sábado, 18 de julho de 2026

Banco Master, de Vorcaro, emprestou R$45,5 milhões a ex-ministro e amigo do ex-presidiário Lula

 Ex-controlador do Master comprou 25,8% do laboratório Biomm, da família de Walfrido dos Mares Guia



Walfrido dos Mares Guia na inauguração da Biomm, de Vorcaro, agradece ao amigo Lula - Foto: assessoria/PR.


O ex-ministro do governo Lula (PT) Walfrido dos Mares Guia foi beneficiário de duas cessões de crédito de R$45,5 milhões provenientes do Banco Master, cujo controlador Daniel Vorcaro virou sócio com maior número de ações (25,8%) da farmacêutica Biomm, antes controlada pelo político que é um dos amigos mais próximos do presidente da República.

O Diário do Poder revelou em 5 de março deste ano que a inauguração das novas instalações da Biomm, em Nova Lima (MG), já com Vorcaro como sócio, contou com a presença do próprio Lula, acompanhado de comitiva de ministros, inclusive a então ministra da Saúde, Nísia Trindade, Alexandre Padilha, que depois assumir a pasta da Saúde, Fernando Haddad (Fazenda) E Alexandre Silveira (Minas e Energia), entre outros.

Apesar dos rumores entre políticos mineiros, ainda não foi confirmado por investigação que Vorcaro se fez sócio de Mares Guia no Biomm a pedido de Lula, a fim de salvar a empresa familiar do amigo de dificuldades. Para enfatizar o prestígio do grupo, o governo assinou contratos de R$303,65 milhões para a produção de insulina para o Ministério da Saúde.

Por ocasião da inauguração da Biomm, Vorcaro se encontrava em Londres patrocinando evento sobre o Brasil do qual participavam diversas autoridades. Durante esse evento, Vorcaro pagou uma desgustação de uísque Macallan, um dos mais caros do mundo, com charutos cubanos, em happy hour no luxuoso George Club, do qual participaram ministros do governo Lula como Ricardo Lewandowski (Justiça), do Supremo Tribunal Federal (STJ), do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o diretor da Polícia Federal, entre outros.

Vorcaro detinha 25,86% da farmacêutica através do fundo Catargo, também sob seu controle, mas após a sua prisão as ações foram repassadas para o BRB, como compensação pela venda de carteiras de crédito podres.

Walfrido dos Mares Guia disse que conhece Vorcaro por serem ambos mineiros. O ex-ministro e amigo de Lula conta a versão de que “ele ficou interessado na nossa fábrica de insulina na região de BH, então me ele me procurou, falamos sobre a Biomm, que é uma empresa de capital aberto, e tem inúmeros sócios, e ele adquiriu ações da empresa, como qualquer um poderia fazer”, disse ele à coluna Demétrio Vecchioli, citada pelo site Metrópoles.

Naquela época, em 2023, a Biomm realizou um aumento de capital, com preferência para quem já era acionista. Vorcaro, através do fundo Catargo, comprou as “sobras”, ficando com cerca de 18% do capital, o que foi homologado em janeiro de 2024. Também naquele mês, o Master emprestou R$ 10 milhões a Mares Guia. Em fevereiro, outros R$ 35 milhões.

Diário do Poder

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Adalberto Piotto e 'O desprezo der Lula pelos brasileiros'

 As novas tarifas aplicadas pelos EUA e as compras mais caras nos supermercados mostram que o presidente não está nem aí para o país. Só governa para ele 



Presidente Lula fala com repórteres após reunião na Casa Branca com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Embaixada do Brasil em Washington, DC, EUA (07/05/2026) -  Foto: Reuters/Elizabeth Frantz


Na quinta-feira, 16 de julho, o Brasil acordou com a realidade de uma nova tarifa do governo norte-americano sobre as exportações nacionais. Em que pese o fato de haver várias exceções como suco de laranja, carne bovina, café, peças de aviões, petróleo e celulose, ainda assim a tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras pode atingir mais de 40% de tudo o que vendemos aos Estados Unidos. E atinge sobretudo produtos manufaturados industriais, de maior valor agregado. Isso significa atingir a indústria nacional, a parte que mostrou competência para se inserir na cadeia produtiva americana e que paga melhores salários aqui no país. 

Não por acaso, a nota da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo é dura e aponta o dedo para o governo Lula. O trecho a seguir revela o desprezo de Lula em defender os negócios e os empregos brasileiros porque aposta em supostos ganhos eleitorais. 

“Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral.” 

O comunicado, que ainda reclama da falta de uma condução diplomática técnica e pragmática por parte do governo federal, expõe o ambiente deteriorado da economia brasileira sob Lula numa declaração do próprio presidente da entidade, Paulo Skaf: 

“O mercado norte-americano é o principal destino de produtos brasileiros de alto valor agregado. Esse novo pedágio’ imposto às exportações se soma à crônica realidade enfrentada pelas nossas empresas, que convivem com alta carga tributária e com as taxas de juros reais mais elevadas do mundo, entre outros desafios”. 

Em um post na plataforma X, o secretário de Estado Marco Rubio, outro a quem o presidente brasileiro se dedica a desdenhar com a verborragia inconsequente de sempre, disse que “o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”. Mais adiante, disse que “Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”. 

O segundo homem mais importante da maior economia do planeta, que compra quase US$ 4 trilhões do mundo, entendeu o Brasil e chegou à mesma conclusão que maioria dos brasileiros. Segundo a pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira, o instituto que quase sempre traz levantamentos favoráveis ao governo, desta vez demonstrou que 51% dos entrevistados dizem que Lula não merece um novo mandato. 

Esse número é bem maior que isso, sabemos. Assim como não para em pé que a mesma pesquisa tenha trazido um aumento na diferença das intenções de voto no segundo turno a favor de Lula de 8 pontos em relação a Flávio Bolsonaro.

No dia anterior, a Futura/Apex mostrava empate técnico com diferença de 0,2 ponto percentual a favor de Lula numa simulação de segundo turno. Nesta quinta, o PoderData mostrou que ambos estão em empate técnico com diferença de apenas 2 pontos. 

Não existe eleição ganha de véspera. E desta vez é bem improvável que a tarifa americana gere dividendos eleitorais ao governo. Fadiga de narrativa cansada. Não cola mais. Até porque a conta do supermercado grita. Na lista de produtos da cesta básica, tomate, cenoura e batatainglesa mais que dobraram de preço entre janeiro e junho deste ano. Feijão (+52,8%) e leite (+22%) são outros exemplos. Quem teve aumentos salariais nessa proporção? Embora a inflação oficial de 4,64% registrada pelo IPCA de junho (bem acima do teto da meta) seja uma média ponderada de vários produtos, alimentação é o que mais pesa no orçamento doméstico dos mais pobres. 

Apesar do sofrimento de quem mais precisa que a economia funcione de fato, gerando renda e mantendo estabilidade de preços, Lula faz de conta que esse Brasil não existe e vive obcecado com a eleição de outubro em um projeto de poder que atropela tudo o que vê pela frente. Da ética ao bom senso e da necessidade de governar à obrigação de fazer diplomacia pragmática, nada resiste ao desastre institucional do terceiro mandato do petista. Lula é ele e só. Às favas com o país e os brasileiros que trabalham. O populismo de programas sociais ineficientes que aumentam a pobreza é método. O gasto irresponsável do dinheiro do pagador de impostos, um mero meio para se manter no poder.

Em consórcio com o Supremo Tribunal Federal, que acossa e mantém sob controle os dois presidentes do Congresso, estabeleceu uma ditadura tipo jabuticaba e sabor democracia. Mas democracia não tem meio termo: ou é ou não é. E não temos sido desde, é sempre necessário lembrar, a instalação do malfadado inquérito 4.781, aquele de 2019, os das Fake News, que já dura mais de sete anos e não tem fim. É o “do Fim do Mundo”, como apelidou o então ministro Marco Aurélio Mello, espantado com tantos abusos e ilegalidades. Absurdos que fizeram Alexandre de Moraes se tornar o ministro superpoderoso e incontrolável que acaba de proibir Flávio Bolsonaro de visitar o pai até o fim do primeiro turno.



Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luiz Inácio Lula da Silva e Paulo Gonet, em solenidade comemorativa ao Dia do Soldado, em 2024, Brasília - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 


É nesse ponto que o Brasil está. Como um governo que é fonte dos maiores escândalos de corrupção, que promoveu o maior retrocesso institucional de nossa história, e se beneficia dele, sobretudo com perseguições à oposição, ainda se mantém? Justamente porque a sociedade que deveria reagir não o fez na medida e quando deveria ter feito. 

À exceção da parte que tira enorme proveito desse absurdo estado de coisas — como o lulismo e seus puxadinhos nos Três Poderes, nas entidades de classe, na mídia e nas universidades, porque ganha dinheiro com isso —, a outra parte da sociedade precisa reagir, porque é quem paga a conta. A nota da Fiesp é um alento diante disso tudo. De histórico poder político e participação no debate nacional, ficou inerte por anos durante o pífio mandato de Josué Gomes, filho de José Alencar, o vice de Lula nos dois primeiros mandatos.

Antes, ainda sob a gestão de Paulo Skaf, a Fiesp colocou um pato inflável gigante em frente à sede da entidade na Avenida Paulista, a mais importante do país, em protesto contra o aumento da carga tributária e o desgoverno de Dilma, que endividava o país com gastos descontrolados fora do orçamento, tal como Lula repete agora. O ano era 2016 e se tornou símbolo do impeachment da ex-presidente.

Falei disso outro dia. É preciso que mais gente fale. A nota de agora da Federação das Indústrias de São Paulo, novamente sob o comando de Skaf, não é ainda um novo pato, mas dá sinais de que a sociedade organizada começa a reagir à destruição dos valores nacionais: a democracia e a estabilidade econômica, o compromisso com a lisura pública — catapultada pela Operação Lava Jato — e a diplomacia técnica e de sucesso que marcou o Itamaraty até a chegada do PT ao poder. Na seara econômica, há números e evidências de que o Brasil precisa reagir ao buraco que ameaça o futuro de todos. 

Os números podem ser relativizados, até manipulados por análises tortas. A realidade, não. Segundo dados do próprio governo aferidos pelo CadÚnico, a população de rua praticamente dobrou nos três anos e meio deste terceiro mandato de Lula. Saiu de 198 mil, em dezembro de 2022, para 392 mil, em junho deste ano. Um aumento de 97,4% de cidadãos brasileiros transformados em zumbis sociais por falta de crescimento econômico real. 

Como pode a taxa de desemprego estar em seu patamar mais baixo? Que medição é essa? O desalento está visível nas ruas, assim como 50 milhões de brasileiros dependem do Bolsa Família, o maior programa social do país, que se transformou em mero assistencialismo porque não tem porta de saída. Programa social que gera dependência eterna é cabresto eleitoral. Fato é que os números do IBGE mostram um dado. Seus olhos, a vida real. Não existe programa social ou de mitigação de pobreza mais eficiente que emprego.

E para se ter emprego é preciso um ambiente saudável para investir e democracia de verdade. Com a maior taxa real de juros do mundo — porque Lula promove uma bomba fiscal que vai explodir ainda este ano ou no colo do próximo presidente, e insegurança jurídica monstruosa somada a uma das maiores cargas tributárias do planeta —, o governo impede a recuperação econômica. Crédito caro e escasso, por causa dos juros altos e porque o governo suga a poupança nacional para financiar seus próprios déficits, afasta investidores e reduz o investimento privado, justamente o que geraria receita saudável e empregos.


Trump e Lula se reúnem à margem da 47ª cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) em Kuala Lumpur, Malásia – 26/10/2025 - Foto: Evelyn Hockstein/Reuters

Ao não negociar com os Estados Unidos por picuinha eleitoreira, Lula coloca em risco os empregos formais e bem pagos das indústrias exportadoras. Os empregos dos brasileiros. Até porque, sufocados no Brasil pela sanha arrecadatória de Lula e de seu ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cada vez mais empresários estão se mudando para o Paraguai e gerando empregos lá. 

O que antes era mera expansão dos negócios, algo normal no setor, tem se revelado busca pela sobrevivência. Cerca de 70% das empresas inseridas no regime de Maquila — tributação menor e simplificada, mão de obra mais acessível e com menos impostos e custo de energia 60% menor — são brasileiras. A tarifa dos Estados Unidos é só um lado da moeda. A China, aliada comunista do governo Lula, impôs cota de exportação para a carne brasileira para proteger seu mercado interno. Na ausência de pragmatismo e diplomacia apartidária, e com o fim da cota já em julho, os produtores brasileiros viram a tarifa de 12% ser elevada para 67%. 

Os Estados Unidos, uma nação democrática, esperaram o Brasil para negociação desde o primeiro tarifaço em abril de 2025, quando o mundo todo foi atingido. Enquanto diplomatas e negociadores da Europa, das Américas e da Ásia faziam check-in em hotéis de Washington, esperando para negociar com a Casa Branca, Lula desdenhou e preferiu o palanque interno. Mesmo agora, com a investigação da Seção 301, que resultou na tarifa de 25%, quando era possível negociar novamente, o governo brasileiro abdicou de defender a indústria nacional. De novo, apostou no confronto de um falastrão só vagando pelo país em cerimônias com plateias amestradas. 

A diferença no caso das exportações de carne para a China é reveladora. Pequim, capital de uma ditadura de esquerda, simplesmente aumentou alíquotas unilateralmente. E Lula continuou falando muito e fazendo nada. Sem um aceno de atuação mais eficiente do governo federal, frigoríficos já diminuíram os abates. Perdem os exportadores, perde a balança comercial, perdem os trabalhadores e perde o país.

Mas Lula quer ganhar a eleição de outubro. Depende dos brasileiros. De cada um.


Adalberto Piotto - Revista Oeste

Augusto Nunes: 'É hora de criar juízo'

 Monumento à insensatez: três antipetistas disputam duas vagas no Senado 


Luiz Marinho, Alexandre Padilha, José Dirceu e Aloizio Mercadante, da esquerda para a direita - Foto: Montagem Revista Oeste/Agência Brasil 


Aberto por Lula em 1982, o desfile dos companheiros que disputaram o governo de São Paulo informa que, no principal Estado da federação, o Partido dos Trabalhadores não lança candidatos; lança ameaças. A passagem do bloco formado por 10 perigos confirma a sensatez do eleitorado residente em território paulista. Além de Lula, foram impedidos de homiziar-se no Palácio dos Bandeirantes Plínio de Arruda Sampaio, Eduardo Suplicy, José Dirceu, Marta Suplicy, José Genoíno, Aloizio Mercadante, Luiz Marinho, Alexandre Padilha e Fernando Haddad. Parece chamada no pátio do presídio para verificar se alguém fugiu.

Por determinação do presidente da República (e único deus da seita disfarçada de partido), Haddad deixou o Ministério da Fazenda para reprisar o fiasco ocorrido há quatro anos. Vai igualar-se a Mercadante, até agora o único a naufragar em duas eleições sucessivas. Em 2022, Haddad conseguiu arrastar-se até o segundo turno, quando foi massacrado por Tarcísio de Freitas, vencedor da primeira rodada. Nas duas etapas da campanha, Haddad apostou todas as fichas na certidão de nascimento: não poderia governar São Paulo um carioca que transferira seu domicílio eleitoral poucos meses antes. O argumento foi pulverizado pelo apoio do presidente Jair Bolsonaro e pelo desempenho de Tarcísio no comando do Ministério da Infraestrutura


Eduardo Suplicy e Marta Suplicy foram candidatos ao governo de São Paulo - Foto: Montagem/Pedro França/Moreira Mariz/Agência Senado

Passados quatro anos, o governador eleito pelo que fizera em vários pontos do Brasil será reeleito — com o apoio de Bolsonaro — pelo que fez na mais desenvolvida unidade da federação. Pelo andar da carruagem, a disputa vai encerrar-se já no primeiro turno. Graças às obras executadas ou em trabalhos de parto, São Paulo está com cara de Estado americano. Ao rejeitar a candidatura à Presidência, o grande administrador esbanjou talento político. Fora do páreo, livrou-se do fogo amigo e livrará São Paulo de outra ameaça lançada pelo PT. Em 2030, vai confirmar que um segundo mandato é mesmo, neste momento, a mais segura das rotas que levam ao Palácio do Planalto. 

Ironicamente, Haddad vai travar o segundo duelo em companhia de duas forasteiras em busca de uma vaga no Senado. Marina Silva nasceu num seringal do Acre e começou a vida política na Câmara dos Vereadores de Rio Branco. Fantasiada de Madre Marina da Floresta, foi senadora e disputou duas vezes a Presidência da República. Simone Tebet nasceu em Três Lagoas, no interior de Mato Grosso do Sul. Foi prefeita, deputada estadual, senadora e, em 2022, candidata à Presidência. Antes de dezembro de 2023, ambas louvaram a Operação Lava Jato e afirmaram mais de uma vez que Lula é corrupto. Esqueceram o que disseram no momento em que o presidente eleito lhes ofertou uma vaga no ministério.

São Paulo costuma acolher com generosidade brasileiros oriundos de outros Estados que decidem começar a carreira política no maior colégio eleitoral do país. Foi assim, por exemplo, com Washington Luiz (o “paulista de Macaé”), com o mato-grossense Jânio Quadros, com o carioca Fernando Henrique Cardoso, com o pernambucano Lula e com Tarcísio de Freitas. Mas São Paulo é pouco receptivo quando alguém muda de endereço para escapar da derrota onde nasceu politicamente. 

O palavrório sobre a Revolução de 1932 avisa que Simone não se livraria de um zero com louvor caso tivesse de escrever 20 linhas sobre qualquer episódio relevante da história de São Paulo. Marina até conseguiu elegerse deputada federal, mas não iria além disso mesmo se descobrisse que Campinas fica mais perto de Jundiaí que de Fortaleza. 

A dupla estaria condenada ao naufrágio pilotado por Haddad se os eleitores decididos a manter Tarcísio no cargo não fossem confrontados Fundação Padre Anchieta é parcialmente ou totalmente … com um monumento ao amadorismo político. Como sabe até o gramado da Praça dos Três Poderes, não existe segundo turno na eleição dos senadores. Em outubro, cada Estado preencherá duas vagas, e todo eleitor poderá votar em dois candidatos. Os devotos de Lula obedecerão à ordem da divindade de botequim: apoiarão Marina e Simone. 

A maioria liberal-conservadora distribuirá seus votos por três candidatos: Guilherme Derrite (PP), Ricardo Sales (Novo) e André do Prado (PL). Todas as pesquisas de intenção de voto vêm avisando que essa divisão absurda poderá resultar na vitória da indecente dobradinha concebida por Lula. Nessa hipótese, o Brasil que pensa e presta perderá duas cadeiras, e terá de enfrentar os alcolumbres e calheiros sem o apoio dos dois novos representantes de São Paulo. 

Tanto os candidatos quanto seus padrinhos precisam ser menos ambiciosos, menos açodados — e mais compassivos com o povo brasileiro. Também para a insensatez existem limites. Estão faltando adultos na sala. 

É hora de criar juízo.


Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e o presidente Lula = Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 


Augusto Nunes - Revista Oeste

O verdadeiro desvio de finalidade

 Ao castigar Flávio Bolsonaro com a proibição de visitar o pai, Alexandre de Moraes patrocina novamente uma farsa política travestida de questão jurídica



Alexandre de Moraes | Foto: Reuters/Adriano Machado


P ara começar, Jair Bolsonaro não deveria ter sido preso — nem ele nem os populares que Alexandre de Moraes caçou implacavelmente depois dos atos do 8 de janeiro, como demonstrou o ministro Luiz Fux no único voto técnico e isento proferido em um julgamento condenado à anulação e à reparação das tantas vítimas que o STF fez. Isso posto, e enquanto o país evita encarar a ilegitimidade das decisões de Moraes, sete meses depois do escândalo envolvendo as relações dele e de sua mulher com o banqueiro preso em razão do maior golpe já praticado contra o sistema financeiro, uma nova campanha eleitoral está prestes a começar e as cartas, como em 2022, parecem estar marcadas. 

No sábado, 11, uma carta de Jair Bolsonaro veio a público para informar que Flávio Bolsonaro é seu porta-voz, e para reafirmar que o filho zeroum é o nome em que ele deposita suas esperanças “para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”. 

Parênteses: das três palavras que o capitão plasmou no papel, com seu garrancho, “corrupção” deve ter sido a mais indigesta para Moraes, que há mais de sete meses não dá satisfações à sociedade sobre que diabo de negócio foi aquele que sua mulher firmou com Daniel Vorcaro no valor de R$ 129 milhões, cifra que escandalizou as bancas mais renomadas do país. 



O ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a advogada Viviane Barci, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes - Foto: Reprodução/X 


A carta foi lida por Flávio em uma live, atrapalhando o sábado de muita gente nas hostes do regime STF-PT. Um rebuliço geral no consórcio do poder. O deputado petista Lindbergh Farias vociferou de imediato contra o que considerou “burla” à decisão de Moraes de proibir manifestações públicas de Bolsonaro em redes sociais próprias ou de terceiros. Pediu a Moraes, que já foi saudado em ato do governo Lula aos gritos de “Xandão, Xandão” e “Sem Anistia!”, o fim da prisão domiciliar de Bolsonaro e seu retorno ao regime fechado, além de multa de R$ 100 mil a Flávio. 

O jogo ensaiado em que o PT e partidos satélites pedem, e levam, medidas de perseguição a adversários políticos é filme antigo e, pelo visto, ainda em cartaz. Na segunda-feira, por coincidência um dia 13, Moraes já entrou em campo para aplacar as arfantes preocupações de Lindbergh sobre uma possível influência de Bolsonaro na corrida eleitoral. 

Proibiu Flávio de visitar o pai por 90 dias — período que cobre todo o primeiro turno da eleição presidencial. Passou por cima, inclusive, de prerrogativas profissionais de Flávio, que está inscrito nos autos como advogado do pai e, portanto, está amparado por lei em seu direito de visitá-lo todos os dias, por 30 minutos. Mesmo a OAB federal, tão omissa na defesa dos advogados esmagados pelo rolo compressor de Moraes, saiu timidamente do casulo para manifestar sua contrariedade ao ministro. 
O silenciamento de Bolsonaro começou em julho do ano passado, quando Moraes decidiu apagar o ex-presidente das redes sociais, próprias ou de terceiros, o que na prática inviabilizou a concessão de entrevistas. Diante de críticas que recebeu da imprensa, negou que houvesse proibido entrevistas, mas o material não poderia circular pelos meios digitais — algo tão vago e ilógico que, por cautela da defesa, resultou no emudecimento de Bolsonaro. O episódio da carta lida por Flávio só confirma que o pai, e agora ele próprio, estão trilhando um caminho minado, em que cada passo pode ser o último. O mínimo movimento aciona os mecanismos de Moraes e seu repertório de “medidas cautelares” que espancam o direito, como bem sabem os brasileiros simples e honestos que, país afora, estão submetidos a seus caprichos persecutórios.



Capa da Revista Oeste, edição 322. Ministro Alexandre de Moraes | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 

Moraes viu “desvio de finalidade” no ato de Flávio, e antes de ir adiante convém lembrar que esta também foi sua alegação para anular a concessão da graça presidencial ao ex-deputado Daniel Silveira. Esse conceito calha muito bem com a vontade de Moraes de punir quem quiser, e como quiser, atuando no terreno da subjetividade. Se a lei e a justiça não servem para seu propósito, sempre haverá o terreno da “interpretação”. Este terreno fica no seu próprio quintal — o conjunto de decisões abusivas que vem tomando desde março de 2019, com a abertura do infamante Inquérito das Fake News (4.781). 

Para ser coerente, Moraes se referencia em… Moraes. É a jurisprudência do arbítrio. Com base nela, construiu sua decisão de separar pai e filho. “Desvio de finalidade”. O problema de acusar o advogado Flávio de usar com fins políticos o seu acesso a Bolsonaro é que Lula se serviu deste mesmo recurso durante o período em que esteve preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019. Fernando Haddad, escolhido para disputar a presidência em 2018, valeu-se da condição de advogado para despachar rotineiramente com Lula na prisão. Idem, Gleisi Hoffmann. 

Até mesmo um tesoureiro do PT recebeu procuração para ter acesso ao chefe e discutir assuntos do partido e da campanha. E cartas? Lula, em seus 580 dias de prisão, escreveu dezenas, se incluídos os bilhetes de cunho político e eleitoral. Não se sabe quantas correspondências foram, mas podem ter chegado a mais de meia centena. As mais importantes foram lidas em atos políticos que reuniam os petistas em vigília por Lula. Gleisi fez a leitura da primeira carta, em abril de 2018, no acampamento “Lula Livre”. O então advogado de Lula, Cristiano Zanin, hoje membro do STF, fez a leitura de outra carta diante da imprensa. Tornou-se uma situação banal. 

“Nunca cogitei cercear o direito de visita ou de correspondência de Lula”, escreveu, na rede X, o senador Sérgio Moro (PL-PR). O ex-juiz da 12ª vara federal de Curitiba, que coordenou a Operação Lava Jato e sentenciou Lula em primeira instância, lembrou que em 2018 Lula recebeu 572 visitas na prisão, inclusive de Haddad. E que, ao deixarem o local, os visitantes tinham liberdade para contar à imprensa o que quisessem sobre o encontro. “Já Bolsonaro agora não pode mais receber visitas de seu filho, Flávio Bolsonaro, na prisão domiciliar e, pelo jeito, também não tem assegurado o direito de correspondência previsto na lei para todo preso. Falta proporcionalidade e legalidade à decisão do ministro Moraes”, postou Moro.


Notícia publicada na Folha de S.Paulo, no dia 14 de julho de 2026  Foto: Reprodução/FolhaSP 


A comparação entre o tratamento dado pelo STF a Lula, em 2018-2019, e a Bolsonaro, em 2026, mostra uma disparidade estarrecedora. Enquanto cumpria pena, Lula concedeu 22 entrevistas para a imprensa do Brasil e do exterior. BBC News, da Inglaterra, e El País, da Espanha, puderam conversar com ele e amplificar, para o mundo, suas imprecações contra a Operação Lava Jato e o ministério público. 

Bolsonaro, por sua vez, está politicamente intubado. Não pode conceder entrevistas, porque Moraes está à espreita — dele e de quem for entrevistá-lo. Pedidos não faltam, inclusive porque, ao que se sabe, não há entrevistado que rivalize com o ex-presidente em capacidade para turbinar a audiência de qualquer veículo. Até mesmo jornalistas que nos últimos anos aplaudiram ou se mostraram compreensivos com os abusos de Moraes, na crença de que fins justificam meios, questionam agora por que, afinal, o regime precisa impor ao capitão a pena de silenciamento. 

Nesse contexto, o STF, em queda de livre nos índices de aprovação popular, já sente a ferrugem lhe comer. Como conta o repórter Cristyan Costa nesta edição de Oeste, o STF está dividido e claramente hesita sobre o rumo a seguir. É certo que o núcleo duro do regime STF-PT, liderado por Gilmar Mendes, Moraes e Flávio Dino, ainda pode contar com a colaboração acabrunhada de Cármen Lúcia, e com o pragmatismo com punhos de renda de Cristiano Zanin.

O bloco ainda tem, à sua mercê, o dócil Paulo Gonet, colocado na Procuradoria-Geral da República pelo ex-sócio, Gilmar Mendes. Mesmo sendo chefe do Ministério Público e, portanto, fiscal da aplicação da lei, Gonet parece conformado com a reles missão de não criar problemas para Moraes e muito menos para Gilmar.

 Do outro lado, porém, está Edson Fachin, presidente da Corte, agastado com as críticas que Gilmar lhe dirige publicamente e com o apelido de “Frachin”. Em rota claramente divergente do trio Gilmar-Moraes-Dino, entrincheiram-se Luiz Fux e André Mendonça. Junto a eles, mas com a previsibilidade de uma biruta de aeroporto, desponta Kassio Nunes Marques, que preside o Tribunal Superior Eleitoral em um ano de eleição-chave para a redemocratização do país. 

É com Nunes Marques que está o pedido de revisão criminal apresentado pela defesa de Bolsonaro em maio deste ano. Se revisitasse o longo e minucioso voto de Luiz Fux, Marques provavelmente já teria formado convicção sobre a procedência das alegações de erro judiciário. Ali estão apontadas, uma a uma, as truculências que uma Suprema Corte partidarizada praticou contra um ex-chefe de Estado, seus ministros e auxiliares e, principalmente, contra gente do povo perseguida sem escrúpulos nem misericórdia em nome da sustentação de uma farsa política. 

A nulidade da delação de Mauro Cid, vítima de ameaças explícitas de Moraes, inclusive contra sua família, é apenas uma das barbaridades descritas no pedido de revisão, e que parte da elite brasileira reluta em denunciar por falta de coragem, indiferença para com o sofrimento de inocentes, vocação para o conformismo ou, simplesmente, cinismo remunerado por favores e sinecuras.


No mesmo dia do velório de Clezão, primeiro preso do 8 de janeiro morto, Lula concede a Moraes a Grã-Cruz, o mais alto grau da Ordem de Rio Branco (21/11/2023) - Foto: Wilton Junior/Estadão Conteú

Moraes gosta de recorrer ao conceito de desvio de finalidade para negar a alguém um direito facultado por lei. Pois bem: não há maior desvio de finalidade que a presença, na Suprema Corte, de um ministro que ainda não explicou a exorbitância de um negócio de R$ 129 milhões firmado pelo escritório jurídico de sua família com o líder de uma máfia, para usar a expressão empregada pelo seu colega, o ministro André Mendonça. 

Tão grave quanto é a atuação de um ministro que este mesmo capo do crime, horas antes de ser preso, acionou por mensagem de telefone celular com a pergunta: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” 

Moraes quer conduzir a eleição brasileira para um resultado que não traga ameaças a si e a outros ministros contra os quais há processos de impeachment dormitando nas gavetas do Senado. É um delírio, dele e dos apoiadores do regime, imaginar que possam erigir no Brasil uma democracia sem povo. Não por muito tempo. E o ciclo da ditadura da toga inaugurado pelo STF em 2019 já foi longe demais.

A exemplo do ex-ministro Luís Roberto Barroso, que costumava debochar dos críticos recomendando filmes para o fim de semana, deixa-se aqui uma sugestão aos que acham  possível silenciar metade da população brasileira e sufocar os dissidentes bebendo uísque Macallan e fumando charutos cubanos. 

Titanic, de James Cameron (1997), é uma ótima pedida. Reparem naquela cena em que os passageiros de terceira classe forçam as barras de contenção que os impedem de subir para os conveses superiores, enquanto o navio está afundando. Por quanto tempo as grades resistirão? 


Eugêrnio Esser - Reviata Oeste




O cerco às urnas

 

Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes - Foto: Montagem Revista Oeste/Antônio Cruz/Agência Brasil

 
U m ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) estava prestes a encerrar o curto expediente habitual das segundas-feiras, por volta das 15h. Imaginava que a semana seria tranquila, principalmente em virtude do recesso forense. Enganou-se profundamente. Ao pegar o celular, recebeu no mesmo instante uma mensagem de WhatsApp com a notícia de que Alexandre de Moraes suspendera, havia pouco, por 90 dias, as visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao pai. Mais, que uma carta do ex-presidente, lida por Flávio durante uma live nas redes sociais, violou as medidas cautelares da prisão domiciliar humanitária de Jair Bolsonaro, além de possivelmente configurar “propaganda eleitoral antecipada”, em virtude de o parlamentar do PL ser pré-candidato ao Palácio do Planalto. 

A primeira reação do magistrado foi de espanto. Leu a decisão, examinou o conteúdo da carta e não encontrou pedido de voto nem ato que, a seu ver, justificasse a punição. A percepção foi a mesma de outros juízes do STF, mesmo os que não são muito simpáticos à figura do ex-presidente. Um deles, por exemplo, viu “exagero” de Moraes, enquanto outro classificou o despacho como “muito precipitado e munição para a oposição” em um ano eleitoral.



Para ministros do STF, a punição imposta por Moraes é precipitada e entrega munição à oposição em ano eleitoral - Foto: Mateus Bonomi/Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo

Dois pesos e duas medidas 

O rigor imposto a Bolsonaro trouxe à memória de alguns ministros um episódio recente da política brasileira que também desembocou no STF. Durante os 580 dias em que permaneceu preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019, Lula manteve intensa atividade política. Escreveu dezenas de cartas, transmitiu recados ao PT, comentou a Copa do Mundo em programas do jornalista Zé Trajano, teve publicações feitas por terceiros em suas redes, reafirmou a candidatura à Presidência, recebeu mais de 500 visitas e concedeu 22 entrevistas a veículos nacionais e estrangeiros. 

O petista não escondia o propósito eleitoral dessas manifestações. Mesmo preso, teve a candidatura ao Planalto registrada pelo PT, com direito a manifestação de militantes em frente à sede do Tribunal Superior Eleitoral, e escreveu que “desistir da candidatura seria admiti culpa” — à época, respondia pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, revelados pela Operação Lava Jato. Quando a Justiça Eleitoral o impediu de concorrer, Lula escolheu Fernando Haddad, que era candidato a vice, para encabeçar a chapa. A então deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB) ocuparia o segundo posto.


Matéria publicada no site de Oeste, em 13/07/2026 - Foto: Reprodução/Oeste

A possibilidade de Lula falar com a imprensa chegou a dividir o Supremo. Em setembro de 2018, Ricardo Lewandowski autorizou o jornal Folha de S.Paulo a entrevistá-lo na prisão. Luiz Fux, que respondia interinamente pela presidência da Corte, suspendeu a decisão e proibiu a divulgação do conteúdo. O veto provocou críticas e durou até o retorno de Dias Toffoli, que o derrubou pouco depois. A partir de então, jornalistas puderam entrar na carceragem da Polícia Federal para entrevistar o petista, visto que o próprio STF abrira um precedente em favor disso. 

Oito anos depois, bastou uma carta de Bolsonaro para que o tribunal adotasse outro rigor. O ex-presidente não concedeu entrevista até o momento por receio de que algo possa prejudicá-lo, não apareceu em vídeo nem publicou o texto numa conta própria. Escreveu uma mensagem de apoio ao filho, que a leu durante uma transmissão. Moraes enxergou desobediência, afastou Flávio do pai por três meses e acionou as autoridades para investigar uma possível infração eleitoral. 

Aos olhos de ministros do STF, era difícil ignorar a distância entre os dois tratamentos, mesmo entre a 1ª Turma, que condenou Bolsonaro a quase 30 anos de prisão em virtude do que seria uma tentativa de golpe de Estado. A juízes de tribunais inferiores, Cármen Lúcia tem demonstrado cansaço e desconforto com a postura de outros colegas do colegiado, composto por Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. As críticas dela também chegam a Dias Toffoli, membro da 2ª Turma do STF, as quais não esconde nem sequer do próprio ministro. 

A punição ainda criou uma contradição que não existia no caso de Lula. Flávio não frequenta a casa de Bolsonaro apenas como filho: integra formalmente a defesa do ex-presidente e está habilitado nos autos da execução penal. Ao proibir os encontros sem fazer ressalva à atividade profissional, Moraes atingiu o direito de um advogado conversar pessoalmente e de forma reservada com o cliente. 

Não apenas ministros se incomodaram. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), frequentemente criticada pela omissão diante de ilegalidades atribuídas ao STF, especialmente desde 2019, pediu a Moraes que preservasse essa prerrogativa e autorizasse encontros para finalidades “estritamente profissionais”. 

A entidade não contestou o mérito da punição. Limitou-se a defender a separação entre o filho impedido de visitar o pai e o advogado constituído no processo. “A presente manifestação possui caráter exclusivamente institucional e busca assegurar a observância das prerrogativas da advocacia, sem interferência no mérito”, afirmou a OAB, acionada por Flávio.



Barrado pela Justiça Eleitoral por condenações de corrupção, Lula indicou Fernando Haddad e Manuela D’Ávila para encabeçar a chapa em 2022 = Foto: Reprodução/Redes Sociais 


A mobilização começara na noite anterior, antes mesmo de Flávio decidir reagir ao magistrado. Formado por mais de 9 mil integrantes, o Movimento Advogados de Direita Brasil representou contra Moraes na OAB. O grupo lembrou que o Estatuto da Advocacia garante ao profissional o direito de se comunicar com o cliente, inclusive sem procuração. Flávio, além de advogado, está formalmente constituído na defesa do pai. “Advogado constituído não é mero visitante”, resumiu a representação obtida por Oeste em primeira mão. Segundo o movimento, a solução não precisaria ser “tudo ou nada”: Moraes poderia manter a restrição como filho sem eliminar o acesso como defensor. 

Ex-ministros do STF, que acompanham com lupa as decisões do tribunal, levantaram entre si uma interpelação: Bolsonaro sabia que a carta chegaria às redes sociais? O questionamento estava no despacho de Moraes. Em resposta ao ministro, a defesa afirmou que não. O expresidente teria entregado o texto a Flávio sem pedir que o divulgasse e sem a intenção de usar o filho para contornar as restrições impostas à prisão domiciliar. Os advogados acrescentaram que outras correspondências escritas por Bolsonaro, sob as mesmas limitações, já haviam se tornado públicas sem despertar questionamentos do ministro. O ex-presidente, portanto, não teria motivos para imaginar que uma nova carta seria interpretada como uma desobediência. 

“Em período recente, quando submetido às mesmas limitações condicionantes, outras correspondências por ele redigidas [foram divulgadas] sem que isso houvesse ensejado qualquer questionamento quanto ao cumprimento das medidas então vigentes, mesmo quando publicizadas”, argumentou a defesa. Bolsonaro negou ter usado terceiros para burlar as cautelares e comprometeu-se a continuar obedecendo às condições da prisão domiciliar. A explicação, contudo, não alterou o efeito imediato da ordem. Flávio permaneceu impedido de encontrar Jair Bolsonaro nas três condições que se confundem nesse caso: filho, advogado e candidato escolhido pelo pai para representá-lo nas eleições de 2026.



Decisão mantém Flávio Bolsonaro proibido de visitar o pai, afetando seus direitos de familiar, defensor e representante eleitoral - Foto: Andressa Anholete/Agência Senad


Interferência eleitoral Ministros do TSE ouvidos pela reportagem dizem acompanhar os movimentos de Moraes “com apreensão”, principalmente em um contexto no qual o decano do Supremo, Gilmar Mendes, declarou que a Justiça Eleitoral será “vigiada pelo STF”. A ordem contra Flávio reforçou essa impressão no trecho do despacho no qual Moraes levantou a hipótese de “propaganda eleitoral antecipada”. “Misturou o penal com o eleitoral”, declarou um integrante do TSE. “Poucos magistrados viram alguma lógica no que ele fixou.”

 A carta de Bolsonaro não continha pedido de voto, número de candidato ou expressão equivalente. O ex-presidente apenas reafirmava o apoio ao filho. Além disso, Flávio ainda é pré-candidato, enquanto o pai não disputa cargo algum. Na avaliação de integrantes do TSE, faltam os elementos normalmente exigidos pela Justiça Eleitoral para caracterizar campanha fora de hora. Ex-ministros do TSE acrescentaram que decisões individuais do STF podem levar candidatos à autocensura, por receio de sofrer sanções semelhantes. 

“Se uma carta de apoio, sem pedido de voto, pode justificar investigação e punição, candidatos e familiares terão dificuldade para saber onde termina a manifestação política permitida e começa a propaganda irregular”, constatou um influente jurista que já fez parte do tribunal há pouco tempo. Outro ponto destacado por um ministro do TSE é o período fixado por Moraes para afastar Flávio do pai. Os 90 dias fixados atravessam todo o período decisivo da campanha e terminam somente depois do primeiro turno. 

Na prática, Moraes retirou Bolsonaro da articulação política nos meses em que alianças são fechadas, palanques estaduais são montados e as campanhas definem suas estratégias. Ao mesmo tempo, colocou Flávio sob a ameaça de uma investigação por campanha fora de hora. A mesma decisão afastou o pai e constrangeu eleitoralmente o filho. “É claramente um problema pessoal que Alexandre de Moraes tem”, declarou o magistrado. “Não se pode confundir justiça com uma rixa.”


Declaração de Gilmar Mendes sobre a vigilância do STF à Justiça Eleitoral preocupa ministros da Corte|- Foto: Reuters/Ueslei Marcelino

Prestação de contas 

Moraes deu 48 horas para Bolsonaro explicar uma carta. A pressa em exigir respostas do ex-presidente, contudo, não se repete quando o alvo é o próprio ministro. Há mais de 200 dias, por exemplo, Moraes não comenta o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o escritório de advocacia de sua mulher e o Banco Master. Também não explica por que o interminável Inquérito das Fake News continua aberto depois de mais de sete anos. Tampouco informa quando permitirá que o STF decida, enfim, o destino da Lei da Dosimetria, aprovada pelo Congresso para corrigir penas desproporcionais, mas suspensa há dois meses por decisão do próprio ministro. 

Lula e Bolsonaro não estiveram presos nas mesmas circunstâncias, mas a diferença entre os tratamentos tornou-se impossível de esconder. Um escreveu cartas, concedeu entrevistas, recebeu aliados e comandou uma campanha de dentro da cadeia. Ao outro, uma correspondência rendeu investigação e três meses de afastamento do filho. Moraes exige transparência de seus alvos, enquanto evita prestar contas sobre assuntos que o alcançam. Invoca a lei para prolongar processos contra adversários, mas impede que a mesma lei alivie as penas que ajudou a impor. Cobrar dos outros aquilo que se recusa a oferecer não pode ser chamado de justiça.

Crrstyan Costa - Revista Oeste

Governo Lula 'jogou parado' diante do tarifaço, diz Marcos Troyjo

 Economista sustenta que Planalto deixou de negociar com Washington e credita exceções nas tarifas às empresas brasileiras


 



O economista Marcos Troyjo, ex-secretário especial de Comércio Exterior, afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva “jogou parado ou não jogou” diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos às exportações brasileiras. A declaração ocorreu durante entrevista ao Arena Oeste nesta quinta-feira, 16. 

Troyjo afirmou que o governo brasileiro limitou-se a uma atuação protocolar, sem apresentar propostas concretas para reduzir as barreiras impostas pelos norte-americanos. “Fizemos uma espécie de jogo essencialmente coreografado, protocolar, de responder aqui e ali”, disse, ao comparar com outros países: “Os indianos até receberam delegações norte-americanas em Nova Delhi para negociar essas tarifas.”

O economista foi secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia durante o governo de Jair Bolsonaro. Também presidiu o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco do Brics. 

Durante a entrevista, ele afirmou que as exceções concedidas a determinados setores foram motivadas pelas necessidades do mercado norte-americano, diante do risco de desabastecimento ou de aumento da inflação provocado pela redução da oferta de alguns produtos, e pela mobilização direta de empresas exportadoras. “Quem segurou muito a onda, quem tomou a frente nesses últimos 12 meses foi o setor empresarial do Brasil”, declarou. 

Mérito das empresas brasileiras”, afirmou o economista, em contraste com a atuação do governo federal: “Mérito do governo brasileiro: zero”

Para Troyjo, o setor privado conseguiu reduzir parte dos prejuízos do tarifaço, mas não tem condições de substituir o governo nas negociações. “Tem certas funções negociadoras que cabem ao governo e são insubstituíveis”, disse. Como exemplo, cita uma defesa ampla do setor produtivo nacional. 

“As empresas têm que correr atrás dos seus interesses. Agora, elas correm atrás daquilo que é o interesse dos seus acionistas, do seu setor. Elas não vão ter uma negociação macro.”

Ao ser perguntado sobre o que o governo efetivamente fez nessas áreas, o economista foi direto: “Nós não fizemos”. Retórica contra Trump prejudicou diálogo, afirma economista Troyjo também criticou as declarações de Lula contra o presidente norte-americano, Donald Trump, e integrantes de seu governo. Para ele, o tom adotado pelo petista contribuiu para criar um ambiente desfavorável à negociação.

.“Você tem um agravamento da retórica do governo brasileiro contra o presidente Trump e a administração norteamericana”, afirmou. Ele citou, entre outros episódios, as declarações de Lula durante a campanha presidencial dos EUA, quando o petista manifestou preferência por Kamala Harris e associou uma eventual vitória de Trump à volta do fascismo. 


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Santa Catarina - Foto: Ricardo Stuckert / PR


“Você vai tomando nota dessas coisas todas”, disse Troyjo. “Então, de repente, você tem uma série de elementos que constituem uma espécie de energia negativa, uma má vontade por parte dos norte-americanos em relação ao Brasil.

 Segundo o economista, o governo deveria separar disputas políticoeleitorais dos interesses permanentes do país. “O que o Brasil ganha em ter o seu chefe de Estado chamando o secretário de Estado de um latino-americano frustrado?”, perguntou. “A não ser que o sujeito vá achar que ele vai ter um dividendo político-eleitoral com isso, junto ao seu próprio público, é a única explicação.”

Aindfa segundo ele, os EUA importam anualmente entre US$ 3,7 trilhões e US$ 4 trilhões em produtos e serviços. O Brasil, porém, responde por cerca de 1% dessas compras. “A nossa participação naquele que é o principal mercado comprador do mundo é muito pequena”, disse. “É um desperdício, se você levar em consideração que são as duas maiores democracias do Ocidente e as duas maiores economias do nosso continente.

” Para o economista, é difícil imaginar uma estratégia de desenvolvimento que não considere uma relação prioritária com os EUA. “É muito difícil você pensar em não privilegiar o mercado norteamericano”, afirmou. “Temos uma característica de décadas e décadas de perder oportunidade de acesso privilegiado a essa que é a maior economia do mundo.” 

Mateus Conte - Revista Oeste

terça-feira, 14 de julho de 2026

Condenado a mais de 30 anos de cadeia como ladrão, Lula preso podia tudo, de escrever cartas a receber políticos quando quisesse

 

Lula foi preso nas investigações da Operação Lava Jato


O senador Rogério Marinho (PL-RN) tem boa memória. Ele lembra que Lula (PT), preso, manteve livre articulação política e comandava o PT do cárcere, onde cumpria pena por corrupção e lavagem de dinheiro. Mas Jair Bolsonaro não pode ver o filho Flávio por 90 dias. Lula recebeu inúmeras vezes ao menos 15 aliados, incluindo Fernando Haddad (PT), candidato a presidente por ele designado do xilindró, e escrevia cartas sem censura. Flávio Dino era governador do Maranhão e visitou o encarcerado em maio de 2019.

Cereja do bolo

Quem liberou o vai-e-vem na cela do encarcerado foi Ricardo Lewandowski, que anos depois se tornaria ministro da Justiça de Lula.

Séquito petista

A lista tem outros nomes do PT, como Fátima Bezerra, Wellington Dias, Camilo Santana, Jaques Wagner, Rui Costa e Gleisi Hoffmann.

Segue a lista

Não petistas: Manuela d’Ávila (PcdoB), Guilherme Boulos (Psol), Renan Calheiros (MDB), Roberto Requião (MDB) e Jandira Feghali (PcdoB).

Turistas imprevistos

Houve ainda visitas dos políticos argentinos Alberto Fernández e Pérez Esquivel, também amparados por autorização judicial.


Diário do Poder