Coluna dedicada à honra da família Mantovani, vítima da cleptocracia
luloalexandrina
Roberto Mantovani e Alexandre de Moraes - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução/Antonio Augusto/STF
“B
andido” — disse Alexandre de Moraes a Roberto Mantovani
no incidente do aeroporto de Roma, na única cena até hoje
registrada em vídeo. Entre a incredulidade e a resignação,
por saber com que figura poderosa estava lidando, o
patriarca da família Mantovani só conseguiu responder com uma
pergunta: “Eu, né?” Como quem diz: sou mesmo o bandido nessa
história?
Ali, naquele 14 de julho de 2023, Roberto não tinha como dimensionar
toda a extensão da ironia contida naquela troca de palavras. Não poderia
imaginar que, três anos mais tarde, o país teria diante de si mensagens,
contratos, jatinhos, cartões de crédito, encontros e declarações de
gratidão capazes de lançar sobre a família Moraes suspeitas
incomparavelmente mais graves do que qualquer impropério
pronunciado à porta de uma sala VIP de aeroporto. Assim que, hoje já é
possível responder à pergunta de Roberto com toda a certeza: não,
Roberto, você não era o bandido da história.
Talvez nunca tenha havido, na vida pública brasileira recente,
demonstração tão perfeita daquilo que os antigos chamavam de hybris: a
desmesura do homem (e, por extensão, de sua família) que, habituado à
obediência dos outros, já não reconhece acima de si nenhuma lei,
jurídica, moral ou simplesmente humana. Alexandre de Moraes não se
comportou naquele aeroporto como um cidadão qualquer envolvido
numa discussão desagradável.
Comportou-se como a própria encarnação
ambulante do Estado.
Não era a primeira vez que o falso juiz usava a toga como cassetete. Antes
mesmo do episódio de Roma, havia cometido uma sucessão de abusos de
autoridade que àquela altura já deveriam ter provocado uma reação
contundente da sociedade: mandou prender o então deputado federal
Daniel Silveira, em fevereiro de 2021, por críticas ao STF, passando por
cima da imunidade parlamentar prevista na Constituição; prendeu o
jornalista Oswaldo Eustáquio, também em 2021; autorizou, em outubro
de 2022, a prisão de Roberto Jefferson, cumprida em meio a um tiroteio entre os capangas alexandrinos e o deputado, ocorrido na porta de sua
casa; perseguiu o blogueiro Allan dos Santos até empurrá-lo para o exílio
nos Estados Unidos, depois de bloquear suas contas e decretar sua
Itatiaia prisão; e, no mesmo período, autorizou buscas e apreensões contra
empresários cujo único crime era financiar manifestações contrárias ao
seu grupo político.

O deputado Daniel Silveira, durante uma sessão na Câmara - Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputado
Moraes quase não foi criticado, muito menos denunciado, processado ou
condenado por nenhum desses episódios — não porque fosse inocente,
mas porque contava, como ainda conta, com uma rede de proteção nas
altas esferas do poder da República, blindagem que o próprio caso
Vorcaro viria a escancarar. Era esse o homem, e essa a impunidade que o
cercava, que a família Mantovani encontrou, sem saber, num corredor de
aeroporto. Bastou o entrevero para que toda a engrenagem institucional
brasileira — incluindo a Procuradoria-Geral da República (PGR) do
enlameado Paulo Gonet — fosse mobilizada na perseguição dos
Mantovani.
O que se seguiu foi busca e apreensão contra a família, celulares e
computadores tomados, sigilos quebrados, um inquérito conduzido pela
banda podre da Polícia Federal (aquela de Andrei Rodrigues, o tomador
de uísque do Vorcaro), acompanhado pelo Partido-Corte e impulsionado
pela espúria PGR. Tudo isso por causa de uma discussão de aeroporto,
ocorrida em território estrangeiro, sem áudio que permitisse saber quem
dissera o quê e sem prova de agressão grave.
Uma discussão que a maior
parte da imprensa dita “profissional” — essa mesma que hoje se espanta
ao descobrir viver numa ditadura judicial — tratou como um ataque às
instituições democráticas por parte de “bolsonaristas”, comprando
acriticamente a versão de Moraes e sua família. E também a versão do
Descondenado-em-chefe, que, além de qualificar os integrantes da
família Mantovani de “animais selvagens” que deveriam ser “extirpados”,
chegou ao cúmulo de pedir que o chanceler da Alemanha fizesse
ingerências na empresa alemã na qual Roberto trabalhava, tendo por
objetivo a sua demissão.
Ao contrário da imprensa sicofanta, eu aceitei desde sempre, como
continuo aceitando como mais provável, a versão da parte mais fraca do
embate — a família Mantovani. Até por saber que Alexandre de Moraes é
um mentiroso contumaz. Aliás, num trabalho investigativo próprio, à
época apresentado num fio no X, o jornalista Ivanildo Terceiro
demonstrou por A mais B que a versão dos Mantovani era, de fato, a mais
verossímil, e correspondia mais fielmente também à versão da polícia
italiana.
A família Mantovani, que teria supostamente agredido o filho do ministro Alexandre de Moraes - Foto: Reprodução/Redes socias
O depoimento prestado à Polícia Federal pela esposa de Roberto
Mantovani, Andreia Munarão, é minucioso, e vale a pena contá-lo com
todos os seus detalhes, porque foi justamente o detalhe que a imprensa
filo-alexandrina sempre lhe recusou. Segundo o relato, a filha e o genro
do casal chegaram antes e ouviram dos funcionários que a sala VIP
estava lotada. Foi então que Andreia viu Alexandre de Moraes entrar sem
qualquer obstáculo. Entendendo — decerto corretamente — que o Careca
do Master furava a fila por privilégio de cargo, reclamou com as
atendentes: político entra, mas família com criança de colo, não? Andreia
afirma, categoricamente, que não se dirigiu a Moraes.
Foi nesse instante que um rapaz de blazer e óculos (depois identificado
como Alexandre Barci de Moraes, o Xandinho, filho do ministro) e uma
moça se voltaram contra ela. A moça — a Xandinha, uma das filhas de
Moraes — teria exibido o dedo médio. O rapaz mandou beijos e passou a
dirigir-lhe frases de teor sexual que a decência, normalmente, me faria
poupar o leitor de conhecer, mas que o dever jornalístico me obriga a
reproduzir, pois é do acúmulo de tais baixezas que se mede a índole e a
educação da famiglia Moraes.
“Cincão pela sua bundinha”, “putinha”, “vou comer o seu cuzinho”, “vou
beijar seus peitinhos” — disse o Xandinho a Andreia. Roberto perguntou
por que o rapaz fazia aquilo, pediu que parasse e, segundo o relato da
esposa, tentou afastá-lo com o braço. Ela diz que não chegou a ver o
alegado tapa; soube depois, pelo próprio marido, que ele tentara apenas
afastar Barci e que, no gesto, os óculos do rapaz caíram — nada além
disso, por mais que a acusação tenha preferido, depois, a versão mais
dramática do “tapa no rosto”, narrado com a precisão literária de quem
acrescenta intenção moral a uma sequência muda de fotogramas — e
reforçada pela imprensa sabuja que, no caso do jornal O Globo, chegou a
dar-lhe forma de história em quadrinhos, retratando um filho de
Alexandre de Moraes, com a aparência bem mais juvenil do que a
realidade, sendo esbofeteado violentamente por Roberto Mantovani.
Matéria publicada no jornal O Globo em 18/07/2023 | Foto: Reprodução O Globo
Sem vaga em nenhuma outra sala, a família teve de voltar pelo único
corredor disponível — o mesmo por onde acabara de passar. Barci teria
saído atrás deles e repetido as ofensas, chegando a perguntar, em plena
via pública do aeroporto, “cadê a putinha”. Alex e Giovanni, filho e genro
de Roberto, tentaram acalmar os ânimos. Foi então que o próprio
Alexandre de Moraes saiu da sala, fotografou a família, e alguém ao seu
lado disse que os Mantovani “responderiam no Brasil” — frase que, vinda
de quem vinha, nunca foi um mero desabafo, mas uma ameaça real de
abuso de autoridade.
Alex filmou a cena e perguntou se aquilo era mesmo
uma ameaça. E foi nesse momento — o único, repito, registrado em vídeo
— que Moraes proferiu o xingamento “bandido”, pôs a mão no ombro do próprio filho e voltou para dentro da sala. Andreia nega, até hoje, ter
xingado o ministro ou qualquer membro de sua família.
É essa versão — detalhada, coerente internamente, e nunca desmontada
por prova em contrário — que foi tratada pela máquina do Estado e pela
imprensa bovina como fantasia de gente mal-educada, enquanto a
palavra do ministro valeu como sentença.
Mas a atitude atribuída ao filho de Moraes seria apenas uma grosseria
privada se não exprimisse algo maior: a convicção — reforçada pela falsa
narrativa da “defesa da democracia” contra o “golpismo bolsonarista” —
de que certas famílias pertencem a uma casta superior e de que os
demais brasileiros existem para reverenciá-las e servi-las. É exatamente
esse pano de fundo que o levantamento do sigilo do relatório da PF, que
aponta os laços entre Vorcaro e Moraes — finalmente reportados por uma
imprensa que, subitamente, parece ter reaprendido a fazer jornalismo —
veio iluminar.
Alexandre Barci de Moraes - Foto: Reprodução/Barci de Moraes
Em julho de 2023, quando ocorreu o episódio de Roma, a relação íntima
entre a família Barci-Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, então à frente
do Banco Master, estava prestes a começar, por intermediação de Fábio
Faria. Foi justamente nesse momento — dezembro de 2023 — que seguranças, instruindo a equipe a proporcionar uma “experiência
completa” e vetando que funcionários tirassem fotos com o ministro. Não
foi um favor isolado: foi, ao que tudo indica, o início de uma rotina que se
estenderia pelos anos seguintes.
As mensagens hoje conhecidas mostram um padrão consolidado. Em
janeiro de 2024, foi assinado contrato de R$ 131 milhões (R$ 3,6 milhões
mensais por três anos) entre o escritório de Viviane Barci de Moraes,
esposa do ministro, e Vorcaro. Os metadados do documento, recuperados
do celular do banqueiro, indicam que um perfil identificado como
“Ministro Alexandre de Moraes” editou a minuta final às 23h04 de 15 de
janeiro de 2024, cerca de uma hora e quarenta minutos depois de
Vorcaro devolver o arquivo com revisões. O escritório confirma que, “na
condição de marido” (contenham o riso, leitores), o ministro acessou e
editou o texto, alegando consulta sobre eventual impedimento. Que bela
confissão!
Em maio de 2025, Vorcaro transferiu a Viviane cotas de um jato Legacy
650 e de um helicóptero Airbus EC155, negócio avaliado em R$ 50
milhões e supostamente contabilizado como pagamento por “serviços
jurídicos”. A Primeira-Dama do Master escreveu a um funcionário que
estava “gostando muito” do jatinho. Em outubro do mesmo ano, o
escritório de Dona Vivi solicitou a Vorcaro dois cartões de crédito com
limite de R$ 300 mil cada, destinados aos filhinhos do casal Barci-Moraes
(aqueles mesmos pimpolhos tão bem-educados, como se viu no incidente
do aeroporto de Roma). O pedido foi prontamente aprovado pelo
banqueiro.
Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes na posse de Lula como 39º presidente do Brasil (01/01/2023) - Foto: Ricardo Stuckert/PR
Mensagens da Polícia Federal indicam ainda que o próprio Moraes
ajudou a organizar, em Londres, eventos jurídicos “superexclusivos”
patrocinados por Vorcaro em 2024 e 2025 — aprovando convidados,
vetando nomes e recebendo elogios efusivos do banqueiro, que chegou a
dizer que excluir determinado participante da programação “mataria” o
ministro, ao que tudo indica por puro capricho.
Há também, é claro, as mensagens da própria véspera da queda. Três
dias antes de ser preso, em 14 de novembro de 2025, Vorcaro escreveu a
Moraes: “gratidão da minha vida a você”, afirmando que ele, sua família e
seus funcionários tinham com o Careca do Master “uma dívida de vida”.
No dia seguinte, perguntou se já deveria deixar o país: “Acha que segunda
já tenho que estar fora?” Na véspera da prisão, questionou se havia risco
de a operação ocorrer “amanhã de manhã” — poucas horas antes de a
prisão preventiva ser de fato decretada. Os investigadores da PF apontam
que os dois usavam mensagens de visualização única, o que dificulta
reconstituir as respostas do ministro. Recorde-se a propósito que, no voto
em que condenou a patriota Débora do Batom, Moraes afirmou que
apagar mensagens configurava obstrução de justiça.
Some-se a tudo isso a mensagem atribuída a Vorcaro sobre a necessidade
de “proteção de Andrei e de Paulo”, identificados pela PF como o diretorgeral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da
República, Paulo Gonet, ambos frequentadores, junto com o próprio
Moraes, da Conspiração do Uísque, em Londres. E some-se, também, a
série de mensagens atribuídas ao próprio Gonet, enviadas a Vorcaro por
meio de um advogado intermediário, com frases como “estou na torcida
por vocês” e “já com saudade de você”, entremeadas de referências a
viagens, charutos e uísque Macallan — o mesmo Gonet que, à frente da
PGR, foi quem insistiu no prosseguimento do inquérito contra os
Mantovani depois que a própria Polícia Federal o havia encerrado sem
indiciamento.
Andrei Rodriges e Paulo Gonet - Foto: Montagem Revista Oeste/Edilson Rodrigues/Agência Senado/Gustavo Moreno/ST
Recorde-se: Hiroshi Sakaki, o primeiro delegado daquele caso, ao
examinar as imagens do aeroporto de Roma, concluiu não ser possível
estabelecer com segurança a autoria das ofensas e encerrou a
investigação sem indiciar ninguém. Em qualquer sistema minimamente
saudável, o episódio teria terminado ali. Mas o camarada Gonet pediu
novas diligências, o processo foi reaberto e o caso passou a outro
delegado, Thiago Severo de Rezende, um superior de Sakaki, que
reverteu a conclusão anterior e indiciou Roberto, Andreia e o genro do
casal. Duas semanas antes dessa reviravolta, esse mesmo delegado havia
sido indicado para um posto de oficial de ligação da PF na Europa, com
mudança de sede e todas as vantagens que a função carrega. Era a
aplicação usual da governança alexandrina — os puxa-sacos são
premiados, os dissidentes e denunciantes (como Eduardo Tagliaferro,
por exemplo), perseguidos implacavelmente.
Ao fim, o PGR, que amava uísque, charutos e caronas em jatinhos,
denunciou os Mantovani, desprezando parecer técnico da própria
Secretaria de Perícia da Procuradoria, que recomendava a obtenção de
cópia integral das imagens antes de formular a acusação.
Gonet preferiu a versão da família poderosa e transformou uma altercação sem provas
definitivas, ocorrida no exterior, em caso criminal perante o Supremo.
Tratava-se, conforme a Grande Narrativa criada pelo luloalexandrismo
com apoio da Rede Globo, de mais um “ataque bolsonarista” contra a
democracia.
Eis o mecanismo clássico do lawfare: não importa apenas obter uma
condenação. Importa transformar o processo em castigo, expor os
acusados, invadir sua intimidade, cobri-los de vergonha pública e
ensinar a todos os demais a jamais confrontar a casta dominante. É
terrorismo de Estado, a prática na qual o Careca do Master e seus
capangas se especializaram. Os Mantovani foram apresentados ao país
como agressores. Sua versão foi ridicularizada antes de examinada. E a
única injúria claramente registrada em vídeo — o “bandido” pronunciado
pelo próprio Alexandre de Moraes — não produziu consequência alguma
para o agressor.

Mas o tempo passa e, hoje, depois do histórico 1º de setembro,
corajosamente promovido por André Mendonça, aquela ofensa retorna
como uma gosma pegajosa sobre o seu autor. Com ela, surge uma
pergunta que o próprio país é convidado a fazer. O homem que chamou
um cidadão comum de bandido enquanto sua família era conduzida em
jatinhos de banqueiro, agraciada com cartões de limites extravagantes,
beneficiada por contrato de nove dígitos que ele próprio ajudou a redigir,
ainda tem autoridade moral para permanecer na pose virtuosa — que lhe
foi investida pela imprensa (lembrando desse e desse outro exemplo) —
de vigia dos muros das instituições democráticas contra as invasões
bárbaras do bolsonarismo?
Os processos que conduziu, as sentenças que
proferiu, os danos que causou devem permanecer intactos e impunes?
Roberto Mantovani questionou: “O bandido sou eu?” Durante três anos, o
Estado brasileiro e a imprensa corrupta responderam que sim. As
mensagens do caso Master acabam de reabrir esse julgamento. Desta vez,
os brasileiros podem ver, com nomes, datas e valores em reais, quem
viajava na primeira classe, quem recebia os favores, quem editava os
contratos, quem organizava os encontros, quem prometia proteção e
quem, afinal, mobilizava contra um pai de família — e contra muitos
outros cidadãos inocentes — a máquina inteira do Estado por pura
autoblindagem.
Não, Roberto. Você nunca foi o bandido da história. Ao que tudo indica,
você foi apenas o homem comum que, por alguns segundos, recusou-se a
baixar a cabeça diante do figurão da República, que já se acostumara a
ser chamado, no bom português do banqueiro ladrão (seu amigo de fé e
irmão camarada), de “ultra VIP”. Se o que temos no Brasil é justiça, que
se ache outra palavra para o resto — porque a que sobrar não vai servir
para batizar o que fizeram com um pai de família num corredor de
aeroporto, por conta de uma sala lotada e de um herdeiro mal-educado e
mimado, que ninguém teve a decência de disciplinar, e cujo pai continua,
até o presente momento, convicto de pairar acima das leis e do próprio
Deus.
Flávio Gordon - Revista Oeste