domingo, 11 de outubro de 2026

Ives Gandra Martins escreve sobre 'A herança fiscal do atual governo que ameaça o futuro do Brasil

 A dívida está crescendo cada vez mais, e a atividade econômica, caindo progressivamente


'O atual governo está exterminando o futuro econômico do Brasil' | Foto: Imagem gerada pela ferramenta de inteligência artificial Gemin


Diante do descalabro da atual gestão no que diz respeito às finanças públicas, resolvi reforçar um alerta que vem sendo feito por economistas, jornalistas, professores, juristas e especialistas: o governo que assumir os destinos do Brasil em 2027 terá de aplicar um choque econômico dramático sobre o povo brasileiro. 

O presidente Lula entregará o poder ao próximo presidente ou, se for reeleito, enfrentará uma gestão absolutamente descompassada do ponto de vista financeiro. A dívida do Brasil está crescendo cada vez mais, e a atividade econômica, caindo progressivamente. Os juros estão sempre altos, e não há condições de serem reduzidos.

O Brasil hoje deve o equivalente a 83% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, e isso terá de ser pago. Calcula-se que esse número deverá aumentar até 2029, se o país continuar nesse ritmo.

O governo anterior, do ex-presidente Jair Bolsonaro, deixou as contas com um superávit de R$ 54 bilhões, que o atual governo fez desaparecer já no primeiro ano. Ao continuar gastando compulsivamente, o Executivo vem gerando déficits sucessivos. Isso mostra que esse descompasso, esse desgoverno, esse descalabro e essa desastrosa política financeira de gastar sem controle e sem receita correspondente vão gerar um imenso caos. 

Na Assembleia Nacional Constituinte, participei da comissão que tratou do setor financeiro e fui ouvido em diversos momentos, particularmente no que diz respeito ao Título VI da Carta Magna (da Ordem Financeira e Tributária). 

Nós, que integramos a comissão, especialmente o jurista Décio Miranda, dizíamos: “Agora não haverá mais déficit, porque a Constituição estabeleceu que nada pode ser feito sem os recursos devidos; é preciso ter as fontes necessárias”. 


Alguns dados da herança fiscal

Entendíamos, pelo texto dos artigos 165 a 169 da Constituição Federal que o endividamento seria uma exceção. Jamais imaginamos um endividamento de tal proporção quanto o que existe hoje, transformado em algo tão normal, natural e corriqueiro a ponto de crescer continuamente. Esse quadro se reflete na Dívida Bruta do Governo Geral, que atingiu 82% do PIB recentemente (82,9% do PIB, equivalente a R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026), segundo dados oficiais divulgados pelo Banco Central, e deve ultrapassar 83% até o fim do ano.

Cabe recordar aqui as palavras certeiras do embaixador e economista Roberto Campos, que sintetizou com precisão cirúrgica os perigos da hipertrofia estatal e da irresponsabilidade orçamentária: “O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar.” Quando os governantes se julgam acima dos limites aritméticos impostos pela realidade, o Estado deixa de ser o indutor do progresso para se tornar o grande devorador da riqueza nacional. 

Essa marcha irresponsável rumo ao abismo fiscal demonstra o desapego com a matemática elementar e com o próprio bem-estar das gerações vindouras. A ilusão demagógica de que o Estado possui recursos infinitos para custear o voluntarismo político invariavelmente desemboca no confisco silencioso promovido pela inflação, na carestia do crédito e no empobrecimento generalizado da população mais vulnerável.

A restauração do equilíbrio fiscal não é apenas uma diretriz econômica fria ou uma exigência de mercados financeiros; é um dever moral e uma imposição pétrea do texto constitucional. Se o Congresso Nacional e a sociedade civil não impuserem barreiras firmes à gastança desmedida e à erosão da responsabilidade fiscal, o Brasil continuará a ser o país do futuro que nunca chega — condenado a pagar eternamente a conta do populismo de hoje com o sacrifício do amanhã. Sobre a postura de Lula 

Não é possível que o presidente da República não tenha percebido — depois de ser alertado por todos os grandes economistas, juristas e editoriais dos principais jornais do país — que levou o Brasil para a beira do precipício. 

É preciso considerar que, se ele for reeleito com essa mentalidade de gastar sem a devida cobertura orçamentária, a economia sofrerá uma desaceleração ainda maior, com queda do desenvolvimento, e mais empresas entrarão em recuperação judicial.

Ao optar por expandir o gasto público sem freios e priorizar soluções arrecadatórias em vez de cortar despesas, o governo Lula aposta em um modelo esgotado de crescimento via intervencionismo estatal. Essa escolha deliberada de ignorar a prudência fiscal e sufocar o setor produtivo com impostos corrói a confiança dos investidores, eleva os juros e transfere para as próximas gerações uma conta impagável. Trata-se de uma política econômica que sacrifica a estabilidade de longo prazo em nome do populismo imediato.

 Estamos realmente vivendo um momento da nossa história que me lembra o título de um filme protagonizado por Arnold Schwarzenegger: O Exterminador do Futuro. O atual governo está exterminando o futuro econômico do Brasil.

Ives Gandra Martins - Revista Oeste

sábado, 10 de outubro de 2026

Dólar tem maior queda semanal depois de 1° turno desde 1994; Bolsa bate recorde

Nesta sexta-feira, 9, a moeda norte-americana recuou 0,79% frente ao real, cotada a R$ 4,985; Ibovespa subiu 1,38%, aos 209 mil pontos


Dólar teve sua maior queda em uma semana depois de um primeiro turno de eleição desde o Plano Real, em 1994 | Foto: Freepik


O favoritismo do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, na corrida eleitoral movimentou o mercado financeiro nesta semana, derrubando a cotação do dólar frente ao real e impulsionando o desempenho da Bolsa de Valores do Brasil (B3), que renovou suas máximas históricas.

Ao final do último pregão da semana, nesta sexta-feira, 9, a moeda norte-americana recuou 0,79%, cotada a R$ 4,985. Em apenas uma semana, desde o resultado do primeiro turno da eleição, o dólar saiu do patamar de R$ 5,21 e chegou aos R$ 4,98.

Foi a maior queda semanal da moeda dos Estados Unidos depois de um primeiro turno de eleição desde que o real foi instituído no país, em 1994.\

Na cotação máxima da sessão de sexta-feira, o dólar bateu R$ 5,009. A mínima foi de R$ 4,976. No acumulado da semana, a moeda dos EUA cedeu 4,43%. 

No ano, a queda já chega a 9,19% e, no mês de outubro, é de 3,67%. O segundo turno das eleições presidenciais acontece no dia 25. 


Ibovespa bate novo recorde histórico 

O Ibovespa, principal indicador do desempenho das ações negociadas na B3, bateu mais um recorde histórico de fechamento no pregão de sexta-feira.

Ao final da sessão, o índice avançou 1,38%, aos 209.066,90 pontos, maior valor de fechamento da história da bolsa brasileira. 

Na máxima do pregão, o Ibovespa cravou 209.713,45 pontos, novo recorde intradiário (durante a sessão). 

A mínima foi de 206.237,55 pontos. Leia também: “Ibovespa dispara e volta a bater recorde histórico; dólar cai a R$ 4,98” 


Expectativa de vitória de Flávio 

Os investidores continuaram repercutindo os números das pesquisas de intenção de voto que mostram Flávio Bolsonaro à frente de Lula no segundo turno da eleição.

De acordo com os números do Datafolha divulgados na quinta-feira 8, o candidato do PL aparece com 52% das intenções de voto contra 48% de Lula (em votos válidos, que não contam brancos ou nulos). 

Na sexta-feira, um levantamento da AtlasIntel/Bloomberg mostrou Flávio com 52,8% e Lula com 47,2% da preferência do eleitorado, também em votos válidos. 

No primeiro turno da disputa, no domingo 4, Flávio Bolsonaro obteve 56,1 milhões de votos (o equivalente a 47,03% dos válidos), ante 53,9 milhões de Lula (45,16%)

A expectativa dos agentes econômicos é que uma possível vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial mude os rumos da economia do país a partir de janeiro de 2027. 

Os agentes de mercado esperam que um novo governo implemente um programa de ajuste fiscal, com a redução das despesas do governo e a diminuição do tamanho da dívida pública brasileira em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). 

O mercado financeiro também tem grande expectativa em relação a uma agenda de reformas de um governo liberal na economia, entre as quais a reforma administrativa e uma nova etapa da previdenciária. Também há projeções que apontam para a redução da taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central (BC) diante de um possível alívio na inflação. 


Fábio Matos - Revista Oeste 

Ministra do TST: ‘A função do juiz é aplicar a lei’

 Ex-presidente do tribunal, Maria Cristina Peduzzi discorre sobre a IA, comenta o fim da escala 6x1 e defende atualização da CLT



A ex-presidente e ministra do TST Maria Cristina Peduzzi em seu gabinete em Brasília | Foto: Divulgação/TST 


“Forte ou fraco? Eu prefiro fraco”, perguntou a mulher de vestido rosa e brincos de pérola ao oferecer um café. Assim, Maria Cristina Peduzzi, ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST), recebeu a reportagem de Oeste em seu gabinete em Brasília, onde volumes jurídicos de lombadas vermelhas dividem a estante de madeira com fotografias, imagens de Nossa Senhora Aparecida e mais de 20 condecorações. A cordialidade do convite acompanha a conversa. Com voz pausada e tom professoral, ela desenvolve as respostas, encadeia argumentos e encontra exemplos com rapidez. 

A familiaridade com o Direito foi construída em diferentes lugares: nos escritórios de advocacia, no Ministério Público, nas salas de aula e, há 25 anos, no TST. Formada pela Universidade de Brasília (UnB) em 1975, Maria Cristina exerceu a advocacia por mais de duas décadas, com atuação nos tribunais superiores. Foi procuradora da República, procuradora do Trabalho e professora universitária. Na UnB, também obteve o mestrado em Direito, Estado e Constituição. Chegou ao tribunal em junho de 2001, durante o governo FHC, em uma vaga destinada à advocacia, e depois integrou o Conselho Nacional de Justiça e dirigiu a escola nacional de formação de magistrados do trabalho. 

Em fevereiro de 2020, tornou-se a primeira mulher a presidir o TST. Um mês depois, teve de comandar o tribunal com as portas fechadas pela pandemia de covid-19 e manter os julgamentos a distância. Ao recordar aqueles dias, descreveu sessões que presidia de casa, tomando votos e anotando divergências dos outros 26 colegas sem assessoria ao lado. A experiência abriu uma conversa com Oeste que percorreu a inteligência artificial (IA), o fim da escala 6×1, a reforma trabalhista e a proteção ao trabalhador além da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Mesmo quando trata das ferramentas capazes de preparar minutas de decisões, Maria Cristina ressaltou a tarefa que permanece com o magistrado: estudar o processo e aplicar a lei. “É isso que promove segurança jurídica”, disse.


A seguir, os principais trechos da entrevista.


A CLT foi criada em 1943 e recebeu diversas alterações ao longo dos anos. A senhora considera necessária uma atualização mais ampla para adequá-la às relações de trabalho de hoje?

 Penso que sim. Vamos completar dez anos da reforma trabalhista, e os avanços tecnológicos precisam de regulamentação. É o caso da contratação por plataformas digitais, que nem sempre configura uma relação de emprego. Em geral, é trabalho autônomo, o que não significa retirar direitos. Temos de compreender que a CLT não é a única fonte de direitos. É possível assegurar proteção legal e previdenciária por outros meios. Há leis específicas que regulam, com garantias equivalentes, o trabalho de representantes comerciais, corretores de seguros, parceiros de salões de beleza e taxistas. O autônomo é contribuinte obrigatório da Previdência Social; portanto, não está à margem dela. Também existem contratos de prestação de serviços entre pessoas jurídicas ou entre pessoas físicas e jurídicas. Um contrato pode ser inválido quando usado para fraudar os direitos de quem efetivamente é empregado. Não se pode contratar qualquer atividade por pessoa jurídica, mas a pejotização é aceita no nosso ordenamento há muitos anos. Não podemos confundir um caso de abuso com uma forma legítima de contratação. A negociação coletiva também pode ocorrer entre categorias autônomas e estabelecer condições de segurança. Um motorista de aplicativo não deve trabalhar 15 horas por dia. É preciso estabelecer limites, intervalos e períodos de repouso, por negociação coletiva ou individual. Ficamos sempre concentrados na CLT, mas ela nem sempre permite contratações, porque impõe custos ao empregador e uma jornada muito inflexível. Outras formas de contratação podem ser mais flexíveis e também garantir limites jornada, intervalos e repouso. As normas de saúde e segurança devem ser observadas tanto no emprego regido pela CLT quanto no trabalho autônomo. Há outras maneiras de preservar a dignidade do trabalho e promover a livre iniciativa. Não podemos impor uma única modalidade de contratação. A Constituição estabeleceu a liberdade econômica, o estímulo ao empreendedorismo e a proteção social do trabalho. Esses princípios devem se harmonizar.


“A IA é uma realidade do nosso dia a dia. Não podemos resistir a ela. Precisamos capacitar as pessoas e ter uma regulamentação efetiva”


No ano que vem, a reforma trabalhista completa dez anos. O que a senhora considera um avanço desde 2017 e o que precisa mudar? 

A reforma trabalhista foi muito importante. Modernizou o que precisava ser modernizado, e o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a constitucionalidade de grande parte dos seus dispositivos. Que eu me recorde, houve duas situações em que o Supremo declarou dispositivos inconstitucionais: a possibilidade de gestantes e mulheres que amamentam trabalharem em locais insalubres mediante atestado médico e a cobrança de honorários advocatícios de beneficiários da Justiça gratuita com recursos obtidos naquele ou em outro processo. No caso dos honorários, há um prazo de dois anos para demonstrar que o beneficiário tem condições de pagar. Se isso não for comprovado, ele não pagará. Já a extinção da contribuição sindical obrigatória teve sua constitucionalidade reconhecida logo no início, assim como diversos outros dispositivos examinados pelo Supremo. Vejo a reforma como um avanço. Um exemplo concreto é o teletrabalho: a CLT tinha uma regulamentação muito limitada sobre o assunto, e a reforma estabeleceu diretrizes que se mostraram fundamentais quando veio a pandemia.


Qual é a opinião da senhora sobre o fim da escala seis por um?

Não vou entrar no mérito da proposta em tramitação. Depois de editada a lei, examinaremos se ela é válida e constitucional. O que posso dizer é que a questão é complexa. Hoje, em muitos casos, já se trabalha cinco dias, porque as quatro horas do sábado são compensadas durante a semana. Mas há um dia de repouso semanal remunerado e outro dia útil não trabalhado. Estabelecer dois dias de repouso remunerado altera o valor do salário-hora, com repercussões nas demais verbas. Isso representa um encargo muito grande para os empregadores. A mudança exige mais do que uma visão poética. Se houver estudos concretos demonstrando aumento de produtividade e viabilidade econômica, acho muito bom. Mas não sei se os estudos realizados mostram que os dois dias de repouso vão aumentar a produtividade e permitir que as empresas mantenham os empregos. Vai encarecer muito a mão de obra, sem dúvida. Já vi algumas estatísticas, mas não vou comentá-las porque não tenho conhecimento suficiente para isso. É fundamental ouvir todos os agentes sociais e produtivos para que o Legislativo tenha elementos para elaborar a lei da melhor forma possível. Como integrante do Judiciário, não posso dizer se acho bom ou ruim. Depois de editada, devo aplicar a lei, salvo se houver alguma inconstitucionalidade. Cabe ao Legislativo elaborá-la. A técnica que está por trás da poesia também precisa ser considerada. O processo legislativo existe para que todos os setores sejam ouvidos e os efeitos da mudança sobre a sociedade e a economia sejam levados em conta.


As despesas da Justiça do Trabalho estão na casa dos R$ 30 bilhões. Os resultados entregues à sociedade justificam esse custo ou há espaço para reduzir as despesas? 

Quando fui presidente e vi esses números pela primeira vez, também tomei um susto. Os valores são elevados, mas o retorno é muito maior, porque a Justiça do Trabalho presta um serviço inestimável à sociedade. Nas semanas de conciliação e de execução, são obtidos valores superiores ao orçamento. Não sei os números exatos agora, mas as estatísticas estão disponíveis. Esses recursos vão para as partes, não para o Estado. Nossa função não é produzir renda, mas produzir justiça e garantir que os direitos das partes sejam atendidos. Nos conflitos coletivos, há um papel cuja importância nem sempre pode ser medida: evitar greves, especialmente em atividades essenciais, ou atuar imediatamente quando elas começam. Quando necessário, interrompemos férias para julgar esses casos, ouvir as partes e mediar uma solução que restabeleça a normalidade para a população. A conciliação tem sido muito estimulada. Hoje temos centros especializados, com profissionais capacitados e supervisão judicial. Mesmo quando o processo está em fase de recurso, inclusive no TST, as partes podem pedir uma tentativa de acordo. Antes, essas tentativas aconteciam principalmente durante as audiências. Agora, contamos também com esses centros, nos quais muitos acordos são feitos. É um trabalho intenso. O custo pode parecer alto, mas, quando se considera a função social da Justiça do Trabalho, vemos que ela promove muito mais do que gasta.


A IA permite automatizar funções antes exercidas por pessoas. Que responsabilidade as empresas devem assumir pela requalificação dos trabalhadores?

A IA é uma realidade do nosso dia a dia. Não podemos resistir a ela. Precisamos capacitar as pessoas e ter uma regulamentação efetiva, com transparência, ética, possibilidade de auditoria e supervisão humana permanente. Vejo a IA como uma consequência inevitável do desenvolvimento tecnológico da sociedade e da economia. Devemos regulamentar seu uso e, ao mesmo tempo, aproveitar a eficiência que ela pode proporcionar na vida profissional e pessoal. A velocidade com que isso ocorre às vezes me assusta. A atualização permanente é fundamental. Hoje, quem não tiver conhecimento enfrenta dificuldades até para viajar, que dirá trabalhar. Nem sempre conseguimos avaliar, no cotidiano, a dimensão dessa inovação. Precisamos compreendê-la e conviver com ela da forma mais harmoniosa e eficiente possível.


A IA também chegou ao Judiciário. Até onde ela pode participar da elaboração de uma sentença?

Temos de ter muita cautela. O CNJ já regulamentou o uso da IA, e os tribunais utilizam ferramentas generativas dentro dessas regras. Na Justiça do Trabalho, começamos com o Bem-te-vi, implementado em 2018, que auxiliava na organização dos processos, verificava se os recursos haviam sido apresentados no prazo e identificava temas recorrentes. Na minha gestão, aperfeiçoamos o sistema. Hoje temos o Chat-JT, que auxilia magistrados e servidores na elaboração de ementas, relatórios e resumos de processos, recursos e contrarrazões. A ferramenta também consulta a jurisprudência e os precedentes que podem ser aplicados ao caso. O Monitor do Trabalho Decente identifica demandas sobre trabalho infantil, assédio sexual e trabalho análogo ao de escravo e alerta os gabinetes para que sejam examinadas com prioridade. O TRT da 4ª Região desenvolveu o Galileu, que lê e resume petições, contestações e atas de audiência e prepara uma minuta de sentença com fundamentos extraídos de bases controladas. Seu códigofonte foi compartilhado com o STF para adaptar a tecnologia a outros ramos do Judiciário. Essas ferramentas proporcionam muita eficiência, mas a supervisão humana é fundamental, porque podem errar. Não podemos confiar que vão resolver tudo nem perder, como juízes, a preocupação de julgar bem. Julgar bem significa estudar bem o processo e aplicar a lei. A função do juiz na pacificação social é exatamente essa: aplicar a lei. É isso que promove segurança jurídica.


A senhora assumiu a presidência do TST poucas semanas antes da pandemia. Como foi comandar o tribunal naquele período? 

Foram dois anos buscando manter toda a Justiça do Trabalho funcionando, com segurança para magistrados e servidores e sem interromper o atendimento à sociedade. Assumi em fevereiro de 2020 e, um mês depois, o tribunal estava fisicamente fechado. A parte mais difícil foi presidir também o Conselho Superior da Justiça do Trabalho, responsável pela organização e pelo funcionamento dos 24 tribunais regionais. Tivemos uma vantagem: o processo judicial eletrônico já estava praticamente todo implementado. No TST, ficamos uma semana sem sessões; na seguinte, já estávamos julgando por videoconferência. Nos tribunais regionais, conseguimos manter o funcionamento em pouco tempo. No primeiro grau, houve resistência inicial às audiências de instrução por vídeo, que envolvem depoimentos das partes e de testemunhas. Depois de alguns meses, conseguimos fazer funcionar esse sistema em todo o país. Eu presidia sessões de casa, inclusive as do pleno, sem assessoria imediatamente ao lado. Havia julgamentos com quatro, cinco ou seis divergências, e precisava conduzir a sessão, tomar os votos e registrar essas diferenças. Direcionamos a economia com despesas do funcionamento presencial para o aperfeiçoamento tecnológico e contamos com o apoio do Comando Cibernético do Exército para prevenir e enfrentar ataques de hackers. Nos dois anos da minha presidência, não tivemos interrupções por problemas tecnológicos. Também criamos meios de facilitar o acesso à Justiça: pelo celular, o cidadão podia pedir uma mediação antes de ajuizar uma ação. O tribunal localizava o empregador e marcava uma audiência por videoconferência. Foi expressivo o número de acordos obtidos dessa maneira. Recebemos o selo Diamante do CNJ nos dois anos da gestão (categoria do Prêmio CNJ de Qualidade, que avalia governança, produtividade, transparência e gestão de dados e tecnologia), porque conseguimos atingir as metas. Foi um período difícil, mas gratificante, porque continuamos servindo à sociedade e levando a Justiça a quem precisava dela.

Cristyan Costa - Revista Oeste

PT desqualifica denúncia grave de corrupção para não explicar recusa de investigar Lula

 

Presidente Lula ao lado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. (Foto: Reprodução/PR/Redes sociais).


A reação atabalhoada do PT, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República, tentando desqualificar a reportagem da Veja sobre acordo de corrupção de R$1 bilhão em propina de Daniel Vorcaro para pessoas próximas do presidente, parece uma jogada para não terem de explicar a recusa de investigar os fatos graves em gravações e documentos.⁠ A revista não atribui os áudios a depoimentos na PF ou PGR, como fizeram parecer: esclarece que foram obtidas com fontes próximas Vorcaro, cujo advogado Daniel Bilinski confirmou: a voz é mesmo do ex-banqueiro.

Miopia seletiva

PF e PGR não investigaram denúncia de R$30 milhões em dinheiro vivo para o Instituto Lula, entregues a João Vaccari Neto, compadre de Lula.

Provas ignoradas

A PGR alegou “falta de provas”, apesar da profusão de mensagens, registros de retiradas, identificação de quem recebeu, rotas de entrega.

Perícia, nem pensar

Temos órgãos de investigação que nem sequer sugerem a possibilidade de periciar os áudios e abrir procedimento investigativa. Tá feia a coisa.

Ojeriza a investigação

Ainda mais revelador é Vorcaro relatar em áudio que “Ubiratan”, braço direito do PGR Paulo Gonet, barrou qualquer delação envolvendo Lula.

Diário do Poder

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O reconhecimento ao vereador que 'desmascarou' João Campos

Eleito deputado federal por Pernambuco, Eduardo Moura se destacou com o trabalho de oposição ao socialista no Recife


Sucesso nas redes sociais, socialista João Campos fracassou nas urnas nas eleições gerais de 2026 | Foto: Reprodução/ão/TikTo


No último domingo, 4, Eduardo Moura entrou para a história do Novo. Foi o primeiro deputado federal eleito pelo partido fora do Sul e do Sudeste. 

Moura recebeu 113 mil mil votos. Acabou o pleito como o 15º candidato mais bem votado na disputa pela Câmara dos Deputados por Pernambuco.

A Oeste, Moura atrela a expressiva votação ao reconhecimento do que define como “desmascarar” João Campos (PSB). O político do Novo protagonizou aguerrida oposição durante o período em que o socialista era prefeito do Recife, e ele atuava como vereador da capital pernambucana. 

+ Entenda como funciona a política brasileira no guia de Oeste Moura foi responsável, entre outras ações, por mostrar que a Prefeitura do Recife, então sob comando de Campos, alterou regras de concurso público, o que resultou na nomeação de Lucas Vieira Silva, filho de uma procuradora do Ministério Público de Contas e de um juiz do Tribunal de Justiça de Pernambuco. 

Ele havia terminado o certame em 63º lugar geral, mas ganhou a vaga ao, posteriormente, se declarar como pessoa com deficiência. O caso fez com que o integrante do Novo protocolasse pedido de impeachment contra o socialista. Campos escapou da cassação, mas se viu obrigado a anular a nomeação de Lucas.


Eduardo Moura (Novo) é crítico ao trabalho de João Campos à frente da Prefeitura do Recife | Foto: Divulgação/Partido Novo

“Comecei a desmascarar João Campos, o prefeito tiktoker”, diz o deputado federal eleito. “O cara, que era tido como a renovação da esquerda e o possível substituto de Lula, passou a não poder andar mais nas comunidades.” 


As derrotas de João Campos 

Com o desfecho do primeiro turno das eleições gerais deste ano, Eduardo Moura teve motivos para comemorar além de sua própria vitória. Enquanto ele foi eleito, João Campos perdeu. Campos, que havia renunciado ao cargo de prefeito do Recife em 2 de abril, perdeu a disputa pelo governo pernambucano. Raquel Lyra (PSD) foi reeleita, com 53% dos votos válidos. 

O ex-prefeito recifense também sofreu derrota enquanto dirigente partidário. Presidido nacionalmente por Campos, o PSB não elegeu nenhum governador, elegeu três senadores (todos no Nordeste) e diminuiu a bancada de deputados federais, de 17 para 15.


Anderson Scardoelli - Revista Oeste

Advogado atesta que é mesmo de Vorcaro voz que revela corrupção no entorno íntimo de Lula

Criminalista Daniel Bialski não defendia o ex-banqueiro na época das gravações, mas onfirma que a voz é dele mesmo


Advogado criminalista Daniel Bialski, que integra a defesa de Daniel Vorcaro


A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro confirmou que a voz no áudio revelado pela revista Veja, no qual ele relata pagamentos de propina ao Instituto Lula e a um filme sobre Lula (PT), pertence ao seu cliente.

O advogado criminalista Daniel Bialski, que representa Vorcaro nas investigações do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou à própria revista que “a voz realmente é dele nos áudios”, embora não saiba quando nem em que circunstâncias a gravação foi feita. A confirmação veio em meio a especulações de aliados de Lula sobre o material.

Nessas gravações, Daniel Vorcaro cita personagens muito comhecidos por serem do cículo íntimo de poder no governo Lula, a começar pelo velho amiho e ex-tesoureiro do PT João Vaccari, que chegou a ser preso mas acabaria “descondenado”. Vaccari inclusive, segundo relato do ex-banqueiro, foiquem impôs comissão de 10% sobre negócios gerados para o Banco Master nos fundos de pensão. A meta era de negócios de mais de R$9 bilhões, com expectativa de comissão de R$ 1 bilhão.

Entreos integrantes do círculo íntimo de amigos de Lula mencionados por Vorcaro foram o ministro Alexandre Padilha, hoje chefiando a pasta da Saúde, e Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo Lula no Senado. Ambos estão entre os amigos mais próximos do presidente,

Bialski, que assumiu a defesa para elaborar uma nova proposta de delação premiada, ressaltou que não era o advogado de Vorcaro na época das tratativas de colaboração e, por isso, desconhece o anexo mencionado. Segundo ele, o banqueiro não prestou depoimento à Polícia Federal nem a qualquer outro órgão sobre o tema e nunca fez alusão ao assunto em conversas com a defesa.

Na nota enviada a Veja, o advogado declarou: “A voz realmente é dele em um dos áudios, porém não saberia dizer quando e em qual circunstâncias isso foi gravado. Só o cliente, futuramente, poderá confirmar ou não o teor dos fatos”.

Diário do Poder

'A força de um sobrenome', por Yasmin Alencar

 Dos 19 candidatos registrados nas urnas com o sobrenome Bolsonaro, seis foram eleitos, quatro da própria família



“E stá decretado o fim da era do PT.” A frase foi dita por Flávio Bolsonaro ao fim da apuração do primeiro turno, no último domingo, 4. O senador terminou a primeira etapa à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio recebeu cerca de 47% dos votos válidos, 56 milhões. Lula teve 45%, menos de 54 milhões. A diferença é de quase dois pontos porcentuais, e o resultado final será decidido em 25 de outubro. 

Embora Flávio estivesse se referindo à disputa presidencial, o resultado do primeiro turno também permitiu medir a força eleitoral dos políticos que levaram os nomes “Bolsonaro” e “Lula” às urnas. Dos 19 candidatos que levaram “Bolsonaro” no nome, seis foram eleitos, sem contar Flávio, que segue na disputa. Quatro são parentes do expresidente e dois não têm vínculo com ele. Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal com quase 1 milhão de votos. Carlos Bolsonaro obteve um mandato de senador por Santa Catarina com votação acima de 2 milhões. No mesmo Estado, Jair Renan Bolsonaro, que concorreu como “Jair Bolsonaro”, foi eleito deputado federal com 131 mil. 

Em São Paulo, Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, chegou a 379 mil e terminou como o segundo deputado mais votado do PL no Estado. Juntos, os quatro receberam mais de 3,4 milhões de votos. Entre os que não têm parentesco, Fabiana Bolsonaro foi eleita deputada estadual em São Paulo com 61 mil votos. 

No Paraná, Crysthofour Pereira de Almeida, registrado como Fão do Bolsonaro, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa com 48 mil. Além dos candidatos que levaram o sobrenome, Bolsonaro também deixa um legado político de ex-ministros eleitos. É o caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito governador de São Paulo no primeiro turno com mais de 14 milhões de votos, mais de 62% dos válidos. Ex-ministro da Infraestrutura, Tarcísio se firmou como um dos principais nomes do campo da direita.

Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí, o sobrenome funciona como marca licenciada. Ele descreve o movimento em torno de Bolsonaro e Lula como “as duas grandes franquias políticas”. “O nome Bolsonaro ficou muito forte, semelhante ao que aconteceu em 2018, mas com muito mais força agora, porque o grupo busca voltar ao poder”, observa. 


Com Lula, a escala foi outra



Sobrenome Bolsonaro soma mais de 3,4 milhões de votos no Legislativo, e aliado Tarcísio de Freitas se consolida ao ser reeleito em São Paulo | Foto: Reprodução/X


No primeiro turno, nove candidatos chegaram à urna com “Lula” no nome, e nenhum tem parentesco com o presidente. Apenas dois foram eleitos, ambos para o Senado. Júlio César de Carvalho Lima (PSD) concorreu como “Júlio César O Julim do Lula” e fez 973 mil votos no Piauí. Aos 78 anos, ele foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1994, cumpriu mandato de 1995 a 1999, ficou de fora, voltou à Câmara em 2003 e se reelegeu quatro vezes. Samanda Alves de Freitas, presidente estadual do PT e vereadora de Natal, concorreu como Samanda de Lula e fez 636 mil votos no Rio Grande do Norte, a segunda mais votada do Estado. 

Um terceiro eleito carrega o nome e não entra na conta. Lula da Fonte (PP) foi reeleito deputado federal por Pernambuco, mas “Lula” é seu apelido desde criança, derivado de Luiz. Filho do deputado Eduardo da Fonte, ele se elegeu com o mesmo nome em 2022, e a família é aliada de Bolsonaro. Para Gomes, o tamanho da vitória traz um problema próprio. “Enquanto o Lula não tem sucessor nenhum, o Bolsonaro tem sucessores demais”, enfatiza. 

“É uma espécie de briga por herança de alguém que ainda está vivo, mas inelegível, incomunicável.” A campanha de Lula, no entanto, discorda do diagnóstico e revela que, no entorno do PT, não é tão simples a transmissão de uma herança política. Para Marco Aurélio Carvalho, que coordena a campanha do presidente, os dois campos operam de maneiras diferentes. “No progressista, você não herda de forma automática um legado”, afirma. A fala de Carvalho reflete a dificuldade que o PT possui em construir um herdeiro político para Lula.


Enquanto Bolsonaro tem excesso de herdeiros políticos, Lula enfrenta a falta de um sucessor claro no PT | Foto: Shutterstock


A diferença entre os dois campos fica evidente quando se olha para o futuro. Enquanto o movimento em torno de Bolsonaro já tem sua segunda geração empossada e novos protagonistas surgindo, o PT encara o dilema de como sobreviver politicamente sem sua principal liderança. Lula disputa aquela que tende a ser sua última eleição, já que em 27 de outubro fará 81 anos. Gomes acredita que o presidente não preparou um sucessor por enxergar a ascensão de outro nome dentro da sigla como uma ameaça à sua hegemonia.

Para Gomes, o PT se transformou numa “estrutura de culto ao líder” e cercou Lula de conselheiros que competiam entre si pela atenção dele. “Tenho sérias dúvidas se esse grupo tem condições de sobreviver à morte física de Lula”, afirma. “Vai existir uma luta muito grande pelo espólio do lulopetismo.

” Mesmo inelegível e sem direito a voto, o ex-presidente Bolsonaro mantém influência por meio de familiares, aliados e ex-ministros que ampliaram seu espaço na política. Se a previsão de Flávio sobre o “fim da era do PT” vai se confirmar, ainda não é possível saber. Os resultados, porém, mostram dois movimentos distintos: enquanto o grupo ligado a Bolsonaro amplia sua presença por diferentes candidaturas, o PT enfrenta o desafio de preservar seu espaço político sem depender exclusivamente da liderança de Lula. 

O resultado dessa disputa terá impacto sobre a eleição de 2026 e sobre a composição das forças políticas nos próximos anos.


Yasmin Alencar  - Revista Oeste