Endividada e sem perspectiva, a classe média está sendo empurrada
à pobreza
Foto: Shutterstock
E
m que lugar do mundo uma família de quatro pessoas com
renda mensal de pouco mais de R$ 2,5 mil pode ser chamada
de classe média? Pergunte a quem está dentro dessa casa se
essas pessoas se sentem classe média. A resposta negativa
será definitiva, sem que sejam necessárias demonstrações de estudos
econômicos ou comparações acadêmicas. Economia é, ao contrário do
que dizem, algo muito simples. Para famílias, trata-se de uma mistura
bem equilibrada de sensação de conforto com estabilidade financeira,
adicionada de boas doses de perspectiva de futuro. Quem conseguiria
ter tudo isso com pouco mais de R$ 2,5 mil de renda familiar?
Ninguém em nenhum lugar do país. Mesmo que o valor seja majorado
para R$ 3,5 mil — como sugerem pesquisas mais recentes sobre a base
para ser considerado classe média no Brasil — ou mesmo com o dobro,
não dá. Mas acredite que essa é classificação brasileira para o patamar
inicial de renda do que se chama de “nova classe média”, essa
narrativa petista que ousou um dia convencer a todos de que estava
promovendo ascensão social. Não estava. A maioria já voltou a ser
pobre.
A propaganda petista é uma afronta à inteligência do brasileiro que
sabe, de um jeito ou de outro, que, quando se está todo mês com o
orçamento apertado e vendo as dívidas aumentarem, é da escala da
pobreza que se trata. E a prioridade é sempre a sobrevivência, jamais
planos futuros. Olhando para o Brasil real, é o que a maioria absoluta
das famílias nessa faixa de renda está fazendo: sobrevivendo. Entre os
ricos, o objetivo está na outra ponta: aumento exponencial de capital.
No meio, está a atual classe média brasileira, achatada pelas políticas
dos governos de Lula. Sozinha, abandonada e diminuída em seu poder
de compra, perdeu o direito de sonhar.
Quando Marilena Chauí, uma das ideólogas do PT, disse que odiava a
classe média, ninguém imaginou que seria com tamanho afinco. Na
cabeça atormentada da marxista que odeia o modelo darwiniano de
evolução pessoal com aumento progressivo da autonomia física e
intelectual das pessoas, “a classe média é um atraso de vida. A classe
média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. […] A classe média é uma abominação
política, porque é fascista; é uma abominação ética, porque é violenta; e é
uma abominação cognitiva, porque é ignorante.” No discurso, feito em
2013 num daqueles convescotes que só vão os petistas, Chauí foi
ovacionada pela claque. Lula presente nunca se opôs ao discurso.
Sorriu e aplaudiu. A tese seria repetida por ela numa entrevista à Folha
de S.Paulo, em 2025.
Marilena Chauí, escritora brasileira e militante de esquerda - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Uma pergunta que Marilena Chauí, os abobados que a aplaudiram e o
próprio Lula deveriam responder é que mal há em estudar, formar-se
bem profissionalmente e trabalhar, subir na carreira, aumentar a
renda e ganhar autonomia, inclusive política? A própria fez questão de
explicar o motivo de seu ódio visceral. Ao dizer que se recusava a
aceitar que trabalhadores, após anos de luta, tivessem se tornado
“classe média”, reforçou que o ódio vinha de suas convicções teóricas
e políticas da visão marxista clássica, na qual a “classe média seria o
cimento ideológico” que sustenta o capitalismo. Imagina o quanto
cada trabalhador que levanta todo dia cedo para trabalhar está
preocupado com a bile da filósofa, uma funcionária de universidade
pública, sempre com os salários em dia e de valores muito acima da média.
Além do que, a USP, de onde Chauí é professora-emérita, é
financiada pelo ICMS, arrecadado justamente pela circulação de
mercadorias e serviços. Em São Paulo, as universidades estaduais
recebem um percentual fixo da arrecadação desse imposto. Dizer a ela
que quanto mais a economia funciona, mais o trabalhador ascende e
melhora de vida consumindo mais, isso tudo aumenta o repasse às
universidades, seria pedir que fizesse uma conta simples de
proporcionalidade. Talvez isso seja muito complicado para quem fala
em “cimento ideológico” e não sabe o que é encher uma laje, seja de
um grande edifício comercial ou da própria casa do trabalhador na
periferia, que quer viver e morar melhor.
Tentar explicar essa gororoba pretensamente intelectual a um casal
que trabalha duro para permitir que os filhos possam estudar e se
inserirem no competitivo e próspero mercado de trabalho moderno,
guiado por inteligência artificial e inovação de alto nível, é ainda mais
difícil, provavelmente impossível. Porque o mofo ideológico não
pensa. As ideias mofadas da esquerda brasileira só crescem em
ambientes úmidos, escuros e com pouca ventilação de novas ideias e
digerem tudo o que está ao redor. Veja qualquer país que saiu de
governos de esquerda. Sobra só terra arrasada. Quem quer progredir,
quer a luz do sol, quer oportunidades e menos Estado e partidos
políticos dizendo-lhe o que fazer. Na promulgação da Constituição de
1988, que o PT de Lula não assinou, o célebre e histórico deputado
Ulysses Guimarães disse que tinha “ódio e nojo à ditadura”. Como os
brasileiros de hoje.
Os petistas, associados à ditadura do STF de hoje,
preferem odiar a classe média.
Mas voltemos aos números que assolam a classe média brasileira. O
tripé sensação de conforto sustentável, estabilidade financeira e
perspectiva depende de escola, trabalho e renda. O que os teóricos
chamam de “mobilidade social via educação”, o motor da classe média
em qualquer lugar civilizado do planeta, foi destruído pela escolha do
atual governo, em todas as suas gestões, de priorizar o que ele chama
de redistribuição de riqueza via transferência de renda. Seria um
equívoco de política econômica, não fosse aparentemente intencional
como política de partido. Numa das pontas, os governos Lula
acabaram com a obrigatoriedade de manter as crianças nas escolas
para que as famílias recebessem o Bolsa Família, desfigurando o programa e eliminando sua principal porta de saída. O que era para
ser transformação, acabou em mero assistencialismo.
De outro, os
muito ricos, como o próprio Lula já fez questão de enfatizar, nunca
ganharam tanto dinheiro como durante a sua gestão. Entre afagar os
mais pobres com programas sociais que os mantêm na pobreza e
reclamar da falta de carinho das elites financeiras com o petismo, Lula
esfolou a classe média, que deveria ser aumentada. Mas não pela
narrativa política e a precarização da média da renda para inserir
mais famílias. Como R$ 3 mil de renda familiar não é nova classe
média coisa nenhuma, deveria ter-se concentrado em ações que
aumentassem a real classe média. Fez o contrário.
Foto: Reprodução/Poder360
Para ficarmos só na gestão atual, o governo mirou no aumento de
impostos para bancar uma máquina pública anabolizada pelo inchaço
de contratação de “companheiros” e em gastos sem eficácia. A
ineficiência cobrou a fatura: as estatais voltaram a registrar prejuízos
bilionários e o governo coleciona três anos de rombos fiscais. Até
agora, porque 2026 ainda não terminou. A combinação explosiva de
carga tributária elevada para sustentar a irresponsabilidade fiscal e
incompetência administrativa, marcas do petismo, gerou inflação e
aumento de juros com consequente encarecimento do crédito às
famílias e empresas.
Quem trabalha, produz e paga impostos que sustentam o governo —
essa gente “odiosa” da classe média — foi sendo cada vez mais
asfixiada. O ódio realmente não é um bom conselheiro, tampouco
inteligente. Fato é que o aumento do IOF, lá em 2023, uma das
primeiras medidas para tungar o cidadão, fez aumentar até o custo
dos empréstimos no banco. Na sua sanha de aumentar impostos,
queria taxar fundos que financiam a construção civil e o agro, dois dos
setores que ou geram muito emprego ou garantem o crescimento da
economia. Pressionado, o governo recuou, mas o que era para ser um
imposto regulatório tornou-se arrecadatório. Assim como
praticamente todo o conjunto de medidas anunciadas nos três
primeiros anos do terceiro mandato de Lula.
Em quase trinta vezes, novos impostos foram criados ou se elevaram
alíquotas já existentes. Resultado: carga tributária nas alturas e
recorde de 32,3% do PIB. Quando isso é somado à insegurança jurídica
do consórcio de Lula com o STF e à volta dos escândalos políticos e de
corrupção, como o roubo dos aposentados e o caso do Banco Master,
com digitais petistas visíveis que colocam o governo no modo
desespero para se salvar — mesmo que exploda o país — o brasileiro
médio, mais pobre ou que investe, tira o pé para se proteger do déficit
fiscal, cognitivo e de moralidade. E fica esperando a hora de meter o
pé neste governo e recomeçar uma vida nova após a eleição de
outubro.
O modelo de achatar a classe média real é insensato porque beira a
estupidez. Vai contra tudo o que deu certo no mundo. Os dois modelos
mais sofisticados de melhora de qualidade de vida de bem-estar social vêm da Europa ou dos Estados Unidos. São diferentes, mas têm
conseguido produzir classe média, e sustentável, na maioria da
população. Na Europa, decidiu-se por uma economia regulada e com
carga tributária elevada que faz do Estado o provedor de serviços
públicos de excelência, como educação, saúde e transporte, sem
avançar sobre garantias e direitos individuais, garantindo liberdade e
autonomia de escolha do cidadão.
No capitalismo mais direto dos americanos, o modelo privilegia a
redução do Estado na vida pública, liberdade econômica para
empreender e um ambiente de negócios que oferta crédito barato e
acessível que impulsiona a economia. Em ambos os modelos, o welfare
state (“Estado de bem-estar social”) é muito superior à média mundial.
Cada modelo foi levado a sério e com baixo nível de corrupção. O
resultado está na qualidade de vida das pessoas e na imigração
crescente de todos os lugares do mundo para a Europa e os EUA. O
instinto de sobrevivência da espécie não fez ninguém se lançar ao mar
rumo a Cuba ou tentar pular o muro para a Alemanha Oriental. Nem ir
hoje à Rússia, à Coreia do Norte ou aos países africanos empobrecidos
por ditaduras de modelo marxista. O movimento é o oposto.
No Brasil, historicamente tentamos ter o melhor dos dois modelos.
Não conseguimos nem um nem outro em sua plenitude. Um lampejo
do híbrido nacional tropicalizado, que começava a se mostrar uma
terceira via viável, foi experimentado no governo de Jair Bolsonaro.
Sob a lógica econômica do ministro Paulo Guedes, houve redução da
máquina pública e do seu custo, mas com poder público presente,
como na ajuda a empresas e pessoas durante a pandemia. A promoção
da liberdade econômica e a garantia da liberdade de expressão se
juntaram para criar um ambiente favorável aos negócios e à histórica
prosperidade do capitalismo ocidental. Sem abandonar a assistência
social, criou oportunidades e abriu o mercado. O Brasil cresceu 2,9%
em 2022, apesar da pandemia e da guerra na Ucrânia, sendo exemplo
de recuperação econômica no mundo.
Com a volta de Lula, em 2023, tudo se perdeu. Estavam de volta a
concentração estatal, a ineficiência governamental, o assistencialismo
sem porta de saída e um governo caro que gasta mais do que arrecada.
O retrocesso econômico e institucional foi brutal. O consórcio de poder com o Supremo Tribunal Federal, de quem Lula admite não
poder prescindir para conseguir governar, é uma afronta à
Constituição e à separação dos poderes. A mando de ministros do STF
e com os presidentes do Congresso no cabresto de ameaças do
judiciário ou comprados com emendas e cargos, Lula 3 afasta
definitivamente o Brasil de qualquer saída institucionalmente aceita.
Por fim, na propaganda oficial, o governo dirá que a classe média
aumentou (61% da população), que a geração de emprego cresceu com
a menor taxa de desemprego de anos, que mais jovens se formaram na
universidade, que mais pessoas estão assistidas por programas sociais
e que o país está crescendo.
Dias Toffoli, Davi Alcolumbre, Lula, Hugo Motta e Alexandre de Moraes - Foto: Montagem Revista Oeste/Ricardo Stuckert/Fotos
Públicas/STF/Agência Brasil
Em termos práticos e realistas, a história é bem diferente. Quase dois
terços da população serem chamados de classe média com renda de
R$ 3 mil mensais não fecha a conta. O endividamento familiar batendo
recordes é prova inconteste disso. Oito em cada dez famílias estão com
dívidas, segundo a Confederação Nacional do Comércio (leia
reportagem nesta edição). Destas, 30% confessaram estar inadimplentes
com comprometimento da renda acima do equilíbrio entre renda e
despesa.
Na parte de baixo, uma multidão é mantida sem expectativa de sair de
lá. Mais de 18 milhões de famílias ainda dependem do Bolsa Família, o
principal programa social do governo, o que representa em torno de
50 milhões de pessoas que dependem de um cheque do governo não
para viver e prosperar, mas apenas para sobreviver. Formação e
crescimento consistente de classe média não combinam com aumento
de distribuição de benefícios sociais. No cenário econômico, o nome
disso é manutenção da pobreza. Politicamente, é cabresto eleitoral por
dependência direta do governo de plantão. No Brasil, a esquerda do
PT. É um nó. Porque, de outro lado, empresas reclamam de falta de
mão de obra formal porque beneficiários não querem perder o
benefício do governo e se negam a ter a carteira assinada. Não se
qualificam, ficam obsoletos e a informalidade cresce.
As escolas não entregam alunos preparados, entregam formados sem
preparo para o mercado. Neste caso, maior nível de escolarização não
significa nada de produtivo. A economia patina, a renda não cresce e a
produtividade brasileira empaca em US$ 21 por hora trabalhada. Nos
Estados Unidos, é de quase US$ 81. No Japão, US$ 52. Mesmo em
comparação com países vizinhos, nossa produtividade é menor.
Uruguai, US$ 38; Chile e Argentina registram US$ 34 por hora
trabalhada. A matemática não tem cor nenhuma, só expõe a realidade.
Nua e crua.
A verdade é que não existe classe média sem boa educação. Assim
como não existe aumento da produtividade e renda sem uma classe
média bem formada. E sem classe média, só há os extremos da
pobreza e dos muitos ricos. Os dois grupos com quem Lula e o PT
parecem gostar de gastar o dinheiro que a classe média gera, a que
eles odeiam e que corre o sério risco de desaparecer. Não existe futuro
em um país sem classe média.
Sala de aula vazia de Escola Estadual na cidade de São Paulo - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Adalberto Piotto - Revista Oeste