domingo, 22 de fevereiro de 2026

Governo corrupto do ex-presidiário Lula já torrou mais de R$5 milhões em 472 viagens a Cuba

 Supostas "viagens de trabalho" são custeadas com dinheiro público



Supostas viagens de trabalho de servidores federais têm Varadeiro como destino, em Cuba (Foto: Reprodução/YouTube/Mintur Cuba)


Enquanto arvora-se em vetar penduricalhos salariais como gesto de suposto rigor contra privilégios no serviço público, o presidente Lula (PT) já sangrou mais de R$ 5 milhões dos cofres da União, em seu atual governo, com pagamentos de 472 viagens para servidores federais irem a eventos em Havana e Varadero, em Cuba.

Segundo informações da coluna Radar, da revista Veja, as supostas “viagens de trabalho” duram em média de uma semana. Os principais pretextos para os vultosos gastos em diárias e passagens são eventos com pretensos debates a respeito de temas importantes como saúde pública, educação e ensino superior.

O Ministério da Educação, comandado pelo ex-governador cearense Camilo Santana (PT), figura nas primeira posições do ranking do fomento do turismo na ditadura bancado pelo dinheiro suado de impostos de trabalhadores do Brasil.

O colunista Robson Bonin ainda destaca que o orçamento geralmente apontado como insuficiente por gestores das universidades públicas federais é uma das principais origens da gastança com viagens de reitores e professores para Cuba.

Veja vídeos do Ministério do Turismo da ditadura de Cuba sobre os destinos preferidos do governo Lula em Cuba:

Davi Soares - Diário do Poder

Rothbard e o papel essencial do empreendedor - Antony Mueller

 



Em seu livro Man, Economy, and State, Murray N. Rothbard investiga não apenas o papel do capitalista, mas também o do empreendedor em uma economia de mercado. Rothbard usa o conceito teórico da economia de rotação uniforme (ERU) para comparar o papel do capitalista com o do empreendedor. Os empreendedores obtêm lucros na medida em que corrigem com sucesso os desajustes na economia real e a aproximam da ERU, sem nunca atingir esse estado.

Economia de Rotação Uniforme (ERU)

A função do empreendedor é analiticamente diferente da do capitalista. Como a economia real, diferente da economia de rotação uniforme, é dinâmica e, portanto, sujeita a mudanças constantes, são necessários empreendedores que sejam ativos em lidar com os desajustes resultantes. Em uma ERU, não há necessidade de um empreendedor, porque não há incerteza. Embora os capitalistas ainda ganhem juros como compensação pela espera de acordo com a preferência temporal, não há lucros nem perdas na ERU. Rothbard usa a idealização da ERU como um contraste com o funcionamento de uma economia real.

O conceito da ERU foi desenvolvido por Ludwig von Mises. Ele descreve um sistema inexistente em que as mesmas transações de mercado acontecem repetidamente. Como tal, não há necessidade de ação empreendedora, porque os preços futuros serão os mesmos que os preços atuais. A ERU descreve uma condição em que os dados de mercado atualmente existentes — avaliações, tecnologia e recursos — permanecem constantes.

Na economia de rotação uniforme, não há incerteza nem risco. Assim, a taxa de retorno líquido é igual à relação de troca entre os bens presentes e futuros, que é a taxa de juros pura. Na ERU, os fatores de produção recebem sua remuneração de acordo com seus produtos marginais descontados. Como o risco e a incerteza estão ausentes na ERU, a taxa de juros reflete a preferência temporal pura. Consequentemente, não haverá lucros e perdas econômicos:

“Em uma economia de rotação uniforme, onde todas as ações do mercado se repetem em um ciclo infinito e, portanto, não há incerteza, o empreendedorismo desaparece. (Rothbard, Man Economy and State, p. 591)”

Embora a ERU tivesse capitalistas, nela não haveria necessidade de empreendedores. Na economia real, porém, ocorrem mudanças contínuas, e uma visão realista da economia reconhece um mundo de ação e mudança.

“As escalas de valores individuais, as ideias tecnológicas e as quantidades de meios disponíveis estão sempre mudando. Essas mudanças impulsionam continuamente a economia em várias direções. As escalas de valores mudam e a demanda dos consumidores muda de um bem para outro. As ideias tecnológicas mudam e os fatores são usados de maneiras diferentes. Ambos os tipos de mudança têm efeitos diferentes sobre os preços. As preferências temporais mudam, com certos efeitos sobre os juros e a formação de capital. O ponto crucial é este: antes que os efeitos de qualquer mudança sejam completamente resolvidos, outras mudanças intervêm. (p. 321)”

A economia de rotação uniforme, como uma construção imaginária, retrata uma economia sem incertezas. Consequentemente, não há lucro nem prejuízo. O empreendedorismo entra em cena como uma função especial para lidar com a incerteza do futuro no mundo real. Os empreendedores obtêm lucro e sofrem prejuízo quando a taxa de retorno de seus negócios está acima ou abaixo da taxa de juros natural. Os mercados competitivos eliminam as empresas que geram prejuízo e abrem espaço para os empreendedores mais capazes de prever as preferências futuras dos consumidores.

Capitalistas e empreendedores

Embora os empreendedores também possam ser capitalistas, sua função é bem diferente.

Diferentemente dos empreendedores, os capitalistas     

“ganham seus rendimentos de juros… fornecendo os serviços de bens presentes aos proprietários dos fatores antes dos frutos de sua produção, adquirindo seus produtos por meio dessa compra e vendendo os produtos posteriormente, quando se tornam bens presentes. Assim, os capitalistas fornecem bens presentes em troca de bens futuros (os bens de capital), mantêm os bens futuros e fazem com que sejam trabalhados até que se tornem bens presentes. (p. 352)”

Os capitalistas mantêm o processo de produção cujo valor, em última instância e exclusivamente, depende do pagamento feito pelos consumidores. Os capitalistas abrem mão de dinheiro no presente para obter uma soma maior no futuro. Os juros que eles ganham dessa forma são o ágio ou desconto sobre bens futuros em comparação com bens presentes. É o prêmio dos bens presentes sobre os bens futuros. A relação entre bens presentes e bens futuros representa a “taxa social de preferência temporal”. “Esse é o ‘preço do tempo’ no mercado como resultante de todas as valorações individuais desse bem” (p. 353).

Os capitalistas suportam o ônus de abrir mão do consumo presente ao gastarem dinheiro agora na produção de bens cuja remuneração final só virá mais tarde, quando os consumidores pagarem pelo produto final. Os capitalistas fornecem seu dinheiro poupado para a produção de bens ao longo de todo o conjunto das etapas de produção, até o ponto em que os bens são vendidos como bens de consumo. Somente depois que o bem percorre todas as etapas de produção e alcança seu estágio final é que os consumidores pagam por ele.

O trabalhador (como um ‘tipo ideal’) não precisa poupar nem abrir mão do consumo presente, porque os capitalistas pagam salários durante todo o período de produção, enquanto o pagamento final pelo bem ocorre apenas no futuro. A função do capitalista é uma função temporal. Os capitalistas adiantam bens presentes em troca de bens futuros.

A contribuição do capitalista para o processo de produção é a poupança e a restrição do seu consumo. Ao fazer isso, eles aliviam os trabalhadores da necessidade de sacrificar bens presentes e de ter que esperar até que os bens futuros se tornem disponíveis. Como proprietários da estrutura de capital, os capitalistas fornecem bens presentes aos trabalhadores. Assim, os trabalhadores recebem sua remuneração no presente, enquanto os capitalistas precisam esperar até que o bem se torne um bem final de consumo.

Papel do empreendedor

Enquanto os capitalistas adiantam recursos até que o consumidor pague pelo produto final, a função do empreendedor consiste em lidar com a incerteza.

Diferentemente do risco, a incerteza é incalculável e, portanto, não segurável. O empreendedor ajusta as discrepâncias que surgem no mercado devido à incerteza em relação ao futuro. Lucro e prejuízo — os retornos empresariais que ficam acima ou abaixo da taxa pura de juros — resultam da função de assumir a incerteza. Os prejuízos sinalizam um mau julgamento empresarial. Em uma economia competitiva, as forças de mercado atuam para eliminar os negócios que geram prejuízo, abrindo espaço para as empresas que são lucrativas graças a uma melhor atuação empreendedora. O capitalismo empreendedor não é uma “economia de lucro”, mas uma “economia de lucro e prejuízo”. Os prejuízos são tão essenciais para essa economia quanto os lucros.

Diferente da taxa de juros pura, que é o resultado da espera, o lucro empresarial é o resultado do enfrentamento bem-sucedido da incerteza. O mundo real é dinâmico. Os eventos e valores futuros são desconhecidos. Eles devem ser estimados. “Como resultado da arbitragem dos empreendedores, a tendência é sempre em direção ao ERU; em consequência da realidade em constante mudança, das mudanças nas escalas de valor e nos recursos, o ERU nunca chega” (p. 510).

Lucros e prejuízos

Não existe uma ‘taxa corrente de lucro’. A taxa de lucro é efêmera e momentânea, e qualquer lucro realizado tende a desaparecer em razão da ação empreendedora. Em contraste, a taxa de juros não desaparece, pois se baseia na universalidade da preferência temporal. No mundo real, lucros e prejuízos estão entrelaçados com os retornos de juros. A separação entre lucro e juros é um recurso analítico.

Na economia de rotação uniforme,

“Todos os fatores de produção são alocados às áreas em que seus produtos marginais descontados têm o maior valor. Esses valores são determinados pelas escalas de demanda dos consumidores. No mundo moderno de especialização e divisão do trabalho, são quase sempre apenas os consumidores que decidem, o que, na prática, exclui os capitalistas, que raramente consomem mais do que uma quantidade insignificante de seus próprios produtos…. Os consumidores, por meio de suas compras e de sua abstenção de comprar, decidem quanto e o que será produzido, determinando ao mesmo tempo as rendas de todos os fatores participantes. E todo homem é um consumidor. (p. 514)”

Os empreendedores obtêm lucros por meio de previsão e julgamento superiores. Para obter lucro, o empreendedor precisa descobrir os desajustes que necessariamente surgem em um mundo em mudança. O agente que obtém lucro reajusta a economia e a aproxima da ERU. Os prejuízos, em contraste, são um sinal de que o empreendedor contribuiu para aumentar o desajuste. A partir disso, Rothbard conclui:

“A quanto maior tiver sido o lucro de um homem, mais louvável é o seu papel, pois maior é o desajuste que ele descobriu e está combatendo. Quanto maiores forem as perdas de um homem, mais criticável ele é, pois maior foi a sua contribuição para o desajuste. (p. 515)”

A concorrência garante que os empreendedores propensos a incorrer em prejuízos sejam forçados a desaparecer do mercado. É por isso que a maioria dos empreendedores em atividade obtém lucros. Contudo, esses lucros só existem na medida em que são a contrapartida de prejuízos. Os lucros são, por assim dizer, “prejuízos evitados”. A função paradoxal do empreendedor consiste em obter lucro ao corrigir desajustes. Os lucros são a recompensa destinada àqueles empreendedores que estimam corretamente os preços futuros e, de acordo com isso, adaptam a estrutura de capital.

Conclusão:

A economia austríaca inclui o capitalista e o empreendedor em sua perspectiva, porque a teoria incorpora o tempo. O capital possui uma estrutura, e a organização dos bens de capital ocorre em etapas ao longo do tempo. Na perspectiva austríaca, o capital tem uma estrutura temporal e, portanto, essa abordagem consegue captar as funções de ambos: a do capitalista e a do empreendedor. A função temporal do capitalista é adiantar recursos àqueles que estão atualmente envolvidos na preparação de bens futuros.

Em certo sentido, a arbitragem do capitalista é a da preferência temporal entre bens presentes e bens futuros, enquanto a tarefa do empreendedor consiste em tentar prever e avaliar o valor dos bens futuros e reorganizar a estrutura de capital de acordo com isso. O campo de ação do empreendedor é a incerteza que acompanha a mudança, e sua remuneração, na forma de lucro, surge como resultado de uma antecipação correta.

Antony Mueller - Mises Brasil

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Alfredo Gaspar, relator da CPMI: Quantas vezes, Vorcaro, você botou a República no bolso?

 



Deputado Alfredo Gaspar (União-AL) - Foto: Carlos Moura/Agência Senado


O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar de Mendonça (União-AL), concluiu que a desistência do banqueiro Daniel Vorcaro de depor à comissão do Congresso Nacional seria uma confissão de culpa. Em vídeo publicado na noite desta sexta (20), o parlamentar disse que perguntaria ao dono do Banco Master suspeito de fraudes financeiras de R$ 12,2 bilhões quantas vezes ele financiou políticos e “botou a República no bolso”.

Ao questionar a quem interessaria o silêncio de Vorcaro, Alfredo afirmou que questionaria se o banqueiro alvo da Operação Compliance Zero buscou “proteção”, ao contratar por R$ 129 milhões a advogada Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Eu iria lhe perguntar, Vorcaro, a que título você contratou o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes por quase 130 milhões de reais. Foi proteção que você estava atrás? Quais serviços foram ofertados? Mostre ao Brasil que esse foi um contrato sem nenhum tipo de mácula. Quantas vezes, Vorcaro, você financiou políticos na nação? Quantas vezes, Vorcaro, você botou essa República no bolso?”, questionou o relator da CPMI.

‘Fuga’ após decisão do STF

Vorcaro recuou de sua suposta decisão de depor à CPMI, após o ministro do STF, André Mendonça, vetar voo particular do banqueiro e tornar facultativa sua ida à oitiva marcada para a segunda-feira (23) na comissão do Congresso que investiga roubos bilionários a aposentados e pensionistas, por meio de descontos associativos. O Banco Master também é investigado por empréstimos consignados vultosos para beneficiários do INSS.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Reprodução Youtube TV LIDE)

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Reprodução Youtube TV LIDE)

“Você fugiu da CPMI. Você tinha feito um compromisso e, agora, se a acovardou. Eu ia fazer perguntas a você, para o Brasil conhecer a verdade. E o Brasil precisa da verdade. O Brasil precisa ser passado a limpo. E você pode contribuir com isso”, argumentou Alfredo Gaspar.

Na quinta-feira (19), o relator da CPMI havia antecipado ao Diário do Poder que suas perguntas no depoimento de Vorcaro teriam como foco os 251,7 mil empréstimos suspeitos do Master. E reforçou, no vídeo de ontem, que o povo brasileiro mais sofrido, como aposentados e pensionistas querem saber se houve dinheiro desviado deles para comprar membros da República. “O seu silêncio é uma confissão de culpa. Isso é muito grave”, concluiu Alfredo Gaspar.

O Banco Master foi liquidado, em novembro, após o Banco Central identificar as fraudes financeiras e a Polícia Federal prender o Vorcaro, que hoje cumpre prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica.

Veja:

Davi Soares - Diário do Poder

Quando a Moderação se Torna Método: Cientificismo e o prestígio dos especialistas - Sergio Alberich e Marcos H. Giansante

 



A cultura contemporânea atribui prestígio crescente à figura do especialista que evita compromissos explícitos e se apresenta como moderado, técnico e “não ideológico”. Essa postura é celebrada como sinal de maturidade intelectual. Em um ambiente saturado por conflitos declarados, a recusa em escolher parece prudência. A moderação converte-se em virtude pública.

O problema surge quando essa moderação deixa de ser circunstancial e passa a operar como método. O especialista que se abriga na linguagem da técnica, dos dados e dos ajustes finos afirma não impor valores, apenas aplicar conhecimento. Suas recomendações parecem neutras, racionais e inevitáveis. O debate normativo é deslocado. O conflito de princípios é substituído por linguagem de otimização.

Esse deslocamento produz um tipo específico de autoridade. Não se trata da autoridade do legislador, nem da do governante, mas da autoridade do intérprete técnico da realidade. O especialista não governa, orienta. Não impõe, recomenda. Não decide, ajusta. Ainda assim, suas orientações passam a moldar comportamentos, políticas e expectativas sociais.

Esse padrão não é novo, mas assume formas renovadas. Ele reaparece sempre que sistemas complexos são tratados como suscetíveis a correção contínua por expertise. A intervenção não se anuncia como total. Instala-se por etapas, cada uma defensável quando considerada isoladamente. Em conjunto, porém, essas etapas transformam-se em administração abrangente daquilo que não pode ser administrado como projeto racional.

A fascinação contemporânea pela longevidade ilustra bem esse movimento. Cuidados preventivos, atenção metabólica e mudanças de estilo de vida não são problemáticos em si. Eles fazem parte da boa medicina. O deslocamento ocorre quando o cuidado prudente cede lugar à otimização permanente. O corpo passa a ser tratado como sistema administrável, cuja trajetória pode ser continuamente corrigida por dados, monitoramento e intervenção.

Nesse contexto, o envelhecimento deixa de ser condição humana que exige adaptação e passa a ser encarado como desafio técnico. O médico deixa de ser cuidador e se aproxima da figura do engenheiro. A saúde converte-se em projeto contínuo de aperfeiçoamento. O mensurável ganha primazia. O que escapa à métrica perde relevância.

Esse mesmo estilo aparece em outros domínios. Formadores de opinião tecnicamente sofisticados, dotados de linguagem científica refinada, evitam compromissos normativos claros. Apresentam-se como moderados, avessos a extremos, guiados apenas por evidências. A recusa em escolher princípios é apresentada como sinal de superioridade racional. A técnica assume o lugar do juízo.

É nesse ponto que a crítica austríaca se torna indispensável. Ludwig von Mises mostrou que o “meio do caminho” não constitui posição estável, como desenvolveu em Middle-of-the-Road Policy Leads to Socialism. Intervenções introduzidas como correções parciais alteram o próprio sistema que pretendem ajustar, criando novas distorções que passam a justificar intervenções adicionais. O que começa como moderação termina como expansão contínua do controle.

Friedrich Hayek aprofundou esse diagnóstico ao identificar o cientificismo como erro epistemológico, especialmente em The Counter-Revolution of Science. O problema não é a ciência, mas a transferência indevida de seus métodos para ordens complexas governadas por conhecimento disperso, tácito e contextual. Quando dados mensuráveis são tratados como conhecimento total, a humildade cede lugar à arrogância cognitiva. O que não pode ser quantificado é descartado como irrelevante.

Nesse quadro, a moderação desempenha papel decisivo. Ao evitar conflitos normativos, ela permite que decisões sejam apresentadas como exigências técnicas. A autoridade deixa de ser contestável, pois se esconde atrás da linguagem da necessidade científica. O especialista passa a operar como mediador entre conhecimento e poder.

Essa mediação raramente permanece neutra. Ajustes técnicos, padronizações e recomendações “baseadas em evidências” exigem respaldo institucional. A proximidade com o poder político torna-se funcional. Forma-se, assim, uma relação de conveniência: expertise em troca de alcance, legitimidade em troca de deferência. O que se apresenta como cooperação racional assume contornos claros de capitalismo de compadrio.

A moderação, convertida em método, revela então seu verdadeiro papel. Ela não limita o poder. Ela o suaviza. Não impede a expansão do controle. Apenas a torna aceitável, elegante e gradual. Sob a aparência de prudência, preserva a autoridade enquanto dilui a responsabilidade.

As formas mais eficazes de controle raramente se anunciam como radicais. Elas chegam educadamente, envoltas em dados, moderação e linguagem técnica. Não exigem obediência. Solicitam confiança. Avançam não por confronto, mas por acomodação.

Quando a moderação se torna método, ela deixa de proteger a ordem espontânea e passa a servi-la como ornamento retórico. O meio do caminho revela-se, então, não como equilíbrio, mas como inclinação suave em direção ao controle racionalizado da vida social.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.


Sergio Alberich e Marcos H. Giansante - Mises Brasil

O tempo violado: juros, inflação e o ciclo econômico austríaco nos trópicos – parte II

 




Introdução

Se a Parte I deste artigo descreveu a violação do tempo econômico, esta segunda parte examina as respostas humanas a essa violação. Quando o cálculo econômico é corroído, quando juros deixam de sinalizar escassez real e quando o futuro se torna opaco, os indivíduos não permanecem passivos. Eles reagem.

Essas reações não são irracionais. São tentativas compreensíveis de preservar continuidade em um ambiente que a nega. O problema surge quando tais respostas passam a ser confundidas com soluções estruturais, ou quando se transformam em produtos oferecidos por um mercado que lucra com a instabilidade que afirma mitigar.

Racionalidade defensiva em um tempo desordenado

Em uma ordem econômica previsível, poupar é um ato construtivo. O indivíduo posterga consumo presente confiando que regras, preços e contratos preservarão sentido no futuro. Quando essa confiança se rompe, a poupança assume caráter defensivo.

Nas economias tropicais, poupar deixa de ser estratégia de acumulação e passa a ser estratégia de sobrevivência. O objetivo já não é maximizar retornos, mas minimizar perdas impostas por inflação, tributação mutável e instabilidade normativa.

Dolarização como resposta institucionalmente limitada

A primeira reação costuma ser a dolarização. Diante da recorrente perda de poder de compra da moeda local, manter ativos em moeda forte parece decisão elementar. Em termos imediatos, a estratégia pode reduzir exposição cambial e oferecer alívio psicológico.

O erro conceitual está em atribuir à moeda aquilo que é, em essência, um problema institucional. A moeda local não se deteriora por acaso. Ela se deteriora porque o arranjo fiscal e monetário que a sustenta opera sem restrições críveis ao longo do tempo.

Trocar de moeda não restaura cálculo econômico. Apenas desloca parcialmente seus efeitos. Quando a dolarização se amplia, ela própria passa a ser monitorada, regulada e tributada, reinserindo o indivíduo no mesmo campo de incerteza do qual tentou escapar.

A promessa de previsibilidade e seus limites

Em um segundo momento, surgem estruturas mais sofisticadas. Contas no exterior, holdingstrusts e entidades offshore são apresentadas como instrumentos de previsibilidade jurídica e proteção patrimonial.

Essas estruturas não são intrinsecamente ilegítimas. Em muitos casos, oferecem governança mais estável, contratos mais claros e menor arbitrariedade. Ainda assim, é preciso distinguir organização patrimonial de soberania econômica.

Grande parte dessas estruturas permanece integrada a regimes globais de reporte, sujeita a mudanças regulatórias internacionais e dependente das regras do país de origem do investidor. A complexidade aumenta, intermediários se multiplicam e custos se acumulam, enquanto a insegurança de fundo permanece.

Quando a instabilidade se converte em indústria

A instabilidade deixa de ser apenas um ambiente hostil e passa a ser um insumo econômico. Forma-se aquilo que se pode chamar de indústria da compensação intertemporal.

Sofisticação não é restauração da ordem

Hayek advertiu que o problema central das sociedades complexas não é a falta de instrumentos, mas os limites do conhecimento e a impossibilidade de concentrá-lo. Quando regras se tornam instáveis, nenhum arranjo técnico recompõe a ordem espontânea.

O encurtamento moral do horizonte temporal

O efeito mais profundo desse processo não é financeiro, mas moral e civilizacional. Quando o futuro deixa de ser confiável, a própria noção de responsabilidade intertemporal se enfraquece. Projetos de longo prazo perdem sentido, e a sociedade passa a operar sob lógica de encurtamento temporal.

Conclusão

A Parte I mostrou que o ciclo econômico austríaco tende a permanecer aberto. Esta Parte II mostra que as respostas a esse ciclo, embora compreensíveis, raramente o encerram. Funcionam como adaptações defensivas, não como restauração da ordem.

Nenhuma engenharia financeira substitui limites institucionais, regras previsíveis e uma moeda que não seja instrumento de conveniência política.

Quando o presente é financiado sistematicamente à custa do futuro, o tempo deixa de ser aliado da ação humana e se torna fonte permanente de ansiedade e desorientação.

A lição austríaca permanece. Prosperidade não nasce da sofisticação, mas da preservação das condições que permitem às pessoas planejar, cooperar e confiar no tempo.


 - Mises Brasil

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

'O Brasil e a carnavalização permanente', por Flávio Gordon

 “Mamãe, eu quero mamar” é a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por I


“Tudo isso se combina para preparar o terreno para a pompa ruidosa de pseudofestas a serem celebradas ao comando de qualquer despotismo.” (Josef Pieper, Em sintonia com o mundo: uma teoria da festividade)


N ão culpo o leitor que, porventura, atribua a causa desta coluna sobre o Carnaval brasileiro à rabugice e ao envelhecimento precoce do autor. Por um lado, como é de hábito natural, não há dúvida de que estou ficando mais velho. Por outro, tampouco há dúvida de que, assim como até mesmo o mais otimista dos cidadãos, ando um tanto quanto rabugento com a degradante situação sociopolítica nacional. Ainda assim, contudo, posso garantir que minha abordagem do tema não decorre do meu estado de espírito. 

Não é de hoje que o brasileiro se orgulha de sua vocação festiva. Eu mesmo, quando jovem e solteiro, já tive minha fase carnavalesca. Não há aqui, portanto, nenhuma diatribe contra a festa e a alegria. Muito pelo contrário. O problema não reside na alegria — essa disposição fundamental da alma que afirma o ser —, mas na mutação espiritual que a converte em estímulo incessante, em necessidade de excitação contínua, como se o silêncio fosse uma ameaça e o recolhimento, uma forma de fracasso, quase um ato de impiedade. 

Como, aliás, já observei em uma coluna antiga sobre o mesmo tema, o que tem me chamado a atenção no Carnaval no Brasil de hoje é justamente a sua aparência menos alegre e mais extática, como se se tratasse de uma necessidade desesperada de escape. O que outrora era intervalo ritualizado tornou-se uma atmosfera permanente, e o que antes funcionava como inversão temporária converteu-se em paradigma cultural. Falta ao folião contemporâneo a virtude que, sempre inspirado em Aristóteles, São Tomás de Aquino chamava de eutrapelia — o uso moderado do divertimento. 

Historicamente, o Carnaval encontrava sua inteligibilidade no contraste com a Quaresma. A exuberância precedia o jejum; o riso, o exame de consciência; o excesso, a disciplina. A desmedida possuía contorno, e exatamente por isso educava, ao reconhecer tacitamente um limite. A inversão ritualizada das hierarquias — o servo que zombava do senhor, o grotesco que ridicularizava o solene, o homem que se vestia de mulher — durava alguns dias, apenas o suficiente para reafirmar, ao término da folia, a estrutura da ordem. 

O riso, quando enquadrado, fortalecia aquilo que parecia subverter. Mas quando o intervalo se torna permanente, já não há contraste que eduque, nem retorno que reordene. Uma sociedade não pode permanecer saudável quando o rito se converte em rotina. É justamente o que o Brasil fez com o Carnaval. “Mamãe, eu quero mamar” — não é mais um refrão sazonal, mas a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá.


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

Quando se suprime o contraste, suprime-se também o sentido. Em sua meditação sobre a festa, o filósofo Josef Pieper recorda que ela não é mera explosão de energia coletiva, mas afirmação jubilosa da realidade enquanto criação. Celebrar é dizer “sim” ao mundo; é reconhecer, ainda que simbolicamente, que o ser é bom e digno de gratidão. A festa nasce do culto e a ele retorna; é derivada, não autossuficiente. Quando se emancipa dessa moldura ontológica, deixa de celebrar algo que a transcenda e passa a celebrar a si mesma, fechando-se num circuito autorreferente, degradando-se em entretenimento vulgar e daí ao puro hedonismo niilista. 

O Carnaval brasileiro contemporâneo, com toda a sua grandiosidade financeira, tecnológica e midiática, parece ilustrar essa rarefação simbólica: conserva a escala, mas perde a densidade; mantém o volume, mas dissipa o horizonte. Sem Quaresma — não apenas no calendário litúrgico, mas na consciência moral coletiva —, a festa deixa de ser prelúdio e converte-se na ordem social permanente. O excesso já não aponta para purificação alguma, mas limita-se à repetição infinita, convertendo-se em tautologia.

 Resta que esse deslocamento não permanece confinado às avenidas. Infiltra-se na própria forma da vida pública. O episódio do desfile da Acadêmicos de Niterói, financiado com recursos públicos e transformado em homenagem explícita ao mandatário da República, que ali compareceu como figura central da alegoria, não é apenas um crime eleitoral flagrante, mas também um sintoma da nossa carnavalização institucional. 

A oposição anuncia medidas judiciais, por óbvio, mas o tribunal eleitoral companheiro — no qual as togas viraram meros adereços — provavelmente fará o que vem fazendo desde, ao menos, 2022: agir politicamente e favorecer descaradamente o seu próprio partido. Deve-se, contudo, registrar para a posteridade o significado simbólico da cena: o governante convertido em enredo, o poder transfigurado em espetáculo, a cultura absorvida pela coreografia do aplauso.

Não é difícil reconhecer, sob o brilho carnavalesco dos trópicos, uma lógica antiga: aquela em que o Estado e a representação estética se fundem numa pedagogia de exaltação. Regimes totalitários do século 20 — de signos ideológicos distintos, quer fascistas, quer comunistas — compreenderam muito bem o poder da encenação pública como instrumento de legitimação. Nunca se elaborou tanto a liturgia do poder como durante esses regimes, modus operandi ora copiado pelo regime PT-STF-Globo. O que antes era sátira, converteu-se em consagração. Enquanto o carnaval tradicional ridicularizava o poder, o Carnaval do regime PT-STF-Globo o instrumentaliza e exalta.


Lula posa com a bandeira da escola de samba Acadêmicos de Niterói nas mãos - Foto: Acadêmicos de Niterói/Divulgação 

Essa inversão revela algo mais profundo do que um mero abuso de poder político. O grosseiro crime eleitoral cometido traduz uma cultura que já não distingue com nitidez entre representação e propaganda, entre celebração e mobilização, entre arte e aparato. Nessa cultura, tudo é performance, e nada é propriamente sério, uma vez que a seriedade exige forma e contorno. Tudo vira palco, e a própria República se converte em sambódromo. 

E é claro que, numa cultura que celebra sem penitência, os donos do poder tendem a governar sem contenção. Sem Quaresma — isto é, sem um limite reconhecido e interiorizado —, a festa degenera em vertigem e a política, em espetáculo permanente de pilhagem, brutalidade e escárnio. O hedonismo cultural encontra seu espelho na concupiscência institucional, não apenas na forma grosseira da corrupção, mas na erosão difusa do senso de responsabilidade, na incapacidade de reconhecer que o poder, como o riso, precisa de moldura. 

Talvez o traço mais inquietante de nosso Carnaval não seja, portanto, o excesso em si, mas a ausência de horizonte que o justifique. Ele explode, consome e se dissipa, deixando atrás de si não purificação, mas fadiga; não o silêncio dos satisfeitos, mas a expectativa ansiosa pela próxima explosão orgiástica, como um vício que já não produz euforia, apenas dependência. O mesmo se pode dizer de uma política que vive de narrativas grandiloquentes e de encenações simbólicas, enquanto a substância administrativa se dilui e a representatividade colapsa. 

Nada dessa constatação implica qualquer nostalgia de uma ordem ascética ou hostilidade à alegria. A verdadeira alegria, ao contrário da excitação, supõe forma. Ela não precisa de volume para afirmar-se. É possível que uma cultura que perdeu a capacidade de silêncio também tenha perdido a capacidade de júbilo — restando-lhe apenas a compulsão pela algazarra. 

Sem Quaresma, o Carnaval degenera em vertigem. Sem limite, a política degenera em espetáculo. Uma civilização pode sobreviver a crises econômicas e disputas ideológicas; o que dificilmente sobrevive é à dissolução do senso de limite. Sem limite, não há forma; sem forma, não há ordem; e sem ordem, a liberdade torna-se apenas palavra repetida em meio a um ruído que é tanto compulsivo quanto compulsório.


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA


Quando a festa não celebra mais uma realidade reconhecida como boa, ela tende a converter-se em compensação. E a compensação, diferentemente da celebração, carrega sempre um traço de tensão. Talvez por isso o êxtase carnavalesco brasileiro, tanto nas avenidas quanto nos palácios, raramente se pareça com contentamento. Ele se aproxima mais de uma catarse. Como se o país inteiro estivesse tentando, por alguns dias — ou permanentemente — esquecer algo que não consegue nomear. 

Esse algo — um mal-estar fantasiado — pode ser simplesmente a ausência de fundamento. Uma sociedade que perdeu o vínculo com qualquer horizonte transcendente tende a oscilar entre a tecnocracia fria e o hedonismo ruidoso ou, o que é pior, a misturar os dois registros, transformando a administração pública em farra. 

A verdadeira festa, lembra Pieper, é sempre um “sim” ao mundo. Quando esse “sim” se esvazia, resta apenas o eco, sonoro e estridente, de uma afirmação não formulada. Mas o som, por mais estrondoso, pode até abafá-lo na consciência nacional, mas jamais substitui o sentido. 


Flávio Gordon - Revista Oeste

A maior ressaca da Terra, por Guilherme Fiuza

 


Foto: Montagem Revista Oeste/IA

— E aí, curtiu o desfile? 

— Desmaiei. 

— Uau! De emoção? 

— Não. De vergonha. 

— Vergonha de quê? 

— Sei lá. Me deu um negócio esquisito na hora. Eu tava super animado pra entrar na avenida, mas no que a coisa começou, me deu um revertério. 

— Muito calor. 

— Demais. Estranho é que calor em geral não dá vergonha, né? 

— Não. Pode até desidratar, mas nunca vi ninguém desmaiar de vergonha por causa do calor. 

— Esquisito mesmo. No que comecei a cantar aquele “olê, olê, olê, olá” da homenagem, escureceu tudo. 

— Teve blecaute na avenida? 

— Não. Mas pra mim ficou tudo preto. Como se fosse uma sombra pesada, sabe? 

— Eu, hein. Filme de terror. 

— Exatamente isso. Terror. 

— De onde você acha que veio essa alucinação?

— Parecia uma sombra do passado. E não tinha cara de alucinação. A sensação era muito real. 

— Trauma de vidas passadas? 

— Acho que era dessa vida mesmo. A sensação era de que eu estava roubando os outros. 

— Roubando?! Como assim? Não vai me dizer que você já participou de algum assalto. 

— Claro que não. Por isso eu fiquei completamente tonto. De repente, me senti um assaltante, sem nunca ter assaltado ninguém.

 — Quer o telefone de um psiquiatra?

 — Acho que não vai resolver. 

— Por quê?

— Psiquiatra sabe apagar o passado? 

— Acho que não.

— Então não adianta. Tenho a impressão de que fui cercado por fantasmas. Eles vieram me trazer notícias de um passado comprometedor. 

— Que tipo de fantasma? Da ditadura? 

— Fantasma da democracia. 

— Existe isso? 

— Existe. Fantasma da democracia de fachada. E da censura dissimulada. E da roubalheira desenfreada. 

— São vários fantasmas, então.

— Sim. Mais do que você imagina. Tem também o fantasma da mentira oficial. E o da perseguição aos opositores. E o do conluio com a imprensa. E o dos bajuladores de picaretas. 

— Bajuladores de picaretas? 

— Isso. Acho que foi esse que me fez desmaiar de vergonha. Parecia que eu estava me olhando no espelho.

— Que loucura. Bom, estimo as suas melhoras. 

— Obrigado.

— Enquanto isso, tome todas as precauções para evitar uma recaída. 

— Que precauções?

— Tire todos os espelhos de casa.


Foto: Montagem Revista Oeste

Guilherme Fiuza - Revista Oeste