segunda-feira, 6 de abril de 2026

A ilusão da reforma perfeita - Fernando Freire Dutra

 

Nota do editor:

Nesta semana, o Instituto Mises Brasil participa da Semana da Liberdade, organizada pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE) na capital gaúcha. No dia 8 de abril, quarta-feira, nós realizamos o evento “Mises Brasil em Porto Alegre”, em parceria com o Tapa da Mão Invisível e o Fórum da Liberdade. O evento contará com palestras e painéis exclusivos para o público presente. E nos dias 9 e 10 de abril, participamos do Fórum da Liberdade 2026 com um stand exclusivo e palestras de nossos conselheiros e professores.

Para celebrar a Semana da Liberdade, publicamos abaixo um artigo de Fernando Dutra, professor da nossa Pós-Graduação em Escola Austríaca. O artigo aborda o contraste entre o idealismo e a realidade no mundo da política. Não existe momento ideal para avançar reformas em favor do livre mercado. Ao contrário, cabe aos defensores das ideias da liberdade a avaliação daquilo que é possível dentro de um determinado contexto político e o aproveitamento das janelas de oportunidades na medida em que se apresentam.


Uma reflexão sobre a janela de oportunidade e os limites da pureza técnica na política econômica

Há uma ilusão recorrente, especialmente entre liberais, de que boas ideias, quando bem desenhadas, acabam inevitavelmente sendo aprovadas. Não é assim que a política funciona. Reformas não avançam porque são perfeitas, avançam porque são possíveis. Compreender essa diferença é o que separa agendas que saem do papel daquelas que permanecem restritas ao debate.

Nos últimos anos, o Brasil viveu um caso quase didático desse fenômeno. Entre 2019 e 2022, e de forma particularmente intensa durante a pandemia, abriu-se uma rara janela em que uma série de reformas microeconômicas conseguiu avançar. Não porque o ambiente político fosse simples, longe disso, mas porque houve uma combinação difícil de reproduzir, um problema evidente, soluções já estruturadas e um contexto político que, ainda que imperfeito, permitia algum grau de avanço.

A pandemia teve papel central nesse processo. Ela escancarou fragilidades que já existiam, baixa produtividade, excesso de burocracia, elevado custo de fazer negócios, mas que frequentemente eram tratadas como problemas estruturais de longo prazo. De repente, deixaram de ser abstratos e passaram a ser urgentes. E isso altera profundamente o jogo político.

Mas reconhecer o problema, por si só, não resolve nada. O que fez diferença naquele momento foi o fato de que já existiam propostas estruturadas dentro do governo. Quando a crise chegou, essas ideias não precisaram ser concebidas, já estavam prontas para serem acionadas. Esse é um ponto pouco discutido, reformas só acontecem quando alguém fez o trabalho antes.

Ainda assim, o elemento decisivo não está apenas aí. O que realmente explica por que algumas dessas agendas avançaram é algo que costuma gerar desconforto entre liberais, a necessidade de adaptação. Nenhuma dessas reformas foi aprovada exatamente como concebida originalmente. Todas, sem exceção, passaram por ajustes, concessões e negociações.

Lei das Startups é um exemplo claro. Em sua concepção original, tratava-se de uma agenda voltada à modernização do ambiente de inovação, com foco em segurança jurídica para investidores, facilitação de investimentos e redução de entraves regulatórios. Com a pandemia, no entanto, a proposta foi reposicionada como instrumento de recuperação econômica, especialmente no apoio a micro e pequenas empresas e no estímulo ao empreendedorismo como resposta à crise. Esse enquadramento foi decisivo para ampliar sua aceitação política. A versão final aprovada refletiu esse processo, incorporando mecanismos de contratação de soluções inovadoras pelo setor público, simplificação regulatória e estímulos ao ecossistema empreendedor.

O mesmo padrão se observa em outras agendas. A abertura do mercado de energia, discutida no âmbito do PL 414, possuía um desenho técnico consistente para ampliar a concorrência e reduzir custos. Na prática, contudo, precisou ser calibrada para acomodar interesses regionais, pressões setoriais e resistências políticas. O mesmo vale para a nova lei do gás e para os avanços na cabotagem. Nenhuma dessas iniciativas é perfeita no plano teórico, mas todas representam melhorias concretas em relação ao status quo.

E aqui está o ponto central, esperar pela reforma ideal, completa e tecnicamente impecável é, muitas vezes, a forma mais eficiente de garantir que nada aconteça.

O processo político não opera como um modelo econômico. Ele é fragmentado, permeado por vetos, composto por múltiplos atores e interesses. Nesse ambiente, reformas avançam de forma incremental. Pequenos ganhos, acumulados ao longo do tempo, produzem transformações relevantes. Mas isso só ocorre quando há disposição para negociar.

Talvez esse seja um dos principais equívocos de parte do pensamento liberal no Brasil, confundir consistência técnica com viabilidade política. São dimensões distintas. Uma proposta pode ser excelente no papel e completamente inviável na prática. E, ao contrário do que muitos imaginam, insistir na versão pura de uma reforma não é sinal de rigor, frequentemente é apenas falta de leitura do ambiente.

A teoria de formulação de agendas de John W. Kingdon ajuda a esclarecer esse ponto. Reformas ocorrem quando três elementos se alinham, um problema claramente reconhecido, uma solução disponível e um momento político favorável. Esse alinhamento é raro, e, quando surge, é transitório. Trata-se do que o autor denomina “janela de oportunidade”.

Entre 2019 e 2022, o Brasil viveu uma dessas janelas. A pandemia gerou urgência, havia propostas estruturadas e o ambiente político permitia algum movimento. Mas essa janela não permaneceria aberta indefinidamente. Dentro dela, o que fez diferença não foi quem possuía a melhor proposta, mas quem conseguiu adaptá-la para que fosse aprovada.

No fim, essa é a principal lição, política econômica não é a escolha entre o certo e o errado, mas entre o possível e o inviável.

Isso não implica abandonar princípios ou relativizar objetivos. Implica reconhecer que reformas são processos, não eventos, que a construção de consenso exige adaptação, e que avanços imperfeitos, quando bem direcionados, são muito mais relevantes do que propostas perfeitas que nunca se concretizam.

No fundo, o processo político se assemelha menos a um modelo econômico e mais a um exercício de preparação e timing. Quem deseja promover mudanças precisa estruturar propostas, organizar coalizões e alinhar forças, e, então, aguardar o momento adequado. Muitas tentativas falham, ideias são ajustadas e reposicionadas, até que um evento específico, uma crise, uma mudança de percepção, cria as condições para que aquela agenda avance. É nesse instante que tudo converge.

Formuladores de políticas públicas são, em certa medida, como surfistas à espera da grande onda. É preciso estar preparado, bem-posicionado e pronto para agir. Porque, quando essa onda vem, ela não espera, e quem não estiver pronto simplesmente não entra.

Se há uma conclusão que a experiência recente do Brasil oferece, é esta, reformas não acontecem quando estão perfeitas, acontecem quando alguém está preparado para implementá-las no momento em que se tornam possíveis.

Fernando Freire Dutra - Mises Brasil

ONG comenta 'enriquecimento extraordinário' de Alexandre de Moraes e cobra investigação da PGR

Em cinco anos, ministro desembolsou, à vista, R$ 23,4 milhões na compra de imóveis em Brasília e São Paulo


ONG cobra apuração de 'enriquecimento extraordinário' do notório Moraes


A organização não governamental Transparência Internacional comentou o “enriquecimento extraordinário” do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A ONG cita reportagem publicada nesta segunda-feira, 6, pelo jornal O Estado de S. Paulo sobre o patrimônio de Moraes. 

Segundo o jornal, o patrimônio imobiliário do ministro e de sua mulher, Viviane Barci, cresceu 266% desde que ele passou a integrar o STF, em março de 2017. 

Atualmente, segundo o levantamento do Estadão, Viviane e Moraes possuem 17 imóveis, avaliados em R$ 31,5 milhões. Nos últimos cinco anos, o casal desembolsou R$ 23,4 milhões na compra de imóveis em Brasília e em São Paulo, todos eles à vista, conforme os registros em cartório. 

A Transparência Internacional relaciona o extraordinário aumento patrimonial de Moraes com as “relações inexplicadas do ministro com Daniel Vorcaro e o Banco Master”. A ONG voltou a criticar a Procuradoria-Geral da República (PGR) pela omissão na  investigação de Moraes. A imprensa segue “avançando nas investigações enquanto a PGR permanece omissa”, diz a organização.


Transparência Internacional - 17 imóveis registrados no “instituto” da família Moraes. Nos últimos anos, desembolsaram 23,4 milhões na compra de imóveis à vista. Um enriquecimento extraordinário no contexto de relações inexplicadas do Ministro com Daniel Vorcaro e o Banco Master. 


Relações de Moraes com o Master

A suspeita é que Moraes teria atuado como lobista do Master. A imprensa divulgou encontros entre o ministro e Vorcaro, além de contato com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para interceder a favor do Master no caso da liquidação. Pesa o fato de que Viviane Barci, mulher de Moraes, assinou com o banco um contrato de R$ 129 milhões, valor considerado irreal no mercado jurídico.

Recentemente, a imprensa divulgou que Moraes e Barci voaram ao menos oito vezes em jatos executivos de Vorcaro, entre maio e outubro de 2025. Entretanto, apesar das suspeitas, o ministro do STF não é investigado pela PGR.


Será que o aloprado imagina que sairia imune e impune de um dos maiores escândalos de corrupção da era Lula - Arquivo

Com informações de Loriane Comeli - Revista Oeste

domingo, 5 de abril de 2026

'Uma sábia decisão de Flávio Bolsonaro', por Flávio Gordon

Seu não comparecimento ao evento do grupo Lide, criatura social do inadmissível João Dória, foi um raro ato de higiene mora


O senador pelo Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal, Flávio Bolsonaro, recusou convite para participar de evento do Grupo Lide nos Estados Unidos - Foto: Ton Molina/FotoArena/Estadão Conteúdo


Há convites que honram o convidado. E há aqueles que lhe metem numa arapuca. Há alguns dias, Flávio Bolsonaro recebeu um convite do segundo tipo, mas, felizmente, teve a sabedoria de recusar. Seu não comparecimento ao evento do Grupo Lide, criatura social do inadmissível João Doria, foi um raro ato de higiene moral num ambiente saturado de pestilência. 

Segundo noticiado, o presidenciável simplesmente declinou de participar do encontro em Nova York, apesar de já figurar como palestrante na programação. A decisão, em si, diz mais do que qualquer discurso. Porque, no Brasil de hoje, não comparecer a certos eventos é, muitas vezes, a única forma de não legitimar aquilo que neles se celebra.

E o que se celebra no Lide? Não é o empreendedorismo, como sugere a embalagem publicitária, mas uma espécie de convescote permanente entre empresários dóceis e autoridades que transformaram o aparato estatal em instrumento de poder discricionário. Ali, a nata daquilo que se poderia chamar de juriscleptocracia nacional brinda a si mesma — entre taças de vinho e discursos vazios sobre “democracia”, a ficção retórica preferida no Brasil.

Não é de hoje que o clubinho doriano reúne figuras como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski — protagonistas de um arranjo institucional que dissolveu as fronteiras entre julgar e governar. Em encontros desse tipo, não se debate o país: administrase, nos bastidores, o regime.


De Jair a Flávio Bolsonaro 

É inevitável lembrar de Jair Bolsonaro neste contexto. Foi ele o principal alvo desse sistema, e é precisamente por isso que seu filho não tinha o que fazer naquele ambiente. Comparecer seria, no mínimo, um gesto de condescendência; no limite, uma forma de cumplicidade. 

Afinal, o Lide tem sido a casa dos praticantes de adelismo judicial — os responsáveis pela prisão ilegal e pela tortura continuada do ex-presidente. A recusa de Flávio, portanto, não é um capricho, mas um recado. Num país em que tantos se apressam a frequentar qualquer salão que lhes ofereça prestígio instantâneo, dizer “não” tornou-se um ato político. E, mais do que isso, um ato de lucidez.  

Porque há lugares em que a presença não engrandece — apenas infecta.

'No altar da ideologia', por Flávio Gordon

 Uma resenha de Sacrificial Lambs, de Anita Bartholomew


Foto: Shutterstock

“Como uma criança pequena passa a conceber a ideia de que pode mudar de sexo, isto é, de gênero — ou de que pode não ter gênero algum? Por que alunos do primeiro ao quinto ano estão adotando identidades ‘queerizadas’, não binárias e trans? Sabemos que algo sem precedentes começou a acontecer na segunda década do século 21. O aumento no número de pessoas tentando se identificar fora do próprio sexo, especialmente entre adolescentes do sexo feminino e mulheres jovens, tem sido vertiginoso.” (Anita Bartholomew, Sacrificial Lambs)


O Brasil sempre foi internacionalmente reconhecido por sua excelência em umas poucas atividades sociais, como o futebol, ou pelo exotismo de alguns de seus frutos naturais, como a jabuticaba. Mas, de uns tempos para cá, como mostrei na minha coluna de 21 de fevereiro, o país vem se destacando de maneira inusitada num outro setor: o Brasil é, hoje, o país que criminaliza de forma mais radical as críticas ao transgenerismo — ideologia segundo a qual a identidade de gênero de uma pessoa (entendida como autopercepção íntima e subjetiva de ser homem, mulher, ambos ou nenhum) pode divergir de seu sexo biológico e deve prevalecer sobre ele como critério primário de identidade pessoal, reconhecimento social e, em muitos casos, organização jurídica. 


Brasil é, hoje, o país que criminaliza de forma mais radical as críticas ao transgenerismo | Foto: Shutterstock

Pode-se avaliar o reconhecimento internacional do fenômeno a partir de duas matérias recentes publicadas por veículos de mídia estrangeiros. No mês passado, The Wall Street Journal (WSJ) publicou matéria intitulada “Brazil Criminalizes Transgender Dissent” (“O Brasil criminaliza a dissidência em relação ao transgenerismo”), na qual se relata o caso de Isadora Borges, estudante de veterinária que passou a responder judicialmente por ter afirmado algo que, até ontem, era uma mera obviedade: a existência do sexo biológico. 


The Wall Streey Journal - From @WSJopinion: Brazil criminalizes transgender dissent. A feminist could go to prison for asserting that a male can’t become a female, writes @MaryAnastasiaOG.


Levada aos tribunais pela acusação de “transfobia”, Isadora pode receber uma pena de até dez anos de prisão, além de multa elevada e pagamento das custas processuais. O enredo tem ares de ficção distópica, recordando a cena clássica de 1984, em que Winston Smith, após ser esmagado pela máquina do Partido, acaba confessando que dois mais dois são cinco. Foi essa similaridade inquietante da realidade brasileira com a distopia orwelliana que chamou a atenção de Mary Anastasia O’Grady, autora da reportagem do WSJ.

O episódio também repercutiu na revista digital britânica Spiked, que não economizou palavras ao descrever o distópico cenário brasileiro. Em texto assinado por Raquel del Rosario Sanchez, e intitulado “Trans tyranny reigns in Brazil” (“A tirania trans impera no Brasil”), a revista lembra que a denúncia contra Isadora partiu de Erika Hilton, apresentada como “mulher trans”, a mesma parlamentar que, em 2022, já havia instigado investigação contra a feminista Isabela Cêpa por se referir a Hilton como “homem” nas redes sociais. Sob ameaça de uma condenação que poderia alcançar 25 anos, Isabela buscou refúgio na Europa, onde recebeu reconhecimento formal como perseguida política.


Trans tyranny now reigns in Brazil. Isadora Borges is facing 10 years in prison for stating that transgender women were obviously born men. Across Latin America, women are being persecuted by mad, misogynistic crossdressers, says Raquel del Rosario Sánchez buff.ly/27gTWqk 6:00 AM · 18 de fev de 2026


Segundo a análise da Spiked, esses episódios não são isolados, mas sintoma de uma tendência mais ampla na América Latina: a instrumentalização de leis de identidade de gênero para sufocar dissenso e restringir o debate científico sobre sexo e gênero. O texto sustenta ainda que muitas dessas normas seguem modelos importados, frequentemente incentivados por governos e organismos internacionais que condicionam acordos e financiamentos à adoção dessas agendas pelos países do chamado Sul Global. 

Nas palavras da autora da matéria: “Este é o estado de coisas draconiano em que muitas mulheres latinoamericanas agora se veem vivendo. Políticas de ‘identidade de gênero’ estão sendo impostas a elas, sob ameaça de perseguição política e longas penas de prisão. Elas estão sendo coagidas a afirmar que homens vestidos com roupas femininas são, de fato, mulheres. Aquelas que, como Borges, ousam se manifestar precisam do nosso apoio mais do que nunca.”


Portanto, tendo o Brasil se tornado o epicentro disso que alguns jornalistas estrangeiros descrevem como “criminalização da dissidência em relação ao transgenerismo” e “tirania trans”, ao leitor brasileiro certamente interessa conhecer melhor as origens e os desenvolvimentos do fenômeno do transativismo radical.

 E um bom caminho para isso é a leitura do recém-lançado Sacrificial Lambs: a liberal reporter exposes how the progressive left harms children in the name of gender ideology, da jornalista e escritora americana Anita Bartholomew, obra que combina reportagem investigativa com crítica cultural sistemática. 

O título do livro — “cordeiros sacrificiais”, em português — é bem explicado logo nas primeiras páginas: “Quando iniciei minha investigação, minha maior preocupação eram as inúmeras crianças induzidas a imaginar que poderiam estar presas no corpo errado. A princípio, eu acreditava que os adultos estavam em outra categoria. 

Para ser arrancada desse pressuposto, precisei entrar em contato com muitos jovens adultos que haviam acreditado na falsa alegação de que poderiam mudar de sexo — alguns que depois passaram pelo processo de ‘destransição’ e outros que ainda se identificam como trans. Vários destransicionistas estavam totalmente comprometidos com a vida transgênero até o momento epifânico em que reconheceram que tudo não passava de uma mentira. 

Isso frequentemente os devastou emocionalmente — uma devastação quase tão profunda quanto aquela que haviam consentido impor aos próprios corpos. Esses são os verdadeiros ‘membros mais vulneráveis da nossa sociedade’: as crianças e jovens adultos que acreditaram nas mentiras. São os cordeiros sacrificiais no altar de um movimento que não tem base em fatos nem no bom senso. Você conhecerá alguns deles em breve.”

Daí que Bartholomew não tenha pudores em, desde a primeira página, apresentar o livro como uma denúncia contra a ideologia de gênero, seus sacerdotes acadêmicos, missionários midiáticos e executores burocráticos. É que, enquanto denúncia, o livro se pretende também um libelo em defesa das vítimas — as crianças e jovens adultos que, seduzidos por promessas de libertação, acabaram no altar do experimento social radical em que consiste o transgenerismo. Em suas palavras:

“Sacrificial Lambs baseia-se em evidências sólidas e amplamente documentadas, mostrando que todo argumento que você possa ter ouvido em favor da adoção da ideologia de gênero é falso. Mesmo que você ainda seja um adepto agora, ao chegar à última página, depois de perceber a amplitude e a profundidade dos danos que a ideologia de gênero causa — não apenas aos nossos jovens, mas a toda a sociedade, inclusive a você —, estará pronto para se desintoxicar. Este livro foi escrito para ajudá-lo a fazer exatamente isso. Não podemos proteger as crianças enquanto nós, adultos, não nos curarmos da ilusão de que isto é apenas mais uma moda passageira, um movimento marginal que afeta pouquíssimos e que desaparecerá por conta própria. A ideologia de gênero conta com um exército comprometido, bem financiado e composto por múltiplas facções, que a promove e a defende. Será preciso algo equivalente, do outro lado, para enfrentá-la.” 

Mas, ao contrário do que esse propósito declarado possa fazer parecer, a autora não escreve como panfletária, como alguém que prega para ouvidos predispostos. Sacrifical Lambs é obra de uma investigadora sistemática e obstinada por dados, alguém que, por já ter estado “do lado de lá”, conhece bem as ilusões e os escudos contra a realidade interpostos pela ideologia. Identificando-se como esquerdista (ou, alternativamente, progressista), ela sabe que seu público natural tende a rejeitar qualquer crítica à agenda trans como histeria conservadora. Por isso, escolhe a via mais difícil: a desmontagem paciente. 

Em suas palavras: “Se você se considera progressista ou moderado, provavelmente não tem ideia de que tudo isso está acontecendo. As pessoas que vêm denunciando os excessos da ideologia de gênero são, em sua maioria, politicamente muito à direita. Em nossa sociedade polarizada, recusamo-nos a ouvir aqueles que nossa tribo política considera completamente errados em praticamente tudo (…) A maioria dos liberais ignora qualquer coisa que venha da direita. Mas ninguém pode, com credibilidade, me chamar de direitista. Na maioria dos temas, estou politicamente um pouco à esquerda do senador por Vermont, Bernie Sanders. É por isso que senti com tanta força que a capa deste livro deveria me identificar como esquerdista. A ideologia de gênero não deveria ser uma questão de esquerda ou direita. Mas, como a esquerda progressista a abraçou, talvez uma voz dissidente soando o alarme a partir da esquerda seja a única que a maioria dos liberais consiga ouvir.”

Bartholomew começa pelo dogma fundador: a tese de que alguém pode nascer “no corpo errado”. Ela disseca a genealogia teórica dessa ideia — de suas origens médicas restritas (relativas a quadros graves e severos de disforia de gênero) até a sua elevação à condição de verdade antropológica universal. No primeiro capítulo, 

“O Mito da Criança Mágica”, Bartholomew questiona a noção de que crianças possuem um autoconhecimento infalível acerca de sua identidade de gênero, uma ficção envelopada num slogan recorrentemente repetido, disfarçado de conclusão científica definitiva: “Crianças sabem quem elas são”. 

A autora argumenta que crianças são altamente sugestionáveis, que a identidade é um processo de maturação, e que a confusão corporal na infância é comum e frequentemente transitória. Apresenta estudos indicando que, historicamente, a maioria das crianças com desconforto de gênero superava essa condição na puberdade sem intervenção médica. 

O “mito” consistiria em tratar a autodeclaração infantil como verdade ontológica definitiva, transformando em destino a inconstância típica da idade. Bartholomew apresenta dados estatísticos sobre o aumento vertiginoso de diagnósticos de disforia de gênero entre adolescentes, sobretudo meninas.

A inversão do perfil histórico — antes predominantemente masculino e infantil, agora feminino e adolescente — não é tratada como mera curiosidade estatística, mas como indício de contágio cultural (uma abordagem que reforça argumentos anteriores na mesma linha, como o de Abigail Shrier).






Sacrificial Lambs: a liberal reporter exposes how the progressive left harms children in the name of gender ideology, da jornalista e escritora americana Anita Bartholomew - Foto: Reprodução/Amazon 

O segundo capítulo, “Consinta com este ‘tratamento’… ou sofra as consequências”, mergulha no chamado modelo de “afirmação”. Segundo esse modelo, a função do profissional de saúde é confirmar a autopercepção do paciente, jamais questioná-la. Bartholomew argumenta que isso representa uma ruptura radical com a tradição clínica, que sempre considerou o questionamento e o diagnóstico diferencial como parte essencial do cuidado. A autora cita casos em que avaliações psicológicas foram abreviadas ou suprimidas, e decisões médicas irreversíveis tomadas com base em meras autodeclarações.

O ponto nevrálgico aqui é o consentimento. Pode um menor consentir validamente em bloqueadores de puberdade, hormônios cruzados e cirurgias com potenciais efeitos irreversíveis sobre fertilidade e desenvolvimento corporal? Bartholomew descreve um ambiente clínico em que a afirmação rápida da identidade declarada é apresentada como protocolo mais seguro, muitas vezes acompanhada da narrativa de que questionar a transição aumenta o risco de suicídio. 

A autora problematiza a forma como estatísticas são mobilizadas nesse contexto e sugere que o consentimento ocorre sob intensa pressão emocional e moral. “Você prefere uma filha viva ou um filho morto?” — é a pergunta-chantagem muitas vezes dirigida aos pais, para que aceitem sem questionar o processo de “transição”. No terceiro capítulo, “A Mídia e a Mensagem”, o foco desloca-se para o papel da imprensa e da cultura popular. 

A autora argumenta que a mídia frequentemente privilegia histórias individuais comoventes e tende a apresentar a transição como trajetória de libertação quase inevitável, ao mesmo tempo em que minimiza controvérsias científicas e relatos de arrependimento. A seleção editorial busca construir uma narrativa que influencia percepções públicas e cria um ambiente de consenso aparente. A repetição de determinados enquadramentos transforma uma hipótese controversa em norma cultural, e esta, por sua vez, em política pública. 

Aprende-se essa norma cultural desde cedo, na escola, tema do quarto capítulo, “Lição de hoje: rejeite o seu sexo”. Aqui, Bartholomew examina materiais didáticos, treinamentos de professores e políticas escolares que tratam o sexo biológico como uma categoria maleável ou secundária. A distinção entre informar sobre diversidade e incentivar a rejeição da própria corporeidade torna-se, segundo a autora, cada vez mais tênue. 

A escola, que deveria transmitir conhecimentos básicos sobre biologia, passa a apresentar a identidade como campo aberto à autocriação contínua. A criança deixa de ser apenas educanda, tornando-se agente de redefinição ontológica, antes ainda de dominar as quatro operações. Escreve Bartholomew: “Quem planta essa primeira semente? O que terá predisposto tantos jovens que ainda nem sabem o que é sexo a se tornarem suscetíveis à ideia de alterar suas identidades e seus corpos? 

Por que uma criança comum imaginaria sequer que mudar de sexo é possível? Essa ideologia está ganhando força como uma bola de neve e está alcançando crianças cada vez mais novas (…) Antes de ganharem seus primeiros smartphones, antes de descobrirem essa coisa chamada TikTok, antes mesmo de terem permissão para usar o computador de casa sem supervisão, há uma influência externa que afeta quase todas as crianças. 

A escola.” O quinto capítulo, “Cuidado, crianças: seus pais não são ‘seguros’”, introduz a questão da autoridade parental. Bartholomew analisa casos em que pais hesitantes diante da transição são retratados como prejudiciais ou abusivos. Protocolos escolares que mantêm em sigilo mudanças de nome e pronomes, recomendações clínicas que sugerem afastamento de responsáveis considerados “não afirmativos” e disputas judiciais por guarda compõem o cenário. 

A questão, que começa médica e pedagógica, vira conflito familiar. E a autoridade natural dos pais sofre erosão diante de critérios ideológicos institucionalizados, frequentemente respaldados por aparato jurídico.

No sexto capítulo, “Cuidado, pais: nada nem ninguém está seguro em parte alguma”, o assalto à autoridade parental adquire contornos sistêmicos. A autora descreve como múltiplas esferas — escolas, hospitais, conselhos profissionais, legislação local — podem operar segundo diretrizes afirmativas, criando a sensação de que a família perdeu controle sobre decisões fundamentais. Não é um único ponto de vulnerabilidade, mas uma rede institucional que dificulta a resistência isolada.

 O sétimo capítulo, “Transgênero é realmente uma coisa (e é apenas uma coisa)?”, introduz uma inflexão conceitual. Bartholomew questiona a homogeneidade do termo “transgênero”, sugerindo que ele abriga realidades distintas: casos raros de disforia persistente desde a infância, fenômenos de início rápido em adolescentes — especialmente meninas — e situações em adultos com motivações diversas. Ao fundir experiências heterogêneas sob um único rótulo, o debate público perde precisão clínica e científica. A categoria torna-se política antes de ser diagnóstica, e moral antes de ser empírica.


Segundo Bartholomew: 

“Já deveria estar claro, a esta altura, que há muito pouco que conecte os membros dos diferentes grupos que reivindicam o status de trans, além do fato de todos serem celebrados pelos adeptos da ideologia. Uma criança prépúbere confusa quanto ao próprio sexo tem quase nada em comum — seja em termos de sintomas, seja em termos de trajetória do transtorno — com um homem adulto que, às escondidas, veste as roupas íntimas da esposa enquanto se masturba.

Tampouco os adolescentes e pré-adolescentes seduzidos pela fantasia de que é possível mudar de sexo têm muito em comum com qualquer um dos outros dois grupos. Os ativistas dirão que as pessoas que se autodenominam trans “nasceram assim”. 

Mas assim como, exatamente? Como o transgenerismo pode ser uma coisa, quando na verdade são tantas coisas díspares? E como pessoas “trans” podem ter “nascido assim” quando a maioria daqueles que se identificam com o sexo oposto só passou a imaginar para si alter egos do sexo oposto muito tempo depois de terem nascido? Mesmo entre aqueles jovens que teriam idade suficiente para, em tese, sustentar a tese do ‘nasceram assim’, quase todos acabarão por abraçar seu sexo biológico, desde que não sejam ‘submetidos à transição’ antes disso. 

O transgenerismo é internamente e externamente incoerente, inconsistente e ilógico. Mas, enquanto aqueles que fazem as regras da sociedade tratarem o faz de conta como se fosse real, ele continuará a produzir consequências reais.”

Na sequência, no capítulo oitavo, intitulado “Homens nos esportes femininos — como isso é justo?”, algumas dessas consequências são apresentadas. A autora examina dados fisiológicos e casos práticos para sustentar que diferenças biológicas decorrentes da puberdade masculina não são completamente eliminadas por terapia hormonal. 

O argumento é que políticas baseadas exclusivamente na autodeclaração podem comprometer a equidade esportiva feminina. O debate deixa o campo da identidade subjetiva e entra na arena mensurável do desempenho físico, onde a biologia reaparece com incômoda objetividade.


“Homens nos esportes femininos — como isso é justo?” | Foto: Shutterstock 

O nono capítulo, “Por que estamos deixando que homens invadam espaços exclusivamente femininos”, amplia essa preocupação para prisões, abrigos e espaços segregados por sexo. Bartholomew relata controvérsias e incidentes que emergiram com a adoção de critérios baseados na identidade declarada. A tensão aqui é entre a proteção de uma minoria e a segurança de outra. A autora sustenta que a ausência de debate franco decorre menos de consenso genuíno e mais de medo de rotulação, um mecanismo disciplinador típico das ortodoxias ideológicas.

Como ela havia apontado na introdução, a propaganda transativista deixa de lado, por exemplo, o caso dos homens adultos, frequentemente de meia-idade ou mais, que passam a ser transgêneros por uma questão de fetiche sexual. Nas palavras da autora: 

“Ninguém que promove a ideologia menciona os fetichistas. A maioria dos ativistas se recusa a admitir que eles existem. Mas a maioria dos homens que hoje se identifica como pertencente ao sexo oposto não corresponde ao que a pessoa comum imagina. Especialistas em saúde mental que estudam o fenômeno estimam que cerca de três quartos dos homens que afirmam identificar-se como mulheres estão expressando uma forma extrema de desvio sexual associada a uma parafilia ou fetiche. Embora o transgenerismo tenha sido apresentado ao público como o ‘novo gay’, a maioria desses homens — especialmente os que adotam sua nova identidade na meia-idade ou mais tarde — é heterossexual, não homossexual. São homens heterossexuais que se sentem atraídos por mulheres e que obtêm excitação sexual ao imaginar-se mulheres (…) Hoje, esse fetichismo foi retirado dos cantos escuros. Ele não é apenas normalizado. É atendido, tratado com a máxima deferência. Celebrado. É aqui que estamos agora (…) Se uma criança pode nascer no corpo errado, um homem adulto pode alegar que um dia foi essa criança. E quando ele ‘se assume’ como mulher, e a sociedade o aceita apenas com base em sua palavra, o que acontece em seguida? Ele é uma mulher. Passa a ter acesso a tudo o que é reservado a mulheres e meninas. Está no boxe ao lado da sua filha adolescente na academia. É a ‘vendedora’ no provador da loja de departamentos, ajudando mulheres a encontrar um sutiã confortável. Ele está vivendo seu fetiche, em alto e bom som, com orgulho — e ninguém ousa dizer que ele não pode, a menos que queira correr o risco de ser ostracizado, processado ou coisa pior”.

Essa análise culmina no décimo capítulo, “Por que todos enlouquecemos?”, um diagnóstico cultural do atual estado de coisas. Bartholomew pergunta como instituições inteiras — médicas, educacionais, midiáticas e judiciais — adotaram posições controversas com tão pouca resistência interna. Entre as respostas sugeridas estão o medo de sanções profissionais, a pressão ativista coordenada, o tribalismo político e o conformismo institucional. Por óbvio, o referido “enlouquecimento” seria o resultado de incentivos estruturados, não de uma súbita psicopatologia coletiva. 

Diz a autora: “Em outros países — Islândia, Reino Unido, Espanha, México, Canadá, Alemanha e outros — onde não há proteção equivalente à Primeira Emenda, pessoas estão sendo presas, ou ameaçadas de prisão, por se recusarem a cumprir as exigências linguísticas dos ideólogos de gênero. Quando uma cultura inteira concorda em negar a biologia e se afastar da realidade, tornase impossível prever ou controlar as consequências.” No capítulo final, “Está na hora de recuperar a sanidade e a realidade”, a autora abandona o diagnóstico e parte para a convocação. 

O que está em jogo, ali, não é mero ajuste de políticas públicas, mas a restauração de critérios elementares que uma cultura saudável não deveria precisar redescobrir: sexo como dado biológico, prudência médica como regra, autoridade parental como princípio, liberdade de expressão como condição de qualquer deliberação racional. 

“Recuperar a sanidade” tem um sentido bastante preciso: recolocar o dado natural que é o corpo no centro da identidade humana e restabelecer distinções que a retórica ideológica dissolveu — entre fato e desejo, compaixão e temeridade, cuidado médico e experimentação social. Os apêndices funcionam como desdobramento prático dessa tomada de posição. 

No primeiro, Bartholomew examina as ordens executivas de Donald Trump relativas ao tema, medindo-lhes o alcance jurídico real e apontando que o Poder Executivo, por mais bem-intencionado, não substitui o trabalho legislativo de longo prazo, nem resolve disputas antropológicas por decreto. No segundo, desce ao nível doméstico e oferece orientação direta a pais — sinal de que o debate não é abstrato, mas interfere diretamente na vida cotidiana de famílias comuns.

Vista em conjunto, a obra obedece a um movimento deliberado: começa na criança, percorre a clínica, a imprensa e a escola, examina o enfraquecimento da família, enfrenta as disputas no esporte e nos espaços segregados, diagnostica o conformismo institucional e culmina num chamado à recuperação do real. Não se trata apenas de contestar esta ou aquela norma administrativa, mas de questionar o paradigma antropológico que deslocou a realidade corpórea do eixo da identidade e a substituiu pela soberania da autodeclaração.  

A pergunta que percorre tacitamente cada capítulo é simples: em quanto tempo uma sociedade consegue reorganizar suas leis, suas escolas e seus hospitais com base na primazia absoluta da subjetividade sem pagar o preço da fragmentação? É essa interrogação — mais do que qualquer estatística isolada — que dá unidade ao livro e o projeta para além das circunstâncias imediatas que o motivaram. 

Para além do seu tema específico, o que Sacrifical Lambs realmente desvela é uma mutação antropológica de largo alcance — a substituição da concepção clássica da unidade corpo-alma por uma versão tardomoderna do mais antigo dos dualismos: o gnóstico. De fato, como há tempos sugeri numa coluna, há algo de estranhamente familiar na fórmula “nasci no corpo errado”. 

Para muitos, a fórmula soa contemporânea, progressista e até libertadora. No entanto, sua estrutura é arcaica. Pressupõe uma cisão radical entre um “eu” essencial — mental, psicológico, afetivo — e um corpo material espúrio que o aprisiona. O verdadeiro eu estaria na mente; o corpo seria um invólucro extrínseco, um veículo contingente, quando não uma prisão. “Sou isto, mas estou preso num corpo daquilo.” Eis um tópos tipicamente gnóstico, agora reciclado no vocabulário da biopolítica.

O novo ativismo identitário reproduz, com notável fidelidade, essa antropologia dualista. O gênero “verdadeiro” não estaria inscrito na realidade corpórea, mas alojado numa interioridade soberana, cuja autodeclaração deve prevalecer sobre qualquer dado biológico. O corpo torna-se, assim, mero continente impessoal, quase maquinal — uma “máquina desejante”, como diriam os pós-modernos Deleuze e Guattari. Ele estaria à disposição da vontade que o habita. Segundo essa visão, nós, seres humanos, seríamos pessoas não-corpóreas residindo em corpos não-pessoais.


Foto: Shutterstock


Resta que, se o corpo é apenas um objeto extrínseco — ou, pior, uma prisão —, por que respeitá-lo como parte constitutiva da pessoa? Se os órgãos são peças intercambiáveis de um invólucro contingente, por que não os remodelar cirurgicamente até que correspondam à autoimagem subjetiva? Eis, precisamente, a ideia de fundo que explica a dimensão e a radicalidade do fenômeno descrito por Bartholomew. 

O problema — e a razão pela qual as políticas de “afirmação”, como demonstra a autora, em geral não minimizam o sofrimento psíquico da pessoa transgênero — é que a realidade resiste. A tradição aristotélico-tomista, que moldou o Ocidente por séculos, sempre compreendeu o homem como um composto dinâmico de corpo e alma — não duas substâncias justapostas, mas uma única substância cuja forma é a alma e cuja matéria é o corpo. 

Antes que “fantasma na máquina”, a alma é a forma substancial do corpo. Nós não habitamos nosso corpo como inquilinos de apartamento. Somos nosso corpo, na mesma medida em que somos a nossa alma. O corpo é pessoal porque a pessoa é corpórea.

Essa visão não é mero detalhe teológico. Ela estrutura toda uma ética. Se o corpo é parte integrante da identidade, então a intervenção sobre ele exige prudência extrema, sobretudo quando se trata de menores em formação. 

A infância e a adolescência, com suas angústias e descompassos, não podem ser tratadas como uma prova ontológica do erro da Criação. É perfeitamente possível admitir que o sentimento de estar num corpo “errado” seja uma experiência subjetivamente intensa, sem com isso afirmar que esse sentimento altera a estrutura do ser. Bartholomew documenta o crescimento vertiginoso de diagnósticos de disforia entre jovens — especialmente meninas — e a rapidez com que o modelo afirmativo conduz a intervenções médicas profundas. O que outrora seria abordado com cautela terapêutica é hoje frequentemente recebido como uma verdade autoevidente. 

A prudência clássica cede lugar à urgência moral típica das ideologias revolucionárias, nas quais questionar é um ato suspeito. Se o gnóstico antigo se via como vítima de uma catástrofe cósmica, o transativista contemporâneo vê-se como vítima de uma natureza injusta e de uma sociedade que não lhe reconhece o direito de alterála. Em ambos os casos, a salvação exige a recriação de si. “Sereis como deuses”, prometia a Serpente. 

E o homem pós-moderno, armado de bisturi e hormônios, parece disposto a aceitar o convite. Criar a si próprio, inclusive o próprio corpo, torna-se projeto de emancipação, convertendo-se a técnica médica em meio de salvação. Mas a promessa da Serpente é falsa. Sua perversa teogonia produz vítimas concretas. 

Os “destransicionistas” a quem Bartholomew dá voz são testemunhas da pungente queda na realidade. Muitos relatam decisões tomadas em contexto de fragilidade emocional, sob validação imediata de adultos e instituições. Descobrem, tardiamente, que o corpo não era simples embalagem descartável nem massinha de modelar. As cicatrizes físicas e psicológicas desmentem a fantasia de reversibilidade ilimitada, lembrando que a carne não se submete tão facilmente ao bisturi da retórica. 

A perspectiva da qual parte Bartholomew poderia ser caracterizada como um realismo antropológico. Ele parte da convicção de que a compaixão não pode divorciar-se da verdade sobre o homem. Ajudar alguém que sofre não pode equivaler a afirmar a sua autopercepção. Trata-se, em vez disso, de orientá-la à luz de uma ordem que nos precede. 

Essa perspectiva faz toda a diferença e ilumina a convocação final feita pela autora. Se o corpo é parte integral da pessoa, então respeitá-lo é respeitar a pessoa. Intervir nele não é mero ajuste cosmético, mas ato que incide sobre a própria identidade. 

A liberdade, nesse horizonte, não é poder ilimitado de autocriação, mas capacidade de harmonizar-se com a verdade do próprio ser. O que Sacrificial Lambs sugere, em última instância, é que estamos diante de uma disputa civilizacional. 

De um lado, a tradição realista que reconhece na natureza humana uma estrutura inteligível e normativa. De outro, o voluntarismo nominalista que dissolve essências em palavras e faz da autodeclaração critério último de verdade. 

O campo de batalha não é apenas médico, educacional ou mesmo jurídico. Ele é também filosófico. Quando o Estado passa a impor pronomes, quando políticas públicas se fundam na autodeclaração irrestrita, quando o debate científico é constrangido por ortodoxias ideológicas, o que está em jogo não tem nada a ver com inclusão, mas sim com a relação entre linguagem e realidade. 

Se as palavras criam o ser, então o poder político torna-se demiúrgico. Bartholomew não escreve como filósofa, e muito menos teóloga, mas o seu argumento ressoa como uma advertência metafísica. Ao sacrificar o corpo no altar do voluntarismo ideológico, arriscamos sacrificar também a própria ideia de pessoa. E os cordeiros — jovens e frágeis demais — acabam sendo conduzidos à imolação por uma cultura que perdeu o senso da Criação.A perspectiva da qual parte Bartholomew poderia ser caracterizada como um realismo antropológico. 

Ele parte da convicção de que a compaixão não pode divorciar-se da verdade sobre o homem. Ajudar alguém que sofre não pode equivaler a afirmar a sua autopercepção. Trata-se, em vez disso, de orientá-la à luz de uma ordem que nos precede. Essa perspectiva faz toda a diferença e ilumina a convocação final feita pela autora. Se o corpo é parte integral da pessoa, então respeitá-lo é respeitar a pessoa. Intervir nele não é mero ajuste cosmético, mas ato que incide sobre a própria identidade. A liberdade, nesse horizonte, não é poder ilimitado de autocriação, mas capacidade de harmonizar-se com a verdade do próprio ser. 

O que Sacrificial Lambs sugere, em última instância, é que estamos diante de uma disputa civilizacional. De um lado, a tradição realista que reconhece na natureza humana uma estrutura inteligível e normativa. De outro, o voluntarismo nominalista que dissolve essências em palavras e faz da autodeclaração critério último de verdade. 

O campo de batalha não é apenas médico, educacional ou mesmo jurídico. Ele é também filosófico. Quando o Estado passa a impor pronomes, quando políticas públicas se fundam na autodeclaração irrestrita, quando o debate científico é constrangido por ortodoxias ideológicas, o que está em jogo não tem nada a ver com inclusão, mas sim com a relação entre linguagem e realidade. Se as palavras criam o ser, então o poder político torna-se demiúrgico. 

Bartholomew não escreve como filósofa, e muito menos teóloga, mas o seu argumento ressoa como uma advertência metafísica. Ao sacrificar o corpo no altar do voluntarismo ideológico, arriscamos sacrificar também a própria ideia de pessoa. E os cordeiros — jovens e frágeis demais — acabam sendo conduzidos à imolação por uma cultura que perdeu o senso da Criação

Recuperar esse senso significa um retorno à sanidade. Significa reconhecer que não somos deuses criando a nós mesmos a partir do nada. Somos criaturas, compostas de corpo e alma, chamadas não a repudiar nossa natureza, mas a elevá-la. Num tempo em que a fantasia reivindica estatuto de virtude, talvez o gesto mais subversivo seja simplesmente afirmar que o real existe — e que nossa liberdade depende de acolhê-lo, não de negá-lo. É essa, no fim, a lição mais profunda que Sacrificial Lambs nos obriga a reconsiderar


 Flávio Gordon  - Revista Oeste

Otan: o preço da liberdade e o teste da coragem, por Ana Paula Henkel

Criação da aliança internacional teve o propósito claro de proteger um modo de vida 


O presidente dos EUA, Donald Trump, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, participam de uma coletiva de imprensa durante a 76ª Cúpula da OTAN no Fórum Mundial em Haia, Holanda, em 25 de junho de 2025 - Foto: Beata Zawrzel/NurPhoto/Reuter

E sta semana nos traz uma data que merece ser lembrada com respeito e clareza: o nascimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, assinada em 4 de abril de 1949. No rastro das cinzas da Segunda Guerra Mundial, doze nações do Ocidente se uniram não por idealismo ingênuo, mas por uma necessidade dura e real: conter a expansão de um império totalitário que ameaçava engolir a liberdade da Europa e, com ela, os pilares da civilização ocidental. 

Aqueles líderes compreendiam algo que, com o passar do tempo, parecia ter sido parcialmente esquecido. A paz não se sustenta por declarações bem-intencionadas nem por desejos abstratos de harmonia universal. Ela exige força moral, vontade coletiva e, sobretudo, disposição concreta de defender fronteiras e valores. 

A Otan nasceu como um pacto de defesa mútua, ancorado no princípio simples e poderoso do Artigo 5º: um ataque contra um membro seria considerado um ataque contra todos. Mais do que um arranjo militar, tratava-se da expressão prática de uma herança civilizacional. Havia ali a convicção de que sociedades livres, enraizadas na tradição judaico-cristã, na razão e na responsabilidade individual, mereciam ser protegidas contra ideologias que dissolvessem a ordem, a soberania e a dignidade humana. 



Página de autenticação de uma cópia oficial do tratado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), assinada e selada pelo Secretário de Estado Dean Acheson (4/4/1949) | Foto: Wikimedia Commons


Setenta e sete anos depois, essa lição permanece não apenas relevante, mas urgente. 


O mundo não se tornou mais estável com o tempo; tornou-se mais complexo. Novas ameaças surgiram, outras se transformaram, mas a essência do desafio permanece a mesma: regimes que operam pela coerção, pela intimidação e pela projeção de poder continuam testando os limites das democracias ocidentais. 

Nesta semana, esse cenário se manifestou com nitidez. O presidente Donald Trump, em discurso à nação e declarações à imprensa, adotou um tom que há muito não se ouvia com tamanha clareza: o de que a força não é um recurso acessório, mas um instrumento necessário quando a dissuasão deixa de ser suficiente. Ao descrever as operações contra o Irã, falou em vitórias rápidas, decisivas e avassaladoras, deixando evidente que sua estratégia vai além de uma resposta pontual a eventos imediatos. 

O objetivo declarado é desmontar, de forma sistemática, a capacidade de um regime de ameaçar os Estados Unidos e seus aliados, impedindo que o risco se torne estrutural e, portanto, mais difícil de conter no futuro. Trata-se de uma lógica que privilegia a antecipação em vez da reação, com todos os custos e implicações que essa escolha carrega em uma lógica simples: o maior financiador do terrorismo no mundo não pode ter armas nucleares.

Ao mesmo tempo, o secretário de Estado Marco Rubio tem desempenhado um papel central na articulação desse posicionamento. Suas declarações ao longo da semana reforçam a ideia de que, para Washington, o regime iraniano não constitui uma ameaça circunstancial, mas estrutural — um ator que, ao longo de décadas, construiu sua política externa sobre a confrontação direta com os interesses americanos e com a estabilidade de regiões inteiras. Ninguém entoa “Morte à América” durante 47 anos sem que deseje a morte de americanos e o aniquilamento do que a América representa. 

Ao abordar o Estreito de Ormuz, ponto-chave do conflito e por onde passa 20% da produção de petróleo comercializado no mundo, Rubio tocou em um ponto particularmente sensível da ordem global contemporânea. Qualquer tentativa de interferência naquele corredor marítimo, responsável por uma parcela significativa do fluxo energético mundial, não pode ser interpretada como um episódio regional isolado. Trata-se de uma ação com potencial de impacto sistêmico, capaz de afetar cadeias econômicas, preços globais e, em última instância, a segurança de países muito além do Oriente Médio. 



O secretário Marco Rubio deixa a Base Aérea Conjunta Andrews em Camp Springs, Maryland, a caminho da Abadia de Vaux-de-Cernay, na França, para a reunião dos Ministros das Relações Exteriores do G7 (26/03/2026) - Foto: Departamento de Estado/Freddie Everett 

É nesse ponto que a discussão ultrapassa o eixo bilateral entre Estados Unidos e Irã e passa a alcançar a própria natureza das alianças ocidentais. 

Ao longo dos últimos dias, tanto Trump quanto Rubio fizeram críticas diretas à Otan. Não se trata, necessariamente, de uma rejeição à aliança, mas de um questionamento sobre sua funcionalidade real no contexto atual. A crítica central é simples, ainda que desconfortável: uma aliança só se sustenta quando seus membros compartilham não apenas os benefícios da segurança coletiva, mas também os seus custos. 

Durante décadas, os Estados Unidos assumiram a maior parte desse encargo. Financiaram, protegeram e garantiram estabilidade para que a Europa pudesse se reconstruir e prosperar após a devastação da guerra. Esse arranjo fez sentido em um determinado momento histórico, mas se torna cada vez mais difícil de justificar quando ameaças concretas ressurgem e a resposta de parte dos aliados se revela hesitante. 

Quando líderes europeus afirmam que determinados conflitos “não são sua guerra”, levantam uma questão inevitável sobre o próprio significado de uma aliança. Se a segurança coletiva se torna seletiva, condicionada à conveniência política de cada momento, ela deixa de ser um princípio estruturante e passa a ser apenas uma opção circunstancial


Reunião da OTAN em Washington, D.C., EUA (9/7/2024)-| Foto: Casa Branca/Domínio Público 

Trump foi particularmente incisivo ao afirmar que, sem compromisso real por parte de seus membros, a Otan corre o risco de se transformar em um peso, e não em uma força. Rubio, por sua vez, acrescentou uma camada importante a esse diagnóstico ao lembrar que a aliança nunca foi apenas um instrumento de defesa europeia, mas também um elemento central da arquitetura de segurança americana, incluindo o acesso a bases, rotas e infraestrutura estratégica. 

Se esses instrumentos deixam de estar disponíveis quando necessários, a relação perde seu caráter de parceria e passa a se aproximar de uma dinâmica assimétrica, na qual poucos sustentam muitos. Essa tensão não deve ser interpretada, necessariamente, como sinal de fragilidade da Otan. 

Ao contrário, pode ser entendida como um teste de maturidade. Alianças verdadeiras não sobrevivem ao comodismo, à dependência crônica ou à ilusão de que a responsabilidade sempre recairá sobre o mesmo ator.

Os fundadores da Otan compreendiam isso com clareza porque haviam experimentado as consequências do oposto. Conheciam o preço do apaziguamento, o custo da hesitação e os riscos de subestimar regimes que operam com lógica expansionista. Eles sabiam que a ausência de firmeza não elimina o conflito, apenas o adia — e, frequentemente, o torna mais devastador. 


A queda do Muro de Berlim em 1989 marcou um ponto de virada no papel da OTAN na Europa, e um trecho desse muro está exposto em frente à sede da OTAN, em Bruxelas, Bélgica (2018) - Foto: Departamento de Defesa dos Estados Unidos/Jim Garamone

A realidade de 2026 traz essa lição de volta ao centro do debate. 

Enquanto os Estados Unidos enfrentam diretamente o regime iraniano, parte do mundo ocidental parece dividida entre o reconhecimento da ameaça de um regime teocrático e violento e a relutância em agir de forma proporcional. 

Ao mesmo tempo, outras fissuras tornam-se visíveis em diferentes esferas. Instituições internacionais que deveriam funcionar como referência moral muitas vezes revelam seletividade em suas reações. 

Denúncias 0 graves coexistem com silêncios difíceis de justificar, enquanto decisões políticas são tomadas sob justificativas que nem sempre resistem a uma análise mais rigorosa. Esse descompasso contribui para um fenômeno mais profundo: a erosão da confiança. 

No fim, alianças não são sustentadas apenas por tratados formais, mas por percepções compartilhadas de legitimidade, coerência e propósito comum. Quando esses elementos se enfraquecem, a estrutura permanece, mas perde a força que a tornava efetiva.



Uma projeção ortográfica da Organização do Tratado do Atlântico Norte, com os países membros em verde | Foto: Wikimedia Commons/Domínio Público 


A Otan não foi concebida como uma organização voltada à gestão abstrata de conflitos ou como um fórum permanente de boas intenções em coletivas de imprensa. Sua criação teve um propósito claro: proteger um modo de vida. Um modo de vida que, apesar de suas imperfeições, foi responsável por construir instituições estáveis, promover a liberdade individual, estabelecer limites ao poder estatal e gerar níveis de prosperidade sem precedentes na história humana. 

Um modo de vida que defende, antes de tudo, a dignidade humana. Defender esse legado não é um exercício retórico, mas uma responsabilidade concreta, que exige clareza moral. 

Clareza para reconhecer que nem todas as visões de mundo são compatíveis com uma ordem livre, clareza para entender que a paz frequentemente depende da disposição de impor limites e clareza para admitir que a força, quando orientada por princípios, não é o oposto da civilização, mas uma de suas condições de existência. 

Os líderes de 1949 não tinham o conforto da abstração. Seus olhos haviam testemunhado cidades destruídas, um número de mortes que parecia não ter fim, populações deslocadas e regimes que transformaram ideologia em instrumento de dominação total. 

Eles sabiam que a liberdade, quando não é defendida, não se sustenta por inércia.


Admissão da Alemanha Ocidental à OTAN, na Conferência do Conselho da OTAN, em Paris, França (1955) | Foto: Wikimedia Commons

Hoje, essa mesma compreensão volta a ser exigida, ainda que em um contexto diferente. 

A questão central não é apenas se a Otan continuará existindo como estrutura institucional, mas se continuará sendo fiel àquilo que motivou sua criação. Uma aliança de nações dispostas a agir, e não apenas a declarar intenções. 

No fim, o desafio não é técnico, não é político, muito menos burocrático — mas moral. Trata-se de saber se ainda existe, no Ocidente, a disposição de sustentar os princípios que afirma representar — não apenas em discursos, mas em decisões concretas, não apenas em declarações formais, mas em ações que envolvem custos reais. 

A história demonstra, de forma consistente, o que ocorre quando essa disposição falha.

Talvez seja exatamente por isso que datas como a criação da Otan merecem ser revisitadas. Não como um exercício de nostalgia, mas como um convite à responsabilidade. 

Alianças podem ser assinadas em papel. Mas só sobrevivem quando são sustentadas, ao longo do tempo, pela coragem de quem decide honrá-las.


Soldados da OTAN se preparam para hastear a última bandeira na Reunião de Ministros das Relações Exteriores da OTAN, na sede da OTAN em Bruxelas, Bélgica (04/04/2023) - Foto: Wikimedia Commons/Rory Arnold 


Ana Paula Henkel  -Revista Oeste

É que ninguém mais aguenta Lula, escreve Adalberto Piotto

 Com a aprovação derretendo, vendo Flávio Bolsonaro crescer e perdido na própria incompetência, o governo se pergunta o que deu errado. A resposta está no espelho



Presidente Luiz Inácio Lula | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock


A ntes de ir adiante, pense aí com seus botões: que declaração o atual presidente da República deu nos últimos três anos, três meses e alguns poucos dias que seja plausível, lógica e carregue o mínimo de preocupação com o real interesse público do país? Refiro-me apenas ao período deste seu terceiro mandato, aquele conquistado na tal eleição de 2022, o que exclui as bravatas eleitorais onde coube de tudo, de mentira a acusações irresponsáveis, sem contar a censura que acometeu um lado só. 

O que teria dito Lula, já no governo, que nos faça acreditar que ele esteve de janeiro de 2023 até agora, início de abril de 2026, realmente dedicado a administrar o Brasil e não apenas afeito e afoito em seu projeto pessoal de poder? O país está menos endividado? As pessoas estão vivendo melhor? Ambas as questões podem ser respondidas com dois dados: o governo Lula chega ao quarto ano de seu terceiro mandato com três anos seguidos de rombos fiscais e com o endividamento das famílias em quase 50%, o maior nível desde o fim da pandemia, em julho de 2022. 

É um retrocesso quando qualquer dado do atual governo se aproxima ou é ainda pior do que os da época da pandemia, como a relação Dívida/PIB. Em fevereiro deste ano, chegou a 79,2%. A projeção é que, até o final do ano, atinja a marca dos 83%. Não são números difíceis de compreender. 

No auge da pandemia, com gastos necessários para combater um vírus que pouco se conhecia e que paralisou parte da economia mundial, os gastos públicos chegaram a 87,7% em relação ao Produto Interno Bruto brasileiro. 

À época, era consenso internacional de que era preciso ajudar pessoas que perderam o emprego e empresas que tiveram de fechar portas. Apesar do pico de gasto em 2020, o percentual foi reduzido a saudáveis 71,7% em 2022, no último ano de Bolsonaro, refletindo que o pior já passara e a política econômica do governo era de responsabilidade fiscal, redução do gasto público e eficiência da máquina estatal. 

Descontado o pior ano da pandemia, Lula, que pensa exatamente o contrário e não demonstra nenhum respeito ao pagador de impostos que acorda cedo para sustentar o Estado, vai entregar o país com recorde de endividamento. Em fevereiro deste ano, a Dívida Bruta, que inclui Estados e Municípios, bateu a marca histórica negativa de R$ 10,2 trilhões. Só a dívida federal chegou a US$ 8,6 trilhões. Os números mostram com clareza o maior culpado. 


Os três anos consecutivos de rombos nos cofres públicos punem o pagador de impostos e empurram o endividamento das famílias para o pior nível desde 2022  Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil 

E por que todos esses números e a comparação importam? Porque impactam em exatamente tudo na vida do país. Já se perguntou por que o governo atual não consegue dar respostas rápidas à atual crise dos combustíveis? Porque falta a Lula hoje o dinheiro que Lula gastou demais ontem. Todos aqueles sorrisos do presidente, as viagens de Janja, o populismo fiscal de distribuição de bolsas assistencialistas que viciam o cidadão e comprometem o mercado de trabalho, a começar pelo próprio beneficiado, que fica limitado à ajuda estatal e não se recicla, tudo isso custa muito caro. 

Mesmo com o crescimento da receita — o Brasil tem batido recordes de arrecadação —, seja porque herdou uma economia saudável do governo anterior ou porque aumentou impostos de forma asfixiante, o governo Lula está no negativo. Quem consegue ganhar mais e gastar mais ainda? Só o irresponsável ou o incompetente. Ou ambos. 

Daí, diante do aumento do preço do petróleo no mercado internacional que gerou uma crise dos combustíveis, sobretudo na oferta de diesel com risco de desabastecimento, o governo não consegue conter a alta porque não consegue emergencialmente subsidiar os setores afetados. Vai tirar de onde? Não dá mais para aumentar a carga tributária porque já abusou da medida. 

E a demora em criar soluções rápidas para enfrentar a disparada do preço do petróleo revela o deserto de ideias e de gente capaz no governo. Em 2022, diante da Guerra na Ucrânia, a equipe de Paulo Guedes, então ministro da Economia no governo Bolsonaro, zerou impostos federais e negociou com o Congresso a redução do ICMS. A combinação de ambiente favorável aos negócios com menos burocracia, preço menor dos combustíveis e segurança jurídica fez o país ser o destino de quase US$ 75 bilhões de investimento externo, 41% de todo o valor investido na América Latina. 

Ainda melhor, o Brasil foi considerado exemplo no mundo em recuperação pós-pandemia, apesar do conflito na Europa que provocava inflação global justamente pela crise do petróleo. A economia cresceu quase 3% e, mesmo com o corte de impostos, a arrecadação federal e a dos Estados subiu acima da inflação. 

O desafio era grande, mas o ambiente saudável da economia que se criou antes permitiu que as medidas dessem certo. Sob Lula, o ambiente é intoxicado com insegurança jurídica crescente, crise política e institucional diante de escândalos — o que mina a confiança no governo — e dados econômicos supostamente positivos sob suspeição, gerados por denúncias dos próprios pesquisadores demissionários do IBGE. 

Ninguém investe no escuro porque sair da escuridão já é difícil. Tanto que mal resolveu o problema do diesel com os caminhoneiros — ainda não conseguiu explicar a contento como será a compensação aos Estados que vão bancar metade da conta — e as empresas aéreas já reclamam da alta de 55% do querosene de aviação, anunciado pela Petrobras, válido desde 1º de abril. 

No dia oficial da mentira, a verdade é que somado ao aumento de 9,4% de março, o combustível passou a representar 45% dos custos operacionais das companhias aéreas. Governar não é para qualquer um. Governar sob crises reais, menos ainda. É o que estamos vendo. A esquerda naufraga quando acaba o dinheiro que governos responsáveis deixaram no caixa.

Por isso que, quando chega a notícia de que até 21 ministros da sua imensa e incapaz equipe devem deixar o cargo para concorrer nas eleições de outubro, não se sabe se é ruim ou ainda pior. A começar por Fernando Haddad, que, de tanto aumentar ou criar novos impostos — foram 27 vezes —, ganhou o jocoso apelido de “Taxad”. 

O agora ex-ministro da Fazenda quer ser governador de São Paulo. Deixa um país com dívida crescente, com baixa produtividade, sem capacidade de atuar rapidamente em crises e quer governar o Estado mais desenvolvido do país? Com que currículo? 

Talvez seja mais um afilhado político que o presidente empurra para perder eleições, como tantos de seus candidatos nas eleições municipais de 2024, quando o PT teve desempenho pífio. O único objetivo de Lula é ele próprio. Não por acaso, o alarme do desespero disparou no Palácio do Planalto e continua incomodando os atuais inquilinos. 

Faz semanas que assuntos barulhentos, como a perda de popularidade do presidente, o aumento da rejeição, o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e o medo aterrorizador de perder a eleição de outubro, atormentam o círculo palaciano. Esperavam o quê?


A saída de Fernando Haddad da Fazenda para disputar o governo paulista deixa como herança um rastro de impostos criados e o descontrole da dívida pública - Foto: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo

O desastre fiscal está à vista de todos. Lembra do Arcabouço Fiscal, que substituiu o bem-sucedido Teto de Gastos de Michel Temer, que tirou o Brasil do buraco em que Dilma o enfiou? Então, o próprio governo o furou várias vezes. Como levar a sério essa gente? O assistencialismo social já se esgotou como máquina de votos. Custa caro, não melhora a vida de ninguém, mas o filho do beneficiado quer ter a oportunidade de ascender na vida e, talvez, comprar um iPhone 17. 

Só o trabalho permite isso. Exatamente o mesmo para o qual ele não foi educado ou treinado desde que Lula tirou a obrigação de os pais manterem os filhos na escola para ganhar o Bolsa Família. Jovem tem uma vida imensa pela frente. Precisa de perspectiva. Que futuro se tem com uma Bolsa governamental de R$ 600, R$ 700 ou R$ 800 e sem preparo educacional para um mundo ditado pela revolução da tecnologia e da inteligência artificial? Pesquisa recente do instituto AtlasIntel mostra que a rejeição de Lula e seu governo é de praticamente 73% entre jovens de 16 a 24 anos, a conectada geração Z. A alta de impostos e o assistencialismo têm algo em comum. 

Até criam sensação de alívio, mas não resolvem o problema. Na literatura econômica e na prática diária, os exemplos são fartos. Quando um governo aumenta muito a carga tributária, ele asfixia a economia e acaba gerando um efeito rebote de queda da arrecadação por quebras de empresas ou evasão fiscal. O agronegócio brasileiro registrou o maior número de recuperações judiciais de sua história, com quase 2 mil empresas tentando sobrevida com ajuda da Justiça. 

E o Paraguai bate recordes em atração de empresas brasileiras que fogem da alta carga tributária daqui e passam a gerar receita fora do país. Com os programas sociais sem porta de saída, como o assistencialismo eleitoreiro de Lula, e a economia que não cresce de forma sustentável, o surto da percepção de melhora de vida é efêmero. Gasto público elevado e juros altos para conter a inflação gerada pelo próprio governo causam mal-estar que as pessoas sentem no bolso e a cada ida ao supermercado. 

Com o poder de compra corroído, inclusive do benefício social, os mais pobres e a classe média recorrem a empréstimos apenas para manter o consumo e algum padrão de vida. Como está mesmo o endividamento das famílias em pleno ano de 2026?

Às vésperas da eleição, o Palácio do Planalto bate cabeça para encontrar soluções para problemas reais que o próprio governo criou ou não se preparou para enfrentar. Mas, de novo, a emergência não é o país, é Lula. As medidas precisam estancar a sangria de imagem do presidente que não governa, sem planos e propostas conhecidas desde a última campanha. É preciso lembrar que Lula não apresentou um programa de governo na eleição de 2022, aquela em que só foi candidato porque foi resgatado da prisão de Curitiba pelo STF, que inventou a estapafúrdia tese do CEP e o fez candidato. 

Não assusta que tenha assumido que não conseguiria governar sem o Supremo, seu parceiro de consórcio. Porque plano não tinha. Dado o desespero de agora, ainda não tem. Fato é que não há nada no governo lulopetista que se sustente como uma administração minimamente competente ou preocupada com o país. Tudo se resume a um projeto pessoal de poder de um narcisista que, neste caso, contrariando a música de Caetano, seu defensor nos palcos da esquerda artística regada a incentivos fiscais, detesta um espelho. 

Afinal, espelhos não inventam, não criam narrativas, só refletem a realidade que o Brasil quer superar, deixar para trás e seguir em frente.


O abandono das emergências reais do Brasil comprova que o atual governo se resume a um projeto de poder de um narcisista incapaz de encarar o reflexo dos próprios fracassos - Foto: Reprodução/X

Adalberto Piotto  - Revista Oeste

INSS — Conteúdo adulto, por Guilherme Fiuza

 Sem medo de ser feliz: viva o direito de roubar sem ser investigado!


Foto: Shutterstock


— Vitória!!!!! 

— Viva o Brasil! 

— Viva a democracia! 

— Abaixo o fascismo! 

— Perdeu, playboy! 

— É nóis na fita, mano! 

— Viva a soberania! 

— Ninguém toca nos assaltantes do INSS!

— Hein? 

— Ué, não é isso que a gente tá comemorando? 

— Mas não precisa gritar. 

— Tá bom. Desculpa. Vou por outro caminho. 

— Melhor. 

— Liberdade!

 — Apoiado! 

— Liberdade para o calvo do INSS 

— Aí não… 

— Mas eu falei de um jeito elegante. Não dá? 

— Não.

 — OK. Liberdade para o moderno sindicalismo brasileiro!

 — Viva o trabalhador! 

— Viva a mamata dos descontos involuntários! 

— Menos. 

— Ops. Me distraí. 

— Vamos manter o foco. 

— Foco é tudo. 

— Em defesa dos aposentados desta nação! 

— Bravo! 

— Que nada falte aos que mais necessitam! 

— Até porque a nossa gangue precisa deles!

— Se distraiu de novo. 

— Poxa. Sinto muito. A euforia dificulta minha concentração. 

— Faz um esforço adicional. É um momento decisivo. 

— Deixa comigo. Viva o governo do povo! 

— Viva! 

— Não toquem na classe trabalhadora! 

— Muito bem! 

— Não toquem na mesada dos nossos filhos! 

— Melhor deixar mesada de fora. 

— OK. Pelo direito de ir e vir dos nossos filhos!

 — Apoiado! — Pelo direito de ir e vir de carona com os nossos comparsas!

 — Não precisa ser tão específico. O direito não precisa do detalhe. 

— Bonito, isso. 

— Obrigado. 

— Então chega de floreios. Vou direto ao ponto, sem medo de ser feliz: viva o direito de roubar sem ser investigado! 

— Que é isso?! Ficou louco?

— Por quê?

— Tá todo mundo vendo. 


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Por Guilherme Fiuza - Revista Oeste