sexta-feira, 15 de maio de 2026

'Banco' Master financiou 7 eventos com cúpula - leia-se, 'cartel lula-stf-globolixo' - de Brasília no exterior

Instituição de Daniel Vorcaro bancou fóruns frequentados por ministros do STF e políticos de peso


 esquerda, Augusto Lima, sócio do Banco Master; à direita, Daniel Vorcaro, fundador da instituição financeira - Foto: Divulgação/Master


O Banco Master pagou as despesas de pelo menos sete eventos voltados para as principais autoridades dos Três Poderes. As conferências aconteceram entre 2022 e 2025, anos que marcaram a explosão no crescimento da instituição financeira antes de sofrer liquidação judicial. O número de eventos foi levantado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

A maioria das reuniões ocorreu em hotéis de luxo na Europa e nos Estados Unidos. O dono do banco, Daniel Vorcaro, utilizou os fóruns para construir uma rede de contatos com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), magistrados e congressistas. As cidades escolhidas para os encontros foram Nova York, Londres, Roma, Paris e Cambridge. 


Mensagens e comemoração nos bastidores 

O banqueiro comemorou o trânsito livre com os juízes em mensagens enviadas para a ex-namorada em abril de 2024. Vorcaro realizou uma palestra em Londres, no 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, do qual era patrocinados oficial. 'Acabei de dar o discurso para os ministros. Todos ministros do Brasil. Do STF, STJ, etc. E euzinho discursando”, escreveu o empresário.

A lista de apoios financeiros inclui o Summit Valor Econômico Brazil–USA, feito em Nova York pelo Grupo Globo. O Banco Master figurou como o investidor principal do debate. A Globo informou em nota que a captação segue o mercado tradicional de mídia e que o seminário não serviu para reuniões secretas de relacionamento.


Ministros no circuito europeu

O dinheiro de Vorcaro bancou também o 2º Fórum Esfera Internacional, em Roma. O evento reuniu o então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, e o ministro Dias Toffoli. O banqueiro dividiu o palco de debates com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), político que o empresário classifica em suas conversas privadas como um grande amigo. 

Dias Toffoli compareceu a outra agenda financiada pelo Master no hotel Fairmont, em Copacabana, durante o 23º Fórum Empresarial Lide. A marca do banco apareceu ainda na Brazil Conference, realizada por alunos brasileiros nas universidades norte-americanas Harvard e MIT.


Erich Mafra -  Revista Oeste

'Cazarré no campo de reeducação da GloboNews', por Flávio Gordon

 O ator, que lançou um curso sobre masculinidade, foi convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com professores ideólogos


Juliano Cazarré - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução Instagram 

No texto 'A Crise na Educação' (1957), a filósofa Hannah Arendt diz que a base do totalitarismo é uma concepção pedagógica da política. Em suas palavras: “A educação não pode desempenhar nenhum papel na política porque na política se lida sempre com pessoas já educadas. Aqueles que se propõem a educar adultos, o que realmente pretendem é agir como seus guardiões e afastá-los da atividade política. Como não é possível educar adultos, a palavra ‘educação’ tem uma ressonância perversa em política — há uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem uso da força.” 

Pois foi exatamente um ambiente de pedagogia política que a GloboNews armou para Juliano Cazarré no último dia 12. Cazarré, que nas últimas semanas ganhou visibilidade ao anunciar um curso e um congresso sobre masculinidade voltados a homens católicos, foi convocado ao estúdio para aprender sobre a realidade com professores ideólogos de extrema esquerda. 

A matéria do dia, formulada pela apresentadora com a solenidade de quem proclama verdades autoevidentes, era esta: existe uma “epidemia de violência contra as mulheres”, e o ator, ao falar em masculinidade sem pedir desculpas por isso, deveria se sentir um cúmplice. Os debatedores escalados para instruir o processo eram uma psicanalista feminista e um “consultor sobre equidade de gênero e raça” — o tipo de profissão parida em faculdades de ciências humanas cujos objetos de estudo inexistem fora das próprias fórmulas ideológicas que os criaram. 


Cazarré anunciou o evento “O Farol e a Forja”, um retiro de três dias voltado exclusivamente para homens - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Felizmente, Cazarré recusou sujeitar-se à empreitada. Gentilmente, mas com firmeza. Foi o bastante para revelar aquilo que a intelligentsia progressista insiste em chamar de “debate”: um monólogo interrompido, de tempos em tempos, pela presença inconveniente de alguém que discorda — e que por isso deve dar a mão à palmatória “progressista”. 


“Os homens matam as mulheres” 

A cena que mais merece atenção no tal “debate” não foi a recusa de Cazarré em deixar-se educar por ideólogos munidos de suas ferramentas de distorção do real. Foi a fala da psicanalista feminista. 

“Os homens”, disse ela, “matam as mulheres”. Não alguns homens. Não uma fração criminosa e patológica. 

Os homens — o sexo, a categoria, o conjunto. Como se o cromossomo Y fosse, por determinação biológica ou cultural, uma sentença de morte para as pessoas do entorno. Se alguém, naquele mesmo estúdio, tivesse afirmado que “os negros roubam” ou que “os nordestinos são violentos”, o programa teria sido interrompido, as câmeras teriam sido apagadas, e o responsável pela fala estaria em vias de responder a processo. 

A generalização coletiva infamante — atribuir a todo um grupo o comportamento desviante de uma minoria — é reconhecida, pela boa filosofia e pelo bom senso, como o mecanismo primordial do preconceito. Mas há, no cardápio progressista, um grupo que ainda pode ser difamado em bloco, sem custo social, sem processo, sem a menor fricção: os homens. E a psicanalista o fez, sem corar, diante das câmeras. Não satisfeita, acrescentou que os homens são uma “ameaça perene” às mulheres.


Cromossomos X e Y - Foto: Shutterstock 

Mas façamos aqui umas contas de padaria que a “especialista” não quis fazer. O Brasil conta com aproximadamente 855.714 homens sentenciados ou presos provisoriamente — por qualquer crime, do furto ao homicídio. A população masculina total é de cerca de 99,3 milhões. A divisão elementar resulta em 0,86%. Ou seja, menos de um homem em cada cem tem passagem pelo sistema penal, por qualquer delito. 

Imaginemos, por generosidade intelectual ao argumento contrário, que a subnotificação é enorme, que boa parte dos crimes não resulta em processos criminais e que muitos autores jamais são presos. Multipliquemos então esse 0,86% por dez — uma inflação astronômica, sem paralelo em qualquer estimativa séria. Chegamos, pois, a 8,6%. Arredondando: 9%. Ou seja, mesmo na hipótese mais catastrofista, teríamos que concluir que 91% dos homens brasileiros não cometem crime algum — muito menos crime que resulte na morte de alguém. 

Noventa e um por cento! Temos uma supermaioria que trabalha, cria filhos, paga impostos, cuida de pais idosos, entra em prédios em chamas, conserta a rede elétrica depois de tempestades, desce a minas, limpa o esgoto que a cidade produz. Homens que protegem e servem — mulheres e homens, indiscriminadamente — muitas vezes ao custo da própria vida. Essa maioria, a psicanalista varreu para baixo do tapete da narrativa, que só tem espaço para os 9%. E mesmo esses, note-se, raramente chegam perto de um crime de morte.


Bombeiros homens - Foto: Shutterstock

A psicanalista, que professa conhecer os meandros da psique humana, comete aqui um erro que qualquer epistemólogo de primeiro ano saberia nomear: toma a exceção pela regra, o desvio pelo universal, o patológico pelo normal. É como se um oncologista, depois de tratar tumores a vida inteira, concluísse que o corpo humano é, por natureza, uma fábrica de câncer. O diagnóstico não segue da evidência. Segue da agenda. Mas, no centro de reeducação ideológica da GloboNews, uma militante com uma fala tão extremista como “os homens são uma ameaça perene às mulheres” não é tida por extremista, nem radical, nem adepta de um discurso de ódio aos homens. Ao contrário, ela foi escalada como um dos profissionais responsáveis por “educar” o “extremista” Juliano Cazarré. 

A “epidemia” que não existe O programa foi apresentado à audiência como um debate sobre o papel dos homens “num contexto de epidemia de violência contra as mulheres”. A escolha da palavra “epidemia” é politicamente calculada: epidemias pedem estado de emergência, poderes excepcionais e a suspensão do debate racional. Quem questiona medidas sanitárias no auge de uma pandemia? Quem questiona a narrativa da epidemia feminicida? 

Examinemos os dados que a narrativa da epidemia sistematicamente deforma. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 45.747 homicídios no Brasil em 2023. Desde 2018, quando houve uma redução na letalidade, a média tem se mantido mais ou menos essa – entre 40 e 50 mil homicídios por ano. Aproximadamente 20 homicídios por cem mil habitantes. Apesar da redução dos últimos anos, trata-se de um número muitíssimo elevado, que coloca o país como um dos mais violentos do mundo.

Diante desse cenário, há realmente um fenômeno particularmente alarmante de assassinatos de mulheres? De acordo com aqueles mesmos institutos de pesquisa, os homens representam cerca de 90% das vítimas de homicídio. O argumento feminista padrão é que, além da criminalidade violenta em geral, as mulheres são vítimas de um crime específico, motivado exclusivamente pelo fato de serem mulheres. Esse tipo criminal específico ganhou o neologismo feminicídio — o termo que serve de argumento simbólico da espécie de ativismo misândrico que se viu no centro de reeducação da GloboNews.

Em 2024, segundo os dados, foram registrados 1.492 feminicídios: uma taxa de 1,4 por 100 mil mulheres. É claro que essas mortes merecem toda a atenção do Estado e da sociedade — mas elas não configuram, em nenhuma leitura honesta dos dados, uma epidemia. 

Para efeito de comparação: no mesmo ano, os homicídios dolosos totais no Brasil atingiram 35.565 vítimas, das quais mais de 32 mil eram homens. O grito de horror da mídia e dos “especialistas” é seletivo e bem calibrado. Há ainda um detalhe metodológico que raramente aparece nos debates televisivos: parte do crescimento nos registros de feminicídio se deve a mudanças na tipificação legal, não necessariamente a um aumento real dos crimes. 

O percentual de homicídios de mulheres classificados como feminicídio passou de 9,4% em 2015 para 40,3% em 2024 — crescimento explicado, em grande parte, pelo aprimoramento institucional na identificação e classificação dos casos, conforme reconhecem os próprios pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quando o instrumento de medição muda, o número medido muda — isso não significa necessariamente que o fenômeno cresceu.


O nome e a coisa: sobre a ambiguidade conveniente do termo “feminicídio”

Introduzido no Código Penal brasileiro pela Lei 13.104/2015, o tipo penal feminicídio abrange duas situações distintas: crimes em contexto de violência doméstica e familiar, e crimes motivados por ódio ou discriminação à condição de mulher. São dois eixos muito diferentes — um contextual, outro intencional — frequentemente colapsados num único conceito como se fossem a mesma coisa. Na prática, a esmagadora maioria dos casos enquadrados como feminicídio ocorre no primeiro eixo: o doméstico. 

O que nos dizem os dados? Que 80% dos casos são cometidos por companheiros ou excompanheiros; que 64% ocorrem dentro de casa; que os gatilhos imediatos são ciúme, separação, álcool, ressentimento, impulsividade criminosa. O assassino não mata “a mulher” como categoria abstrata. Mata aquela mulher, naquele relacionamento específico, numa explosão de desordem interior que diz mais sobre seu caráter e suas patologias do que sobre qualquer projeto ideológico de dominação masculina.


Foto: Shutterstock

Por óbvio, isso não diminui a gravidade do crime. Diminui, entretanto, a legitimidade da explicação totalizante que o ativismo de gênero fabrica em cima dele. Quando se substitui a pergunta “por que este homem matou?” pela pergunta “em que sistema simbólico de opressão este crime se inscreve?”, a resposta já vem embutida na pergunta. A teoria fecha-se sobre si mesma, impermeável a qualquer evidência contrária. Isso não é ciência; é ideologia com verniz acadêmico. 

Cazarré até que tentou levantar esse questionamento sobre a imprecisão do termo feminicídio, e sobre a necessidade de algum registro material de ódio generalizado às mulheres para se caracterizar um homicídio feminino como feminicídio. Mas não teve tempo de desenvolver o raciocínio, tendo sido interrompido com jargões militantes do tipo “controle sobre os corpos femininos” e etc. 

Quando tentava aludir ao seu exemplo próprio de conduta masculina, como contraponto à acusação permanente (implícita ou nem tanto) de que conteúdos como o do seu curso levam ao feminicídio, o ator era respondido com frases como “não podemos nos restringir ao seu caso pois precisamos olhar para as masculinidades, no plural”. Ou seja, toda vez que o convidado tentava puxar a conversa para a realidade concreta e para homens de carne e osso, os ideólogos do programa tratavam de reconduzi-la ao plano das abstrações e do idioma hiperideologizado da esquerda identitária. 

Acrescente-se ao contexto ideológico da invenção do “feminicídio” uma assimetria classificatória reveladora: não existe categoria equivalente, com a mesma força simbólica e atenção política, para homens mortos por parceiras. Não porque esses casos sejam inexistentes — existem —, mas porque não se encaixam no modelo interpretativo dominante. A lente ilumina intensamente um lado do fenômeno e deixa o outro na penumbra. 

O resultado é uma percepção pública sistematicamente distorcida, fabricada não pela realidade, mas pelo recorte ideológico de quem decide o que merece ser visto. “Nem todo homem mata, mas é sempre um homem” — como disse a psicanalista feminista, esquecendo-se que não, nem sempre é homem o autor de um homicídio. No mundo real, fora do universo mental da militância, mulheres também cometem violência doméstica — em frequência comparável à dos homens, nos casos de violência não letal, conforme demonstrado por décadas de pesquisa acadêmica, sintetizadas pelo sociólogo Murray Straus, da Universidade de New Hampshire, e analisadas pelo filósofo David Benatar em The Second Sexism: Discrimination Against Men and Boys — e, embora estatisticamente em menor número, também matam seus parceiros no contexto de crimes passionais.


Livro The Second Sexism de David Benatar - Foto: Divulgação 


A masculinidade que “nunca trouxe nada de bom” A reeducadora de Cazarré sentenciou, sem titubear: o modelo de masculinidade no qual o homem é provedor e a mulher é cuidadora “não funciona”. “Ele tem mais de cem anos”, disse ela, “e não deu certo”. 

E, com uma autocomiseração que seria cômica se não fosse televisionada em horário nobre: “Nós estamos morrendo por falta de os homens ouvirem as nossas críticas.” A psicanalista valeu-se ainda da técnica da denúncia contra o manterrupting para falar sem ser contraditada. A afirmação merece ser respondida com a seriedade que lhe cabe — que é pouca, mas não nenhuma. O modelo criticado — o homem que trabalha, protege, provê — não tem “mais de cem anos”. Ele é tão antigo quanto a organização humana em famílias, anterior à escrita, à roda e a qualquer “consultor de equidade de gênero”. 

Foi esse modelo, com todas as suas tensões, que ergueu civilizações, descobriu continentes, desenvolveu vacinas, atendeu feridos em campos de batalha, construiu o encanamento que leva água até a casa da psicanalista, a rede elétrica que alimenta o estúdio da GloboNews e o hospital onde nasceram seus filhos. 

Dizer que ele “não deu certo” não é uma análise histórica. É uma amnésia voluntária a serviço de uma tese. E aqui o programa revelou sua maior omissão. Em nenhum momento a psicanalista mencionou — nem de passagem, nem por acidente — a gigantesca proporção masculina em profissões de risco e sacrifício. Os bombeiros que entram em edifícios em chamas são, de modo esmagador, homens. Os policiais que patrulham bairros violentos de madrugada são, na sua imensa maioria, homens. 

Os que limpam o esgoto, consertam a rede elétrica em dias de tempestade, trabalham nas minas, constroem as estradas — homens, homens, homens. Esses homens protegem e servem mulheres e homens indiscriminadamente, todos os dias, com frequência ao custo da própria saúde e da própria vida. Seriam eles também, como sugere a psicanalista feminista, uma “ameaça permanente” às mulheres?


Membros da Guarda Municipal participam de um desfile em comemoração à independência do Brasil na cidade de Salvador, Bahia (07/09/2014) - Foto: Shutterstock


No best-seller The Myth of Male Power, Warren Farrell observou, com sua ironia precisa, que a mídia produz especiais perguntando “o homem da casa ao lado molesta meninas?” — mas jamais produz especiais intitulados “o homem da casa ao lado salva meninas?”, embora os bombeiros que resgatam crianças sejam, de forma esmagadora, homens. A narrativa seleciona. E o que ela seleciona diz mais sobre sua agenda do que sobre a realidade. 

Cazarré saiu do programa de pé. Recusou a contrição, não assinou a confissão, não pediu perdão por ser quem é. Ao se recusar a aceitar as premissas do julgamento, o ator fez o que qualquer pessoa intelectualmente honesta deveria fazer diante de um tribunal disfarçado de debate: pediu as evidências. E as evidências, como vimos, não sustentam o veredito. 

O feminismo contemporâneo, em sua versão mais militante, transformou uma causa legítima — o combate à violência real contra mulheres reais — num dispositivo retórico a serviço de uma agenda política que tem muito mais a ver com a conquista de poder institucional e simbólico do que com a proteção de qualquer vítima concreta. 

Reconhecer isso não é negar a gravidade da violência doméstica. Trata-se apenas de recusar que uma narrativa — por mais eloquente, por mais amplificada pela grande mídia, por mais repetida em estúdios com iluminação profissional — substitua o esforço mais difícil e mais honesto de compreender a realidade que pretende nomear. Mas a realidade, para a intelligentsia progressista, sempre foi um detalhe incômodo. E a GloboNews tem bons microfones, boas câmeras e luz boa o suficiente para não precisar dela.


'Cazarré no campo de reeducação da GloboNews', por Flávio Gordon

'O Partidão PT-STF', por Adalberto Piotto

Lula quer se descolar do Supremo porque pega mal com o eleitor. Mas não vai conseguir porque a parceria do mal é evidente


Ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e Presidente Lula -  Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Agência Brasil


N a última terça-feira, 12 de maio, o presidente Lula editou a Medida Provisória que revoga a “taxa das blusinhas”, aquela alíquota de 20% de impostos federais sobre compras internacionais de até US$ 50. A medida, que o próprio Lula criou em 2024, contou com apelo do então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que viria a ser chamado de Taxad pela sequência sem fim de aumento de impostos que impôs aos brasileiros. O argumento era o de proteger a indústria nacional de prática de dumping, uma concorrência desleal com produtos chineses baratos vendidos em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress. 

Não era verdade. O governo só queria mesmo era aumentar a arrecadação. O risco iminente era o de não cumprir o arcabouço fiscal que ele próprio criara para passar a imagem de alguma austeridade, depois do rombo de R$ 230 bilhões nas contas públicas de 2023. Fato é que não adiantou muito. Perdulário na essência, gastador irresponsável do dinheiro público, o governo Lula acumulou déficits fiscais, gastando muito mais do que arrecada, em todos os três primeiros anos do terceiro mandato. Em 2024, foi de R$ 43 bilhões (houve concessões do STF para não estourar a meta fiscal — trato disso mais à frente); em 2025, rombo de R$ 61,7 bilhões. A projeção para 2026 varia entre R$ 22 bilhões (estimativa da equipe econômica) e R$ 72 bilhões, gastando mais do que arrecada, segundo análises do mercado. 

No final, serão quatro anos de rombos fiscais ininterruptos. Por isso mesmo, vale a pergunta: como que um governo, cujas contas não fecham, abre mão de uma receita — a taxa das blusinhas — num cenário fiscal tão grave como o atual? A resposta é tão prosaica como desavergonhada. Trata-se de ano eleitoral e Lula está mal avaliado nas pesquisas. Simples e terrivelmente assim. E isso basta para quem não tem nenhuma preocupação com o país e só pensa em se reeleger a qualquer custo. Este é o ponto: mero e espúrio interesse eleitoreiro. Durante o governo de Jair Bolsonaro, algum ministro do Supremo Tribunal Federal já teria dado 48 horas para que o governo explicasse a contradição que evidenciaria ainda mais sua irresponsabilidade fiscal e administrativa. Mas não. Nenhum ministro da mais alta Corte do país parece estar disposto a ir adiante com um pedido de esclarecimento. E olha que se trata de evidente medida populista em um cenário de desespero lulista por votos, assim como de completo desprezo pelo suado dinheiro do pagador de impostos, que está endividado como pessoa física enquanto empresas recorrem cada vez mais à recuperação judicial.


O silêncio do STF diante da manobra de Lula contrasta com a dura cobrança na gestão passada e consolida a impunidade de medidas adotadas por puro desespero por votos - Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo 

Nada comoverá Suas Excelências. O Supremo nada fará porque, ao retirar Lula da cadeia de Curitiba e reabilitá-lo para a eleição de 2022, a Corte escolheu um lado e tem sido a maior aliada do governo. E sem pestanejar. Só que a vida real não manda recado. Ela vem e dita as regras. Com pesquisas apontando rejeição popular de 60%, com a imagem consolidada de uma Corte abusiva e agora no centro do escândalo do Banco Master, o Supremo está mal na praça. É ruim aparecer ao lado do STF que, por erros próprios, se tornou uma instituição pária da República indigente do lulopetismo. 

Mas veja só, Lula está sendo orientado a tentar se afastar do Supremo, a criticar a Corte e demonstrar independência. Improvável que consiga, porque os fatos são teimosos. Não tem como dissociar Lula do STF ou o STF da imagem do presidente. Juntos formaram o mais tenebroso consórcio de poder, que atropelou a Constituição, aviltou o poder do Congresso Nacional, perseguiu, prendeu ou levou ao exílio críticos do governo e da Corte, cerceou liberdades fundamentais, reinstituiu a perseguição política como ferramenta de abuso de poder e fez um país inteiro voltar a ter medo dessa Brasília fora da lei. Como irmãos siameses, não há separação possível para o cidadão minimamente atento, aquele que Lula só enxerga como eleitor. Por mais que insistam os marqueteiros do Palácio do Planalto, Lula é o STF e o STF é Lula. 

Basta ver como tem sido seu terceiro mandato. Um levantamento feito no ano passado mostrou que a “taxa de sucesso” do governo federal no Supremo Tribunal Federal chega a 90%. De todos os debates, diretamente propostos ou nos que a Advocacia-Geral da União estava de alguma maneira envolvida, o STF foi favorável ao governo federal em 9 de cada 10 julgamentos. Um desses casos foi um verdadeiro tapa na cara da sociedade, um acinte à crença nacional no modelo republicano que a própria Constituição de 1988 consagrou: a separação dos Poderes. Em maio de 2025, movido pela própria sanha arrecadatória, o governo Lula aumentou o IOF por decreto. 

O que era um imposto meramente regulatório foi transformado em arrecadador, aumentando a carga tributária sem autorização do Legislativo. Logo no mês seguinte, em junho, o Congresso deu a resposta institucional que lhe cabia, ao ser o devido fiscal do Executivo: derrubou o decreto com vasta maioria, alegando que a medida era apenas arrecadatória, impondo uma derrubada de decreto presidencial que não acontecia em 30 anos, desde o governo Collor. Era para terminar ali. As instituições estavam funcionando de acordo com o que a Constituição prevê: o governo editou um decreto, o Congresso considerou ilegal, abusivo e o reprovou no voto. Mas em julho entra em cena o STF, no absurdo papel de gerente-geral do Brasil. Vendo que Lula havia perdido no voto, o ministro Alexandre de Moraes concedeu liminar anulando todas as decisões, do decreto do governo à rejeição do Congresso. Dias depois, ele próprio editaria uma decisão majoritariamente favorável ao governo federal, ignorando a decisão de 513 deputados e 81 senadores eleitos e com mandato popular. Lula ganhou no tapetão estendido pelo parceiro dentro do Supremo.


A decisão do ministro atropela a vontade do Congresso Nacional para garantir uma vitória política de Lula no tapetão do STF - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasi

Era apenas mais uma decisão de um modus operandi de proteção total a Lula. Ainda em dezembro de 2023, o STF já declarara inconstitucional o teto de pagamentos de precatórios criado em 2021, no governo Bolsonaro, e aprovado pelo Congresso. Por 9 a 1 (só o ministro André Mendonça votou contra), o governo Lula pôde retirar das regras fiscais o pagamento dos precatórios até 2026, algo que notoriamente favorecia apenas o governo petista. Apenas entre 2023 e 2024, foram R$ 95 bilhões gastos com precatórios fora do orçamento. Gasto é gasto, não importa se recebeu um outro nome ou se foi autorizado por decisão do STF. É dívida que será paga algum dia pelo contribuinte. A prática se repetiria na seara econômica. 

Em 2024, o rombo foi considerado menor porque o mesmo Supremo permitiu ao governo não incluir na conta fiscal os gastos relacionados à tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul, fazendo o déficit cair de R$ 42 bilhões para R$ 11 bilhões, dentro do limite permitido pela lei. O Supremo veio sempre em socorro do governo Lula para contornar derrotas no Congresso, mesmo com pública compra de votos com cargos e emendas. Mas, sobretudo, as decisões do STF evitaram que Lula respondesse por crime de responsabilidade num processo de impeachment. Que outro governo teve tamanha bondade e dedicação? 

Bolsonaro teve o comando do enfrentamento à pandemia retirado do Ministério da Saúde, foi impedido de nomear seu diretor-geral da Polícia Federal (PF) e enfrentava prazos curtíssimos para explicar cada uma de suas ações como chefe do Executivo a um Supremo sem limites. Lula colocou seu chefe de segurança da campanha na PF, estourou o orçamento em todos os anos de governo, afrontou os valores da diplomacia nacional ao se aliar a ditaduras e o STF nunca sequer lhe fez um questionamento.

O consórcio Lula-Supremo foi a estrela do terceiro mandato. Lula nunca o negou ao dizer que jamais conseguiria governar sem a simpatia da Corte, que não lhe negou decisões monocráticas ou do colegiado para impor uma maioria que nunca teve no Congresso. A eleição de 2022 foi uma excrescência, não há como negar. A malfadada tese do CEP de Curitiba, uma invenção do ministro Edson Fachin, hoje o presidente da Corte, e posteriormente referendada pela maioria dos ministros, praticamente anulou o trabalho de três instâncias da Justiça na Operação Lava Jato. E tinha um objetivo certo: a reabilitação política de Lula que, ao ter anuladas as condenações e ser libertado da prisão — o processo voltou à estaca zero — recuperou a elegibilidade. 

Ali, o Supremo perdeu o prurido institucional, que recomenda distanciamento e apreço pela lei, e degringolou a se envolver em tudo. A demonstração pública da aliança já não tinha autocontenções. Luís Roberto Barroso, quando presidia a Corte, foi a um congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), uma agremiação de extrema esquerda, e ao lado de Flávio Dino, então ministro da Justiça de Lula, disse, sem ruborizar a face, a famosa frase “derrotamos o Bolsonarismo”. O próprio Alexandre de Moraes, que coleciona várias cenas de cochichos com Lula — o último no lançamento do canal de notícias SBT News, na sede do grupo em Osasco, em São Paulo, já recebeu homenagens oficiais do gabinete de Lula. Mas uma cena em específico resume o desmonte da institucionalidade pelas partes. 

Em dezembro de 2023, o ministro compareceu a um evento no Palácio do Planalto, depois de ter dado 120 dias para o governo federal apresentar um plano para a população em situação de rua. Atenção ao prazo: 120 dias! Mas esse nem é o principal aspecto que separa o STF de Lula do que perseguiu Bolsonaro e a direita. Ao se dirigir para fazer seu discurso, o ministro levou um tapa nas contas de Janja, no mais deslavado estilo “brother”. 

O gesto da primeira-dama, que sorria enquanto demonstrava sem pudor a intimidade palaciana com o ministro, foi uma bofetada na separação dos Poderes e no devido pudor entre autoridades, enquanto a plateia obediente de correligionários gritava “Xandão” e “Sem Anistia”. Até o mais concessivo deputado constituinte que escreveu o texto de 1988 ficaria perplexo. Os brasileiros de hoje mantêm seu estado de choque, horror e insistência para recuperar o país e suas instituições de seus sequestradores.

O ministro Alexandre de Moraes, do STF, cumprimenta Lula e a primeira-dama Janja, durante evento 


no Palácio do Planalto – 11/12/2023 - Foto: Jose Cruz/Agência BrasilO ministro Alexandre de Moraes, do STF, cumprimenta Lula e a primeira-dama Janja, durante evento no Palácio do Planalto – 11/12/2023 - Foto: Jose Cruz/Agência Brasil


Em eleição, para aliados do STF, pode-se tudo. Se a estratégia de fingir distanciamento entre os parceiros de consórcio vai funcionar ou não, o eleitor dirá. Mas o fato que não desaparece com a mágica desavergonhada do marketing político é que Lula e o PT empilham os maiores escândalos de corrupção da história brasileira. O Supremo Tribunal Federal agora tem um para chamar de seu, o do Banco Master. Mas consórcio que se preze não abandona o parceiro. Como mostrou a reportagem de Edilson Salgueiro, no site de Oeste nesta semana, o governo Lula está umbilicalmente ligado ao banqueiro preso Daniel Vorcaro, ao Master e a todo o resto, dos políticos petistas da Bahia, passando por assessores palacianos, até os ministros mais encalacrados da Corte.


Adalberto Piotto - Revista Oeste

'Cara de paisagem', por Augusto Nunes e Cristyan Costa

 Moraes acha que o Brasil vai esquecer os R$ 129 milhões


Sessão solene de posse do ministro Nunes Marques na Presidência do TSE (12/5/2026) | Foto: Foto: Luiz Roberto/TSE

A té a virada do século, a cerimônia de posse do novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, sempre realizada em Brasília, não era mais atraente que uma festa de batizado. Dois ou três juízes amigos do anfitrião compunham a mesa reservada a autoridades. A plateia, formada pela mulher e pelos filhos, costumava ser engrossada por meia dúzia de jovens parentes, todos rezando para que a coisa terminasse antes do jogo de futebol na TV. Jornais e revistas não desperdiçavam espaço com um evento enfadonho e tão previsível quanto a mudança das estações. A cada dois anos, um ministro togado acumula as funções de chefe do TSE. 

O que os dois tribunais andaram fazendo nos últimos seis anos transformou o que era um monumento ao tédio num acontecimento histórico, soube neste 12 de maio o país real. Na Ilha da Fantasia, promovida a capital federal, tambores e clarins que saudaram a ascensão de Nunes Marques anunciaram que o dia da troca de guarda no TSE agora figura entre as datas mais relevantes do calendário do poder. Os ministros togados, fortalecidos pelo consórcio com o PT, fizeram do antigo puxadinho do Supremo seu musculoso braço eleitoreiro.



Sessão solene de posse do ministro Nunes Marques na Presidência do TSE (12/5/2026) - Foto: Foto: Luiz Roberto/TSE

Enquanto o país endividado trabalhava, a Ilha da Fantasia saboreava o feriado que só existiu por lá. Feriado ou “ponto facultativo”, essa brasileiríssima invencionice. Não é obrigatório ficar distante do emprego. Quem quiser suar a camisa pode dirigir-se ao local de trabalho sem risco de punição. O problema é que topará com o portão fechado por alguém que concordou com a escolha feita por todos os outros funcionários: melhor descansar. Também mandaram o serviço às favas o presidente da República, o presidente do Senado, o presidente da Câmara, ministros do Supremo ou do governo e outros integrantes da alta sociedade de Brasília. 

Essa nobreza de botequim percorreu o caminho balizado por duas alas de Dragões da Independência, tropa de elite criada em 1808 por D. João VI para ornamentar solenidades especiais. Como num quadro pintado por Pedro Américo de ressaca, o colorido uniforme dos Dragões emoldurou a passagem dos grandes do reino. Lula chegou com Janja à sua esquerda e a mão direita entrelaçada com a esquerda de Cármen Lúcia. Gilmar Mendes desfilou em companhia de Morgana de Almeida, a nova namorada do decano. Ele, de terno escuro-brasília, ela trajando um vestido longo de nova-rica. Também percorreram a trilha o ministro Alexandre de Moraes e a advogada Viviane Barci. 

O casal exibia o meio sorriso do novo multimilionário, impedido de escancarar a felicidade decorrente da fortuna cuja origem Moraes e Viviane acham melhor esconder. Como se o contrato de R$ 129 milhões continuasse guardado em sigilo. Como se milhões de brasileiros inconformados com o tsunami de bandalheiras logo esquecerão que a mulher advogada ficou rica porque o marido ministro foi alugado, comprado ou arrendado para proteger Daniel Vorcaro. No esforço para fingir que sabe ser delicado, Moraes cumprimentou com um beijo no rosto uma Michelle Bolsonaro visivelmente constrangida — como se ninguém soubesse que o Primeiro Carcereiro sonha com a morte dos seus perseguidos favoritos. Jair Bolsonaro, por exemplo. Ou Filipe Martins. 


O ministro Floriano de Azevedo Marques (à esq,) fuma charuto ao lado do procurador-geral da República, Paulo Gonet, durante festa pós-posse de Nunes Marques na presidência do TSE – 12/5/2026 - Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste 


Folha de São Paulo - A festa em comemoração à posse de Kassio Nunes Marques na presidência do TSE teve show de mestres do samba, com direito a palinha do magistrado, adaptações nas letras de clássicos do estilo musical e poucos ministros do STF presentes. Além de Kassio e do ministro André Mendonça, que tomou posse como vice-presidente do TSE, só estava presente o decano da corte, ministro Gilmar Mendes. #politica #videosdafolha 📲Leia mais na #Folha: folha.com/poder 📝Ana Pompeu e Luísa Martin


“Ele não tem equilíbrio para ser juiz”, disse em entrevista à Oeste o exministro do Trabalho Almir Pazzianotto. “Não pode exercer as funções de magistrado alguém que se sente feliz com o sofrimento das pessoas que condena. É um homem mau, perverso.” Durante a festa que se seguiu à cerimônia de posse e esticou a noitada, Moraes cumprimentou meio mundo com a naturalidade de quem só não tem 1 milhão de amigos porque o excesso de trabalho encurta o tempo que preferiria reservar à vida social.

“Brasília piora as coisas”, disse Pazzianotto. “Lá não existe povo. Se o Rio ainda fosse a capital do país, essa espécie de ministro saberia o que os brasileiros acham das coisas que fez.”

Fez e continua fazendo, constata a reportagem de capa desta edição. Há mais de seis anos, Moraes trata a Constituição a socos e pontapés, viola normas do regimento interno, prolonga inquéritos já grisalhos, estupra com entusiasmo patológico os códigos legais, garante a prosperidade dos fabricantes de tornozeleiras eletrônicas, prende septuagenários inocentes e inofensivos, impõe multas de assustar um Daniel Vorcaro — faz o diabo, enfim, para eternizar a insegurança jurídica e deixar claro que a lei é ele. Não é pouca coisa. Mas o ministro sempre tenta superar-se: Moraes resolveu ignorar que o PL da Dosimetria foi aprovado pelo Congresso, promulgado pelo presidente do Senado e, depois disso, entrou imediatamente em vigor. 

Vai fazer o que pode e o que não pode para que a lei seja declarada inconstitucional. Quem age assim é um fora da lei que se considera a própria lei. Impeachment é pouco. O ministro sem juízo tornou-se um caso de polícia. Antes que a instituição seja destruída pelo comportamento dos próprios integrantes, o STF precisa livrar-se de togas afetadas pela demência. 

Nos anos 1960, Nelson Rodrigues avisou que os idiotas haviam perdido o pudor e estavam por toda parte. Nesta terceira década do século 21, sobram evidências de que a epidemia contaminou os governos e ganhou dimensões perturbadoras quando figuras que babam na gravata se tornaram larápios compulsivos. Neste momento, o Brasil é assolado pela ladroagem pandêmica. Os corruptos perderam a vergonha de vez e aparecem por toda parte. Pelo menos dois deles estão homiziados no Supremo.


Lula, Viviane Barci e Alexandre de Moraes - Brasil meliante ri à toa- Foto: Flickr/STF


Augusto Nunes e Cristyan Costa - Revista Oeste

'Os 825 dias de Filipe Martins', por Ana Paula Henkel

Caso revela o estado das instituições de um país em que o poder já não parece encontrar limites claros diante daqueles que se tornaram alvos políticos



O ex-assessor do governo Bolsonaro Filipe Martins, durante julgamento na 1ª Turma do STF – 9/12/2025 - Foto: Rosinei Coutinho/STF


A lguns casos deixam de tratar apenas do destino de um homem e passam a revelar, de forma profunda e incômoda, o verdadeiro estado das instituições de um país, especialmente quando o poder já não parece encontrar limites claros diante daqueles que se tornaram alvos políticos. O caso de Filipe Martins chegou a esse ponto. 

Há 825 dias, o ex-assessor internacional da Presidência da República vive privado de liberdade. Desses, 805 dias foram cumpridos sob prisão preventiva. Primeiro, por uma viagem aos Estados Unidos que jamais ocorreu. Depois, por um suposto acesso ao LinkedIn que, segundo relatório técnico produzido pela própria Microsoft, nunca existiu. A essa altura, já não se trata apenas de discutir divergências políticas, simpatias ideológicas ou interpretações jurídicas. O que está em questão é algo muito mais sério: a capacidade de uma democracia preservar limites mínimos de proporcionalidade, humanidade e respeito às próprias leis. 

Em meio a esse processo, marcado por acusações posteriormente desmentidas, longos períodos de isolamento e sucessivas medidas excepcionais, Filipe Martins resumiu em poucas palavras aquilo que talvez melhor explique não apenas sua postura pessoal diante do cárcere, mas também a dimensão moral e humana de tudo o que está acontecendo:

“Não delatei, eu não delato e eu não irei delatar, porque não há o que delatar. E eu não falarei mentiras. Não falarei nada que possa causar injustiça ao presidente, a outras pessoas, a quem quer que seja. Eu preferiria — como prefiro até hoje — sofrer uma injustiça a ser injusto com outra pessoa, porque isso é o que importa. Eu não respondo apenas à minha consciência. Eu respondo também a Deus e sei que prestarei contas dessas coisas.”


Ana Paula Henkel - Los Angeles, 1h35 da manhã. Aqui finalizando meu artigo para a edição que sai daqui a pouco da Revista Oeste, fui checar umas passagens da audiência do Filipe Martins e não tem como não se emocionar e agradecer por ainda termos homens dessa estirpe no mundo: 

““Quando eu ia conversar com o Presidente (Bolsonaro), tudo o que eu via era um homem preocupado com o Brasil. Jamais, jamais, eu me dignaria a falar mentiras contra um homem que eu jamais vi fazer coisa errada, que teve a vida toda revirada, processo após processo tem sido engavetado, tem sido arquivado, porque não encontram nada. Então, eu jamais me dignaria a fazer isso (delatar) e deixei de forma muito clara: não delatei, não irei delatar e não fiz isso porque não há o que delatar. E eu não falarei mentiras. Não falarei nada que possa causar injustiça ao Presidente, a outras pessoas, a quem quer que seja. Eu preferia, como prefiro até hoje, sofrer uma injustiça do que ser injusto com outra pessoa – porque isso é o que importa. Eu não respondo apenas à minha consciência. Respondo também a Deus e sei que prestarei contas dessas coisas.” 

🇧🇷 O Brasil ainda tem jeito porque ainda tem homens da estirpe de Filipe. ❤️🌹 Salve, Filipe & Ane! Um beijo para vocês. View all 2,928 comments Add a comment...


A prisão de Filipe pode ser compreendida em quatro etapas distintas, cada uma delas marcada por um nível crescente de excepcionalidade e ilegalidades. 

A primeira e a segunda fase O início do martírio de Filipe teve início em 8 de fevereiro de 2024, quando foi preso preventivamente sob a alegação de que teria deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos em 30 de dezembro de 2022. A suposta viagem serviu como fundamento para sustentar risco de fuga. Entretanto, ao longo dos meses seguintes, tornou-se evidente que a viagem jamais havia acontecido. 

A narrativa utilizada para justificar a prisão começou a ruir à medida que surgiam questionamentos graves sobre documentos apresentados no processo e sobre a própria sustentação factual da acusação. Até que isso viesse plenamente à tona, porém, Filipe permaneceu encarcerado por mais de seis meses. Grande parte desse período foi cumprida no Complexo Médico Penal, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. 

Segundo relatos da defesa, aqueles meses foram marcados por intensa pressão psicológica, isolamento e tentativas reiteradas de obtenção de uma delação. Entre os episódios mais graves está a permanência de Filipe por dez dias em uma cela sem iluminação, prática vedada pela legislação brasileira e tratada por convenções internacionais como tratamento degradante incompatível com a dignidade humana.


início do martírio de Filipe teve início em 8 de fevereiro de 2024, quando foi preso preventivamente sob a alegação de que teria deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos  Foto: Shutterstock 

Em 2025, o CBP (Customs and Border Protection), a principal agência de controle de fronteiras dos Estados Unidos, emitiu um documento oficial atestando que Filipe Martins nunca havia entrado no país na data alegada, ou sequer em datas posteriores.

Após mais de seis meses de prisão preventiva e diante do colapso da tese da suposta fuga internacional, Filipe foi transferido para prisão domiciliar em agosto de 2024. A mudança de regime, entretanto, não representou uma retomada mínima de normalidade.

Começava ali a segunda etapa de sua prisão. Mesmo depois de demonstrado que não havia ocorrido qualquer viagem aos Estados Unidos e, portanto, não existia fundamento concreto para sustentar risco de fuga, Alexandre de Moraes impôs um conjunto de restrições que praticamente eliminou a existência pública de Filipe Martins. Ele passou a ser monitorado 24 horas por dia, foi proibido de conceder entrevistas, fazer manifestações públicas, participar de audiências no Congresso Nacional e até mesmo de ser fotografado ou filmado por terceiros. 


Na prática, instaurou-se uma espécie de morte civil. 

Durante dezesseis meses, entre agosto de 2024 e janeiro de 2026, Filipe viveu submetido a um isolamento político e social absoluto, afastado da vida pública e impedido até mesmo de exercer atividades que qualquer cidadão em liberdade normalmente exerce sem restrições. 


A terceira etapa 

Em 2 de janeiro de 2026, Filipe voltou a ser preso. O motivo alegado foi uma suposta violação das medidas cautelares por meio de um acesso ao LinkedIn, rede social da Microsoft voltada a contatos profissionais e busca de emprego. Apenas quatro dias depois, a própria Microsoft apresentou relatório técnico informando que o acesso atribuído a Filipe jamais havia ocorrido. Pela segunda vez, ele estava preso com base em uma acusação comprovadamente falsa. 

Mas havia um elemento ainda mais grave nessa nova prisão. 

Em 2024, Filipe havia sido levado para a superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Em janeiro de 2026, os policiais federais o encaminharam diretamente para a Cadeia Pública de Ponta Grossa, uma unidade marcada por graves problemas estruturais, superlotação e presença predominante de integrantes de facções criminosas como PCC, Comando Vermelho e Cartel do Sul.

Segundo relatos de funcionários da própria unidade, Filipe chegou durante a troca de plantão, sem esclarecimentos adequados sobre sua condição e inicialmente tratado como preso comum. Somente após esclarecimentos prestados pelo próprio Filipe e diante da repercussão pública do caso é que os agentes penitenciários compreenderam melhor a situação e decidiram separá-lo da massa carcerária para preservar sua integridade física. 

Ainda assim, ele permaneceu durante dias em uma das cadeias mais perigosas do Paraná. O próprio Departamento Penitenciário do Estado reconheceu formalmente os riscos envolvidos. Relatórios internos apontaram ameaça concreta à integridade física e moral de Filipe caso permanecesse na unidade. Ao analisar a situação, o próprio Departamento Penitenciário apontou riscos concretos à integridade física e moral de Filipe caso ele permanecesse em Ponta Grossa. A transferência foi realizada no dia 6 de janeiro de 2026, e Filipe retornou ao Complexo Médico Penal, onde já havia estado preso anteriormente. 

Após a passagem de Filipe pela unidade em 2024, o Complexo Médico Penal havia passado por reformas e intervenções estruturais. O ambiente encontrado em 2026 era significativamente melhor do que aquele de sua primeira passagem e também muito superior às condições da Cadeia Pública de Ponta Grossa.

Mas a permanência ali durou pouco. 

Após cerca de dois meses, Filipe foi surpreendido por uma nova determinação de Alexandre de Moraes ordenando sua transferência de volta para a Cadeia Pública de Ponta Grossa. Tanto a defesa quanto o Departamento Penitenciário do Paraná contestaram a decisão. O setor de inteligência penitenciária produziu relatórios apontando riscos concretos para a vida de Filipe caso ele permanecesse na unidade, além de invocar o dever estatal de proteção à integridade de todos os custodiados. 

Nada disso alterou a decisão.

A Cadeia Pública de Ponta Grossa é considerada uma das unidades mais perigosas do Paraná. Instalado em um prédio antigo, originalmente projetado para aproximadamente 250 presos, o local atualmente abriga mais de mil detentos. 

Com o retorno de Filipe, a direção da unidade se apressou para improvisar um espaço isolado no chamado “quintal” do presídio. Com mão de obra de outros presos, foi construída às pressas uma cela de aproximadamente quatro metros quadrados, equipada apenas com uma cama de concreto e aparelho sanitário individual. 

A porta foi improvisada com uma chapa metálica. As paredes receberam acabamento precário, com chapisco pintado de verde. Tudo foi executado de maneira acelerada diante da urgência imposta pela decisão judicial. A legislação brasileira estabelece que celas prisionais devem possuir, no mínimo, seis metros quadrados. O mesmo parâmetro aparece em normas internacionais de direitos humanos. Há mais de 70 dias, ele permanece isolado nesse espaço. E as últimas semanas agravaram ainda mais a situação. Fortes chuvas atingiram a região e a água passou a invadir a cela. 

Houve infiltrações, goteiras e umidade intensa. A água passou a entrar pela abertura da porta. Surgiram infiltrações e goteiras. Parte da água escorria inclusive pelo teto, próximo à lâmpada da cela, atingindo a cama e os poucos pertences pessoais de Filipe. Mesmo diante dessas condições, Filipe optou inicialmente por não reclamar. Segundo relatos de seus advogados, ele tentou resolver internamente o problema das infiltrações para evitar preocupação adicional à esposa, à filha pequena, aos pais e aos amigos próximos. Pediu inclusive que os advogados não comentassem nada com sua mulher.

Mas sua saúde acabou cedendo e seu estado piorou rapidamente. 

Quando os advogados insistiram em atendimento médico, veio o diagnóstico: inflamações severas na laringe e na faringe comprometimento das cordas vocais e risco de broncopneumonia bilateral decorrentes da exposição prolongada à friagem e à umidade.



Filipe Martins durante julgamento da Ação Penal 2.693 – Núcleo 2 (9/12/2025) - Foto: Rosinei Coutinho/STF


Nada disso deveria ser tratado como normal. 

Filipe sequer deveria estar na Cadeia Pública de Ponta Grossa. A própria legislação brasileira determina, em seu artigo 102 da Lei de Execução Penal, que cadeias públicas destinam-se ao recolhimento de presos provisórios. A unidade funciona como espaço de triagem e trânsito dentro do sistema penitenciário, servindo para avaliação inicial dos custodiados antes da transferência para estabelecimentos mais adequados ao perfil de cada preso. 

Mesmo assim, apesar dos relatórios oficiais do Departamento Penitenciário, dos alertas do setor de inteligência e dos insistentes pedidos da defesa, Alexandre de Moraes determinou que Filipe cumprisse pena justamente naquela unidade. 

Independentemente da posição política de qualquer cidadão brasileiro, existe uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: até onde pode ir o poder do Estado? Porque o problema central já não é apenas Filipe Martins. O problema é o precedente que está sendo criado diante dos olhos do país.


A quarta fase 

Após 805 dias de prisão preventiva, Moraes decretou o trânsito em julgado da condenação em 24 de abril de 2026 do julgamento do suposto golpe e iniciou imediatamente a execução da pena. Em 14 de maio, esse período já completava 20 dias. 

Na prática, entretanto, Filipe já acumulava mais de 70 dias de isolamento quase absoluto na cela improvisada de quatro metros quadrados. 

O isolamento só é interrompido por visitas de advogados, pela visita semanal de sua esposa e, ocasionalmente, por visitas de parlamentares autorizadas por apenas uma hora. Filipe também foi impedido de manter contato regular com líderes religiosos, como padres e pastores, embora esse tipo de assistência seja normalmente permitido aos demais presos da unidade. 

Além disso, sua filha de apenas seis anos, que o visitava regularmente no Complexo Médico Penal, deixou de poder vê-lo. Outros presos da Cadeia Pública de Ponta Grossa recebem visitas de filhos ao menos uma vez por mês. Filipe, não. Até mesmo o contato com advogados foi restringido. Apenas profissionais formalmente habilitados no processo conduzido por Alexandre de Moraes podem conversar com ele, o que impede acesso a advogados responsáveis por outras ações, inclusive no exterior, como o processo que busca obter dados do sistema migratório americano. 

Enquanto isso, outros réus do chamado processo da trama golpista cumprem pena em casa ou em celas significativamente maiores e estruturalmente melhores. Anderson Torres e Silvinei Vasques, por exemplo, ocupam espaços de aproximadamente 65 metros quadrados — 16 vezes maiores do que a cela onde Filipe permanece isolado.


A “justiça” de Moraes na vala escura da história 

O problema é o precedente da perseguição contra Filipe, um dos presos favoritos do ministro Alexandre de Moraes e de sua absoluta falta de postura institucional, ética e humana. É o fato de um homem permanecer mais de 800 dias privado de liberdade em um processo cercado de medidas excepcionais, acusações posteriormente desmentidas e restrições incompatíveis com garantias fundamentais que deveriam existir em qualquer democracia madura.

Democracias não morrem apenas quando eleições deixam de existir. Muitas vezes, começam a se deteriorar quando o poder estatal passa a agir sem freios claros, quando garantias fundamentais se tornam flexíveis dependendo do alvo político e quando parcelas da sociedade passam a aceitar tratamentos degradantes, desde que dirigidos contra pessoas consideradas inconvenientes. 

A história mostra que esse tipo de lógica nunca permanece restrito ao alvo inicial. Toda vez que sociedades relativizaram garantias legais em nome de emergências políticas, paixões ideológicas ou desejos de punição exemplar fora das leis, o resultado final foi sempre o mesmo: o enfraquecimento gradual das próprias instituições que afirmavam defender. 

O Estado de Direito deixa de existir não apenas quando leis são formalmente abolidas, mas quando elas passam a ser aplicadas de maneira seletiva, elástica ou subordinada à conveniência do momento político. 

E talvez seja justamente isso que torne o caso de Filipe Martins tão simbólico. Ele já não fala apenas sobre um homem preso, mas sobre os limites do poder. E sobre o silêncio de uma sociedade anestesiada diante deles.


Foto: Shutterstock


Ana Paula Henkel -  Revista Oeste

'Alexandre de Moraes, o homem de R$ 129 milhões, não quer paz', escreve Cristyan Costa

Ao suspender a Lei da Dosimetria, o cara de R$ 129 milhões frustra presos do 8 de janeiro e seus familiares, que mal tiveram tempo de comemorar a aprovação no Senado




Ministro Alexandre de Moraes - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


N a tarde de 8 de maio, familiares dos envolvidos no 8 de janeiro que sonhavam com a anistia celebraram a promulgação da Lei da Dosimetria pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), depois de o Congresso ter derrubado os vetos integrais do presidente Lula ao texto aprovado pelo Parlamento. A redução de penas, a progressão de regime e a revisão de condenações desproporcionais finalmente passariam a valer para pessoas como Débora Rodrigues, conhecida por ter escrito com batom as palavras “Perdeu mané” na estátua da Justiça. Os 14 anos que a 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) fixou para a cabeleireira de Paulínia (SP), por exemplo, cairiam para pouco mais de três. Em outras situações, como a da suposta trama golpista, o ex-presidente Jair Bolsonaro cumpriria 19 anos, em vez de 27. 

O sonho dos presos se tornou um pesadelo em menos de 48 horas. Isso porque o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes suspendeu os efeitos da nova lei e congelou pedidos de soltura, que àquela altura somavam aproximadamente 30. Nos bastidores do STF, o volume de processos mexeu com os ânimos do ministro, que costuma ficar “implicante quando cisma com alguma coisa”, conforme disse um servidor de seu gabinete. A justificativa oficial dada por Moraes, contudo, é a da “necessidade de garantir segurança jurídica”. O magistrado observou, no despacho, que havia ações de partidos de esquerda interpelando a constitucionalidade da lei no STF, o que o impediu de atender às defesas. Por isso, para ele, permitir a aplicação imediata do dispositivo, antes de o STF julgar os outros casos, poderia provocar uma “sucessão de revisões”. 

A lei havia sido construída ao longo de meses de negociações políticas e jurídicas em Brasília. O texto contou com discussões envolvendo parlamentares, juristas e gente do STF. Ainda em 2024, em entrevista à Revista Oeste, o ex-presidente Michel Temer já havia sinalizado que o tribunal caminhava para rever, ao menos parcialmente, as penas impostas aos condenados. “Vejo que a atual postura do STF tem sinalizado no sentido de que, num futuro próximo, não é improvável que haja diminuição do tempo que essas pessoas ficarão presas”, observou Temer. 

Nos bastidores da articulação, ele participou diretamente das conversas sobre a proposta e chegou a telefonar para os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, em um encontro, para redesenhar um projeto de lei sem muita sustância do deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RJ). O texto de Crivella se tornou a opção de consenso entre a oposição e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), responsável por pautar a medida com urgência e encerrar quanto antes o assunto do 8 de janeiro.


Michel Temer e o ministro do STF Alexandre de Moraes - Foto: Valdenio Vieira/PR

Limbo jurídico Como ainda não há data para o STF deliberar a respeito dos questionamentos apresentados por Psol, PT, Rede, PCdoB e PV, os manifestantes, cujas vidas estão suspensas há três anos, entram agora numa espécie de limbo jurídico. Na avaliação de um ministro da Corte ouvido reservadamente pela reportagem, o argumento de Moraes “não para de pé”. Como a lei foi aprovada pelo Congresso Nacional, teve os vetos derrubados e acabou promulgada pelo presidente do Senado, ela passou a “gozar plenamente de presunção de constitucionalidade”, afirmou o magistrado. 

Por essa lógica, Moraes poderia ter autorizado que os pedidos de revisão de pena fossem analisados em lotes, como ocorreu nos julgamentos de condenação, decidir analisar caso a caso ou levar tudo aos plenários físico ou virtual, sobretudo nos processos que já se encontram em fase de execução penal. Posteriormente, o STF arquivaria os requerimentos da esquerda, que já teriam perdido efeito diante das modulações das penas. Um ministro do STF acrescentou a Oeste que existe “o princípio da retroatividade da norma penal mais benéfica”, previsto na Constituição e no Código Penal. Ou seja: se uma nova regra penal for mais favorável ao réu ou condenado, ela pode ser aplicada a fatos ocorridos anteriormente. “A tendência natural seria permitir a aplicação imediata das novas regras aos condenados do 8 de janeiro, principalmente nos casos sem violência direta, liderança ou financiamento dos atos”, observou o ministro. 

A reação de Moraes surpreendeu parte da classe política e até ministros do STF, porque a proposta nada mais era que um “acordão” entre os Poderes, que rejeitavam a anistia pura. Lideranças do centrão dizem que a construção da lei ocorreu justamente para produzir uma saída institucional “menos traumática, que agradasse a gregos e troianos”. O ato do ministro rompeu esse ambiente de acomodação política construído nos últimos meses. Integrantes do Congresso passaram a relatar perplexidade com a suspensão imediata da lei, especialmente após negociações durante a tramitação do texto. O desconforto atingiu inclusive integrantes do Supremo. “Em se tratando dele, é difícil prever qualquer coisa”, disse um juiz do STF.


Vidas suspensas 

O alcance da decisão de Moraes ajuda a explicar a tensão criada entre Legislativo e Judiciário. Atualmente, há 190 presos por causa do protesto, dos quais 111 cumprem pena em regime fechado e outros 55 em casa. A nova lei poderia alterar diretamente a situação de parte deles, principalmente nos casos envolvendo réus sem liderança, financiamento ou participação comprovada em atos de violência. De acordo com o mais recente relatório do STF, 1.402 pessoas já foram responsabilizadas. Destas, 431 receberam penas privativas de liberdade (reclusão ou detenção). Outras 58 tiveram punição de 17 anos de prisão.


Débora Rodrigues, o marido Newton dos Santos e os filhos Caio e Rafael - Foto: Rodrigo Prata/Revista Oeste

Enquanto o STF não define o que fazer, as defesas dos presos buscam saídas alternativas para assegurar a soltura dos manifestantes. Advogados começaram a solicitar atestados de pena atualizados aos presídios, relatórios de trabalho e leitura a fim de computar remição e prontuários médicos que possam sustentar requerimentos de prisão humanitária. Com suas solicitações negadas por Moraes, o advogado Hélio Júnior, que cuida do caso de Débora, lamentou o tratamento dado a cabeleireira. Ele observou que criminosos bem mais perigosos conseguiram ao menos o regime semiaberto ao cumprirem a pena, entre eles, Suzane von Richthofen e Cristian Cravinhos, além do casal Nardoni. 

A prometida pacificação virou mais um capítulo da guerra entre os Poderes. E o país que aguardava uma solução institucional para o 8 de janeiro terminou novamente dependente da decisão de um único homem.


Cristyan Costa - Revista Oester

A Escola Austríaca e a direita moderna: Por que a economia importa (Parte II) - Thomas Woods

 

Nota da edição:

O texto a seguir é uma transcrição de uma palestra proferida pelo historiador, pensador e comentarista político Tom Woods, fellow do Mises Institute, na Mises University de 2025. Nela, o autor tece críticas importantes a conservadores e a outros setores da direita que não valorizam o estudo da economia.

O artigo foi dividido em duas partes. Leia a parte I aqui.

Ele também faz parte do e-book recentemente lançado pelo IMB, Ignorar a Economia tem Consequências, onde você pode ler o texto na íntegra.


Soluções milagrosas

Eu espero que pessoas da esquerda política busquem milagres por meio de intervenções econômicas. A abordagem da esquerda americana em relação à economia é a de que desejar algo é suficiente para torná-lo realidade. Queremos que os trabalhadores tenham este ou aquele benefício? Aprovem uma lei. Queremos salários mais altos? Aprovem uma lei. Queremos menos pobreza? Aprovem uma lei. Não há qualquer reflexão sobre possíveis efeitos colaterais dessas intervenções. Parte-se simplesmente do pressuposto de que elas alcançarão seus objetivos declarados, e que nada mais precisa ser considerado. Da mesma forma, não se leva em conta se existem restrições físicas em jogo. Se simplesmente aprovar uma lei ou intervir na economia pudesse gerar riqueza a partir da pobreza, Bangladesh já não teria tentado isso? Sem falar que não haveria motivo para ajuda externa se tudo o que precisassem fazer fosse aprovar uma lei fortalecendo sindicatos ou estabelecendo um salário mínimo. Bem, esse é um mau exemplo, porque não há motivo algum para ajuda externa. Ela é desastrosa, e tudo o que produz é desastre. Mas você entende onde quero chegar.

Quando ouço esse tipo de raciocínio vindo da direita, essa ideia de que existe um botão mágico que bastaria Jerome Powell apertar, mas ele é mesquinho e, por algum motivo, teria um fetiche pelo sofrimento humano e por isso se recusa a apertá-lo, isso soa como a deputada AOC. Não é assim que alguém de direita deveria falar. Esse é o tipo de coisa de que alguém de direita deveria rir. Seria ótimo viver em um mundo em que uma instituição criada pelo governo, como o Fed, tivesse esse botão. Então, por favor, não me façam defender Jerome Powell. Eu não quero. Não estou dizendo que ele seja um sujeito particularmente bom. Estou dizendo que esse não é o ponto. Não há motivo para alguém da direita política simpatizar com a ideia de que a prosperidade americana, assim como a estabilidade da economia dos Estados Unidos, dependa de intervenções monetárias conduzidas por tecnocratas com seu planejamento central. Isso contraria a maneira como um conservador deveria enxergar o mundo. O que deveria ressoar com ele, em vez disso, é a ideia de que existe uma ordem natural das coisas que nenhum intelectual, por mais tomado pela arrogância, é capaz de subverter.

É a esquerda que está constantemente em guerra com a ordem natural. É Alexandria Ocasio-Cortez quem acredita que desejar um resultado e respaldar esse desejo com a força do estado é tudo o que é necessário para alcançá-lo. Lembro às pessoas do movimento MAGA: ela não é brilhante. Não imitem essa visão de mundo. Ela está errada. O conservador, em vez de tentar inutilmente dobrar a ordem natural à sua vontade, reconhece essa ordem e se conforma a ela.

É isso que Richard Weaver, que estava muito mais à direita do que qualquer uma dessas pessoas, tinha em mente quando escreveu em seu ensaio “Conservatism and Libertarianism: The Common Ground” (1960): “Sustento que o conservador é um realista, que acredita que existe uma estrutura da realidade independente de sua própria vontade e de seus desejos. Ele acredita que há uma criação que existia antes dele, que existe agora não por sua mera tolerância e que continuará a existir depois que ele se for. Essa estrutura não consiste apenas no grande mundo físico, mas também em muitas leis, princípios e regras que orientam o comportamento humano. Embora essa realidade seja independente do indivíduo, ela não lhe é hostil. Na verdade, ela pode ser moldada por ele de várias maneiras, mas não pode ser alterada de forma radical e arbitrária. Este é o ponto central. O conservador sustenta que o homem, neste mundo, não pode transformar sua vontade em lei sem levar em conta limites e a natureza fixa das coisas”.

Weaver prossegue tratando especificamente das contribuições da economia austríaca: “A praxeologia, em termos breves, é a ciência de como as coisas funcionam em virtude de suas naturezas essenciais. O conservador e o libertário concordam que não é apenas presunção, mas também tolice tentar interferir no funcionamento da praxeologia. Pode-se utilizá-la, sim, do mesmo modo que um seguidor de Bacon utiliza a natureza ao obedecê-la. A grande diferença é que se está reconhecendo o que é objetivo; está-se reconhecendo as leis que regem os assuntos humanos. Como o conservador e o libertário acreditam que essas leis não podem ser simplesmente anuladas pelo estabelecimento de uma utopia, ambos são guardiões do mundo real”. E, nesse mundo real, não existe esse botão mágico que o Fed, ou qualquer outra entidade, poderia apertar para criar prosperidade sem esforço.

Aumento de preços e o banco central

Além disso, alguns segmentos do movimento MAGA parecem não compreender o papel do Fed na elevação dos preços, que é justamente uma de suas preocupações. Por isso, não percebem que estamos lidando com uma questão de política monetária. Falam como se a inflação de preços ao consumidor fosse causada por fatores como preços elevados de energia ou gastos excessivos do governo, e o Fed simplesmente não entra na história. Entendo por que um político falaria assim. Gastos públicos e preços de energia são coisas sobre as quais eles têm algum controle. Já abolir o Fed não tem grande apelo político. A maioria dos americanos, aliás, nem sabe o que ele é, então por que trazer o assunto à tona?

Mas é mais difícil entender por que intelectuais e influenciadores, que não precisam se preocupar com esse tipo de cálculo político, também falam como se os motores da alta dos preços ao consumidor fossem os gastos do governo e os preços de energia, ignorando completamente o Fed. A esta altura, já temos internet há muito tempo. Já tivemos tempo de sobra para descobrir a verdade sobre isso. O Mises Institute, por exemplo, nunca foi exatamente discreto ao divulgar esse conhecimento ao público. Portanto, não há muita desculpa, especialmente para alguém da direita, para não conhecer a verdade e não entender essa inflação contínua e persistente dos preços ao consumidor. Esse fenômeno é causado pelo Fed. Não tem nada a ver com esses outros fatores.

Há uma aparência superficial de plausibilidade na ideia de que preços altos de energia causam um aumento generalizado dos preços. O argumento, claro, é que tudo utiliza energia. Logo, se os preços de energia sobem, isso eleva o preço de tudo. O problema é que isso é uma variante da teoria da inflação de custos. Parece plausível. O problema é que, se não houver um Federal Reserve injetando mais dinheiro na economia, o aumento dos preços de energia deixa as pessoas com menos dinheiro para gastar em todo o resto.

Assim, qualquer aumento nos preços da energia seria compensado por preços mais baixos em outros setores, e no fim das contas tudo se equilibraria. Como é possível manter preços elevados de energia enquanto todo o restante dos gastos permanece igual? Como isso seria possível se não houvesse alguma instituição injetando dinheiro na economia? É aí que está o problema. Da mesma forma, o gasto público por si só não provoca aumento nos preços ao consumidor. Tudo depende de como esse gasto é financiado. Se, mais adiante, o governo expande a oferta monetária para viabilizá-lo, então você verá esse efeito. Mas não é o gasto público em si, como muitos afirmaram.

Se você diz que quer melhorar o bem-estar do americano médio, aquele que foi deixado de lado, e afirma que ambos os partidos negligenciaram essa pessoa, então você mesmo não pode ignorar o Fed, porque o Fed é a fonte de um sofrimento enorme para dezenas de milhões de pessoas. E, para piorar, elas nem sequer sabem que essa é a origem do seu sofrimento. Portanto, posso garantir que tratar a economia como algo estúpido, entediante, “coisa de nerds” ou menos importante do que as questões existenciais que você considera prioritárias só vai agravar exatamente a situação que você está criticando.

Consequências da inflação

As consequências da inflação vão muito além do aumento dos preços ao consumidor. Por exemplo, a inflação desestimula a poupança. Mesmo que o Fed atinja sua meta de inflação de 2% ao ano, isso ainda significa que, ao longo de 20 anos, suas economias perderão cerca de 30% do valor. Como alguém pode poupar assim? Como é possível poupar para o futuro? Pessoas mais tradicionais, os conservadores na sua vida, como seus avós, que sempre recomendaram poupar, agora parecem ingênuas ou até desprezíveis, graças ao Fed.

Nosso colega Guido Hülsmann, autor da excelente biografia de Mises, Mises: The Last Knight of Liberalism (2007), afirma que precisamos considerar as implicações dessa situação para os trabalhadores comuns. A maioria deles nunca recebeu treinamento sobre como investir no mercado de ações. Antes, podiam simplesmente acumular moedas de metais preciosos, que mantinham ou até aumentavam seu valor. Isso era suficiente como forma de poupança. Mas, como vimos pelo dado que mencionei, isso já não é possível. Então, o que essas pessoas precisam fazer agora? Precisam se envolver em operações que não compreendem e colocar seu dinheiro em risco em transações que exigem um conhecimento que elas não têm.

Mesmo aqueles que possuem esse conhecimento e dispõem de tempo para lidar com investimentos ainda podem ser prejudicados pelos efeitos mais amplos da inflação.

As pessoas acabam gastando mais tempo do que gastariam normalmente pesquisando e escolhendo ativos que acreditam que vão superar a inflação, desviando sua energia mental para questões financeiras mais do que fariam em outras circunstâncias. Isso é um efeito cultural. Além disso, podem optar por priorizar carreiras que pagam melhor em vez de carreiras que consideram pessoalmente gratificantes, porque a inflação não lhes dá escolha. Isso também é um efeito cultural.

A cultura não é algo separado da economia, não é o caso de “pessoas inteligentes falam sobre isto, enquanto sabichões falam sobre aquilo”. Essa divisão é completamente equivocada. As pessoas podem aceitar empregos longe de casa, que exigem longos deslocamentos, apenas para buscar pequenos ganhos adicionais de renda, justamente porque estão pressionadas pela inflação. Esse foco no dinheiro em detrimento da satisfação pessoal alimenta o materialismo, enfraquece os laços familiares e reduz o vínculo com a comunidade, à medida que as pressões financeiras passam a dominar as decisões e a moldar os valores sociais.

O mercado imobiliário

Outro problema enfrentado pelos americanos, especialmente aqueles na faixa dos 20 e 30 anos, que preocupa o universo MAGA, é o aumento dos preços dos imóveis. Diz-se que o sistema falhou com os jovens. Ninguém consegue comprar uma casa. A implicação parece ser: “Viram, seus economistas ingênuos? O capitalismo de mercado não funciona afinal. Não deveríamos continuar acreditando nessa superstição desacreditada. Precisamos tomar algum tipo de ação coletiva aqui”. Nem sempre fica claro o que exatamente isso significa. Mas será que posso sugerir que esses economistas tão criticados também têm algo a dizer sobre esse problema?

Vale observar, aliás, que os críticos do mercado têm dificuldade em manter coerência quando falam sobre preços de imóveis. Seria de se esperar que pessoas que passaram anos reclamando da falta de moradia acessível ficassem satisfeitas em 2008, quando os preços das casas caíram drasticamente. “Vejam, os preços estão caindo”. Mas não ficaram satisfeitas. Por isso, eu não levo totalmente a sério alguns desses críticos. Os preços caíram em 2008, e eles reagiram como se fosse uma catástrofe, como se algo terrível tivesse acontecido simplesmente porque os preços estavam diminuindo. Entraram em modo de urgência para descobrir como tornar as casas caras novamente. E, de fato, fizeram exatamente isso.

Se essas pessoas estão falando sério sobre o aumento dos preços das casas e realmente gostariam de ver uma solução para o problema, não faria mal, mais uma vez, ao menos ouvir o que a economia tem a dizer. Descobririam que podemos reduzir os preços dos imóveis pela metade simplesmente desregulamentando o setor habitacional. Cortar essas regulações inúteis também criaria, pasmem, uma grande quantidade de empregos muito bons na construção e na indústria, algo com que eles também dizem se preocupar.

Os preços das casas, novamente, são mais uma área em que economia e cultura estão interligadas na vida social. Preços de imóveis são mais do que números. Eles influenciam quando, e até mesmo se, os jovens vão se casar e formar famílias. Tenho certeza de que muitos desses tradicionalistas se preocupam com isso. Portanto, se conseguirmos, por meio da análise econômica, encontrar formas de reduzir esses preços, teremos mais um exemplo de porque esses economistas tão criticados deveriam ser ouvidos de vez em quando, e de porque é tolice descartar a economia como se fosse uma obsessão abstrata com uma linha em um gráfico.

A pessoa que você deveria ler sobre isso é Bryan Caplan. Claro, ele não está certo sobre tudo, mas quando acerta, acerta muito. Bryan Caplan já participou do meu programa várias vezes, temos concordâncias e divergências, e escreveu um livro chamado Build, Baby, Build: The Science and Ethics of Housing Regulation (2024). Se você pensa: “Nunca leria esse livro porque parece muito técnico”, saiba que ele o escreveu no formato de um romance com ilustrações, porque percebe que as pessoas não leem. (“E se eu desenhar figuras? Talvez assim você preste atenção”). A leitura é muito rápida. Ele argumenta que uma desregulamentação completa do setor habitacional poderia reduzir os preços das casas em impressionantes 50%, mesmo ajustando pela inflação. Ele também observa que essas ideias são, curiosamente, compartilhadas ao longo de todo o espectro ideológico. Há muitas pessoas à esquerda dizendo: “Sim, concordamos com isso. Essas regulações são absurdas, não fazem sentido, são anti-humanas, e deveríamos eliminá-las”. Ou seja, existe um amplo consenso intelectual sobre o tema. E, ainda assim, nada é feito. Se temos uma maneira de reduzir os preços das casas pela metade, se pessoas informadas de diferentes posições ideológicas concordam com isso, e mesmo assim não fazemos nada, então simplesmente não estamos tratando o problema com seriedade.

O principal custo está em obter autorização para construir, o que, por sua vez, envolve lidar com leis de zoneamento, códigos de construção e toda a burocracia. Elimine isso, e a oferta de moradia aumenta. Há leis de zoneamento que exigem casas unifamiliares. Elas limitam moradias multifamiliares e empreendimentos de alta densidade, como arranha-céus, mesmo em áreas de alta demanda. Regras de tamanho mínimo de lote impedem a subdivisão de terrenos para a construção de mais unidades. As regulações dificultam a construção de edifícios altos, embora essa seja justamente uma forma da tecnologia tornar possível oferecer moradia acessível e espaçosa nos lugares onde as pessoas querem viver. Vale mencionar também que uma parcela significativa das terras nos Estados Unidos, especialmente no Oeste, pertence aos governos federal e estaduais e é mantida fora do mercado, o que também reduz a disponibilidade de terrenos para construção.

Em uma escala bem menor, há fatores fáceis de ignorar: as regulações frequentemente exigem um número excessivo de vagas de estacionamento. Chegam a exigir duas ou três vagas por unidade habitacional, como se todos os dias fossem a Black Friday. Mas não temos uma Black Friday todos os dias, então por que desperdiçar tanto espaço? Isso representa desperdício de recursos e uma má alocação de terrenos que poderiam ser usados para moradia.

Conclusão

Em suma, é equivocado sugerir que, de um lado, temos pensadores profundos refletindo sobre questões de grande importância, enquanto, de outro, existem essas pessoas confusas e superficiais que, por algum motivo, se preocupam com um campo trivial como a economia.

Se você ignora a economia, que, no fundo, é apenas uma forma de compreender como o mundo funciona, não conseguirá atingir os objetivos que acredita estarem distantes dela. Entendo que pode parecer satisfatório se colocar acima das supostas preocupações mundanas e materialistas dos economistas. Por que esses calculistas não percebem que nossas preocupações são muito mais profundas do que as deles e que ignoram os problemas existenciais que enfrentamos hoje?

Isso me lembra o meu livro A Igreja e o mercado, porque nele falei bastante sobre o que podemos fazer para melhorar o bem-estar dos trabalhadores. Eu estava respondendo a todas aquelas acusações: “Vocês, economistas, são materialistas, só pensam em lucros e dinheiro. Precisamos ajudar o trabalhador”. Então eu perguntava: “Tudo bem, o que vocês querem para o trabalhador?” E a resposta era: mais dinheiro. Ou seja, exatamente aquilo de que acabaram de me acusar, como se fosse materialismo. Então, no fim das contas, é isso mesmo que eles querem. Depois de toda aquela pompa sobre “pensamos em coisas mais elevadas”, o que realmente querem é dar mais dinheiro às pessoas. Ótimo, porque nisso nós somos bons. Sabemos como fazer isso. Temos uma enorme quantidade de livros sobre o assunto.

O movimento MAGA nos diz , e acredito que falem com sinceridade, que se preocupa com o bem-estar da família, com jovens que nem chegam a formar famílias, com o fato de que os preços das casas estão fora do alcance deles, com um sentimento generalizado de desesperança e desânimo, e com a percepção de que uma vida próspera e satisfatória parece fora do alcance de muitos. Não afirmo que uma única disciplina acadêmica tenha todas as respostas ou possa resolver todos os problemas. A economia não resolve tudo, e nem pretende fazê-lo. Mas é justamente com as ferramentas dos economistas, dos bons economistas, quero dizer, não dos porta-vozes do establishment em que muitos se transformaram, que os problemas apontados pelos tradicionalistas podem, ao menos, ser amenizados. É com o aconselhamento de economistas austríacos que o movimento MAGA pode evitar cair nos tipos de erro que parecem gerar prosperidade, mas que apenas preparam o terreno para recessões e, assim, intensificam exatamente os problemas que dizem querer resolver. Portanto, depois de todas as críticas equivocadas e injustas que receberam, aqueles que têm algo indispensável e importante a dizer sobre os problemas que nos afligem são, na verdade, justamente os desprezados, os rejeitados: os economistas.

Thomas Woods - Mises Brasil