sábado, 17 de outubro de 2026

Vorcaro pagou R$ 1 milhão por influência na imprensa, apontam mensagens

Denúncias envolvem negociações com a Folha de S.Paulo e envio de reportagens do site Metrópoles ao banqueiro antes da publicação


O ex-banqueiro Daniel Vorcaro: influência direta no noticiário sobre o Banco Master, segundo PF | Foto: Divulgação/Esfera Brasil


O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, é alvo de denúncias sobre sua relação com dois veículos de comunicação: o jornal Folha de S.Paulo e o site Metrópoles.

Mensagens obtidas pelo site indicam que Vorcaro pagou R$ 1 milhão ao consultor de gestão de crise Guilherme Barros depois de negociações para adiar e amenizar uma reportagem sobre ele na Folha. O jornal, porém, nega que tenha alterado o conteúdo ou segurado a publicação para atender aos interesses do banqueiro.


Vorcaro: promessas e restrições

 Em agosto de 2024, Vorcaro teria prometido o valor a Barros caso ele conseguisse impedir ou adiar a publicação. No dia seguinte, o consultor informou que o diretor de redação da Folha, Sérgio Dávila, concordou em esperar. 

O jornal afirma que a reportagem ainda não estava pronta e que o prazo adicional serviu para ouvir a versão do banqueiro. Dávila também declarou que só soube do pagamento ao consultor depois de ter acesso às mensagens. 

O caso ganhou repercussão depois de o site Uol informar nesta última quinta-feira, 15, que a direção do Metrópoles enviava reportagens a Vorcaro antes da publicação e atendia a pedidos de alteração. Segundo o levantamento, pelo menos 14 textos foram compartilhados previamente, sendo que 11 sofreram mudanças depois de solicitações do banqueiro.

As mensagens também apontam que o Banco Master fechou um contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o Metrópoles. A Folha informou ter recebido R$ 516,4 mil em anúncios ligados a Vorcaro ao longo de cinco anos. 

Em reportagem posterior, a Folha acusou o Metrópoles de preparar uma publicação em retaliação às denúncias. O episódio ampliou o confronto público entre os dois veículos sobre a relação com o ex-banqueiro.


Fábio Bouéri - Revista Oeste

Flávio Gordon escreve sobre 'O tocador de tuba', Reinaldo Azevedo

As críticas de Reinaldo Azevedo ao jornalismo governista contrastam com mensagens sobre um suposto contrato ligado a Daniel Vorcaro


O 'jornalista' Reinaldo Azevedo, durante vídeo no qual fez um desafio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ao comentarista Paulo Figueiredo - 16/10/2026 | Foto: Reprodução/YouTube


Em 2008, no glossário de O país dos petralhas, Reinaldo Azevedo descrevia uma espécie que, segundo ele, abundava nas redações brasileiras: “TOCADORES DE TUBA – É o colunismo engajado na defesa incondicional do governo petista. O tocador de tuba é o propagandista menos sutil. Suas versões mais amenas podem tocar flauta ou saxofone.” No segundo volume, de 2012, o catálogo ganhava o JEG, o “Jornalismo da Esgotosfera Governista”, feito de veículos e jornalistas que “só existem porque são financiados com o nosso dinheiro”. 

Ninguém escreveu com mais gosto contra os “subjornalistas que vivem de dinheiro público”, contra os “prestadores de serviço que se disfarçam de jornalistas”, contra Franklin Martins, o “czar da publicidade oficial”. O inventor da palavra “petralha” fez carreira apontando o dedo para a pena alugada. Era a sua especialidade, quase o seu sacerdócio.

Depois veio a conversão. Quase tão súbita quanto a de Saulo no caminho para Damasco. O caçador de petralhas tornou-se advogado de Alexandre de Moraes, intérprete benevolente de Lula e verdugo da direita, usando contra os antigos leitores o mesmo arsenal de adjetivos que antes reservava aos adversários deles. Durante anos, a guinada foi tratada como enigma psicológico, assunto para biógrafos, ou quem sabe para Ovídio e Kafka. 

As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e publicadas pelo jornalista Paulo Figueiredo oferecem uma hipótese menos poética. Segundo o material, o advogado Walfrido Warde, defensor do Banco Master, doador do PT e sócio de Reinaldo no programa Reconversa, servia de ponte entre o banqueiro e o jornalista. Num print de janeiro de 2025, Fabiano Zettel, encarregado dos pagamentos de Vorcaro, menciona “aquele contrato do Reinaldo Azevedo”: 12 parcelas de R$ 100 mil a partir de março de 2024, sete delas já quitadas. Em março de 2025, Vorcaro pede que um jornalista de renome “compre a briga” pela venda do Master ao BRB. Warde responde: “Deixa comigo.”

O contrato talvez não explique a origem da conversão, que é anterior, ali pelo auge da Lava Jato, entre 2016 e 2017. Mas, possivelmente, explica a sua forma mais radical contemporânea. Nenhuma fé se sustenta muito tempo sem obras, e algumas obras, como se vê, vêm em parcelas.

Há uma ironia quase litúrgica no episódio. O homem que acusava Luiz Weis de “lustrar os sapatos do poder” e via em Veríssimo um saxofonista do Planalto reaparece, nas conversas de um banqueiro em apuros, como item de planilha. A “Al Qaeda eletrônica” que ele denunciava não precisou derrotá-lo. Bastou contratá-lo. 

Reinaldo gostava de citar o Sermão do bom ladrão, de Vieira, sobre um certo Seronato, que “está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer”. Usava o trecho contra os “propineiros de quinta categoria, que alugam a opinião”. Nunca uma epígrafe esperou tanto tempo pelo seu verdadeiro destinatário.

O tocador de tuba não mudou de instrumento. Mudou apenas de maestro. 

Flávio Gordon - Revista Oeste

Luchsinger chama Lula de ‘mentiroso’ e ‘mau-caráter’ e anuncia delação premiada: ‘não vou poupar ninguém’

"Ele mente em coisas grandes e em coisas pequenas, ele mente o tempo todo", diz a sócia de Lulinha sobre o presidente da República


Roberta Luchsinger durante entrevista a CNN - Foto: reprodução da TV CNN.


A lobista Roberta Luchsinger concedeu entrevista à TV CNN, na noite deste sábado (17), na qual chamou Lula (PT) de mau-caráter a afirmou que, na sua visão, ela não era sócia do seu filho sócia de Fábio Luiz, o “Lulinhna”, e sim do próprio presidente da República, a quem classificou de “canalha”, “covarde” e “mentiroso”, e anunciou a decisão de fazer um acordo de delação premiada. “Ele está mentindo”, enfatizou Roberta, “mente em coisas grandes e em coisas penas, mente o tempo todo”.

Ela se revelou inconformada pelo fato de ter sido insultada por Lula, que a chamou de “pilantra” durante entrevistas à TV Globo, e afirmou que desde então ela e as duas filhas têm sofrido ameaças de violência e até de morte. Ainda o acusou de usar a máquina pública federal contra ela e as filhas.

“Se algo acotecer comigo ouco minhas filhas, isso terá as digitais de Lula”, disse Roberta Luchsinger aos jornalistas Debora Bergamascho e Iuri.

Luchsinger garantiu que Lula a conhece bem e conhece bem as atividades de Lulinha junto a ministros do seu governo, com os quais despachava e recebia em uima casa no Lago Sul em Brasília. Ela disse que Lula mentiu quando disse que Lulinha não esteve com ministros do seu governo, afirmando que ela própria é testemunha do relacionamento do filho do presidente co vários ministros.

Segundo ela, se Lula diz não saber o que se passa na própria antessala “é um mentiroso ou está esclerosado, com algum tipo de senilidade”, citando inclusive sua idade de mais de 80 anos.

Veja abaixo os trechos que a emissora liberou da entrevista:

Diário do Poder

A meretriz de César - por Luís Fortes do Rego - Desembargador

 Séculos de experiência institucional demonstram que o poder precisa ser controlado externamente



Ministro Alexandre de Moraes | Foto: Shutterstock


O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou-se, nos últimos anos, talvez o homem mais poderoso desta cambaleante República. Isso ocorreu por duas razões complementares: a extraordinária concentração de poderes investigatórios e decisórios em suas mãos e a progressiva incapacidade — ou indisposição — das instituições constitucionalmente encarregadas de controlá-lo.

O acontecimento desencadeador desse processo foi a instauração, em 14 de março de 2019, do Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News ou “inquérito do fim do mundo”. Por meio da Portaria GP 69, o então presidente do STF, Dias Toffoli, instaurou o procedimento de ofício e designou diretamente Moraes como relator, sem que houvesse distribuição. 

Aberto em março de 2019, o inquérito já acumula mais de sete anos de tramitação e, o que é mais preocupante, sem perspectiva clara de encerramento. O próprio presidente do STF, ministro Edson Fachin, defendeu recentemente a urgência de sua conclusão. Antes tarde do que nunca. 

O plenário do Supremo reconheceu, por ampla maioria, a constitucionalidade do inquérito nas circunstâncias excepcionais que justificaram sua abertura. Esse julgamento, contudo, não eliminou nem enfrentou as várias e recorrentes objeções formuladas à sua conformação. O problema estrutural permanece: integrantes da Corte figuram simultaneamente como possíveis vítimas das condutas investigadas, como autoridades responsáveis pela instauração do procedimento e como julgadores das respectivas questões supervenientes.

Na realidade, porém, Moraes assumiu informalmente a função de acusador, que constitucionalmente está vinculada ao Ministério Público, na medida em que assumiu a direção de uma investigação criminal, determinou diligências de ofício e controlou judicialmente medidas decorrentes de um procedimento conduzido sob sua própria relatoria.

A distinção não é meramente semântica. O sistema acusatório foi construído justamente para impedir que as funções de investigar, acusar e julgar se confundam. Quando essas linhas divisórias se esvanecem, a República se enfraquece. O Estado de Direito não pode se fundar na confiança em supostas virtudes pessoais de quem exerce o poder, mas na existência de limites objetivos, procedimentos previamente estabelecidos e controles exercidos por autoridades independentes. 

O senso crítico, a consciência e o foro íntimo constituem os primeiros árbitros das ações humanas. Não se pode, entretanto, fiar-se exclusivamente nisso quando se trata de um agente público. Séculos de experiência institucional demonstram que o poder precisa ser controlado externamente, sobretudo quando exercido por quem ocupa o ápice da estrutura estatal. Afinal, como advertiu Lord Acton há mais de cem anos, “o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. 

A Constituição procurou, ao menos na aparência, instituir esses controles. Segundo o artigo 102, nas infrações penais comuns, os ministros do STF são processados e julgados pelo próprio Supremo. Ocorre, vale dizer, um julgamento entre irmãos, com atuação do procurador-geral da República. Nos crimes de responsabilidade, compete ao Senado Federal processá-los e julgá-los. O mesmo dispositivo atribui ao STF competência para julgar criminalmente os membros do Congresso Nacional e o próprio procurador-geral da República. Já o artigo 52 atribui ao Senado o julgamento político dos ministros do Supremo e do chefe do Ministério Público da União. 

No papel, há freios e contrapesos. No entanto, há aqui, como em várias outras situações tipicamente brasileiras, um espaço bem distante entre a realidade e a norma, o ser e o dever ser. No mundo real, formou-se um circuito fechado de dependências e favores recíprocos. Ministros do Supremo julgam parlamentares, o procurador-geral e os próprios colegas. Senadores aprovam a indicação dos ministros e do procuradorgeral e são investigados e julgados pelo STF. O presidente do Senado controla politicamente o acesso ao processo de impeachment, enquanto o Supremo detém jurisdição criminal sobre ele. Essa interdependência favorece a existência de conluio e relações promíscuas. Afinal, somos o país do compadrio. Sobressaem, portanto, condições objetivas para a omissão, a autoproteção e, o que é pior, a retaliação.

Foi nesse ambiente que se tornou público o relatório da Polícia Federal elaborado a partir do material encontrado nos aparelhos de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O documento não materializa uma sentença e suas conclusões permanecem sujeitas ao contraditório. Essas ressalvas são indispensáveis. No entanto, estão longe de tornar irrelevante o que foi revelado. Segundo o relatório, Vorcaro e Moraes teriam mantido diversos encontros. Pouco antes de sua prisão, o banqueiro perguntara ao ministro sobre o risco de ser preso e sobre a conveniência de deixar o país. Em outras palavras, solicitara a colaboração do ministro na tentativa de se evadir da aplicação da lei penal.

Não fosse o bastante, metadados indicariam a participação de um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” na edição do contrato multimilionário firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro em 2024, pouco antes da respectiva assinatura. As informações divulgadas pela imprensa com base no aludido relatório são suficientemente graves para exigir uma apuração independente, transparente e conduzida por autoridades sem interesse pessoal no resultado. 

Não é juridicamente responsável afirmar, neste momento, que o relatório demonstrou que o ministro Alexandre de Moraes integrava uma organização criminosa. Mas tampouco é aceitável fingir que contatos reservados, encontros não registrados, consultas sobre investigações e relações econômicas envolvendo familiares de um magistrado sejam questões exclusivamente privadas. A discussão não se restringe à eventual configuração de um crime. Alcança a imparcialidade objetiva, a aparência de independência e a confiança pública sem a qual nenhuma jurisdição conserva legitimidade. 

Confrontado com esse conjunto de informações, o ministro, até o momento, não ofereceu à sociedade uma explicação sequer. Tampouco cogitou uma saída institucional honrosa, como o afastamento voluntário durante as apurações ou mesmo a renúncia ao cargo. Em vez disso, formulou, nos autos do mesmo ignominioso Inquérito 4.781, pedido de investigação contra o ministro André Mendonça, imputandolhe possíveis atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. 

Não se trata de conferir antecipadamente razão a Mendonça nem de afastá-lo de qualquer controle sobre seus próprios atos. O que não pode ser ignorado é a eloquência revelada pela observação da dinâmica temporal e do instrumento escolhido: o ministro implicado valeu-se precisamente do inquérito que dirige há mais de sete anos para provocar a investigação daquele que tornou públicas as informações que o envolvem na prática de graves condutas ilícitas. 

A reação deixa transparecer nítido caráter defensivo e alimenta uma fundada percepção de retaliação institucional. Mais uma vez, a autoridade potencialmente interessada no resultado utiliza o aparato extraordinário concentrado sob sua condução para agir contra quem a confrontou. É difícil imaginar demonstração mais clara dos perigos decorrentes da perpetuação de um procedimento sem limites temporais definidos e subordinado ao comando de uma única pessoa. 

Também o presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, aparece no entorno de Daniel Vorcaro. Mensagens anteriormente divulgadas mencionaram uma visita do ex-banqueiro à residência oficial do Senado, além da participação do senador em festas e até orgias patrocinadas pelo investigado. O senador se limitou a negar ter recebido qualquer repasse financeiro de Vorcaro. A existência do encontro, isoladamente, não prova a prática de ilícito. O dado, contudo, não pode ser ignorado quando cabe justamente a ele decidir sobre o encaminhamento dos pedidos de impeachment apresentados contra ministros do Supremo.

Pressionado a se manifestar depois da divulgação do relatório, Alcolumbre respondeu: “Eu não achei nada, não devo achar nada”, restringindo-se a questionar a normalidade do fato de haver 109 pedidos de impeachment contra integrantes do STF. A declaração, longe de expressar prudência institucional, traduz alheamento. Não cabe ao presidente do Senado condenar antecipadamente um ministro, mas também não lhe é legítimo transformar uma competência constitucional em poder pessoal de veto indefinido ou, para piorar o cenário, em moeda de troca. Quando o único agente capaz de abrir a porta do controle político está pessoalmente inserido no ambiente relacional submetido a escrutínio, sua omissão agrava a crise de legitimidade.

A atuação do procurador-geral da República revela problema semelhante. Paulo Gonet apontou a nulidade das medidas determinadas pelo ministro André Mendonça e do relatório produzido pela Polícia Federal. A arguição de nulidade, entretanto, simplesmente desconsidera a extrema gravidade do problema subjacente. Concentrase na forma pela qual as informações foram produzidas e deixa sem resposta a questão fundamental: qual a natureza e a finalidade das relações entre Daniel Vorcaro e as autoridades mencionadas no relatório? O reconhecimento de vícios processuais pode impedir a utilização de determinados elementos em um procedimento penal, mas não faz desaparecer os fatos revelados, não explica os encontros, não responde às mensagens e tampouco restaura a confiança pública abalada. 

O devido processo legal não pode ser convertido em instrumento de desvirtuamento da realidade. Se os elementos foram produzidos por autoridade incompetente ou mediante procedimento irregular, a consequência institucionalmente adequada seria renovar a apuração de forma válida, perante a autoridade competente e com todas as garantias necessárias — não decretar uma espécie de esquecimento oficial sobre seu conteúdo. Uma nulidade pode invalidar atos processuais; não tem o poder, contudo, de tornar inexistente aquilo que foi trazido à luz. Por isso, a manifestação da PGR, mesmo que contenha argumentos técnicos eventualmente defensáveis, nada resolve quanto à questão de fundo e gera a impressão de que a forma está sendo invocada para evitar qualquer enfrentamento do mérito, como em outras tantas situações de descalabro nacional 

O problema é que o próprio Gonet foi mencionado nas mensagens recuperadas. Vorcaro teria pedido a um interlocutor, possivelmente o ministro Alexandre de Moraes, a atuação de “Andrei e Paulo”, referências que a investigação associa ao diretor-geral da Polícia Federal e ao procurador-geral da República. Os documentos conhecidos não demonstram que Gonet tenha atendido a qualquer solicitação. A mera menção ao seu nome também não produz, automaticamente, impedimento jurídico. Ainda assim, era evidente o conflito entre o interesse institucional do Ministério Público e a necessidade de o procurador-geral defender também sua própria reputação. 

Nessas condições, o mínimo esperado seria que Gonet se abstivesse de atuar no caso e permitisse a manifestação do vice-procurador-geral ou de outro membro dotado de atribuição. Ainda que se discuta a existência de impedimento formal, a abstenção voluntária seria exigência elementar de prudência e credibilidade. A manifestação pode conter argumentos juridicamente consistentes e, ao mesmo tempo, apresentar-se politicamente deslegitimada pela participação pessoal de quem tem interesse direto em afastar as suspeitas que o relatório lançou sobre sua própria atuação. 

Eis o círculo vicioso e originalmente viciado do controle brasileiro: uma instituição deve investigar a outra, mas todas estão conectadas por relações de nomeação, julgamento, dependência ou proteção recíproca. O STF controla o Congresso, que controla politicamente o STF. A PGR deve investigar autoridades que participaram de sua nomeação ou que podem julgá-la. O Senado deve fiscalizar ministros que exercem jurisdição criminal sobre seus próprios membros. 

Quando os principais atores são alcançados pela mesma teia de suspeitas, o sistema continua formalmente em funcionamento, mas já não consegue produzir confiança. Instauram-se procedimentos, pedem-se informações, proclamam-se princípios — e, ao final, ninguém é reconhecido como árbitro suficientemente independente para decidir. 

As providências imediatas são evidentes: afastamento voluntário das autoridades diretamente mencionadas, atuação dos respectivos substitutos, preservação integral das provas, exame público das nulidades suscitadas e investigação conduzida por agentes seminteresse pessoal no resultado. Mas a crise demonstra que o problema ultrapassa as pessoas atualmente envolvidas. Ele está no próprio desenho constitucional de contenção do poder exercido pelas maiores autoridades da República.

Talvez tenha chegado o momento de se discutir a refundação institucional do Estado brasileiro. Não por meio de mais uma emenda elaborada pelos beneficiários do sistema, mas mediante consulta popular sobre a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, com mandato determinado e objeto delimitado à reorganização dos Poderes e de seus mecanismos de controle e à reforma do sistema político. 

Uma Constituinte não é remédio mágico. Pessoas não se tornam independentes apenas porque foram eleitas para essa finalidade. Sua legitimidade exigiria regras rigorosas sobre conflitos de interesses, transparência patrimonial, incompatibilidade com o exercício simultâneo de cargos públicos, mandato exclusivo, impedimento de legislar em benefício próprio e submissão do texto final a referendo popular. Entre os temas inevitáveis estariam mandatos fixos para ministros do STF e reserva de vagas a magistrados de carreira, critérios mais plurais de escolha, reforma política ampla e um mecanismo independente para apurar condutas atribuídas às autoridades situadas no topo da República.

É preciso reconhecer, por honestidade constitucional, que uma Assembleia Constituinte não decorre automaticamente dos mecanismos ordinários da Constituição de 1988. O plebiscito forneceria legitimidade democrática à convocação, mas não transformaria o poder constituinte originário em simples modalidade de emenda constitucional. Seria uma decisão política excepcional, que precisaria ser assumida como tal, cercada de garantias contra aventuras autoritárias e submetida, ao final, à ratificação popular. 

Em poucos momentos da história a antiga alegoria da mulher de César foi tão pertinente. Ao ensinar que, no exercício de determinadas funções, não basta ser honesto, é fundamental também permanecer acima de suspeitas razoáveis, essa figura convida fortemente à reflexão. Isso vale para ministros do Supremo, procuradores-gerais, presidentes do Congresso e todos aqueles que exercem parcelas relevantes do poder estatal. Não se trata de exigir uma aparência artificial de pureza, mas de reconhecer que a confiança pública depende tanto da integridade efetiva quanto da transparência dos comportamentos.


Luís Fortes do Rego é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Piauí (TJPI).

Revista Oeste

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro tem nove pontos à frente de Lula em chances de vencer eleição

51% do eleitorado considera que senador do PL tem mais chance de derrotar Lula, contra 42% dos que creem na reeleição petista


Senador Flávio Bolsonaro (PL), durante seu comício, em Porto Alegre. (Foto: Charles Vieira)

O senador Flávio Bolsonaro (PL) tem nove pontos de vantagem sobre o presidente Lula (PT), na avaliação do eleitorado sobre a perspectiva de vitória no 2º turno das eleições presidenciais, no dia 25 deste mês de outubro. Segundo a pesquisa PoderData/Aya, divulgada nesta sexta-feira (16), 51% das pessoas questionadas disseram que Flávio tem mais chances de se eleger presidente.

Já entre quem acredita que Lula tem maior possibilidade de ser reeleito, são 42% apontando para a recondução do presidente à chefia do governo brasileiro.

Os números sobre a expectativa de vitória independem da escolha de voto das pessoas entrevistadas na pesquisa, que aponta um empate entre Flávio e Lula em 50% das intenções de voto, no cenário que simula votos válidos, como ocorre na apuração oficial da Justiça Eleitoral.

O perfil de quem mais acredita na vitória de Flávio é formado pelo eleitorado masculino (59%), com idade entre 25 a 44 anos (54%), com mesmo percentual de 54% dos que nunca foram à escola ou estão no ensino médio, vive no Centro-Oeste (60%), com renda de mais de 5 salários mínimos (57%), de religião evangélica (65%), votou em Flávio no 1º turno e deve votar novamente no 2º turno (92%).


Já quem vê mais chance de Lula ser reeleito tem perfil formado pelo eleitorado feminino (48%), com idade com 60 ou mais anos (46%), com nível de instrução de ensino fundamental (48%), vive na região Nordeste (55%), com religião umbanda/candomblé (59%), votou em Lula no 1º turno (83%) e deve votar novamente no 2º turno (82%).

A pesquisa PoderData/Aya está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-04258/2026. Os dados foram coletados junto a 3.000 eleitores, entrevistados por telefone entre os dias 13 e 15 de outubro. A margem de erro do levantamento é de 1,8 ponto percentual, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.

Veja o detalhamento dos números:


Davi Soares - Diário do Poder

'Máquina de Mentiras', por Sarah Peres e Anderson Scardoelli

 


A máquina de fake news do PT | Foto: Montagem Revista Oeste/Shuttestock


B rasil, janeiro de 2027. Nossa Senhora Aparecida perde o título de Padroeira do país, o Sistema Único de Saúde (SUS) é extinto, bem como as aposentadorias e benefícios sociais, como o Bolsa Família. Até o Pix deixa de ser gratuito. Evidentemente, nada disso ocorrerá, mas a campanha de Lula quer que a população acredite que sim, se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. 

Enquanto vende a ideia de regular as redes sociais para evitar a circulação de fake news, o PT trata de multiplicá-las. Na noite de 24 de setembro, dez dias antes do primeiro turno, a jornalista Maria Cristina Fernandes afirmou na GloboNews que haveria uma “reação” de lideranças católicas contra evangélicos que, de acordo com ela, estariam se “mobilizando” em torno de um projeto de lei contra a Padroeira do Brasil. Em poucas horas, o comentário viralizou. A afirmação falsa não permaneceu de pé por muito tempo. A GloboNews reconheceu que errou e pediu desculpas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a derrubada de postagens que associavam Flávio ao projeto que não existe. Nas urnas, a mentira não impediu que Flávio chegasse dois pontos porcentuais à frente de Lula.

O PT seguiu com a estratégia de divulgar notícias falsas. Membros da esquerda passaram a afirmar que, uma vez eleito, Flávio terminaria com o Bolsa Família. Também espalharam que o candidato do PL planejaria acabar com o SUS e com a Farmácia Popular. A mentira ganhou tração na classe artística. A atriz Bruna Marquezine compartilhou esse temor com seus 43 milhões de seguidores no Instagram. A Revista Fórum chegou a noticiar que a eleição de Flávio representaria o fim de benefícios como o Pé-de-Meia, o Gás do Povo e o Minha Casa, Minha Vida. 

Lula em pessoa espalhou fake news contra Flávio. “Vou continuar questionando o meu adversário qual é o ‘tesouraço’ que ele vai fazer”, disse o presidente em 11 de outubro, antes de discursar na Avenida Paulista. “Possivelmente será cortar direito do povo pobre, cortar direito do aposentado.” 

A máquina de mentiras ganhou até verniz acadêmico. Integrante da Academia Brasileira de Letras e professora da Universidade de São Paulo, a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz divulgou vídeo em que acusa Flávio de querer, a mando de Donald Trump, encerrar a gratuidade do Pix. Mesmo sendo alvo de críticas, Lilia decidiu manter a postagem.


liliaschwarcz Aproveitem o Pix enquanto é tempo! “papai Trump do Eduardo Bolsonaro, já avisou muitas vezes que vai acabar com o Pix. Não sabia? vai lá ouvir. O presidente dos EUA defendeu seus cartões de crédito e já s pronunciou muitas vezes contra o PIX. Por sinal. Viva a nossa soberania. #eleições #eleições2026


Líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ) critica a forma como aliados de Lula conduzem a campanha. “Essa é uma eleição do bem contra o mal, da verdade contra a mentira”, afirma. “Como é que pode, por exemplo, uma fake news de que o Flávio iria tirar o direito de voto das mulheres?” 


Contra-ataque 

A equipe de Flávio criou página na internet para desmentir os boatos. O candidato se viu obrigado a explicar que não acabará com o salário mínimo. Àqueles que indagam se há possibilidade de extinção da aposentadoria, o sistema define como fake news e apresenta explicação legal. “Pagar a aposentadoria dos brasileiros é uma das primeiras obrigações do governo”, afirma. 

“É um direito garantido por lei e ninguém vai mexer no que é seu.” Deputado federal reeleito pelo PL da Bahia, Capitão Alden se mobilizou. Responsável pelo que chama de “Cartilha da Verdade”, ele destaca a importância de divulgar esse material, ainda mais num Estado onde Lula é campeão de votos. 

“Estamos fazendo a contraofensiva para que as pessoas possam realmente conhecer as informações”, afirma o parlamentar, que faz um apelo aos eleitores, inclusive os que são identificados com a direita, mas acabam iludidos por conteúdos falsos. 

“Leia, confira as fontes e compartilhe com responsabilidade.” Outra série de mentiras disseminadas pela esquerda atende pelo nome  Outra série de mentiras disseminadas pela esquerda atende pelo nome de Ana Elisa. Aos 21 anos, ela foi alçada à condição de conselheira de Lula depois de ter sido eleita deputada federal pelo PT de Minas Gerais com 500 mil votos. 

Sucesso nas redes sociais, ela era a esperança do partido de conversar com os jovens. Entretanto, sucumbiu à revelação de que, num passado nem tão distante, propagou racismo, xenofobia e intolerância religiosa. Falou que “pretos do Sul são racistas” e defendeu o fechamento de igrejas. Antes de excluir sua conta no X, Ana Elisa encontrou tempo para promover nova fake news, a de que apoiadores de Flávio teriam sido responsáveis por incêndio na Universidade Federal de Pernambuco. Desmentida, Ana Elisa acabou dispensada da campanha de Lula.

République @republiqueBRA · Seguir Ana Elisa apaga tweets antigos nos quais defendia o aborto, pedia a Lula que fechasse igrejas, criticava “crentes”, dizia odiar brancos, defendia que o Vaticano proibisse padres de usar redes sociais e apoiava o bloqueio do Instagram, Facebook e WhatsApp no Brasi


“Exército do Lula” 

O deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) é o responsável por administrar o Exército do Lula, canal no WhatsApp dedicado a incentivar o voto no candidato do PT e criticar Flávio. O espaço tornou-se o epicentro de uma batalha jurídica entre as duas campanhas. Segundo o PL, o ambiente gerido pelo parlamentar serve para disseminar conteúdo falso. Depois de um vaivém de decisões, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, liberou o canal, que conta com cerca de 4,5 milhões de seguidores, mesmo com Janones admitindo ter apagado mais de 500 mensagens do canal de WhatsApp depois que as “missões” eram cumpridas. O deputado não explicou quais seriam essas “missões”. Segundo o comentarista político Caio Coppolla, o principal objetivo de Janones é claro. “A estratégia deles é espalhar o medo”, diz o analista, em vídeo que desmente outra fake news, a de que Flávio mudaria a Constituição para abolir programas sociais.


Janones tem companhia na hora de cumprir sua missão. 

O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, acusou Flávio de querer “congelar” aposentadorias. “Estou preocupado mesmo e você também deveria estar”, diz, em vídeo publicado em seu perfil no Instagram. Em outra publicação, o ministro não citou o nome de nenhum político, mas deu a entender que, dependendo de quem ganhar a eleição, o Brasil se transformará na Alemanha nazista. 


Síndrome de Estocolmo

Flávio Bolsonaro não é o primeiro alvo da indústria de mentiras do PT. Até quem hoje se apresenta como aliado já foi vítima de ações similares. Parte das fake news disparadas contra o candidato do PL foi reciclada de 2014, quando Marina Silva (então no PSB) foi candidata ao Palácio do Planalto contra Dilma Rousseff. Em 2020, em entrevista ao humorista Fábio Porchat, Marina lembrou que tentaram rotulá-la como “exterminadora” do país, alguém que acabaria com o Bolsa Família e retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. 

Novamente aliada de Lula, Marina atuou como ministra do Meio Ambiente de janeiro de 2023 a março deste ano, quando deixou o cargo para concorrer — e perder — a disputa pelo Senado por São Paulo. Algo similar ocorreu com Geraldo Alckmin. Depois de décadas como adversário do PT, aceitou ser vice de Lula. A mudança de postura não apaga, contudo, a história de ataques. Os militantes chegaram a comparar Alckmin a Adolf Hitler. 


https://revistaoeste.com/revista/edicao-345/maquina-de-mentiras/

Hoje vice-presidente da República e aliado de Lula, Geraldo Alckmin já foi comparado a Adolf Hitler por militantes petistas | Foto: Reprodução/X/@alex_borges


Enquanto Flávio Bolsonaro se ocupa em desmentir as fake news, Lula se preocupa mesmo é com a disseminação de verdades incômodas. O endividamento de 80% das famílias brasileiras, o recorde de empresas em recuperação judicial e a inflação dos alimentos, que chegaram a subir até 60% durante o atual governo, são apenas alguns dos indicadores que mostram que, para Lula, a realidade consegue ser pior que qualquer mentira.


Sarah Peres e Anderson Scardoelli - Revista Oeste

'A guerra no TSE', por Cristyan Costa

 Sob pressão de Lula, uma maioria se articula no tribunal, derruba decisões e encurrala os ministros que tentam equilibrar a disputa presidencial


Sessão Plenária TSE | Foto: Luiz Roberto/TSE

“E stou tentando fazer uma disputa equilibrada”, disse, ressabiado, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, a interlocutores. Era julho, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, acabara de suspender por 90 dias as visitas do senador Flávio Bolsonaro ao pai. Ao divulgar uma carta do ex-presidente em uma transmissão nas redes sociais, Flávio teria violado a proibição de Jair Bolsonaro se comunicar por terceiros e incorrido em possível “propaganda eleitoral antecipada”. O rigor de Moraes esbarrava numa lembrança inconveniente: durante sua temporada na prisão em Curitiba, Lula divulgou cartas de cunho eleitoral e concedeu 22 entrevistas. 

Três meses depois, com Lula e Flávio no 2º turno, Nunes Marques descobria que a distância entre presidir o tribunal e assegurar o equilíbrio da disputa podia ser medida pelos votos que lhe faltavam. Às intervenções do Supremo somara-se uma divisão dentro do próprio TSE, onde as ordens do presidente encontravam resistência entre os colegas, e as campanhas disputavam, processo a processo, o direito de falar e o poder de calar o adversário.  campanha entregue aos ministros, chamados a decidir quais acusações chegariam ao eleitor e quais desapareceriam das telas antes das urnas.

Os números davam a dimensão do conflito. Nos nove dias seguintes ao 1º turno, o tribunal recebeu 162 processos de representação e direito de resposta, contra 51 no mesmo período de 2022, conforme levantamento da Corte. À medida que a votação se aproximava, crescia a parcela da campanha entregue aos ministros, chamados a decidir quais acusações chegariam ao eleitor e quais desapareceriam das telas antes das urnas.


O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, durante sessão plenária – 14/4/2026 | Foto: Luiz Roberto/TSE

O cerco ao presidente Na manhã de 11 de outubro, essa disputa produziu uma demonstração do alcance — e dos limites — da autoridade de Nunes Marques. O presidente mandou suspender o Exército do Lula, canal de WhatsApp administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG), e exigiu sua regularização perante a Justiça Eleitoral. Horas depois, Ricardo Villas Bôas Cueva, corregedor do TSE e relator do processo, restabeleceu a ferramenta utilizada para disseminar fake news. 

Ao autorizar novas publicações e a entrada de seguidores até o julgamento pelo plenário, Cueva manteve a proibição de divulgar conteúdos cuja ilegalidade já tivesse sido reconhecida pelo tribunal, mas afastou a suspensão determinada naquela manhã. O canal de Janones voltava a funcionar, enquanto a presidência do TSE ficava com uma ordem desfeita e uma divergência exposta.



Exército do Lula, canal de WhatsApp administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG) | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasi


Nos bastidores, o episódio tinha contornos mais amplos. Conforme apurou Oeste, Lula pressionava quatro integrantes da Corte: Estela Aranha, Floriano de Azevedo Marques, Cueva e Sebastião Reis. Do outro lado dessa divisão estavam Nunes Marques, o vice-presidente André Mendonça e Dias Toffoli. A distribuição das sete cadeiras dava ao grupo pressionado pelo petista os quatro votos necessários para formar maioria e deixava o presidente dependente da adesão de pelo menos um colega para sustentar suas posições.

O julgamento de uma propaganda sobre as propostas econômicas de Flávio mostrou as consequências dessa aritmética. Na gravação, Lula afirmava que um corte de R$ 200 bilhões no Orçamento atingiria programas como Pé-de-Meia, Farmácia Popular e Minha Casa, Minha Vida. Mendonça mandou retirar a peça por entender que ela atribuía ao adversário propostas sem comprovação suficiente e contrariava seu plano de governo, que previa a manutenção dos programas sociais existentes. 



O ministro André Mendonça, durante sua posse como vice-presidente do TSE (12/5/2026) | Foto: Alejandro Zambrana/TSE Estela votou para liberar o vídeo e recebeu o apoio de Cueva, Rei


Estela votou para liberar o vídeo e recebeu o apoio de Cueva, Reis e Floriano. Nunes Marques e Toffoli acompanharam Mendonça, mas, com o placar em quatro a três, a proibição caminhava para ser derrubada. Em 15 de outubro, antes da conclusão do julgamento virtual, o vicepresidente pediu destaque e transferiu o caso para o plenário presencial, preservando a ordem de retirada até uma nova análise. 

A campanha petista reunira os votos para recuperar a propaganda, embora ainda não pudesse devolvê-la ao ar. Em outros processos, a minoria de Mendonça era ainda mais estreita. No dia 9, pelo menos três ações sobre publicações que associavam Lula a organizações criminosas já tinham maioria pela remoção, com os votos de Estela, Cueva, Floriano, Reis e Toffoli. Mendonça defendia a manutenção dos conteúdos quando Nunes Marques pediu destaque e interrompeu as votações. 

A transferência para o plenário presencial preservou, nesses casos, a circulação das publicações contra o petista. O recurso que mantinha fora do ar uma propaganda de Lula também impedia a retirada imediata de ataques ao presidente. Sem maioria para vencer os julgamentos virtuais, Nunes Marques e Mendonça recorriam ao regimento para adiar o desfecho e levar os colegas a defender suas posições na sessão presencial. 

A divisão vinha da reta final do 1º turno, quando a campanha de Lula conseguiu modificar até as condições de um debate ao qual o candidato decidira não comparecer. Em 1º de outubro, Estela acolheu um pedido da coligação petista e alterou as regras acertadas com a Globo, embora os representantes do presidente tivessem concordado com elas. 

Sob o argumento de preservar a igualdade entre os concorrentes, proibiu a exibição destacada do púlpito vazio identificado com o nome de Lula e as perguntas dirigidas a ele. A ausência era uma escolha do candidato; o esforço para atenuar seu desgaste ganhou a assinatura da Justiça Eleitoral e, nos bastidores, o patrocínio de um ministro do Supremo. 

Oeste apurou que Flávio Dino pediu a Estela que ajudasse Lula nesse episódio. Os dois haviam trabalhado juntos no Ministério da Justiça e Segurança Pública, onde ela foi assessora especial e secretária de Direitos Digitais durante a gestão dele.

Com a decisão, a emissora ficou impedida de evidenciar a falta nos termos previamente combinados, enquanto os adversários perderam a possibilidade de dirigir perguntas ao presidente. O episódio aproximava as duas frentes de intervenção na campanha: o pedido partia de um gabinete do Supremo e encontrava, no TSE, a caneta capaz de atendê-lo.


Ministro Villas Bôas Cueva | Foto: Luiz Roberto/TSE 

Uma trégua sob pressão

Foi nesse ambiente que Nunes Marques reuniu representantes das duas campanhas, em 13 de outubro, para tentar reduzir o volume de processos e o risco de decisões conflitantes. O presidente levava à mesa de negociação uma disputa que os gabinetes não conseguiam conter, na esperança de que os advogados encerrassem parte dos conflitos que dividiam os ministros. 

A tentativa de pacificação, porém, esbarrava nas pressões que alimentavam a guerra. O próprio Lula estava por trás das cobranças sobre os quatro integrantes da ala majoritária formada para favorecê-lo. Nunes Marques precisava obter concessões das campanhas enquanto enfrentava, dentro da Corte, a resistência dos colegas sobre os quais o candidato à reeleição procurava exercer influência.

A proposta previa que as equipes jurídicas examinassem quais ações poderiam retirar e quais pretendiam manter até a votação de 25 de outubro. No dia seguinte, os advogados se encontraram no TSE para discutir os processos, numa tentativa de diminuir a judicialização da reta final e as oportunidades para novas ordens e contraordens. 

Para Nunes Marques e Mendonça, o acordo oferecia algum alívio a uma rotina em que cada decisão exigia administrar a reação da campanha contrariada e a disposição dos colegas de rever a medida. Os pedidos de destaque permitiam conservar suas posições por mais tempo, mas carregavam o confronto para uma sessão futura. A negociação procurava encerrar parte dessas disputas antes que elas chegassem novamente aos ministros. 

Enquanto os advogados discutiam uma trégua, as redes sociais expunham a temperatura política no entorno de um dos gabinetes. Anna Maria Reis, mulher de Sebastião Reis, curtiu uma publicação do ator Thiago Lacerda que mostrava Flávio sob a frase “Miliciano não pode ser presidente!” e terminava com uma declaração de apoio ao adversário: “Lula 13!”. 

Questionada, a advogada afirmou não se lembrar da curtida, negou fazer campanha nas redes e disse não interferir nos julgamentos do marido. Embora a manifestação não permita atribuir a ele a posição da mulher, a postagem reunia os dois elementos que atravessavam os processos sob análise da Corte: o ataque ao candidato do PL e a mobilização pela reeleição do petista. 


Ministro Sebastião Reis | Foto: Luiz Roberto/TSE


Lula 4 em julgamento

 Alexandre de Moraes deixou o TSE, mas Lula encontrou outros ministros a quem recorrer na tentativa de chegar ao quarto mandato. A ausência de seu mais conhecido protagonista não esvaziou o papel do Judiciário na campanha: às vésperas do segundo turno, decisões são revistas, maiorias se articulam e o presidente da República pressiona integrantes do tribunal encarregados de arbitrar a disputa da qual participa. 

A Nunes Marques resta procurar um entendimento com os advogados e, quando os votos lhe faltam, recorrer ao regimento para preservar uma decisão até o julgamento presencial. Seu esforço por uma “disputa equilibrada”, descrito ainda em julho, chegou a outubro cercado por uma maioria que pode derrubá-lo a cada processo. Quanto mais perto das urnas, mais o presidente do TSE precisa negociar as condições para exercer sua autoridade.

Lula, por sua vez, pede aos eleitores um novo mandato, enquanto cobra ajuda de quem deveria apenas julgar sua campanha. Moraes já não ocupa a presidência do tribunal, mas a expectativa de auxílio sobreviveu à sua saída. Para que o projeto Lula 4 prospere, o petista ainda precisa conquistar a maioria nas urnas; no TSE, os quatro votos já se encontraram. 


Cristyan Costa - Revista Oeste