Presidente do BC foi à CPI e toureou a verdade sobre Moraes e o
Master
O esforço para omitir detalhes sobre o Banco Master na comissão escancara a proteção institucional armada para abafar o caso e blindar as
figuras centrais do poder - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução
Jornalistas que cobrem a área de macroeconomia conhecem
bem a capacidade que o Banco Central (BC) tem de esconder o
que sabe. Nos momentos mais tormentosos da história recente
do Brasil, o que inclui períodos de inflação a galope, juros
selvagens e desvalorização abrupta da moeda frente ao dólar, tudo
parece aquietar-se quando se leem as herméticas atas do Comitê de
Política Monetária do BC. Ao final da leitura, resta ao pobre mortal,
perdido diante de tantas reticências técnicas e um palavreado que se
contorce como uma lombriga, concluir que o céu está desabando, mas
as autoridades seguem impávidas e parecem ter o controle da
situação.
O repórter compra a versão oficial, nem que seja para
esconder a impressão de que leu, releu e, a rigor, não entendeu muita
coisa.
O depoimento prestado na quarta-feira, 8, à CPI do Crime Organizado
pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, honrou a tradição
da “autoridade monetária” de despistar a audiência sobre o que de fato
sabe a respeito do que de fato importa. E, antes de avançar na análise,
diga-se, em favor de Galípolo, que ao menos ele concordou em
comparecer à CPI. É pouco, claro. Mas tem mérito. Já o seu antecessor
no cargo, Roberto Campos Neto, amparado por um habeas corpus do
STF, decidiu, mais uma vez, ignorar a convocação — o que pode dar
mais margem para questionamentos que o jogo de esquiva praticado
por Galípolo diante das perguntas da comissão.
Roberto Campos Neto, antecessor de Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência
Brasil
Se esperava encarar um front, Galípolo encontrou uma passarela. A
sessão se encerrou pouco depois do final da manhã e teve quórum
esvaziado, o que é efeito da decisão do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, de boicotar o pedido de prorrogação da CPI do Crime
Organizado para além do prazo exíguo que lhe resta — 14 de abril. O
mesmo que fizera, aliás, para enterrar a CPMI do INSS, graças ao
salvo-conduto que ganhou do STF para abafar as apurações da
roubalheira praticada contra aposentados e pensionistas.
Como mostrou a cobertura de Oeste, as perguntas foram dirigidas a
Galípolo em tom formal, quase protocolar, em nada lembrando o
ambiente de tensão e aguerrimento típico de comissões
parlamentares de inquérito. Embora objetivo, como de hábito, até
mesmo o senador e ex-delegado de Polícia Alessandro Vieira, relator
da CPI, pareceu mais contido.
Enfim, Galípolo pôde passear sem dificuldades pelas questões mais
sensíveis que envolvem a atuação do Banco Central antes, durante e
depois do processo de liquidação do Master, o banquinho que representava apenas 0,55% das captações do sistema financeiro, mas
deixou um rombo que consumirá mais de 40% dos recursos do Fundo
Garantidor de Créditos.
É o maior golpe já dado na praça — algo em torno de R$ 55 bilhões. E
não há, em hipótese alguma, como deixar de fora a atuação no mínimo
omissiva do Banco Central para compreender como e por que Daniel
Vorcaro teve tempo e liberdade de movimentos para, com seu
minibanco, construir e/ou operar um organograma de corrupção sem
precedentes, capaz de subornar a elite do Judiciário, do governo, do
Congresso — e servidores de carreira do próprio Banco Central.
Foi desapontador ver a sucessão de respostas vazias para as grandes
questões que implicam o Banco Central. Duas delas têm a ver,
diretamente, com Gabriel Galípolo. A primeira, em ordem cronológica,
é a reunião de Vorcaro com Lula no dia 4 de dezembro de 2024. Um
encontro às escondidas, na medida em que não constou dos registros
oficiais. Galípolo, que ainda não havia assumido a presidência do
Banco Central, foi chamado pelo presidente para ouvir as lamúrias de
Vorcaro, que recitava ao presidente a queixa de que os bancões o
perseguiam para impedir seu crescimento.
A capacidade de Daniel Vorcaro de reunir Lula e o futuro chefe do Banco Central longe dos registros públicos expõe a manobra do
banqueiro para crescer nas sombras - Foto: Reprodução/Redes sociais
Considere a cena: o jovem Galípolo, um técnico com boa formação
acadêmica, é chamado pelo presidente para dar ouvidos a um
microbanqueiro cuja existência só chamava a atenção do mercado
porque o Master vendia aos aplicadores incautos uma espécie de
cadeirinha no céu — um CDB que prometia render até 40% acima da
rentabilidade oferecida pelos demais bancos. Na reunião, que durou
uma hora e meia, privilégio facultado a raros ministros em uma
agenda presidencial, Vorcaro se fazia acompanhar de Augusto Ferreira
Lima, então CEO do Banco Master. Guga Lima, de estreita ligação com
o PT da Bahia, foi o artífice do crescimento do Master a partir de um
negócio de crédito consignado que engendrou durante o governo de
Rui Costa, na Bahia, em 2018. Hoje ministro da Casa Civil de Lula, Rui
Costa estava na mesma reunião.
Para saber como Vorcaro conseguiu a audiência com Lula, é
importante considerar que já estava em vigor um contrato nababesco
do Banco Master com Guido Mantega, o ex-ministro da Fazenda de
Lula e Dilma. Por serviços de consultoria, o Master pagava a Mantega
R$ 1 milhão por mês. Impossível imaginar que Mantega não estivesse
acompanhando o chefe Vorcaro nessa reunião com o presidente. Sim,
ele estava.
A suposta consultoria de R$ 1 milhão por mês transformou Guido Mantega no fiador de luxo de Daniel Vorcaro nas reuniões secretas
com o presidente da República - Foto: Reuters/Ueslei Marcelino/File Photo
Pois bem: na CPI do Crime Organizado, perguntou-se a Gabriel
Galípolo o que Lula pediu a ele, quando tomasse posse no comando do
Banco Central. Galípolo alegou que o presidente o chamou a uma
reunião de alta octanagem política, e escondida da agenda oficial, para
recomendar que… agisse tecnicamente. E só. Acredite quem quiser.
A segunda situação apresentada a Galípolo pelos senadores buscou
esclarecer o assédio que ele teria sofrido do ministro Alexandre de
Moraes em meados de 2025 para evitar alguma decisão mais gravosa
do Banco Central contra o Banco Master, já em apuros financeiros para
sustentar uma operação que, no mercado, era comparada a um
esquema de pirâmide.
Deveria ter sido o momento mais importante do depoimento, do ponto
de vista do esclarecimento público. Ainda nesta semana, veio a público
a informação obtida pela CPI do Crime Organizado de que, entre 2024
e 2025, o Banco Master pagou inimagináveis R$ 80 milhões ao
escritório Barci de Moraes, da família do ministro Alexandre de
Moraes.
Galípolo negou a informação publicada pela imprensa brasileira em
dezembro, atestando que, em meados de 2025, em um só dia, Moraes
telefonou seis vezes para o presidente do Banco Central. Disse que
nunca falou ao telefone com Moraes e que a única reunião que teve
com o ministro foi no STF, para tratar da aplicação, pelos Estados
Unidos, da Lei Magnitsky.
O esforço de Gabriel Galípolo para minimizar a relação com Alexandre de Moraes ignora os fatos relatados e tenta limitar a ligação entre
ambos a um único encontro formal no tribunal - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
A comissão reagiu com certo conformismo à afirmação de Galípolo.
Esperava-se que ele fosse instado a explicar a súbita mudança de
atitude em relação a este assunto. Em 18 de dezembro do ano passado,
quando o Banco Central sofria pressões do Tribunal de Contas da
União para voltar atrás na decisão de liquidar o Banco Master, Galípolo
fez um desabafo público. Foi durante a entrevista coletiva que
concedeu à imprensa, em 18 de dezembro, na sede do Banco Central.
Aos jornalistas, mencionou a existência de pressões políticas sobre a
instituição.
“Documentamos tudo”, verberou Galípolo. “Cada uma das ações que
foram feitas, cada uma das reuniões, cada uma das trocas de
mensagens, cada uma das comunicações, tudo isso está devidamente
documentado.”
Naquele momento, Galípolo parecia abrir o peito, dado que, no
Congresso, o centrão manobrava o Tribunal de Contas da União (TCU)
para questionar a atuação do BC, em uma operação de salvamento do
Master. Já era de conhecimento público, também, que o escritório jurídico da família de Moraes faturava R$ 3,6 milhões mensais, desde
fevereiro de 2024, pagos religiosamente pelo Master.
Cercado pelos
repórteres, Galípolo estava tenso e preocupado em, de certa forma,
mostrar seu arsenal de defesa da autarquia, diante do esperado cerco
das investigações da Polícia Federal.
Semanas depois, porém, o rugido de Galípolo virou um miado. Colocou
sob sigilo todas as correspondências do Banco Central, repelindo,
desta forma, o interesse da imprensa em ter acesso aos contatos e
reuniões mantidos com outras autoridades — principalmente
Alexandre de Moraes.
E, nesta semana, valendo-se de uma norma de
2018, determinou sigilo de oito anos para documentos relativos à
liquidação do caso Master. O que provocou seu recuo, ele não explicou
e nem lhe foi perguntado com a assertividade necessária. A CPI foi
camarada com o depoente.
A esperança é o prosseguimento das investigações da Polícia Federal,
sob a relatoria no STF do ministro André Mendonça. Mendonça tem à
sua disposição o conteúdo de uma penca de telefones celulares de
Daniel Vorcaro. Entre mensagens e conversas da madrugada, o
ministro sabe ou tem condições de saber o papel de Moraes na trama
golpista, se assim se pode chamar a teia de influência que deixou uma
conta de dezenas de bilhões de reais para os bancos brasileiros que
não iludem aplicadores e, num caso à parte, tomaram mais de R$ 11
bilhões do Banco de Brasília (BRB).
A cifra dá a dimensão do rombo
que o Master impôs ao BRB com a venda de carteiras de crédito que a
Polícia Federal e o Banco Central descobriram tratar-se de ativos sem
valor, em fraude com evidência de conexões com a indústria de fundos
de investimentos que lavam dinheiro para o crime organizado.
O conteúdo dos celulares de Daniel Vorcaro está nas mãos do ministro André Mendonça, que tem o poder de expor a teia de influência
de Alexandre de Moraes no escândalo financeiro - Foto: Victor Piemonte/STF
Os sigilos do Banco Central não são capazes de obstruir o trabalho da
Justiça se Mendonça quiser saber de Gabriel Galípolo tudo o que não
revelou ao cordato colegiado de senadores que o questionou sobre o
cerco de Moraes ao BC. Galípolo toureou a verdade, porque não quis
(ou não pôde) dizer o que sabe.
O trágico, nesta história, é que o próprio André Mendonça, para bem
cumprir o que disse ser uma missão de vida, também precisará
ingressar numa arena com quatro ou cinco touros resfolegantes, com
chifres pontiagudos e sangue nos olhos. Leitores de Oeste que
acompanham a degeneração do Supremo Tribunal Federal
entenderão.
Eugênio Esser - Revista Oeste