sexta-feira, 18 de outubro de 2019

McDonald's inaugura milésima loja brasileira em casarão na avenida Paulista

O McDonald's inaugurou nesta sexta (18) sua milésima loja brasileira em um endereço incomum: o casarão na avenida Paulista, na altura do número 1.811, que, entre outros negócios, já sediou agências do BankBoston e Itaú. É a nona loja do McDonald's na avenida.
Fachada do Méqui 1000, a milésima loja do McDonald's no Brasil, em um casarão dos anos 1940 na avenida Paulista
Fachada do Méqui 1000, a milésima loja do McDonald's no Brasil, em um casarão dos anos 1940 na avenida Paulista - Divulgação
Chamado de Méqui 1000, o restaurante mescla inovações tecnológicas com a arquitetura clássica do local, dos anos 1940. Próximo da escadaria de mármore, estão totens de autoatendimento e menus digitais. A loja também tem uma esteira transparente que leva os lanches da cozinha até o estande do drive-thru —quem estiver na fila, poderá assistir ao seu pedido chegando.
O espaço também tem um lustre em formato de Big Mac gigante e um terraço com vista para a Paulista.

A unidade terá, por tempo limitado, um cardápio exclusivo. Entre as novidades, estão o Pão de Queijo Burger, um cheesebúrguer servido entre fatias de pão de queijo, e o McPolpetone, composto por pão tipo brioche, bacon, molho de tomate, parmesão ralado e um hambúrguer frito e recheado com queijo.
Na seção de acompanhamentos, estão os McRings, anéis de cebola empanada, Mozzarella Sticks, palitos fritos de mozarela, e uma salada com quinoa. Há também novas sobremesas: casquinhas com crocantes de doce de leite ou Ovomaltine e McFlurry com Kit Kats nos sabores limão, morango e maracujá.

Além disso, o café servirá pães de queijo e cafés com leite sem lactose. Cappuccinos e frapês com Ovomaltine também são itens que só poderão ser encontrados na loja.

Os funcionários também trajarão um uniforme feito para a unidade, com tecidos de fibras recicladas.

O casarão é conhecido pela decoração de Natal, que atrai turistas ao local todos os anos. Paulo Camargo, presidente da divisão brasileira da Arcos Dorados, que opera a marca McDonald's no país, garante que a tradição será mantida.

Av. Paulista, 1.811, Bela Vista, região central, s/tel. Seg. a dom.: 24h

Anna Setie, Folha de São Paulo

"É a direita o dragão da maldade?", por Vilma Gryzinski

Com muita paciência, cristã ou não, alguns abnegados enfrentaram a ínte­gra dos sermões do arcebispo Orlando Brandes durante o dia consagrado a Nossa Senhora Aparecida. Algumas conclusões: o bom homem tem obsessão por lepra, doença mencionada quase uma dezena de vezes, e por dragões. Tudo naquela voz típica de bispo de Santa Catarina que levou alguns céticos, não brasileiros, a perguntar se o atual sínodo no Vaticano é sobre a situação nas imensidões do Rio Amazonas ou do Reno. Embora as referências fossem mais à guerra das batinas, entre a maioria progressista e a minoria tradicionalista da Igreja, o arcebispo teve o mérito, ainda que involuntário, de reacender um debate eterno. É mesmo a direita “violenta e injusta”, segundo ele disse? Nesse caso, tem a esquerda a superioridade moral em matéria de compaixão, paz e justiça?
Se existissem respostas finais, prontas e acabadas, fora dos manifestos ideológicos, nem valeria a pena fazer a pergunta. Em nome da simplificação do debate, podemos substituir os termos por capitalismo e socialismo. Antes, e em nome da mais elementar fidelidade histórica, é preciso lembrar que a ultradireita — a de Franco, Mussolini, Hitler e dragões dessa estirpe — não tinha nenhuma simpatia pelo liberalismo, entendido como a conjunção carnal e obrigatória de liberdade econômica com democracia (sim, aquela mais burguesinha do que a música de Seu Jorge).
“Tem a esquerda a superioridade moral em matéria de compaixão, paz e justiça?”
A ideia de que a esquerda ajuda mais os pobres e a direita favorece mais os ricos não só é profundamente entranhada, seja qual for o julgamento da história, como está vivendo um replay. E bem no coração do capitalismo. Se Donald Trump se atolar no pantanal do impeachment e levar junto Joe Biden, por causa de um filho excessivamente favorecido, não será um absurdo conceber que Elizabeth Warren seja eleita presidente dos Estados Unidos. A candidata é simpática às ideias do neomarxista francês Thomas Piketty e propõe imposto progressivo sobre fortunas, mais sufoco para a classe média, desvalorização monetária e suspensão imediata do fracking, a extração de gás de xisto. Se pode fazer isso tudo é outra coisa.
Liz Warren acha, como toda a esquerda, que o grande problema é a desigualdade de renda. Quer reconstruir o capitalismo. Ou refundar ou algu­ma outra palavra que evoque o bolivarianismo chique dos que acreditam que o mundo nunca esteve tão ruim, talvez até nos estertores finais. É possível usar o argumento exatamente oposto: o mundo, em geral sob alguma forma de livre empreendedorismo, nunca esteve tão bom. Nas palavras de Greg Ip, comentarista econômico do Wall Street Journal: “Durante a maior parte da história conhecida, a humanidade viveu à beira da inanição. Até tão recentemente quanto os anos 80, quase metade do mundo vivia em pobreza extrema. Hoje, a projeção da proporção de pessoas em pobreza extrema caiu para 8,6% (em 2018) e, devido à correlação entre crescimento e pobreza, deve ficar mais baixa ainda neste ano”.
Aos trancos e, para os mais excluídos, barrancos quase intransponíveis, sem compaixão nem pretensão de reformar os humanos ou promover o reino da justiça na terra, a coisa vai indo. Para desgosto de bispos intoxicados pelo pecado da ira.

Veja

‘É uma pessoa tosca’, diz FHC sobre Bolsonaro. Mas, não é corrupto. FHC comprou a reeleição, deu a pasta da Justiça a Renan, mandou Gilmar para o STF, condenou a prisão do criminoso Lula e disse que Dilma 'trambique' é uma senhora honrada

Decrépito, Tucano critica presidente, acha que Lula perdeu o encanto e diz que Luciano Huck precisa decidir se vai deixar de ser celebridade para entrar na política



O senhor não cita em nenhum momento de seu último livro Jair Bolsonaro, que era deputado federal nos anos da Presidência FHC. Ele estava fora do seu radar? Eu nunca o vi na vida, nem desejo. De longe, tenho a impressão de que ele é uma pessoa… tosca. Na minha época de Presidência, Bolsonaro não tinha importância. Tinha presença apenas na política corporativista, agitando os quartéis. Os militares o viam com preocupação, pois era um capitão rebelde, mas nunca imaginavam que chegaria à Presidência.
O que explica a ascensão dele? Ele ganhou a eleição por ter repetido uma agenda negativa: não ao PT, não à corrupção, não ao crime organizado. Quem votou em Bolsonaro votou com um pouco de medo. Alguns setores do Brasil, como os ruralistas, estavam muito inquietos com a situação anterior, que era um caos. Cadê hoje o MST? Sumiu. Essa turma está com mais medo, com menos apoio. No meu tempo de presidente, o MST fazia marcha do Sul para Brasília porque as prefeituras davam dinheiro. Tinha um bom apoio do PT. O Brasil foi para a direita, em seu conjunto, tanto que Bolsonaro venceu. Esse movimento para a direita não foi só aqui, ocorreu no mundo inteiro.
Com avalia até aqui o governo Bolsonaro? Ainda que seja cedo para fazer uma avaliação objetiva, me parece um governo que não tem rumo. Ou melhor: é um governo que não transmite ao país para qual rumo está levando o Brasil. Então você fica meio sem saber para qual lado vamos.
Em menos de um ano de governo, ele já se lançou candidato à reeleição. O que acha disso? Acho que está errado, né? É uma bobagem. Quem está no governo precisa postergar ao máximo o momento da eleição. Você não ganha nada antecipando essa discussão. Só perde força, diminui de tamanho.
O senhor venceu Lula em duas eleições presidenciais no primeiro turno e ele o elegeu como inimigo. Apesar disso, os senhores tiveram uma relação cordial no momento da troca de governo, em 2002. Como isso foi possível? Conheço o Lula de quando ele era secretário do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, antes das greves do fim dos anos 70. Ele me atacou muito por razões políticas. Com a vitória do PT, a versão que corria na época era que o Lula iria levar o Brasil para a esquerda, fazer a revolução. Na transição, fiz bastante esforço para que o processo fosse civilizado, não pelo Lula, mas pelo Brasil, para dar continuidade, para que as instituições funcionassem direito.
“Ainda é cedo para prever o que vai acontecer em 2022. Minha sensação é que haverá um cansaço dessa polarização”
Ele o surpreendeu no governo? Eu não o queria como presidente porque sempre achei que ele seria pior do que foi no governo. O Lula pegou ventos favoráveis, um cenário bem diferente daquele dos meus dois governos, nos quais enfrentei várias crises internacionais. Comparado a Bolsonaro, Lula é um conservador, não quebra instituições. O Bolsonaro quebra. A Dilma Rousseff também não quebrava, mas era incompetente. Na história, o Michel Temer vai ser recuperado no seguinte sentido: ele sabia fazer uma coisa que o Bolsonaro deveria saber fazer também — mexer com o Congresso. Ele tentou fazer a reforma da Previdência, mas não conseguiu. Teve má sorte. E más companhias.
Como vê a situação política do Lula hoje? O Lula sempre foi primeiro eu, depois eu, depois eu, depois o resto. Ele tem qualidades inegáveis de liderança. Recentemente, vi uma entrevista dele na cadeia e me pareceu à vontade. O PT hoje é o “Lula livre”. O encanto que havia anteriormente não existe mais com o processo de poder, a vinculação com a corrupção… Mas, se for posto em liberdade, ele vai agitar, pois tem uma virtude que conta muito no Brasil: sabe falar. Nunca me esqueço do Lula presidente explicando na TV a questão da poluição. “Vocês sabem, né, gente? A Terra não é plana, a Terra é redonda. Se a Terra fosse plana, a poluição ia ser problema deles, não nosso. Mas, como ela roda, a poluição cai na cabeça da gente.” Ele não estava preocupado com o certo ou erra­do, estava transmitindo uma coisa. Penso que a gente não deve nunca menosprezar a capacidade de pessoas que têm essa qualidade. Não acho que na situação do Brasil exista espaço hoje para o mesmo tipo de retórica que ajudou na ascensão do Lula. Quando ele ganhou a eleição, para o bem ou para o mal, significava coisa nova, o líder operário que chega ao governo. Essa novidade não existe mais.
Como vê o PSDB hoje? Estou muito afastado da vida partidária. Os partidos estão esfrangalhados, está tudo fragmentado. Mas ainda é cedo para dizer o que vai acontecer nos próximos anos. Minha sensação é que haverá um cansaço dessa polarização.
Considerando isso, há espaço para uma candidatura fora da polarização entre Bolsonaro e PT, como a do apresentador Luciano Huck? O Luciano tem de tomar uma decisão: vai deixar de ser celebridade para ser líder político? Celebridade recebe aplauso, líder político, dependendo do caso, recebe pedrada. Precisa entrar na briga. Eu não sei ao certo se o Luciano já tomou essa decisão. Quando você vê as pesquisas, ele está bem. Tem notoriedade, é conhecido, conhece bem o povo. Mas conhece menos as instituições.
 LEGADO – Lembranças do Plano Real: “Meu governo não foi o que acertou na economia e desprezou o social”
LEGADO – Lembranças do Plano Real: “Meu governo não foi o que acertou 
na economia e desprezou o social” (Paulo Vitale/VEJA)
Bolsonaro já chamou Huck de candidato da Rede Globo. Bolsonaro é esperto, já definiu o inimigo. Não é Luciano, é a Rede Globo. Não sei o que pensam os donos da emissora sobre essa possível candidatura. Mas tenho a sensação de que não é cômodo para a empresa ter alguém nessa briga sendo considerado candidato da Rede Globo.
O presidente chegará forte a 2022? Bolsonaro procura casca de banana para escorregar. Ele se mete em tudo, cria caso, cria confusão. Então, pode escorregar. Não o estou menosprezando, pois é preciso levar em consideração que ele fala bem a um grupo de eleitores.
Como o senhor gostaria de ser lembrado na história? Fui reconhecido pelo Plano Real, pela questão da estabilização. Esse trabalho começou na minha época de ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco, porém se consolidou com a minha chegada à Presidência. Mas o meu governo não foi o que acertou na economia e desprezou o social, como muitos gostam de criticar. O mais difícil é ser reconhecido pela definição de políticas universais para áreas como educação e saúde. Ninguém deu mais terra ao trabalhador que precisava do que o meu governo. Criamos os primeiros programas de bolsa-­auxílio — a da escola, a da saúde… O PT teve a esperteza de juntar esses programas no Bolsa Família. Para mim, tão importante quanto isso foi a preocupação institucional. A transição do meu governo para o do Lula foi estudada com a preocupação de manter as regras do jogo. Não sei se isso será reconhecido no futuro. A bem da verdade, não me preocupo muito com isso. Não é meu estilo. Eu pouco atento à memória de mim mesmo. Sou desleixado para essas coisas pessoais.

Mauricio Lima e Sérgio Ruiz Luz, Veja

Maior ladrão da história do Brasil, Lula é o principal nome da esquerda contra Bolsonaro em 2022. Que país é esse, hein Francelino?

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está inelegível desde janeiro de 2018, quando foi condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex no Guarujá. Apesar das várias entrevistas concedidas dentro da cadeia, ele não fala diretamente ao eleitorado e à militância desde abril daquele ano, quando foi encarcerado na Polícia Federal em Curitiba para cumprir uma pena de oito anos e dez meses de prisão. É réu ainda em mais nove processos e investigado em outros inquéritos sob a suspeita de ser corrupto ou ter praticado crimes como lavagem de dinheiro, tráfico de influência e formação de organização criminosa. Além disso, é o principal líder de um partido que foi varrido do poder em meio a uma grave crise econômica e política no país e a denúncias de diversos malfeitos envolvendo sua gestão e a de Dilma Rousseff. Em resumo, uma biografia para enterrar de vez a carreira de qualquer homem público no mundo.
Mas o Brasil, como dizia Tom Jobim, não é coisa para principiantes, e, a despeito dessa ficha da pesada, Lula resiste na forma de um espectro político. Sua capacidade de recuperar o prestígio perdido entre a maior parte da população após a farta relação de malfeitos é discutível. Na esquerda, porém, ele continua sendo o maior nome por aqui (o que também diz bastante sobre a qualidade da esquerda no país). De quebra, pode ainda pregar uns bons sustos nos adversários de fora do universo petista, conforme mostra uma pesquisa exclusiva VEJA/FSB sobre as eleições presidenciais de 2022. Um dos dados mais interessantes do levantamento, realizado entre 11 e 14 de outubro, consiste nas projeções do que seria hoje um confronto de segundo turno entre Jair Bolsonaro e as figuras mais conhecidas da esquerda. Lula perde por 46% a 38% (a margem de erro é de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos), mas se sai melhor que políticos de fora da cadeia. Fernando Had­dad, batido por Bolsonaro na última eleição, perderia novamente do atual presidente em 2022 por 47% a 34%. O pedetista Ciro Gomes repete o fiasco de 2018 na pesquisa VEJA/FSB: não chegaria sequer ao segundo turno. Para especialistas, Lula continua a ser uma alternativa forte à esquerda porque soma a fidelidade da base petista à lembrança dos fugazes tempos de prosperidade de sua era no poder. “O primeiro governo dele foi muito virtuoso. Manteve políticas de FHC e foi capaz de oferecer duas coisas que o brasileiro médio deseja: estabilidade macroeconômica e inclusão social. A resiliência de Lula vem dessa imagem que o eleitor tem dele”, avalia o cientista político Carlos Pereira, professor da FGV-RJ.
 INIMIGO ÍNTIMO – Bolsonaro e Moro: o ministro é o único que ganharia do presidente em um eventual segundo turno
Bolsonaro e Moro: o ministro é o único que ganharia do presidente em um eventual segundo turno (Eraldo Peres/AP/AP)
A volta de Lula ao jogo político ainda depende do enorme caminho que ele precisa enfrentar na Justiça para limpar sua ficha. Mas essa trilha parece bem menos difícil de percorrer hoje do que há alguns meses. No dia 17, o Supremo Tribunal Federal voltou a se debruçar sobre a questão da prisão após condenação em segunda instância no país. Permitida desde 2016, em meio ao clamor da sociedade pelo endurecimento contra os crimes de colarinho-branco, a medida deve cair, já que o entendimento de alguns ministros sobre o tema mudou. O recuo tiraria Lula de trás das grades, uma vez que seu processo ainda não transitou em julgado, mas não seria suficiente para sua pretensão política, porque ele ainda ficaria inelegível pela Lei da Ficha Limpa, que veta a candidatura de condenado em duas instâncias. Pelo mesmo motivo, Lula recusa-se a aceitar a progressão ao regime semiaberto a que tem direito desde setembro por ter cumprido um sexto da pena e ter tido bom comportamento. A mudança de status permitiria a ele sair da cadeia para trabalhar ou até ir para prisão domiciliar, mas sem poder disputar eleições, pois continuaria ficha-suja. O ex-­presidente mantém a cantilena de que só sairá da cadeia se tiver sua inocência reconhecida — para ele, aceitar a medida paliativa seria concordar com a condenação imposta pelo então juiz Sergio Moro e confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) e pelo STJ.
O julgamento que de fato importa a Lula é o do recurso que pede a suspeição de Moro com base em várias alegações, que vão dos procedimentos em relação ao petista (como a condução coercitiva em 2016, antes de ele ter sido intimado a depor) à aceitação do convite para ser ministro da Justiça do governo Bolsonaro, e por ter auxiliado de forma ilegal o Ministério Público Federal na acusação, como demonstraram diálogos entre ele e o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava-Jato em Curitiba, revelados pelo site The Intercept Brasil em parceria com veículos como VEJA. A questão será decidida pela Segunda Turma do STF, que tem cinco ministros. Dois votaram contra a pretensão do petista — Edson Fachin e Cármen Lúcia. Gilmar Mendes, que pediu vistas e prometeu devolver o processo à pauta até novembro, e Ricardo Lewandowski são votos certos a favor de Lula, o que jogaria a decisão nas mãos do ministro Celso de Mello, que já colocou Moro sob suspeição uma vez. Em 2013, ao julgar um habeas-corpus apresentado pelo doleiro Rubens Catenacci, condenado no caso Banestado, Mello entendeu que o então titular da 2ª Vara Criminal de Curitiba havia extrapolado suas funções ao monitorar os advogados do réu, inclusive com interceptação telefônica, e ajudar o trabalho da acusação — as duas reclamações são feitas também pela defesa de Lula no atual processo. Se prevalecer a tese de suspeição, o julgamento que deixou o petista inelegível será anulado. Nesse caso, ele deixará de ser ficha-suja e poderá se candidatar nas eleições.
 ESTRATÉGIA – Doria, no Japão: tentativa de virar a alternativa de centro-direita
ESTRATÉGIA – Doria, no Japão: tentativa de virar a alternativa de centro-direita 
(Governo do Estado de São Paulo/.)
Mesmo se toda essa reviravolta ocorrer e Lula voltar à disputa, a esquerda terá de bater de frente com Bolsonaro, que se lançou prematuramente à reeleição e continua sendo um adversário duro de superar. Na pesquisa VEJA/FSB, Bolsonaro aparece numericamente à frente em quase todos os cenários. Em levantamento semelhante realizado em agosto deste ano, ele já liderava, algo até certo ponto natural para quem venceu as eleições há menos de um ano, mas que mostra também uma grande resiliência diante de vários percalços enfrentados no período: as queimadas na Amazônia, o desgaste internacional, o barraco sem fim no PSL (confira a reportagem), as polêmicas que envolvem seus filhos e as acusações do uso de candidatas-laranja pela legenda. Bolsonaro também conseguiu manter estáveis os índices de avaliação de seu governo (33% de ótimo/bom), de sua maneira de administrar o país (43% aprovam) e das expectativas em relação ao fim de seu mandato (43% acham que será ótimo ou bom). Embora seja a maior ameaça vinda da esquer­da, a eventual volta de Lula ao palco eleitoral pode, apesar do paradoxo, representar uma boa notícia para o presidente, já que permitiria a ele repetir o discurso vitorioso que o levou ao poder: evocar o fantasma da vitória do PT. Para Rafael Cortez, analista político da Tendências Consultoria, não há dúvida de que Bolsonaro tem como principal fonte de capital político o combate à esquerda. “O melhor cenário para ele seria enfrentar o PT, mas não necessariamente Lula, que representa um risco muito maior que Haddad”, afirma Cortez. Por isso, entende o especialista, o presidente usa a estratégia de mobilização permanente do eleitorado que responde mais rapidamente a uma eventual ameaça de volta da esquerda.
 PROMISSOR – O apresentador Luciano Huck: conversas políticas constantes
PROMISSOR – O apresentador Luciano Huck: conversas políticas constantes (Antonio Milena/.)
Bolsonaro tem ainda dois possíveis adversários fortes no horizonte. Segundo a pesquisa VEJA/FSB, em simulações de segundo turno, o presidente perde para Moro (38% a 34%) e vence o apresentador Luciano Huck (43% a 39%), em ambos os casos no limite da margem de erro. Para especialistas, o problema deles é chegar ao segundo turno. “O principal fator é que o próprio presidente incentiva a polarização o tempo todo, o que prejudica o centro”, afirma Alberto Carlos Almeida, autor de O Voto do Brasileiro (2018). Caso consigam ultrapassar essa barreira, Huck e Moro provocam uma situação curiosa, segundo a pesquisa: atraem até eleitores da esquerda que, por rejeição ao atual presidente, votariam em qualquer um para derrotá-lo. O apresentador evita colocar-se como candidato, porém tem mantido uma agenda de encontros cujo principal tema é a discussão de problemas do país. Sem estar filiado a nenhuma legenda, mas militante de movimentos de renovação política suprapartidários como RenovaBR e Agora!, ele tem conversado com líderes de siglas diversas — a última especulação é que iria para o Cidadania. Já o ex-juiz da Lava-Jato também nega ser presidenciável, diz que apoia Bolsonaro por uma questão de lealdade, conforme afirmou recentemente em entrevista a VEJA, mas nem o capitão nem seus aliados mais próximos acreditam nisso. O potencial eleitoral de Moro é enorme. Ele aparece à frente em quatro cenários de segundo turno. Além de vencer o presidente, derrota Haddad, Huck e Lula (veja o quadro). Na mesma pesquisa, o ex-­juiz da Lava-Jato é apontado como o melhor ministro do governo por 31% dos entrevistados, bem acima do segundo colocado, Paulo Guedes (Economia), com 6%. A população também apoia algumas de suas propostas, entre elas o encarceramento após condenação em segunda instância — 70% são a favor da medida.
 CAMPANHA – Fernando Haddad: nome oficial do PT, mas fará o que Lula mandar
CAMPANHA – Fernando Haddad: nome oficial do PT, mas fará o que Lula mandar 
(Ricardo Stuckert/.)
Enquanto Huck e Moro surgem fortes na pesquisa VEJA/FSB, o governador de São Paulo, João Doria, ainda enfrenta dificuldades para se mostrar competitivo e emplacar como uma alternativa de poder mais ao centro. Nos três cenários de primeiro turno abordados no levantamento, o tucano tem no máximo 5% dos votos. Em um possível confronto direto com Bolsonaro no segundo turno, perderia por 46% a 26%. Embora negue em público, Doria tem pretensão presidencial e, por isso, já entrou em rota de colisão com Bolsonaro — a quem apoiou em 2018 —, inclusive com bate-bocas públicos. Na terça 15, em Taubaté, no interior paulista, foi recebido por bolsonaristas com carro de som e cartazes e faixas nos quais era acusado de ter traí­do o presidente. “Vai pra casa, vagabundo”, reagiu o tucano. Um dia depois, o governador reconheceu que se excedera no episódio.
 POUCOS VOTOS – Ciro: longe de ser alternativa da esquerda para 2022
POUCOS VOTOS – Ciro: longe de ser alternativa da esquerda para 2022 
(Miguel Schincariol/AFP)
Enquanto forças mais à direita começam a batalhar, o PT tem sido cauteloso nos movimentos. Para consumo externo, o partido ainda sinaliza com uma nova candidatura de Fernando Haddad e não fala abertamente sobre a hipótese de Lula disputar a eleição, até para não criar mais animosidade em torno do julgamento. Por ora a estratégia petista é defender a ideia de que Had­dad rode o país para apoiar os candidatos do partido na tentativa de reconquistar prefeituras que perdeu em 2016, como a da própria capital paulista. Enquanto isso, avalia-se que o papel imediato de Lula, caso saia realmente da prisão, deve ser o de “líder da oposição”, para reagrupar as forças de esquerda e atrair até o centro. Um dos primeiros compromissos caso a temporada de cárcere em Curitiba se encerre deverá ser procurar o ex-presidente Michel Temer para reconquistar o MDB, que foi fundamental para sustentar os dois mandatos do petista, mas que, ao deixar o governo, também foi decisivo para a queda de Dilma. Hoje, o trabalho do ex-presidente seria muito difícil, até mesmo entre parte da esquerda, que defende há tempos a superação do “lulacentrismo”. Recuperar eleitores perdidos para Bolsonaro também será prioridade do petista. Lula passa parte do tempo na cela vendo programas evangélicos na TV aberta e anotando o nome dos pastores e as ideias que defendem, numa tentativa de, quando for solto, reconquistar esse contingente religioso que já o apoiou, mas migrou para Bolsonaro. Até alguns petistas de carteirinha trocaram de barco. Levantamento feito por VEJA com dados do TSE mostra que 2 631 filiados ao PT foram para o PSL de Bolsonaro, num movimento que supera a questão ideológica. É um indicativo de uma onda maior. A aposta é que, com essa volatilidade, do mesmo jeito que foram, esses eleitores podem voltar. Como a advogada Karina Magalhães, de 29 anos, de Maracaju (MS), que é filha de professora e desde muito jovem teve contato com o movimento sindical da classe, mas trocou o petismo pelo bolsonarismo depois da Lava-­Jato. “Bolsonaro foi a opção para ter renovação, ruptura, mudança”, afirma Karina, eleitora do PT de 2002 a 2014. Agora ela se diz “totalmente contra” algumas das propostas de Bolsonaro, vê o presidente “perdido” e mal influenciado pelos filhos e já não garante o voto nele em 2022.
A ameaça à reeleição de Bolsonaro, de direita ou de esquerda, será maior ou menor dependendo do desempenho do presidente. O analista político da FSB Alon Feuerwerker diz que o capitão precisa se preocupar em evitar um “efeito Macri”, referência ao presidente argentino Mauricio Macri, que deve perder a eleição para a esquerda kirchnerista em razão da crise econômica. “Os principais concorrentes do presidente são dois nomes não filiados a nenhum partido e que nem podem concorrer em 2022: a estagnação econômica e a taxa de desemprego”, afirma. Ainda faltam três anos para as eleições, uma eternidade no frenético e volúvel tabuleiro nacional do poder. Um fracasso de Bolsonaro e a permanência por mais tempo do indesejável clima de polarização radical, que destrói novas alternativas de liderança, representam o alimento capaz de fortalecer o espectro Lula — e a velha assombração política pode ressurgir, fazendo o país retroceder às retóricas e discussões do passado. O Brasil não é mesmo para principiantes.
Colaborou João Pedroso de Campos
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 José Benedito da Silva, Veja