O ator, que lançou um curso sobre masculinidade, foi convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com professores ideólogos
Juliano Cazarré - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução Instagram
No texto 'A Crise na Educação' (1957), a filósofa Hannah Arendt
diz que a base do totalitarismo é uma concepção pedagógica
da política. Em suas palavras:
“A educação não pode desempenhar nenhum papel na
política porque na política se lida sempre com pessoas já educadas. Aqueles
que se propõem a educar adultos, o que realmente pretendem é agir como
seus guardiões e afastá-los da atividade política. Como não é possível educar
adultos, a palavra ‘educação’ tem uma ressonância perversa em política — há
uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem
uso da força.”
Pois foi exatamente um ambiente de pedagogia política que a
GloboNews armou para Juliano Cazarré no último dia 12. Cazarré, que
nas últimas semanas ganhou visibilidade ao anunciar um curso e um
congresso sobre masculinidade voltados a homens católicos, foi
convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com
professores ideólogos de extrema esquerda.
A matéria do dia,
formulada pela apresentadora com a solenidade de quem proclama
verdades autoevidentes, era esta: existe uma “epidemia de violência
contra as mulheres”, e o ator, ao falar em masculinidade sem pedir
desculpas por isso, deveria se sentir um cúmplice. Os debatedores
escalados para instruir o processo eram uma psicanalista feminista e
um “consultor sobre equidade de gênero e raça” — o tipo de profissão
parida em faculdades de ciências humanas cujos objetos de estudo
inexistem fora das próprias fórmulas ideológicas que os criaram.
Cazarré anunciou o evento “O Farol e a Forja”, um retiro de três dias voltado exclusivamente para homens - Foto: Reprodução/Redes
Sociais
Felizmente, Cazarré recusou sujeitar-se à empreitada. Gentilmente,
mas com firmeza. Foi o bastante para revelar aquilo que a intelligentsia
progressista insiste em chamar de “debate”: um monólogo
interrompido, de tempos em tempos, pela presença inconveniente de
alguém que discorda — e que por isso deve dar a mão à palmatória
“progressista”.
“Os homens matam as mulheres”
A cena que mais merece atenção no tal “debate” não foi a recusa de
Cazarré em deixar-se educar por ideólogos munidos de suas
ferramentas de distorção do real. Foi a fala da psicanalista feminista.
“Os homens”, disse ela, “matam as mulheres”. Não alguns homens.
Não uma fração criminosa e patológica.
Os homens — o sexo, a
categoria, o conjunto. Como se o cromossomo Y fosse, por
determinação biológica ou cultural, uma sentença de morte para as
pessoas do entorno.
Se alguém, naquele mesmo estúdio, tivesse afirmado que “os negros
roubam” ou que “os nordestinos são violentos”, o programa teria sido interrompido, as câmeras teriam sido apagadas, e o responsável pela
fala estaria em vias de responder a processo.
A generalização coletiva
infamante — atribuir a todo um grupo o comportamento desviante de
uma minoria — é reconhecida, pela boa filosofia e pelo bom senso,
como o mecanismo primordial do preconceito. Mas há, no cardápio
progressista, um grupo que ainda pode ser difamado em bloco, sem
custo social, sem processo, sem a menor fricção: os homens. E a
psicanalista o fez, sem corar, diante das câmeras. Não satisfeita,
acrescentou que os homens são uma “ameaça perene” às mulheres.
Cromossomos X e Y - Foto: Shutterstock
Mas façamos aqui umas contas de padaria que a “especialista” não
quis fazer. O Brasil conta com aproximadamente 855.714 homens
sentenciados ou presos provisoriamente — por qualquer crime, do
furto ao homicídio. A população masculina total é de cerca de 99,3
milhões. A divisão elementar resulta em 0,86%. Ou seja, menos de um
homem em cada cem tem passagem pelo sistema penal, por qualquer
delito.
Imaginemos, por generosidade intelectual ao argumento contrário,
que a subnotificação é enorme, que boa parte dos crimes não resulta em processos criminais e que muitos autores jamais são presos.
Multipliquemos então esse 0,86% por dez — uma inflação
astronômica, sem paralelo em qualquer estimativa séria. Chegamos,
pois, a 8,6%. Arredondando: 9%. Ou seja, mesmo na hipótese mais
catastrofista, teríamos que concluir que 91% dos homens brasileiros não
cometem crime algum — muito menos crime que resulte na morte de
alguém.
Noventa e um por cento! Temos uma supermaioria que trabalha, cria
filhos, paga impostos, cuida de pais idosos, entra em prédios em
chamas, conserta a rede elétrica depois de tempestades, desce a
minas, limpa o esgoto que a cidade produz. Homens que protegem e
servem — mulheres e homens, indiscriminadamente — muitas vezes
ao custo da própria vida. Essa maioria, a psicanalista varreu para
baixo do tapete da narrativa, que só tem espaço para os 9%. E mesmo
esses, note-se, raramente chegam perto de um crime de morte.
Bombeiros homens - Foto: Shutterstock
A psicanalista, que professa conhecer os meandros da psique humana,
comete aqui um erro que qualquer epistemólogo de primeiro ano
saberia nomear: toma a exceção pela regra, o desvio pelo universal, o patológico pelo normal. É como se um oncologista, depois de tratar
tumores a vida inteira, concluísse que o corpo humano é, por
natureza, uma fábrica de câncer. O diagnóstico não segue da
evidência. Segue da agenda. Mas, no centro de reeducação ideológica
da GloboNews, uma militante com uma fala tão extremista como “os
homens são uma ameaça perene às mulheres” não é tida por
extremista, nem radical, nem adepta de um discurso de ódio aos
homens. Ao contrário, ela foi escalada como um dos profissionais
responsáveis por “educar” o “extremista” Juliano Cazarré.
A “epidemia” que não existe
O programa foi apresentado à audiência como um debate sobre o
papel dos homens “num contexto de epidemia de violência contra as
mulheres”. A escolha da palavra “epidemia” é politicamente calculada:
epidemias pedem estado de emergência, poderes excepcionais e a
suspensão do debate racional. Quem questiona medidas sanitárias no
auge de uma pandemia? Quem questiona a narrativa da epidemia
feminicida?
Examinemos os dados que a narrativa da epidemia sistematicamente
deforma. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria
com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 45.747
homicídios no Brasil em 2023. Desde 2018, quando houve uma
redução na letalidade, a média tem se mantido mais ou menos essa –
entre 40 e 50 mil homicídios por ano. Aproximadamente 20
homicídios por cem mil habitantes. Apesar da redução dos últimos
anos, trata-se de um número muitíssimo elevado, que coloca o país
como um dos mais violentos do mundo.
Diante desse cenário, há realmente um fenômeno particularmente
alarmante de assassinatos de mulheres? De acordo com aqueles
mesmos institutos de pesquisa, os homens representam cerca de 90%
das vítimas de homicídio. O argumento feminista padrão é que, além
da criminalidade violenta em geral, as mulheres são vítimas de um
crime específico, motivado exclusivamente pelo fato de serem
mulheres. Esse tipo criminal específico ganhou o neologismo
feminicídio — o termo que serve de argumento simbólico da espécie de ativismo misândrico que se viu no centro de reeducação da
GloboNews.
Em 2024, segundo os dados, foram registrados 1.492 feminicídios:
uma taxa de 1,4 por 100 mil mulheres. É claro que essas mortes
merecem toda a atenção do Estado e da sociedade — mas elas não
configuram, em nenhuma leitura honesta dos dados, uma epidemia.
Para efeito de comparação: no mesmo ano, os homicídios dolosos
totais no Brasil atingiram 35.565 vítimas, das quais mais de 32 mil
eram homens. O grito de horror da mídia e dos “especialistas” é
seletivo e bem calibrado.
Há ainda um detalhe metodológico que raramente aparece nos
debates televisivos: parte do crescimento nos registros de feminicídio
se deve a mudanças na tipificação legal, não necessariamente a um
aumento real dos crimes.
O percentual de homicídios de mulheres
classificados como feminicídio passou de 9,4% em 2015 para 40,3%
em 2024 — crescimento explicado, em grande parte, pelo
aprimoramento institucional na identificação e classificação dos
casos, conforme reconhecem os próprios pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quando o instrumento de medição
muda, o número medido muda — isso não significa necessariamente
que o fenômeno cresceu.
O nome e a coisa: sobre a ambiguidade conveniente do termo
“feminicídio”
Introduzido no Código Penal brasileiro pela Lei 13.104/2015, o tipo
penal feminicídio abrange duas situações distintas: crimes em contexto
de violência doméstica e familiar, e crimes motivados por ódio ou
discriminação à condição de mulher. São dois eixos muito diferentes —
um contextual, outro intencional — frequentemente colapsados num
único conceito como se fossem a mesma coisa.
Na prática, a esmagadora maioria dos casos enquadrados como
feminicídio ocorre no primeiro eixo: o doméstico.
O que nos dizem os
dados? Que 80% dos casos são cometidos por companheiros ou excompanheiros; que 64% ocorrem dentro de casa; que os gatilhos
imediatos são ciúme, separação, álcool, ressentimento, impulsividade
criminosa. O assassino não mata “a mulher” como categoria abstrata.
Mata aquela mulher, naquele relacionamento específico, numa
explosão de desordem interior que diz mais sobre seu caráter e suas
patologias do que sobre qualquer projeto ideológico de dominação
masculina.
Foto: Shutterstock
Por óbvio, isso não diminui a gravidade do crime. Diminui, entretanto,
a legitimidade da explicação totalizante que o ativismo de gênero
fabrica em cima dele. Quando se substitui a pergunta “por que este
homem matou?” pela pergunta “em que sistema simbólico de
opressão este crime se inscreve?”, a resposta já vem embutida na
pergunta. A teoria fecha-se sobre si mesma, impermeável a qualquer
evidência contrária. Isso não é ciência; é ideologia com verniz
acadêmico.
Cazarré até que tentou levantar esse questionamento sobre a
imprecisão do termo feminicídio, e sobre a necessidade de algum
registro material de ódio generalizado às mulheres para se
caracterizar um homicídio feminino como feminicídio. Mas não teve
tempo de desenvolver o raciocínio, tendo sido interrompido com
jargões militantes do tipo “controle sobre os corpos femininos” e etc.
Quando tentava aludir ao seu exemplo próprio de conduta masculina,
como contraponto à acusação permanente (implícita ou nem tanto) de
que conteúdos como o do seu curso levam ao feminicídio, o ator era
respondido com frases como “não podemos nos restringir ao seu caso pois precisamos olhar para as masculinidades, no plural”. Ou seja,
toda vez que o convidado tentava puxar a conversa para a realidade
concreta e para homens de carne e osso, os ideólogos do programa
tratavam de reconduzi-la ao plano das abstrações e do idioma
hiperideologizado da esquerda identitária.
Acrescente-se ao contexto ideológico da invenção do “feminicídio”
uma assimetria classificatória reveladora: não existe categoria
equivalente, com a mesma força simbólica e atenção política, para
homens mortos por parceiras. Não porque esses casos sejam
inexistentes — existem —, mas porque não se encaixam no modelo
interpretativo dominante. A lente ilumina intensamente um lado do
fenômeno e deixa o outro na penumbra.
O resultado é uma percepção
pública sistematicamente distorcida, fabricada não pela realidade,
mas pelo recorte ideológico de quem decide o que merece ser visto.
“Nem todo homem mata, mas é sempre um homem” — como disse a
psicanalista feminista, esquecendo-se que não, nem sempre é homem
o autor de um homicídio. No mundo real, fora do universo mental da
militância, mulheres também cometem violência doméstica — em
frequência comparável à dos homens, nos casos de violência não letal,
conforme demonstrado por décadas de pesquisa acadêmica,
sintetizadas pelo sociólogo Murray Straus, da Universidade de New
Hampshire, e analisadas pelo filósofo David Benatar em The Second
Sexism: Discrimination Against Men and Boys — e, embora
estatisticamente em menor número, também matam seus parceiros
no contexto de crimes passionais.
Livro The Second Sexism de David Benatar - Foto: Divulgação
A masculinidade que “nunca trouxe nada de bom”
A reeducadora de Cazarré sentenciou, sem titubear: o modelo de
masculinidade no qual o homem é provedor e a mulher é cuidadora
“não funciona”. “Ele tem mais de cem anos”, disse ela, “e não deu
certo”.
E, com uma autocomiseração que seria cômica se não fosse
televisionada em horário nobre: “Nós estamos morrendo por falta de
os homens ouvirem as nossas críticas.”
A psicanalista valeu-se ainda da técnica da denúncia contra o
manterrupting para falar sem ser contraditada. A afirmação merece ser respondida com a seriedade que lhe cabe — que é pouca, mas não
nenhuma.
O modelo criticado — o homem que trabalha, protege, provê — não tem
“mais de cem anos”. Ele é tão antigo quanto a organização humana em
famílias, anterior à escrita, à roda e a qualquer “consultor de equidade
de gênero”.
Foi esse modelo, com todas as suas tensões, que ergueu
civilizações, descobriu continentes, desenvolveu vacinas, atendeu
feridos em campos de batalha, construiu o encanamento que leva água
até a casa da psicanalista, a rede elétrica que alimenta o estúdio da
GloboNews e o hospital onde nasceram seus filhos.
Dizer que ele “não
deu certo” não é uma análise histórica. É uma amnésia voluntária a
serviço de uma tese.
E aqui o programa revelou sua maior omissão. Em nenhum momento
a psicanalista mencionou — nem de passagem, nem por acidente — a
gigantesca proporção masculina em profissões de risco e sacrifício. Os
bombeiros que entram em edifícios em chamas são, de modo
esmagador, homens. Os policiais que patrulham bairros violentos de
madrugada são, na sua imensa maioria, homens.
Os que limpam o
esgoto, consertam a rede elétrica em dias de tempestade, trabalham
nas minas, constroem as estradas — homens, homens, homens. Esses
homens protegem e servem mulheres e homens
indiscriminadamente, todos os dias, com frequência ao custo da
própria saúde e da própria vida. Seriam eles também, como sugere a
psicanalista feminista, uma “ameaça permanente” às mulheres?
Membros da Guarda Municipal participam de um desfile em comemoração à independência do Brasil na cidade de Salvador, Bahia
(07/09/2014) - Foto: Shutterstock
No best-seller The Myth of Male Power, Warren Farrell observou, com
sua ironia precisa, que a mídia produz especiais perguntando “o
homem da casa ao lado molesta meninas?” — mas jamais produz
especiais intitulados “o homem da casa ao lado salva meninas?”,
embora os bombeiros que resgatam crianças sejam, de forma
esmagadora, homens. A narrativa seleciona. E o que ela seleciona diz
mais sobre sua agenda do que sobre a realidade.
Cazarré saiu do programa de pé. Recusou a contrição, não assinou a
confissão, não pediu perdão por ser quem é. Ao se recusar a aceitar as
premissas do julgamento, o ator fez o que qualquer pessoa
intelectualmente honesta deveria fazer diante de um tribunal
disfarçado de debate: pediu as evidências. E as evidências, como
vimos, não sustentam o veredito.
O feminismo contemporâneo, em sua versão mais militante,
transformou uma causa legítima — o combate à violência real contra
mulheres reais — num dispositivo retórico a serviço de uma agenda
política que tem muito mais a ver com a conquista de poder institucional e simbólico do que com a proteção de qualquer vítima
concreta.
Reconhecer isso não é negar a gravidade da violência
doméstica. Trata-se apenas de recusar que uma narrativa — por mais
eloquente, por mais amplificada pela grande mídia, por mais repetida
em estúdios com iluminação profissional — substitua o esforço mais
difícil e mais honesto de compreender a realidade que pretende
nomear.
Mas a realidade, para a intelligentsia progressista, sempre foi um
detalhe incômodo. E a GloboNews tem bons microfones, boas câmeras
e luz boa o suficiente para não precisar dela.
'Cazarré no campo de reeducação da GloboNews', por Flávio Gordon