sábado, 21 de abril de 2018

"A hora e a vez do novo", por Rosiska Darcy de Oliveira

O Globo


É como se após uma sufocação, voltássemos a respirar ar fresco. Vínhamos há muito tempo condenados a uma polarização alimentada pelo ódio e pelo medo, sentimentos corrosivos, que dividem pessoas e sociedades.

A escolha entre Lula e Bolsonaro deixava órfão quem, perplexo, se perguntava que maldita máquina do tempo era essa que nos atirava de volta a 50 anos atrás, quando o confronto entre direita e esquerda desembocou em 20 anos de ditadura militar.

A cena política mudou. Lula foi preso depois de um discurso em que tentou transformar um político preso em um preso político. Pregou ódio e violência talvez apostando em um conflito mais grave que, instalando o caos, fizesse de um condenado por corrupção uma vítima do arbítrio. Não conseguiu.

Bolsonaro, por sua vez, que surfava na onda de violência que desgraça o país, prometendo como solução mais violência, foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal pelo crime de racismo. Já havia sido denunciado pela mesma PGR ao mesmo STF por incitação ao estupro.

E, por fim, o resultado da pesquisa Datafolha de intenção de votos para a Presidência da República apontando para o colapso da velha política. Lula perdeu votos, Bolsonaro empacou na votação que tinha até agora. Ascendentes, duas candidaturas, um negro, Joaquim Barbosa, e uma mulher, Marina Silva, com trajetórias de afirmação pessoal e reputação ilibada. Ambos conheceram a pobreza na infância e juventude. Nem um nem outro esqueceu o que isso significa.

As agressões de Bolsonaro contra os negros e as mulheres, ampla maioria da população, esbarram na realidade de um país em que negros e mulheres vêm levando com coragem uma luta pelos direitos que vertebram uma verdadeira democracia.

É preciso agora desmistificar o anacrônico confronto entre esquerda e direita que Lula e Bolsonaro tentam nos impingir como expressão da sociedade, o que é falso. É torpe a tentativa de Lula e do PT de jogar no campo da direita, como um anátema, todos os que dizem que eles foram desonestos, faliram o Brasil e merecem a condenação da Justiça. O que é verdade.

Combater a pobreza e a desigualdade é uma tarefa inadiável. Não foram os movimentos sociais aparelhados pelo PT que mudaram o Brasil, foi a sociedade em movimento, os que se educaram com imenso esforço, exercem sua liberdade de pensamento e de escolha, lutam na vida real contra a pobreza e desigualdade. Os que exigem um governo livre da corrupção e acreditam na Justiça como essencial à democracia.

Lula e seu partido, Bolsonaro e quase toda a classe política não se dão conta do quanto o Brasil mudou. Não estão à procura de um centro, o que subentenderia uma referência ainda à esquerda e à direita. Um novo Brasil emerge em outro lugar, fora da polarização.

O crescimento das candidaturas de Marina Silva e Joaquim Barbosa sinaliza uma aspiração à decência na vida pública que pulsa na sociedade e será incontornável nessa eleição. Foi essa aspiração que apoiou a decisão do Supremo Tribunal Federal que, negando o habeas corpus a Lula, reafirmou a jurisprudência que permite a prisão após condenação em segunda instância, essencial à eficácia do combate à impunidade. É ela que exigia que Aécio Neves fosse tornado réu, pelo STF, como de fato foi.

Outro mito, o das máquinas partidárias, todo-poderosas, que decidem as eleições no lugar da vontade popular. Sem elas, os candidatos seriam inviáveis. O que manteria o eleitor inescapável refém dos grandes partidos por mais desmoralizados que fossem. Ora, a pesquisa atribui pífias intenções de voto ao MDB, detentor da maior parcela do fundo partidário e do tempo de televisão. O que dá ainda maior relevo à trapaça que é a atribuição de tempo e dinheiro a partidos que a população despreza. Esse mito aposta na profecia que se cumpre, desqualificando e minando candidaturas com forte potencial eleitoral como Marina e Barbosa.

É difícil reconhecer o que é novo. Programados para conviver com o velho, o novo, que vem emergindo, imperceptível, surpreende.

Somos uma sociedade que, depurada da corrupção e fortalecida pela Justiça, terá que enfrentar seus desafios maiores, a violência, a pobreza e a desigualdade, os frágeis direitos das minorias e de maiorias como os negros e as mulheres, a crise ambiental, cicatrizes que desfiguram nossa democracia.

Longe do ódio e do medo que nos separam, é em outro lugar, o da honradez, liberdade e dignidade para todos, que devemos nos reunir. A pesquisa Datafolha colocou esse lugar no mapa eleitoral.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora


"Violência e corrupção na agenda do continente", editorial de O Globo

VIII Cúpula das Américas aprova uma cooperação mais estreita entre os países para enfrentar desafios da região. Maioria apoia boicote às eleições na Venezuela


A morte de três jornalistas do jornal equatoriano “El Comercio” e o sequestro de um casal por dissidentes das Farc são indícios dos riscos que ainda pairam sobre o acordo de paz entre o governo colombiano e o mais longevo grupo guerrilheiro latino-americano. As ações dos terroristas, ocorridas na fronteira entre Colômbia e Equador, comoveram a população equatoriana, que realizou na quinta-feira manifestações em várias cidades do país.

Os sequestros e as mortes seriam uma reação à operação conjunta dos dois países para coibir o narcotráfico na região. Javier Ortega, jornalista de 32 anos; Paúl Rivas, de 45, repórter-fotográfico; e o motorista Efraín Segarra, de 60, foram executados a tiros no cativeiro. Os corpos ainda não foram recuperados. O grupo Frente Oliver Sinisterra, liderado por Walter Arizala, conhecido como Guacho, não aceitou os termos do acordo de paz do governo da Colômbia com as Farc. A Frente e outros grupos dissidentes tentam reabrir as rotas de tráfico de cocaína até o Oceano Pacífico, de onde a droga seria exportada para a América Central e os EUA.

A ação desses dissidentes, além de desestabilizar as fronteiras, mostra que a luta ideológica que impulsionava a esquerda heroicamente no passado sucumbiu aos desvios mais mesquinhos. Não se trata apenas da promíscua relação da guerrilha com narcotraficantes, mas também, numa escala maior, de líderes políticos apanhados em esquemas de corrupção, que se disseminaram pelo continente nos últimos anos.

Não à toa, a corrupção foi o tema central da VIII Cúpula das Américas, realizada há uma semana, em Lima. Apesar de esvaziada pela ausência, pela primeira vez, de um presidente americano, o evento foi mais do que uma mera reunião protocolar. Além de questões como propina, lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos, entre outros, os líderes discutiram o drama venezuelano, que ganhou recentemente contornos nítidos de uma crise humanitária.

Considerado o principal responsável pela desestruturação total da Venezuela, como nação, sociedade e economia, o presidente Nicolás Maduro foi desconvidado. Diante da oposição do presidente da Bolívia, Evo Morales, e do chanceler cubano, Bruno Rodríguez, o documento final não faz menção ao regime de Maduro, mas o Grupo de Lima, de 14 países, indicou que não aceitará o resultado das eleições de 20 maio, em que membros da oposição foram proibidos de participar.

O documento final indica uma cooperação mais estreita entre os países da região, sobretudo no combate à corrupção. Num continente em que o realismo fantástico muitas vezes parece ser a forma mais adequada para descrever a realidade, a Cúpula das Américas representou um passo singelo, porém coerente.



"Privatização da Eletrobras está moribunda", editorial de O Globo

Venda da estatal é projeto certo em governo errado, politicamente fraco, sem condições de convencer a própria base, que prefere usar a estatal de forma clientelista

O apoio à ideia da privatização da Eletrobras foi proporcional à descrença na possibilidade de o governo Temer conseguir viabilizar este necessário projeto no Congresso. O que era previsto fica cada vez mais incontornável.

Não se discute, de forma séria, que não seja necessária a venda do controle da estatal, desequilibrada de forma estrutural pelo intervencionismo populista da presidente Dilma Rousseff, para forçar, na base “da vontade política”, um corte de 20% nas tarifas, a fim de servir de cabo eleitoral na campanha da reeleição, em 2014. Inviabilizou a empresa sob controle estatal.

Sem que o Tesouro, abalado de maneira grave pelos desatinos macroeconômicos da política do “novo marco”, possa socorrer a empresa — como seria praxe, embora equivocado —, o único caminho lógico é a venda do controle da Eletrobras, pela oferta de ações de posse da União.

Aqui não está em questão ideologia, mas a necessidade vital de atrair para o setor elétrico grupos privados em condições de arcar com um programa de investimentos pesados e constantes. Estancá-los é decretar apagões e uma recessão para logo à frente, com a eternização de um ciclo de muito baixo crescimento. Sem energia, não se vai a qualquer lugar.

Vender o controle da Eletrobras é um projeto certo em um governo errado, esvaziado de poder pelas denúncias da Procuradoria-Geral da República contra o presidente, e por evidências de relações antirrepublicanas com empresários. Temer e seu grupo conseguiram barrá-las na Câmara, mas, para isso, gastaram todo o capital político que tinham. Não conseguem negociar, de uma posição de força, a aprovação no Legislativo da privatização da Eletrobras.

Por ironia, usada muitas vezes pelo próprio MDB de Temer para acertos fisiológicos, por meio de nomeações sem critérios profissionais. É esta cultura que se volta contra a proposta do próprio governo.

Levantamento feito pelo “Estadão/Broadcast” sobre a influência política em nomeações nas principais subsidiárias da empresa detectou que a Lei das Estatais tem sido burlada de forma simples: os nomeados reúnem currículo e experiência, mas são apadrinhados por políticos. Era assim na diretoria da Petrobras que atuou no assalto à empresa associada ao PT, PP, PMDB e outros aliados. Entre os padrinhos, na Eletrobras, há deputados e senadores do MDB, DEM, PP, PSB, PSDB e PSD. É conhecida a bancada mineira em que o tucano Aécio Neves se bate para manter Furnas sob o controle da política de Minas.

Já seria difícil se Temer ainda tivesse poder para pressionar a bancada dita aliada. Agora, impossível. Esses políticos preferem manter sob o alcance uma empresa do tamanho da Eletrobras, para praticar o clientelismo e conseguir recursos para campanha, agora exclusivamente pelo caixa 2. Se faltará energia em algum momento, não consideram problema deles, mas do Estado.


sexta-feira, 20 de abril de 2018

TRF-4 publica decisão sobre Dirceu, capitão da organização criminosa do Lula

Com O Antagonista

O TRF-4 publicou no fim da tarde de hoje o acórdão do julgamento dos embargos infringentes de José Dirceu –ontem, a 4ª Seção do Tribunal negou o recurso do petista e manteve a pena de 30 anos e 9 meses.

O petista foi intimado hoje à noite. Agora, sua defesa tem dez dias corridos mais dois dias (que não podem cair em fim de semana e feriado) para apresentar o último recurso, os embargos de declaração.

Somando tudo, o prazo dos advogados de Dirceu vai até 2 de maio. Uma vez esgotados os recursos na segunda instância –e já que Dias Toffoli negou a liminar que ele pediu ao STF–, o ex-chefe da Casa Civil voltará ao xilindró.

Southwest dá 5 mil dólares a passageiros de avião que fez pouso forçado

Veja

Avião da Southwest Airlines faz pouso forçado na Filadélfia
Avião da Southwest Airlines faz pouso forçado no Aeroporto Internacional
 da Filadélfia após problemas na turbina esquerda da aeronave
 - 17/04/2018 (David Maialetti/The Philadelphia Inquirer/AP)

Alguns passageiros que estavam no voo 1380 da Southwest Airlines que fez um pouso forçado na PhiladelphiaEstados Unidos, receberam um cheque de 5.000 dólares (aproximadamente 17.000 reais) e um pedido de desculpas da companhia.
Na terça-feira, o avião fazia uma viagem de Nova York para Dallas quando um motor explodiu, espalhando estilhaços que acertaram uma janela, o que fez com que uma passageira fosse sugada para foraJennifer Riordan foi puxada de volta para a aeronave por outros passageiros, mas morreu em um hospital na Philadelphia.
Sete pessoas ficaram feridas no acidente. O voo partiu do aeroporto de LaGuardia, na região metropolitana de Nova York, rumo a Dallas, no Texas, com 143 passageiros a bordo e 5 comissários.
Segundo apurou a CNNao menos três passageiros receberam uma carta com “sinceras desculpas” juntamente com o cheque.
“Valorizamos você como nosso cliente e esperamos que você nos permita outra oportunidade para restaurar sua confiança na Southwest como a companhia aérea com a qual você pode contar para suas necessidades de viagem”, dizia a carta para Kamau Siwatu, um passageiro que conversou com a rede americana. “Neste espírito, estamos enviando um cheque no valor de 5.000 dólares para cobrir qualquer uma de suas necessidades financeiras imediatas”, dizia a companhia. A correspondência também informava que os passageiros receberam um voucher de viagem de 1.000 dólares.
Ainda não se sabe a causa do acidente. Na quinta-feira, o Conselho Nacional de Segurança no Transporte (NTSB, na sigla em inglês) encontrou rachaduras internas em uma das pás do ventilador que resfriava o motor do avião e agora investiga se as rachaduras poderiam ter causado a explosão.
A piloto do voo, Tammie Jo Shults está sendo considerada uma heroína de “nervos de aço” por ter realizado o pouso de emergência. “A piloto voltou para falar com cada um de nós pessoalmente. Essa é uma verdadeira heroína americana”, escreveu Diana McBride Self, que estava no voo, em uma postagem no Facebook. “Um grande obrigada por seu conhecimento, orientação e bravura em uma situação traumática”.

Resumo da ópera no Supremo

Com Blog do Noblat, O Globo


Pano de fundo das mais recentes sessões do Supremo Tribunal Federal: os ministros Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio Mello, José Dias Toffoli e Gilmar Mendes estão frustrados por não ser relatores da Operação Lava Jato ali. 
O relator é o ministro Edson Fachin.
Se fossem eles, a Lava Jato já não existiria mais. 
Se existisse, em nada lembraria o que o país assiste há quatro anos. 
Nem por isso desistirão de pôr a Lava Jato sob cabresto. 
Na próxima semana haverá mais.

"Prerrogativas seletivas - Querem porque querem convencer o mundo que Lula é um preso político", por Maria Helena RR de Sousa

Com Blog do Noblat, Veja


Leonardo Boff, ao apelar para que lhe fosse permitido visitar o ex-presidente Lula, declarou: “Eu que sou velho amigo de Lula vim em uma missão espiritual. Como uma lei divina pode ser negada por uma juíza terrena?”. Modesto o ex-frade, não é? Sua missão espiritual seria uma lei divina?
Lula desrespeitou as leis terrenas, as leis de seu país. Desrespeitou também as leis de Deus. Deve mesmo precisar receber consolo espiritual, o mesmo que todos precisamos ao passar por sofrimentos de qualquer natureza. Estou segura que se ele disser ao guarda de sua cela que precisa se confessar, a Polícia Federal de Curitiba providenciará um padre para lhe ouvir. Um padre que reze missas na Catedral de Curitiba poderia ouvi-lo e lhe dar a comunhão, caso Lula pedisse após se confessar.
Boff, assim como senadores e deputados, acha que essa é uma prerrogativa dele, que não precisa passar pela Justiça, que é a guardiã de Lula. Quantas vezes Boff usou dessa prerrogativa para visitar e consolar presos em nossas prisões? Quantas vezes comissões de senadores e deputados fizeram inspeção nas prisões em seus estados? E quais foram as conclusões a que chegaram? E quais foram as medidas que tomaram para melhorar a situação dos encarcerados?
De repente, muitas pessoas acharam ser fundamental uma visita ao Lula. Por quê? Certeza não tenho, mas parece que estão usando o ex-presidente para se promover. O senador que falou em nome de seus pares ao encerrar a visita declarou que a cela estava em boas condições, que Lula estava bem, apenas solitário. Queriam que o juiz o enviasse para uma cela coletiva? Será que o Lula ia ficar mais sossegado, mais feliz, se dividisse uma cela com seus ex-companheiros de governo? Se for esse o caso, sugiro que ele aguarde uns dias, logo, logo José Dirceu irá para Curitiba e aí os dois vão poder trocar umas ideias. Quer dizer, se prevalecer a tese de que o Lula não quer ficar solitário.
Outra coisa, essa ainda mais curiosa: com que intuito Adolfo Perez Esquivel tentou visitar o Lula? O jornalista Ricardo Kotscho, em seu site Balaio de Gatos, criticou a decisão de não ser permitido ao Nobel argentino visitar Lula. Kotscho, jornalista sério que se expressa num português excelente, acha que esse gesto autoritário foi um vexame internacional e cobra do Itamaraty alguma providência. Fiquei decepcionada… Será que Kotscho não reconhece que existe ao menos uma possibilidade de estar enganado? Que Lula errou? Que jogou fora a oportunidade de fazer Bem ao Brasil?
Querem porque querem convencer o mundo que Lula é um preso político. Francamente! Preso político condenado por tribunais com sessões transmitidas ao vivo? Preso político com processo correndo na Suprema Corte de seu país? Preso político com imprensa livre?
Sabem de uma coisa? Quem quiser que conte outra…
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa é professora e tradutora, escreve semanalmente para o Blog do Noblat desde agosto de 2005. 
 Lula fichado no DOPS após ser preso, em 1980
Lula fichado no DOPS após ser preso, em 1980 (//Instituto Lula)