sexta-feira, 9 de outubro de 2026

'A força de um sobrenome', por Yasmin Alencar

 Dos 19 candidatos registrados nas urnas com o sobrenome Bolsonaro, seis foram eleitos, quatro da própria família



“E stá decretado o fim da era do PT.” A frase foi dita por Flávio Bolsonaro ao fim da apuração do primeiro turno, no último domingo, 4. O senador terminou a primeira etapa à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio recebeu cerca de 47% dos votos válidos, 56 milhões. Lula teve 45%, menos de 54 milhões. A diferença é de quase dois pontos porcentuais, e o resultado final será decidido em 25 de outubro. 

Embora Flávio estivesse se referindo à disputa presidencial, o resultado do primeiro turno também permitiu medir a força eleitoral dos políticos que levaram os nomes “Bolsonaro” e “Lula” às urnas. Dos 19 candidatos que levaram “Bolsonaro” no nome, seis foram eleitos, sem contar Flávio, que segue na disputa. Quatro são parentes do expresidente e dois não têm vínculo com ele. Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal com quase 1 milhão de votos. Carlos Bolsonaro obteve um mandato de senador por Santa Catarina com votação acima de 2 milhões. No mesmo Estado, Jair Renan Bolsonaro, que concorreu como “Jair Bolsonaro”, foi eleito deputado federal com 131 mil. 

Em São Paulo, Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, chegou a 379 mil e terminou como o segundo deputado mais votado do PL no Estado. Juntos, os quatro receberam mais de 3,4 milhões de votos. Entre os que não têm parentesco, Fabiana Bolsonaro foi eleita deputada estadual em São Paulo com 61 mil votos. 

No Paraná, Crysthofour Pereira de Almeida, registrado como Fão do Bolsonaro, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa com 48 mil. Além dos candidatos que levaram o sobrenome, Bolsonaro também deixa um legado político de ex-ministros eleitos. É o caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito governador de São Paulo no primeiro turno com mais de 14 milhões de votos, mais de 62% dos válidos. Ex-ministro da Infraestrutura, Tarcísio se firmou como um dos principais nomes do campo da direita.

Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí, o sobrenome funciona como marca licenciada. Ele descreve o movimento em torno de Bolsonaro e Lula como “as duas grandes franquias políticas”. “O nome Bolsonaro ficou muito forte, semelhante ao que aconteceu em 2018, mas com muito mais força agora, porque o grupo busca voltar ao poder”, observa. 


Com Lula, a escala foi outra



Sobrenome Bolsonaro soma mais de 3,4 milhões de votos no Legislativo, e aliado Tarcísio de Freitas se consolida ao ser reeleito em São Paulo | Foto: Reprodução/X


No primeiro turno, nove candidatos chegaram à urna com “Lula” no nome, e nenhum tem parentesco com o presidente. Apenas dois foram eleitos, ambos para o Senado. Júlio César de Carvalho Lima (PSD) concorreu como “Júlio César O Julim do Lula” e fez 973 mil votos no Piauí. Aos 78 anos, ele foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1994, cumpriu mandato de 1995 a 1999, ficou de fora, voltou à Câmara em 2003 e se reelegeu quatro vezes. Samanda Alves de Freitas, presidente estadual do PT e vereadora de Natal, concorreu como Samanda de Lula e fez 636 mil votos no Rio Grande do Norte, a segunda mais votada do Estado. 

Um terceiro eleito carrega o nome e não entra na conta. Lula da Fonte (PP) foi reeleito deputado federal por Pernambuco, mas “Lula” é seu apelido desde criança, derivado de Luiz. Filho do deputado Eduardo da Fonte, ele se elegeu com o mesmo nome em 2022, e a família é aliada de Bolsonaro. Para Gomes, o tamanho da vitória traz um problema próprio. “Enquanto o Lula não tem sucessor nenhum, o Bolsonaro tem sucessores demais”, enfatiza. 

“É uma espécie de briga por herança de alguém que ainda está vivo, mas inelegível, incomunicável.” A campanha de Lula, no entanto, discorda do diagnóstico e revela que, no entorno do PT, não é tão simples a transmissão de uma herança política. Para Marco Aurélio Carvalho, que coordena a campanha do presidente, os dois campos operam de maneiras diferentes. “No progressista, você não herda de forma automática um legado”, afirma. A fala de Carvalho reflete a dificuldade que o PT possui em construir um herdeiro político para Lula.


Enquanto Bolsonaro tem excesso de herdeiros políticos, Lula enfrenta a falta de um sucessor claro no PT | Foto: Shutterstock


A diferença entre os dois campos fica evidente quando se olha para o futuro. Enquanto o movimento em torno de Bolsonaro já tem sua segunda geração empossada e novos protagonistas surgindo, o PT encara o dilema de como sobreviver politicamente sem sua principal liderança. Lula disputa aquela que tende a ser sua última eleição, já que em 27 de outubro fará 81 anos. Gomes acredita que o presidente não preparou um sucessor por enxergar a ascensão de outro nome dentro da sigla como uma ameaça à sua hegemonia.

Para Gomes, o PT se transformou numa “estrutura de culto ao líder” e cercou Lula de conselheiros que competiam entre si pela atenção dele. “Tenho sérias dúvidas se esse grupo tem condições de sobreviver à morte física de Lula”, afirma. “Vai existir uma luta muito grande pelo espólio do lulopetismo.

” Mesmo inelegível e sem direito a voto, o ex-presidente Bolsonaro mantém influência por meio de familiares, aliados e ex-ministros que ampliaram seu espaço na política. Se a previsão de Flávio sobre o “fim da era do PT” vai se confirmar, ainda não é possível saber. Os resultados, porém, mostram dois movimentos distintos: enquanto o grupo ligado a Bolsonaro amplia sua presença por diferentes candidaturas, o PT enfrenta o desafio de preservar seu espaço político sem depender exclusivamente da liderança de Lula. 

O resultado dessa disputa terá impacto sobre a eleição de 2026 e sobre a composição das forças políticas nos próximos anos.


Yasmin Alencar  - Revista Oeste

'Piás bons de voto' - Reportagem da Revista Oeste

 A nova geração conservadora transforma audiência nas redes em força nas urnas


Com marcas recordes nas urnas, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira se consolidam como os deputados federais mais votados do país | Foto: Reprodução/Facebook/Lucas Pavanato

A multidão vestida de verde e amarelo que toma as ruas de Belo Horizonte responde à convocação de Nikolas Ferreira, um jovem cuja voz há muito ultrapassou as fronteiras de Minas Gerais e conquistou o país. “Nunca subestime um piá”, fala ao microfone o deputado federal mais votado da história do Brasil. A declaração responde à grosseria da primeira-dama, Janja da Silva, que horas antes o chamara de “piá de bosta” por ter criticado mais uma das incontáveis asneiras ditas pelo presidente Lula. Ao abordar a resistência masculina a realizar exames de prevenção do câncer de próstata, Lula havia dito que “as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”.

Enquanto líderes tradicionais construíram suas bases ao longo de décadas na política institucional, jovens com pouca experiência no meio político operam na lógica de algoritmos, gerando inúmeras visualizações e pautando o debate público. Nikolas recebeu 3,1 milhões de votos em Minas Gerais e garantiu a reeleição para a Câmara. Antes da votação, apoiadores do parlamentar já haviam incorporado o termo à campanha. Em um dos atos, um cartaz dizia: “Somos todos piá”. Em vídeo publicado nas redes sociais, Nikolas aparece cercado por apoiadores, sob gritos contra o PT, e diz: “É assim que se faz blocão, Janja.”

Nikolas não garantiu apenas a própria reeleição, mas também conseguiu emplacar 21 deputados federais em todo o país. Muitos deles foram os mais votados em seus Estados. É o caso do vereador paulistano Lucas Pavanato (PL), de 28 anos, que também ultrapassou os 3 milhões, e o deputado estadual capixaba Lucas Polese (PL), de 30, que conseguiu 419 mil votos. 

Os três chegaram ao topo da votação nacional, enquanto nomes com décadas de mandatos ficaram pelo caminho. Eles representam uma geração da direita que combina militância nas redes, pautas conservadoras e ambição de ampliar sua influência no Legislativo. Eduarda Campopiano (PL-SP) também entrou para a história das votações milionárias ao ser eleita deputada estadual com quase 2 milhões de votos aos 23 anos. Nenhuma outra mulher recebeu tantos votos nas disputas para a Câmara e as assembleias legislativas. Dois anos antes, Eduarda havia conquistado seu primeiro mandato com 3,5 mil votos. Eduarda, Nikolas, Pavanato e Polese somam mais de 8,5 milhões de votos. 


Do sótão aos 3 milhões 

Antes da eleição, Pavanato calculava que poderia chegar a 700 mil votos. Considerava 1 milhão ou 1,2 milhão um cenário excepcional. Quando a apuração terminou, 3.038.438 eleitores haviam digitado seu número. O resultado fez dele o deputado federal mais votado de São Paulo e colocou seu nome, ao lado do de Nikolas, acima dos antigos recordes de votação para a Câmara

A escalada eleitoral ocorreu em apenas quatro anos. Em 2022, Pavanato recebeu pouco mais de 36 mil votos na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa e ficou como suplente. Em 2024, saltou para 161 mil e se tornou o vereador mais votado da cidade de São Paulo. Dois anos depois, multiplicou essa votação quase 19 vezes. 

A trajetória começou antes da fama nas redes. Nascido em Sorocaba e criado em São José dos Campos, Pavanato entrou na militância durante as manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Aos 18 anos, mudou-se para a capital paulista. Sem uma estrutura familiar montada na cidade, chegou a morar no sótão de um comitê político na Vila Mariana e recebia um salário de R$ 1 mil. 

Ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), começou como estagiário no gabinete do então vereador Fernando Holiday. Mais tarde, rompeu com o movimento, aproximou-se do ex-presidente Jair Bolsonaro e filiou-se ao PL. Se os gabinetes lhe ensinaram a mecânica da política, foram as redes que deram escala à carreira. Pavanato construiu sua audiência com vídeos curtos, abordagens nas ruas e confrontos sobre temas políticos.


Com mais de 3 milhões de votos, Pavanato supera as próprias previsões e bate recorde | Foto: Reprodução/Redes sociai

Depois da eleição, atribuiu parte da votação à autenticidade que o público reconhece nele. A explicação ajuda a entender uma característica compartilhada pelos quatro personagens. A presença nas redes vai além dos meses de campanha. O seguidor acompanha discussões, viagens, reações a notícias e disputas políticas ao longo do tempo. 

Quando chega a eleição, já os conhece, ainda que essa familiaridade nem sempre se transforme em voto. Pavanato pretende levar a Brasília bandeiras que defendia como vereador: segurança pública, redução da maioridade penal, fiscalização do Judiciário e legislação sobre ideologia de gênero. 

“Vão sair vários Nikolas”, diz. “Vamos construir os próximos prefeitos, parlamentares e governadores usando a força das redes sociais.” 


Das telas para as urnas 

Eduarda esperava obter cerca de 500 mil votos. Na noite da eleição, pediu aos convidados no QG de campanha que guardassem os celulares numa caixa. Queria receber a notícia de uma vez. Apenas um amigo acompanharia a apuração; o chefe de gabinete anunciaria os resultados quando a contagem terminasse. Ao ouvir que Pavanato havia ultrapassado 3 milhões, ficou pálida. 

Quando veio o anúncio de sua própria votação, os óculos saíram do rosto. Choravam os pais, o noivo e a equipe. Aos 17 anos, Eduarda mudou-se para a Praia Grande. Mais tarde, um livro que ganhou da mãe a estimulou a gravar vídeos sobre aborto e feminismo. 

O cabelo colorido e as tatuagens chamavam a atenção de quem não esperava ouvir posições conservadoras. A reação do público, segundo ela, ajudou a difundir os primeiros conteúdos. “Nossa, essa menina aqui, com cara de esquerdista, toda metaleira, meio emo, falando de política de direita?”, lembra. A repercussão trouxe convites para podcasts, palestras e, em 2024, a proposta de disputar uma cadeira de vereadora. Eduarda hesitou: pensava em continuar produzindo conteúdo. 

Com o incentivo da mãe, de Pavanato e de integrantes do PL, decidiu concorrer. Nikolas também apoiou a campanha. Na Câmara Municipal, Eduarda afirma ter aprovado três dos cerca de 20 projetos apresentados. Atribui as dificuldades a objeções jurídicas e à resistência dos colegas. Segundo ela, os vereadores evitam votar propostas polêmicas.



Eduarda Campopiano, a deputada estadual mais votada do Estado de São Paulo | Foto: Reprodução/X


Entre as propostas aprovadas, Eduarda cita a conscientização sobre saúde mental masculina, a preferência de matrícula para irmãos na mesma escola e restrições a contratações. Esta última limita o acesso a cargos públicos de condenados por violência sexual contra crianças e adolescentes. Ela pretende levar a medida à Assembleia. 

“Ser pró-vida não é só defender o direito de nascer, é você proteger essas crianças depois que elas nascem também.” Na Assembleia, como seu primeiro ato, pretende pedir informações sobre abortos realizados no Estado, seus motivos e investigações de clínicas clandestinas para orientar a elaboração de propostas. 

Ascensão em todo o Brasil Fora do maior colégio eleitoral do país, a renovação chegou ao Espírito Santo, que tem cerca de 3 milhões de eleitores aptos a votar. Lucas Polese (PL) recebeu aproximadamente 419 mil votos e tornou-se o deputado federal mais votado da história capixaba. “Fiquei muito surpreso”, afirma. “Nem nas melhores projeções imaginávamos esse resultado. Estamos muito honrados pela confiança dos capixabas, mas também é muita responsabilidade. De cada cinco eleitores do Estado, um votou em mim”.


Lucas Polese (PL) é o deputado federal mais votado da história do Espírito Santo | Foto: Reprodução/Assembleia Legislativa do ES


Toda a receita da campanha veio de doações, sem recursos do fundão eleitoral. “Foi a campanha mais barata do país para a Câmara dos Deputados. Custou cerca de 18 centavos o voto”, relata.

 Natural de Cariacica (ES), Polese mudou-se para Colatina, no interior do Estado. Sua família possui uma pequena propriedade rural em Linhares, dedicada ao cultivo de café, onde o parlamentar trabalhou na agricultura. Eleito deputado estadual em 2022, Polese priorizou a oposição ao governador Renato Casagrande (PSB), aliado do presidente Lula, e a defesa de pautas ligadas ao agronegócio.

Próximo de Nikolas, o parlamentar projeta uma atuação na Câmara baseada na defesa da propriedade privada, da desburocratização e de um Estado mais enxuto. Ele divide sua plataforma em grandes blocos. O primeiro visa a um “reequilíbrio de forças entre os Poderes”. 

“Apesar de o Senado conduzir o impeachment, a Câmara também é muito importante nesse processo de investigação política,” defende, citando a necessidade de reformas para que o Supremo “deixe de ser uma delegacia”. A terceira prioridade do mandato é a segurança pública. Seu alvo principal é o domínio das facções, que impõem “uma legislação própria e tribunais do crime” em partes do país.

O teste do Congresso 

A presença de jovens com forte atuação digital entre os mais votados do país desenha a troca geracional em curso. Em vez de estruturas partidárias consolidadas e décadas de mandatos, parte dos novos campeões de voto chegou à política na era dos vídeos curtos e construiu ali a própria base eleitoral. Os quatro assumem a legislatura com capital político erguido fora do roteiro tradicional. 

Se a velha política ensinava a esperar a vez, as urnas de 2026 provaram que essa geração decidiu chegar antes.


Vanessa Araújo, Rachem Diaz e Tauany Cattan - Revista O)este

'O discurso que o Ocidente precisava ouvir', por Ana Paula Henkel

Marco Rubio falou de nossa grandeza com orgulho, de nossas conquistas com admiração e de nosso futuro com uma confiança extraordinária


O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, reúne-se com o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, em Atenas, Grécia, em 7 de outubro de 2026 | Foto: Mark Schiefelbein/Pool via Reuters


Nesta semana, o mundo assistiu a um dos discursos mais espetaculares e necessários dos últimos tempos. Diante da Acrópole de Atenas, com o Partenon ao fundo e 25 séculos de civilização diante dos olhos, o secretário de Estado americano Marco Rubio fez algo que deveria ser muito mais comum entre os líderes do mundo ocidental: falou de nossa grandeza com orgulho, de nossas conquistas com admiração e de nosso futuro com uma confiança extraordinária.

Houve algo profundamente emocionante e libertador naquele pronunciamento. A começar pelo cenário, que dispensava qualquer esforço de imaginação. Atrás de Rubio estavam as colunas de um templo erguido por homens que viveram antes de Cristo, sobreviveram à destruição de sua cidade e tiveram a extraordinária ousadia de construir algo destinado a atravessar os séculos. À sua frente estava um mundo que, apesar de todos os avanços materiais, parece ter desenvolvido uma relação cada vez mais desconfortável com palavras como honra, dever, excelência, heroísmo e grandeza. Rubio não demonstrou o menor constrangimento em pronunciá-las. Ao contrário, fez delas o coração de sua mensagem.

 Durante muito tempo, acostumamo-nos a discursos políticos cuidadosamente construídos para não ofender, não incomodar, não desafiar. Discursos que procuram acomodar todas as sensibilidades e ouça este conteúdo terminam sem dizer praticamente nada. Rubio escolheu outro caminho. Falou sobre excelência, ambição, heroísmo, honra, sacrifício e poder, sobre a beleza e a força do Ocidente. 

Recuperou a herança da Grécia, de Roma e do cristianismo, recordou os homens que transformaram o mundo e defendeu a responsabilidade de continuar construindo sobre os alicerces de uma das mais extraordinárias experiências humanas.

Em um dos momentos mais belos do discurso, descreveu o espírito que floresceu na Grécia antiga e que, transmitido de geração em geração, ajudaria a moldar o Ocidente: “Uma curiosidade insaciável sobre o mundo e sobre os princípios pelos quais ele funciona, uma fome de conhecer os mistérios da natureza e de captar os segredos do cosmos”.


Foto aérea de drone da icônica colina da Acrópole e do Partenon, destacando o Erecteion e o Pórtico das Cariátides, no centro histórico de Atenas, Ática, Grécia | Foto: Shutterstock


Existe algo de extraordinário na ideia de que homens cercados por um universo imenso, desconhecido e frequentemente assustador tenham decidido que poderiam compreendê-lo. Observar as estrelas, investigar a natureza, atravessar mares e questionar explicações estabelecidas tornaram-se atividades dignas de uma vida inteira. 

O conhecimento merecia ser perseguido mesmo quando exigia enfrentar o ridículo, o fracasso ou o perigo. Essa inquietação atravessou séculos. Encontrou expressão na filosofia, na ciência, nas artes, na arquitetura, na exploração de novos continentes e na capacidade de transformar ideias aparentemente impossíveis em realizações concretas. 

Os homens que ergueram as catedrais medievais dificilmente veriam suas obras concluídas, mas trabalharam para que gerações futuras pudessem contemplá-las. Os navegadores que partiram rumo ao desconhecido não possuíam garantias de retorno. Os cientistas que desafiaram os limites do conhecimento aceitaram dedicar uma existência inteira a perguntas cujas respostas talvez jamais encontrassem. 

Havia, em todos eles, uma disposição de olhar para além do que já estava diante dos olhos. E foi justamente essa disposição que Rubio decidiu celebrar, num tempo em que a geração com a maior capacidade de realização de toda a experiência humana frequentemente se deixa aprisionar por bolhas e limitações criadas por suas próprias mãos. 

Em uma das passagens mais provocadoras, Rubio criticou a mentalidade que passou a valorizar a segurança acima de qualquer realização: “O ideal de muitas ideologias do nosso tempo tornou-se, francamente, um mundo de segurança perfeita, sem risco nem fracasso, sem a glória da vitória nem a vergonha da derrota”.

É uma descrição incômoda de uma cultura que pretende eliminar toda possibilidade de frustração, como se o fracasso fosse uma injustiça e a competição, uma ameaça. A busca pela excelência, que os antigos gregos cultivavam na filosofia, na poesia, no atletismo, nas artes e na política, passou a despertar suspeitas em ambientes nos quais o reconhecimento do mérito é frequentemente confundido com privilégio.


Um filósofo grego e seus discípulos, pintura de Antonio Zucchi (1767) | Foto: Domínio Público

Rubio resumiu as consequências dessa mentalidade em uma frase contundente: “Mantemos refém do mediano, do ordinário, do medíocre o que há de mais excepcional entre nós”. 

Quantas vezes a exigência passou a ser confundida com crueldade? Quantas vezes a preocupação de impedir que alguém se sinta derrotado acabou diminuindo as oportunidades de ensinar o valor do esforço, da disciplina e da perseverança? 

A igualdade de dignidade entre os homens jamais exigiu que todos possuíssem os mesmos talentos, alcançassem os mesmos resultados ou recebessem os mesmos aplausos. Uma sociedade pode oferecer oportunidades e reconhecer, ao mesmo tempo, que existem realizações extraordinárias. 

Pode amparar quem enfrenta dificuldades sem transformar a excelência em uma espécie de ofensa coletiva. Rubio encontrou nos gregos uma palavra para expressar a energia que torna essas conquistas possíveis: thumos. O fogo interior da coragem, da paixão, do orgulho e da disposição de lutar. Um impulso que ajuda a explicar por que alguns homens aceitam enfrentar o desconhecido, desafiar obstáculos e dedicar suas vidas a causas maiores do que seus interesses imediatos.


Atletas correndo pintados em um vaso grego antigo | Foto: Shutterstock

Esse fogo também esteve presente em outra dimensão fundamental do discurso: a compreensão ocidental do heroísmo. 

Rubio evocou Sócrates, que preferiu enfrentar a morte a abandonar sua busca pela verdade; os homens que permaneceram em seus postos diante de exércitos superiores; os mártires cristãos que se recusaram a renunciar à fé; São Tomás More, que enfrentou o poder de um rei para permanecer fiel à própria consciência. 

São personagens separados por séculos, circunstâncias e crenças, mas unidos pela convicção de que existem princípios cujo valor ultrapassa a preservação da própria vida.

Foi nesse contexto que Rubio pronunciou uma frase que merece ser guardada: “Os nossos heróis podem estar dispostos a morrer pela sua causa; mas os nossos heróis não adoram a morte”. 

O homem que aceita sacrificar a própria vida para proteger a família, defender a liberdade ou permanecer fiel à consciência reconhece o valor daquilo que deseja preservar. Seu sacrifício encontra significado precisamente no amor à vida e a tudo o que a torna digna de ser vivida.



Retrato de Sir Thomas More, por Hans Holbein the Younger (1527) | Foto: Domínio Público


E é justamente essa disposição de defender o que se ama que também precisa existir entre as nações. 

Rubio lembrou que, durante décadas, o Ocidente permitiu que o orgulho pelas próprias realizações fosse substituído por um sentimento permanente de culpa. “Com o tempo, nós, no Ocidente, passamos a sentir vergonha das próprias coisas que nos tornaram excepcionais”, afirmou.

As consequências ultrapassaram o campo cultural. Monumentos foram derrubados, a história passou a ser condenada por julgamentos simplificadores e o nacionalismo tornou-se uma palavra inconveniente. Ao mesmo tempo, países abriram mão de parte de sua capacidade industrial, negligenciaram a própria defesa e transferiram decisões fundamentais para organismos internacionais cada vez mais distantes dos cidadãos. 

O resultado, advertiu Rubio, é que o Ocidente enfrenta uma escolha entre recuperar sua força ou aceitar um futuro de “atrofia, servidão e declínio”. Sua resposta foi uma convocação à ação. Falou da recuperação da indústria americana, do fortalecimento das Forças Armadas, do domínio das tecnologias estratégicas e da exploração espacial. 

Defendeu alianças entre nações que reconhecem interesses comuns sem precisar abandonar suas identidades e soberanias.



O astronauta Buzz Aldrin na Lua (20/07/1969) | Foto: Domínio Público


E aqui reside uma das qualidades mais admiráveis daquele pronunciamento: Rubio olhou para a Grécia antiga, para Roma e para a Cristandade com a mesma confiança com que falou das possibilidades do século 21. Existe uma continuidade inspiradora entre o homem que procurou compreender o movimento dos astros e aquele que finalmente conseguiu caminhar sobre a Lua. Entre os arquitetos que ergueram catedrais durante gerações e os cientistas que hoje procuram ultrapassar novas fronteiras do conhecimento. 

Os instrumentos mudaram, as possibilidades se multiplicaram, mas permanece a extraordinária capacidade humana de imaginar aquilo que ainda não existe e trabalhar para torná-lo realidade. É impossível permanecer indiferente ao ouvir essas ideias pronunciadas com tamanha convicção por um homem que ocupa um dos cargos mais importantes da diplomacia mundial. 

O secretário de Estado da maior potência ocidental poderia ter escolhido um pronunciamento protocolar, recheado de generalidades sobre cooperação internacional. Preferiu recordar ao mundo de onde viemos, o que fomos capazes de realizar e quanto ainda podemos conquistar, convocando-nos à ação, onde quer que estejamos.

Fica aqui um convite ao leitor: reserve 26 minutos deste fim de semana para assistir ao discurso de Marco Rubio. É uma mensagem tão necessária quanto inspiradora e, acima de tudo, revigorante. 

Daquelas que nos fazem recuperar o orgulho por tudo o que recebemos e, principalmente, o entusiasmo por tudo o que ainda podemos realizar. 


SIMPLESMENTE ESPETACULAR! Nesta semana, diante da Acrópole de Atenas, Marco Rubio fez algo que há muito não víamos com tamanha força: falou da grandeza da civilização ocidental com orgulho, admiração e uma confiança extraordinária no futuro. 👉 Um dos discursos mais inspiradores e fantásticos que eu já ouvi! Falou dos gregos, de Roma, do cristianismo, da coragem, da honra, do heroísmo e da excelência. Daqueles que ergueram catedrais, atravessaram oceanos, desafiaram o desconhecido e levaram o homem à Lua. De uma civilização que jamais teria realizado tanto se tivesse aceitado a mediocridade como destino. Rubio nos lembra que temos uma herança extraordinária para defender e um futuro inteiro para construir. E fez isso sem constrangimento, sem pedir desculpas por nossas conquistas e sem abrir mão da ambição de continuar realizando grandes coisas. 🗣️“A história da nossa civilização é a maior história já conhecida pelo homem.” ‼️ E deixou uma advertência que deveria ecoar por todo o Ocidente: 🗣️“Ou escolhemos agir agora, ou perderemos a própria possibilidade de agir.” ❣️Que extraordinário ouvir isso em 2026! 😌São 26 minutos de um discurso necessário inspirador e profundamente View more on Instagram 09/10/2026, 14:29 O discurso que o Ocidente precisava ouvir - Revista Oeste https://revistaoeste.com/revista/edicao-344/o-discurso-que-o-ocidente-precisava-ouvir/ 11/15 😌São 26 minutos de um discurso necessário, inspirador e profundamente revigorante. ⚠️⚠️⚠️ O Instagram me deixou postar apenas 20 minutos. O restante está no meu canal do YouTube- só digitar “MARCO RUBIO ATENAS”. Coloquei legendas para que vocês possam assistir! ⭐️ Assistam. Do começo ao fim. Vale cada minuto. 😍 💙 Voltem aqui depois e me contem o que acharam! View all 611 comments Add a comment...


Perto do fim, Rubio declarou: “A história da nossa civilização é a maior história já conhecida pelo homem”. 

Que extraordinário ouvir isso em 2026! Que extraordinário ouvir um líder político falar com tanta admiração de nossos antepassados, reconhecer o valor da herança que recebemos e convocar as gerações presentes a demonstrar a mesma coragem daqueles que vieram antes de nós em uma época de estúpidos e eternos pedidos de desculpas. 

O mundo precisava ouvir aquelas palavras. Precisava ser lembrado de que nossos antepassados nos deixaram muito mais do que monumentos para admirar. Deixaram uma civilização inteira para preservar, aperfeiçoar e transmitir, e ainda temos muito a construir. Deixaram, antes de qualquer coisa, a certeza de uma força interior capaz de mover engrenagens magníficas. 

Há uma razão para que esta revista se chame Oeste. E, nesta semana, diante da Acrópole, Marco Rubio nos lembrou da grandeza, do orgulho e da responsabilidade que acompanham esse nome.


Ana Paula Henkel  - Revista IOeste

Fascistas são os outros, escreve Guilherme Fiuza

 Anote para não ficar perdido no debate político


Foto: Montagem Revista Oeste/IA

S aiu o glossário com as atualizações para o significado de “fascismo”, a partir do resultado do primeiro turno das eleições 2026. Anote para não ficar perdido no debate político: 

1. “Fascista” é quem vota contra o abuso de poder da autoridade eleitoral, que segundo a maior emissora do país, atropelou as regras do debate presidencial para beneficiar um dos candidatos — exatamente aquele contra o qual o “fascismo” votou. Ou seja: “fascista” é quem repudia a censura; 

2. Quem deplora a disseminação de boato religioso — criado pelos que querem ganhar a eleição fazendo o diabo — é adepto do novo “fascismo”. Não é “fascista” quem usa cargo público para impulsionar deliberadamente a notícia falsa (que, nesse caso, não é fake news, nem desinformação, apenas distração); 

3. “Fascismo” é uma doutrina que acha estranho alimentar e desenvolver o tigrinho e deixá-lo à solta por aí para depois assassiná-lo fria e sumariamente, alegando que ele é um perigo para a sociedade. Para os “fascistas”, tentar transformar as bets em bode expiatório do endividamento nacional com uma canetada pré-eleitoral gera insegurança jurídica e prejudica o país;


Foto: Montagem Revista Oeste/I

4. De acordo com o novo dicionário da língua lacradora, “fascismo” é o ato ou efeito de votar contra a destruição da economia por um governo gastador. Não é “fascista” quem explica o lado bom da inflação e faz vista grossa para a irresponsabilidade fiscal; 

5. Você é “fascista” se, na hora de votar, você pensou que não quer a existência de um Ministério da Verdade com poderes para mandar apagar posts de jornalistas que ousaram criticar um projeto de lei de interesse do governo, solapando a liberdade de imprensa com o pretexto de defender minorias; 

6. “Fascismo” é ser contra a transformação do equilíbrio entre poderes independentes em bloco partidário; 

7. Quem vota na oposição a grupo político com múltiplas conexões não republicanas investigadas ao longo da história — seja no entroncamento da coisa pública com empreiteiras, sindicatos ou bancos — é, segundo a novíssima atualização do idioma providencial, “fascista”

8. Votar em aliado de nações livres, que não se identifiquem com regimes autoritários como o da Nicarágua, o da Venezuela, o da China e o do Irã, é sinal inequívoco de adesão ao “fascismo”; 

9. Opor-se a um governo que eleva impostos em média a cada mês e, mesmo assim, consegue bater recorde de endividamento é, segundo a norma culta da militância desvairada, coisa de “fascista”; 

10. “Fascismo” é estragar o conto de fadas petista.


Foto: Montagem Revista Oeste/IA 

Augusto Nunes - Mudanças geral

 O Brasil decente redesenhou a paisagem política


Gleisi Hoffmann, Renan Calheiros, Jean Wyllys, José Dirceu, Paulo Pimenta e Fernando Haddad | Foto: Montagem Revista Oeste/Agência Brasil


N unca houve um 1º turno assim. Neste 4 de outubro, milhões de eleitores decidiram mudar o país dominado pelo consórcio formado por duas siglas e um clube de vigaristas: PT, STF e Centrão. Transformado em arma do povo, o voto transferiu figurões mumificados para o mausoléu dos vigaristas, promoveu a protagonistas jovens parlamentares confiáveis, manteve no cargo governadores eficientes, livrou-se dos ineficazes, começou a dedetizar o Congresso, proibiu que alcolumbres e mottas continuem desmandando no Senado e na Câmara, ordenou aos ministros do Supremo Tribunal Federal que cumpram a lei, comunicou à nação que a ditadura do Judiciário acabou e avisou que pretende consumar a aposentadoria de Lula em 25 de outubro. 

Nunca houve um 1º turno assim, confirmam tanto a lista de vitoriosos quanto o cortejo dos excluídos da paisagem política brasileira. Amparado no critério da meritocracia, ressuscitando valores como a honradez e a vergonha na cara, o Brasil decente tornou muito mais estimulante a paisagem política brasileira. Os eleitores do Maranhão, por exemplo, não perderam a chance de punir simultaneamente o clã comandado por José Sarney e o bando chefiado por Flávio Dino.


José Sarney na tribuna do Senado Federal | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

No momento, os candidatos a governador apoiados pela dupla estão à procura de emprego. Sarney, ex-deputado federal, ex-governador, exsenador pelo Maranhão e pelo Amapá, repassou à filha Roseana a missão de piorar o Estado e o país. Governadora quatro vezes, senadora e agora deputada federal, Roseana não passou do quarto lugar ao tentar o retorno ao Senado. Aos 96 anos, seu pai viveu para ver o fim de uma era: faz 72 anos que algum integrante da família ocupa um cargo eletivo. Pela primeira vez desde 1955, não haverá nenhum Sarney exercendo qualquer mandato quando 2027 chegar.


Roseana não passou do quarto lugar ao tentar o retorno ao Senado | Foto: Reprodução/Redes Sociais


Flávio Dino que se cuide (e alerte seus pares de capa preta). Exgovernador, ex-senador e ex-ministro da Justiça, anda delinquindo no Supremo Tribunal Federal desde que Lula o presenteou com uma toga. Lahesio Bonfim, eleito senador pelo Novo, prometeu vingar-se da perseguição que Dino lhe moveu durante os oito anos em que foi prefeito de São Pedro dos Crentes. “Agora, Flávio Dino, eu é que estou indo atrás de você em Brasília”, advertiu. O que houve em 4 de outubro transformou o que parecia bravata em promessa de campanha a ser cumprida sem demora. Como a maioria dos eleitos, Bonfim garantiu que ministros fora da lei serão punidos com o impeachment. Quem se opôs ao fim da ditadura do Judiciário foi devolvido ao recesso do lar. Marina Silva e Simone Tebet, por exemplo. 

Por ordem de Lula, a ex-ministra acreana e a ex-ministra sulmatogrossense se consideraram prontas para representar São Paulo no Senado. Já festejavam a obtenção de ao menos uma vaga quando o governador Tarcísio de Freitas entrou em cena. A exumação do que diziam de Lula antes de juntar-se à seita ajudou a anexar a dupla à procissão dos que buscaram em vão uma vaga na mais cobiçada casa do Congresso. Foram proibidos de entrar, entre outros destaques, os gaúchos Paulo Pimenta e Manuela D’Ávila, a paranaense Gleisi Hofmann, a carioca Benedita da Silva e o mineiro Aécio Neves. E há o bloco dos despejados, merecidamente puxado pelo alagoano Renan Calheiros, o mais antigo frequentador do lugar.

Senador há 30 anos, campeão de processos (e absolvições) no Supremo Tribunal Federal, Renan desfrutou desde o começo de 2023 da companhia de Renan Filho. Quando o sucessor chegou, o patriarca já era uma sombra do poderoso alagoano que, presidente por três mandatos, garantiu-se no comando com a ameaça de divulgar dossiês que revelavam a face oculta do inimigo. O fracasso da tentativa de voltar ao governo estadual vai devolver Renan Filho ao Senado. Longe do pai, também sentirá saudade de parceiros como Randolfe Rodrigues, Leila do Vôlei, Ciro Nogueira e Soraya Thronicke. E não poderá conhecer mais intimamente os proibidos de entrar no Senado por escassez de voto.

Senador Renan Calheiros (MDB-AL) | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Não foi por falta de aviso que a plateia convocada para ornamentar a primeira aparição de Lula tinha cara de velório. Livre de intervenções do TSE governista e de um STF reduzido a partido político, a eleição municipal de 2024 atestou a insatisfação nacional com o PT e seus satélites. O alerta foi ignorado pelos donos do poder. Geraldo Alckmin traía no rosto a descoberta de que não terá chances de substituir, favorecido pela vantagem etária, o ex-inimigo que agora o chefia. Fernando Haddad exibia o meio sorriso abobalhado de recordista em fiascos formidáveis. Todos pareciam surpresos. O estrategista José Dirceu nem deu as caras por lá. Candidato a deputado federal, conseguiu uma votação de vereador de grotão. Foi outra celebridade fulminada pelo tsunami que devastou também uma Câmara controlada pelo centrão com o endosso do PT. 

O falatório confuso de Lula lembrou o pugilista que se acha invencível depois da primeira queda no ringue. Nos dias seguintes, a discurseira de grogue piorou. “O povo gosta de me ver no segundo turno”, jurou num palavrório. É improvável que mesmo um petista tenha tamanha admiração pelo deus da seita que vota no adversário só para aplaudir outra apresentação do artista do palanque. O retrospecto do palanque ambulante colide com a arrogância do campeão de araque. 

Em 1989, foi derrotado por Fernando Collor no 2º turno. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso atropelou-o já no primeiro. Venceu só no segundo as disputas contra os frágeis José Serra e Geraldo Alckmin. Ao enfrentar Jair Bolsonaro, precisou da ajuda do juiz e dos jurados para ganhar — de novo no 2º turno. “Política só tem porta de entrada”, recita Sarney há 70 anos. 

A frase é endossada por todos os viciados em exercício do poder. Existe outra porta, corrigiu a primeira etapa da disputa. É a porta dos fundos, usada por eleitores para despejar escolhas erradas e, assim, redesenhar o cenário político. Desta vez, como reiteram as pesquisas iniciais sobre o 2º turno, a maioria dos brasileiros resolveu que mudanças drásticas na rota que conduz ao futuro devem ser feitas já.


Augusto Nunes - Revista Oeste


Virada à Direita - Reportagem da Revista Oeste - Cristyan Costa, Mateus Santos e Sarah Peres

 Fortalecidos no Congresso e nos Estados, conservadores ganham poder para avançar reformas e abrir processos de impeachment contra ministros do STF



Após a vitória no primeiro turno das eleições de 2026, Flávio Bolsonaro participa de encontro com aliados e apoiadores em Goiânia (GO) | Foto: Vittor Sales


“E u tenho certeza.” Em 15 de julho de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro fez uma aposta ousada sobre o Congresso que sairia das urnas no ano seguinte. “Eu vou fazer uns 120 deputados federais na próxima”, afirmou em entrevista ao site Poder360. Para o Senado, projetou pelo menos 20 eleitos pelo Partido Liberal (PL). Quase 15 meses depois, a apuração entregou ao partido 121 deputados e 19 senadores. Um deputado a mais, um senador a menos, os 140 eleitos mostraram que Bolsonaro sabia o que estava falando. 

O resultado retrata o crescimento da nova direita e o lugar que ela ocupará em Brasília. Somados os senadores que continuam no mandato, o PL terá 28 das 81 cadeiras da Casa, além da maior bancada da Câmara. Quando Bolsonaro fez sua previsão, o partido contava com 88 deputados e 14 senadores. A partir de 2027, terá 33 representantes a mais na Câmara e o dobro de integrantes no Senado. Ocupará quase uma em cada quatro cadeiras entre os deputados e mais de um terço entre os senadores. Com isso, o PL será decisivo na escolha do comando do Congresso, na definição da agenda do próximo governo e na contenda com o Supremo Tribunal Federal (STF).


O ex-presidente Jair Bolsonaro (@jairmessiasbolsonaro) (PL) acertou, com mais de 1 ano de antecedência, o número total de deputados federais e senadores que o PL elegeria em 2026. Em entrevista ao Poder360 em 15 de julho de 2025, Bolsonaro projetou que a sigla elegeria 120 deputados federais e pelo menos 20 senadores. “Tenho certeza, vou fazer uns 120 deputados federais na próxima. 

O PL faz pelo menos 20 [senadores]”, View more on Instagram 09/10/2026, 11:43 Bolsonaro e a virada do Brasil à direita https://revistaoeste.com/revista/edicao-344/virada-a-direita-bolsonaro/ 4/18 declarou à época. Encerrado o 1º turno das eleições de 2026, o PL elegeu 140 congressistas, exatamente o total indicado por Bolsonaro. A distribuição, porém, ficou ligeiramente diferente da previsão: foram 121 deputados federais e 19 senadores. 


O tamanho da mudança 

Para o cientista político Leandro Gabiatti, o resultado consolida um movimento iniciado nas manifestações de 2013, fortalecido pelo impeachment de Dilma Rousseff e pelas eleições de 2018 e 2022. “Não estamos diante de um fenômeno eleitoral passageiro, mas de uma transformação estrutural na representação política brasileira”, afirma. 

Na Câmara, a distância em relação ao PT ajuda a medir o resultado. Os petistas elegeram 70 deputados — só um a mais que em 2022 e 51 a menos que o PL. Mesmo reunidos, PT, PCdoB e PV terão 88 representantes — o mesmo número que o partido de Bolsonaro tinha sozinho quando ele anunciou sua aposta. 

O Novo, com dez eleitos, também terá espaço para defender uma agenda de redução do Estado e de oposição à esquerda.


Composição da Câmara dos Deputados a partir de 2027 


Perfil da Casa é mais à direita

A direita tem nas mãos bancadas fortalecidas no Congresso e governos estaduais capazes de sustentar uma agenda nacional. Essa força pode abrir caminho para promover reformas econômicas, endurecer o combate ao crime e levar adiante processos de impeachment contra ministros do STF. Uma vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno acrescentaria à equação a Presidência da República. Trata-se de uma chance singular para mudar o Brasil. E que não pode se desperdiçada. 

Perfil da Casa é mais à direita Partido Deputados eleitos PL 121 PT 70 União 46 PSD 43 PP 41 Republicanos 41 MDB 36 Podemos 27 PSB 15 PSOL 14 PCdoB 11 PSDB 11 Novo 10 09/10/2026, 11:43 Bolsonaro e a virada do Brasil à direita https://revistaoeste.com/revista/edicao-344/virada-a-direita-bolsonaro/ 6/18 PV 7 PDT 6 Avante 5 PRD 5 Solidariedade 2 Missão 1 

O alcance dessa direita, contudo, exige olhar além das siglas. Republicanos e PP terão 41 deputados cada; União Brasil, 46. Nessas bancadas convivem parlamentares de perfil conservador e políticos dispostos a negociar apoio conforme a pauta e o governo. 

No Senado, o avanço do PL altera de maneira ainda mais visível a distribuição de forças. Seus 28 integrantes formarão uma bancada três vezes e meia maior que a do MDB, com oito senadores, e quase três vezes maior que a do PT, com dez. 

O partido conquistou 19 das 54 vagas disputadas neste ano. Houve também avanço na representação feminina. Doze mulheres foram eleitas para o Senado neste ano, um recorde. Somadas às seis que continuarão no mandato, serão 18 senadoras em 2027, equivalentes a 22% da Casa. O número representa um crescimento de 80% em relação às dez mulheres que começaram a legislatura em 2023. 

O PL elegeu três: Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, pelo Distrito Federal, e Carol de Toni, por Santa Catarina. No Distrito Federal, Michelle e Bia se juntarão a Damares Alves, do Republicanos, cujo mandato vai até 2031. Será a primeira vez que uma unidade da Federação terá suas três cadeiras no Senado ocupadas por mulheres. 

Uma das consequências mais importantes do novo cenário é a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Os 28 votos do PL, sozinhos, não bastam. Será necessário reunir aliados, eleger uma presidência disposta a dar andamento aos pedidos e sustentar a maioria ao longo do processo. 

Uma eventual condenação exige 54 votos. Eleito senador por São Paulo, Guilherme Derrite (PP) tem uma posição clara: não votará em Davi Alcolumbre para a presidência da Casa “em hipótese alguma”. Derrite cita Rogério Marinho e Tereza Cristina como alternativas para o comando do Senado.


Composição do Senado a partir de 2027 Oposição ganhou mais espaço 


Composição do Senado a partir de 2027

Oposição ganhou mais espaço

Partido 

2027 PL 28 PT 10 MDB 8 PP 6 União 6 Republicanos 5 PSB 4 PSD 4 Novo 3 Podemos 2 PSDB 2 PDT 1 Rede 1 Sem partido 1 


Os excessos do Supremo entraram na disputa eleitoral. O STF ofereceu à direita farta munição. E a associação das atitudes de alguns integrantes do tribunal ao governo Lula era inevitável. Candidatos conservadores se apresentaram como caminho para enfrentar a agenda petista e os arroubos dos ministros. A proximidade com o Supremo contribuiu para o revés de Lula no primeiro turno. 

Quem chega ao Congresso encontrará espaço para construir sua própria influência. A primeira oportunidade será a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, responsáveis por decidir quais propostas avançam e quais são jogadas na gaveta. Ali começará o teste da nova direita: transformar o crescimento das bancadas em decisões concretas. 

A força dos vencedores tem como contrapartida a despedida de figuras que, durante anos, ajudaram a conduzir a política nacional. Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues, por exemplo, não conseguiram renovar seus mandatos. Eliziane Gama também ficou pelo caminho. Na disputa pela Câmara, José Dirceu viu frustrada a tentativa de voltar ao Congresso. (Leia também nesta edição o artigo “Mudanças já” , de Augusto Nunes.) 

A renovação vai além da troca de nomes. A direita viu crescer uma geração de políticos que aprenderam a se comunicar diretamente com os eleitores, sobretudo pelas redes sociais, e transformaram essa presença digital em votos.

Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato são exemplos desse fenômeno. Suas votações expressivas mostram como a política passou a abrir espaço para lideranças que não dependem das estruturas partidárias tradicionais para alcançar projeção nacional. (Leia também nesta edição a reportagem “Piás bons de voto” , de Vanessa Araújo, Rachel Díaz e Tauany Catan.)

Essa renovação revela outro fato: Bolsonaro inspirou uma série de herdeiros políticos. A maioria cresceu sob influência do bolsonarismo, mas construiu trajetórias independentes. A continuidade desse campo político já está assegurada.

Na esquerda, o cenário é diferente. Aos 80 anos, Lula disputa provavelmente sua última eleição. Depois de décadas de protagonismo na política nacional, o presidente não tem um sucessor. Continua sendo o principal nome em torno do qual seu partido organiza as disputas presidenciais. 


Além de Brasília 

A mudança atravessou as divisas dos Estados. Enquanto o PL ampliava suas bancadas no Congresso, candidatos de direita conquistavam governos, levando segurança pública e economia ao centro de suas campanhas. O enfrentamento ao crime, a geração de empregos e a atração de investimentos deram conteúdo estadual a um movimento que também cresceu na política nacional. 

Em São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, garantiu a reeleição no primeiro turno com 62,65% dos votos válidos. No Sul, Zucco venceu no Rio Grande do Sul, Sergio Moro no Paraná e Jorginho Mello em Santa Catarina, os três pelo PL. Zucco apresentou um programa centrado em segurança pública e retomada econômica. Cabe aos governadores comandar as polícias estaduais, administrar presídios e definir prioridades de investimento. O discurso de combate à criminalidade terá de aparecer no policiamento das ruas, na investigação das facções e na capacidade de impedir que seus chefes continuem dando ordens de dentro das cadeias. 

Tarcísio levou à campanha a proposta de ampliar o Muralha Paulista, sistema que integra câmeras e dados para auxiliar o trabalho policial, e de criar um centro de inteligência com participação de diferentes forças de segurança. Na economia, apresentou uma carteira de projetos de infraestrutura que combina recursos públicos, concessões e parcerias com a iniciativa privada.

No Paraná, Moro vinculou sua trajetória no combate à corrupção a propostas para enfrentar o crime organizado. Seu programa prevê forças-tarefa para investigar facções e confiscar seu patrimônio, uma agência estadual anticorrupção e um presídio de segurança máxima para isolar lideranças criminosas. O plano também reúne medidas de desburocratização, equilíbrio das contas e desenvolvimento da infraestrutura. 

Esses governos também poderão fortalecer a agenda da direita no Congresso. A afinidade entre bancadas e Executivos estaduais oferece uma base para articulação nacional. A partir de janeiro, os vencedores controlarão orçamentos, nomearão equipes e tomarão decisões que afetarão a rotina de milhões de brasileiros.


A hora de usar a força

 Na noite do primeiro turno, Lula apareceu diante das câmeras cercado de aliados. Atrás dele, dirigentes e políticos que participaram da campanha acompanhavam o pronunciamento com expressões fechadas. A cena contrastava com as comemorações dos candidatos conservadores que haviam conquistado espaço no Congresso e nos governos estaduais. 

Mesmo que o presidente conseguisse vencer o segundo turno — o que não é a aposta de nenhum especialista —, teria pela frente um Congresso fortalecido à direita e uma oposição com maior presença nos Estados. 










O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), faz pronunciamento após a apuração do 1º turno das eleições de 2026, em São Paulo (SP), em 4 de outubro de 2026 | Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo


A direita tem nas mãos bancadas fortalecidas no Congresso e governos estaduais capazes de sustentar uma agenda nacional. Essa força pode abrir caminho para promover reformas econômicas, endurecer o combate ao crime e levar adiante processos de impeachment contra ministros do STF. Uma vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno acrescentaria à equação a Presidência da República. Trata-se de uma chance singular para mudar o Brasil. E que não pode se desperdiçada.


Cristyan Costa, Mateus Santos e Sarah Peres - Revista Oeste