domingo, 7 de junho de 2026

Governo deve pagar advogado americano para Alexandre de Moraes. Isso custa muito caro. Mas... e os milhões recebidos do Vorcaro?

 

Foto: Rosinei Coutinho/STF


O tribunal federal da Flórida pode não reconhecer legitimidade da AGU, a Advocacia-Geral da União, na defesa de Alexandre de Moraes na ação das empresas Rumble e Trump Media. A AGU é órgão do Poder Executivo, subordinado a Lula (PT) e não ao Supremo Tribunal Federal (STF). Porém, na prática, a AGU se limitará a contratar advogado americano. Em dólares. Advogados quase de ponta com atuação na Flórida cobram de US$300 a US$600 (R$3.120) a hora, mas grandes firmas (“big law”) só se mexem a partir de US$1.000 (R$5,2 mil) e as “top partners” ultrapassam US$1.300 (R$6.760) a hora. A depender da duração, processo desse tipo pode custar milhões de dólares.

Alô, Constituição

A AGU recebeu ordens do presidente do STF para defender Moraes, mas é órgão da Presidência, não presta obediência ao chefe do Judiciário.

Pode isso, STF?

A separação de poderes, pilar da Constituição de 1988, impede que um poder utilize recursos do outro para fins corporativos ou pessoais.

Primeira Emenda

Moraes é acusado de expedir ordens de censura, inclusive secretas, que violam a Constituição dos EUA, garantidora da liberdade de expressão.

Rota para o brejo

Sem rever ou debater as decisões de Moraes, o regime opta por uma rota que mistura Poderes e expõe o contribuinte a custos muito elevados.

Diário do Poder

sábado, 6 de junho de 2026

O que Vorcaro ainda não contou sobre o contrato com a mulher de Moraes?

 Ex-dono do Banco Master chegou a elaborar um novo acordo para garantir o pagamento total dos R$ 129 milhões



Daniel Vorcaro era mesmo uma mãe para a mulher do ministro Alexandre de Moraes. 

Ele não só assinou um contrato estupendo com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, no valor de R$ 129 milhões, dividido em parcelas de R$ 3,6 milhões, como chegou a tratar de providenciar um novo contrato para que as prestações continuassem a ser pagas até o final do prazo estipulado, no caso de o Banco Master, o contratante no papel, ser vendido.

A jornalista Malu Gaspar publicou que a informação constava em um dos anexos da delação rejeitada pela Polícia Federal. Escreveu a jornalista: “Pessoas próximas ao ex-banqueiro que confirmaram a informação afirmam que esse segundo documento teria sido feito em agosto de 2025 porque já havia a previsão de venda do banco no curto prazo e, nesse caso, seria preciso garantir o pagamento de todo o valor estipulado no primeiro contrato, de R$ 3,6 milhões mensais entre janeiro de 2024 a janeiro de 2027, mesmo que o escritório já não estivesse mais vinculado ao Master, que era o cliente inicial”.

A jornalista Malu Gaspar publicou que a informação constava em um dos anexos da delação rejeitada pela Polícia Federal. Escreveu a jornalista: “Pessoas próximas ao ex-banqueiro que confirmaram a informação afirmam que esse segundo documento teria sido feito em agosto de 2025 porque já havia a previsão de venda do banco no curto prazo e, nesse caso, seria preciso garantir o pagamento de todo o valor estipulado no primeiro contrato, de R$ 3,6 milhões mensais entre janeiro de 2024 a janeiro de 2027, mesmo que o escritório já não estivesse mais vinculado ao Master, que era o cliente inicial”. 

Para garantir que os pagamentos fossem feitos até o fim, o novo contrato seria assinado com outra empresa de Vorcaro, cujo nome não constava do anexo da delação rejeitada. 

Mário Sabino - Revista Oeste

A reflexão liberal sobre o Estado contemporâneo e uma Constituição social-democrata

 A promessa de promover bem-estar coletivo acabou ampliando conflitos e reduzindo a autonomia social


Adriano Dorta: 'A reflexão liberal sobre o Estado contemporâneo e uma Constituição social-democrata'

O Estado moderno concentrou o poder político e substituiu a fragmentação feudal por uma autoridade soberana, territorial e burocrática. O ideal liberal tentou domesticar esse poder, reduzindoo a um Estado de direito limitado, próximo ao modelo do nightwatchman state: um Estado voltado à segurança, à justiça, à proteção da propriedade e ao cumprimento dos contratos. 

Após a Segunda Guerra Mundial, o Estado moderno se tornou o Estado contemporâneo. Esse Estado, entretanto, não se limita a garantir ordem e segurança; ele promete organizar a sociedade, corrigir desigualdades e fornecer um cardápio de direitos sociais. A constituição social-democrata, ao contrário da tradição liberal, não pensa em conter o poder estatal e da maioria, mas pensa em empoderar pessoas ou instituições que consigam guiar a sociedade. 

É uma tentativa de manter a economia de mercado — não por preferência, mas porque ela se mostrou mais eficiente do que todos os outros sistemas rivais — e, ao mesmo tempo, buscar a justiça social. Então, a Constituição garante os serviços públicos e legitima o Estado a buscar uma agenda de bem-estar através da redistribuição de riqueza. Para os liberais, a economia de mercado é um espaço marcado pelos ganhos mútuos da troca e pela cooperação social pacífica sob a divisão do trabalho. O processo de mercado, por meio da propriedade, da orientação dos preços, da atração dos lucros e da disciplina das perdas, fornece os incentivos necessários envoltos em sinais para o aprendizado social constante dos participantes.

A social-democracia rejeita os resultados de uma economia de mercado. O mercado não é um árbitro justo para fazer justiça social. Portanto, o Estado não é apenas mais eficiente em lidar com essa dinâmica como também teria a responsabilidade natural de fazê-lo. Apesar de a economia de mercado ser eficiente, o Estado tem o dever ou função de intervir nessas relações para expandir a agenda dos direitos sociais, possibilitar a redistribuição de renda e, finalmente, alcançar a justiça social. 


O que é o Estado contemporâneo 

A ordem liberal tenta manter um arranjo social e político que não permita a dominação do espaço público ou privado. O objetivo é tentar achar um arcabouço institucional que conceda mais autonomia e oportunidade para que cada indivíduo possa florescer. 

Enquanto os liberais estão focados nos direitos civis, a socialdemocracia até os aceita, mas, quando esses direitos se contrapõem aos direitos sociais, os direitos sociais terão maior peso na discussão. O exemplo clássico é o artigo sobre a propriedade privada. Para os liberais, a propriedade deveria ser inviolável. Já para a socialdemocracia, o direito à propriedade pode existir, mas, ao mesmo tempo, deve atender ao bem-estar coletivo. 


 – Artigo 5º, inciso XXII: Garante o direito à propriedade privada. 

• – Artigo 5º, inciso XXIII: Estabelece, como contrapeso direto, que a propriedade atenderá à sua função social. 

Esse arranjo institucional cria um incentivo perverso à busca por um “salvador da pátria”: alguém que teria um plano genial capaz de guiar mais de 213 milhões de pessoas para a glória. Ser liberal na contemporaneidade é como viver em um castelo na Idade Média durante um cercamento por dois ou mais exércitos que também estão em guerra entre si. 

São diversos grupos brigando pela chance de chegar ao executivo federal. A disputa é simplesmente pelo poder. Por quê? Porque é sabido que o conjunto de regras que temos no Brasil não garante que, caso homens maus cheguem ao poder, causem o mínimo dano possível.

Se você tem medo de que seu adversário político chegue ao poder, isso significa que quem chega ao poder pode causar um grande estrago. Por isso, a preocupação principal passa a ser alcançar o poder. A Constituição foi criada como um meio de limitar o poder daqueles que chegassem ao governo. Já no Brasil, a Constituição dá poderes amplos demais aos tomadores de decisão. 

Em vez de limitar o Estado, ela multiplica suas obrigações, seus poderes e suas justificativas de intervenção. A Constituição brasileira transforma quase toda aspiração social em Direito Constitucional. Essas aspirações viram obrigações estatais. 

O Estado contemporâneo é um Estado que oferece um menu de direitos resguardados pela Constituição. Quando uma Constituição transforma quase toda aspiração social em direito, ela também transforma quase toda dimensão da vida em assunto de Estado. Se o Estado deve fornecer, então ele deve planejar. Se deve planejar, deve tributar. Se deve tributar, deve fiscalizar. Se deve fiscalizar, deve regular. Se deve regular, deve criar burocracias, critérios, exceções, subsídios, prioridades e mecanismos de coerção. O Direito positivado, nesse ponto, revela seu núcleo inevitável: a coerç

O Estado contemporâneo se tornou uma ferramenta de engenharia social, e a Constituição social-democrata, em vez de conter essa tendência, a legitima. Ela amplia a dependência da sociedade em relação ao poder público e frequentemente entrega o oposto do que promete. A experiência mostra que poderes concedidos em nome do interesse público podem ser capturados por interesses privados. Regulações feitas para proteger consumidores podem proteger empresas estabelecidas contra concorrentes. Leis trabalhistas feitas para proteger trabalhadores podem excluir os mais pobres, os jovens e os menos produtivos. Subsídios criados para promover desenvolvimento podem sustentar grupos empresariais com conexão política. Direitos sociais podem justificar estruturas burocráticas caras, ineficientes e resistentes a qualquer controle real: a coerção.

Quando isso acontece, a sociedade deixa de buscar soluções por meio da cooperação voluntária, da concorrência, da responsabilidade individual, da inovação e das comunidades locais. A economia de ganhos mútuos da troca e de cooperação social pacífica sob a divisão do trabalho é substituída pela política e por seu jogo de soma zero, em que um partido ganha apenas à custa do outro. A civilidade desaparece quando a filiação partidária se torna a base para os espólios.

Isso desloca o interesse para a captura do aparato estatal. A política se torna o caminho mais lucrativo, destruindo a ordem espontânea e premiando decisões jurídicas e legislativas. Por isso, uma Constituição deve desconfiar não apenas do censor, do policial e do governante autoritário, mas também do planejador benevolente, do regulador bem-intencionado e do legislador que promete justiça social sem assumir os custos reais de sua promessa. 

Uma Constituição que não faz isso deixa de cumprir sua função essencial. A coerção não se torna menos coerção porque vem acompanhada de uma justificativa nobre. O Brasil, porém, escolheu uma Constituição que promete emancipar a sociedade por meio do Estado. O resultado é que a sociedade se vê permanentemente obrigada a disputar o Estado para sobreviver. A promessa era cidadania; o resultado é dependência. A promessa era justiça social; o resultado é captura política. A promessa era proteção; o resultado é uma máquina que todos temem quando está nas mãos do adversário, mas que quase todos desejam controlar. 


A tragédia brasileira 

A crítica liberal ao Estado contemporâneo brasileiro não é apenas que ele é grande, caro ou ineficiente. É que ele foi constitucionalmente autorizado a ser tudo isso. Nossa Constituição social-democrata não apenas permite a expansão do poder; ela fornece argumento moral, jurídico e institucional para justificá-la. Por isso, a disputa política deixa de ser sobre limitar o Estado e passa a ser sobre capturá-lo. Essa busca pela captura aumentou a falta de civilidade. 

O rancor é o que move o governo federal. Essa disputa criou desconfiança e minou a criação de uma sociedade civil forte. Talvez essa seja a maior tragédia brasileira: temos uma sociedade criativa, trabalhadora e capaz de encontrar caminhos, mas que insiste em entregar seu destino a uma estrutura política que concentra poder demais. Em vez de limitar o Estado para libertar a sociedade, continua tentando encontrar o governante certo para usar a máquina da maneira certa.

Mas a máquina é o problema.

Revista Oeste

André Mendonça defende aucontenção judicial e pede respeito ao Poder Legislativo

Ministro do STF ainda criticou os que defendem o ativismo judicial quando é conveniente


Ministro do STF André Mendonça durante evento em Curitiba em 05/jun/26 - Foto: divulgação.


O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou nesta sexta-feira (5) que o Judiciário deve respeitar o Poder Legislativo. “Os tribunais devem respeitar as leis. Ela é a sua fonte, a sua matriz de interpretação e aplicação do Direito. O que defendo é a justa aplicação da lei. Ela não é só um detalhe, ela é essencial. É a garantia para que haja igualdade e liberdade”, ressaltou o magistrado ao participou do XVI Simpósio de Direito Constitucional no Teatro Guaíra, em Curitiba.

O ministro também defendeu uma atuação pautada pela autocontenção judicial e pelo fortalecimento do princípio da legalidade. “Eu tenho defendido uma atuação pela perspectiva da autocontenção, o que significa o fortalecimento do princípio da legalidade. Entendo que a legalidade é essencial para a segurança jurídica do País e também para o desenvolvimento em todos os setores da sociedade”, afirmou.

André Mendonça ainda avaliou que a relação entre os Poderes vive um momento de tensão e que esse cenário exige maior respeito às decisões tomadas pelo Legislativo.

“Hoje eu entendo que há uma situação de tensão na relação entre os Poderes e isso passa, volto a dizer, pelo fortalecimento do princípio da legalidade”, disse. “A lei tem como sua origem o Poder Legislativo. Não cabe ao Poder Judiciário, além da interpretação, ter um papel criativo ou inovador em torno da legislação. Esse talvez seja hoje o grande ponto de tensão entre os Poderes: o respeito, por parte do Judiciário, àquilo que é promulgado ou legislado a partir de uma decisão no âmbito do Legislativo”, destacou.

Ele ainda criticou os que defendem o ativismo judicial quando é conveniente e reforçou o seu posicionamento citando um exemplo prático. “Eu sou crítico a isso. E pergunto a esses que defendem o ativismo se são realmente favoráveis. Alguns dizem sim. Mas daí volto a questionar: e se em 10 anos mudar a composição do STF e houver uma maioria considerada conservadora? Você continua a favor do ativismo judicial? Essas pessoas respondem não. Ou seja, o ideal de Justiça não pode ser circunstancial”, afirmou.

O XVI Simpósio de Direito Constitucional segue até sábado e conta com a participação de juristas, magistrados, membros do Ministério Público, advogados, professores, pesquisadores e estudantes de diversas regiões do Brasil.

Diário do Poder

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Vietnã e os limites da ideologia, por Fernando Freire Dutra

 

Como o pragmatismo econômico e as reformas do Doi Moi transformaram um país marcado por escassez, hiperinflação e economia planificada em uma das economias mais dinâmicas da Ásia

Este artigo é uma síntese das reflexões surgidas a partir de uma viagem de estudo ao Vietnã e das pesquisas realizadas posteriormente sobre sua transformação econômica. O que inicialmente seria apenas uma experiência acadêmica e de observação acabou despertando uma curiosidade intelectual difícil de abandonar. Havia algo na Cidade de Ho Chi Minh que parecia desafiar explicações simples. Entre cafés lotados de jovens empreendedores, avenidas tomadas por motocicletas, arranha-céus modernos e uma atmosfera quase obsessiva por crescimento econômico, era difícil reconciliar aquela cidade vibrante com a memória de um país que, poucas décadas atrás, enfrentava escassez de alimentos, hiperinflação e uma das economias mais rigidamente planificadas do mundo.

Ao longo do período em que estive lá, conversei com empresários, estudantes e moradores locais. Em muitas dessas conversas aparecia uma percepção recorrente: a sensação de que o Vietnã havia mudado profundamente em apenas uma geração. Talvez o que mais impressione no Vietnã contemporâneo seja justamente essa contradição. Durante décadas, o país ocupou no imaginário ocidental o espaço de uma guerra, de uma economia fechada e de um regime rigidamente ideológico. Mas o Vietnã que emerge hoje parece muito mais definido por ambição econômica, mobilidade social e integração global do que pelas imagens congeladas da Guerra Fria. Quanto mais avançava no estudo do período pós-guerra e das reformas do Doi Moi, mais ficava claro que o país talvez represente uma das experiências mais fascinantes de transformação econômica do século XX. Este artigo busca sintetizar essa trajetória.

Após a reunificação do país em 1975, o Partido Comunista decidiu expandir o modelo de economia planificada do Norte para o Sul. Houve discussões iniciais sobre preservar algo semelhante a “um país, dois sistemas”, mantendo uma economia mais aberta em Saigon enquanto o Norte permaneceria sob planificação socialista. A ideia, porém, foi rapidamente abandonada. Em agosto de 1975, o Comitê Central decidiu oficialmente que o socialismo deveria ser implementado também no Sul, e o Quarto Congresso do Partido, em 1976, consolidou esse caminho por meio do primeiro Plano Quinquenal do Vietnã reunificado.

O problema era que o Sul possuía uma estrutura econômica profundamente diferente da do Norte. A antiga Saigon era historicamente uma cidade comercial, com forte presença de pequenos negócios privados, agricultura descentralizada e uma cultura econômica muito mais conectada ao mercado. Entre 1977 e 1978, o governo iniciou a nacionalização de quase 30 mil pequenas empresas privadas na Cidade de Ho Chi Minh, ao mesmo tempo em que avançava na coletivização agrícola. O estado justificava essas medidas afirmando que ainda controlava “apenas” cerca de 50% do comércio atacadista e 40% do pequeno comércio no Sul. A meta era transformar completamente a economia sul-vietnamita segundo a lógica socialista soviética.

Os resultados foram desastrosos. Muitos camponeses simplesmente se recusaram a participar dos coletivos agrícolas. Alguns abandonaram suas terras, venderam seus animais ou deixaram de produzir. Em 1980, apenas 24,5% da população rural do Sul trabalhava em cooperativas, contra impressionantes 97% no Norte. A resistência tinha razões profundas: muitos agricultores do Sul haviam recebido terras durante a guerra justamente com apoio dos comunistas locais e agora viam o Estado tentando retirar novamente aquilo que havia prometido proteger.

A crise agrícola rapidamente se aprofundou. O sistema de incentivos praticamente desapareceu. Os trabalhadores rurais recebiam “pontos” não pela produtividade efetiva, mas pelo tempo formal de trabalho dentro dos coletivos. O resultado foi previsível: queda brutal na produção, desperdício e colapso da eficiência econômica. Em 1978, a disponibilidade per capita de arroz havia despencado em relação aos níveis de 1976. O Vietnã, apesar de possuir enorme potencial agrícola, passou a enfrentar escassez severa de alimentos e precisou importar entre oito e nove milhões de toneladas de arroz durante o Segundo Plano Quinquenal.

O fracasso era tão evidente que chegava a ser difícil compreender por que o regime insistia nele. O próprio desempenho econômico desmontava as metas oficiais do Partido. O Plano Quinquenal previa crescimento agrícola entre 8% e 10% ao ano. Na prática, a produção cresceu apenas 1,9%. A meta industrial previa aumentos anuais entre 16% e 18%; o resultado efetivo foi de apenas 0,6%. Em meados da década de 1980, o Vietnã seguia entre os países mais pobres do mundo.

Além disso, a economia sofreu impactos externos importantes. A invasão do Camboja em 1979 e o conflito subsequente com a China agravaram ainda mais a crise. O Vietnã passou a enfrentar sanções internacionais, isolamento econômico e crescente dependência da União Soviética. Ao mesmo tempo, a produção industrial estatal estagnava. Apesar das empresas estatais representarem cerca de 40% do PIB, a produção industrial caiu aproximadamente 10% entre 1976 e 1980.

Mas talvez o aspecto mais fascinante da história vietnamita seja que as reformas começaram antes do próprio estado reconhecê-las oficialmente. Enquanto o governo ainda insistia no modelo centralizado, agricultores, comerciantes, gestores locais e até dirigentes regionais começaram informalmente a flexibilizar a economia. Muitos coletivos ignoravam regras oficiais. Famílias passaram a cultivar pequenas parcelas privadas e vender excedentes no mercado. Fábricas realizavam atividades “fora do plano” estatal para sobreviver. Algumas províncias do Delta do Mekong chegaram a abandonar informalmente sistemas de racionamento e adotar mecanismos de mercado ainda no início da década de 1980. A própria sobrevivência econômica da população avançava mais rápido do que a capacidade do estado de admitir oficialmente que o sistema precisava mudar.

O mais interessante é que boa parte dessas mudanças era tecnicamente ilegal. Porém, conforme os resultados apareciam, o próprio Partido começou lentamente a tolerá-las. A lógica econômica começava a vencer a rigidez ideológica. O que ocorria no Vietnã lembrava muito o que havia acontecido anteriormente na China após o fracasso do Grande Salto Adiante: reformas espontâneas surgindo “de baixo para cima”, antes de serem oficialmente reconhecidas pelo governo central.

Esse talvez tenha sido um dos elementos centrais da transformação econômica vietnamita que mais tarde ficaria conhecida como Doi Moi, ou “renovação”. Diferentemente da ideia tradicional de que reformas econômicas surgem exclusivamente de grandes planos estatais, o caso vietnamita mostra exatamente o contrário. Em muitos casos, o estado apenas formalizou práticas que já estavam sendo criadas espontaneamente pela própria população. As reformas foram, em grande medida, uma “autorização tardia das atividades cinzentas das pessoas”. O capitalismo não foi implantado por decreto. Ele reapareceu gradualmente nos espaços onde a sobrevivência exigia pragmatismo econômico.

A deterioração econômica chegou a níveis dramáticos no meio da década de 1980. Em 1986, a inflação vietnamita atingiu impressionantes 582% ao ano. O salário mensal de muitas famílias mal era suficiente para uma semana de sobrevivência. Tornou-se comum em Hanói que famílias criassem porcos dentro de apartamentos para complementar renda e alimentação. Oficialmente, o país tinha cerca de quatro milhões de desempregados, embora diplomatas vietnamitas admitissem reservadamente que o número real pudesse chegar a sete milhões.

Foi nesse contexto que ocorreu a histórica 6ª Conferência Nacional do Partido Comunista do Vietnã, em 1986, marco oficial da política conhecida como Doi Moi, ou “renovação”. O país reconhecia, ainda que implicitamente, que o modelo excessivamente centralizado havia levado a economia a uma crise existencial. O pragmatismo começou lentamente a substituir a ortodoxia ideológica.

Mais do que uma simples liberalização econômica, aquele momento representou uma mudança silenciosa na própria lógica de funcionamento do regime. O objetivo deixou de ser controlar cada dimensão da atividade econômica e passou gradualmente a ser administrar o crescimento, preservar a estabilidade e garantir prosperidade suficiente para sustentar a legitimidade política.

As reformas ganharam força especialmente a partir de 1988. O governo passou a permitir maior atuação da iniciativa privada, aboliu boa parte dos controles de preços, reduziu restrições ao comércio, eliminou diversos subsídios estatais e enfraqueceu os principais mecanismos de planejamento central. O monopólio estatal do comércio exterior começou a ser desmontado. Agricultores receberam maior autonomia para produzir e comercializar seus produtos. Empresas passaram gradualmente a operar com maior liberdade sobre lucros, perdas e investimentos.

Na agricultura, as mudanças foram profundas. Em 1987, cerca de 70% dos trabalhadores vietnamitas ainda estavam no campo, e o setor agrícola representava aproximadamente 41% do PIB nacional. O governo passou então a conceder contratos de longo prazo para famílias agricultoras utilizarem terras antes controladas por cooperativas. Embora a terra permanecesse formalmente pertencente ao estado, os agricultores passaram a ter garantias de uso, transferência e herança desses direitos. As cooperativas agrícolas deixaram de funcionar como mecanismos compulsórios de produção coletiva e passaram a atuar como prestadoras de serviços para agricultores privados.

O impacto foi extraordinário. Em poucos anos, a produção agrícola disparou. O Vietnã deixou de ser um país marcado pela escassez crônica de alimentos para se tornar uma potência exportadora agrícola. Entre 1993 e 2020, a taxa de pobreza extrema caiu de aproximadamente 79% para menos de 5%, uma das reduções mais rápidas já registradas no mundo em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a participação da agricultura na economia começou a cair não por colapso, mas porque o restante da economia crescia ainda mais rapidamente. Em 2021, o setor agrícola já representava apenas 12,6% do PIB vietnamita.

As reformas industriais seguiram lógica semelhante. O planejamento central não desapareceu completamente, mas deixou de controlar cada detalhe da atividade econômica. Empresas passaram a definir salários, lucros e estratégias comerciais com muito mais autonomia. Subsídios estatais foram reduzidos, forçando empresas públicas a competir de forma mais eficiente. O estado vietnamita não promoveu uma onda radical de privatizações como ocorreu em partes da Europa Oriental. Em vez disso, permitiu gradualmente o fortalecimento da economia privada ao lado de empresas estatais que perderam importância relativa.

Um dos passos mais importantes ocorreu quando empresas privadas passaram a poder contratar quantos trabalhadores desejassem. Em 1990 e 1991, o Vietnã introduziu estruturas legais modernas para empresas individuais, sociedades limitadas e sociedades anônimas. Em 1992, a nova Constituição passou a garantir proteção contra expropriação da propriedade privada dos meios de produção, algo impensável poucos anos antes.

Outro marco decisivo foi a abertura ao capital estrangeiro. Em 1987, uma nova lei de investimentos enviou ao mundo um sinal claro: o Vietnã estava pronto para se integrar à economia global. Pela primeira vez, investidores estrangeiros receberam garantias de que seus ativos não seriam confiscados ou nacionalizados. O país passou inclusive a permitir investimentos com 100% de propriedade estrangeira, um gesto extremamente significativo para um regime socialista naquele contexto histórico.

A integração internacional acelerou profundamente a transformação vietnamita. O país aderiu à ASEAN em 1995, assinou acordos comerciais estratégicos nas décadas seguintes e se tornou uma peça relevante das cadeias globais de manufatura, especialmente em setores como eletrônicos, têxteis e tecnologia. Empresas como Samsung, Intel e Nike passaram a utilizar o Vietnã como plataforma industrial exportadora para mercados globais.

Em 1989, o controle estatal de preços foi drasticamente reduzido. Até então, praticamente todos os preços da economia eram determinados pelo governo. Após a liberalização, muitos produtos básicos passaram a registrar queda de preços, especialmente alimentos. O arroz, símbolo histórico da escassez vietnamita, teve redução de preços de aproximadamente 30%.

Essa transformação não ocorreu da noite para o dia. Mesmo após 1986, as reformas avançaram gradualmente ao longo das décadas seguintes. Em 1999, uma nova Lei Empresarial removeu obstáculos burocráticos para empresas privadas. O impacto foi quase imediato. Nos cinco anos seguintes, cerca de 160 mil empresas foram registradas no país. Muitas delas já existiam informalmente e apenas passaram a operar legalmente.

Hoje, caminhar pela Cidade de Ho Chi Minh é testemunhar uma das mais impressionantes transformações econômicas contemporâneas. Existe uma ironia histórica poderosa no fato de que a antiga Saigon, símbolo do capitalismo do Sul durante a Guerra Fria, tenha retomado justamente sua vocação histórica de cidade comercial e cosmopolita, agora sob a administração de um regime socialista.

O Vietnã de hoje está muito distante do país marcado pela escassez e pela hiperinflação dos anos 1980. Em 2024, a economia vietnamita cresceu cerca de 7,1%, uma das taxas mais elevadas da Ásia, enquanto o PIB per capita ultrapassou US$ 4.700 em termos nominais e US$ 16 mil em paridade de poder de compra (PPP). Em poucas décadas, o país deixou de figurar entre as economias mais pobres do mundo para consolidar-se como uma economia de renda média, profundamente integrada às cadeias globais de produção e comércio.

Mais impressionante do que os números, porém, talvez seja a transformação psicológica e cultural visível nas ruas da Cidade de Ho Chi Minh, que se tornou uma sociedade voltada à produção, ao comércio, ao empreendedorismo e à integração global. A energia econômica da cidade demonstra que, independentemente do sistema político formal, sociedades prosperam quando conseguem criar espaço para a iniciativa privada.

Isso não significa que o modelo vietnamita esteja livre de problemas. O país continua sendo um regime autoritário de partido único, com limitações importantes à liberdade de imprensa, à oposição política e à dissidência organizada. Persistem desafios relacionados à corrupção, às desigualdades regionais e à crescente dependência do setor exportador global. Ainda assim, a trajetória vietnamita permanece como uma das demonstrações mais poderosas de que desenvolvimento econômico não nasce da rigidez ideológica.

Sua transformação não ocorreu porque o estado conseguiu controlar completamente a sociedade, mas porque, em determinado momento, passou a permitir que ela voltasse a respirar economicamente. O pragmatismo começou gradualmente a substituir a ortodoxia, abrindo espaço para iniciativa privada, incentivos econômicos e integração global.

Talvez, olhando em retrospecto, a verdadeira vitória vietnamita não tenha ocorrido em 1975, com a retirada americana e a reunificação do país, mas décadas depois, quando o Vietnã decidiu abandonar parte do modelo econômico que aquela própria vitória havia imposto.



Fernando Freire Dutra -  Mises Brasil

Ana Paula Henkel e 'A ideologia antes dos fatos'

Ao longo dos últimos anos, parte das instituições ocidentais passou a interpretar acontecimentos humanos através de uma lente rigidamente identitária


Manifestantes exibem cartazes em frente à Delegacia Central de Polícia de Southampton durante protesto após a divulgação das imagens d câmera corporal da polícia que registraram a prisão e subsequente morte de Henry Nowak. O jovem de 18 anos foi algemado pela Polícia de Hampshire, que o acusou de abuso racial e não acreditou que ele tivesse sido esfaqueado. Ele acabou morrendo sob custódia policial devido à perda de sangue. Em Londres, Inglaterra (02/06/2026) - Foto: Lab Mo/SOPA Images via Reuters Connect 

N esta semana, um tribunal britânico condenou à prisão perpétua Vickrum Digwa pelo assassinato de Henry Nowak, um estudante universitário de 18 anos morto em Southampton, no sul da Inglaterra, em dezembro de 2025. O crime já havia provocado comoção no país pela idade da vítima e pela violência do ataque. Mas foi a divulgação das imagens registradas pelas câmeras corporais dos policiais que transformou o caso em um debate nacional sobre instituições, ideologia e a forma como sociedades contemporâneas interpretam acontecimentos cada vez mais complexos. 

As gravações mostram Henry gravemente ferido após ser esfaqueado. Enquanto tentava explicar o que havia acontecido e lutava para respirar, o jovem se viu no centro de uma situação que muitos britânicos consideraram perturbadora. Segundo ficou estabelecido durante o julgamento, o agressor alegou falsamente ter sido vítima de racismo. Nos momentos iniciais da ocorrência, essa acusação pareceu influenciar a forma como os fatos foram interpretados pelas autoridades que chegaram ao local. 

A repercussão foi imediata. Comentaristas, parlamentares, jornalistas e milhares de cidadãos passaram a discutir não apenas as circunstâncias específicas daquele crime, mas uma questão muito mais ampla: até que ponto determinadas instituições ocidentais passaram a interpretar acontecimentos através de filtros ideológicos antes mesmo de estabelecer os fatos?

Henry Nowak tinha apenas 18 anos. 

Como tantos jovens que chegam à universidade, estava vivendo um daqueles momentos que costumam marcar o início da vida adulta. Havia deixado a casa dos pais poucas semanas antes para estudar em Southampton. Tinha amigos, projetos e expectativas. Nada indicava que, em questão de minutos, seu nome se transformaria em símbolo de um debate que hoje atravessa todo o Ocidente.


Fotos de Henry Nowak e das algemas colocadas nele, durante protesto após a condenação de Vikrum Digwa pelo assassinato do jovem (02/06/2026) - Foto: Reuters/Isabel Infantes 

O julgamento estabeleceu os fatos. Não houve legítima defesa. Não houve agressão racista. Não houve provocação que justificasse o ataque. Houve um assassinato. 

Ainda assim, a razão pela qual o caso continua produzindo repercussões muito além das páginas policiais não está apenas na brutalidade do crime. Está na sensação crescente de que a história de Henry expôs uma transformação cultural que vem ocorrendo há anos em universidades, redações, departamentos de recursos humanos, burocracias governamentais e até mesmo em instituições encarregadas de aplicar a lei. 

Essa transformação está diretamente ligada à nefasta agenda woke. Seus defensores argumentam que essa abordagem permite “compreender injustiças históricas e corrigir desigualdades persistentes”. Mas a verdade é que ela substitui indivíduos por categorias, enfraquece princípios universais e cria incentivos para que acontecimentos sejam analisados primeiro através da identidade dos envolvidos.

É justamente nesse ponto que o caso Henry Nowak se torna relevante. 

As gravações do caso provocaram indignação nacional porque levantaram uma pergunta desconfortável: até que ponto determinadas instituições passaram a interpretar acontecimentos através de filtros ideológicos antes mesmo de estabelecer os fatos?


Imagem de um vídeo da polícia mostra a prisão de Henry Nowak, após ser atacado por Vickrum Digwa em Southampton, Grã-Bretanha, em 03/12/2025 - Foto: Polícia de Hampshire, Ilha de Wight/Divulgação: Reuters

O problema começou quando uma proposta de ampliação da sensibilidade moral passou gradualmente a se transformar em uma nova forma de interpretação da realidade. Em vez de servir como uma ferramenta entre várias outras para compreender fenômenos sociais complexos, a lente identitária passou a ocupar uma posição dominante. 

A identidade deixou de ser apenas uma característica das pessoas e passou a funcionar como uma espécie de chave explicativa para praticamente todos os acontecimentos. Durante décadas, as sociedades ocidentais foram construídas sobre um princípio relativamente simples. Antes de formular julgamentos, era necessário estabelecer os fatos. Antes de determinar responsabilidades, era necessário compreender o que havia acontecido. Antes de dividir o mundo entre culpados e inocentes, era necessário investigar. 

Esse princípio nunca foi aplicado de forma perfeita. A história humana é uma sucessão de falhas, injustiças e incoerências. Ainda assim, a ideia de que indivíduos devem ser julgados por seus atos, e não pela categoria à qual pertencem, tornouse uma das bases da tradição liberal que moldou as democracias modernas. Ao longo dos últimos anos, parte das instituições ocidentais passou a interpretar acontecimentos humanos através de uma lente rigidamente identitária. Antes de perguntar o que aconteceu, pergunta-se quem pertence a qual grupo. 

Pouco a pouco, o indivíduo foi cedendo espaço para a categoria. A primeira pergunta deixou de ser “o que aconteceu?” e passou a ser “quem está envolvido?”. Dependendo da resposta, muitas vezes a percepção pública do episódio já nasce inclinada em determinada direção. Algumas narrativas recebem credibilidade imediata. Outras precisam lutar para serem ouvidas. Algumas vítimas despertam solidariedade instantânea. Outras desaparecem no silêncio. Essa preocupação não surgiu do nada. Ela vem se acumulando há anos, alimentada por uma série de episódios que produziram a sensação de que determinadas histórias recebem atenção instantânea enquanto outras desaparecem rapidamente do debate público. 

A mesma imprensa que dedica semanas de cobertura a alguns casos parece demonstrar interesse muito menor por outros. As mesmas instituições que se mobilizam com extraordinária rapidez diante de determinadas causas frequentemente permanecem silenciosas diante de tragédias igualmente graves. A mesma indignação que explode em alguns momentos parece evaporar completamente em outros.


Policiais em uma manifestação após a condenação de Vikrum Digwa pelo assassinato de Henry Nowak, em Southampton, Grã-Bretanha (02/06/2026) - Foto: Reuters/Isabel Infantes 

Nada ilustra melhor essa contradição do que a história de Iryna Zarutska. 

Ao longo dos últimos três anos, milhões de pessoas exibiram bandeiras da Ucrânia em seus perfis nas redes sociais. Governos organizaram campanhas, empresas alteraram logotipos, celebridades gravaram vídeos e universidades promoveram eventos. A causa ucraniana transformou-se em um símbolo moral do nosso tempo. 

Para grande parte das elites políticas, empresariais e culturais do Ocidente, demonstrar solidariedade à Ucrânia tornou-se uma obrigação pública. Existe uma diferença fundamental entre solidariedade a uma causa e solidariedade a pessoas reais. Causas podem ser transformadas em símbolos. Pessoas possuem nomes, histórias e sofrimentos concretos que nem sempre servem às narrativas do momento. 

Foi exatamente essa diferença que se tornou evidente quando Iryna, uma refugiada ucraniana que havia escapado da guerra, acabou assassinada em um trem nos Estados Unidos por um criminoso reincidente que havia sido libertado repetidamente pelas autoridades. 

Sua história reunia todos os elementos que normalmente despertam comoção pública: sofrimento, vulnerabilidade, falha institucional e uma vítima inocente. Ainda assim, a reação foi incomparavelmente menor do que a mobilização que durante anos cercou a causa ucraniana. 

A pergunta inevitável é “por quê?”.


Momento em que a ucraniana Iryna Zarutska é assassinada por Decarlos Brown Jr., que tinha passagens pela polícia (22/08/2025) - Foto: Reprodução 

O Ocidente passou a analisar categorias e não indivíduos. Em vez de examinarem responsabilidades específicas, transformou acontecimentos humanos em batalhas simbólicas entre grupos. A consequência desse processo é corrosiva para qualquer sociedade livre. 

Quando a identidade passa a ocupar o lugar da evidência, a verdade se torna secundária. Quando a verdade se torna secundária, a justiça perde sua base mais sólida. E quando a justiça deixa de depender dos fatos para depender de narrativas, todos acabam vulneráveis. 

A tradição liberal que moldou grande parte do Ocidente foi construída sobre um princípio relativamente simples: indivíduos devem ser julgados pelos seus atos. Não pela cor de sua pele. Não pela sua origem. Não pela sua religião. Não pelo grupo ao qual pertencem. Esse princípio permanece sendo um dos pilares mais importantes da civilização ocidental. 

A cultura identitária frequentemente caminha na direção oposta. Ao dividir a sociedade em categorias morais e políticas cada vez mais rígidas, ela corre o risco de substituir o indivíduo pelo grupo e a responsabilidade pessoal pela identidade coletiva. Em vez de enxergar seres humanos concretos, passa a enxergar representantes de categorias abstratas.

A história de Henry não é apenas a história de um jovem assassinado. É também a história de uma sociedade que parece cada vez mais inclinada a interpretar acontecimentos através de filtros ideológicos antes de compreender plenamente o que aconteceu. 

A história de Iryna aponta para a mesma direção. Ela revela a distância crescente entre a compaixão performática e a solidariedade genuína. Revela uma cultura que muitas vezes demonstra enorme habilidade para exibir virtude publicamente, mas dificuldade crescente para manter atenção sobre vítimas reais quando elas deixam de servir como símbolos convenientes. 

Uma sociedade saudável não escolhe suas vítimas. Não distribui compaixão com base na utilidade política das histórias. Não determina o valor de uma vida a partir da capacidade daquela tragédia de reforçar uma determinada narrativa. 

Uma sociedade saudável começa pelos fatos. Procura a verdade. Busca a justiça. E somente depois constrói suas conclusões morais. Essa ordem não é um detalhe técnico. Ela representa uma conquista civilizacional construída ao longo de séculos. Sempre que ela é invertida, abre-se espaço para arbitrariedades, injustiças e distorções que acabam atingindo todos os cidadãos, independentemente de suas convicções políticas. Henry Nowak não deveria ter se transformado em símbolo de nada. 

Deveria estar vivo, frequentando aulas, construindo amizades e planejando o futuro. O fato de que sua morte tenha se tornado um símbolo diz muito menos sobre ele do que sobre o momento cultural que estamos vivendo.


Foto: Shutterstoc


Ana Paula Henkel - Revista Oeste

Adalberto Piotto - 'A realidade é que Lula só pensa nele'

Com a pirataria solta nas ruas, os abusos do STF e a corrupção financiando a concorrência desleal, como dizer que isso não é verdade?


Ilustração: Júlia Xavier/Montagem Revista Oeste/Gerado por IA 

A ntes de julgar a decisão de Washington de impor novas tarifas comerciais ao Brasil por práticas “irrazoáveis” que prejudicariam empresas americanas, uma análise de nossa realidade é necessária. Afinal, muito do que falam de nós, já sabemos. E um mínimo de honestidade intelectual, de lá e de cá, basta para mensurar excessos nas acusações e o exato tamanho de nossa omissão como país. No Brasil de verdade, de quem trabalha e produz — que é muito diferente do de Lula — querem-se soluções. Porque queremos seguir adiante como nação. Esqueça o país do coitadismo, do futuro que nunca chega, do populismo atroz, do voto de cabresto para a população mais pobre e dos contratos de cabresto para empresários e banqueiros sem escrúpulos. 

Ninguém mais aguenta esse governo que está aí. Um governo que quando não insiste no erro, protela nas autocorreções por incompetência nata ou interesse eleitoreiro. Nas recentes acusações da Casa Branca, o governo Lula, em vez de agir sob o interesse público e atuar com diplomacia de gente grande, reage com o espírito de um populista enquadrado pelos próprios erros e abusos. Lula não representa o Brasil. Lula só se interessa por ele e trata o país como um palco para sua reeleição. 

Uma análise técnica de quem está interessado em resolver problemas, preservar a indústria, a economia e os exportadores nacionais nos levaria a uma atuação mais sensata e responsável diante do caso. O governo Lula preferiu o confronto barulhento. E erra na escolha movida a ideologia mofada. O relatório do governo americano, baseado na investigação da Seção 301, é um estudo aprofundado das relações comerciais que potencialmente estariam prejudicando empresas americanas, não um rompante político meramente protecionista. 

A resposta precisaria vir com argumentos técnicos para demonstrar erros da acusação e o estabelecimento de metas de autocorreção. E acredite, temos ambos. Em uma primeira parte, podemos facilmente demonstrar com evidências inequívocas que parte das reclamações do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, é exagerada ou fora de lugar. Mas a outra parte do que governo norte-americano nos acusa é realmente verdadeira e prejudica igualmente a economia e as empresas brasileiras. Como se negar a resolver o que também nos aflige? O governo Lula, reconheçamos, não tem feito o dever de casa há muito tempo. O ambiente de negócios no país é ruim e inóspito às empresas brasileiras muito antes de afetar qualquer empresa estrangeira. 

Acontece que, agora, os EUA decidiram proteger os negócios deles. Se Lula fosse um pouquinho sério e tratasse o imbróglio com postura republicana, correríamos o sério risco de, ao nos corrigir, beneficiar a nós mesmos antes das empresas americanas. Pondero a seguir sobre os temas mais relevantes do relatório final do USTR, das práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA


Comércio digital e serviços de pagamento (isso inclui o Pix e a regulação das redes sociais)

O avanço do Pix e as polêmicas decisões judiciais envolvendo plataformas de tecnologia atraem o monitoramento estratégico dos Estados Unidos - Foto: Shutterstock

O Brasil tem o que defender. O Pix é um produto do talento nacional pensado para problemas nacionais. Resultou no mais eficiente instrumento de inclusão econômica, de bancarização e democratização no acesso a ferramentas financeiras no país. Com mais de 250 milhões de transações por dia, é usado por 83% da população. A alegação americana de concorrência desleal para as operadoras de cartão, como Mastercard e Visa, não procede. No Brasil, essas operadoras não se mostraram uma alternativa viável porque impõem custos mais altos e copiam o que há de pior no país: altas taxas de juros para empréstimos, mesmo tendo acesso privilegiado a recursos no exterior que poderiam baratear o crédito no país e “ganhar” a concorrência. 

Além do mais, o Pix funciona a partir de uma conta formal aberta num banco, com todas as transações com origem e destino conhecidos. O Pix é um aliado no “follow the money” para casos de lavagem de dinheiro. De fato, o Pix não parece ser o alvo das tarifas, mas os meios digitais de pagamento das big techs — como X, Meta e Google —, afetadas pelo bloqueio de contas e remoção de conteúdo por censura do STF. Aqui, não há defesa. A censura, vedada pela Constituição Brasileira, corre solta e pune primeiramente os brasileiros. É um acinte que uma parte considerável da sociedade tenha apoiado a censura. Vão esconder isso agora? Já é tarde. Volto ao tema mais adiante. 


Tarifas preferenciais desleais 

Diplomacia básica e ampliação de acordos comerciais baseados em lógica econômica e não em ideologia antiamericana resolveriam o problema. Ao ameaçarem com tarifas, os EUA pressionam pela negociação, algo que o governo Lula desdenha e evita fazer com os EUA por motivos de pequenez institucional e interesse eleitoreiro, relegando a economia e as empresas brasileiras a um segundo plano. 

Não por acaso, foi o setor privado que se dedicou a negociar no tarifaço anterior, abandonado que foi pela diplomacia politizada e ineficiente do governo de agora. É fato que a tarifa média brasileira de importação, de 13-14%, é muito maior que a dos Estados Unidos, de 4%. O saldo da Balança Comercial favorável aos EUA é um trunfo na negociação. Meia dúzia de diplomatas trabalhando sem influência política resolveria a questão. 


Desmatamento ilegal 

O Código Florestal Brasileiro é o mais severo do mundo, variando de 20% a 80% da propriedade que precisa preservar, mantendo essa área praticamente intocável por força de lei. 

Em nenhum lugar do planeta há similar. Isso se soma à maior área de floresta preservada do mundo e ao uso histórico de energia limpa, como a hidrelétrica ou do etanol, renovável e com captação de carbono pelas plantações de cana-deaçúcar. Os casos de desmatamento ilegal são assunto de polícia. A falha do governo brasileiro na fiscalização e na contenção pode ser solucionada com policiamento mais ostensivo e políticas adequadas. O Brasil não desmata como decisão de Estado ou porque permite maior uso de terras agrícolas. Ao contrário, com um agronegócio tecnológico e eficiente, produz cada vez mais em menos terra. Os números são altamente positivos numa negociação a favor de nós, mas não nos isentam de maior eficiência na fiscalização, sem punir o produtor legal.


Acesso ao mercado de etanol 

O Brasil tem uma tarifa de 18% sobre o etanol vindo de produtores americanos. Ao exportar, paga apenas 2,5% de tarifa. A assimetria é inquestionável no protecionismo da indústria nacional. Ainda assim, é outro caso em que a diplomacia profissional e sem influência do lulismo pode chegar a um bom termo. O mercado crescente dos carros bicombustíveis, cujos donos privilegiam o uso do etanol, demanda mais produção. Além do que, a oferta interna vive com oscilações historicamente desfavoráveis ao consumidor brasileiro. 

Basta o preço do açúcar no mercado internacional subir e as usinas são convertidas a produzir menos etanol e mais açúcar. Um acordo com os EUA poderia calibrar o mercado interno e diminuir a influência de usineiros, beneficiando o consumidor local. Para isso, é preciso sair da redoma de Brasília, colocar os pés no asfalto e sentir a poeira do estradão do país real, não a Versalhes decadente e brega dos poderosos da capital. 


Proteção da propriedade intelectual 

Aqui, ou o Brasil precisa assumir que falhou ou não vai adiantar dourar a pílula. Irritar-se com os americanos será inútil. Como explicar que o mercado ilegal no Brasil gerou R$ 514 bilhões de prejuízo com falsificação, contrabando e pirataria de produtos apenas em 2025, segundo levantamento da Associação Brasileira de Combate à Falsificação? Não dá. 

O Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade tem um número um pouco menor, ainda assim um recorde: R$ 473,2 bilhões no ano passado. E isso não reduz apenas o lucro de empresas que entregam produtos originais. Derruba a arrecadação de impostos de prefeituras, governos estaduais e do federal, atolado em rombos que cria sem parar por irresponsabilidade fiscal. Mais grave: o produto falsificado ou adulterado expõe o consumidor e a saúde pública, além de alimentar redes de criminosos com atuação no país e no exterior. 

A classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas pelo Departamento de Estado dos EUA, dias antes, é a confirmação do Brasil fora da lei, que exporta crime e criminosos. Alguém realmente acreditava que esse dia não chegaria? Que há um ganho eleitoral para o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, não há dúvida. Mas se o governo atual tergiversa ou até passa a mão na cabeça (Lula chamou de “nossos criminosos” ao reclamar da decisão do secretário de Estado Marco Rubio), o mundo não parece mais disposto a ficar inerte diante do absurdo. Até porque o Brasil é também o quinto maior consumidor de pirataria digital do mundo. 

A “gatonet”, operada pelo crime organizado em favelas ou áreas sitiadas por essas facções, já foi considerada a segunda maior operadora de TV a cabo do país. É um combo de ilegalidade exposto em praça pública. A pressão americana neste caso só obriga o Brasil a fazer a lição de casa de seguir a própria lei. Se combater o crime aqui, se devolver a soberania aos moradores dessas áreas tomadas por um Estado paralelo, os ganhos serão primeiramente à economia local, além de devolver a dignidade do ir e vir aos próprios brasileiros. Os interesses americanos vêm como um efeito colateral positivo, mas antes quem ganha somos nós. 


Combate à corrupção

Quem em sã consciência diria que o Brasil se livrou da corrupção com o escândalo do Banco Master batendo à porta dos Três Poderes de Brasília? Lula é um condenado em três instâncias por corrupção passiva e formação de quadrilha, só se tornou presidente depois que o STF inventou a malfadada “Lei do CEP”, anulou os atos da Justiça Federal de Curitiba e foi resgatado do cárcere pelos ministros do Supremo para ser o candidato do sistema em 2022. Nunca foi considerado inocente. Ao retornar ao poder, depois do auge do Mensalão em seu primeiro mandato, e ver o Petrolão no governo Dilma, sua sucessora, já teve roubo de aposentado do INSS e o Master. 

Neste último caso, Lula aconselhou o dono, Daniel Vorcaro, hoje preso por decisão do ministro André Mendonça, a não vender o banco ao BTG e aguardar a posse de Gabriel Galípolo, seu indicado, no Banco Central. Detalhe: a reunião aconteceu dentro do gabinete presidencial sem constar na agenda. O que tanto escondiam?

Fato é que a corrupção significa concorrência desleal em seu estado mais bruto. Prejudica concorrentes brasileiros ou estrangeiros que jogam limpo e reduz os ganhos de acionistas aqui e lá fora. Dois dos ministros da mais alta Corte do país mais próximos do governo Lula, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, são o resumo da bandalheira que os gringos não se recusam a enxergar. Alexandre é o patrono de todos os abusos constitucionais contra a liberdade de expressão e os demais direitos elementares, além de ter a mulher contratada por Vorcaro pela bagatela de R$ 129 milhões, sendo R$ 80 milhões efetivamente pagos até que o escândalo eclodiu. 

Foi ele também que multou o X, a plataforma de Elon Musk, e mandou a Starlink pagar, um outro CNPJ que apenas tinha Musk como acionista. Não existe abuso parecido no planeta. Existiu no Brasil de agora, alvo da Casa Branca. Toffoli, indicado por Lula à Corte, tem anulado acordos bilionários de leniência em que empresas do Petrolão assumiram a corrupção e aceitaram pagar pelo prejuízo que causaram. Neste caso, sejamos justos, o Brasil de Lula piorou o que havia melhorado com a Lava Jato. Não só deixou de fazer o dever de casa como piorou o ambiente. 

De novo, se houvesse um combate à corrupção sistêmica que novamente assola o Brasil, seriam as empresas brasileiras e os brasileiros os primeiros a serem beneficiados. Lula não concorda e nada fará por isso. A proximidade da eleição de outubro, a alta rejeição de seu governo e o seu populismo desavergonhado o impedem de fazer o certo. Daí, dobra a aposta na narrativa de soberania afrontada pelos EUA. Uma bobagem! Do presidente não se deve esperar nada. Mas o que farão as empresas e os bancos? Todos eles sabem da realidade brasileira e que a eventual tarifa de agora não é afronta à soberania, mas sim uma oportunidade de negociação e de autocorreção. Comprarão a tresloucada e esperta narrativa do governo uma vez mais ou vão expor Lula e sua incompetência em resolver internamente os problemas que os afligem antes de qualquer investidor estrangeiro? Vão exigir diplomacia pragmática, técnica e responsável em nome do interesse nacional ou ficarão com medo de perseguições do aparelho governamental do PT nos órgãos federais e na Justiça? 

O Brasil não é para amadores, tampouco o é para quem não tem a coragem de lutar pelo país. Veja que a omissão, o medo ou a estratégia populista eleitoral de Lula, que evita apresentar as defesas que temos e se comprometer com correções que devemos a nós mesmos, só piora o quadro. Não bastassem as primeiras acusações do USTR, agora tem mais uma: o Brasil corre o risco de uma tarifa extra de 12,5% por falhar na proteção de trabalhadores em situação de trabalho forçado ou análogo à escravidão, incluindo-nos numa lista de 60 países abusadores de mão de obra. Que é uma vergonha a um presidente ou partido que se diz “dos trabalhadores”, ninguém tem dúvida. Mas nem o PT nem Lula são o Brasil da maioria. O problema é o constrangimento que isso nos causa como país, inclusive para quem joga limpo, que sempre terá de dar explicações adicionais. 

A imposição de tarifas tem se demonstrado a principal ferramenta da Casa Branca para pressionar parceiros comerciais a se sentarem à mesa de negociação. É o que Lula evita porque terá de assumir seus erros ou expor o parceiro de consórcio, o STF, como vilão dos direitos humanos. O tacanho interesse eleitoreiro de Lula dita as regras e o Brasil acaba alijado de ser protagonista em negociações que lhe são vitais. Ou chega atrasado ou tem de se explicar depois do dano já estabelecido. Ou se tira a eleição de Lula ou se tira Lula da eleição. O Brasil não sobreviverá com o presidente pensando apenas nele.





Adalberto Piotto - Revista Oeste