A história começa a expor verdades incômodas sobre a pandemia
Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, em Washington, D.C. (29/07/2026) - Foto:
Reuters/USA TODAY Network
E
m março de 2020, quando a Revista Oeste publicou suas
primeiras reportagens, o mundo entrava numa das maiores
crises sanitárias da história contemporânea. Pouco se sabia
sobre o comportamento do novo coronavírus, sua letalidade, as
melhores formas de tratamento ou as consequências que a pandemia
teria para a economia, a educação e a vida social de bilhões de pessoas.
Diante de tantas dúvidas, seria natural que cientistas divergissem,
estudos chegassem a conclusões diferentes e autoridades públicas
revisassem recomendações. É assim que a ciência funciona. Hipóteses
são formuladas, confrontadas, corrigidas e, muitas vezes, abandonadas.
O problema começou quando a incerteza deixou de ser apresentada
como parte do método científico e foi substituída por uma narrativa de
infalibilidade. Questionar determinadas decisões deixou de ser tratado
como parte legítima do debate público e passou a ser considerado uma
ameaça à própria ciência.
Nenhuma figura simbolizou essa transformação de maneira tão evidente
quanto Anthony Fauci. Durante décadas, Fauci construiu sua carreira
como diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos
Estados Unidos. Na pandemia, ele ultrapassou a condição de burocrata
especializado para se transformar numa das figuras mais influentes do
planeta. Seus pronunciamentos passaram a orientar presidentes,
governadores, prefeitos, universidades, empresas, organismos
internacionais e veículos de comunicação. O que começava como uma
coletiva de imprensa em Washington rapidamente se transformava em
políticas públicas adotadas em dezenas de países.
Fauci tornou-se uma autoridade praticamente incontestável. A imprensa
contribuiu decisivamente para essa transformação. Em vez de exercer a
função de questionar o poder, grande parte dos veículos preferiu
apresentar Fauci como a personificação da própria ciência. Discordar
dele passou a significar, para milhões de pessoas, discordar do
conhecimento científico. Foi nesse ambiente que nasceu a Oeste.
Anthony Fauci em audiência do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos EUA, em Washington, D.C.,
(29/07/2026) - Foto: Nathan Howard/Reuters
Enquanto boa parte da imprensa brasileira repetia as narrativas das
grandes redações internacionais, Oeste insistia em fazer perguntas que
deveriam ter sido feitas desde o primeiro dia. O vírus poderia ter
escapado de um laboratório? Os lockdowns realmente apresentavam os
benefícios anunciados? O fechamento prolongado das escolas produziria
consequências irreversíveis para uma geração inteira? Havia conflitos de
interesse na condução das pesquisas? Era correto censurar médicos cientistas e jornalistas simplesmente por apresentarem interpretações
diferentes das autoridades sanitárias?
Levantar essas questões bastava para que qualquer pessoa fosse rotulada
como negacionista, conspiracionista ou inimiga da ciência. Seis anos
depois, a história começa a oferecer respostas incômodas. E a Oeste,
mais uma vez, demonstra que sua maior premissa nunca foi defender
uma narrativa, mas perseguir a verdade.
Foi essa convicção que nos
levou a fazer perguntas quando quase ninguém mais aceitava fazê-las, a
desconfiar do poder quando a maioria preferia reverenciá-lo e a lembrar
que nenhum cientista e nenhuma autoridade está acima do escrutínio
jornalístico. A verdade não pertence a governos, especialistas ou veículos
de comunicação, e sim aos fatos. E é aos fatos que o jornalismo deve
lealdade.
No último fim de semana, o senador americano Rand Paul tornou
públicas mais de mil páginas do diário pessoal de Anthony Fauci, escritas
entre dezembro de 2019 e dezembro de 2022. Os documentos passaram
a integrar oficialmente a investigação conduzida pelo Senado americano
e foram divulgados poucos dias antes de Fauci prestar depoimento
diante da Comissão de Segurança Interna.
O que deveria ter ocupado manchetes em praticamente todos os jornais
do mundo recebeu, no Brasil, um silêncio quase absoluto. E esse silêncio
talvez seja tão revelador quanto o conteúdo dos documentos.
Poucos dias antes de deixar a Casa Branca, Joe Biden concedeu a
Anthony Fauci um perdão presidencial preventivo. A medida chamou
atenção justamente por seu caráter incomum. Perdões costumam ser
concedidos depois de condenações ou, ao menos, quando há acusações
formais. No caso de Fauci, tratava-se de uma proteção antecipada para
eventuais crimes federais que viessem a ser investigados. Uma pergunta
passou a ser feita por milhões de americanos: se não havia nada a temer,
por que a necessidade de uma proteção tão ampla antes mesmo da
conclusão das investigações?
As anotações de Fauci mostram que, ainda em janeiro de 2020, ele
registrava que o mercado de Wuhan não parecia ser a origem da
pandemia, mas apenas um local que amplificava a transmissão do vírus.
Também documentam discussões internas sobre a possibilidade de uma
origem laboratorial da covid-19 — questionamento absolutamente
proibido durante e logo depois da pandemia.
Durante anos, essa hipótese
foi considerada uma teoria conspiratória incompatível com a ciência.
Redes sociais removeram conteúdos e derrubaram perfis, jornalistas
foram silenciados, pesquisadores foram desacreditados e milhões de
pessoas aprenderam que determinadas perguntas simplesmente não
poderiam ser feitas. Hoje sabemos que essas perguntas estavam sendo
feitas, desde o início, dentro do próprio círculo de Anthony Fauci.
Cópia do documento em que se registrou o perdão concedido pelo presidente Joe Biden a Anthony Fauci (29/07/2026) - Foto: Nathan
Howard/Reuters
Registra entrevistas concedidas, capas de revistas, participações na
televisão, elogios e homenagens, encontros com personalidades e a
repercussão de suas aparições públicas na pandemia. Chama atenção o
encantamento com a própria projeção pública num período em que
milhões de pessoas enfrentavam as consequências das decisões
controversas tomadas pelas autoridades.
Enquanto pequenos empresários fechavam definitivamente as portas de
seus negócios, crianças permaneciam meses longe das salas de aula,
idosos morriam isolados sem a presença da família e trabalhadores eram
obrigados a escolher entre seus empregos e procedimentos médicos
impostos por empregadores, Fauci era apresentado pela imprensa como
uma celebridade.
A histórica audiência no Senado Americano
Dias depois da divulgação dos diários, veio outro episódio simbólico e
igualmente ignorado pela imprensa no Brasil. Convocado para prestar
depoimento ao Senado americano, Fauci apresentou uma breve
declaração inicial. Em seguida, invocou a Quinta Emenda da Constituição
dos Estados Unidos 111 vezes. A Quinta Emenda garante o direito de não
produzir provas contra si mesmo. Fauci passou anos afirmando que não
tinha nada a esconder e cooperaria com qualquer investigação.
Quando
finalmente teve a oportunidade de responder às perguntas dos
representantes eleitos da população, recusou-se a responder
absolutamente a todas elas.
O senador Josh Hawley chegou a perguntar a Fauci qual era a cor de sua
gravata e qual era a cor do carpete à sua frente. A resposta foi a mesma
em todas as outras perguntas: “Com base na orientação de meus advogados,
respeitosamente me recuso a responder com fundamento nos direitos garantidos
pela Quinta Emenda da Constituição.”
Outros senadores questionaram Fauci
sobre as mudanças de orientação em relação às máscaras, sua influência
na adoção dos lockdowns, possíveis conflitos de interesse envolvendo
pesquisas financiadas com recursos federais, prêmios em dinheiro
recebidos durante a pandemia e sua participação nas discussões
relacionadas ao famoso artigo The Proximal Origin of SARS-CoV-2, utilizado durante anos como uma das principais referências para desacreditar a
hipótese da origem laboratorial. Nenhuma dessas perguntas recebeu
resposta.
O senador Ron Johnson questionou Fauci sobre a avaliação da eficácia de
medicamentos como a ivermectina e a hidroxicloroquina, e apresentou
centenas de páginas de estudos clínicos para sustentar que evidências
relevantes haviam sido ignoradas, descartadas e até reprimidas ao longo
da pandemia. Johnson também levantou questionamentos sobre a forma
como essas pesquisas foram analisadas e comunicadas ao público pelas
autoridades de saúde, como se fossem uma afronta às recomendações de
Fauci e uma ameaça à saúde. O médico também se recusou a responder a
essas perguntas.
O episódio torna ainda mais difícil sustentar a imagem construída
durante anos por parte da imprensa internacional. Afinal, Anthony Fauci
nunca foi apenas um cientista oferecendo opiniões técnicas. Ele ocupava
um cargo público, administrava bilhões de dólares em recursos federais,
influenciava decisões políticas de enorme impacto econômico e social e
exercia uma autoridade sem precedentes sobre o debate público.
O papel da verdadeira imprensa
A pandemia expôs como uma parcela significativa da imprensa
abandonou uma de suas funções mais importantes: desconfiar do poder.
Em vez de investigar, muitos veículos passaram a proteger determinadas
autoridades.
Em vez de estimular o debate, ajudaram a reduzir o espaço
para discordâncias. Em vez de reconhecer que a ciência avança
justamente pela contestação permanente de hipóteses, apresentaram
interpretações provisórias como verdades definitivas e ajudaram a
silenciar dissidentes políticos do sistema.
É justamente por isso que causa espanto o silêncio de boa parte da
imprensa brasileira diante dos acontecimentos das últimas semanas, que
deveriam ocupar espaço privilegiado em qualquer cobertura jornalística
minimamente comprometida com o interesse público. Ignorar esses
fatos não protege a ciência, a democracia e muito menos o jornalismo.
O papel de Anthony Fauci na pandemia continuará sendo debatido
durante décadas. Mas talvez seu maior legado não esteja nas decisões
que tomou ou deixou de tomar, e sim na maneira como sua trajetória
revelou a facilidade com que sociedades livres podem transformar
servidores públicos em autoridades imunes ao questionamento e como
parte da imprensa pode abandonar sua vocação de fiscalizar o poder
para se tornar sua principal defensora.
A Revista Oeste nasceu justamente quando essa transformação
começava.
Seis anos depois, muitos dos questionamentos que lhe
renderam ataques, censura e acusações infundadas deixaram de ser
tratados como heresia. Voltaram a ser o que sempre foram: perguntas
legítimas. Jornalismo puro.
A verdade pode demorar. Pode ser ridicularizada, censurada ou
simplesmente ignorada por algum tempo. Pode até parecer derrotada
diante da força de narrativas cuidadosamente construídas e amplificadas
por governos, instituições e parte da imprensa. Mas ela possui uma
característica que nenhuma narrativa consegue eliminar para sempre cedo ou tarde, volta a exigir que todos prestem contas. Quando esse
momento finalmente chega, não importa quantas manchetes tenham
sido escritas, quantas reputações tenham sido protegidas ou atacadas, ou
quantas perguntas tenham sido silenciadas.
Os fatos permanecem. E é
deles — sempre deles — que a história acaba se encarregando de fazer o
julgamento final.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste