito do autor. Mesmo assim, não me é fácil resistir ao seu fascínio, mas penso que jamais me tornei vítima daquela crença errônea de que se pode explicar a visão de um autor, a partir de seus dados biográficos. Talvez, algumas vezes, possamos explicar os erros que as pessoas hajam cometido, considerando as circunstâncias de tempo. Contudo, não creio que jamais se possa saber a razão pela qual alguém defendeu determinados pontos de vista, ou seja, o que levou tal pessoa a isto.

 O fascinante acerca de alguém sobre quem vale a pena ler algo é saber como essa pessoa reagiu aos desafios que encontrou pela frente. E isso nunca é previsível. Admito estar em moda, nos tempos modernos, no campo das autobiografias, acreditar-se ser capaz de explicar, por que as pessoas tinham certo tipo de visão, utilizando-se isso até para refutá-las. Acredito, francamente, que tal coisa constitui um tipo de afetação e um absurdo.

Mas, comecemos pelo verdadeiro início. Tive a sorte de nascer em uma boa família de classe média, de tradições intelectuais. E, no que se refere às minhas ligações com a ciência, meus interesses, no início, influenciado pelos meus ancestrais, se situavam inteiramente no campo das ciências biológicas. Meu avô e meu pai foram zoólogo e botânico, respectivamente, e as discussões, em minha juventude, eram dominadas pelo interesse em relação à teoria da evolução. Foi justamente a época em que foi descoberto o complemento essencial à teoria evolucionária de Darwin — a genética de Mendel. E quase todas as discussões científicas – lembro-me bem – giravam em torno disso, na medida em que a teoria darwiniana estava finalmente se tornando inteligível através das teorias de Mendel. Mas – e aí também foi acidental — um dos redescobridores de Mendel, que, como todos sabem, antes não era levado muito a sério, era um amigo muito íntimo de minha família. E quando eu era jovem e começava a me envolver com a comunidade científica da área da Zoologia e da Botânica em Viena, um dos assuntos mais populares era contar a história deste homem extraordinário, Mendel, que havia descoberto a moderna teoria genética. Eu estava, portanto, praticamente convencido de que me transformaria em alguma espécie de biólogo.

Mas, então, começaram os distúrbios da época da Primeira Guerra Mundial, com a evidente ameaça de dissolução do império Austro-Húngaro, problemas que cada vez mais desviavam minha atenção das ciências biológicas para as questões ligadas aos governos e à própria vida. Curiosamente, eu quase que posso precisar exatamente o momento em que decidi mudar. Quando atingi o penúltimo ano do Gymnasium, em 1916, estávamos no curso introdutório à Filosofia, e nosso professor nos ensinava que o grande pensador Aristóteles havia dividido a Ética em três tópicos: Moral, Política e Economia. De repente, me veio a inspiração: “É isto que desejo estudar”. E fui para casa e disse ao meu pai, o botânico: “Vou estudar Ética” idéia de que o filho de uma família de cientistas desejasse estudar Ética, e alguns dias mais tarde me presenteou com algumas cópias de um trabalho de um filósofo positivista do século XIX, para me demover daquela idéia absurda e me levar de volta ao verdadeiro estudo da ciência.

Bem, mas aquele autor, Feuerbach – talvez este nome seja conhecido de alguns de vocês – não me impressionou muito, e continuei insistindo naquela minha idéia.

Inclusive, durante os dois anos em que servi ao Exército, no fim da Primeira Guerra Mundial,comecei a ler sobre Economia. Os primeiros dois livros que caíram em minhas mãos eram tão ruins que, hoje, fico surpreso ao pensar como eles não foram capazes de me fazer desistir daquilo. Mas, para estudar Economia tinha-se que, naquele tempo, estudar Direito. Era o único modo de se estudar Economia em Viena. Quando a guerra acabou, as circunstâncias daquele momento só fizeram aumentar meu fascínio pelos problemas econômicos e políticos, e eu me tornei estudante de Direito na Universidade de Viena. Minha visão política era, então, moderadamente reformista. Eu havia sido grandemente influenciado por um homem, na época, muito influente, mas que agora está inteiramente esquecido, um grande industrial alemão, que administrava a utilização das matérias-primas austríacas durante a Primeira Guerra, a exemplo do que fez Galbraith nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, e que havia descoberto um tipo de planejamento análogo ao preconizado pelo socialismo fabiano inglês.

E aquilo me pareceu realmente digno de estudos. Mas, de fato, durante certo tempo, embora formalmente eu estivesse disposto a estudar Economia, meus interesses, de certo modo, ainda se encontravam divididos. Talvez como resultado de meu envolvimento inicial na área da Biologia, o interesse pela Economia competia com o interesse pela Psicologia. E, enquanto eu terminava meu curso de Direito com bastante sucesso, dividia meu tempo entre a Psicologia e a Economia. Bem, mas quando terminei e tive que escolher uma ocupação, penso que foi muito mais o fato de saber que a Economia oferecia um campo de trabalho, e que o mesmo não ocorria com a Psicologia, que me fez procurar definitivamente na Economia um meio de vida.

Devo mencionar, contudo, já que isto se tornaria muito importante mais tarde,que a primeira coisa que escrevi em meus tempos de estudante foi sobre Psicologia e não sobre Economia. Tratava-se de uma tentativa de explicar como as diferenças entre as percepções sensoriais, o que se costuma chamar de a qualidade da experiência, podem ser fisiologicamente explicadas. Mas eu o coloquei de lado por uma razão muito curiosa, da qual eu estava bem ciente. Estava convencido – e ainda estou – de haver encontrado resposta para um importante problema. Mas eu não poderia prová-la, o que é algo diferente do instinto que se tem quanto a se ter chegado a uma importante conclusão, e, assim, inteligentemente, deixei de lado aquele manuscrito. Tinha que começar a trabalhar, o que se verificou em uma função não muito importante, de caráter temporário, na área governamental, em um dos organismos criados como resultado do primeiro tratado de paz e que cuidava dos débitos anteriores à guerra existentes entre os países beligerantes. Trabalhei naquela repartição, como funcionário civil, por cerca de cinco anos, dos quais, entretanto, despendi um ano e meio – conforme explicarei como estudante de pós-graduação nos Estados Unidos.

Mas o mais importante foi o fato de que nessa ocasião entrei em contacto com um homem que se tornou muito influente no desenvolvimento do meu pensamento posterior. Na Universidade de Viena havia uma enorme tradição, no que se refere ao estudo da Economia. Talvez este fato tenha contribuído muito para minha decisão em favor do estudo da Economia, em lugar de me dedicar à Psicologia. Isto porque todos os grandes psicólogos haviam morrido e não havia ninguém de importância para me ensinar Psicologia, enquanto havia um ou dois eminentes nomes na área da Economia.

O fundador da escola, Carl Menger, ainda estava vivo. Cheguei a vê-lo uma vez e, inclusive, quando ele morreu, no mesmo ano em que me diplomei, fui chamado a dar sugestões, tanto a respeito de sua biblioteca, quanto acerca dos manuscritos que ele havia deixado. Era um trabalho extremamente interessante, pois era evidente que esse homem, que morreu com uma idade que eu então pensava ser muito avançada – apenas um ano mais jovem do que sou agora – havia concluído um livro muito importante cerca de dez anos antes de perder totalmente suas forças, mas continuou a corrigí-lo e a modificá-lo, até que se tornou completamente ininteligível e sem condições de ser usado. O que se poderia fazer era, já que se havia estudado algumas vezes velhos manuscritos, um esboço do que poderia ter sido o texto original daquele livro muito importante. Mas, quanto a mim, pelo menos, eu não estava pretendendo gastar o resto de minha vida tentando decifrá-lo. E isto nunca foi feito.

Um de seus principais discípulos, porém, Friedrich Von Wieser, tornou-se meu professor. E também já se encontrava lecionando na Universidade, como conferencista, na qualidade de Senior Lecturer, Ludwig Von Mises, que pertencia a uma geração que se situava entre a minha e a de Wieser, Mas Mises era de tal maneira anti-socialista, que, quando pela primeira vez eu analisei suas conferências, ele me repeliu como radical extremado. Mas, quando Wieser me recomendou a ele como chefe provisório do escritório governamental, eu me tornei intimamente ligado a ele e passei, então, a dever-lhe muito. Penso que, de certo modo, foi uma grande vantagem o fato de eu ter chegado a ele como economista já bem treinado. Há um certo perigo em nos tornarmos um discípulo demasiado entusiasmado de alguém, e eu conheço muitas pessoas que mais tarde se tornaram discípulos de Mises e se transformaram em fanáticos seguidores de suas doutrinas. Quanto a mim, no entanto, muito bem treinado à época em que o encontrei, embora ele me convencesse sobre vários pontos importantes, sempre absorvi suas idéias de modo crítico. E durante aqueles dez anos em que estive em contato estreito com ele, suas obras, particularmente seu importante trabalho sobre o Socialismo, publicado em 1922, exerceram uma grande influência em mim. Aprendi a acreditar que, de maneira geral, ele estava certo em suas conclusões, embora eu jamais tenha ficado inteiramente satisfeito com seus argumentos. E eu sei por quê. Mises era, ele próprio, um produto ainda daquela tradição racionalista, construtivista, da qual emergiu o socialismo. Ele havia contestado muitas das conclusões socialistas, mas jamais conseguiu destruir, de forma completa, a filosofia da qual emergiu o socialismo. E meu trabalho, em sua maior parte, destinou-se exatamente a expor as idéias de Mises, libertando-as daquele background filosófico, o mesmo racionalismo francês e do utilitarismo inglês, e reformulando-as em termos de um background de caráter evolucionista.

Mas isto me tomou muito tempo. Voltarei a falar sobre o assunto.

Tendo decidido, de forma definitiva, que eu utilizaria os anos que passei a serviço do governo para me qualificar, no sentido de obter um trabalho na área universitária — o que na época se tornava possível escrevendo-se uma tese importante, a fim de se obter o título de conferencista, e, talvez, mais tarde, ter a chance de conseguir uma cátedra – cheguei à conclusão de que para me tornar um economista teria de conhecer melhor o mundo. E isto significava, já então, conhecer os Estados Unidos. Tinha-se razoável idéia do mundo europeu, vivendo-se no centro da Europa, mas as novidades, os grandes desenvolvimentos, naquele início do período entreguerras, estavam certamente ocorrendo nos Estados Unidos. Assim, eu estava ansioso por permanecer um ano ou mais como estudante naquele país. Foi antes das bolsas de estudo da Fundação Rockefeller, ou melhor, quando a concessão delas não havia sido estendida aos países considerados ex-inimigos. Assim, embora as bolsas já existissem, eu, na condição de austríaco, ainda não podia pleitear uma delas. Decidi, portanto, ir para os Estados Unidos às minhas próprias custas e por meus próprios riscos.

Eu havia obtido como que uma promessa de um professor visitante americano, que, como quase todos os professores americanos, tendo visitado a Europa, decidira escrever um livro sobre a Europa e, assim, utilizar-me como seu assistente, por eu estar familiarizado com as condições européias. Deste modo, prometeu-me ele que, se eu fosse para os Estados Unidos, ele me empregaria por algum tempo e, assim, eu poderia viver com certa tranquilidade. Bem, tendo conseguido juntar algumas economias no pequeno intervalo de seis meses, decorrido entre o fim de nossa inflação e o dia em que parti, cheguei a New York com vinte e cinco dólares no bolso, sendo informado de que o tal professor — não mencionarei seu nome — havia viajado de férias e deixado instruções para não ser perturbado. Mas eu havia também levado comigo algumas cartas de apresentação de Joseph Shumpeter, que em 1914 havia estado na América do Norte como professor visitante e que, por conseguinte, era o único economista austríaco em contacto com economistas americanos. E eu comecei a entregar essas cartas, com cada uma das quais eu conseguia um jantar… e nada mais.

Minhas ambições e esperanças começaram, portanto, gradualmente, a se reduzir. Era possível ainda viver-se, então, em New York, por duas semanas, como um imigrante visitante, com vinte e cinco dólares e mais cinco dólares, que alguém havia colocado sorrateiramente em um pacote de cigarros que me havia dado. Mas, ao fim de quinze dias, eu havia chegado ao fim de meus recursos e estava a ponto de, em desespero, conseguir um trabalho como lavador de pratos em um restaurante da Sexta Avenida, em New York. Aí, para grande alívio meu – mais tarde, um arrependimento sem fim – antes que eu começasse a lavar pratos em New York, recebi um telefonema de alguém que me dizia que o Professor “X” havia regressado das férias e que desejava ver-me. No momento, foi um grande alívio o fato de eu não ter que lavar pratos, mas como teria sido interessante, para o resto de minha vida, eu contar que havia começado minha vida em New York como lavador de pratos … Não posso fazê-lo!… Nunca o fiz!…

Bem, trabalhei, então, durante seis meses, como assistente de Jenkins e outros onze ou doze meses como estudante bolsista na Universidade de New York. Mas eu me sentia enormemente desapontado em relação ao estágio em que então se encontrava a economia americana. Em termos de teoria econômica, descobri — ou acreditava haver descoberto – que, em Viena, nós sabíamos mais que os americanos. Mas os americanos haviam inovado grandemente em determinada direção. Foi durante o período da Primeira Guerra, e imediatamente após iniciou-se o moderno desenvolvimento das estatísticas econômicas e, em particular, algo que era completamente desconhecido antes, ou seja, a análise das teorias dos ciclos de tempo – time’s cycles theories – que tornava possível detalhar as flutuações ocorridas na área econômica. Assim, gastei a maior parte do tempo, na América, aprendendo estatísticas econômicas, que mais tarde me ajudaram grandemente. Isto porque da América é que surgiu a moda da análise estatística de prognósticos sobre o caráter cíclico dos negócios.

E é claro que os austríacos desejavam criar seu próprio instituto local. E, considerando-se que eu era o único que havia permanecido na América e apreendido as novas técnicas, fui afinal designado diretor desse novo Instituto, onde deveria realizar estudos ligados a tais prognósticos. Eu jamais me havia entusiasmado muito com isso — na verdade, as análises que eu havia feito me tornaram extremamente descrente em relação ao assunto, embora esse tipo de approach estatístico realmente facilitasse a elaboração de previsões.

  Bem, de modo bastante curioso, obtive certa reputação naquilo que eu agora chamaria de um tipo de previsão bastante fraudulenta. Algumas vezes, sou considerado como tendo sido o único a prever o crash da economia americana em 1929. E, indiretamente, isto é fato. Como eu editava um informativo mensal sobre a situação dos negócios, eu tinha que falar sobre o projeto em que a Áustria se engajara, de recuperar-se da grave depressão por que estava passando. E, por acaso, eu mencionara que havia pouca esperança do sucesso desse projeto, já que as taxas de juros se mantinham tão altas, com todo o capital sendo atraído para a Bolsa de Nova Iorque, e isto fazia com que o capital se tornasse bastante escasso no resto do mundo, já que estava indo diretamente para os bolsos dos especuladores de Nova Iorque. Eu disse, então: “A recuperação terá que esperar até que a Bolsa de Nova Iorque entre em colapso…” E acrescentei: “…o que não demorará muito a acontecer”

  Estas declarações, feitas em fevereiro de 1929, me fizeram ganhar a reputação de haver prognosticado o crash da Bolsa de Nova Iorque.

   De fato, apesar de que minha ocupação principal se situava no terreno das estatísticas, eu estava muito mais interessado na explicação teórica de tudo isto. Tanto que a maior parte do meu trabalho no Instituto era dedicada à elaboração de um estudo mais aprofundado das causas das flutuações verificadas no setor industrial. Por volta de 1929, eu havia completado um esboço de uma teoria sobre o caráter cíclico dos negócios, novamente baseada naquilo que Mises havia sugerido em seu importante Livro sobre a moeda, publicado em 1912. De fato, eu pensara, primeiramente, que eu estava meramente repetindo o que Mises havia dito, mas o que me fez transformá-lo em livro foi o fato de Harbeler me dizer: “Você não pode pretender que isto seja amplamente entendido. Você se refere à teoria de Mises, mas tal teoria não é encontrada em lugar nenhum. Assim, seria melhor se você a reproduzisse”. Achei que reproduzi-la não seria tarefa muito fácil, e, assim, em 1929, produzi meu primeiro livro sobre teoria monetarista e caráter cíclico dos negócios. E isto me conduziu na direção de dois principais conjuntos de problemas: a teoria da moeda e a teoria do capital.

  Em minha análise sobre o caráter cíclico dos negócios estas duas coisas estão intimamente interligadas. E comecei a planejar um estudo mais aprofundado da matéria. Deste modo, acidentalmente, cheguei a uma teoria que viria a tornar-se extremamente importante para a minha carreira futura. Os alemães ou, mais especificamente, o grande sociólogo Max Weber, haviam iniciado, antes da guerra, um importante trabalho enciclopédico de cerca de vinte volumes, A Teoria da Moeda e a Teoria da Economia e da Sociedade, para a qual Weber contribuiu com sua própria vida. Estava praticamente completo, exceto quanto ao volume sobre moeda, cujos autores que dele sucessivamente se encarregaram haviam morrido um após o outro. Assim, aquele volume ainda estava por ser escrito. E o editor, desesperado, ansioso por encontrar alguém que pudesse prepará-lo rapidamente, voltou-se para o jovem conferencista-assistente de Viena, para saber se ele poderia fazê-lo. Aceitei o encargo, mas, por motivos que presumo serem bons, me convenci de que o que geralmente faltava aos economistas era um bom levantamento, tanto sobre a história da teoria monetarista, quanto da política monetária. Comecei, portanto, a escrever grande parte do livro sobre a história da moeda. E me encontrava justamente começando a trabalhar sobre o desenvolvimento da política e da teoria monetarista na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, quando, inesperadamente, recebi um convite de Londres para fazer uma série de conferências sobre a teoria do caráter cíclico dos negócios.

  Posso dizer que este foi o grande golpe de sorte em minha vida. Primeiramente, o simples fato de que, em Londres, um jovem professor ligado à área empresarial, pudesse ler alemão suficientemente bem para considerar importantes os estudos alemães; em segundo lugar, o fato de eu haver passado quase dois anos na América e ser capaz de fazer conferências em inglês; em terceiro lugar, o fato de eu ter acabado em conceber o esboço de uma teoria sobre as flutuações do mercado de negócios, apesar de não conhecer todas as dificuldade a ela inerentes, tais fatores, na ocasião em que fui convidado a falar sobre tudo isso em quatro conferências, me encorajaram a completar rapidamente aquele estudo. Se eu tivesse sentado para escrever algo ponderável sobre o assunto, muito provavelmente eu teria produzido um volume que me teria feito trabalhar durante uns dez anos para completá-lo e, no final, ninguém jamais iria lê-lo. Assim, o fato de ter sido solicitado a falar sobre todo o assunto, em quatro conferências, me ajudou extraordinariamente. Aí vem a última parte desse golpe de sorte: o fato de eu haver preparado aqueles capítulos introdutórios de meu livro sobre teoria monetarista, e haver dedicado três meses ao estudo da teoria monetarista e da política monetária da Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, me fez chegar lá, sabendo mais do que qualquer outra pessoa que por acaso estivesse presente naquele auditório em Londres.Como resultado desse conjunto de circunstâncias, foi-me ofertada uma cátedra na

London School of Economics. Recordo-me de que isso, na época, se constituiu em um acontecimento excepcional. Ou seja, o fato de um jovem professor, de 32 anos, ser chamado da Áustria para a Inglaterra, a fim de assumir uma cátedra na Universidade de Londres, causou certo sensacionalismo e surpresa.




Friedrich A. Hayek - Mises Brasil