sexta-feira, 3 de julho de 2026

Há 250 anos, uma ideia mudou o Ocidente, por Ana Paula Henkel

A aprovação da Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 4 de julho de 1776, fez muito mais do que alterar o mapa político do século 18


Assinatura da Declaração de Independência em 1776 - Ilustração: Shutterstock


Existem datas que pertencem à história de uma nação. Outras pertencem à história da humanidade. Há exatos 250 anos, em 4 de julho de 1776, representantes das 13 colônias britânicas na América aprovaram a Declaração de Independência, o documento que deu oficial nascimento aos Estados Unidos. À primeira vista, tratava-se apenas da declaração de independência de um novo país. 

Na prática, porém, aquele texto faria muito mais do que alterar o mapa político do século 18. Ele ajudaria a consolidar uma das ideias mais influentes da história da civilização ocidental. Curiosamente, vivemos em uma época em que nunca se falou tanto em direitos humanos, liberdade, igualdade e democracia, mas raramente se discute a origem dessas ideias. 

Elas são frequentemente tratadas como se fossem evidentes por si mesmas, como se sempre tivessem existido ou surgissem naturalmente em qualquer sociedade. No entanto, nenhuma dessas convicções apareceu por acaso. 

Todas são resultado de uma longa construção filosófica, jurídica e religiosa que atravessou séculos antes de encontrar, em 1776, uma de suas expressões políticas mais importantes. Talvez esse seja o maior equívoco cometido quando se fala sobre a Independência dos Estados Unidos.

Muitos a apresentam como o momento em que nasceu a liberdade. Não foi isso que aconteceu. A liberdade não começou na Filadélfia. Ela já fazia parte da tradição política do Ocidente muito antes da assinatura da Declaração de Independência. 

A experiência da democracia ateniense, o direito romano, a influência decisiva do cristianismo sobre a compreensão da dignidade da pessoa humana, a Magna Carta inglesa, o desenvolvimento do common law e a filosofia política de pensadores como John Locke prepararam, ao longo de muitos séculos, o terreno sobre o qual aquele documento seria escrito. 

A Revolução Americana não inventou a liberdade. Ela institucionalizou, de maneira espetacular, uma determinada compreensão dela. Essa distinção é muito mais importante do que parece. Enquanto muitas revoluções procuraram romper completamente com o passado para inaugurar uma nova ordem, os fundadores dos Estados Unidos acreditavam estar preservando uma tradição anterior a eles próprios.

 Não reivindicavam a criação de direitos inéditos. Defendiam direitos que consideravam anteriores a qualquer governo, inerentes à própria condição humana e, justamente por isso, inalienáveis. 

É impossível compreender a força histórica da Declaração de Independência sem prestar atenção a uma de suas passagens mais conhecidas. Nela, Thomas Jefferson escreveu que todos os homens são criados iguais e dotados pelo seu Criador de determinados direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a busca da felicidade.


Retrato presidencial oficial de Thomas Jefferson (por Rembrandt Peale, 1800) | Foto: Domínio Público

A palavra decisiva desse trecho talvez seja justamente aquela que, nos debates contemporâneos, costuma receber menos atenção: o Criador. Hoje, quando essa passagem é citada, frequentemente se destaca a defesa da liberdade ou da igualdade.

 Raramente se observa o fundamento sobre o qual esses direitos repousam. Jefferson não afirma que eles foram concedidos pelo rei, pelo Parlamento, pela maioria da população ou pelo próprio Estado. Também não diz que decorrem de um consenso político temporário.

Ele afirma que esses direitos têm origem no Criador. Isso significa que eles existem antes do governo e independentemente dele. Essa afirmação estabelece um limite permanente ao exercício do poder. 

Se os direitos são concedidos pelo Estado, o Estado pode redefini-los, ampliá-los ou suprimi-los conforme as circunstâncias políticas. Se, porém, eles precedem o próprio governo, a função das instituições deixa de ser a de criá-los. Passa a ser a de reconhecê-los e protegê-los. É precisamente essa inversão que transformou a Declaração de Independência em um dos documentos políticos mais importantes da era moderna. 

Poucos textos exerceram influência tão profunda sobre a organização constitucional de tantos países. Sua importância ultrapassou em muito as fronteiras americanas. Ao afirmar que o poder político possui limites porque existem direitos que lhe são anteriores, a Declaração ofereceu um fundamento moral para a própria ideia de governo limitado. 

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Talvez seja justamente por isso que a Declaração continue despertando tanto interesse 250 anos depois. Ela faz uma pergunta que permanece profundamente atual: de onde vêm os nossos direitos?

Não por acaso, essa concepção atravessaria os séculos seguintes, influenciando constituições, movimentos de independência e diferentes experiências democráticas. Sua força nunca esteve apenas nas instituições que ajudou a inspirar. Esteve, sobretudo, na compreensão de que o poder não é um fim em si mesmo. Sua legitimidade depende de respeitar algo que lhe é superior.

Talvez seja justamente por isso que a Declaração continue despertando tanto interesse 250 anos depois. Ela faz uma pergunta que permanece profundamente atual: de onde vêm os nossos direitos?


A Declaração de Independência dos Estados Unidos (4 de julho de 1776) - Foto: Shutterstock

A resposta oferecida em 1776 continua produzindo consequências políticas até hoje. Se a dignidade humana depende exclusivamente do reconhecimento do Estado, então toda liberdade se torna, em última análise, uma concessão do próprio poder. Se, ao contrário, ela decorre da própria natureza humana e da condição de criatura, então nenhum governo pode legitimamente reivindicar autoridade absoluta sobre a vida das pessoas. 

Essa não é apenas uma discussão filosófica. Ela continua presente em praticamente todos os grandes debates públicos contemporâneos. Quando sociedades discutem liberdade religiosa, liberdade de expressão, direito de propriedade, autonomia familiar ou os limites da atuação estatal, a pergunta de fundo permanece exatamente a mesma: existe algo que o poder político simplesmente não pode violar?

 A resposta dada pelos autores da Declaração de Independência foi inequívoca. Sim. Existem direitos que nenhum governante concede. porque nenhum governante os criou ou os detém. 

Essa talvez seja a contribuição mais duradoura de 1776 para a civilização ocidental. Ao afirmar que o governo deriva sua legitimidade do consentimento dos governados e que sua finalidade é proteger direitos anteriores a ele próprio, a Declaração rompe definitivamente com a ideia de que o poder é a origem da justiça. A justiça passa a ser o critério pelo qual o próprio poder deve ser julgado.

 Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que a Independência Americana continua sendo muito mais do que um acontecimento nacional. Ela representa um dos momentos em que uma tradição filosófica, jurídica e moral acumulada ao longo de séculos encontrou uma forma política suficientemente sólida para atravessar gerações. 

Talvez seja por isso que, dois séculos e meio depois, continuamos voltando a 1776. E isso não é porque os Estados Unidos tenham sido perfeitos, longe disso. Tampouco porque sua história tenha sido isenta de contradições, conflitos ou injustiças. Mas porque poucas nações nasceram afirmando, de maneira tão explícita, que o poder precisava reconhecer a existência de limites que ele próprio não podia estabelecer nem revogar.


Benjamin Franklin, John Adams e Thomas Jefferson revisando minuta da Declaração de Independência em 1776. Cartão-postal publicado pela The Foundation Press, Inc., 1932 - Foto: Domínio Público

Essa é a enorme diferença do magnífico “experimento americano”. É essa convicção — mais do que qualquer batalha, qualquer líder ou qualquer vitória militar — que explica a permanência da Declaração de Independência como um dos grandes pilares da civilização ocidental.

 

O legado de 1776 através das gerações 

A permanência dessa tradição talvez seja o aspecto mais impressionante da experiência americana. Ao longo de dois séculos e meio, os Estados Unidos atravessaram guerras civis, conflitos mundiais, profundas transformações econômicas, crises institucionais e disputas ideológicas que seus fundadores jamais poderiam ter imaginado. 

Ainda assim, em diferentes momentos da história, homens pertencentes a gerações completamente distintas recorreram aos mesmos princípios formulados em 1776 para enfrentar desafios que mudavam constantemente de forma, mas preservavam uma mesma pergunta de fundo: como proteger a liberdade sem permitir que o poder ultrapasse os limites que lhe foram impostos? 

É justamente aí que reside um dos aspectos mais fascinantes da experiência americana.

George Washington foi o primeiro grande responsável por responder a essa pergunta. Depois de conduzir a guerra de independência e de exercer dois mandatos como presidente, recusou permanecer no poder e retornou voluntariamente à vida privada. Em uma época marcada por monarquias e lideranças que frequentemente se confundiam com o próprio Estado, aquela decisão teve enorme significado político. 

Washington demonstrou que uma República não depende apenas de boas leis. Ela depende também da virtude daqueles que exercem a autoridade e reconhecem que nenhuma pessoa é maior do que as instituições que ajudou a construir.


https://revistaoeste.com/revista/edicao-329/ha-250-anos-uma-ideia-mudou-o-ocidente/ 

Poucas décadas depois, Abraham Lincoln enfrentaria um desafio ainda maior. A Guerra Civil colocou em risco não apenas a integridade territorial dos Estados Unidos, mas a própria sobrevivência da experiência política inaugurada em 1776. Em Gettysburg, Lincoln definiu aquele conflito como um teste para saber se uma nação concebida sob aqueles princípios poderia perdurar. Sua preocupação ultrapassava a preservação da União. O que estava em jogo era a continuidade de uma República fundada sobre a convicção de que todos os homens possuem direitos que antecedem a ação do próprio governo. 

A vitória do Norte preservou a unidade nacional, mas também permitiu que a promessa feita na Declaração de Independência continuasse servindo de referência para as gerações seguintes. Um século mais tarde, seria justamente a essa promessa que Martin Luther King Jr. recorreria ao liderar o movimento pelos direitos civis. Há um aspecto frequentemente esquecido quando se analisam seus discursos. King não rejeitava os princípios fundadores dos Estados Unidos nem propunha substituí-los por uma nova filosofia política. 

Ao contrário, insistia em lembrar que a Declaração de Independência havia afirmado uma verdade que ainda precisava ser plenamente vivida. Seu famoso discurso “I have a dream” faz referência direta à promessa de igualdade formulada pelos próprios fundadores da República. Sua crítica não era dirigida aos princípios de 1776, mas à incapacidade da sociedade americana de permanecer inteiramente fiel a eles. 

Essa talvez seja uma das maiores demonstrações da força de uma tradição política. Ela permite que uma sociedade reconheça seus próprios erros utilizando como referência os valores que lhe deram origem. Em vez de destruir seus fundamentos, procura corrigir suas incoerências à luz deles.

A Segunda Guerra Mundial acrescentaria outra dimensão a essa mesma história. O ataque japonês a Pearl Harbor tornou evidente que a liberdade não sobreviveria apenas pela força de seus argumentos. Em determinadas circunstâncias, ela também precisaria ser defendida com enorme sacrifício humano. A batalha de Iwo Jima permanece como um dos maiores símbolos dessa realidade.

A imagem dos soldados americanos erguendo a bandeira no Monte Suribachi tornou-se conhecida em todo o mundo não apenas por representar uma vitória militar, mas por sintetizar o preço pago por uma geração que compreendeu que algumas causas exigem coragem, perseverança e disposição para enfrentar custos extraordinários.


Fuzileiros navais dos EUA hasteiam a bandeira americana no topo do Monte Suribachi, em Iwo Jima, Japão (23/02/1945) - Foto: Joe Rosenthal/Domínio Público 

Terminada a guerra, os desafios mudaram novamente. O nazismo havia sido derrotado, mas outra forma de totalitarismo passava a ameaçar diferentes regiões do mundo. A Guerra Fria não era compreendida apenas como uma disputa de interesses entre grandes potências, mas como um confronto entre concepções radicalmente distintas sobre o homem, a sociedade e os limites do poder político. 

Foi essa compreensão que Ronald Reagan retomaria nos anos 1980 ao recusar a ideia, então bastante difundida em diversos círculos intelectuais e diplomáticos, de que democracia liberal e comunismo soviético representavam apenas modelos políticos alternativos, igualmente legítimos. 

Em 1987, diante do Muro de Berlim, Reagan transformaria essa convicção em uma das frases mais marcantes da Guerra Fria ao pedir publicamente que a barreira que dividia a cidade fosse derrubada. 

Dois anos mais tarde, o muro cairia, encerrando um dos capítulos mais importantes da disputa entre liberdade e totalitarismo no século 20. 


Por que 1776 ainda importa em 2026 

Naturalmente, nenhuma dessas passagens transforma a história americana em uma narrativa de perfeição. Os Estados Unidos conviveram, desde sua fundação, com profundas contradições. 

A escravidão representou a mais evidente delas, mas certamente não foi a única. Reconhecer essas falhas, entretanto, não diminui a importância da Declaração de Independência. Em muitos aspectos, ocorreu justamente o contrário. 

Foi porque aqueles princípios continuaram existindo que sucessivas gerações encontraram fundamentos para denunciar injustiças, corrigir desvios e exigir maior fidelidade ao projeto político iniciado em 1776.

Talvez seja essa a principal razão pela qual a Declaração de Independência dos Estados Unidos continua sendo um dos pilares da civilização ocidental. Sua importância não decorre da ideia de que tenha produzido uma sociedade perfeita, mas do fato de haver afirmado, com extraordinária clareza, que o poder não constitui a origem dos direitos. 

Ao reconhecer que eles pertencem à pessoa humana por terem sido concedidos pelo próprio Criador, a Declaração estabeleceu um limite permanente para qualquer governo, qualquer maioria e qualquer autoridade.

Essa afirmação permanece atual porque a tentação de concentrar poder não desapareceu com o fim das monarquias absolutas nem com o encerramento da Guerra Fria. Ela continua presente sempre que governos, tribunais, organismos internacionais ou qualquer outra estrutura política passam a agir como se fossem a fonte dos direitos que deveriam apenas proteger. 

É precisamente nesses momentos que a lição de 1776 volta a revelar sua força e importância.


A queda do Muro de Berlim, 1989 - Foto: Wikimedia Commons

Duzentos e cinquenta anos depois, a Declaração de Independência continua sendo muito mais do que a certidão de nascimento de uma nação. Ela permanece como um lembrete, incômodo aos tiranos de qualquer época e natureza, de que a liberdade depende da existência de limites permanentes ao exercício do poder e de que nenhuma geração está dispensada da responsabilidade de preservar os princípios que recebeu. 

As civilizações não permanecem vivas apenas porque preservam monumentos, arquivos ou datas comemorativas. Permanecem vivas quando continuam reconhecendo as verdades sobre as quais foram construídas. 

A pergunta deixada por 1776 continua diante de cada geração: a liberdade será preservada ou o poder voltará a esquecer que também possui limites? A resposta, como sempre, não pertence à história. Pertence a nós.


Ana Paula Henkel - Revista Oeste

terça-feira, 23 de junho de 2026

Para PF, Wagner dedicou mandato no Senado ao Master

 

Senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. (Foto: assessoria)


A Polícia Federal atestou que líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), “exerceu o mandato parlamentar de forma alinhada aos interesses econômicos do Banco Master”, a partir de indícios obtidos a partir dos celulares apreendidos, segundo relatório ao ministro do STF André Mendonça. Pior é que a essa atuação não se caracteriza por ato único e isolado, “mas em padrão contínuo, sistemático e documentado de engajamento pessoal” nos negócios liderados por Daniel Vorcaro.

Juntos na ascensão

Para a PF, Jaques Wagner atuou em favor do conglomerado financeiro sobretudo de 2022 a 2025, na “ascensão da organização criminosa".

Projeto de Ciro na mesa

A PF aponta reuniões de Wagner para tratar de temas de interesse do Vorcaro, como aumentar cobertura do FGC para beneficiar o Master.

Batom na cueca

Wagner negou relação com Daniel Vorcaro, mas enviou mensagem ao ex-sócio Augusto Lima, indagando “como estão as coisas do banco".

Pernas curtíssimas

É acusado também de mentir sobre dólares e euros. As diárias pagas pelo Senado totalizam bem menos que os R$600 mil apreendidos.


Diário do Poder

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Remuneração de juízes nos EUA se atém ao salário. Coisa de país sério, decente... Pudera nenhum ladrão (muito menos condenado) chega à Casa Branca

 

Reprodução


Enquanto membros das diversas Cortes brasileiras discutem quanto devem receber além dos seus salários, juízes nos Estados Unidos, que ocupam diversas posições no sistema judicial, não têm qualquer penduricalho. Estão proibidos, por lei, de receber bônus, adicional ou auxílio. Juízes de lá têm direito a plano de saúde, seguro de vida e à aposentadoria especial e podem até ser pagos por aulas ministradas em universidades ou cursos jurídicos. Nada de palestra para bancões.

Royalties

O único extra autorizado é através de livros publicados, juíz de instâncias inferiores não pode ganhar mais de 15% do salário anual.

Só no Brasil

Não existe nos EUA auxílios moradia, alimentação, combustível, creche, gratificações, licenças compensatórias ou folgas convertidas em dinheiro.

Suficiente

Os salários anuais variam entre US$250 mil e US$300 mil (R$1,5 milhão), a depender do cargo ocupado pelo juiz.

Diário do Poder

Toma lá, dá cá - corrupção sem fim sob Lula - Descondenado já pagou R$18,4 bilhões em emendas

 

 Foto: assessoria/divulgação


O governo Lula (PT) abriu a carteira para bancar emendas de deputados e senadores nas últimas semanas. No total, já foram pagos R$18,4 bilhões em emendas parlamentares, este ano. O dado que mais impressiona é o total distribuído apenas no mês de maio: R$14,1 bilhões, quase 77% de tudo que o governo petista pagou em 2026. Em junho, já são R$605 milhões liberados pelo governo aos parlamentares.

Comparação

Em maio do ano passado, por exemplo, o governo Lula distribuiu pouco mais de R$188 milhões para pagar emendas parlamentares.

Coincidência?

Às vésperas da sabatina de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) o governo reservou R$12 bilhões para as emendas.

Individuais

A maior parte das emendas pagas pelo governo Lula este ano são individuais, que custaram mais de R$13 bilhões até o momento.

Bancada

Outros R$4,5 bilhões dos pagadores de impostos custearam as emendas de bancada do Congresso Nacional, este ano.

Diário do Poder

domingo, 21 de junho de 2026

Trump e seu Departamento de Estado sabem com quem estão lidando, por Flávio Gordon

Reação de Washington ao caso Eduardo Bolsonaro sugere que a erosão das garantias jurídicas no Brasil deixou de ser uma questão doméstica





Imagine um processo judicial em que o juiz é publicamente conhecido por “querer pegar” o réu que se encontra sob sua jurisdição. Em qualquer democracia com Estado de Direito funcional, esse juiz seria imediatamente afastado do caso — não por generosidade ao acusado, evidentemente, mas por uma exigência elementar de legitimidade: a de que a sentença seja proferida por alguém que não tenha interesse no resultado. No Brasil de Alexandre de Moraes, como se sabe, esse princípio foi solenemente ignorado. A condenação de Eduardo Bolsonaro, na última terça-feira, 16, foi mais um resultado previsível de um julgamento que nunca teve condições mínimas de ser justo.

Em novembro de 2022, como sabemos pela Vaza Toga, capangas de Moraes diziam entre si: “Ele quer pegar o Eduardo Bolsonaro”. Foi isso o que escreveu o juiz auxiliar Marco Antônio Vargas a Eduardo Tagliaferro, no mesmo dia em que se discutia como construir uma associação entre o filho do então presidente e o analista argentino Fernando Cerimedo, que denunciara o funcionamento irregular das urnas eletrônicas do TSE. Na mesma troca de mensagens, quando Tagliaferro não encontrou material comprometedor em relação à Revista Oeste, o sabujo Airton Vieira sugeriu-lhe que “usasse a criatividade”. O Careca do Master queria pegar Eduardo Bolsonaro e qualquer um que o criticasse. Seus assessores foram orientados a inventar o caminho. Quatro anos depois, o mesmo pseudo-juiz presidiu o julgamento, leu o relatório, votou primeiro e saiu vencedor. Unanimidade.

No processo fraudulento, o defensor público federal Antonio Ezequiel Inácio Barbosa bem apontou o absurdo da situação. A denúncia da PGR, disse ele, aponta Moraes como uma das vítimas diretas das ações atribuídas ao réu — “com nome, sobrenome e CPF” —, e dedica um tópico específico às sanções direcionadas ao próprio ministro. “Se há uma suspeição ou impedimento, todas as demais garantias caem por terra”. 

O argumento dispensa comentários: o juiz é simultaneamente vítima do crime que julga, relator que conduziu a instrução e membro do colegiado que votou a condenação. A Corte de Cassação italiana já catalogou configuração idêntica no caso Zambelli e a chamou pelo nome técnico que merece: violação macroscópica do princípio da imparcialidade. 

No Brasil do luloalexandrismo, aboliuse esse princípio fundamental de um Estado de Direito. 


O diagnóstico feito por Trump 

A reação internacional foi imediata e devastadora. Em nota divulgada inicialmente pela Reuters, um porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou que a sentença é o mais recente episódio “em um padrão de perseguição e guerra jurídica por parte dos tribunais brasileiros contra sua oposição política”, concluindo que “os debates políticos devem ser resolvidos por eleições democráticas e não por condenações”. 

Trata-se do reconhecimento formal, por parte do governo dos EUA, de que o Brasil vive sob uma juristocracia. Não foi uma opinião partidária ou um comentário de campanha. Foi uma nota oficial, de responsabilidade do Secretário de Estado, Marco Rubio, o mesmo que, dias antes, havia excluído o Brasil de uma lista de aliados norteamericanos na América Latina, colocando o país na companhia de  Nicarágua, Cuba e Venezuela.

No mesmo dia, à margem do G7 na França, Donald Trump comentou o julgamento. Disse que ouviu que “prenderam o Bolsonaro Jr.” por ter dado “uma declaração no Texas”, e que o Brasil se tornou “um país politicamente difícil”, “um pouco perigoso politicamente”. Trump errou o nome — confundindo Eduardo com Flávio —, mas acertou o diagnóstico. E, quando o presidente dos Estados Unidos usa a palavra “perigoso” para descrever o ambiente político de um país que se apresenta ao mundo como democracia, não estamos diante de uma mera peça de retórica. 

Trata-se de um veredito sobre o colapso do Estado de Direito brasileiro. Trump e seu Departamento de Estado já sabem perfeitamente bem com quem estão lidando…

 - Flávio Gordon - Revista Oeste

Espriella derrota extrema-esquerda e se elege presidente da Colômbia

Direitista venceu com 12.901.860 de votos, 255 mil a mais que extremista



Abelar de la Espriella, presidente eleito da Colômbia


O candidato de direita à presidência da Colômbia, Abelardo de la Espriella. foi eleito em segundo turno neste domingo (21), segundo anunciou o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), derrotando o candidato de extrema-esquerda Ivan Cepeda, apoiado pelo presidente radical Gustavo Petro, amigo de Lila (PT), de notórias ligações aos narcoterroristas das Farc (“Forças Armadas Revolucionárias da Comlômbia”), que se notablizaram por atentados que mataram milhares de cidadãos e centenas de sequestros. 

Abelardo de la Espriella alcançou 12.901.860 votos, contra a 12.646.859 de Cepeda, com 99,45% de las mesas informadas

Ao votar, mais cedo, Petro prometeu solenemente que respeitaria o resultado das urnas, mas ninguém o levou a sério, por ser conhecido mentiroso. Não deu outra: anunciada a vitória de Espriella, Petro já foi divulgando que não respeitaria o resultado das urnas.

Conhecido pela leviandade, Gustavo Petro teve a ousadia de discursar no Central Park, em Nova York,exortando os militares norte-americanos a se rebelarem contra o presidente dos Estados Unidos , Donald Trump. O fato ocorreu no início da atual gestão do republicano. Esse tipo de apelo em geral é considerado crime em qualquer país, com a consequente prisão do criminoso, mas os EUA respeitam a liberdade de expressão, nem ao contrário das ditaduras de esquerda.

Petro tentou se vender como “anti-Trump” e passou a atribuir o favoritismo de Espriella à lorota de suposta interferência dos EUA no processo eleitoral. Seu governo é acusado de estar porbtrás de diversos crimes políticos, incluindo o assassinato do senador e pré-candidato à presidência da Miguel Uribe Turbay, que, aos 39 anos foi vítima de atentado a tiros ocorrido em junho de 2025, durante um comício político em Bogotá.

Diário do Poder

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Imigração em massa: o alerta na Europa, por Ana Paula Henkel

Em vez de promover uma discussão séria, boa parte das elites políticas e midiáticas optou por tratar a crítica ao modelo vigente como sinal de intolerância ou preconceito



Ataque a facadas em Belfast e a violenta resposta popular provocam tensão e crise social no Reino Unido, relata a imprensa local - Foto: Shutterstock 


H á quase duas semanas, a Irlanda do Norte registra cenas de fortes protestos que rapidamente ganharam repercussão internacional. As manifestações começaram depois de um bárbaro ataque a faca ocorrido na cidade de Belfast, que deixou um homem gravemente ferido. A vítima, Stephen Ogilvie, sofreu ferimentos graves no rosto, no pescoço e nas costas, além de perder o olho esquerdo durante o ataque. Testemunhas conseguiram conter o agressor até a chegada da polícia, evitando consequências ainda mais graves. 

O agressor é Hadi Alodid, cidadão sudanês de 30 anos e requerente de asilo com autorização para permanecer no Reino Unido. Ele foi preso no local, acusado de tentativa de homicídio, posse de arma branca e de ameaçar de morte um funcionário do sistema público de saúde britânico, ficando sob custódia das autoridades. Alodid obteve permissão de permanecer na Grã-Bretanha por meio de um controverso sistema de tramitação acelerada, após preencher um questionário de dez páginas do ministério do interior, em vez de passar pelo processo padrão — e muito mais rigoroso — de entrevista presencial.

Vídeos da agressão se espalharam pelas redes sociais e serviram de catalisador para a explosão de indignação que já vinha se acumulando há muito tempo. Carros foram incendiados. Confrontos tomaram as ruas. 


Protestos se multiplicaram

Há dias, manifestações contra a 19/06/2026, 19:35 Imigração em massa: o alerta na Europa - Revista Oeste https://revistaoeste.com/revista/edicao-327/imigracao-em-massa-o-alerta-na-europa/ 3/17 imigração em massa reuniram dezenas de milhares de pessoas em diferentes cidades da Europa. 

Polônia, Itália, Espanha, Irlanda, Suécia, Escócia e Inglaterra registraram atos que, embora distintos entre si, compartilham uma mesma mensagem: uma parcela crescente da população europeia acredita que seus governos perderam o controle da política migratória e se recusam a ouvir preocupações legítimas de seus próprios cidadãos. 

O episódio de Belfast não criou essa insatisfação. Apenas a revelou. Durante anos, o debate sobre imigração na Europa foi conduzido de maneira superficial. De um lado, estavam aqueles que defendiam fronteiras praticamente abertas em nome de princípios humanitários. De outro, aqueles que alertavam para os impactos sociais, culturais e econômicos de uma imigração em massa sem critérios claros de integração. 

Em vez de promover uma discussão séria, boa parte das elites políticas e midiáticas optou por tratar qualquer crítica ao modelo vigente como sinal de intolerância ou preconceito.


O resultado foi previsível. 

Questões reais deixaram de ser discutidas até se transformarem em crises políticas. 

Milhões de europeus observam mudanças profundas em seus bairros, em suas escolas, em seus sistemas de saúde e em suas cidades. Muitos sentem que as autoridades não apenas ignoram suas preocupações, mas frequentemente procuram desqualificá-las. 

A consequência natural desse processo foi o crescimento de movimentos políticos que prometem fazer exatamente aquilo que os governos tradicionais se recusaram a fazer: controlar as fronteiras e reduzir os fluxos migratórios. Existe uma tendência de simplificar esse debate e apresentá-lo apenas como uma discussão sobre números. 

Não é disso que se trata. A questão central é confiança. Uma democracia depende da convicção de que os governantes estão ouvindo os governados. Quando milhões de pessoas passam a acreditar que suas preocupações são sistematicamente ignoradas, a confiança nas instituições começa a se deteriorar. 

A crise migratória europeia tornou-se, acima de tudo, uma crise de representação política. Há também uma dimensão econômica que não pode ser ignorada. 

Em diversos países europeus, cidadãos trabalham sob uma das maiores cargas tributárias do mundo. Pagam impostos elevados para financiar sistemas de saúde, educação, transporte e assistência social. Ao mesmo tempo, governos destinam bilhões de euros a programas voltados para requerentes de asilo e recém-chegados. 

A questão não é a existência de ajuda humanitária. Sociedades civilizadas sempre demonstraram solidariedade diante de tragédias e perseguições reais. O problema surge quando uma parcela significativa da população passa a perceber que o Estado parece mais eficiente para atender quem acaba de chegar do que aqueles que sustentam o sistema há décadas. 

Famílias enfrentam dificuldades para adquirir moradia. Jovens adiam projetos de vida devido ao custo crescente dos imóveis. Hospitais operam sob pressão. Serviços públicos enfrentam filas cada vez maiores. Nesse contexto, muitos cidadãos se perguntam por que governos parecem encontrar recursos ilimitados para novas políticas migratórias enquanto afirmam não possuir recursos suficientes para resolver problemas antigos que afetam seus próprios contribuintes. 

Ignorar essa pergunta não a faz desaparecer. Pelo contrário. Ela retorna às urnas. E foi exatamente isso que ocorreu nos Estados Unidos em 2024. A vitória avassaladora de Donald Trump na última eleição presidencial americana não pode ser compreendida apenas como um fenômeno partidário. Ela refletiu uma percepção compartilhada por milhões de americanos de que o governo federal havia perdido o controle da fronteira e deixado de priorizar as necessidades dos próprios cidadãos. 

A questão migratória ocupou papel central naquela eleição porque tocava em temas muito maiores do que imigração. Falava de soberania, segurança, responsabilidade fiscal e confiança institucional. Muitos americanos sentiam que trabalhavam, pagavam impostos e respeitavam as leis enquanto o governo direcionava recursos cada vez maiores para pessoas que haviam entrado ilegalmente no país.

 Independentemente da posição ideológica de cada eleitor, essa percepção era politicamente poderosa. A Europa começa a viver um processo semelhante. Mas existe uma dimensão ainda mais profunda, frequentemente evitada pelas elites políticas do continente. 

A dimensão civilizacional. Durante séculos, a Europa foi mais do que uma expressão geográfica. Foi uma civilização moldada por uma herança cultural, filosófica e religiosa profundamente influenciada pelo cristianismo. Suas universidades nasceram em ambientes cristãos. Suas catedrais moldaram suas cidades. 

Sua arte, sua literatura, suas instituições e até sua compreensão da dignidade humana carregam marcas dessa tradição. A imigração em massa transformou essa discussão em algo muito mais complexo do que uma questão de mercado de trabalho ou assistência social. 

Milhões de europeus observam a chegada de populações provenientes de contextos culturais e religiosos profundamente diferentes daqueles  que moldaram historicamente suas sociedades. Em muitas cidades, bairros inteiros passaram por transformações rápidas e significativas. 

O debate sobre integração deixou de ser teórico e tornou-se uma experiência cotidiana. Ao mesmo tempo, uma parte significativa das elites europeias parece ter desenvolvido uma relação ambígua com a própria herança cultural do continente. 

Enquanto igrejas esvaziam-se, tradições históricas são frequentemente tratadas como símbolos de um passado problemático e referências cristãs desaparecem gradualmente do espaço público, muitos cidadãos observam que a Europa parece menos disposta a defender sua própria identidade do que qualquer outra civilização do planeta. 

Essa percepção alimenta uma inquietação crescente. Não apenas sobre quem está chegando, mas sobre aquilo que os próprios europeus ainda desejam preservar. A preocupação manifestada por muitos cidadãos não se limita à segurança ou à economia. 

Ela envolve a continuidade histórica de suas nações, a preservação de costumes, tradições e valores que consideram fundamentais para sua identidade coletiva. 

Os defensores das políticas migratórias atuais frequentemente respondem que a imigração sempre fez parte da história das sociedades ocidentais. A observação é verdadeira. Os próprios Estados Unidos são resultado de sucessivas ondas migratórias. 

Ainda assim, muitos europeus argumentam que a discussão não pode ser reduzida simplesmente ao fato de haver imigração. Para eles, a questão envolve também a distância cultural entre as populações que chegam e as sociedades que as recebem. 

A Califórnia oferece um contraste interessante. Embora receba um grande número de imigrantes, a maioria vem de países latinoamericanos cuja herança histórica foi profundamente influenciada pelo cristianismo. Existem diferenças linguísticas, econômicas e nacionais importantes, mas também há referências culturais compartilhadas que facilitam processos de integração. 

Na Europa, parte do debate gira em torno de um fenômeno diferente. Milhões de recém-chegados são muçulmanos que vieram de regiões marcadas por tradições religiosas, estruturas sociais e visões de mundo significativamente distintas daquelas que moldaram historicamente as sociedades europeias. 

Para muitos cidadãos, a preocupação não está apenas na quantidade de imigrantes, mas na velocidade e na profundidade das transformações culturais produzidas por fluxos migratórios de grande escala. 

É nesse contexto que questões relacionadas à identidade nacional, ao cristianismo, à integração e à preservação de valores históricos passaram a ocupar um espaço cada vez maior no debate político europeu.

Esse é um dos motivos pelos quais o debate migratório se tornou tão intenso. Ele deixou de ser apenas uma discussão sobre fronteiras e transformou-se numa discussão sobre pertencimento. 

Os defensores das políticas migratórias atuais frequentemente respondem lembrando que a Europa sempre recebeu influências externas, e que a diversidade faz parte da história do continente. E há verdade nessa observação. A história europeia é marcada por trocas culturais constantes. 

Mas existe uma diferença importante entre imigração gradual e imigração em massa. Existe diferença entre integração e transformação acelerada, entre acolher indivíduos e alterar profundamente o perfil demográfico de sociedades inteiras em um período relativamente curto. 

Essas distinções são precisamente o que milhões de europeus tentam colocar no centro da discussão. 

Durante muito tempo, entretanto, a reação das elites foi negar a legitimidade dessas preocupações. Hoje, a realidade política demonstra o fracasso dessa estratégia. Partidos favoráveis a controles migratórios mais rígidos avançam em praticamente todo o continente. Governos que antes defendiam políticas mais abertas passaram a endurecer suas posições. 

A própria União Europeia discute mecanismos para acelerar deportações e reforçar controles fronteiriços. Nada disso aconteceu por acaso, mas porque a distância entre governantes e governados tornou-se grande demais para ser ignorada.

O episódio de Belfast, assim como tantos outros acontecimentos recentes, não deve servir para alimentar ódio contra imigrantes ou hostilidade contra pessoas que buscam uma vida melhor. Generalizações são injustas e intelectualmente preguiçosas. 

Mas tampouco deve servir para silenciar uma discussão legítima. Toda sociedade tem o direito de decidir quem entra em seu território, em quais condições entra e quais valores devem ser compartilhados para garantir a coesão social. Essa não é uma posição extremista. É um princípio básico de soberania. 

O grande erro de muitos líderes europeus foi acreditar que poderiam transformar profundamente suas sociedades sem consultar adequadamente aqueles que viveriam as consequências dessas decisões.

Agora a reação chegou e ela aparece nas ruas, nas urnas e nas pesquisas. E continuará aparecendo enquanto milhões de cidadãos sentirem que suas preocupações são tratadas com desprezo. A grande questão da Europa não é se a imigração deve existir. Todas as sociedades modernas recebem imigrantes.

A questão é quem define os limites desse processo, quais critérios orientam sua condução e quais elementos de uma civilização merecem ser preservados. A história mostra que sociedades saudáveis conseguem equilibrar abertura e continuidade, acolher sem perder a própria identidade, e adaptar-se sem esquecer quem são. 

A Europa ainda procura esse equilíbrio. E talvez a principal lição dos acontecimentos recentes seja justamente esta: quando governos deixam de ouvir seus próprios cidadãos durante tempo demais, os cidadãos acabam encontrando outras formas de serem ouvidos. 

Ana Paula Henkel - Revista Oeste