Uma resenha de Sacrificial Lambs, de Anita Bartholomew
Foto: Shutterstock
“Como uma criança pequena passa a conceber a ideia de que pode mudar de
sexo, isto é, de gênero — ou de que pode não ter gênero algum? Por que alunos
do primeiro ao quinto ano estão adotando identidades ‘queerizadas’, não
binárias e trans? Sabemos que algo sem precedentes começou a acontecer na
segunda década do século 21. O aumento no número de pessoas tentando se
identificar fora do próprio sexo, especialmente entre adolescentes do sexo
feminino e mulheres jovens, tem sido vertiginoso.”
(Anita Bartholomew, Sacrificial Lambs)
O
Brasil sempre foi internacionalmente reconhecido por sua
excelência em umas poucas atividades sociais, como o
futebol, ou pelo exotismo de alguns de seus frutos naturais,
como a jabuticaba. Mas, de uns tempos para cá, como
mostrei na minha coluna de 21 de fevereiro, o país vem se
destacando de maneira inusitada num outro setor: o Brasil é, hoje, o
país que criminaliza de forma mais radical as críticas ao
transgenerismo — ideologia segundo a qual a identidade de gênero de
uma pessoa (entendida como autopercepção íntima e subjetiva de ser
homem, mulher, ambos ou nenhum) pode divergir de seu sexo
biológico e deve prevalecer sobre ele como critério primário de
identidade pessoal, reconhecimento social e, em muitos casos,
organização jurídica.
Brasil é, hoje, o país que criminaliza de forma mais radical as críticas ao transgenerismo | Foto: Shutterstock
Pode-se avaliar o reconhecimento internacional do fenômeno a partir
de duas matérias recentes publicadas por veículos de mídia
estrangeiros. No mês passado, The Wall Street Journal (WSJ) publicou
matéria intitulada “Brazil Criminalizes Transgender Dissent” (“O
Brasil criminaliza a dissidência em relação ao transgenerismo”), na
qual se relata o caso de Isadora Borges, estudante de veterinária que
passou a responder judicialmente por ter afirmado algo que, até
ontem, era uma mera obviedade: a existência do sexo biológico.
The Wall Streey Journal - From @WSJopinion: Brazil criminalizes transgender
dissent. A feminist could go to prison for asserting
that a male can’t become a female, writes
@MaryAnastasiaOG.
Levada aos tribunais pela acusação de “transfobia”, Isadora pode
receber uma pena de até dez anos de prisão, além de multa elevada e
pagamento das custas processuais. O enredo tem ares de ficção
distópica, recordando a cena clássica de 1984, em que Winston Smith,
após ser esmagado pela máquina do Partido, acaba confessando que
dois mais dois são cinco. Foi essa similaridade inquietante da
realidade brasileira com a distopia orwelliana que chamou a atenção
de Mary Anastasia O’Grady, autora da reportagem do WSJ.
O episódio também repercutiu na revista digital britânica Spiked, que
não economizou palavras ao descrever o distópico cenário brasileiro.
Em texto assinado por Raquel del Rosario Sanchez, e intitulado “Trans
tyranny reigns in Brazil” (“A tirania trans impera no Brasil”), a revista lembra que a denúncia contra Isadora partiu de Erika Hilton,
apresentada como “mulher trans”, a mesma parlamentar que, em
2022, já havia instigado investigação contra a feminista Isabela Cêpa
por se referir a Hilton como “homem” nas redes sociais. Sob ameaça
de uma condenação que poderia alcançar 25 anos, Isabela buscou
refúgio na Europa, onde recebeu reconhecimento formal como
perseguida política.
Trans tyranny now reigns in Brazil. Isadora Borges is
facing 10 years in prison for stating that transgender
women were obviously born men. Across Latin
America, women are being persecuted by mad,
misogynistic crossdressers, says Raquel del Rosario
Sánchez
buff.ly/27gTWqk
6:00 AM · 18 de fev de 2026
Segundo a análise da Spiked, esses episódios não são isolados, mas
sintoma de uma tendência mais ampla na América Latina: a
instrumentalização de leis de identidade de gênero para sufocar
dissenso e restringir o debate científico sobre sexo e gênero. O texto
sustenta ainda que muitas dessas normas seguem modelos
importados, frequentemente incentivados por governos e organismos
internacionais que condicionam acordos e financiamentos à adoção
dessas agendas pelos países do chamado Sul Global.
Nas palavras da
autora da matéria:
“Este é o estado de coisas draconiano em que muitas mulheres latinoamericanas agora se veem vivendo. Políticas de ‘identidade de gênero’ estão
sendo impostas a elas, sob ameaça de perseguição política e longas penas de
prisão. Elas estão sendo coagidas a afirmar que homens vestidos com roupas
femininas são, de fato, mulheres. Aquelas que, como Borges, ousam se
manifestar precisam do nosso apoio mais do que nunca.”
Portanto, tendo o Brasil se tornado o epicentro disso que alguns
jornalistas estrangeiros descrevem como “criminalização da
dissidência em relação ao transgenerismo” e “tirania trans”, ao leitor
brasileiro certamente interessa conhecer melhor as origens e os
desenvolvimentos do fenômeno do transativismo radical.
E um bom
caminho para isso é a leitura do recém-lançado Sacrificial Lambs: a
liberal reporter exposes how the progressive left harms children in the name
of gender ideology, da jornalista e escritora americana Anita
Bartholomew, obra que combina reportagem investigativa com crítica
cultural sistemática.
O título do livro — “cordeiros sacrificiais”, em português — é bem
explicado logo nas primeiras páginas:
“Quando iniciei minha investigação, minha maior preocupação eram as
inúmeras crianças induzidas a imaginar que poderiam estar presas no corpo
errado. A princípio, eu acreditava que os adultos estavam em outra
categoria.
Para ser arrancada desse pressuposto, precisei entrar em contato
com muitos jovens adultos que haviam acreditado na falsa alegação de que
poderiam mudar de sexo — alguns que depois passaram pelo processo de
‘destransição’ e outros que ainda se identificam como trans. Vários
destransicionistas estavam totalmente comprometidos com a vida
transgênero até o momento epifânico em que reconheceram que tudo não
passava de uma mentira.
Isso frequentemente os devastou emocionalmente —
uma devastação quase tão profunda quanto aquela que haviam consentido
impor aos próprios corpos. Esses são os verdadeiros ‘membros mais
vulneráveis da nossa sociedade’: as crianças e jovens adultos que acreditaram
nas mentiras. São os cordeiros sacrificiais no altar de um movimento que não
tem base em fatos nem no bom senso. Você conhecerá alguns deles em breve.”
Daí que Bartholomew não tenha pudores em, desde a primeira página,
apresentar o livro como uma denúncia contra a ideologia de gênero,
seus sacerdotes acadêmicos, missionários midiáticos e executores
burocráticos. É que, enquanto denúncia, o livro se pretende também
um libelo em defesa das vítimas — as crianças e jovens adultos que,
seduzidos por promessas de libertação, acabaram no altar do
experimento social radical em que consiste o transgenerismo. Em
suas palavras:
“Sacrificial Lambs baseia-se em evidências sólidas e amplamente
documentadas, mostrando que todo argumento que você possa ter ouvido em
favor da adoção da ideologia de gênero é falso. Mesmo que você ainda seja um
adepto agora, ao chegar à última página, depois de perceber a amplitude e a
profundidade dos danos que a ideologia de gênero causa — não apenas aos
nossos jovens, mas a toda a sociedade, inclusive a você —, estará pronto para
se desintoxicar. Este livro foi escrito para ajudá-lo a fazer exatamente isso.
Não podemos proteger as crianças enquanto nós, adultos, não nos curarmos
da ilusão de que isto é apenas mais uma moda passageira, um movimento
marginal que afeta pouquíssimos e que desaparecerá por conta própria. A
ideologia de gênero conta com um exército comprometido, bem financiado e
composto por múltiplas facções, que a promove e a defende. Será preciso algo
equivalente, do outro lado, para enfrentá-la.”
Mas, ao contrário do que esse propósito declarado possa fazer parecer,
a autora não escreve como panfletária, como alguém que prega para
ouvidos predispostos. Sacrifical Lambs é obra de uma investigadora
sistemática e obstinada por dados, alguém que, por já ter estado “do
lado de lá”, conhece bem as ilusões e os escudos contra a realidade
interpostos pela ideologia. Identificando-se como esquerdista (ou,
alternativamente, progressista), ela sabe que seu público natural tende
a rejeitar qualquer crítica à agenda trans como histeria conservadora.
Por isso, escolhe a via mais difícil: a desmontagem paciente.
Em suas
palavras:
“Se você se considera progressista ou moderado, provavelmente não tem ideia
de que tudo isso está acontecendo. As pessoas que vêm denunciando os
excessos da ideologia de gênero são, em sua maioria, politicamente muito à
direita. Em nossa sociedade polarizada, recusamo-nos a ouvir aqueles que
nossa tribo política considera completamente errados em praticamente tudo
(…) A maioria dos liberais ignora qualquer coisa que venha da direita. Mas
ninguém pode, com credibilidade, me chamar de direitista. Na maioria dos
temas, estou politicamente um pouco à esquerda do senador por Vermont,
Bernie Sanders. É por isso que senti com tanta força que a capa deste livro
deveria me identificar como esquerdista. A ideologia de gênero não deveria
ser uma questão de esquerda ou direita. Mas, como a esquerda progressista a
abraçou, talvez uma voz dissidente soando o alarme a partir da esquerda seja
a única que a maioria dos liberais consiga ouvir.”
Bartholomew começa pelo dogma fundador: a tese de que alguém
pode nascer “no corpo errado”. Ela disseca a genealogia teórica dessa
ideia — de suas origens médicas restritas (relativas a quadros graves e
severos de disforia de gênero) até a sua elevação à condição de
verdade antropológica universal.
No primeiro capítulo,
“O Mito da Criança Mágica”, Bartholomew
questiona a noção de que crianças possuem um autoconhecimento
infalível acerca de sua identidade de gênero, uma ficção envelopada
num slogan recorrentemente repetido, disfarçado de conclusão
científica definitiva: “Crianças sabem quem elas são”.
A autora argumenta que crianças são altamente sugestionáveis, que a
identidade é um processo de maturação, e que a confusão corporal na
infância é comum e frequentemente transitória. Apresenta estudos
indicando que, historicamente, a maioria das crianças com
desconforto de gênero superava essa condição na puberdade sem
intervenção médica.
O “mito” consistiria em tratar a autodeclaração
infantil como verdade ontológica definitiva, transformando em
destino a inconstância típica da idade.
Bartholomew apresenta dados estatísticos sobre o aumento
vertiginoso de diagnósticos de disforia de gênero entre adolescentes,
sobretudo meninas.
A inversão do perfil histórico — antes
predominantemente masculino e infantil, agora feminino e
adolescente — não é tratada como mera curiosidade estatística, mas
como indício de contágio cultural (uma abordagem que reforça
argumentos anteriores na mesma linha, como o de Abigail Shrier).
Sacrificial Lambs: a liberal reporter exposes how the progressive left harms children in the name of gender ideology, da jornalista e
escritora americana Anita Bartholomew - Foto: Reprodução/Amazon
O segundo capítulo, “Consinta com este ‘tratamento’… ou sofra as
consequências”, mergulha no chamado modelo de “afirmação”.
Segundo esse modelo, a função do profissional de saúde é confirmar a
autopercepção do paciente, jamais questioná-la. Bartholomew
argumenta que isso representa uma ruptura radical com a tradição
clínica, que sempre considerou o questionamento e o diagnóstico
diferencial como parte essencial do cuidado. A autora cita casos em
que avaliações psicológicas foram abreviadas ou suprimidas, e
decisões médicas irreversíveis tomadas com base em meras
autodeclarações.
O ponto nevrálgico aqui é o consentimento. Pode um menor consentir
validamente em bloqueadores de puberdade, hormônios cruzados e
cirurgias com potenciais efeitos irreversíveis sobre fertilidade e
desenvolvimento corporal? Bartholomew descreve um ambiente
clínico em que a afirmação rápida da identidade declarada é
apresentada como protocolo mais seguro, muitas vezes acompanhada
da narrativa de que questionar a transição aumenta o risco de suicídio.
A autora problematiza a forma como estatísticas são mobilizadas
nesse contexto e sugere que o consentimento ocorre sob intensa
pressão emocional e moral. “Você prefere uma filha viva ou um filho
morto?” — é a pergunta-chantagem muitas vezes dirigida aos pais,
para que aceitem sem questionar o processo de “transição”.
No terceiro capítulo, “A Mídia e a Mensagem”, o foco desloca-se para o
papel da imprensa e da cultura popular.
A autora argumenta que a
mídia frequentemente privilegia histórias individuais comoventes e
tende a apresentar a transição como trajetória de libertação quase
inevitável, ao mesmo tempo em que minimiza controvérsias
científicas e relatos de arrependimento. A seleção editorial busca
construir uma narrativa que influencia percepções públicas e cria um
ambiente de consenso aparente. A repetição de determinados
enquadramentos transforma uma hipótese controversa em norma
cultural, e esta, por sua vez, em política pública.
Aprende-se essa norma cultural desde cedo, na escola, tema do quarto
capítulo, “Lição de hoje: rejeite o seu sexo”. Aqui, Bartholomew
examina materiais didáticos, treinamentos de professores e políticas
escolares que tratam o sexo biológico como uma categoria maleável ou
secundária. A distinção entre informar sobre diversidade e incentivar
a rejeição da própria corporeidade torna-se, segundo a autora, cada
vez mais tênue.
A escola, que deveria transmitir conhecimentos
básicos sobre biologia, passa a apresentar a identidade como campo
aberto à autocriação contínua. A criança deixa de ser apenas
educanda, tornando-se agente de redefinição ontológica, antes ainda
de dominar as quatro operações. Escreve Bartholomew:
“Quem planta essa primeira semente? O que terá predisposto tantos jovens
que ainda nem sabem o que é sexo a se tornarem suscetíveis à ideia de alterar
suas identidades e seus corpos?
Por que uma criança comum imaginaria
sequer que mudar de sexo é possível? Essa ideologia está ganhando força
como uma bola de neve e está alcançando crianças cada vez mais novas (…)
Antes de ganharem seus primeiros smartphones, antes de descobrirem essa
coisa chamada TikTok, antes mesmo de terem permissão para usar o
computador de casa sem supervisão, há uma influência externa que afeta
quase todas as crianças.
A escola.”
O quinto capítulo, “Cuidado, crianças: seus pais não são ‘seguros’”,
introduz a questão da autoridade parental. Bartholomew analisa casos
em que pais hesitantes diante da transição são retratados como
prejudiciais ou abusivos. Protocolos escolares que mantêm em sigilo
mudanças de nome e pronomes, recomendações clínicas que sugerem
afastamento de responsáveis considerados “não afirmativos” e
disputas judiciais por guarda compõem o cenário.
A questão, que
começa médica e pedagógica, vira conflito familiar. E a autoridade
natural dos pais sofre erosão diante de critérios ideológicos
institucionalizados, frequentemente respaldados por aparato jurídico.
No sexto capítulo, “Cuidado, pais: nada nem ninguém está seguro em
parte alguma”, o assalto à autoridade parental adquire contornos
sistêmicos. A autora descreve como múltiplas esferas — escolas,
hospitais, conselhos profissionais, legislação local — podem operar
segundo diretrizes afirmativas, criando a sensação de que a família
perdeu controle sobre decisões fundamentais. Não é um único ponto de vulnerabilidade, mas uma rede institucional que dificulta a
resistência isolada.
O sétimo capítulo, “Transgênero é realmente uma coisa (e é apenas
uma coisa)?”, introduz uma inflexão conceitual. Bartholomew
questiona a homogeneidade do termo “transgênero”, sugerindo que
ele abriga realidades distintas: casos raros de disforia persistente
desde a infância, fenômenos de início rápido em adolescentes —
especialmente meninas — e situações em adultos com motivações
diversas. Ao fundir experiências heterogêneas sob um único rótulo, o
debate público perde precisão clínica e científica. A categoria torna-se
política antes de ser diagnóstica, e moral antes de ser empírica.
Segundo Bartholomew:
“Já deveria estar claro, a esta altura, que há muito pouco que conecte os
membros dos diferentes grupos que reivindicam o status de trans, além do
fato de todos serem celebrados pelos adeptos da ideologia. Uma criança prépúbere confusa quanto ao próprio sexo tem quase nada em comum — seja em
termos de sintomas, seja em termos de trajetória do transtorno — com um
homem adulto que, às escondidas, veste as roupas íntimas da esposa
enquanto se masturba.
Tampouco os adolescentes e pré-adolescentes
seduzidos pela fantasia de que é possível mudar de sexo têm muito em
comum com qualquer um dos outros dois grupos.
Os ativistas dirão que as pessoas que se autodenominam trans “nasceram
assim”.
Mas assim como, exatamente? Como o transgenerismo pode ser uma
coisa, quando na verdade são tantas coisas díspares? E como pessoas “trans”
podem ter “nascido assim” quando a maioria daqueles que se identificam
com o sexo oposto só passou a imaginar para si alter egos do sexo oposto
muito tempo depois de terem nascido?
Mesmo entre aqueles jovens que teriam idade suficiente para, em tese,
sustentar a tese do ‘nasceram assim’, quase todos acabarão por abraçar seu
sexo biológico, desde que não sejam ‘submetidos à transição’ antes disso.
O
transgenerismo é internamente e externamente incoerente, inconsistente e
ilógico. Mas, enquanto aqueles que fazem as regras da sociedade tratarem o
faz de conta como se fosse real, ele continuará a produzir consequências
reais.”
Na sequência, no capítulo oitavo, intitulado “Homens nos esportes
femininos — como isso é justo?”, algumas dessas consequências são
apresentadas. A autora examina dados fisiológicos e casos práticos
para sustentar que diferenças biológicas decorrentes da puberdade
masculina não são completamente eliminadas por terapia hormonal.
O argumento é que políticas baseadas exclusivamente na
autodeclaração podem comprometer a equidade esportiva feminina. O
debate deixa o campo da identidade subjetiva e entra na arena
mensurável do desempenho físico, onde a biologia reaparece com
incômoda objetividade.
“Homens nos esportes femininos — como isso é justo?” | Foto: Shutterstock
O nono capítulo, “Por que estamos deixando que homens invadam
espaços exclusivamente femininos”, amplia essa preocupação para
prisões, abrigos e espaços segregados por sexo. Bartholomew relata
controvérsias e incidentes que emergiram com a adoção de critérios
baseados na identidade declarada. A tensão aqui é entre a proteção de
uma minoria e a segurança de outra. A autora sustenta que a ausência
de debate franco decorre menos de consenso genuíno e mais de medo de rotulação, um mecanismo disciplinador típico das ortodoxias
ideológicas.
Como ela havia apontado na introdução, a propaganda transativista
deixa de lado, por exemplo, o caso dos homens adultos,
frequentemente de meia-idade ou mais, que passam a ser
transgêneros por uma questão de fetiche sexual. Nas palavras da
autora:
“Ninguém que promove a ideologia menciona os fetichistas. A maioria dos
ativistas se recusa a admitir que eles existem. Mas a maioria dos homens que
hoje se identifica como pertencente ao sexo oposto não corresponde ao que a
pessoa comum imagina. Especialistas em saúde mental que estudam o
fenômeno estimam que cerca de três quartos dos homens que afirmam
identificar-se como mulheres estão expressando uma forma extrema de
desvio sexual associada a uma parafilia ou fetiche. Embora o transgenerismo
tenha sido apresentado ao público como o ‘novo gay’, a maioria desses
homens — especialmente os que adotam sua nova identidade na meia-idade
ou mais tarde — é heterossexual, não homossexual. São homens
heterossexuais que se sentem atraídos por mulheres e que obtêm excitação
sexual ao imaginar-se mulheres (…) Hoje, esse fetichismo foi retirado dos
cantos escuros. Ele não é apenas normalizado. É atendido, tratado com a
máxima deferência. Celebrado. É aqui que estamos agora (…) Se uma criança
pode nascer no corpo errado, um homem adulto pode alegar que um dia foi
essa criança. E quando ele ‘se assume’ como mulher, e a sociedade o aceita
apenas com base em sua palavra, o que acontece em seguida? Ele é uma
mulher. Passa a ter acesso a tudo o que é reservado a mulheres e meninas.
Está no boxe ao lado da sua filha adolescente na academia. É a ‘vendedora’
no provador da loja de departamentos, ajudando mulheres a encontrar um
sutiã confortável. Ele está vivendo seu fetiche, em alto e bom som, com
orgulho — e ninguém ousa dizer que ele não pode, a menos que queira correr
o risco de ser ostracizado, processado ou coisa pior”.
Essa análise culmina no décimo capítulo, “Por que todos
enlouquecemos?”, um diagnóstico cultural do atual estado de coisas.
Bartholomew pergunta como instituições inteiras — médicas,
educacionais, midiáticas e judiciais — adotaram posições controversas
com tão pouca resistência interna. Entre as respostas sugeridas estão
o medo de sanções profissionais, a pressão ativista coordenada, o tribalismo político e o conformismo institucional. Por óbvio, o referido
“enlouquecimento” seria o resultado de incentivos estruturados, não
de uma súbita psicopatologia coletiva.
Diz a autora:
“Em outros países — Islândia, Reino Unido, Espanha, México, Canadá,
Alemanha e outros — onde não há proteção equivalente à Primeira Emenda,
pessoas estão sendo presas, ou ameaçadas de prisão, por se recusarem a
cumprir as exigências linguísticas dos ideólogos de gênero. Quando uma
cultura inteira concorda em negar a biologia e se afastar da realidade, tornase impossível prever ou controlar as consequências.”
No capítulo final, “Está na hora de recuperar a sanidade e a realidade”,
a autora abandona o diagnóstico e parte para a convocação.
O que está
em jogo, ali, não é mero ajuste de políticas públicas, mas a restauração
de critérios elementares que uma cultura saudável não deveria
precisar redescobrir: sexo como dado biológico, prudência médica
como regra, autoridade parental como princípio, liberdade de
expressão como condição de qualquer deliberação racional.
“Recuperar a sanidade” tem um sentido bastante preciso: recolocar o
dado natural que é o corpo no centro da identidade humana e
restabelecer distinções que a retórica ideológica dissolveu — entre fato
e desejo, compaixão e temeridade, cuidado médico e experimentação
social.
Os apêndices funcionam como desdobramento prático dessa tomada
de posição.
No primeiro, Bartholomew examina as ordens executivas
de Donald Trump relativas ao tema, medindo-lhes o alcance jurídico
real e apontando que o Poder Executivo, por mais bem-intencionado,
não substitui o trabalho legislativo de longo prazo, nem resolve
disputas antropológicas por decreto. No segundo, desce ao nível
doméstico e oferece orientação direta a pais — sinal de que o debate
não é abstrato, mas interfere diretamente na vida cotidiana de famílias
comuns.
Vista em conjunto, a obra obedece a um movimento deliberado:
começa na criança, percorre a clínica, a imprensa e a escola, examina
o enfraquecimento da família, enfrenta as disputas no esporte e nos
espaços segregados, diagnostica o conformismo institucional e
culmina num chamado à recuperação do real. Não se trata apenas de contestar esta ou aquela norma administrativa, mas de questionar o
paradigma antropológico que deslocou a realidade corpórea do eixo
da identidade e a substituiu pela soberania da autodeclaração.
A pergunta que percorre tacitamente cada capítulo é simples: em
quanto tempo uma sociedade consegue reorganizar suas leis, suas
escolas e seus hospitais com base na primazia absoluta da
subjetividade sem pagar o preço da fragmentação? É essa
interrogação — mais do que qualquer estatística isolada — que dá
unidade ao livro e o projeta para além das circunstâncias imediatas
que o motivaram.
Para além do seu tema específico, o que Sacrifical Lambs realmente
desvela é uma mutação antropológica de largo alcance — a
substituição da concepção clássica da unidade corpo-alma por uma
versão tardomoderna do mais antigo dos dualismos: o gnóstico. De
fato, como há tempos sugeri numa coluna, há algo de estranhamente
familiar na fórmula “nasci no corpo errado”.
Para muitos, a fórmula soa contemporânea, progressista e até
libertadora. No entanto, sua estrutura é arcaica. Pressupõe uma cisão
radical entre um “eu” essencial — mental, psicológico, afetivo — e um
corpo material espúrio que o aprisiona. O verdadeiro eu estaria na
mente; o corpo seria um invólucro extrínseco, um veículo contingente,
quando não uma prisão. “Sou isto, mas estou preso num corpo
daquilo.” Eis um tópos tipicamente gnóstico, agora reciclado no
vocabulário da biopolítica.
O novo ativismo identitário reproduz, com notável fidelidade, essa
antropologia dualista. O gênero “verdadeiro” não estaria inscrito na
realidade corpórea, mas alojado numa interioridade soberana, cuja
autodeclaração deve prevalecer sobre qualquer dado biológico. O
corpo torna-se, assim, mero continente impessoal, quase maquinal —
uma “máquina desejante”, como diriam os pós-modernos Deleuze e
Guattari. Ele estaria à disposição da vontade que o habita. Segundo
essa visão, nós, seres humanos, seríamos pessoas não-corpóreas
residindo em corpos não-pessoais.
Foto: Shutterstock
Resta que, se o corpo é apenas um objeto extrínseco — ou, pior, uma
prisão —, por que respeitá-lo como parte constitutiva da pessoa? Se os
órgãos são peças intercambiáveis de um invólucro contingente, por
que não os remodelar cirurgicamente até que correspondam à
autoimagem subjetiva? Eis, precisamente, a ideia de fundo que explica
a dimensão e a radicalidade do fenômeno descrito por Bartholomew.
O problema — e a razão pela qual as políticas de “afirmação”, como
demonstra a autora, em geral não minimizam o sofrimento psíquico
da pessoa transgênero — é que a realidade resiste. A tradição
aristotélico-tomista, que moldou o Ocidente por séculos, sempre
compreendeu o homem como um composto dinâmico de corpo e alma
— não duas substâncias justapostas, mas uma única substância cuja
forma é a alma e cuja matéria é o corpo.
Antes que “fantasma na
máquina”, a alma é a forma substancial do corpo. Nós não habitamos
nosso corpo como inquilinos de apartamento. Somos nosso corpo, na
mesma medida em que somos a nossa alma. O corpo é pessoal porque
a pessoa é corpórea.
Essa visão não é mero detalhe teológico. Ela estrutura toda uma ética.
Se o corpo é parte integrante da identidade, então a intervenção sobre
ele exige prudência extrema, sobretudo quando se trata de menores
em formação.
A infância e a adolescência, com suas angústias e
descompassos, não podem ser tratadas como uma prova ontológica do
erro da Criação.
É perfeitamente possível admitir que o sentimento de estar num corpo
“errado” seja uma experiência subjetivamente intensa, sem com isso
afirmar que esse sentimento altera a estrutura do ser. Bartholomew
documenta o crescimento vertiginoso de diagnósticos de disforia
entre jovens — especialmente meninas — e a rapidez com que o
modelo afirmativo conduz a intervenções médicas profundas. O que
outrora seria abordado com cautela terapêutica é hoje
frequentemente recebido como uma verdade autoevidente.
A
prudência clássica cede lugar à urgência moral típica das ideologias
revolucionárias, nas quais questionar é um ato suspeito.
Se o gnóstico antigo se via como vítima de uma catástrofe cósmica, o
transativista contemporâneo vê-se como vítima de uma natureza
injusta e de uma sociedade que não lhe reconhece o direito de alterála. Em ambos os casos, a salvação exige a recriação de si. “Sereis como
deuses”, prometia a Serpente.
E o homem pós-moderno, armado de
bisturi e hormônios, parece disposto a aceitar o convite. Criar a si
próprio, inclusive o próprio corpo, torna-se projeto de emancipação,
convertendo-se a técnica médica em meio de salvação.
Mas a promessa da Serpente é falsa. Sua perversa teogonia produz
vítimas concretas.
Os “destransicionistas” a quem Bartholomew dá
voz são testemunhas da pungente queda na realidade. Muitos relatam
decisões tomadas em contexto de fragilidade emocional, sob validação
imediata de adultos e instituições. Descobrem, tardiamente, que o
corpo não era simples embalagem descartável nem massinha de
modelar. As cicatrizes físicas e psicológicas desmentem a fantasia de
reversibilidade ilimitada, lembrando que a carne não se submete tão
facilmente ao bisturi da retórica.
A perspectiva da qual parte Bartholomew poderia ser caracterizada
como um realismo antropológico. Ele parte da convicção de que a compaixão não pode divorciar-se da verdade sobre o homem. Ajudar
alguém que sofre não pode equivaler a afirmar a sua autopercepção.
Trata-se, em vez disso, de orientá-la à luz de uma ordem que nos
precede.
Essa perspectiva faz toda a diferença e ilumina a convocação
final feita pela autora.
Se o corpo é parte integral da pessoa, então respeitá-lo é respeitar a
pessoa. Intervir nele não é mero ajuste cosmético, mas ato que incide
sobre a própria identidade.
A liberdade, nesse horizonte, não é poder
ilimitado de autocriação, mas capacidade de harmonizar-se com a
verdade do próprio ser.
O que Sacrificial Lambs sugere, em última instância, é que estamos
diante de uma disputa civilizacional.
De um lado, a tradição realista
que reconhece na natureza humana uma estrutura inteligível e
normativa. De outro, o voluntarismo nominalista que dissolve
essências em palavras e faz da autodeclaração critério último de
verdade.
O campo de batalha não é apenas médico, educacional ou
mesmo jurídico. Ele é também filosófico. Quando o Estado passa a
impor pronomes, quando políticas públicas se fundam na
autodeclaração irrestrita, quando o debate científico é constrangido
por ortodoxias ideológicas, o que está em jogo não tem nada a ver com
inclusão, mas sim com a relação entre linguagem e realidade.
Se as
palavras criam o ser, então o poder político torna-se demiúrgico.
Bartholomew não escreve como filósofa, e muito menos teóloga, mas o
seu argumento ressoa como uma advertência metafísica. Ao sacrificar
o corpo no altar do voluntarismo ideológico, arriscamos sacrificar
também a própria ideia de pessoa. E os cordeiros — jovens e frágeis
demais — acabam sendo conduzidos à imolação por uma cultura que
perdeu o senso da Criação.A perspectiva da qual parte Bartholomew poderia ser caracterizada
como um realismo antropológico.
Ele parte da convicção de que a compaixão não pode divorciar-se da verdade sobre o homem. Ajudar
alguém que sofre não pode equivaler a afirmar a sua autopercepção.
Trata-se, em vez disso, de orientá-la à luz de uma ordem que nos
precede. Essa perspectiva faz toda a diferença e ilumina a convocação
final feita pela autora.
Se o corpo é parte integral da pessoa, então respeitá-lo é respeitar a
pessoa. Intervir nele não é mero ajuste cosmético, mas ato que incide
sobre a própria identidade. A liberdade, nesse horizonte, não é poder
ilimitado de autocriação, mas capacidade de harmonizar-se com a
verdade do próprio ser.
O que Sacrificial Lambs sugere, em última instância, é que estamos
diante de uma disputa civilizacional. De um lado, a tradição realista
que reconhece na natureza humana uma estrutura inteligível e
normativa. De outro, o voluntarismo nominalista que dissolve
essências em palavras e faz da autodeclaração critério último de
verdade.
O campo de batalha não é apenas médico, educacional ou
mesmo jurídico. Ele é também filosófico. Quando o Estado passa a
impor pronomes, quando políticas públicas se fundam na
autodeclaração irrestrita, quando o debate científico é constrangido
por ortodoxias ideológicas, o que está em jogo não tem nada a ver com
inclusão, mas sim com a relação entre linguagem e realidade. Se as
palavras criam o ser, então o poder político torna-se demiúrgico.
Bartholomew não escreve como filósofa, e muito menos teóloga, mas o
seu argumento ressoa como uma advertência metafísica. Ao sacrificar
o corpo no altar do voluntarismo ideológico, arriscamos sacrificar
também a própria ideia de pessoa. E os cordeiros — jovens e frágeis
demais — acabam sendo conduzidos à imolação por uma cultura que
perdeu o senso da Criação
Recuperar esse senso significa um retorno à sanidade. Significa
reconhecer que não somos deuses criando a nós mesmos a partir do
nada. Somos criaturas, compostas de corpo e alma, chamadas não a
repudiar nossa natureza, mas a elevá-la. Num tempo em que a
fantasia reivindica estatuto de virtude, talvez o gesto mais subversivo
seja simplesmente afirmar que o real existe — e que nossa liberdade depende de acolhê-lo, não de negá-lo. É essa, no fim, a lição mais
profunda que Sacrificial Lambs nos obriga a reconsiderar
Flávio Gordon - Revista Oeste