
Nota da edição:
O artigo a seguir é a primeira parte do ensaio Repensando Churchill do historiador libertário Ralph Raico. No texto, existe uma crítica contundente que desmistifica Winston Churchill, retratando-o não como um herói, mas como um político oportunista viciado em guerras.
Churchill como um ícone
Quando, dentro de poucos anos, os comentaristas começarem a discursar sobre a grande questão: “Quem foi o Homem do Século?”, há pouca dúvida de que eles chegarão a um consenso praticamente instantâneo. Inevitavelmente, a resposta será: Winston Churchill. De fato, o Professor Harry Jaffa já nos informou que Churchill não foi apenas o Homem do Século XX, mas o Homem de Muitos Séculos1.
De certo modo, Churchill como Homem do Século será apropriado. Este foi o século do estado — do surgimento e do crescimento hipertrofiado do estado assistencial-militar — e Churchill foi, do início ao fim, um Homem do estado, do estado de bem-estar social e do estado de guerra. A guerra, é claro, foi sua paixão ao longo de toda a vida; e, como escreveu um historiador admirador: “Entre suas outras pretensões à fama, Winston Churchill figura como um dos fundadores do estado de bem-estar social”2. Assim, embora Churchill nunca tenha tido um princípio que não tenha, no fim, traído3, isso não significa que não houvesse uma inclinação em suas ações, nenhum viés sistemático. Havia, e esse viés era no sentido de reduzir as barreiras ao poder do estado.
Para obter qualquer compreensão de Churchill, precisamos ir além das imagens heroicas propagadas por mais de meio século. O retrato convencional de Churchill, especialmente de seu papel na Segunda Guerra Mundial, foi, antes de tudo, obra do próprio Churchill, por meio das histórias distorcidas que ele compôs e apressou em publicar assim que a guerra terminou4. Em décadas mais recentes, a lenda de Churchill foi adotada por um establishment internacionalista para o qual ele fornece o símbolo perfeito e uma fonte inesgotável de retórica grandiloquente. Churchill tornou-se, na expressão de Christopher Hitchens, um “totem” do establishment americano, não apenas dos herdeiros do New Deal, mas também do aparato neoconservador — políticos como Newt Gingrich e Dan Quayle, “cavaleiros” corporativos e outros membros dos gabinetes de Reagan e Bush, os editores e escritores do Wall Street Journal, e uma legião de colunistas “conservadores” liderados por William Safire e William Buckley. Churchill foi, como escreve Hitchens, “a ponte humana pela qual se realizou a transição” entre uma América não intervencionista e uma América globalista5. No próximo século, não é impossível que sua aparência de bulldog venha a figurar no logotipo da Nova Ordem Mundial.
Convém reconhecer que, em 1940, Churchill cumpriu seu papel de forma magnífica. Como escreveu o historiador militar, Major-General J.F.C. Fuller, um crítico severo das políticas de guerra de Churchill: “Churchill era um homem moldado no padrão heroico, um berserker sempre pronto para liderar uma missão desesperada ou invadir uma brecha, e na sua melhor performance quando as coisas estavam do pior jeito possível. Sua retórica glamurosa, sua combatividade e sua insistência em aniquilar o inimigo apelavam aos instintos humanos e fizeram dele um líder de guerra excepcional”6. A história superou a si mesma ao escalar Churchill como o adversário no duelo com Hitler. Não importa absolutamente nada que, em seu discurso mais famoso — “lutaremos nas praias(…) lutaremos nos campos e nas ruas” — ele tenha plagiado Clemenceau na época da ofensiva de Ludendorff, que houvesse pouca ameaça real de uma invasão alemã ou que, talvez, não houvesse razão para que o duelo tivesse ocorrido em primeiro lugar. Por alguns meses em 1940, Churchill desempenhou seu papel de maneira magnífica e inesquecível7.
Oportunismo e retórica
Contudo, antes de 1940, a palavra mais frequentemente associada a Churchill era “oportunista”8. Ele mudou de filiação partidária duas vezes — de Conservador para Liberal e depois para Conservador novamente. Sua mudança para os Liberais teria ocorrido supostamente por causa da questão do livre comércio. Mas, em 1930, ele também abandonou o livre comércio, incluindo tarifas sobre alimentos, e proclamou que havia abandonado o “cobdenismo” para sempre9. Como Presidente da Junta Comercial antes da Primeira Guerra Mundial, ele se opôs ao aumento dos armamentos; depois de se tornar Primeiro Lorde do Almirantado em 1911, passou a pressionar por orçamentos cada vez maiores, espalhando rumores alarmistas sobre o crescimento da força da Marinha alemã, assim como fez na década de 1930 a respeito da expansão da Força Aérea alemã10. Ele atacou o socialismo antes e depois da Primeira Guerra Mundial, enquanto durante a guerra promoveu o socialismo de guerra, defendendo a nacionalização das ferrovias e declarando em um discurso: “Toda a nossa nação deve ser organizada, deve ser socializada, se você gostar da palavra”11. O oportunismo de Churchill continuou até o fim. Na eleição de 1945, ele se apropriou brevemente do livro O Caminho da Servidão de Hayek e tentou retratar o Partido Trabalhista como totalitário, quando foi o próprio Churchill quem, em 1943, havia aceitado os planos de Beveridge para o estado de bem-estar social do pós-guerra e a administração keynesiana da economia. Ao longo de toda a sua carreira, sua única regra orientadora foi ascender ao poder e permanecer nele.
Havia dois princípios que por muito tempo pareceram caros ao coração de Churchill. Um deles era o anticomunismo: ele foi um opositor precoce e fervoroso do bolchevismo. Durante anos, ele — muito corretamente — denunciou os “babuínos sanguinários” e os “repugnantes assassinos de Moscou”. Sua profunda admiração inicial por Benito Mussolini estava enraizada em sua percepção astuta do que Mussolini tinha feito (segundo o que pensava Churchill). Em uma Itália à beira de uma revolução leninista, Il Duce teria descoberto a única fórmula capaz de neutralizar o apelo leninista: hiper nacionalismo com uma inclinação social. Churchill elogiou “a luta triunfante do Fascismo contra os apetites e paixões bestiais do leninismo”, afirmando que “isso provou ser o antídoto necessário para o veneno comunista”12.
Contudo, chegou o momento em que Churchill fez as pazes com o comunismo. Em 1941, ele deu apoio incondicional a Stalin, recebeu-o como aliado e o acolheu como amigo. Churchill, assim como Roosevelt, utilizava o apelido afetuoso “Tio Joe”; ainda na conferência de Potsdam, ele declarou repetidamente, a respeito de Stalin: “Eu gosto desse homem”13. Ao suprimir as evidências de que os oficiais poloneses em Katyn haviam sido assassinados pelos soviéticos, ele comentou: “Não adianta ficar vasculhando os túmulos de três anos atrás em Smolensk”14. Obcecado não apenas em derrotar Hitler, mas em destruir a Alemanha, Churchill permaneceu alheio ao perigo de uma inundação soviética da Europa até que fosse tarde demais. O auge de sua fascinação ocorreu na conferência de Teerã, em novembro de 1943, quando Churchill presenteou Stalin com uma espada de cruzado15. Aqueles que se preocupam em definir a palavra “obscenidade” podem desejar refletir sobre esse episódio.
Por fim, havia aquilo que parecia ser o amor duradouro de sua vida, o Império Britânico. Se Churchill representava alguma coisa, era o Império; ele declarou de forma célebre que não havia se tornado Primeiro-Ministro para presidir à sua liquidação. Mas foi precisamente isso o que ele fez, abandonando o Império e todo o restante em nome da vitória total sobre a Alemanha.
Além de seu oportunismo, Churchill era conhecido por sua notável habilidade retórica. Esse talento o ajudou a exercer poder sobre os homens, mas também apontava para uma falha fatal. Ao longo de sua vida, muitos que observaram Churchill de perto notaram um traço peculiar. Em 1917, Lord Esher o descreveu da seguinte maneira:
“Ele tratava grandes temas em linguagem ritmada e rapidamente se tornava prisioneiro de suas próprias frases. Enganava a si mesmo ao acreditar que adotava uma visão ampla, quando sua mente permanecia fixada em um único aspecto relativamente limitado da questão”16.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Robert Menzies, que era o Primeiro-Ministro da Austrália, disse o seguinte sobre Churchill: “Seu verdadeiro ponto fraco é a frase brilhante — tão atraente para sua mente que fatos inconvenientes precisam ceder”17. Outro colaborador escreveu: “Ele é (…) escravo das palavras que sua mente forma sobre as ideias (…). E pode convencer a si mesmo de quase qualquer verdade, desde que ela seja autorizada a iniciar sua trajetória descontrolada por meio de seu maquinário retórico”18.
Mas, embora Winston não tivesse princípios, havia uma constante em sua vida: o amor pela guerra. Isso começou cedo. Quando criança, ele tinha uma enorme coleção de soldados de brinquedo, 1500 ao todo, e brincou com eles por muitos anos depois que a maioria dos meninos já passa a se interessar por outras coisas. Eles eram “todos britânicos”, como ele nos conta, e ele travava batalhas com seu irmão Jack, a quem “só era permitido ter tropas de cor; e não lhes era permitido ter artilharia”19. Ele frequentou Sandhurst, a academia militar, em vez das universidades, e “desde o momento em que Churchill deixou Sandhurst(…) fez todo o possível para entrar em combates, onde quer que houvesse uma guerra acontecendo”20. Durante toda a sua vida, ele se entusiasmou sobretudo — segundo as evidências, só realmente se entusiasmava — com a guerra. Ele amava a guerra como poucos homens modernos já amaram21 — ele até mesmo “amava os estrondos”, como os chamava, e demonstrava grande coragem no meio de combates.
Em 1925, Churchill escreveu: “A história da raça humana é a guerra”22. Isso, no entanto, não é verdade; potencialmente, é desastrosamente falso. Churchill não tinha qualquer compreensão dos fundamentos da filosofia social do liberalismo clássico. Em particular, jamais entendeu que, como explicou Ludwig von Mises, a verdadeira história da raça humana é a expansão da cooperação social e da divisão do trabalho. A paz, não a guerra, é a mãe de todas as coisas23. Para Churchill, os anos sem guerra nada lhe ofereciam além dos “céus monótonos da paz e do lugar-comum”. Este era um homem que, como veremos, desejou mais guerras do que de fato ocorreram.
Quando foi enviado para a Índia e começou a ler avidamente, para compensar o tempo perdido, Churchill ficou profundamente impressionado pelo darwinismo. Ele perdeu qualquer fé religiosa que pudesse ter tido — por meio da leitura de Gibbon, como afirmou — e passou a nutrir uma antipatia particular, por alguma razão, pela Igreja Católica, bem como pelas missões cristãs. Tornou-se, em suas próprias palavras, “um materialista — até a ponta dos dedos”, e defendeu com fervor a visão de mundo segundo a qual a vida humana é uma luta pela existência, cujo resultado é a sobrevivência do mais apto24. Essa filosofia de vida e da história foi expressa por Churchill em seu único romance, Savrola25. Que Churchill era racista é algo evidente, porém seu racismo era mais profundo do que o da maioria de seus contemporâneos26. É curioso como, com sua visão marcadamente darwinista, sua elevação da guerra ao lugar central na história humana, e seu racismo, bem como sua fixação em “grandes líderes”, a visão de mundo de Churchill se assemelhava à de seu antagonista, Hitler.
Quando Churchill não estava diretamente envolvido em uma guerra, estava escrevendo sobre ela. Desde cedo construiu sua reputação como correspondente de guerra, na campanha de Kitchener no Sudão e na Guerra dos Bôeres. Em dezembro de 1900, foi oferecido um jantar no Waldorf-Astoria em homenagem ao jovem jornalista, recém-retornado de suas amplamente divulgadas aventuras na África do Sul. Mark Twain, que o apresentou, aparentemente já havia percebido quem era Churchill. Em um breve discurso satírico, Twain sugeriu com ironia que, tendo um pai inglês e uma mãe americana, Churchill era o representante perfeito da hipocrisia anglo-americana27.
Ralph Raico - Mises Brasil
