sábado, 18 de abril de 2026

TCU vê farra de autoridades em jatinhos da FAB, mas não manda ressarcir despesas

 

Sede do TCU em Brasília. (Foto: Divulgação/Flickr TCU).


O Tribunal de Contas da União (TCU), que deveria ser a última trincheira de defesa do patrimônio público, escolheu mais uma vez “passar pano” para uso abusivo de jatos da Força Aérea Brasileira por autoridades dos Três Poderes. Foram mapeados 7.491 voos entre 2020 e 2024, ao custo de R$285 milhões. Em vez de mandar esses folgados ressarcirem o gasto, o TCU transferiu para o futuro a tarefa de coibir abusos, pedindo ao governo Lula (PT) um “plano” de “novas regras”. Como se o problema fosse apenas regulatório e não de quem dilapidou os cofres públicos.

Dever esquecido

Trocando em miúdos, o TCU flagra o “uber aéreo”, mas não faz o que lhe cabe: responsabilizar quem errou e recuperar o que foi desperdiçado.

Sem satisfações

A taxa média de ocupação dos voos foi de apenas 55% nesse período e 70% sem identificação adequada de passageiros, como manda a lei.

Jatinho ‘particular’

Tratando FAB como extensão de seu conforto privado, autoridades fizeram 111 voos solitários. Ou não queriam a companhia identificada.

TCU, um desperdício

O TCU estima que aos menos R$36 milhões poderiam ter sido poupados somente em sete meses de 2024. Mas não manda ressarcir os valores.

Diário do Poder

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Morre Oscar Schmidt, o 'Mão Santa' do basquete mundial

 Maior cestinha da história dos Jogos Olímpicos falece, aos 68 anos, em São Paulo


Astro de basquete mundial, Oscar disputou cinco Olimpíadas consecutivas entre 1980 e 1996 - Foto: Divulgação 


O esporte mundial perdeu nesta sexta-feira, 17, um de seus maiores ícones. Oscar Daniel Bezerra Schmidt morreu, aos 68 anos, em São Paulo, depois de ter sido internado às pressas por um mal-estar. O exjogador, que se recuperava de uma cirurgia recente, lutava contra as sequelas de um câncer no cérebro diagnosticado em 2011.

Nascido em Natal (RN), em 16 de fevereiro de 1958, Oscar era filho de militar e começou no futebol. A migração para o basquete ocorreu apenas aos 13 anos, depois de se mudar para Brasília. O talento precoce o levou ao Palmeiras, aos 16 anos, e, em 1977, ele já integrava a Seleção Brasileira principal, em que conquistou o título sul-americano. 


Carreira e recordes 

A trajetória de Oscar decolou internacionalmente em 1979, com o título mundial interclubes pelo Sírio. O desempenho chamou atenção do mercado europeu, levando o ala para a Itália, onde jogou por 11 temporadas e anotou quase 14 mil pontos. Na Espanha, sua técnica encantou a ponto de inspirar o livo 'Jugar como Oscar'. 

O “Mão Santa” encerrou a carreira com 49.737 pontos, marca que o manteve no topo do ranking mundial por décadas. Em 2024, o posto de maior cestinha da história do basquete (contando jogos oficiais e amistosos de luxo) passou a ser de LeBron James, que superou a barreira dos 50 mil pontos no ano passado. Oscar, no entanto, segue como o maior recordista isolado da história das Olimpíadas, com 1.093 pontos.

O momento mais emblemático de sua trajetória foi a recusa ao New Jersey Nets, em 1984. Oscar abriu mão da liga norte-americana, a NBA, para manter o status de amador, exigência da época para continuar defendendo a Seleção Brasileira. A escolha permitiu que ele liderasse o Brasil na histórica vitória sobre os Estados Unidos no Pan-Americano de 1987, em Indianápolis. 

Oscar disputou cinco Olimpíadas consecutivas de 1980 a 1996. Em Seul 1988, atingiu o ápice, ao marcar 338 pontos em uma única edição — incluindo o recorde de 55 pontos em uma só partida, contra a Espanha. Depois de sua aposentadoria, em 2003, ele se reinventou como palestrante motivacional, focando profissionais de alto rendimento.

O ídolo enfrentou o câncer com a mesma disciplina que mantinha nos treinos. Em 2022, chegou a anunciar que havia vencido a doença, mas sua saúde apresentava fragilidades recentes. O ex-atleta não pôde comparecer à sua homenagem no Hall da Fama do Comitê Olímpico Brasileiro na semana passada por ordens médicas.

“Estar aqui para receber essa homenagem é o último capítulo de uma carreira cheia de vitórias”, disse seu filho, Felipe Schmidt, ao aceitar o reconhecimento em nome do pai. Em 2013, Oscar foi indicado ao Naismith Memorial Basketball Hall of Fame, mesmo sem nunca jogar na NBA. Seu legado no basquete permanece vivo.

Médica denuncia compra de drogas na Fiocruz com cartão corporativo

 Fiocruz resolve investigar quem faz a denúncia, em processo disciplinar


Fundação Oswaldo Cruz - Foto: Peter Ilicciev / Fiocruz


A médica Isabel Braga publicou um vídeo nas redes sociais em que faz denúncias sobre supostas irregularidades envolvendo a Fundação Oswaldo Cruz. Na gravação, a médica afirma que haveria circulação de drogas dentro da instituição.

“Dentro da Fiocruz circula um traficante que vende drogas”, declarou.

Ela também levanta suspeitas sobre o uso de recursos públicos.

“Cartão corporativo da primatologia? Dizem que é usado para comprar cocaína”, diz.

Em outro momento, a médica menciona possíveis irregularidades envolvendo funcionários.

“Funcionários especializados […] usam no tráfico”, afirma.

Ainda no vídeo, questiona a atuação das autoridades.

“A galera está comprando cocaína no cartão corporativo. Cadê a polícia?”.

A autora também sugere que pode enfrentar consequências judiciais por suas declarações.

“Já vai ser o terceiro processo em um mês […] podem abrir 35”, diz.

Veja o vídeo na íntegra:


Diário do Poder entrou em contato com a Fiocruz sobre o caso.

A mesma repudiou as alegações, classificadas como 

“desinformação”, e informou que a médica já responde 

processo administrativo após denúncia falsa feita em 

fevereiro sobre suposta contaminação por urânio no 

Rio de Janeiro.


Autoridade Nacional de Segurança Nuclear também 

negou as afirmações à época.

'Sim, eu quero interferência americana na política brasileira', afirma Flávio Gordon

 Não para determinar o resultado da eleição, mas justamente para que essa decisão possa caber soberanamente ao povo brasileiro


A verdadeira soberania nacional depende de uma disputa livre de amarras institucionais para que o resultado reflita de forma real a vontade dos eleitores - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock


N o seio da direita brasileira, a seguinte fórmula verbal tem sido repetida exaustivamente — por vezes de maneira meramente protocolar e estratégica (se boa ou má estratégia, é outra discussão); por outras, expressando uma tacanhice sincera: “Não queremos interferência americana na política brasileira. Nós devemos cuidar dos nossos próprios problemas”. 

Essa retórica manifestou-se inclusive em episódios recentes, quando o governo americano denunciou a perseguição à direita nacional e adotou medidas concretas contra o regime luloalexandrino, como a aplicação da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes e a suspensão de vistos para integrantes da nomenklatura tupiniquim. Naquele contexto, vale recordar, uma bandeira dos EUA foi erguida na Avenida Paulista, em pleno 7 de setembro — gesto que simbolizava tanto a gratidão popular pela iniciativa americana quanto o desejo de aproximação entre os dois países, em contraste com a política externa abertamente antiamericana e pró-totalitária conduzida pelo Itamaraty lulopetista. Ainda assim, a orgulhosa direita tupiniquim torceu o nariz. 

O pastor Silas Malafaia, por exemplo, foi um dos mais vocais no repúdio à presença da bandeira americana, chegando a decretar — como um verdadeiro coronel de manifestação — a sua proibição em atos futuros. Tal qual o Cavaleiro Negro do Monty Python — o hilário personagem que, reduzido pela espada do adversário a um cotoco humano, ainda proclamava sua vitória iminente —, o soberbo pastor insistiu que resolver os problemas do país, ainda que estes assumam a forma de uma ditadura judicial, caberia única e exclusivamente aos brasileiros. 

A postura de Silas Malafaia ao proibir a bandeira americana em manifestações revela uma soberba que ignora o peso de enfrentar uma ditadura judicial de forma isolada - Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo 

Com a aproximação do período eleitoral, e influenciados por marqueteiros com escassa imaginação geopolítica, os candidatos da direita tendem a repetir esse mesmo discurso de soberania, curiosamente convergente com o da esquerda: “Não queremos interferência externa. Cuidemos nós mesmos dos nossos problemas”. Mas eu, que não sou político nem candidato, posso afirmar sem constrangimento: eu quero, sim, algum grau de interferência estrangeira — americana, em particular. E explico por quê.

Antes de tudo, convém lembrar que a ideia de “interferência externa” comporta múltiplos sentidos. O mais clássico refere-se à pressão diplomática e política internacional, que admite diferentes graus e modalidades. É evidente que defender esse tipo de interferência não implica advogar por ações militares — embora, no caso recente da Venezuela, seja difícil imaginar que vítimas do regime chavista tenham visto com maus olhos a derrubada de Nicolás Maduro sob o argumento formal de “respeito à soberania”. 

Afinal, não há soberania popular sob regimes de força, e uma população submetida a uma tirania institucionalizada dificilmente dispõe dos meios para resolver, sozinha, os seus próprios problemas. É precisamente por entender que o Brasil vive hoje sob um regime de força — e, depois das ameaças que os magistrados suspeitos de acobertar o crime organizado fizeram ontem aos parlamentares da CPI do Crime Organizado, acho que só um insensato ainda não o percebeu —, que considero desejável uma interferência diplomática americana em nosso processo eleitoral. Desejável para que não se repita desta vez o que ocorreu em 2022 — quando Jair Bolsonaro foi apeado do poder mediante um golpe de Estado judicial, numa eleição conduzida de maneira ilegítima por juízes parciais. 

Como já demonstrei em colunas passadas (como essa e essa outra), o golpe judicial contra Jair Bolsonaro recebeu apoio direto do governo americano de Joe Biden, uma interferência estrangeira não repudiada, mas, bem ao contrário, celebrada desavergonhadamente pelo establishment político-cultural de esquerda. Então, o mínimo que os golpeados no Brasil poderiam querer — para não serem novamente chamados de “manés” pelos malandros que lhes usurparam o direito de decidir — é que o novo governo americano se esforce para, pelo menos, desfazer as sujeiras perpetradas pelo deep state americano em prol da “eleição” do “Descondenado-em-chefe”, com isso restaurando condições mínimas de equilíbrio.


O apoio direto do governo de Joe Biden ao avanço judicial contra Jair Bolsonaro expõe a interferência estrangeira comemorada abertamente pela esquerda brasileira - Foto: Shutterstock

Sob essa perspectiva, uma eventual interferência diplomática americana não seria apenas conveniente, mas legítima, na medida em que os agentes institucionais responsáveis pelo golpe judicial de 2022 permanecem em suas posições de poder — nas mesmíssimas cadeiras que ocupavam há quatro anos. Os inquéritos ilegais que abriram para perseguir e censurar a direita continuam em curso. Sua conduta e objetivos — “derrotar o bolsonarismo”, “combater a extrema direita”, “editar a sociedade” etc. — seguem idênticos. E o fato de estarem acuados por suspeitas de envolvimento com o escândalo do Banco Master torna os extremistas políticos de toga ainda mais desesperados para manter no poder um chefe do Executivo que os blinda e os trata como “companheiros”.

Eis por que Alexandre de Moraes (hoje popularmente apelidado de “Careca do Master”) já começa a ensaiar um golpe contra a elegibilidade de Flávio Bolsonaro, o candidato que, tal como fizeram com o pai, os juristocratas pretendem aniquilar. No momento em que os principais institutos de pesquisa (inclusive o mais antibolsonarista dentre eles) já indicam uma vitória de Flávio contra o comedor de pacas no 2º turno, Moraes resolve abrir um inquérito contra o candidato do PL, sob o pretexto de que ele teria difamado o candidato petista. E qual seria a difamação? A mesma que foi censurada em 2022, numa clara manipulação do debate político e violação aos direitos do eleitor de ser informado: a afirmação verdadeira de que Lula é um aliado histórico de Nicolás Maduro e de que o ditador chavista é um narcotraficante. A resposta de Flávio foi certeira: 


A resposta de Flávio foi certeira: 

“O procedimento evoca práticas de censura e bloqueios de contas vistos no pleito de 2022, quando o Tribunal Superior Eleitoral, sob a mesma condução, impôs um flagrante desequilíbrio ao proibir termos como ‘descondenado’ para se referir ao petista, enquanto permitia ofensas sistemáticas contra o então presidente Jair Bolsonaro.”

Eis por que Alexandre de Moraes (hoje popularmente apelidado de “Careca do Master”) já começa a ensaiar um golpe contra a elegibilidade de Flávio Bolsonaro, o candidato que, tal como fizeram com o pai, os juristocratas pretendem aniquilar. 

No momento em que os principais institutos de pesquisa (inclusive o mais antibolsonarista dentre eles) já indicam uma vitória de Flávio contra


A abertura de um novo inquérito contra Flávio Bolsonaro repete a censura das últimas eleições e escancara a manobra do Judiciário para manipular o debate político - Foto: Lula Marques/Agência Brasi

Entende o leitor por que precisamos de interferência diplomática americana no nosso processo eleitoral? Precisamos dessa interferência não para determinar o resultado da eleição, mas justamente para que essa decisão possa caber soberanamente ao povo brasileiro, antes que mais uma vez “editada” por tiranetes de toga, em cujas bocas a palavra “democracia” sai na mesma frequência com que entram os goles de uísque pagos pelo amigo Vorcaro.

Flávio Gordon - Revista Oeste

'O primeiro delator', por Eugênio Esber

Quem é e o que tem a dizer Maurício Camisotti, que inaugura a esperada série de delações dos acusados de um desfalque bilionário nas aposentadorias e pensões


Maurício Camisotti e o edifício sede do INSS, Instituto Nacional do Seguro Social, em Brasília, DF - Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução/Shutterstock 


Tão estonteante é a sequência de escândalos no Brasil que alguns deles conseguem trafegar por baixo dos radares da atenção pública. É o caso da Farra do INSS, que surrupiou mais de R$ 6,3 bilhões de aposentados, pensionistas, idosos com necessidades especiais, pessoas com deficiência e outros brasileiros vulneráveis. Na semana passada, enquanto o Brasil saboreava detalhes picantes do broche, também chamado de “ValeSuicinha”, que Daniel Vorcaro ofereceu a alguns poderosos que foram prestigiar sua festa londrina em homenagem a Alexandre de Moraes, uma informação fundamental veio a público sem maior impacto no noticiário. 

Preso desde o dia 12 de setembro pela Polícia Federal, no curso da Operação Sem Desconto, o empresário Maurício Camisotti assinou com a Polícia Federal um acordo em que reconhece sua participação nos crimes de que é acusado e se compromete a apontar os demais implicados no esquema que, como revelou Oeste, enriqueceu dirigentes de sindicatos, lobistas e espertalhões que estão no poder ou orbitam em torno daqueles que têm acesso aos cofres da Previdência. No mesmo dia em que o ministro André Mendonça, relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou a prisão de Camisotti, em setembro, também foi preso o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Ambos estão, portanto, há sete meses na cadeia — Camisotti na superintendência da Polícia Federal em São Paulo, Careca na Papuda, em Brasília. 

Maurício Camisotti optou pela delação na expectativa de passar para o regime de prisão preventiva domiciliar, e sua decisão pode desarmar a resistência que até o momento Careca vem apresentando a contar o que sabe. Se esperar mais, terá menos poder de barganha com a Justiça. Afinal, pode ficar sem muito a acrescentar ao que a Polícia já tiver apurado com Camisotti e com as cerca de 30 pessoas sob investigação a partir do acordo de delação já firmado, e que neste momento passa pela homologação de André Mendonça e pela análise da Procuradoria-Geral da República, hoje sob a sonolenta chefia de Paulo Gonet. 


Paulo Gonet em sessão plenária do STF (09/04/2026) - Foto: Antonio Augusto/STF

Ambos são figuras centrais na sórdida teia de transações que desviou trocadinhos de aposentados e pensionistas, mês a mês, por anos a fio — com um súbito e brutal crescimento da roubalheira a partir de 2023, quando começa o terceiro mandato de Lula e se abre uma janela de oportunidade para sindicalistas com pouco escrúpulo e muita volúpia, após o desmame do imposto sindical abolido em 2017, na gestão Temer. 

De Antônio Carlos “Careca” Camilo Antunes, esperam-se confissões próprias de um lobista — o agente capaz de encontrar os caminhos, conectar as pessoas em diferentes instâncias e azeitar o fluxo de pagamentos e propinas. Seu trânsito nos corredores do INSS, do palácio, da esplanada dos ministérios, e suas reuniões em gabinetes de parlamentares e em entidades sindicais e associativas acenderão um rastilho de pólvora para o mundo político, caso decida abrir a boca. 


Empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS - Foto: Lula Marques/Agência Brasil

As viagens ao exterior que patrocinou a Lulinha, e que fez na companhia do filho do presidente, são petardos no colo de Lula no fragor de uma campanha para reeleição. O detonador está nas mensagens de celular trocadas entre Antunes e Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e da esposa. Nos diálogos, a Polícia encontrou indícios de mesadas de R$ 300 mil pagas pelo Careca ao “filho do rapaz”, suposto codinome de Lulinha. 

Bem mais discreto que Careca, e sobretudo sem o reluzente atributo físico que coroou Antunes como o mais popular personagem da Farra do INSS, Maurício Camisotti é um empresário que teve sucesso em seu setor, antes da eclosão do escândalo. Dentista, no início da década de 2010, ele fundou a Prodent, de serviços odontológicos. Em 2018, a Prodent já era a oitava maior operadora de planos de assistência odontológica do Brasil, com 400 mil clientes. Despertou o interesse da SulAmérica Seguros, que pagou a Camisotti R$ 145 milhões para adquirir 100% do capital. 

Com o caixa abastecido, Camisotti passou a buscar outras oportunidades e foi montando um colar de empresas, a maioria delas no mesmo setor — Prevident, Rede Mais Saúde, Brasil Dental Serviços Compartilhados, além de uma corretora de seguros, a Benfix. O conglomerado ao qual deu o nome de Total Health Group (THG) acabou tomando a forma de um polvo, com mais de 20 empresas — e esta configuração intrincada acabaria se prestando, segundo investigações da Polícia Federal, a transformar Maurício Camisotti no líder do núcleo financeiro e administrativo do esquema de desvio e lavagem de recursos oriundos do INSS. Trata-se, nas palavras do relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar, de uma “vasta e sofisticada estrutura criminosa” construída para praticar, através de descontos associativos não autorizados, uma fraude sistêmica contra aposentados e pensionistas.


Maurício Camisotti | Foto: Reprodução redes sociais

A parte que cabe a Camisotti nesse latifúndio pantanoso revelado pela Polícia Federal é a de ser um sócio oculto — por meio de seu grupo empresarial — de entidades associativas que sugavam mensalmente os trocados de beneficiários da Previdência a pretexto de prestarem serviços inexistentes, sem aprovação ou nem mesmo conhecimento de aposentados e pensionistas. Os recursos drenados por estas associações acabavam irrigando diferentes empresas do grupo THG, várias delas tendo como CEO o filho de Camisotti, Paulo, ou integradas por pessoas ligadas à família.

Entre essas entidades de nomes curiosos, incluem-se a Associação dos Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), a União Nacional dos Aposentados e Pensionistas (Unsbras) e o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap), todas com sede em São Paulo, assim como as empresas de Camisotti. A CPMI do INSS convocou pai e filho para esclarecimentos. 

Maurício, preso, não compareceu. Paulo Camisotti foi, mas se manteve calado na maior parte do tempo, amparado pelo direito a silêncio concedido pelo STF. No fim das contas, o relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar, não conseguiu extrair as explicações que buscava para a alta soma de repasses a empresas da família Camisotti, uma fortuna próxima de R$ 1 bilhão. Mas inclui a dupla entre os 215 indiciamentos que solicitou em seu relatório com mais de 4 mil páginas. Entre os crimes a eles imputados, figuram organização criminosa e lavagem de dinheiro. 


O empresário Paulo Otávio Camisotti, filho de Maurício Camisotti, na CPMI do INSS - Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Nesta quarta-feira, 15, Gaspar foi ao STF acompanhar o presidente da comissão, senador Carlos Viana, na cerimônia de entrega do relatório da CPMI aos ministros André Mendonça e Luiz Fux. A repórter Sarah Peres, de Oeste, perguntou a Gaspar sua expectativa com a assinatura do acordo de delação premiada de Camisotti, uma vez que, na CPMI, o empresário foi apontado como responsável por movimentar somas mais de três vezes superiores às do Careca do INSS. “Não tenho dúvida nenhuma de que o Camisotti é um dos personagens principais e é capaz de esclarecer essa sujeira do INSS e sua relação com as entranhas do mundo jurídico e político”, respondeu o relator. 

Na delação, além de devolver somas que ascendem a centenas de milhões de reais, Maurício Camisotti assumirá o compromisso de apontar outras peças-chave do caso em apuração. Há notícias de que já são mais de 30 pessoas colocadas no radar da Polícia Federal a partir de seu acordo de colaboração. Uma delas é a lobista Roberta Luchsinger, de quem a Polícia Federal espera detalhes sobre repasses que o Careca fez para Lulinha, utilizando-a como intermediária. O valor chegaria a R$ 1,5 milhão. 

O ex-ministro da Previdência Social de Lula, Carlos Lupi, exonerado dez dias depois que a Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Desconto, é outro alvo da delação de Camisotti a perturbar Lula e sua base de apoio. Do INSS, há dois ex-dirigentes presos desde novembro — o diretor André Fidelis e o procurador Virgílio Oliveira Filho, e as atenções no Palácio do Planalto recaem sobre o que podem dizer, caso assinem acordo de delação, ou o que Camisotti pode ter dito sobre a omissão e conivência do INSS com as fraudes consumadas.


Carlos Lupi, hoje ex-ministro da Previdência Social, em reunião da Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família da Câmara, em Brasília, DF (29/4/2025) - Foto: Lula Marques/Agência Brasil 


Camisotti é só o primeiro delator. Se sua colaboração for homologada pelo ministro André Mendonça, abrirá caminho para muitas outras — e os aposentados e pensionistas do Brasil terão as respostas que a CPMI esteve perto de conseguir até esbarrar na muralha do regime PTSTF. 


Eugênio Esber - Revista Oeste

'O ódio do PT a quem quer prosperar pelo trabalho', por Adalberto Piotto

 Endividada e sem perspectiva, a classe média está sendo empurrada à pobreza


Foto: Shutterstock


E m que lugar do mundo uma família de quatro pessoas com renda mensal de pouco mais de R$ 2,5 mil pode ser chamada de classe média? Pergunte a quem está dentro dessa casa se essas pessoas se sentem classe média. A resposta negativa será definitiva, sem que sejam necessárias demonstrações de estudos econômicos ou comparações acadêmicas. Economia é, ao contrário do que dizem, algo muito simples. Para famílias, trata-se de uma mistura bem equilibrada de sensação de conforto com estabilidade financeira, adicionada de boas doses de perspectiva de futuro. Quem conseguiria ter tudo isso com pouco mais de R$ 2,5 mil de renda familiar? Ninguém em nenhum lugar do país. Mesmo que o valor seja majorado para R$ 3,5 mil — como sugerem pesquisas mais recentes sobre a base para ser considerado classe média no Brasil — ou mesmo com o dobro, não dá. Mas acredite que essa é classificação brasileira para o patamar inicial de renda do que se chama de “nova classe média”, essa narrativa petista que ousou um dia convencer a todos de que estava promovendo ascensão social. Não estava. A maioria já voltou a ser pobre. 

A propaganda petista é uma afronta à inteligência do brasileiro que sabe, de um jeito ou de outro, que, quando se está todo mês com o orçamento apertado e vendo as dívidas aumentarem, é da escala da pobreza que se trata. E a prioridade é sempre a sobrevivência, jamais planos futuros. Olhando para o Brasil real, é o que a maioria absoluta das famílias nessa faixa de renda está fazendo: sobrevivendo. Entre os ricos, o objetivo está na outra ponta: aumento exponencial de capital. No meio, está a atual classe média brasileira, achatada pelas políticas dos governos de Lula. Sozinha, abandonada e diminuída em seu poder de compra, perdeu o direito de sonhar. 

Quando Marilena Chauí, uma das ideólogas do PT, disse que odiava a classe média, ninguém imaginou que seria com tamanho afinco. Na cabeça atormentada da marxista que odeia o modelo darwiniano de evolução pessoal com aumento progressivo da autonomia física e intelectual das pessoas, “a classe média é um atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. […] A classe média é uma abominação política, porque é fascista; é uma abominação ética, porque é violenta; e é uma abominação cognitiva, porque é ignorante.” No discurso, feito em 2013 num daqueles convescotes que só vão os petistas, Chauí foi ovacionada pela claque. Lula presente nunca se opôs ao discurso. Sorriu e aplaudiu. A tese seria repetida por ela numa entrevista à Folha de S.Paulo, em 2025.


Marilena Chauí, escritora brasileira e militante de esquerda - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Uma pergunta que Marilena Chauí, os abobados que a aplaudiram e o próprio Lula deveriam responder é que mal há em estudar, formar-se bem profissionalmente e trabalhar, subir na carreira, aumentar a renda e ganhar autonomia, inclusive política? A própria fez questão de explicar o motivo de seu ódio visceral. Ao dizer que se recusava a aceitar que trabalhadores, após anos de luta, tivessem se tornado “classe média”, reforçou que o ódio vinha de suas convicções teóricas e políticas da visão marxista clássica, na qual a “classe média seria o cimento ideológico” que sustenta o capitalismo. Imagina o quanto cada trabalhador que levanta todo dia cedo para trabalhar está preocupado com a bile da filósofa, uma funcionária de universidade pública, sempre com os salários em dia e de valores muito acima da média. 

Além do que, a USP, de onde Chauí é professora-emérita, é financiada pelo ICMS, arrecadado justamente pela circulação de mercadorias e serviços. Em São Paulo, as universidades estaduais recebem um percentual fixo da arrecadação desse imposto. Dizer a ela que quanto mais a economia funciona, mais o trabalhador ascende e melhora de vida consumindo mais, isso tudo aumenta o repasse às universidades, seria pedir que fizesse uma conta simples de proporcionalidade. Talvez isso seja muito complicado para quem fala em “cimento ideológico” e não sabe o que é encher uma laje, seja de um grande edifício comercial ou da própria casa do trabalhador na periferia, que quer viver e morar melhor.

Tentar explicar essa gororoba pretensamente intelectual a um casal que trabalha duro para permitir que os filhos possam estudar e se inserirem no competitivo e próspero mercado de trabalho moderno, guiado por inteligência artificial e inovação de alto nível, é ainda mais difícil, provavelmente impossível. Porque o mofo ideológico não pensa. As ideias mofadas da esquerda brasileira só crescem em ambientes úmidos, escuros e com pouca ventilação de novas ideias e digerem tudo o que está ao redor. Veja qualquer país que saiu de governos de esquerda. Sobra só terra arrasada. Quem quer progredir, quer a luz do sol, quer oportunidades e menos Estado e partidos políticos dizendo-lhe o que fazer. Na promulgação da Constituição de 1988, que o PT de Lula não assinou, o célebre e histórico deputado Ulysses Guimarães disse que tinha “ódio e nojo à ditadura”. Como os brasileiros de hoje. 

Os petistas, associados à ditadura do STF de hoje, preferem odiar a classe média.  

Mas voltemos aos números que assolam a classe média brasileira. O tripé sensação de conforto sustentável, estabilidade financeira e perspectiva depende de escola, trabalho e renda. O que os teóricos chamam de “mobilidade social via educação”, o motor da classe média em qualquer lugar civilizado do planeta, foi destruído pela escolha do atual governo, em todas as suas gestões, de priorizar o que ele chama de redistribuição de riqueza via transferência de renda. Seria um equívoco de política econômica, não fosse aparentemente intencional como política de partido. Numa das pontas, os governos Lula acabaram com a obrigatoriedade de manter as crianças nas escolas para que as famílias recebessem o Bolsa Família, desfigurando o programa e eliminando sua principal porta de saída. O que era para ser transformação, acabou em mero assistencialismo. 

De outro, os muito ricos, como o próprio Lula já fez questão de enfatizar, nunca ganharam tanto dinheiro como durante a sua gestão. Entre afagar os mais pobres com programas sociais que os mantêm na pobreza e reclamar da falta de carinho das elites financeiras com o petismo, Lula esfolou a classe média, que deveria ser aumentada. Mas não pela narrativa política e a precarização da média da renda para inserir mais famílias. Como R$ 3 mil de renda familiar não é nova classe média coisa nenhuma, deveria ter-se concentrado em ações que aumentassem a real classe média. Fez o contrário.




Foto: Reprodução/Poder360


Para ficarmos só na gestão atual, o governo mirou no aumento de impostos para bancar uma máquina pública anabolizada pelo inchaço de contratação de “companheiros” e em gastos sem eficácia. A ineficiência cobrou a fatura: as estatais voltaram a registrar prejuízos bilionários e o governo coleciona três anos de rombos fiscais. Até agora, porque 2026 ainda não terminou. A combinação explosiva de carga tributária elevada para sustentar a irresponsabilidade fiscal e incompetência administrativa, marcas do petismo, gerou inflação e aumento de juros com consequente encarecimento do crédito às famílias e empresas. 

Quem trabalha, produz e paga impostos que sustentam o governo — essa gente “odiosa” da classe média — foi sendo cada vez mais asfixiada. O ódio realmente não é um bom conselheiro, tampouco inteligente. Fato é que o aumento do IOF, lá em 2023, uma das primeiras medidas para tungar o cidadão, fez aumentar até o custo dos empréstimos no banco. Na sua sanha de aumentar impostos, queria taxar fundos que financiam a construção civil e o agro, dois dos setores que ou geram muito emprego ou garantem o crescimento da economia. Pressionado, o governo recuou, mas o que era para ser um imposto regulatório tornou-se arrecadatório. Assim como praticamente todo o conjunto de medidas anunciadas nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula. 

Em quase trinta vezes, novos impostos foram criados ou se elevaram alíquotas já existentes. Resultado: carga tributária nas alturas e recorde de 32,3% do PIB. Quando isso é somado à insegurança jurídica do consórcio de Lula com o STF e à volta dos escândalos políticos e de corrupção, como o roubo dos aposentados e o caso do Banco Master, com digitais petistas visíveis que colocam o governo no modo desespero para se salvar — mesmo que exploda o país — o brasileiro médio, mais pobre ou que investe, tira o pé para se proteger do déficit fiscal, cognitivo e de moralidade. E fica esperando a hora de meter o pé neste governo e recomeçar uma vida nova após a eleição de outubro. 

O modelo de achatar a classe média real é insensato porque beira a estupidez. Vai contra tudo o que deu certo no mundo. Os dois modelos mais sofisticados de melhora de qualidade de vida de bem-estar social vêm da Europa ou dos Estados Unidos. São diferentes, mas têm conseguido produzir classe média, e sustentável, na maioria da população. Na Europa, decidiu-se por uma economia regulada e com carga tributária elevada que faz do Estado o provedor de serviços públicos de excelência, como educação, saúde e transporte, sem avançar sobre garantias e direitos individuais, garantindo liberdade e autonomia de escolha do cidadão.

No capitalismo mais direto dos americanos, o modelo privilegia a redução do Estado na vida pública, liberdade econômica para empreender e um ambiente de negócios que oferta crédito barato e acessível que impulsiona a economia. Em ambos os modelos, o welfare state (“Estado de bem-estar social”) é muito superior à média mundial. Cada modelo foi levado a sério e com baixo nível de corrupção. O resultado está na qualidade de vida das pessoas e na imigração crescente de todos os lugares do mundo para a Europa e os EUA. O instinto de sobrevivência da espécie não fez ninguém se lançar ao mar rumo a Cuba ou tentar pular o muro para a Alemanha Oriental. Nem ir hoje à Rússia, à Coreia do Norte ou aos países africanos empobrecidos por ditaduras de modelo marxista. O movimento é o oposto. 

No Brasil, historicamente tentamos ter o melhor dos dois modelos. Não conseguimos nem um nem outro em sua plenitude. Um lampejo do híbrido nacional tropicalizado, que começava a se mostrar uma terceira via viável, foi experimentado no governo de Jair Bolsonaro. Sob a lógica econômica do ministro Paulo Guedes, houve redução da máquina pública e do seu custo, mas com poder público presente, como na ajuda a empresas e pessoas durante a pandemia. A promoção da liberdade econômica e a garantia da liberdade de expressão se juntaram para criar um ambiente favorável aos negócios e à histórica prosperidade do capitalismo ocidental. Sem abandonar a assistência social, criou oportunidades e abriu o mercado. O Brasil cresceu 2,9% em 2022, apesar da pandemia e da guerra na Ucrânia, sendo exemplo de recuperação econômica no mundo. 

Com a volta de Lula, em 2023, tudo se perdeu. Estavam de volta a concentração estatal, a ineficiência governamental, o assistencialismo sem porta de saída e um governo caro que gasta mais do que arrecada. O retrocesso econômico e institucional foi brutal. O consórcio de poder com o Supremo Tribunal Federal, de quem Lula admite não poder prescindir para conseguir governar, é uma afronta à Constituição e à separação dos poderes. A mando de ministros do STF e com os presidentes do Congresso no cabresto de ameaças do judiciário ou comprados com emendas e cargos, Lula 3 afasta definitivamente o Brasil de qualquer saída institucionalmente aceita.

 Por fim, na propaganda oficial, o governo dirá que a classe média aumentou (61% da população), que a geração de emprego cresceu com a menor taxa de desemprego de anos, que mais jovens se formaram na universidade, que mais pessoas estão assistidas por programas sociais e que o país está crescendo.


Dias Toffoli, Davi Alcolumbre, Lula, Hugo Motta e Alexandre de Moraes - Foto: Montagem Revista Oeste/Ricardo Stuckert/Fotos Públicas/STF/Agência Brasil 

Em termos práticos e realistas, a história é bem diferente. Quase dois terços da população serem chamados de classe média com renda de R$ 3 mil mensais não fecha a conta. O endividamento familiar batendo recordes é prova inconteste disso. Oito em cada dez famílias estão com dívidas, segundo a Confederação Nacional do Comércio (leia reportagem nesta edição). Destas, 30% confessaram estar inadimplentes com comprometimento da renda acima do equilíbrio entre renda e despesa.

Na parte de baixo, uma multidão é mantida sem expectativa de sair de lá. Mais de 18 milhões de famílias ainda dependem do Bolsa Família, o principal programa social do governo, o que representa em torno de 50 milhões de pessoas que dependem de um cheque do governo não para viver e prosperar, mas apenas para sobreviver. Formação e crescimento consistente de classe média não combinam com aumento de distribuição de benefícios sociais. No cenário econômico, o nome disso é manutenção da pobreza. Politicamente, é cabresto eleitoral por dependência direta do governo de plantão. No Brasil, a esquerda do PT. É um nó. Porque, de outro lado, empresas reclamam de falta de mão de obra formal porque beneficiários não querem perder o benefício do governo e se negam a ter a carteira assinada. Não se qualificam, ficam obsoletos e a informalidade cresce. 

As escolas não entregam alunos preparados, entregam formados sem preparo para o mercado. Neste caso, maior nível de escolarização não significa nada de produtivo. A economia patina, a renda não cresce e a produtividade brasileira empaca em US$ 21 por hora trabalhada. Nos Estados Unidos, é de quase US$ 81. No Japão, US$ 52. Mesmo em comparação com países vizinhos, nossa produtividade é menor. Uruguai, US$ 38; Chile e Argentina registram US$ 34 por hora trabalhada. A matemática não tem cor nenhuma, só expõe a realidade. Nua e crua. 

A verdade é que não existe classe média sem boa educação. Assim como não existe aumento da produtividade e renda sem uma classe média bem formada. E sem classe média, só há os extremos da pobreza e dos muitos ricos. Os dois grupos com quem Lula e o PT parecem gostar de gastar o dinheiro que a classe média gera, a que eles odeiam e que corre o sério risco de desaparecer. Não existe futuro em um país sem classe média. 



Sala de aula vazia de Escola Estadual na cidade de São Paulo - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil 


Adalberto Piotto - Revista Oeste

Augusto Nunes e 'A suprema cegueira'

 A tropa do STF ainda enxerga na toga um manto de imperador


Os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes - Foto: Gustavo Moreno/STF 


E ntre os primeiros da fila de clássicos da internet está o vídeo em que uma pane na garganta interrompe a discurseira de Dilma Rousseff. Ressuscitada a voz, a explicação em dilmês avisou que certas avarias na cabeça não têm conserto. “Desculpe, gente”, recomeçou com cara de quem não sabia direito onde havia parado. “Engasguei comigo mesma.” No meio de um dos palavrórios desta semana, Gilmar Mendes foi calado por uma sequência de engasgos de bom tamanho depois de um gole de água. A trinca de soluços pode ter sido um truque da bocarra para descansar alguns segundos da missão que lhe cabe quando o decano do Supremo está com a palavra: despejar outra enxurrada de bravatas, bazófias e besteiras. 

Caso tivesse ocorrido no outono de 2022, quando a insolência beligerante do STF alcançou altitudes assustadoras, a ofensiva desta semana apenas confirmaria que o país do Carnaval fora o primeiro do mundo a engolir sem engasgos a ditadura do Judiciário. Passados quatro anos, o atrevido ataque ao Senado, à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, às leis e à verdade só serviu para provar que o Brasil decente está farto de gente que enxerga na toga um manto de imperador. Segundo todos os institutos de pesquisa, mais de 60% dos brasileiros não confiam no Supremo Tribunal Federal. Boa parte da nação nem sabe que essa corte existe. Outros tantos ainda ignoram o que seus integrantes fazem desde o início da década. 

Afundados até o pescoço nas bandalheiras do caso Master, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli fazem de conta que nem notaram os severos rasgos nas togas. Também fingindo ignorar os panos pretos em frangalhos, Gilmar reapareceu no palco do Egrégio Plenário para resgatar a dupla do pântano e mostrar quem manda no Brasil. Avisou que ordenara a Paulo Gonet, procurador-geral da República, graças ao decano amigo, que investigasse o senador Alessandro Vieira por “possível abuso de autoridade”. Relator a CPI do Crime Organizado, Vieira propôs o indiciamento de três ministros — Gilmar, Toffoli e Moraes — e do próprio Gonet. “É abuso de poder”, decidiu o decano. Imediatamente, o procurador saiu à caça de algum pretexto para tornar inelegível o senador candidato à reeleição. 


O relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE) concede entrevista, ao término da leitura do relatório final da CPI do Crime Organizado (14/04/2026) - Foto: Carlos Moura/Agência Senado

A execução da segunda ideia de jerico consumada nesta semana mobilizou a turma toda. A chefia da Polícia Federal, municiada pelo procurador Gonet com um parecer favorável, pediu licença ao ministro Moraes para apurar a suspeita de que, em janeiro, o senador Flávio Bolsonaro cometeu um crime de calúnia contra o presidente Lula. Segundo a PF, o instrumento do crime foi a conta de Flávio na rede social X. O texto, ilustrado por imagens que documentam a amizade que sempre uniu Lula e o ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, inspirou-se na iminente delação de Maduro, hoje preso nos EUA. Dizia o seguinte:

“Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo, tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas…” 

Moraes tinha a decisão na ponta da língua: “Trata-se de publicação realizada em ambiente virtual, acessível a milhares de pessoas, por meio da qual se imputa fatos criminosos ao Presidente da República”. Em seguida, o Primeiro Carcereiro determinou “o envio dos autos à PF, para que sejam adotadas as providências cabíveis num prazo de 60 dias”. O tempo concedido sugere que entrou em férias o Moraes que media o prazo em horas até para a leitura de um processo de 20 mil linhas. “Essa medida é juridicamente frágil”, afirmou o candidato à Presidência. “A abertura deste inquérito configura uma clara tentativa de cercear a liberdade de expressão e o livre exercício do mandato parlamentar.”


O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em pronunciamento, à bancada, no Plenário do Senado Federal (15/04/2026) | Foto: Carlos Moura/Agência Senado 


A réplica de Flávio reitera que está no fim a epidemia de medo disseminada nos últimos sete anos pelo recordista mundial em agressões à segurança jurídica. A erradicação do vírus foi acelerada pela descoberta de que a mulher de Moraes recebeu R$ 80 milhões de Daniel Vorcaro para estreitar os laços de amizade entre o marido poderoso e o dono do Master. A velocidade aumentou com a devassa do resort Tayayá, esconderijo de Dias Toffoli, abrigo de um cassino clandestino e pivô de maracutaias que garantiram ao ministro uma vida de ricaço. E será definitivamente erradicada quando o Brasil for confrontado com todos os assombros colhidos por investigações da Polícia Federal conduzidas pelo ministro André Mendonça.

Gilmar Mendes tem feito o possível para retardar, impedir ou anular o que virá com o avanço da varredura nas catacumbas. Com interpretações de chicaneiro, vem tentando mudar as normas que regulam delações premiadas, comissões parlamentares de inquérito e qualquer outra coisa que possa prejudicar a vida mansa dos togados. Num falatório especialmente bizarro, declarou-se pronto para sair no braço com qualquer um. “Eu, como sabem, adoro ser desafiado”, avisou. “No meu Mato Grosso, as pessoas dizem: ‘não me convide para dançar, porque eu posso aceitar’. Adoro ser desafiado. Me divirto com isso. É esse o quadro. Não gostaria de ficar lembrando coisas assim. Mas me chamaram pra dançar.” 

Até agora, Gilmar só brigou por microfone. Os ex-ministros Luís Roberto Barroso e Joaquim Barbosa o alvejaram com pesadas acusações. O agora decano não se ergueu para dançar. Já ouviu incontáveis desafios berrados por brasileiros que o reconhecem nas ruas de Lisboa. Não topou nenhum. Coragem física não se aprende. É algo que se tem (ou não) assim que terminam os trabalhos de parto. Sim, ofender a inteligência de milhões de brasileiros, como o ministro vive fazendo, parece coisa corajosa. Mas essa é a espécie de valentia que ajuda a identificar um covarde vocacional.



Gilmar Mendes em sessão da Segunda Turma do STF (14/04/2026) - Foto: Luiz Silveira/STF 


Augusto Nunes - Revista Oeste