“Mamãe, eu quero mamar” é a marchinha rotineira dos próceres da
República de Tayayá
Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por I
“Tudo isso se combina para preparar o terreno para a pompa ruidosa de
pseudofestas a serem celebradas ao comando de qualquer despotismo.”
(Josef Pieper, Em sintonia com o mundo: uma teoria da festividade)
N
ão culpo o leitor que, porventura, atribua a causa desta
coluna sobre o Carnaval brasileiro à rabugice e ao
envelhecimento precoce do autor. Por um lado, como é de
hábito natural, não há dúvida de que estou ficando mais
velho. Por outro, tampouco há dúvida de que, assim como até mesmo o
mais otimista dos cidadãos, ando um tanto quanto rabugento com a
degradante situação sociopolítica nacional. Ainda assim, contudo,
posso garantir que minha abordagem do tema não decorre do meu
estado de espírito.
Não é de hoje que o brasileiro se orgulha de sua vocação festiva. Eu
mesmo, quando jovem e solteiro, já tive minha fase carnavalesca. Não
há aqui, portanto, nenhuma diatribe contra a festa e a alegria. Muito
pelo contrário. O problema não reside na alegria — essa disposição
fundamental da alma que afirma o ser —, mas na mutação espiritual
que a converte em estímulo incessante, em necessidade de excitação
contínua, como se o silêncio fosse uma ameaça e o recolhimento, uma
forma de fracasso, quase um ato de impiedade.
Como, aliás, já observei em uma coluna antiga sobre o mesmo tema,
o que tem me chamado a atenção no Carnaval no Brasil de hoje é
justamente a sua aparência menos alegre e mais extática, como se se
tratasse de uma necessidade desesperada de escape. O que outrora
era intervalo ritualizado tornou-se uma atmosfera permanente, e o
que antes funcionava como inversão temporária converteu-se em
paradigma cultural. Falta ao folião contemporâneo a virtude que,
sempre inspirado em Aristóteles, São Tomás de Aquino chamava de
eutrapelia — o uso moderado do divertimento.
Historicamente, o Carnaval encontrava sua inteligibilidade no
contraste com a Quaresma. A exuberância precedia o jejum; o riso, o exame de consciência; o excesso, a disciplina. A desmedida possuía
contorno, e exatamente por isso educava, ao reconhecer tacitamente
um limite. A inversão ritualizada das hierarquias — o servo que
zombava do senhor, o grotesco que ridicularizava o solene, o homem
que se vestia de mulher — durava alguns dias, apenas o suficiente para
reafirmar, ao término da folia, a estrutura da ordem.
O riso, quando
enquadrado, fortalecia aquilo que parecia subverter.
Mas quando o intervalo se torna permanente, já não há contraste que
eduque, nem retorno que reordene. Uma sociedade não pode
permanecer saudável quando o rito se converte em rotina. É
justamente o que o Brasil fez com o Carnaval. “Mamãe, eu quero
mamar” — não é mais um refrão sazonal, mas a marchinha rotineira
dos próceres da República de Tayayá.
Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA
Quando se suprime o contraste, suprime-se também o sentido. Em sua
meditação sobre a festa, o filósofo Josef Pieper recorda que ela não é
mera explosão de energia coletiva, mas afirmação jubilosa da
realidade enquanto criação. Celebrar é dizer “sim” ao mundo; é
reconhecer, ainda que simbolicamente, que o ser é bom e digno de gratidão. A festa nasce do culto e a ele retorna; é derivada, não
autossuficiente. Quando se emancipa dessa moldura ontológica, deixa
de celebrar algo que a transcenda e passa a celebrar a si mesma,
fechando-se num circuito autorreferente, degradando-se em
entretenimento vulgar e daí ao puro hedonismo niilista.
O Carnaval brasileiro contemporâneo, com toda a sua grandiosidade
financeira, tecnológica e midiática, parece ilustrar essa rarefação
simbólica: conserva a escala, mas perde a densidade; mantém o
volume, mas dissipa o horizonte. Sem Quaresma — não apenas no
calendário litúrgico, mas na consciência moral coletiva —, a festa deixa
de ser prelúdio e converte-se na ordem social permanente. O excesso
já não aponta para purificação alguma, mas limita-se à repetição
infinita, convertendo-se em tautologia.
Resta que esse deslocamento não permanece confinado às avenidas.
Infiltra-se na própria forma da vida pública. O episódio do desfile da
Acadêmicos de Niterói, financiado com recursos públicos e
transformado em homenagem explícita ao mandatário da República,
que ali compareceu como figura central da alegoria, não é apenas um
crime eleitoral flagrante, mas também um sintoma da nossa
carnavalização institucional.
A oposição anuncia medidas judiciais,
por óbvio, mas o tribunal eleitoral companheiro — no qual as togas
viraram meros adereços — provavelmente fará o que vem fazendo
desde, ao menos, 2022: agir politicamente e favorecer
descaradamente o seu próprio partido. Deve-se, contudo, registrar
para a posteridade o significado simbólico da cena: o governante
convertido em enredo, o poder transfigurado em espetáculo, a cultura
absorvida pela coreografia do aplauso.
Não é difícil reconhecer, sob o brilho carnavalesco dos trópicos, uma
lógica antiga: aquela em que o Estado e a representação estética se
fundem numa pedagogia de exaltação. Regimes totalitários do século
20 — de signos ideológicos distintos, quer fascistas, quer comunistas —
compreenderam muito bem o poder da encenação pública como
instrumento de legitimação. Nunca se elaborou tanto a liturgia do
poder como durante esses regimes, modus operandi ora copiado pelo
regime PT-STF-Globo. O que antes era sátira, converteu-se em consagração. Enquanto o carnaval tradicional ridicularizava o poder, o
Carnaval do regime PT-STF-Globo o instrumentaliza e exalta.
Lula posa com a bandeira da escola de samba Acadêmicos de Niterói nas mãos - Foto: Acadêmicos de Niterói/Divulgação
Essa inversão revela algo mais profundo do que um mero abuso de
poder político. O grosseiro crime eleitoral cometido traduz uma
cultura que já não distingue com nitidez entre representação e
propaganda, entre celebração e mobilização, entre arte e aparato.
Nessa cultura, tudo é performance, e nada é propriamente sério, uma
vez que a seriedade exige forma e contorno. Tudo vira palco, e a
própria República se converte em sambódromo.
E é claro que, numa cultura que celebra sem penitência, os donos do
poder tendem a governar sem contenção. Sem Quaresma — isto é, sem
um limite reconhecido e interiorizado —, a festa degenera em vertigem
e a política, em espetáculo permanente de pilhagem, brutalidade e
escárnio. O hedonismo cultural encontra seu espelho na
concupiscência institucional, não apenas na forma grosseira da
corrupção, mas na erosão difusa do senso de responsabilidade, na incapacidade de reconhecer que o poder, como o riso, precisa de
moldura.
Talvez o traço mais inquietante de nosso Carnaval não seja, portanto, o
excesso em si, mas a ausência de horizonte que o justifique. Ele
explode, consome e se dissipa, deixando atrás de si não purificação,
mas fadiga; não o silêncio dos satisfeitos, mas a expectativa ansiosa
pela próxima explosão orgiástica, como um vício que já não produz
euforia, apenas dependência. O mesmo se pode dizer de uma política
que vive de narrativas grandiloquentes e de encenações simbólicas,
enquanto a substância administrativa se dilui e a representatividade
colapsa.
Nada dessa constatação implica qualquer nostalgia de uma ordem
ascética ou hostilidade à alegria. A verdadeira alegria, ao contrário da
excitação, supõe forma. Ela não precisa de volume para afirmar-se. É
possível que uma cultura que perdeu a capacidade de silêncio também
tenha perdido a capacidade de júbilo — restando-lhe apenas a
compulsão pela algazarra.
Sem Quaresma, o Carnaval degenera em vertigem. Sem limite, a
política degenera em espetáculo. Uma civilização pode sobreviver a
crises econômicas e disputas ideológicas; o que dificilmente sobrevive
é à dissolução do senso de limite. Sem limite, não há forma; sem
forma, não há ordem; e sem ordem, a liberdade torna-se apenas
palavra repetida em meio a um ruído que é tanto compulsivo quanto
compulsório.
Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA
Quando a festa não celebra mais uma realidade reconhecida como
boa, ela tende a converter-se em compensação. E a compensação,
diferentemente da celebração, carrega sempre um traço de tensão.
Talvez por isso o êxtase carnavalesco brasileiro, tanto nas avenidas
quanto nos palácios, raramente se pareça com contentamento. Ele se
aproxima mais de uma catarse. Como se o país inteiro estivesse
tentando, por alguns dias — ou permanentemente — esquecer algo que
não consegue nomear.
Esse algo — um mal-estar fantasiado — pode ser simplesmente a
ausência de fundamento. Uma sociedade que perdeu o vínculo com
qualquer horizonte transcendente tende a oscilar entre a tecnocracia
fria e o hedonismo ruidoso ou, o que é pior, a misturar os dois
registros, transformando a administração pública em farra.
A verdadeira festa, lembra Pieper, é sempre um “sim” ao mundo.
Quando esse “sim” se esvazia, resta apenas o eco, sonoro e estridente,
de uma afirmação não formulada. Mas o som, por mais estrondoso,
pode até abafá-lo na consciência nacional, mas jamais substitui o
sentido.
Flávio Gordon - Revista Oeste