.
Garricnha entre os jogadores da Tchecoslováquia Jan Popluhar e Josef Masopust em Santiago, Chile. No final da Copa do Mundo de 1962,
disputada em Santiago, no Chile. - Foto: Imago images/Horstmüller via Re via Reuters Connect
N
a noite de um domingo de 1970, dois integrantes da bancada
do programa Grande Resenha Facit, transmitido pela Globo,
duelaram ao comentar o momento mais polêmico do jogo
entre o Botafogo e o Fluminense, disputado horas antes. O
botafoguense João Saldanha continuava indignado com o juiz que
deixara de apitar o pênalti sofrido por um atacante alvinegro. Com a
mesma veemência, o tricolor Nelson Rodrigues retrucava que nada
houvera de anormal. Para resolver o impasse, o apresentador Luiz
Mendes recorreu a uma novidade tecnológica e ordenou que o lance
fosse reprisado em videoteipe. Ficou claro que Saldanha tinha razão:
fora pênalti.
Nelson Rodrigues encerrou o embate com outra frase
admirável:
“Se o vídeo diz que foi pênalti, então o videoteipe é burro”.
Nelson Rodrigues dispensava a realidade para escrever tanto peças
teatrais que nunca serão antigas quanto magníficas crônicas
esportivas, algumas delas adornadas por profecias espantosamente
exatas. Ele enxergou o destino de Pelé, por exemplo, quando o gênio
incomparável tinha 17 anos. “Quando ele apanha a bola, e dribla um
adversário, é como quem enxota, quem escorraça o plebeu ignaro e
piolhento”, escreveu meses antes da Copa da Suécia.
“Sua cabeça,
mãos e ombros, sustentam coroa, e um manto invisíveis.
Racionalmente perfeito, ponham-no em qualquer lugar e sua
majestade dinástica há de ofuscar toda a corte ao redor.”
Nelson Rodrigues começou a carreira jornalística aos 13 anos, no Rio de Janeiro - Foto: Reprodução/Flickr
O problema era o complexo de vira-lata, lastimava. “É assim que eu
chamo essa inferioridade em que o brasileiro se coloca,
voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores,
sobretudo no futebol. Somos narcisos às avessas, que cospem na
própria imagem”, repetia. Aos olhos do cronista, esse defeito de
fabricação alcançou dimensões siderais em 1950, quando o Uruguai
venceu o Brasil, conquistou a Copa do Mundo e impôs ao Maracanã o
mais estridente silêncio de todos os tempos.
“Por que perdemos em
1954, na Suíça, para a Hungria?”, indagou Nelson. “Vejam as
fotografias dos dois times entrando em campo. Enquanto os húngaros
erguem o rosto, olham duro, empinam o peito, nós baixamos a cabeça
e quase babamos de humildade. Com Pelé no time, os outros é que
tremerão diante de nós”.
Tremeriam mais ainda com outro craque assombroso ao lado de Pelé.
“Até Deus, lá do alto, há de admirar-se e há de concluir: esse Garrincha
é o maior! Ele não trata a bola como fazem os outros. Ele cultiva a bola,
como se fosse uma orquídea rara”. Não merecia menos que a taça
aquele grupo que se confundia com o Brasil. “O escrete é a pátria em calção e chuteiras, a dar rútilas botinadas em todas as direções”, vivia
lembrando o cronista. “O escrete representa os nossos defeitos e as
nossas virtudes. Em suma: o escrete chuta por milhões de brasileiros.
E cada gol do escrete é feito por todos nós”.
Amigos do escritor sussurravam que problemas na visão o impediam
de ver com nitidez o que se passava no gramado. Nesse caso, o cérebro
poderoso olhou por ele. “A mais sórdida pelada é de uma
complexidade shakespeareana”, ensinou. A paixão pelo escrete seria
plenamente recompensada em 1970 pelo triunfo no México.
“Foi a
mais bela vitória do futebol mundial em todos os tempos”, extasiou-se
no dia seguinte ao da goleada contra a Itália. “Desta vez, não há
desculpa, não há dúvida, não há sofisma. Desde o Paraíso, jamais
houve um futebol como o nosso”. Também não houve, nem haverá, um
cronista esportivo tão admirável quanto Nelson Rodrigues.
Para compensar a baixa qualidade da primeira etapa da Copa mais
longa da história, nada melhor que a leitura do box “As Copas de
Nelson Rodrigues”, editado pela Nova Fronteira. Três volumes reúnem
150 textos sobre seis campeonatos. Com o escritor genial em campo,
todo jogo vira clássico, vale taça, lota o estádio e emociona a plateia.
Sejam quais forem o time adversário, o ano da disputa, o pior ou o
melhor em campo e o resultado da partida, o leitor sempre sai
ganhando. Perdem de goleada as editorias de Esporte do jornalismo
brasileiro.
Com exceção do ótimo Tostão, que brilha na Folha de S.Paulo
duas vezes por semana, não resta na praça nenhum colunista
esportivo que preste.
A tribo dos incapazes capazes de tudo tem como pajés a dupla que
sobrevive bajulando o governo em redes sem seguidores e vídeos sem
espectadores. Ambos dependentes da maloca de Lula, têm chiliques
ao saberem que uma mulher está participando da cobertura da Copa
sem ter providenciado o diploma de jornalista.
Andam arrancando os
cabelos ralos desde que Neymar foi convocado. No momento, tentam
interferir na escalação do time formado por jogadores que nunca
viram jogar. Todos têm contratos com clubes estrangeiros, e
incompetentes estatizados só aparecem em estádios no Exterior
quando conseguem adjutórios para passagens e ingressos.
A lista
liderada pelos vigaristas setentões é completada por nulidades que
Nelson Rodrigues decerto enquadraria na categoria dos cretinos
fundamentais.
Augusto Nunes - Revista Oeste