terça-feira, 5 de maio de 2026

Penduricalhos no salário de Messias somam mais de R$83 mil em três meses

 


Advogado-Geral da União (AGU), Jorge Messias. (Foto: ASCOM AGU)


Rejeitado para a cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Jorge Messias, que ainda pode se consolar chefiando a Advocacia-Geral da União (AGU), faturou mais de R$83,1 mil em penduricalhos de janeiro a março, última data disponível do seu holerite. O contracheque do “Bessias” tem como remuneração básica bruta o valor de R$78.805,71, mas o abate-teto salva o pagador de impostos de ter que bancar a fatura e morde R$$46.593,83 do montante.

Manobra

O salário de Messias foi engordado com “verbas indenizatórias” e “distribuição de saldo de horários advocatícios”.

Marajá na AGU

Os honorários extras, por ter feito o que já é pago para fazer, somaram R$77,2 mil, sendo R$35,2 mil apenas em fevereiro.

Na conta

O restante (R$5,9 mil) veio da nebulosa “verba indenizatória”: R$2,1 mil em janeiro; valor que se repete em fevereiro, e R$1,6 mil em março.

Só em penduricalhos

Messias recebeu em 90 dias o que o brasileiro levaria quase dois anos (22 meses) ganhar, considerando salário médio de R$3,7 mil (Pnad).

Diário do Poder

segunda-feira, 4 de maio de 2026

'Hayek por ele mesmo – Parte I' - Friedrich A. Hayek

 

Nota do editor:

Este artigo integra um dos capítulos do livro Hayek na UnB. O capítulo em questão consiste na transcrição das palavras proferidas por Hayek diante do público presente na ocasião e foi dividido em duas partes. O evento ocorreu entre os dias 11 e 12 de maio de 1981, há quase 45 anos.


É claro que, de vez em quando, fazem-se reflexões a respeito de tudo que nos ocorreu e, à medida que se vai envelhecendo, nos tornamos muito mais conscientes das diferenças entre a visão de quem tem 60 anos ou mais e a dos ingênuos começos, o que gradualmente nos leva àquilo que se imagina ser uma visão abrangente das coisas.

Confesso que adoro ler biografias ou autobiografias de outros intelectuais, já que muito aprendo com elas. Mas esse tipo de literatura também me causa certas dúvidas. Um dos problemas é que não gosto quando as pessoas, ao invés de ler os trabalhos de um autor, preferem ler a respeito do autor. Mesmo assim, não me é fácil resistir ao seu fascínio, mas penso que jamais me tornei vítima daquela crença errônea de que se pode explicar a visão de um autor, a partir de seus dados biográficos. Talvez, algumas vezes, possamos explicar os erros que as pessoas hajam cometido, considerando as circunstâncias de tempo. Contudo, não creio que jamais se possa saber a razão pela qual alguém defendeu determinados pontos de vista, ou seja, o que levou tal pessoa a isto.

 O fascinante acerca de alguém sobre quem vale a pena ler algo é saber como essa pessoa reagiu aos desafios que encontrou pela frente. E isso nunca é previsível. Admito estar em moda, nos tempos modernos, no campo das autobiografias, acreditar-se ser capaz de explicar, por que as pessoas tinham certo tipo de visão, utilizando-se isso até para refutá-las. Acredito, francamente, que tal coisa constitui um tipo de afetação e um absurdo.

Mas, comecemos pelo verdadeiro início. Tive a sorte de nascer em uma boa família de classe média, de tradições intelectuais. E, no que se refere às minhas ligações com a ciência, meus interesses, no início, influenciado pelos meus ancestrais, se situavam inteiramente no campo das ciências biológicas. Meu avô e meu pai foram zoólogo e botânico, respectivamente, e as discussões, em minha juventude, eram dominadas pelo interesse em relação à teoria da evolução. Foi justamente a época em que foi descoberto o complemento essencial à teoria evolucionária de Darwin — a genética de Mendel. E quase todas as discussões científicas – lembro-me bem – giravam em torno disso, na medida em que a teoria darwiniana estava finalmente se tornando inteligível através das teorias de Mendel. Mas – e aí também foi acidental — um dos redescobridores de Mendel, que, como todos sabem, antes não era levado muito a sério, era um amigo muito íntimo de minha família. E quando eu era jovem e começava a me envolver com a comunidade científica da área da Zoologia e da Botânica em Viena, um dos assuntos mais populares era contar a história deste homem extraordinário, Mendel, que havia descoberto a moderna teoria genética. Eu estava, portanto, praticamente convencido de que me transformaria em alguma espécie de biólogo.

Mas, então, começaram os distúrbios da época da Primeira Guerra Mundial, com a evidente ameaça de dissolução do império Austro-Húngaro, problemas que cada vez mais desviavam minha atenção das ciências biológicas para as questões ligadas aos governos e à própria vida. Curiosamente, eu quase que posso precisar exatamente o momento em que decidi mudar. Quando atingi o penúltimo ano do Gymnasium, em 1916, estávamos no curso introdutório à Filosofia, e nosso professor nos ensinava que o grande pensador Aristóteles havia dividido a Ética em três tópicos: Moral, Política e Economia. De repente, me veio a inspiração: “É isto que desejo estudar”. E fui para casa e disse ao meu pai, o botânico: “Vou estudar Ética” idéia de que o filho de uma família de cientistas desejasse estudar Ética, e alguns dias mais tarde me presenteou com algumas cópias de um trabalho de um filósofo positivista do século XIX, para me demover daquela idéia absurda e me levar de volta ao verdadeiro estudo da ciência.

Bem, mas aquele autor, Feuerbach – talvez este nome seja conhecido de alguns de vocês – não me impressionou muito, e continuei insistindo naquela minha idéia.

Inclusive, durante os dois anos em que servi ao Exército, no fim da Primeira Guerra Mundial,comecei a ler sobre Economia. Os primeiros dois livros que caíram em minhas mãos eram tão ruins que, hoje, fico surpreso ao pensar como eles não foram capazes de me fazer desistir daquilo. Mas, para estudar Economia tinha-se que, naquele tempo, estudar Direito. Era o único modo de se estudar Economia em Viena. Quando a guerra acabou, as circunstâncias daquele momento só fizeram aumentar meu fascínio pelos problemas econômicos e políticos, e eu me tornei estudante de Direito na Universidade de Viena. Minha visão política era, então, moderadamente reformista. Eu havia sido grandemente influenciado por um homem, na época, muito influente, mas que agora está inteiramente esquecido, um grande industrial alemão, que administrava a utilização das matérias-primas austríacas durante a Primeira Guerra, a exemplo do que fez Galbraith nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, e que havia descoberto um tipo de planejamento análogo ao preconizado pelo socialismo fabiano inglês.

E aquilo me pareceu realmente digno de estudos. Mas, de fato, durante certo tempo, embora formalmente eu estivesse disposto a estudar Economia, meus interesses, de certo modo, ainda se encontravam divididos. Talvez como resultado de meu envolvimento inicial na área da Biologia, o interesse pela Economia competia com o interesse pela Psicologia. E, enquanto eu terminava meu curso de Direito com bastante sucesso, dividia meu tempo entre a Psicologia e a Economia. Bem, mas quando terminei e tive que escolher uma ocupação, penso que foi muito mais o fato de saber que a Economia oferecia um campo de trabalho, e que o mesmo não ocorria com a Psicologia, que me fez procurar definitivamente na Economia um meio de vida.

Devo mencionar, contudo, já que isto se tornaria muito importante mais tarde,que a primeira coisa que escrevi em meus tempos de estudante foi sobre Psicologia e não sobre Economia. Tratava-se de uma tentativa de explicar como as diferenças entre as percepções sensoriais, o que se costuma chamar de a qualidade da experiência, podem ser fisiologicamente explicadas. Mas eu o coloquei de lado por uma razão muito curiosa, da qual eu estava bem ciente. Estava convencido – e ainda estou – de haver encontrado resposta para um importante problema. Mas eu não poderia prová-la, o que é algo diferente do instinto que se tem quanto a se ter chegado a uma importante conclusão, e, assim, inteligentemente, deixei de lado aquele manuscrito. Tinha que começar a trabalhar, o que se verificou em uma função não muito importante, de caráter temporário, na área governamental, em um dos organismos criados como resultado do primeiro tratado de paz e que cuidava dos débitos anteriores à guerra existentes entre os países beligerantes. Trabalhei naquela repartição, como funcionário civil, por cerca de cinco anos, dos quais, entretanto, despendi um ano e meio – conforme explicarei como estudante de pós-graduação nos Estados Unidos.

Mas o mais importante foi o fato de que nessa ocasião entrei em contacto com um homem que se tornou muito influente no desenvolvimento do meu pensamento posterior. Na Universidade de Viena havia uma enorme tradição, no que se refere ao estudo da Economia. Talvez este fato tenha contribuído muito para minha decisão em favor do estudo da Economia, em lugar de me dedicar à Psicologia. Isto porque todos os grandes psicólogos haviam morrido e não havia ninguém de importância para me ensinar Psicologia, enquanto havia um ou dois eminentes nomes na área da Economia.

O fundador da escola, Carl Menger, ainda estava vivo. Cheguei a vê-lo uma vez e, inclusive, quando ele morreu, no mesmo ano em que me diplomei, fui chamado a dar sugestões, tanto a respeito de sua biblioteca, quanto acerca dos manuscritos que ele havia deixado. Era um trabalho extremamente interessante, pois era evidente que esse homem, que morreu com uma idade que eu então pensava ser muito avançada – apenas um ano mais jovem do que sou agora – havia concluído um livro muito importante cerca de dez anos antes de perder totalmente suas forças, mas continuou a corrigí-lo e a modificá-lo, até que se tornou completamente ininteligível e sem condições de ser usado. O que se poderia fazer era, já que se havia estudado algumas vezes velhos manuscritos, um esboço do que poderia ter sido o texto original daquele livro muito importante. Mas, quanto a mim, pelo menos, eu não estava pretendendo gastar o resto de minha vida tentando decifrá-lo. E isto nunca foi feito.

Um de seus principais discípulos, porém, Friedrich Von Wieser, tornou-se meu professor. E também já se encontrava lecionando na Universidade, como conferencista, na qualidade de Senior Lecturer, Ludwig Von Mises, que pertencia a uma geração que se situava entre a minha e a de Wieser, Mas Mises era de tal maneira anti-socialista, que, quando pela primeira vez eu analisei suas conferências, ele me repeliu como radical extremado. Mas, quando Wieser me recomendou a ele como chefe provisório do escritório governamental, eu me tornei intimamente ligado a ele e passei, então, a dever-lhe muito. Penso que, de certo modo, foi uma grande vantagem o fato de eu ter chegado a ele como economista já bem treinado. Há um certo perigo em nos tornarmos um discípulo demasiado entusiasmado de alguém, e eu conheço muitas pessoas que mais tarde se tornaram discípulos de Mises e se transformaram em fanáticos seguidores de suas doutrinas. Quanto a mim, no entanto, muito bem treinado à época em que o encontrei, embora ele me convencesse sobre vários pontos importantes, sempre absorvi suas idéias de modo crítico. E durante aqueles dez anos em que estive em contato estreito com ele, suas obras, particularmente seu importante trabalho sobre o Socialismo, publicado em 1922, exerceram uma grande influência em mim. Aprendi a acreditar que, de maneira geral, ele estava certo em suas conclusões, embora eu jamais tenha ficado inteiramente satisfeito com seus argumentos. E eu sei por quê. Mises era, ele próprio, um produto ainda daquela tradição racionalista, construtivista, da qual emergiu o socialismo. Ele havia contestado muitas das conclusões socialistas, mas jamais conseguiu destruir, de forma completa, a filosofia da qual emergiu o socialismo. E meu trabalho, em sua maior parte, destinou-se exatamente a expor as idéias de Mises, libertando-as daquele background filosófico, o mesmo racionalismo francês e do utilitarismo inglês, e reformulando-as em termos de um background de caráter evolucionista.

Mas isto me tomou muito tempo. Voltarei a falar sobre o assunto.

Tendo decidido, de forma definitiva, que eu utilizaria os anos que passei a serviço do governo para me qualificar, no sentido de obter um trabalho na área universitária — o que na época se tornava possível escrevendo-se uma tese importante, a fim de se obter o título de conferencista, e, talvez, mais tarde, ter a chance de conseguir uma cátedra – cheguei à conclusão de que para me tornar um economista teria de conhecer melhor o mundo. E isto significava, já então, conhecer os Estados Unidos. Tinha-se razoável idéia do mundo europeu, vivendo-se no centro da Europa, mas as novidades, os grandes desenvolvimentos, naquele início do período entreguerras, estavam certamente ocorrendo nos Estados Unidos. Assim, eu estava ansioso por permanecer um ano ou mais como estudante naquele país. Foi antes das bolsas de estudo da Fundação Rockefeller, ou melhor, quando a concessão delas não havia sido estendida aos países considerados ex-inimigos. Assim, embora as bolsas já existissem, eu, na condição de austríaco, ainda não podia pleitear uma delas. Decidi, portanto, ir para os Estados Unidos às minhas próprias custas e por meus próprios riscos.

Eu havia obtido como que uma promessa de um professor visitante americano, que, como quase todos os professores americanos, tendo visitado a Europa, decidira escrever um livro sobre a Europa e, assim, utilizar-me como seu assistente, por eu estar familiarizado com as condições européias. Deste modo, prometeu-me ele que, se eu fosse para os Estados Unidos, ele me empregaria por algum tempo e, assim, eu poderia viver com certa tranquilidade. Bem, tendo conseguido juntar algumas economias no pequeno intervalo de seis meses, decorrido entre o fim de nossa inflação e o dia em que parti, cheguei a New York com vinte e cinco dólares no bolso, sendo informado de que o tal professor — não mencionarei seu nome — havia viajado de férias e deixado instruções para não ser perturbado. Mas eu havia também levado comigo algumas cartas de apresentação de Joseph Shumpeter, que em 1914 havia estado na América do Norte como professor visitante e que, por conseguinte, era o único economista austríaco em contacto com economistas americanos. E eu comecei a entregar essas cartas, com cada uma das quais eu conseguia um jantar… e nada mais.

Minhas ambições e esperanças começaram, portanto, gradualmente, a se reduzir. Era possível ainda viver-se, então, em New York, por duas semanas, como um imigrante visitante, com vinte e cinco dólares e mais cinco dólares, que alguém havia colocado sorrateiramente em um pacote de cigarros que me havia dado. Mas, ao fim de quinze dias, eu havia chegado ao fim de meus recursos e estava a ponto de, em desespero, conseguir um trabalho como lavador de pratos em um restaurante da Sexta Avenida, em New York. Aí, para grande alívio meu – mais tarde, um arrependimento sem fim – antes que eu começasse a lavar pratos em New York, recebi um telefonema de alguém que me dizia que o Professor “X” havia regressado das férias e que desejava ver-me. No momento, foi um grande alívio o fato de eu não ter que lavar pratos, mas como teria sido interessante, para o resto de minha vida, eu contar que havia começado minha vida em New York como lavador de pratos … Não posso fazê-lo!… Nunca o fiz!…

Bem, trabalhei, então, durante seis meses, como assistente de Jenkins e outros onze ou doze meses como estudante bolsista na Universidade de New York. Mas eu me sentia enormemente desapontado em relação ao estágio em que então se encontrava a economia americana. Em termos de teoria econômica, descobri — ou acreditava haver descoberto – que, em Viena, nós sabíamos mais que os americanos. Mas os americanos haviam inovado grandemente em determinada direção. Foi durante o período da Primeira Guerra, e imediatamente após iniciou-se o moderno desenvolvimento das estatísticas econômicas e, em particular, algo que era completamente desconhecido antes, ou seja, a análise das teorias dos ciclos de tempo – time’s cycles theories – que tornava possível detalhar as flutuações ocorridas na área econômica. Assim, gastei a maior parte do tempo, na América, aprendendo estatísticas econômicas, que mais tarde me ajudaram grandemente. Isto porque da América é que surgiu a moda da análise estatística de prognósticos sobre o caráter cíclico dos negócios.

E é claro que os austríacos desejavam criar seu próprio instituto local. E, considerando-se que eu era o único que havia permanecido na América e apreendido as novas técnicas, fui afinal designado diretor desse novo Instituto, onde deveria realizar estudos ligados a tais prognósticos. Eu jamais me havia entusiasmado muito com isso — na verdade, as análises que eu havia feito me tornaram extremamente descrente em relação ao assunto, embora esse tipo de approach estatístico realmente facilitasse a elaboração de previsões.

  Bem, de modo bastante curioso, obtive certa reputação naquilo que eu agora chamaria de um tipo de previsão bastante fraudulenta. Algumas vezes, sou considerado como tendo sido o único a prever o crash da economia americana em 1929. E, indiretamente, isto é fato. Como eu editava um informativo mensal sobre a situação dos negócios, eu tinha que falar sobre o projeto em que a Áustria se engajara, de recuperar-se da grave depressão por que estava passando. E, por acaso, eu mencionara que havia pouca esperança do sucesso desse projeto, já que as taxas de juros se mantinham tão altas, com todo o capital sendo atraído para a Bolsa de Nova Iorque, e isto fazia com que o capital se tornasse bastante escasso no resto do mundo, já que estava indo diretamente para os bolsos dos especuladores de Nova Iorque. Eu disse, então: “A recuperação terá que esperar até que a Bolsa de Nova Iorque entre em colapso…” E acrescentei: “…o que não demorará muito a acontecer”

  Estas declarações, feitas em fevereiro de 1929, me fizeram ganhar a reputação de haver prognosticado o crash da Bolsa de Nova Iorque.

   De fato, apesar de que minha ocupação principal se situava no terreno das estatísticas, eu estava muito mais interessado na explicação teórica de tudo isto. Tanto que a maior parte do meu trabalho no Instituto era dedicada à elaboração de um estudo mais aprofundado das causas das flutuações verificadas no setor industrial. Por volta de 1929, eu havia completado um esboço de uma teoria sobre o caráter cíclico dos negócios, novamente baseada naquilo que Mises havia sugerido em seu importante Livro sobre a moeda, publicado em 1912. De fato, eu pensara, primeiramente, que eu estava meramente repetindo o que Mises havia dito, mas o que me fez transformá-lo em livro foi o fato de Harbeler me dizer: “Você não pode pretender que isto seja amplamente entendido. Você se refere à teoria de Mises, mas tal teoria não é encontrada em lugar nenhum. Assim, seria melhor se você a reproduzisse”. Achei que reproduzi-la não seria tarefa muito fácil, e, assim, em 1929, produzi meu primeiro livro sobre teoria monetarista e caráter cíclico dos negócios. E isto me conduziu na direção de dois principais conjuntos de problemas: a teoria da moeda e a teoria do capital.

  Em minha análise sobre o caráter cíclico dos negócios estas duas coisas estão intimamente interligadas. E comecei a planejar um estudo mais aprofundado da matéria. Deste modo, acidentalmente, cheguei a uma teoria que viria a tornar-se extremamente importante para a minha carreira futura. Os alemães ou, mais especificamente, o grande sociólogo Max Weber, haviam iniciado, antes da guerra, um importante trabalho enciclopédico de cerca de vinte volumes, A Teoria da Moeda e a Teoria da Economia e da Sociedade, para a qual Weber contribuiu com sua própria vida. Estava praticamente completo, exceto quanto ao volume sobre moeda, cujos autores que dele sucessivamente se encarregaram haviam morrido um após o outro. Assim, aquele volume ainda estava por ser escrito. E o editor, desesperado, ansioso por encontrar alguém que pudesse prepará-lo rapidamente, voltou-se para o jovem conferencista-assistente de Viena, para saber se ele poderia fazê-lo. Aceitei o encargo, mas, por motivos que presumo serem bons, me convenci de que o que geralmente faltava aos economistas era um bom levantamento, tanto sobre a história da teoria monetarista, quanto da política monetária. Comecei, portanto, a escrever grande parte do livro sobre a história da moeda. E me encontrava justamente começando a trabalhar sobre o desenvolvimento da política e da teoria monetarista na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, quando, inesperadamente, recebi um convite de Londres para fazer uma série de conferências sobre a teoria do caráter cíclico dos negócios.

  Posso dizer que este foi o grande golpe de sorte em minha vida. Primeiramente, o simples fato de que, em Londres, um jovem professor ligado à área empresarial, pudesse ler alemão suficientemente bem para considerar importantes os estudos alemães; em segundo lugar, o fato de eu haver passado quase dois anos na América e ser capaz de fazer conferências em inglês; em terceiro lugar, o fato de eu ter acabado em conceber o esboço de uma teoria sobre as flutuações do mercado de negócios, apesar de não conhecer todas as dificuldade a ela inerentes, tais fatores, na ocasião em que fui convidado a falar sobre tudo isso em quatro conferências, me encorajaram a completar rapidamente aquele estudo. Se eu tivesse sentado para escrever algo ponderável sobre o assunto, muito provavelmente eu teria produzido um volume que me teria feito trabalhar durante uns dez anos para completá-lo e, no final, ninguém jamais iria lê-lo. Assim, o fato de ter sido solicitado a falar sobre todo o assunto, em quatro conferências, me ajudou extraordinariamente. Aí vem a última parte desse golpe de sorte: o fato de eu haver preparado aqueles capítulos introdutórios de meu livro sobre teoria monetarista, e haver dedicado três meses ao estudo da teoria monetarista e da política monetária da Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, me fez chegar lá, sabendo mais do que qualquer outra pessoa que por acaso estivesse presente naquele auditório em Londres.Como resultado desse conjunto de circunstâncias, foi-me ofertada uma cátedra na

London School of Economics. Recordo-me de que isso, na época, se constituiu em um acontecimento excepcional. Ou seja, o fato de um jovem professor, de 32 anos, ser chamado da Áustria para a Inglaterra, a fim de assumir uma cátedra na Universidade de Londres, causou certo sensacionalismo e surpresa.




Friedrich A. Hayek - Mises Brasil

'Congresso, inimigo do povo' — o brado eterno da Nomenklatura lulopetista;, por Flávio Gordon

A esquerda se recusa a aceitar que a soberania do Parlamento se sobreponha à sede de punição do regime




Nesta sexta-feira, 30 de abril de 2026, o Congresso Nacional fez o que o Congresso Nacional existe para fazer: legislar. Com 318 votos na Câmara e 49 no Senado — margens folgadas, inequívocas, soberanas —, os parlamentares derrubaram o veto presidencial ao PL da Dosimetria, restabelecendo regras de cálculo de penas que o próprio Código Penal já previa e que o STF, no julgamento dos condenados pelo 8 de janeiro, havia deliberadamente ignorado.

Horas depois, como era de se prever, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, anunciou que o partido recorreria ao Supremo ainda nesta sexta-feira. “Não tenho dúvida de que até amanhã a gente anuncia a judicialização”, disse, com a desenvoltura de quem, apesar do mantra partidário contra a “criminalização da política”, agora não vê nenhuma contradição em usar o Judiciário para anular a decisão do Legislativo — e não vê porque, para o lulopetismo, não há contradição alguma: há apenas a revolução, e os instrumentos que, a cada momento, melhor a servem. 

Trotski cunhou a expressão “o longo braço da revolução” para descrever a capacidade do projeto revolucionário de perseguir seus inimigos além das fronteiras, além do tempo, além de qualquer limite legal ou moral.

O PT não precisa de braços tão longos: seus inimigos estão aqui, a algumas horas de Brasília, uma gente humilde e trabalhadora, cumprindo penas que simplesmente não observaram a regra do concurso formal de crimes, consagrada no Código Penal há décadas. O Congresso corrigiu a distorção. 

O regime, que vetou a lei em cerimônia comemorativa dos três anos do 8 de janeiro — com todo o simbolismo vingativo que o gesto carregava —, agora corre aos companheiros de toga (cujo destino deveria ter sido o mesmo de Bessias) para desfazer o que o Parlamento fez. 


No Brasil de 2026, quando o Legislativo legisla contra os interesses do regime, o Executivo chama o Batman coletivo - Foto: Alessandro Dantas/PT 

O nome técnico disso é judicialização. O nome político é outro: é a recusa de aceitar que a soberania do Parlamento se sobreponha à sede de punição de um regime que transformou o Judiciário em arma revolucionária contra os adversários. Num Estado Democrático de Direito digno do nome, o Legislativo legisla e o Executivo executa. No Brasil de 2026, quando o Legislativo legisla “errado” — isto é, quando legisla contra os interesses do regime —, o Executivo chama o Batman coletivo.

Em paralelo, já mobiliza os seu imbecil coletivo — seus intelectuais orgânicos e seus artistas subvencionados — para dar início a mais uma campanha contra o “Congresso, inimigo do povo”. O povo, bem entendido, sendo a Nomenklatura lulopetista. 

Flávio Gordon - Revista Oeste

domingo, 3 de maio de 2026

' Repensando Churchill: Arrastando a América para a guerra — novamente', por Ralph Raico

 

Nota da edição:

O artigo a seguir é a quarta parte do ensaio Repensando Churchill do historiador libertário Ralph Raico. No texto, existe uma crítica contundente que desmistifica Winston Churchill, retratando-o não como um herói, mas como um político oportunista viciado em guerras.

Clique aqui para ler a parte 1 – Repensando Churchill: Churchill como um ícone e Oportunismo e Retórica

Clique aqui para ler a parte 2 – Repensando Churchill: Churchill e o “novo liberalismo”

Clique aqui para ler a parte 3 – Repensando Churchill: Primeira Guerra Mundial e Período Entreguerras


Em setembro de 1939, a Grã-Bretanha entrou em guerra com a Alemanha, em decorrência da garantia de proteção que Chamberlain foi levado, pelo pânico, a conceder à Polônia em março. Lloyd George classificou essa garantia como “irrefletida”, enquanto Churchill a apoiou. Ainda assim, em sua história da guerra, Churchill escreveu: “Aqui estava, finalmente, uma decisão, tomada no pior momento possível e sobre a base menos satisfatória, que certamente levaria ao massacre de dezenas de milhões de pessoas”1. Com a guerra em curso, Winston foi reconduzido ao seu antigo cargo de Primeiro Lorde do Almirantado. Então, no primeiro mês da guerra, algo surpreendente aconteceu: o presidente dos Estados Unidos iniciou uma correspondência pessoal não com o Primeiro-Ministro, mas com o chefe do Almirantado britânico, contornando todos os canais diplomáticos usuais2.

As mensagens trocadas entre o presidente e o Primeiro Lorde foram cercadas por um sigilo intenso, culminando no caso de Tyler Kent, o funcionário de cifras americano na embaixada dos Estados Unidos em Londres, que foi julgado e preso pelas autoridades britânicas. O problema era que algumas das mensagens continham referências ao acordo de Roosevelt — ainda antes do início do conflito — para uma cooperação claramente não neutra com uma Grã-Bretanha participante na guerra3.

Em 10 de junho de 1939, George VI e sua esposa, a Rainha Mary, visitaram os Roosevelt em Hyde Park. Em conversas privadas com o rei, Roosevelt prometeu apoio total à Grã-Bretanha em caso de guerra. Ele pretendia estabelecer uma zona no Atlântico a ser patrulhada pela Marinha dos Estados Unidos e, de acordo com as anotações do rei, o presidente afirmou que “se avistasse um submarino, afundaria imediatamente e depois lidaria com as consequências”. O biógrafo de George VI, Wheeler-Bennett, considerou que essas conversas “continham o germe do futuro acordo de bases por destróieres, bem como do próprio Acordo de Empréstimo e Arrendamento”4. Ao se comunicar com o Primeiro Lorde do Almirantado, Roosevelt sabia que estava em contato com o único membro do gabinete de Chamberlain cuja disposição beligerante se equiparava à sua.

Em 1940, Churchill finalmente se tornou Primeiro-Ministro, ironicamente no momento em que o governo Chamberlain renunciou por causa do fiasco da Noruega — que Churchill, mais do que qualquer outro, ajudou a provocar5. Assim como havia se oposto a uma paz negociada após a queda da Polônia, continuou a resistir a qualquer sugestão de negociações com Hitler. Muitos dos documentos relevantes ainda permanecem sob sigilo — depois de todos esses anos6. —, mas é claro que existia um forte partido da paz no país e no governo. Ele incluía Lloyd George na Câmara dos Comuns e Halifax, o Ministro das Relações Exteriores, no gabinete. Mesmo após a queda da França, Churchill rejeitou as renovadas propostas de paz de Hitler. É isso, mais do que qualquer outra coisa, que supostamente fundamenta sua grandeza. O historiador britânico John Charmley provocou uma onda de protestos indignados ao sugerir que uma paz negociada em 1940 poderia ter sido vantajosa para a Grã-Bretanha e para a Europa7. Um historiador de Yale, escrevendo no New York Times Book Review, referiu-se à tese de Charmley como “moralmente repugnante”8. No entanto, o trabalho acadêmico detalhado de Charmley sustenta o ponto crucial de que a recusa inflexível de Churchill até mesmo em ouvir termos de paz em 1940 condenou aquilo que ele afirmava ser mais caro para si — o Império e uma Grã-Bretanha não socialista e independente nos assuntos de política externa. Pode-se acrescentar que isso provavelmente também condenou o povo judeu na Europa9. É impressionante que, meio século depois dos fatos, ainda existam teses críticas sobre a Segunda Guerra Mundial que permanecem fora dos limites do debate histórico.

Lloyd George, Halifax e outros estavam abertos a uma paz de compromisso porque compreendiam que a Grã-Bretanha e os territórios sob domínio britânico, sozinhos, não poderiam derrotar a Alemanha10. Após a queda da França, o objetivo de Churchill de alcançar a vitória total só poderia se concretizar sob uma condição: que os Estados Unidos fossem arrastados para outra guerra mundial. Não é de admirar que Churchill tenha colocado toda a sua energia em garantir exatamente isso.

Após uma conversa com Churchill, Joseph Kennedy, embaixador americano na Grã-Bretanha, anotou: “Os britânicos gastarão todo o tempo disponível tentando descobrir como nos fazer entrar na guerra”. Ao partir de Lisboa em um navio com destino a Nova York, Kennedy implorou ao Departamento de Estado que anunciasse que, caso o navio viesse a explodir misteriosamente no meio do Atlântico, os Estados Unidos não considerariam isso motivo para entrar em guerra com a Alemanha. Em suas memórias inéditas, Kennedy escreveu: “Achei que isso me daria alguma proteção contra Churchill colocar uma bomba no navio”11.

Os temores de Kennedy talvez não fossem exagerados. Pois, embora envolver a América já tivesse sido importante para a política britânica na Primeira Guerra Mundial, isso era condição indispensável para a política de Churchill na Segunda Guerra Mundial. Em Franklin Roosevelt, ele encontrou um cúmplice disposto.

Não é motivo de discussão que Roosevelt, por meio de suas ações e declarações privadas, demonstrava claramente a intenção de entrar na guerra antes de 7 de dezembro de 1941. Os debates se concentraram em questões como seu possível conhecimento prévio do ataque a Pearl Harbor. Em 1948, Thomas A. Bailey, historiador diplomático de Stanford, já apresentava o verdadeiro argumento favorável a Roosevelt:

“Franklin Roosevelt enganou repetidamente o povo americano no período anterior a Pearl Harbor (…). Ele era como um médico que precisa contar mentiras ao paciente para o próprio bem do paciente (…). O país era esmagadoramente não intervencionista até o próprio dia de Pearl Harbor, e uma tentativa aberta de conduzir o povo à guerra teria resultado em fracasso certo e, muito provavelmente, na derrota de Roosevelt em 1940, frustrando completamente seus objetivos finais”12.

O próprio Churchill nunca se preocupou em ocultar o papel de Roosevelt como co-conspirador. Em janeiro de 1941, Harry Hopkins visitou Londres. Churchill o descreveu como “o mais fiel e perfeito canal de comunicação entre o Presidente e eu (…) o principal sustentáculo e inspirador do próprio Roosevelt”:

“Logo compreendi o dinamismo pessoal de [Hopkins] e a importância extraordinária de sua missão (…) ali estava um enviado do Presidente de suprema importância para nossa sobrevivência. Com olhar brilhante e uma paixão contida e serena, ele disse: ‘O Presidente está determinado a que vençamos a guerra juntos. Não tenha dúvidas quanto a isso. Ele me enviou aqui para lhe dizer que, a qualquer custo e por todos os meios, ele o sustentará até o fim, não importa o que lhe aconteça — não há nada que ele não fará dentro dos limites do que está ao alcance humano’. Ali estava ele, magro, frágil, doente, mas absolutamente irradiando uma compreensão refinada da Causa. Tratava-se da derrota, ruína e destruição de Hitler, com exclusão de todos os outros propósitos, lealdades e objetivos”13.

Em 1976, o público finalmente tomou conhecimento da história de William Stephenson, o agente britânico de codinome “Intrepid”, enviado por Churchill aos Estados Unidos em 194014. Stephenson estabeleceu sua base no Rockefeller Center, com ordens para utilizar quaisquer meios necessários para ajudar a levar os Estados Unidos à guerra. Com pleno conhecimento e cooperação de Roosevelt, e com a colaboração de agências federais, Stephenson e seus cerca de 300 agentes “interceptavam correspondência, realizavam escutas telefônicas, arrombavam cofres, sequestravam (…) espalhavam rumores” e constantemente difamavam seus alvos preferenciais, os “isolacionistas”. Por meio de Stephenson, Churchill exercia, na prática, controle sobre a organização de William Donovan, o embrião do serviço de inteligência dos Estados Unidos15.

Churchill chegou até mesmo a participar da enxurrada de propaganda pró-britânica e anti-alemã que saiu de Hollywood nos anos anteriores à entrada dos Estados Unidos na guerra. Gore Vidal, em Screening History, observa com perspicácia que, a partir de cerca de 1937, os americanos foram expostos a um filme após o outro glorificando a Inglaterra e os heróis guerreiros que construíram o Império. Como espectadores dessas produções, diz Vidal: “Não servíamos nem a Lincoln nem a Jefferson Davis; servíamos à Coroa”16. Uma figura central de Hollywood na produção dos filmes que “estavam nos tornando estranhamente ingleses” foi o emigrado húngaro e amigo de Churchill, Alexander Korda17. Vidal escreve de forma bastante apropriada:

“Para aqueles que hoje consideram desagradável a propaganda sionista, só posso dizer que a pequena e valente Israel de hoje deve ter aprendido muito com os pequenos e valentes ingleses da década de 1930. Os ingleses mantiveram uma intensa campanha de propaganda que acabaria por penetrar toda a nossa cultura (…) Hollywood foi infiltrada, de forma sutil e não tão sutil, por propagandistas britânicos”18.

Enquanto os americanos estavam sendo propagandeados, os dois conspiradores discutiam como provocar hostilidades diretas entre os Estados Unidos e a Alemanha. Em agosto de 1941, Roosevelt e Churchill se encontraram na conferência do Atlântico. Ali produziram a Carta do Atlântico, com suas “quatro liberdades”, incluindo “a liberdade em relação à necessidade” — um cheque em branco para difundir a Sozialpolitik anglo-americana pelo mundo. Quando Churchill retornou a Londres, informou o gabinete sobre o que havia sido acordado. Trinta anos depois, os documentos britânicos foram divulgados. Eis como o New York Times relatou as revelações:

“Documentos do governo britânico anteriormente ultrassecretos, tornados públicos hoje, afirmam que o presidente Franklin D. Roosevelt disse ao Primeiro-Ministro Winston Churchill, em agosto de 1941, que estava procurando um incidente que justificasse o início de hostilidades contra a Alemanha nazista (…) Em 19 de agosto, Churchill relatou ao Gabinete de Guerra, em Londres, outros aspectos da reunião em Newfoundland [Carta do Atlântico] que não foram tornados públicos (…) ‘Ele [Roosevelt] estava claramente determinado a fazer com que eles entrassem. Se submetesse a questão da paz e da guerra ao Congresso, eles a debateriam por meses’, acrescentam as atas do gabinete. ‘O presidente disse que travaria a guerra, mas não a declararia, e que se tornaria cada vez mais provocador. Se os alemães não gostassem, poderiam atacar as forças americanas (…) Tudo deveria ser feito para forçar um incidente’”19.

Em 15 de julho de 1941, o almirante Little, da delegação naval britânica em Washington, escreveu ao almirante Pound, o Primeiro Lorde do Mar: “a maior esperança de trazer a América para a guerra está nos esquemas de escolta até a Islândia, e esperemos que os alemães não demorem a atacá-los”. Little acrescentou, talvez em tom de brincadeira: “Caso contrário, acho que seria melhor organizarmos um ataque com nossos próprios submarinos, de preferência contra a escolta!” Algumas semanas antes, Churchill, buscando uma oportunidade para levar a América à guerra, escreveu a Pound a respeito do navio de guerra alemão Prinz Eugen: “Seria melhor, por exemplo, que ela fosse localizada por um navio americano, pois isso poderia levá-la a abrir fogo contra esse navio, proporcionando assim o incidente pelo qual o governo dos Estados Unidos ficaria tão grato”20. Incidentes no Atlântico Norte de fato ocorreram, cada vez mais, à medida que os Estados Unidos se aproximavam da guerra contra a Alemanha21.

Mas Churchill não negligenciou a “porta dos fundos para a guerra” — envolver os Estados Unidos com o Japão — como forma de levar a América ao conflito com Hitler. Sir Robert Craigie, o embaixador britânico em Tóquio, assim como o embaixador americano Joseph Grew, trabalhava intensamente para evitar a guerra. Churchill instruiu seu Ministro das Relações Exteriores, Anthony Eden, a enquadrar Craigie:

“Ele deve certamente ser informado imediatamente de que a entrada dos Estados Unidos na guerra, seja contra a Alemanha e a Itália, seja contra o Japão, é plenamente compatível com os interesses britânicos. Nada na esfera de armamentos pode se comparar à importância de o Império Britânico e os Estados Unidos atuarem como co-beligerantes”22.

Churchill colocou toda a sua influência em jogo para endurecer a política americana em relação ao Japão, especialmente nos últimos dias antes do ataque a Pearl Harbor23. Um crítico simpático a Churchill, Richard Lamb, escreveu recentemente:

“Era justificável que [Churchill] tentasse provocar o Japão a atacar os Estados Unidos? (…) em 1941, a Grã-Bretanha não tinha perspectiva de derrotar a Alemanha sem o auxílio dos EUA como aliado ativo. Churchill acreditava que o Congresso jamais autorizaria Roosevelt a declarar guerra à Alemanha (…) Em tempos de guerra, as decisões dos líderes nacionais devem ser tomadas de acordo com seu efeito sobre o esforço de guerra. Há verdade no velho ditado: ‘No amor e na guerra, vale tudo’”24.

Não é de admirar que, na Câmara dos Comuns, em 15 de fevereiro de 1942, Churchill tenha declarado, a respeito da entrada da América na guerra: “Foi isso que sonhei, que busquei, isso foi o motivo pelo qual trabalhei, e agora se concretizou”25.

Os admiradores de Churchill de modo algum usam contra ele seu papel em levar a América à Segunda Guerra Mundial. Pelo contrário, contam isso a seu favor. Harry Jaffa, em sua defesa desinformada e frenética, parece ser a última pessoa viva que se recusa a acreditar que o Homem de Muitos Séculos tenha tido qualquer responsabilidade pela entrada da América na guerra: afinal, não foram os japoneses que bombardearam Pearl Harbor?26

Mas e quanto à República Americana? O que significa para nós o fato de um presidente ter colaborado com um chefe de governo estrangeiro para nos envolver em uma guerra mundial? A questão teria importado pouco a Churchill. Ele não tinha qualquer preocupação com os Estados Unidos como uma nação soberana e independente, com seu próprio caráter e seu lugar no conjunto das coisas. Para ele, os americanos eram apenas parte dos “povos de língua inglesa”. Ele vislumbrava uma cidadania comum para britânicos e americanos, uma “fusão”, no caminho para a hegemonia mundial anglo-americana27.

Mas a intriga entre Churchill e Roosevelt deveria, ao que se poderia supor, importar aos americanos. Aqui, no entanto, a crítica é interrompida antes mesmo de começar. Um postulado moral de nossa época é que, na busca pela destruição de Hitler, tudo era permitido. Ainda assim, por que seria evidente por si só que a moral exigia uma cruzada contra Hitler em 1939 e 1940, e não contra Stalin? Naquele momento, Hitler havia matado milhares, mas Stalin já havia matado milhões. De fato, até junho de 1941, os soviéticos se comportaram de forma muito mais assassina em relação aos poloneses em sua zona de ocupação do que os nazistas na deles. Cerca de 1.500.000 poloneses foram deportados para o Gulag, sendo que aproximadamente metade morreu nos primeiros dois anos. Como escreve Norman Davies: “Stalin estava superando Hitler em seu desejo de reduzir os poloneses à condição de uma nação escrava”28. Evidentemente, havia considerações de equilíbrio de poder que criavam distinções entre os dois ditadores. Mas ainda não foi explicado por que deveria existir um duplo padrão segundo o qual um compromisso com um ditador seria “moralmente repugnante”, enquanto a colaboração com o outro seria moralmente irrepreensível29.




Ralph Raico - Mises Brasil