sábado, 18 de abril de 2026

A narcocultura como empoderamento feminino: a imaginação perversa dos teledramaturgos da Globo, escreve Flávio Gordon

 Para a mentalidade dos produtores globais, a traficante empoderada é, talvez, o ápice da ocupação de espaço por parte das mulheres'




A imaginação “progressista” brasileira acaba de atingir mais um de seus pequenos cumes de delírio. Depois de convencer gerações de jovens mulheres a aceitar o mito feminista — a tese filomarxista segundo a qual a história de todas as sociedades é a história da luta de sexos, estando as mulheres na posição de oprimido e os homens, na de opressor —, a TV Globo resolveu complementar a lavagem cerebral com uma sugestão fascinante: a invenção da traficante feminista. 

Sim, é real. Por meio da personagem Lucélia, da novela do horário nobre, a teledramaturgia da Globo decidiu dar mais esse passo lógico revolucionário, veiculando para milhões de meninas e jovens mulheres a mensagem de que comandar uma boca de fumo pode ser, quem diria, um gesto de emancipação.

A tese de fundo é conhecida e já suficientemente gasta, sendo uma adaptação doméstica do velho esquema marxista, agora aplicada ao sexo em vez da classe. Onde antes havia proletários e burgueses, temos agora mulheres estruturalmente subjugadas e homens estruturalmente opressores. Pouco importa a realidade concreta, a diversidade de experiências ou os fatos elementares da vida social: o que vale é o esquema. E como todo esquema ideológico, ele exige ilustrações dramáticas — mesmo que fabricadas à revelia do mundo real. 

Para a mentalidade dos produtores globais, a traficante empoderada é, talvez, o ápice da ocupação de espaço por parte das mulheres — uma nova onda de sufragismo. É que, ao lado do feminismo, a Globo exalta também a narcocultura — a estética e a simbólica do tráfico como expressão gráfica de “resistência” dos pobres e negros contra as elites ricas e brancas.


A narcocultura na Globo 

Entre closes lacrimosos e trilhas cuidadosamente melancólicas, a Globo cumpre seu apostolado sentimental, envolvendo a estética do narcotráfico numa aura quase redentora. O fuzil vira adereço cênico, a granada é um detalhe inconveniente, e o drone lança-bombas jamais aparece. Em compensação, a “juventude interrompida” ganha minutos generosos de tela, enquanto a palavra “chacina” — sempre aplicada aos criminosos abatidos (que a Globo trata por “o povo pobre e negro”) — é distribuída com a mesma prodigalidade com que se omite o contexto. 

O resultado é uma operação de maquiagem moral: o criminoso armado até os dentes torna-se personagem trágico; a organização que domina territórios pela força é reembalada como espaço de pertencimento; e a mulher que ingressa nesse universo é promovida à condição de heroína de si mesma. Trata-se de um caso quase didático de hibristofilia — o fascínio patológico (e frequentemente erotizado) por figuras violentas e criminosas, reinterpretadas como heroicas contra o poder opressor. Os idealizadores da Globo são quase todos filhos de Hélio Oiticica e de seu lema “Seja marginal, seja herói” — concebido em apoio ao bandido “Cara de Cavalo”, um assaltante, extorsor e matador de policiais nos anos 1960. 

O problema é que, como sempre, a realidade insiste em não colaborar com o roteiro global. Nos morros efetivamente dominados pelo narcotráfico, mulheres associadas ao crime raramente encontram empoderamento. O que elas encontram, isso sim, é humilhação, coerção e, não raro, a morte. A romantização desse universo, portanto, não é apenas intelectualmente desonesta — é moralmente perversa, sobretudo quando apresentada como modelo implícito a meninas e jovens mulheres. 

Mas a ignomínia, por óbvio, não está na ficção em si mesma, mas na persistência dessa pedagogia sentimental que insiste em confundir barbárie com libertação. Ao transformar a boca de fumo em alegoria de emancipação feminina, a Globo não apenas distorce a realidade: ela contribui para anestesiar a consciência moral de um público já suficientemente exposto às taras ideológicas de uma intelligentsia alienada e irresponsável. Como tem acontecido há pelo menos duas décadas, as novelas globais deixaram de ser entretenimento para se converterem em instrumento de pedagogia política a serviço de um projeto niilista de engenharia social, cujas consequências danosas não param de se fazer sentir. 


Flávio Gordon - Revista Oeste

Adalberto Piotto e o ódio do PT a quem quer prosperar pelo trabalho

 Endividada e sem perspectiva, a classe média está sendo empurrada à pobreza



Foto: Shutterstock


Em que lugar do mundo uma família de quatro pessoas com renda mensal de pouco mais de R$ 2,5 mil pode ser chamada de classe média? Pergunte a quem está dentro dessa casa se essas pessoas se sentem classe média. A resposta negativa será definitiva, sem que sejam necessárias demonstrações de estudos econômicos ou comparações acadêmicas. Economia é, ao contrário do que dizem, algo muito simples. Para famílias, trata-se de uma mistura bem equilibrada de sensação de conforto com estabilidade financeira, adicionada de boas doses de perspectiva de futuro. Quem conseguiria ter tudo isso com pouco mais de R$ 2,5 mil de renda familiar? 


 Foto: Shutterstock


Ninguém em nenhum lugar do país. Mesmo que o valor seja majorado para R$ 3,5 mil — como sugerem pesquisas mais recentes sobre a base para ser considerado classe média no Brasil — ou mesmo com o dobro, não dá. Mas acredite que essa é classificação brasileira para o patamar inicial de renda do que se chama de “nova classe média”, essa narrativa petista que ousou um dia convencer a todos de que estava promovendo ascensão social. Não estava. A maioria já voltou a ser pobre. 

A propaganda petista é uma afronta à inteligência do brasileiro que sabe, de um jeito ou de outro, que, quando se está todo mês com o orçamento apertado e vendo as dívidas aumentarem, é da escala da pobreza que se trata. E a prioridade é sempre a sobrevivência, jamais planos futuros. Olhando para o Brasil real, é o que a maioria absoluta das famílias nessa faixa de renda está fazendo: sobrevivendo. Entre os ricos, o objetivo está na outra ponta: aumento exponencial de capital. No meio, está a atual classe média brasileira, achatada pelas políticas dos governos de Lula. Sozinha, abandonada e diminuída em seu poder de compra, perdeu o direito de sonhar. 

Quando Marilena Chauí, uma das ideólogas do PT, disse que odiava a classe média, ninguém imaginou que seria com tamanho afinco. Na cabeça atormentada da marxista que odeia o modelo darwiniano de evolução pessoal com aumento progressivo da autonomia física e intelectual das pessoas, “a classe média é um atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. […] A classe média é uma abominação política, porque é fascista; é uma abominação ética, porque é violenta; e é uma abominação cognitiva, porque é ignorante.” No discurso, feito em 2013 num daqueles convescotes que só vão os petistas, Chauí foi ovacionada pela claque. Lula presente nunca se opôs ao discurso. Sorriu e aplaudiu. A tese seria repetida por ela numa entrevista à Folha de S.Paulo, em 2025.


Marilena Chauí, escritora brasileira e militante de esquerda - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Uma pergunta que Marilena Chauí, os abobados que a aplaudiram e o próprio Lula deveriam responder é que mal há em estudar, formar-se bem profissionalmente e trabalhar, subir na carreira, aumentar a renda e ganhar autonomia, inclusive política? A própria fez questão de explicar o motivo de seu ódio visceral. Ao dizer que se recusava a aceitar que trabalhadores, após anos de luta, tivessem se tornado “classe média”, reforçou que o ódio vinha de suas convicções teóricas e políticas da visão marxista clássica, na qual a “classe média seria o cimento ideológico” que sustenta o capitalismo. Imagina o quanto cada trabalhador que levanta todo dia cedo para trabalhar está preocupado com a bile da filósofa, uma funcionária de universidade pública, sempre com os salários em dia e de valores muito acima da média. 

Além do que, a USP, de onde Chauí é professora-emérita, é financiada pelo ICMS, arrecadado justamente pela circulação de mercadorias e serviços. Em São Paulo, as universidades estaduais recebem um percentual fixo da arrecadação desse imposto. Dizer a ela que quanto mais a economia funciona, mais o trabalhador ascende e melhora de vida consumindo mais, isso tudo aumenta o repasse às universidades, seria pedir que fizesse uma conta simples de proporcionalidade. Talvez isso seja muito complicado para quem fala em “cimento ideológico” e não sabe o que é encher uma laje, seja de um grande edifício comercial ou da própria casa do trabalhador na periferia, que quer viver e morar melhor.

Tentar explicar essa gororoba pretensamente intelectual a um casal que trabalha duro para permitir que os filhos possam estudar e se inserirem no competitivo e próspero mercado de trabalho moderno, guiado por inteligência artificial e inovação de alto nível, é ainda mais difícil, provavelmente impossível. Porque o mofo ideológico não pensa. As ideias mofadas da esquerda brasileira só crescem em ambientes úmidos, escuros e com pouca ventilação de novas ideias e digerem tudo o que está ao redor. Veja qualquer país que saiu de governos de esquerda. Sobra só terra arrasada. Quem quer progredir, quer a luz do sol, quer oportunidades e menos Estado e partidos políticos dizendo-lhe o que fazer. Na promulgação da Constituição de 1988, que o PT de Lula não assinou, o célebre e histórico deputado Ulysses Guimarães disse que tinha “ódio e nojo à ditadura”. Como os brasileiros de hoje. 

Os petistas, associados à ditadura do STF de hoje, preferem odiar a classe média.  

Mas voltemos aos números que assolam a classe média brasileira. O tripé sensação de conforto sustentável, estabilidade financeira e perspectiva depende de escola, trabalho e renda. O que os teóricos chamam de “mobilidade social via educação”, o motor da classe média em qualquer lugar civilizado do planeta, foi destruído pela escolha do atual governo, em todas as suas gestões, de priorizar o que ele chama de redistribuição de riqueza via transferência de renda. Seria um equívoco de política econômica, não fosse aparentemente intencional como política de partido. Numa das pontas, os governos Lula acabaram com a obrigatoriedade de manter as crianças nas escolas para que as famílias recebessem o Bolsa Família, desfigurando o programa e eliminando sua principal porta de saída. O que era para ser transformação, acabou em mero assistencialismo. 

De outro, os muito ricos, como o próprio Lula já fez questão de enfatizar, nunca ganharam tanto dinheiro como durante a sua gestão. Entre afagar os mais pobres com programas sociais que os mantêm na pobreza e reclamar da falta de carinho das elites financeiras com o petismo, Lula esfolou a classe média, que deveria ser aumentada. Mas não pela narrativa política e a precarização da média da renda para inserir mais famílias. Como R$ 3 mil de renda familiar não é nova classe média coisa nenhuma, deveria ter-se concentrado em ações que aumentassem a real classe média. Fez o contrário.




Foto: Reprodução/Poder360


Para ficarmos só na gestão atual, o governo mirou no aumento de impostos para bancar uma máquina pública anabolizada pelo inchaço de contratação de “companheiros” e em gastos sem eficácia. A ineficiência cobrou a fatura: as estatais voltaram a registrar prejuízos bilionários e o governo coleciona três anos de rombos fiscais. Até agora, porque 2026 ainda não terminou. A combinação explosiva de carga tributária elevada para sustentar a irresponsabilidade fiscal e incompetência administrativa, marcas do petismo, gerou inflação e aumento de juros com consequente encarecimento do crédito às famílias e empresas. 

Quem trabalha, produz e paga impostos que sustentam o governo — essa gente “odiosa” da classe média — foi sendo cada vez mais asfixiada. O ódio realmente não é um bom conselheiro, tampouco inteligente. Fato é que o aumento do IOF, lá em 2023, uma das primeiras medidas para tungar o cidadão, fez aumentar até o custo dos empréstimos no banco. Na sua sanha de aumentar impostos, queria taxar fundos que financiam a construção civil e o agro, dois dos setores que ou geram muito emprego ou garantem o crescimento da economia. Pressionado, o governo recuou, mas o que era para ser um imposto regulatório tornou-se arrecadatório. Assim como praticamente todo o conjunto de medidas anunciadas nos três primeiros anos do terceiro mandato de Lula. 

Em quase trinta vezes, novos impostos foram criados ou se elevaram alíquotas já existentes. Resultado: carga tributária nas alturas e recorde de 32,3% do PIB. Quando isso é somado à insegurança jurídica do consórcio de Lula com o STF e à volta dos escândalos políticos e de corrupção, como o roubo dos aposentados e o caso do Banco Master, com digitais petistas visíveis que colocam o governo no modo desespero para se salvar — mesmo que exploda o país — o brasileiro médio, mais pobre ou que investe, tira o pé para se proteger do déficit fiscal, cognitivo e de moralidade. E fica esperando a hora de meter o pé neste governo e recomeçar uma vida nova após a eleição de outubro. 

O modelo de achatar a classe média real é insensato porque beira a estupidez. Vai contra tudo o que deu certo no mundo. Os dois modelos mais sofisticados de melhora de qualidade de vida de bem-estar social vêm da Europa ou dos Estados Unidos. São diferentes, mas têm conseguido produzir classe média, e sustentável, na maioria da população. Na Europa, decidiu-se por uma economia regulada e com carga tributária elevada que faz do Estado o provedor de serviços públicos de excelência, como educação, saúde e transporte, sem avançar sobre garantias e direitos individuais, garantindo liberdade e autonomia de escolha do cidadão.

No capitalismo mais direto dos americanos, o modelo privilegia a redução do Estado na vida pública, liberdade econômica para empreender e um ambiente de negócios que oferta crédito barato e acessível que impulsiona a economia. Em ambos os modelos, o welfare state (“Estado de bem-estar social”) é muito superior à média mundial. Cada modelo foi levado a sério e com baixo nível de corrupção. O resultado está na qualidade de vida das pessoas e na imigração crescente de todos os lugares do mundo para a Europa e os EUA. O instinto de sobrevivência da espécie não fez ninguém se lançar ao mar rumo a Cuba ou tentar pular o muro para a Alemanha Oriental. Nem ir hoje à Rússia, à Coreia do Norte ou aos países africanos empobrecidos por ditaduras de modelo marxista. O movimento é o oposto. 

No Brasil, historicamente tentamos ter o melhor dos dois modelos. Não conseguimos nem um nem outro em sua plenitude. Um lampejo do híbrido nacional tropicalizado, que começava a se mostrar uma terceira via viável, foi experimentado no governo de Jair Bolsonaro. Sob a lógica econômica do ministro Paulo Guedes, houve redução da máquina pública e do seu custo, mas com poder público presente, como na ajuda a empresas e pessoas durante a pandemia. A promoção da liberdade econômica e a garantia da liberdade de expressão se juntaram para criar um ambiente favorável aos negócios e à histórica prosperidade do capitalismo ocidental. Sem abandonar a assistência social, criou oportunidades e abriu o mercado. O Brasil cresceu 2,9% em 2022, apesar da pandemia e da guerra na Ucrânia, sendo exemplo de recuperação econômica no mundo. 

Com a volta de Lula, em 2023, tudo se perdeu. Estavam de volta a concentração estatal, a ineficiência governamental, o assistencialismo sem porta de saída e um governo caro que gasta mais do que arrecada. O retrocesso econômico e institucional foi brutal. O consórcio de poder com o Supremo Tribunal Federal, de quem Lula admite não poder prescindir para conseguir governar, é uma afronta à Constituição e à separação dos poderes. A mando de ministros do STF e com os presidentes do Congresso no cabresto de ameaças do judiciário ou comprados com emendas e cargos, Lula 3 afasta definitivamente o Brasil de qualquer saída institucionalmente aceita.

 Por fim, na propaganda oficial, o governo dirá que a classe média aumentou (61% da população), que a geração de emprego cresceu com a menor taxa de desemprego de anos, que mais jovens se formaram na universidade, que mais pessoas estão assistidas por programas sociais e que o país está crescendo.


Dias Toffoli, Davi Alcolumbre, Lula, Hugo Motta e Alexandre de Moraes - Foto: Montagem Revista Oeste/Ricardo Stuckert/Fotos Públicas/STF/Agência Brasil 

Em termos práticos e realistas, a história é bem diferente. Quase dois terços da população serem chamados de classe média com renda de R$ 3 mil mensais não fecha a conta. O endividamento familiar batendo recordes é prova inconteste disso. Oito em cada dez famílias estão com dívidas, segundo a Confederação Nacional do Comércio (leia reportagem nesta edição). Destas, 30% confessaram estar inadimplentes com comprometimento da renda acima do equilíbrio entre renda e despesa.

Na parte de baixo, uma multidão é mantida sem expectativa de sair de lá. Mais de 18 milhões de famílias ainda dependem do Bolsa Família, o principal programa social do governo, o que representa em torno de 50 milhões de pessoas que dependem de um cheque do governo não para viver e prosperar, mas apenas para sobreviver. Formação e crescimento consistente de classe média não combinam com aumento de distribuição de benefícios sociais. No cenário econômico, o nome disso é manutenção da pobreza. Politicamente, é cabresto eleitoral por dependência direta do governo de plantão. No Brasil, a esquerda do PT. É um nó. Porque, de outro lado, empresas reclamam de falta de mão de obra formal porque beneficiários não querem perder o benefício do governo e se negam a ter a carteira assinada. Não se qualificam, ficam obsoletos e a informalidade cresce. 

As escolas não entregam alunos preparados, entregam formados sem preparo para o mercado. Neste caso, maior nível de escolarização não significa nada de produtivo. A economia patina, a renda não cresce e a produtividade brasileira empaca em US$ 21 por hora trabalhada. Nos Estados Unidos, é de quase US$ 81. No Japão, US$ 52. Mesmo em comparação com países vizinhos, nossa produtividade é menor. Uruguai, US$ 38; Chile e Argentina registram US$ 34 por hora trabalhada. A matemática não tem cor nenhuma, só expõe a realidade. Nua e crua. 

A verdade é que não existe classe média sem boa educação. Assim como não existe aumento da produtividade e renda sem uma classe média bem formada. E sem classe média, só há os extremos da pobreza e dos muitos ricos. Os dois grupos com quem Lula e o PT parecem gostar de gastar o dinheiro que a classe média gera, a que eles odeiam e que corre o sério risco de desaparecer. Não existe futuro em um país sem classe média. 



Sala de aula vazia de Escola Estadual na cidade de São Paulo - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil 


Adalberto Piotto - Revista Oeste

J.K. Rowling e a magia de não se dobrar aos autoritários, por Pedro Henrique Alves

 'A escritora não abdicou da capacidade de pensar por si e de renegar a massificação política



Quem vem do mundo dos livros, seja como um profissional, entusiasta, influencer ou mero curioso, em algum momento dos últimos anos escutou algo sobre J.K. Rowling ser transfóbica. A controvérsia envolvendo a autora de Harry Potter teve início entre 2019 e 2020, quando a escritora manifestou-se publicamente sobre a “identidade de gênero” em suas redes sociais e em um ensaio mais detalhado denominado: “Terf Wars: Why I Stand Up for Women’s SexBased Rights” (“Guerras Terf: por que eu defendo os direitos das mulheres baseados no sexo”). Mas tudo começou mesmo quando Rowling ironizou um artigo que usava a expressão “pessoas que menstruam”. 

Ela tuitou: “Tenho certeza de que costumava haver uma palavra para essas pessoas. Alguém me ajude? Wumben? Wimpund? Woomud?” (referindo-se a women/mulheres). Desde então, ela vem se posicionando contra os banheiros neutros, a ditadura da opinião única e a subjugação do caráter biológico dos sexos nos esportes.

Os críticos consideraram suas opiniões como “excludentes”, desencadeando forte reação de ativistas, leitores e parte do elenco associado à franquia Harry Potter. Daí em diante, o debate se consolidou como um dos casos mais emblemáticos do enfrentamento entre ativismo identitário e os defensores da liberdade de expressão no Reino Unido. Rowling vem mantendo heroicamente suas posições e passou a ser apoiada por setores que defendem uma resistência clara ou, no mínimo, uma postura cautelosa nas mudanças legais e conceituais sobre identidades de gênero. 

Enquanto isso, seus opositores seguem denunciando suas falas como prejudiciais às pessoas trans, articulando cancelamentos e queimas de reputação pública da autora.

Terminada a contextualização, vamos à análise: Rowling assumiu publicamente uma vertente à esquerda da crítica ao “progressismo” identitarista europeu; sendo ela mesma ligada à esquerda britânica, doadora do Partido Trabalhista e opositora cultural da direita na Europa, não obstante, não engoliu o identitarismo e seus autoritarismos retóricos. Sua coragem em opor-se de dentro da esquerda à ideologia de gênero machucou, principalmente, aquelas pessoas ligadas à literatura e à produção cinematográfica europeia e norte-americana. 

Afinal, sua obra mais famosa, a já mencionada saga infantojuvenil de Harry Potter, sempre foi sistematicamente usada como metáfora de crítica social ao status quo conservador. Fato é que ninguém esperava que viesse dela uma oposição às novas pautas da esquerda europeia, isto é, ninguém previu nela um dissenso “herético” ao então unívoco “ativismo trans” do século 21. 


Rowling e o não-conformismo ideológico 

Ao que parece, Rowling nasceu com o germe do não-conformismo ideológico, e ainda que uma confessa partidária de pautas históricas da esquerda, ela parece se ajustar a uma classe da esquerda que, apesar de abraçar o Estado de bem-estar social, o feminismo clássico e o igualitarismo econômico, não abdicou da capacidade de pensar por si e de renegar a massificação política. Se é uma socialista confessa — como parece ser —, ela o é por liberdade de consciência e escolha livre, não por empuxo militante. 18/0

É bem verdade que, tal oposição de dentro, não é mais tão rara quanto parece na esquerda europeia; teóricos como Mark Fisher, Adolph Reed Jr., Asad Haider e — como sempre menciono — o brasileiro Antonio Risério, não se dobraram ao neoesquerdismo de identidade e gastaram boa parte de suas críticas ao autoritarismo dessa vertente. No meio literário, por sua via, Rowling junta-se a outros autores contemporâneos que criticaram o identitarismo publicamente, tal como Lionel Shriver, Martim Amis, Salman Rushdie, Michel Houellebecq e até mesmo Margaret Atwood — não sendo todos assumidamente de esquerda, é verdade, mas todos reticentes com o identitarismo.

Quando passeamos pelo TikTok — de longe a rede social que mais reúne leitores hoje —, não é nada difícil encontrarmos influencers literários que pedem, sem nenhum pudor, que cancelem e expulsem Rowling e suas obras das estantes privadas, de livrarias e bibliotecas; um desses baluartes da defesa dos trans pedia para que os antigos fãs de Harry Potter “se livrassem dos livros” como forma de asco à autora. Em pleno século 21, voltamos a fazer piras de livros. 

Como disse outro simpatizante do marxismo estético, mas também outro sincero pensador, George Steiner, em Os Dissidentes do livro: “Os déspotas não amam e, a fortiori, não lançam desafios e nem aceitam contestações. Tampouco os livros”. 


Imaturidade no debate

Tal postura, para além de mostrar uma imaturidade patente no debate de ideias, resume oposição de ideias a um crime, confunde a expressão literária com expressão pessoal de autores, mas o pior de tudo é que normalizam a postura tirânica da censura e do apagamento de quem discorde de uma agenda. Se você é um entusiasta da história do século 20, sabe muito bem que tal ação é o próprio reflexo da mentalidade totalitária que permeou o século passado. 

Qual a melhor forma de vencer uma opinião contrária? Ter argumentos melhores? Sim, diria Sócrates e alguns bons pensadores que o Ocidente já produziu. Não obstante, afirmam os identitaristas neosoviéticos: a melhor forma de se opor a uma ideia é destruir o opositor socialmente, relegá-lo ao lixão da história, impossibilitar seu trabalho, achincalhá-lo nas ruas, queimar suas obras, massacrálo no gulag das redes sociais. 


“Eu respeito, profundamente, quem não se inclina ao autoritarismo, seja essa pessoa de esquerda, seja de direita” 


Nunca me interessei pelas obras de J.K. Rowling, nunca li Harry Potter nem suas outras obras, mas como tributo à sua coragem e liberdade de pensamento, este ano a lerei e, se gostar, a promoverei. Não elogio obras literárias por opiniões políticas de seus autores; o mundo dos livros está cheio de bons e maus escritores que, em suas vidas privadas, seguem à direita ou à esquerda política. Esse não é meu termômetro. Mas se há algo de que me seduz, algo do qual sou admirador contumaz, é da coragem de não se dobrar ante turbas de militantes. Steiner, no mesmo ensaio citado acima, disse também: “Com raras exceções, a chantagem do ‘politicamente correto’ suscitou pouca resistência, pouca dignitas entre os universitários.

Não foi somente com os universitários, mas também com os cineastas, jornalistas, professores e escritores. J.K. Rowling parece manter essa coragem de não se envergar, de resistir, de manter uma mente independente e não abdicar de seu dever de se opor àquilo que fere sua consciência. E isso eu reverencio de forma sincera, tal como vi em George Orwell, Albert Camus, Alexander Soljenítsin, Vasily Grossman e Czesław Miłosz, e agora também em Rowling. Eu respeito, profundamente, quem não se inclina ao autoritarismo, seja essa pessoa de esquerda, seja de direita. 

Revista Oeste - Reprodução

Em São Paulo, Flávio Bolsonaro tem 48,1% no 2º turno; Lula, 40,3%

Senador também aparece em vantagem em um eventual cenário de primeiro turno


Presidente Lula (PT) disputa reeleição contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). (Fotos: Ricardo Stuckert/PR e Facebook)


Levantamento divulgado neste sábado pelo Paraná Pesquisas mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com 48,1% das intenções de voto em um eventual segundo turno presidencial, à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que soma 40,3%.

No levantamento, 7,2% dos entrevistados afirmam que votariam em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos, enquanto 4,3% disseram não saber ou preferiram não opinar.

A mesma pesquisa também apresentou um cenário de primeiro turno em que há empate técnico entre os dois: Flávio Bolsonaro registra 39,3% das intenções de voto, contra 36% de Lula.

Metodologia

A Paraná Pesquisas entrevistou 1.600 eleitores paulistas, entre os dias 11 e 14 de abril, por meio de entrevista presencial. A margem de erro do levantamento é de 2,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.

O levantamento foi realizado com recursos do próprio instituto e está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o protocolo BR-08453/2026.

Rodrigo Vilela - Diário do Poder

TCU vê farra de autoridades em jatinhos da FAB, mas não manda ressarcir despesas

 

Sede do TCU em Brasília. (Foto: Divulgação/Flickr TCU).


O Tribunal de Contas da União (TCU), que deveria ser a última trincheira de defesa do patrimônio público, escolheu mais uma vez “passar pano” para uso abusivo de jatos da Força Aérea Brasileira por autoridades dos Três Poderes. Foram mapeados 7.491 voos entre 2020 e 2024, ao custo de R$285 milhões. Em vez de mandar esses folgados ressarcirem o gasto, o TCU transferiu para o futuro a tarefa de coibir abusos, pedindo ao governo Lula (PT) um “plano” de “novas regras”. Como se o problema fosse apenas regulatório e não de quem dilapidou os cofres públicos.

Dever esquecido

Trocando em miúdos, o TCU flagra o “uber aéreo”, mas não faz o que lhe cabe: responsabilizar quem errou e recuperar o que foi desperdiçado.

Sem satisfações

A taxa média de ocupação dos voos foi de apenas 55% nesse período e 70% sem identificação adequada de passageiros, como manda a lei.

Jatinho ‘particular’

Tratando FAB como extensão de seu conforto privado, autoridades fizeram 111 voos solitários. Ou não queriam a companhia identificada.

TCU, um desperdício

O TCU estima que aos menos R$36 milhões poderiam ter sido poupados somente em sete meses de 2024. Mas não manda ressarcir os valores.

Diário do Poder

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Morre Oscar Schmidt, o 'Mão Santa' do basquete mundial

 Maior cestinha da história dos Jogos Olímpicos falece, aos 68 anos, em São Paulo


Astro de basquete mundial, Oscar disputou cinco Olimpíadas consecutivas entre 1980 e 1996 - Foto: Divulgação 


O esporte mundial perdeu nesta sexta-feira, 17, um de seus maiores ícones. Oscar Daniel Bezerra Schmidt morreu, aos 68 anos, em São Paulo, depois de ter sido internado às pressas por um mal-estar. O exjogador, que se recuperava de uma cirurgia recente, lutava contra as sequelas de um câncer no cérebro diagnosticado em 2011.

Nascido em Natal (RN), em 16 de fevereiro de 1958, Oscar era filho de militar e começou no futebol. A migração para o basquete ocorreu apenas aos 13 anos, depois de se mudar para Brasília. O talento precoce o levou ao Palmeiras, aos 16 anos, e, em 1977, ele já integrava a Seleção Brasileira principal, em que conquistou o título sul-americano. 


Carreira e recordes 

A trajetória de Oscar decolou internacionalmente em 1979, com o título mundial interclubes pelo Sírio. O desempenho chamou atenção do mercado europeu, levando o ala para a Itália, onde jogou por 11 temporadas e anotou quase 14 mil pontos. Na Espanha, sua técnica encantou a ponto de inspirar o livo 'Jugar como Oscar'. 

O “Mão Santa” encerrou a carreira com 49.737 pontos, marca que o manteve no topo do ranking mundial por décadas. Em 2024, o posto de maior cestinha da história do basquete (contando jogos oficiais e amistosos de luxo) passou a ser de LeBron James, que superou a barreira dos 50 mil pontos no ano passado. Oscar, no entanto, segue como o maior recordista isolado da história das Olimpíadas, com 1.093 pontos.

O momento mais emblemático de sua trajetória foi a recusa ao New Jersey Nets, em 1984. Oscar abriu mão da liga norte-americana, a NBA, para manter o status de amador, exigência da época para continuar defendendo a Seleção Brasileira. A escolha permitiu que ele liderasse o Brasil na histórica vitória sobre os Estados Unidos no Pan-Americano de 1987, em Indianápolis. 

Oscar disputou cinco Olimpíadas consecutivas de 1980 a 1996. Em Seul 1988, atingiu o ápice, ao marcar 338 pontos em uma única edição — incluindo o recorde de 55 pontos em uma só partida, contra a Espanha. Depois de sua aposentadoria, em 2003, ele se reinventou como palestrante motivacional, focando profissionais de alto rendimento.

O ídolo enfrentou o câncer com a mesma disciplina que mantinha nos treinos. Em 2022, chegou a anunciar que havia vencido a doença, mas sua saúde apresentava fragilidades recentes. O ex-atleta não pôde comparecer à sua homenagem no Hall da Fama do Comitê Olímpico Brasileiro na semana passada por ordens médicas.

“Estar aqui para receber essa homenagem é o último capítulo de uma carreira cheia de vitórias”, disse seu filho, Felipe Schmidt, ao aceitar o reconhecimento em nome do pai. Em 2013, Oscar foi indicado ao Naismith Memorial Basketball Hall of Fame, mesmo sem nunca jogar na NBA. Seu legado no basquete permanece vivo.

Médica denuncia compra de drogas na Fiocruz com cartão corporativo

 Fiocruz resolve investigar quem faz a denúncia, em processo disciplinar


Fundação Oswaldo Cruz - Foto: Peter Ilicciev / Fiocruz


A médica Isabel Braga publicou um vídeo nas redes sociais em que faz denúncias sobre supostas irregularidades envolvendo a Fundação Oswaldo Cruz. Na gravação, a médica afirma que haveria circulação de drogas dentro da instituição.

“Dentro da Fiocruz circula um traficante que vende drogas”, declarou.

Ela também levanta suspeitas sobre o uso de recursos públicos.

“Cartão corporativo da primatologia? Dizem que é usado para comprar cocaína”, diz.

Em outro momento, a médica menciona possíveis irregularidades envolvendo funcionários.

“Funcionários especializados […] usam no tráfico”, afirma.

Ainda no vídeo, questiona a atuação das autoridades.

“A galera está comprando cocaína no cartão corporativo. Cadê a polícia?”.

A autora também sugere que pode enfrentar consequências judiciais por suas declarações.

“Já vai ser o terceiro processo em um mês […] podem abrir 35”, diz.

Veja o vídeo na íntegra:


Diário do Poder entrou em contato com a Fiocruz sobre o caso.

A mesma repudiou as alegações, classificadas como 

“desinformação”, e informou que a médica já responde 

processo administrativo após denúncia falsa feita em 

fevereiro sobre suposta contaminação por urânio no 

Rio de Janeiro.


Autoridade Nacional de Segurança Nuclear também 

negou as afirmações à época.