A crise é fruto de um projeto de poder sem pudor e a qualquer custo
O mesmo governo, no mesmo mandato, em menos de três anos, faz dois programas de renegociação de dívidas de consumidores. O Desenrola Brasil, em julho de 2023, e o Novo Desenrola Brasil, em maio de 2026. É prova cabal de incompetência da política econômica do governo Lula que, em vez de gerar desenvolvimento sustentável e autonomia para as pessoas, produz novos endividados hoje para se transformarem em dependentes de programas assistencialistas do governo amanhã. É a máquina de votos de Lula e do PT a todo vapor. Em ano de eleição, como este de 2026, a crise do varejo, do endividamento familiar recorde e de inadimplência crescente precisa ser compreendida como o projeto de poder sem pudor e a qualquer custo — para os outros — que Lula implementa sem piedade dos brasileiros.
Dois programas para renegociar dívidas em tão pouco tempo, sem nenhuma crise externa séria, mostram que o problema é só local. O varejo que fecha lojas, demite funcionários e recorre cada vez mais à recuperação judicial é a vítima da vez. Antes, foi o consumidor quem perdeu poder de compra, a primeira vítima dessa equação tenebrosa de empobrecimento e crise econômica. A conexão dos dois “desenrola” com a crise no varejo é umbilical. E ambos têm a mesma fonte, o terceiro mandato de Lula. Recorro aqui a um trecho do artigo “A fórmula do endividamento permanente” (Revista Oeste, Edição 321), que escrevi ainda em maio deste ano. Ali estão dados inequívocos da realidade brasileira:
“Segundo a Serasa Experian, em março deste ano, o número de inadimplentes chegou a 83 milhões de brasileiros com o CPF negativado. Algo em torno de 10 milhões a mais se comparado a julho de 2023, quando o governo Lula lançou o Desenrola 1. Ao recorrer uma vez mais a um programa que piorou o endividamento, insiste no erro porque interessado apenas em possíveis dividendos. eleitorais. (…) No Desenrola 1 [de 2023], foram renegociados R$ 53 bilhões. Desde o fim de maio de 2024, quando o programa foi finalizado, houve aumento de R$ 61 bilhões de novos calotes até o início deste ano. Mais que dobrou o valor da dívida com atrasos superiores a 90 dias, segundo relatório recente do Banco Central”.
Uma população endividada em 2023, exposta a uma política econômica ruim nos três anos seguintes, ficou ainda mais endividada. É mera questão matemática, uma soma de dívidas. O varejo vive de consumidor com poder de compra. É justamente esse consumidor que ficou mais raro, porque convive com CPF negativado e tendo de escolher o que comprar, porque não dá para fazer tudo o que costumava fazer até anos atrás. Como entrar em um novo financiamento de uma geladeira em 24 vezes se está com prestações atrasadas do fogão comprado dois anos antes?
Não dá. O consumidor pisa no freio para se proteger ou porque, como é esperado que aconteça, lhe é negado um novo crédito. O consumo retrai e a loja fecha. A inflação é real e já corroeu os salários. Uma melhora nos índices atuais, com o discurso oficial de estabilidade inflacionária, não traz refresco porque tudo já está bem mais caro que antes. E pior: com as pessoas já endividadas. É uma lógica tão simples quanto aterrorizadora. Consumidor endividado primeiro.
Varejo em crise na sequência
No total, são 602 empresas que entraram em recuperação judicial só até abril deste ano, segundo a Serasa Experian. Em 2025, foram 2.466 — uma alta de 13% em relação a 2024. É um quadro de piora constante a partir do segundo ano deste terceiro mandato de Lula. Os casos de grandes varejistas que recorreram à Justiça para tentar se recuperar chamam a atenção pelo tamanho, os números e por evidenciar que ninguém está a salvo quando a política econômica é a vilã de uma lógica perversa que derruba o consumidor antes e o vendedor depois. O Grupo Casas Bahia pediu recuperação em agosto. Divulgou dívida de R$ 17,3 bilhões. Prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. Quase 300 lojas foram fechadas no país, praticamente um terço de toda a operação de rua. A demissão de cerca de 3 mil funcionários só em agosto de 2026 apenas aprofunda a crise da empresa. Uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho tenta reverter as demissões com uma liminar. É razoável supor que quando julgarem o mérito, verão que quando falta dinheiro para pagar folha de pagamento, só dinheiro resolve. É justamente o que a empresa está dizendo à Justiça que não tem, por isso pediu recuperação judicial.
Nem dinheiro, nem crédito para si ou para o consumidor. Esse é o nó. Lojas Marabraz. A rede também fez pedido de recuperação na Justiça agora em agosto e declarou ter dívida de R$ 140,2 milhões.
A dívida do grupo que comanda a rede varejista pode atingir R$ 400 milhões.
Grupo Toky, uma fusão da Mobly com a Tok&Stok. Dívida de R$ 1,11 bilhão e recuperação deferida pelo Poder Judiciário em junho. Grupo Pão de Açúcar/GPA.
Está em recuperação extrajudicial desde o
primeiro semestre, com dívida assumida de R$ 4,5 bilhões. Fechou lojas
ou fez conversões com o Extra para reduzir custos.
Há vários outros casos, mas grandes varejistas já reestruturaram mais de R$ 68 bilhões em dívidas via recuperação judicial ou extrajudicial nos últimos dois anos e meio. À exceção do caso das Americanas, em que má administração e fraude contábil são objetos de investigação, e o caso das Casas Bahia, do enorme prejuízo no último trimestre — que também sugere forte inconsistência contábil —, a proliferação do varejo em crise tem semelhanças enormes com a perda de poder de compra das famílias, cujo endividamento atingiu o recorde de 92%. E todas apontam para a série de dificuldades da política econômica de Lula: gastança governamental desenfreada + inflação + juros altos + endividamento do consumidor = crise no varejo.
Em que pesem eventuais casos particulares de má gestão e de concorrência com o mercado eletrônico, de adaptação integral ao ecommerce (muitas já atuam com o modelo), e a queda vertiginosa das ações da Magazine Luiza nos últimos anos (só em 2026, em torno de 50%), o ambiente econômico brasileiro se deteriorou a partir de 2023. Toda a recuperação elogiável do Brasil no pós-pandemia e, apesar da crise do petróleo com a guerra na Ucrânia, quando o país cresceu 2,9%, os investimentos cresceram e o governo Bolsonaro registrou superávit nas contas públicas, tudo isso foi perdido com o governo Lula e a equipe econômica nas mãos de Fernando Haddad e Simone Tebet, que ousadamente concorrem a governador e senadora por São Paulo, esperando que ninguém se lembre do governo a que pertenceram e o que fizeram nos verões passados.
Sem pandemia, o Brasil de Lula tem endividamento de 81,9% na relação dívida/PIB. A taxa básica de juros de 14%, descontada a inflação, é a segunda maior do mundo (9,33% aa). No mercado, os juros reais são bem maiores. No cartão, fonte primária de crédito do consumidor desesperado, ultrapassa os 400% ao ano. A burocracia, a insegurança jurídica — da relação promíscua entre o governo federal e o STF — e a carga tributária aumentaram.
O ambiente para se investir no Brasil ficou tóxico. A fuga de empresas para o Paraguai é um sintoma disso. Um Estado pesado, ineficiente, com rombos frequentes em estatais e a volta dos grandes escândalos de corrupção — como o do INSS e o do Master, que estão dentro do governo federal — desafiam o investidor e o cidadão, que tentam buscar meios de sobreviver diante de tanta concorrência desleal com o próprio Estado. Coloque na conta as mais de 30 vezes em que o governo Lula aumentou ou criou novos impostos, e a asfixia tributária de quem vive no Brasil explica o endividamento do consumidor e a crise do varejo. Mesmo assim, Lula concorre à reeleição, fingindo não ser o responsável por isso tudo.
É o responsável.
As famílias endividadas, o varejo sufocado e pedindo ajuda à Justiça para não quebrar estão aí para todo mundo ver. Uma hora a conta da irresponsabilidade e do populismo fiscal de gastar mais do que arrecada, elevando a dívida pública ao recorde temerário de R$ 11 trilhões com três anos e meio de déficits seguidos, iria chegar. Chegou. As eleições de outubro são uma chance de mudar essa bagunça populista que aflige mais uma vez o Brasil que trabalha, produz e insiste em dar certo
Adalberto Piotto - Revista Oeste
