sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

'O capitalismo funciona a favor dos consumidores, e não de empresários e assalariados', por Anthony P. Geller

 E isso é algo que poucos entendem



Se você entra em uma loja das Casas Bahia para comprar uma geladeira ou um fogão, você não tem de pagar o preço exato que está sendo ofertado.

O mesmo é válido quando você adentra uma concessionária da Volkswagen. Ou quando você entra em uma loja de roupas. Você não tem de pagar o preço listado pelo carro ou pela roupa que você deseja.

Aparentemente poucos sabem disso, mas o vendedor está sempre disposto a negociar. E o motivo pelo qual ele está disposto a negociar é este: você tem o dinheiro. E ele tem o produto (geladeira, fogão, carro, roupa etc.) do qual ele está disposto a se desfazer em troca do seu dinheiro.

É muito mais fácil para você comprar qualquer coisa que você queira com o seu dinheiro do que é para o vendedor convencer você a dar para ele o seu dinheiro em troca de um produto específico que ele está vendendo.

Você tem opções. Já ele precisa do seu dinheiro.

O consumidor está no comando de qualquer transação comercial. Se ele souber barganhar, ele possui uma grande vantagem em relação ao vendedor.

A esmagadora maioria dos vendedores, porém, contrabalança essa desvantagem. E por um simples motivo: eles sabem como lidar com compradores que não entendem o poder do dinheiro. E são poucos os consumidores que entendem o poder que possuem.

Vendedores experientes aprendem cedo a como negociar. E eles passam toda a sua vida negociando. Eles ganham a vida assim. Já compradores de carros, geladeiras e fogões, por exemplo, só aparecem a cada cinco anos ou dez anos (dependendo do produto). Eles não são barganhadores habilidosos. A maioria, aliás, se sente envergonhada pela simples ideia de ter de negociar e pechinchar. 

O crediário sempre revela o desconhecimento

Um bom exemplo de desconhecimento das técnicas básicas da barganha são as pessoas que compram no crediário. 

Grandes lojas de eletrodomésticos, grandes lojas de moda e fabricantes de automóveis lucram mais vendendo crédito do que vendendo produtos. É por isso que a maioria possui o cartão próprio da loja, a maioria estimula que você compre parcelado ou financiado no lugar de comprar à vista. Os empresários sabem que podem ganhar duas vezes. Eles podem ganhar vendendo o produto e emprestando o dinheiro para que você compre.

Quando você compra qualquer coisa através do crediário de uma loja ou de financiamentos, você está pagando duas vezes. 

As pessoas ficam empolgadas quando vem um "12x sem juros no cartão". Ora, não existe isso. Nenhum vendedor parcela um produto em 12 vezes, ainda mais em um país de inflação historicamente alta como o Brasil. Neste valor anunciado — que é o mesmo à vista — já estão embutidos os juros. 

O que o comerciante está fazendo é justamente vendendo uma dívida para você. Há uma financeira por trás de tudo: você paga no crédito, o comerciante vende o seu crédito para a financeira, e a financeira cobra de você. O comerciante recebe todo o dinheiro até o fim do mês, e a financeira coleta os juros de você.

Por isso, em situações assim, sempre é possível barganhar e pedir pelo menos 10% de desconto à vista (vai depender dos juros vigentes no país). De início, haverá resistência do vendedor (justamente por causa da financeira). Mas, se você ameaçar ir para a loja concorrente, imediatamente você consegue.

Lembre-se: o vendedor precisa do seu dinheiro. Você tem o que ele quer.

Mas são poucos os consumidores que sabem disso.

Em suma: o vendedor ganha dinheiro se especializando em técnicas de venda. O comprador abre mão de sua vantagem porque ele não conhece as regras do processo de negociação.

A internet está começando a equilibrar o jogo entre compradores e vendedores. Sites e aplicativos já fazem o trabalho de mostrar todos os preços vigentes de todos os produtos em todas as lojas. Isso significa que o jogo agora está a favor dos consumidores, pois são eles que estão em posse do dinheiro. Mas, ainda assim, vários seguem não sabendo negociar com vendedores.

Todos nós compramos e vendemos dinheiro

Por mera tradição, sempre falamos sobre "compradores" e "vendedores". Mas ambos são a mesma coisa: ambos são compradores e vendedores ao mesmo tempo

Quando dizemos "compradores" estamos simplesmente dizendo "vendedores de dinheiro". Quando dizemos "vendedores" estamos simplesmente dizendo "compradores de dinheiro".

Ludwig von Mises definiu o dinheiro como sendo "a mais comercializável das mercadorias". O dinheiro é aquela mercadoria que absolutamente todas as pessoas querem, pois sabem que podem utilizá-la para adquirir qualquer outra mercado que desejarem.

Por isso, o vendedor de dinheiro (consumidor) é o comprador universal, pois aquilo que ele está oferecendo (dinheiro) é a mercadoria que todas as outras pessoas utilizam para fazer propostas de compra. 

O indivíduo que tem dinheiro para gastar possui a vantagem de uma transação. Há bilhões de pessoas que querem o dinheiro dele. E há muito menos pessoas que querem o produto que o vendedor está oferecendo. 

O comprador de bens e serviços, que é um vendedor de dinheiro, é um especialista em fazer a alocação da mercadoria mais valiosa do mercado. Ele fica de frente para uma multidão, mostra o dinheiro e diz: "Eu tenho aquilo que vocês querem. Façam-me uma oferta". Ele é um especialista em fazer com que produtores de todos os tipos de bens e serviços façam oferta denominadas naquela unidade de conta que ele está mostrando.

Já os vendedores de bens e serviços são especialistas em fazer ofertas em troca do dinheiro do consumidor. Eles se concentram em como obter aquela que é a mais comercializável das mercadorias. Eles precisam se especializar  em produzir para atender a um segmento específico da comunidade. Nem todos querem o que eles têm para oferecer.

Por tradição, designamos como "comprador" o indivíduo que detém um bem universalmente demandado. E designamos como "vendedor" o indivíduo que possui o bem que é menos universalmente demandado.

E é isso que ainda não entenderam sobre o capitalismo

É por tudo isso que o capitalismo, ao contrário do que muitos acreditam, é o arranjo que opera em benefício do consumidor, e não do produtorCom efeito, é o único arranjo que opera em benefício do consumidor. 

Os consumidores possuem aquilo que os produtores querem: dinheiro. O dinheiro é a mercadoria de mais fácil comercialização em uma economia. Todos estão atrás do dinheiro. Quem tem dinheiro consegue trocá-lo pelos bens e serviços que quer. Quem tem dinheiro sempre será servido. Quem tem dinheiro e sabe do poder que tem está no assento do motorista em uma economia capitalista. 

E quem tem o grosso do dinheiro em uma economia de mercado? A massa dos consumidores.

Produtores e empreendedores estão no mercado para ganhar acesso ao dinheiro dos consumidores. Os bens e serviços que eles produzem não podem ser utilizados como dinheiro. Não importa quão popular seja um produto específico, ele nunca será tão popular quanto dinheiro. 

Consequentemente, produtores e empreendedores têm de vender esses bens e serviços aos consumidores para conseguir dinheiro; eles não podem ir ao mercado e simplesmente tentar trocar, como num escambo, seus bens e serviços por outros bens e serviços. Para conseguir o que querem, eles têm de ter dinheiro. Para conseguir dinheiro, eles têm de vender para muitos consumidores. Eles ganharão dinheiro no volume, e não nos preços altos.

Ao contrário dos produtores e empreendedores, consumidores não têm de negociar descontos com fabricantes ou implorar por preços menores com fornecedores; eles deixam esse serviço por conta das empresas. Na prática, eles terceirizam essa atividade, deixando que as empresas em concorrência façam essa negociação por eles. 

Não interessa se é a Amazon, a Walmart, as Casas Bahia, a Uber, a Netflix, a AirBnB ou a padaria da esquina: todos têm de agir em prol dos consumidores. E é assim porque eles estão visando ao dinheiro das massas. Eles querem vender para as massas. Sua estratégia é fazer com que mais pessoas comprem seus bens e serviços.

Um capitalista bem-sucedido é aquele que não apenas sabe como atender aos desejos da massa, como também está sempre tentando aumentar a satisfação dela. A maneira como esse capitalista aumenta sua presença no mercado — sua fatia de consumidores — é por meio da concorrência de preços (e da qualidade do produto). 

Dado que seu objetivo é sempre aumentar seu público consumidor, o que ele realmente tem de fazer é ir atrás de pessoas que até então não estavam dispostas a — ou não tinham condições de — gastar dinheiro naquilo que ele está tentando vender. Ao utilizar a concorrência de preços, ele adquire acesso a esse grupo.

Os críticos do capitalismo, que são muitos, simplesmente não entendem que capitalismo significa concorrência de preços, e que o mercado de consumo em massa criado pela concorrência de preços representou o maior benefício econômico para a humanidade nos últimos 200 anos.

Sim, os preços das coisas estão sempre aumentando, principalmente no Brasil. Mas isso se deve às distorções criadas pelo governo, como a inflação da oferta monetária. Ainda assim, o custo real das coisas — isto é, a quantidade de horas de trabalho necessária para se auferir uma renda capaz de conseguir comprar um bem básico — só faz cair.

Nem empresários e nem assalariados

Produtores, empreendedores e trabalhadores só irão se dar bem em uma economia de mercado se souberem satisfazer os consumidores. Eles só terão lucros se souberam agradar aos consumidores.

E é só quando finalmente se entende isso, que se torna possível sanar um debate que é constantemente feito acerca do capitalismo e da economia de mercado em geral.

De um lado, há aqueles que dizem que o capitalismo — embora seja eficiente em criar bens, serviços e riqueza — é injusto e imoral, pois explora os trabalhadores e concentra a enorme riqueza criada nas mãos de alguns poucos empresários e especuladores.

De outro, há os que rebatem essas afirmações recorrendo a estatísticas que confirmam que os trabalhadores têm o melhor padrão de vida exatamente nos países mais capitalistas.

Ambos os lados ignoram o essencial.

O capitalismo não é um sistema voltado para "garantir direitos" aos trabalhadores. E nem para beneficiar empresários. É um sistema voltado exclusivamente para beneficiar os consumidores.

Só irá prosperar quem consegue fornecer bens e serviços que os consumidores voluntariamente querem adquirir.

Dado que empresários e empregados são também consumidores, então é óbvio que eles também acabam se beneficiando do capitalismo. No entanto, o capitalismo não é um sistema feito para "garantir direitos e privilégios" aos trabalhadores e nem para "privilegiar empresários". Esta não é sua função.

Se há trabalhadores mal pagos é porque os consumidores de seus produtos assim determinaram. Se há trabalhadores que trabalham muito e ganham pouco é porque não são produtivos e, consequentemente, não conseguem ofertar a um grande número de consumidores algo que eles considerem valioso e pelo qual estejam dispostos a pagar muito.

Se há assalariados mal pagos e com baixo padrão de vida é simplesmente porque eles não conseguem criar valor para seu público consumidor. Ou então porque há outros milhões que sabem fazer o que ele faz.

Ignorar isso e querer tentar contornar essa realidade implantando políticas de "bem-estar social" ou de "criação de empregos artificiais" irá apenas atravancar ainda mais o processo de criação genuína de riqueza.

Para concluir

O capitalismo beneficia a todos que estão na condição de consumidor

Enquanto o indivíduo está puramente na condição de trabalhador e empreendedor, o capitalismo é exigente e nem sempre recompensador. Se o empreendedor e o trabalhador estão no ramo errado, então o capitalismo será inclemente.

Um empreendedor pode, por exemplo, fazer um cálculo empreendedorial errado, se aventurar em uma área na qual não há demanda, empreender mal, se afogar em dívidas, ter seus ativos penhorados e perder tudo. Tentando servir o consumidor, ele se estrepou. Já o consumidor nada perdeu. De que lado você gostaria de estar?

O empreendedor se endivida para abrir um restaurante, serve a vários consumidores, mas acaba indo à falência e tendo seus bens penhorados perante seus credores. Quem se deu melhor: os consumidores que se aproveitaram deste restaurante ou o empresário falido?

É o cidadão comum consumidor que se dá bem no capitalismo, e não necessariamente o empresário. Este pode se estrepar completamente.

Por fim, mesmo o mais exitoso dos empreendedores e o mais bem-sucedido dos assalariados só é realmente beneficiado pelo capitalismo porque podem utilizar os frutos do seu trabalho para consumir; para adquirir bens e serviços que irão melhorar seu padrão de vida. Só que, ao fazerem isso, eles estão no mesmo nível dos demais consumidores normais.

No capitalismo, portanto, é o cidadão comum consumidor que se dá bem, principalmente quando ele sabe do poder que tem. E não necessariamente o empresário. Este pode se estrepar completamente.


Anthony P. Geller
é formado em economia pela Universidade de Illinois, possui mestrado pela Columbia University em Nova York e é Chartered Financial Analyst credenciado pelo CFA Institute.

Mises Brasil

'Quem é Saul Alinsky, mentor de Barack Obama', Ana Paula Henkel esclarece

 

Saul Alinsky | Foto: Wikimedia Commons


Para conhecer muito do cenário político no mundo, é preciso entender como suas lições conduzem boa parte da esquerda e pautam a mídia


Há um ano, morria Olavo de Carvalho. A esquerda brasileira festejou. Até aí, nenhuma surpresa. A turma da tolerância e do amor sempre festeja a morte de seus oponentes políticos ou ideológicos. Mas Olavo não era apenas um oponente ideológico, isso colocaria o professor em uma camada muito superficial no campo das ideias. Olavo estava bem acima das etiquetas, caixinhas ideológicas ou frases de efeito político. Esse Olavo provocador, desbocado e que irritava os militontos era o Olavo das redes sociais que muitos teimavam em retratar como o único Olavo. No entanto, o Professor Olavo só era conhecido por aqueles que viveram — vejam que eu não disse “leram”, mas viveram — sua obra. Seja através de seus livros, artigos, palestras, cursos de filosofia e riquíssimos vídeos espalhados pela internet, a obra de Olavo de Carvalho não é para ser lida ou assistida, mas vivida. E o poder dessa obra sempre foi a razão pela qual muitos tentaram destruir sua reputação. Olavo não era apenas um caçador de hipócritas, mas um revelador de verdades.

Olavo de Carvalho | Foto: Reprodução redes sociais/Josias Teófilo

Há exato um ano, eu publicava aqui em Oeste minha homenagem àquele que me tirou da zona de conforto, que me fez pensar e me deu mais perguntas do que respostas em muitas ocasiões. Olavo me apresentou um mundo — e seus personagens e seus disfarces — através de páginas da história que eu jamais poderia pensar em entrar sozinha. Mas, como eu mencionei naquele artigo, eu não estou aqui para convencer as pessoas a gostarem de Olavo de Carvalho e, por isso, em 28 de janeiro de 2022, escrevi: O mergulho em sua obra, e não no personagem politicamente incorreto das redes sociais, é um mergulho que faz parte de uma decisão pessoal. O que eu posso dizer é que quem leu uma obra do escritor entende que ele foi um homem à frente do nosso tempo. Muito além do barulho vazio das discussões supérfluas das tóxicas plataformas sociais. Mas, como disse, não estou aqui para te convencer nem sequer a ler um artigo ou um livro do professor. Essa é uma viagem individual com passagem só de ida. É uma decisão extremamente particular exatamente por ser uma viagem sem volta.

“O primeiro e verdadeiro radical conhecido pelo homem, que se rebelou contra a ordem estabelecida e fez isso com sucesso o bastante para ter seu próprio reino, foi Lúcifer” (Saul Alinsky)

No texto de um ano atrás, conto em detalhes como fui fisgada — sem volta — pela sabedoria e pelas perspectivas do professor sobre a vida como um todo. Em uma passagem pela sua obra, fui “obrigada” por Olavo, e confesso que de uma maneira bem incômoda, a encarar a mentira fofa que é Barack Obama. Lembro-me muito bem do meu choque com a realidade e pensei: “Como assim? Obama pode ser do partido democrata, mas é moderado, um social-democrata…”. Ledo engano. Lendo um texto em que ele desnudava o queridinho do mundo moderno, não foi fácil conceber em sua totalidade a farsa que Barack Obama foi e é. No entanto, tudo, absolutamente tudo começou a fazer sentido (Olavo nunca te dá todas as peças do quebra-cabeça de uma só vez!) depois que fui apresentada ao mentor de Barack Obama: Saul Alinsky. Mas quem é o homem por trás do homem mais querido e hipócrita da atual América? Para entender muito do cenário político nos Estados Unidos — e também no mundo —, é preciso entender quem foi Saul Alinsky e como suas lições e legado ainda conduzem boa parte da atual esquerda norte-americana, pauta a mídia e cria tentáculos tão perigosos que alcançam nossas crianças.

Para conhecer o mentor não apenas de Barack Obama, mas também de Hillary Clinton, é preciso voltar um pouco no tempo. Em 1892, a Universidade de Chicago havia lançado seu programa de Sociologia, e que tinha como foco o estudo das comunidades mais pobres de Chicago, onde abundavam organizações criminosas. Sua doutrina baseava-se na afirmação de que “a verdade e o significado eram conceitos construídos”, que podiam ser coletados, compreendidos e manipulados pelos sociólogos para “reconstruir a ordem social” com base no controle das forças sociais por meio de agentes de mudança.

O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama | Foto: Pete Souza/White House

Influenciado por isso, em 1926, um jovem de família judia, Saul David Alinsky, ingressou na faculdade de sociologia da Universidade de Chicago. O jovem Alinsky dedicou-se a pesquisar os fatores sociais que levavam ao alcoolismo, à prostituição, à pobreza e à delinquência, campo conhecido como “patologia social”. Em uma época conturbada nos EUA — durante o famoso período da Lei Seca e das gangues, como a de Al Capone, tão visitado e imortalizado em dezenas de filmes de séries de TV —, Alinsky viu o crime como uma das raízes da patologia social estudada na Universidade de Chicago. Em 1972, em uma entrevista a uma importante revista, declarou que sua tese de doutorado tinha como objeto a quadrilha de Al Capone: “(…) Atualmente, através de diversos contatos políticos, encontro-me em condição de observar os problemas do crime como o tráfico de bebidas, apostas, prostituição etc.; bem como a corrupção implementada e aceita pela cidade para permitir a operação desses crimes”.

Nessa entrevista, o próprio Alinsky declararia que, para desenvolver sua “pesquisa”, ele convenceu integrantes da máfia de Al Capone de que poderia ser uma espécie de “intérprete” dos métodos da gangue para o mundo exterior, sendo apresentado a ninguém menos do que Frank Nitti, então o número dois da organização criminosa e conhecido como “O Executor”, por usar métodos bárbaros de tortura e morte contra seus inimigos. Na mesma entrevista, Alinsky disse: “Nitti me pôs sob sua proteção. Eu o chamava de professor e me tornei seu aluno. Os rapazes de Nitti me levavam para todos os lugares”. Tutti buona gente.

Os “rapazes de Nitti” eram os mais sanguinários executores de Chicago da época, e até as forças policiais tinham medo de qualquer confronto com a “famiglia” de Al Capone. Pois era exatamente com eles que andava Saul Alinsky. E foi com eles, e especialmente com seu “professor” Frank Nitti, o braço direito de Al Capone, que Alinsky desenvolveu as ideias de sua “revolução social” que seriam condensadas e apresentadas em um livro intitulado Regras Para Radicais: Uma Cartilha Pragmática Para Radicais Realistas. Nas primeiras páginas, o autor dedica sua obra a Lúcifer: “O primeiro e verdadeiro radical conhecido pelo homem, que se rebelou contra a ordem estabelecida e fez isso com sucesso o bastante para ter seu próprio reino, foi Lúcifer.”

Saul Alinsky | Foto: Reprodução

O documentário “A Wolf in Sheep’s Clothing”, sobre a vida de Alinsky, mostra até que ponto seus tentáculos se espalharam no funcionamento filosófico dos Estados Unidos, infiltrando-se também na Igreja Católica e semeando as sementes da polarização política que vemos tão difundidas agora. O produtor do documentário, Richard Payne, que estudou a vida de Alinsky profundamente, afirma que o mentor de Obama foi realmente central para as profundas convulsões dentro da Igreja: “Toda a sua visão da realidade quebra os princípios fundamentais do ensinamento moral católico, de que o fim não justifica os meios. A Igreja em Chicago comprou e apoiou seu trabalho, e isso teve um impacto profundo na década de 1960 nos projetos de cuidado com os pobres. Ele desenvolveu afiliados e organizadores comunitários em todo o país, teve grande influência nas organizações, e muitos movimentos modernos são financiados por indivíduos treinados em Alinsky, pessoas que alimentam as chamas da violência para a obtenção do controle social”.

Outro ponto bastante interessante nesse documentário é que ele mostra de maneira muito clara a mudança de tática da extrema esquerda. Em 1919, Lenin desenvolveu o instituto marxista, que se afastou das formas brutais do marxismo dos soviéticos para um movimento mais “clandestino”, menos “óbvio”, porém devastadoramente eficaz. E a Escola de Frankfurt, outra rica fonte de Saul Alinsky, desempenhou um papel essencial nessa revolução, trazendo elementos como a rebeldia e a liberdade sexual, baseadas no pansexualismo de Freud, que no fim dos anos 1930 e 1940 foram fundidas com movimentos que mais tarde criariam exatamente a revolução de gênero. Tudo isso influenciou profundamente Alinsky, que por sua vez desenvolveu mecanismos modernos que moldam os movimentos sociais e as ideologias de hoje.

Embora a Escola de Frankfurt fosse neomarxista, muitos de seus adeptos estavam menos interessados em economia e redistribuição de riqueza do que em refazer e transformar a sociedade por meio de mudanças culturais e de atitude. Eles incorporaram a teoria de classe marxista à sociologia e à psicologia, ao mesmo tempo em que assimilaram as teorias de Freud sobre a sexualidade. Assim, a teoria de Marx da dialética do conflito perpétuo foi unida às ideias neuróticas de Freud, criando uma espécie de movimento “freudiano-marxista”. O objetivo declarado era uma transformação total da sociedade, quebrando as normas e as instituições tradicionais, como as relações monogâmicas e a família tradicional. Isso deveria ser conseguido promovendo e legitimando a permissividade sexual desequilibrada sem restrições culturais ou religiosas.

Seria praticamente impossível falar de Saul Alinsky, da Escola de Frankfurt e de sua péssima, porém profunda influência na atual sociedade em um artigo apenas. Por isso, neste primeiro aniversário de morte do Professor Olavo de Carvalho, recomendo vivamente seus vídeos sobre o tema, para entendermos o que está acontecendo com o Brasil e o mundo, e que vai muito, mas muito além da política, para que possamos encontrar as armas corretas nessa guerra.

Olavo conseguiu nos tirar da inércia política em um país que era ignorante, sem cultura e sem o verdadeiro aprofundamento no que — de fato — molda sociedades. O professor conseguiu nos tirar da inércia política em um país que era ignorante e sem cultura. Despertar esse caminho nas pessoas é um dom que poucos têm. Por isso, ele era rejeitado e difamado por seus detratores. Uma vez aberta a porta para as obras do escritor, essa porta daria entrada para um vasto mundo de independência intelectual. Olavo não era um professor, Olavo era um mestre. Continuaremos, professor. Sabe quando vamos parar? Nunca. Seu legado vive!

Leia também “Os ungidos do bem e seus jatinhos”

Revista Oeste

'O que é um terrorista?', responde Flávio Gordon

 

A relativização da palavra terrorismo diante dos acontecimentos em Brasília, no dia 8 de janeiro | Foto: Shutterstock


O interesse da esquerda não é saber isso. É prender e neutralizar adversários políticos. E aí o nome das coisas vira um mero detalhe


“Ouso da mídia como arma tem um efeito paralelo ao de uma batalha. Mediante o uso dessas imagens, fomos capazes de controlar à distância o moral do inimigo” — declarou, em julho de 2000, Nabil Qaouk, então comandante do Hezbollah. Explicando como o grupo terrorista xiita — que fazia desabar frequentes tempestades de mísseis sobre Israel — lograra dominar as técnicas de filmagem e distribuição de propaganda para a imprensa ocidental, o xeique muçulmano afirmou que a campanha de desmoralização de Israel aos olhos do mundo fora decisiva para a retirada das forças israelenses do sul do Líbano.

O que o xeique não disse, todavia, é que sua propaganda só frutificou porque o solo era especialmente fértil: a predominância da ideologia “anticolonialista” nas redações e nos estúdios, que conduz o noticiário e o colunismo de opinião a relativizarem (e, por vezes, deliberadamente ocultarem) o terrorismo islâmico. Com efeito, desde aproximadamente meados dos anos 1960, a visão hegemônica nas faculdades de jornalismo ao redor do mundo consiste numa versão adaptada do marxismo, que dividiu as nações do mundo em “exploradoras” e “exploradas”. Nesse contexto, multidões de repórteres-ativistas passaram a se ver como porta-vozes dos explorados, a favor dos quais era permitido mentir, ocultar e manipular a informação. Sua função já não era a de reportar, mas a de integrar a máquina de propaganda “anticolonialista” (contra Israel, contra o Ocidente, contra o capitalismo etc.).

Nabil Qaouk, em 2010 | Foto: Wikimedia Commons

É por essas e outras que Michael S. Malone, consagrado jornalista norte-americano, com passagens por ABC News, New York TimesThe Wall Street JournalForbes e Los Angeles Times, confessou, em artigo de 2008, a sua vergonha em se assumir jornalista nos dias de hoje. Sua desilusão com a profissão que herdou dos avós começou justamente quando, num quarto de hotel, acompanhava a cobertura sobre a Guerra do Líbano, no ano de 2006. No relato de Malone:

“O hotel em que eu estava, em Windhoek, na Namíbia, só sintonizava a CNN, uma emissora que eu já aprendera a abordar com ceticismo. Mas ali se tratava da CNN internacional, o que era pior. Estava ali sentado, primeiro de queixo caído, e logo em seguida gritando para a televisão, enquanto um correspondente após o outro reportavam a carnificina dos ataques israelenses em Beirute, sem praticamente nenhuma notícia complementar da chuva de mísseis lançados pelo Hezbollah sobre o norte de Israel. A reportagem era tão completa e vergonhosamente tendenciosa que permaneci horas assistindo, imaginando que, em algum momento, eventualmente a CNN fosse contar toda a história… Mas não o fez”.

A manipulação midiática detectada por Malone revela algo perturbador: muitos dos responsáveis por decidir o que iremos ler ou ver no noticiário não concebem seu trabalho como informativo, mas como essencialmente político. Nesse contexto, a cobertura torna-se uma arma a serviço da causa que defendem. Assim é que, na mentalidade de muitos jornalistas e intelectuais de esquerda, atos efetivos de terrorismo (bombas, tiros, explosões, facadas etc.), desde que praticados por algum representante da categoria dos “explorados”, são justificáveis diante do fato primeiro e pecado original da exploração. Por vezes, o termo “terrorismo” chega a desaparecer do noticiário, quando se trata de cobrir a violência praticada por “explorados” contra “exploradores”.

Michael S. Malone | Foto: Marcin Wichary/Wikimedia Commons

A relativização do terrorismo atingiu o paroxismo justo num de seus momentos mais espetaculosos, quando dos atentados de 11 de setembro. Comentando sobre o chocante evento, o ultrarradical Noam Chomsky, intelectual público dos mais influentes no mundo, qualificou os EUA de “Estado terrorista”. Resumidamente, a sua tese era a seguinte: os ataques terroristas haviam sido uma resposta dos povos oprimidos do Terceiro Mundo ao imperialismo norte-americano. Antes que vítima, a América era, portanto, a verdadeira responsável pelos atentados.

De acordo com a Lei Antiterrorismo sancionada por Dilma Rousseff, não faz parte dos tipos penais o cometimento de crimes por razões políticas. Na época, essa ressalva na lei foi concebida a fim de proteger grupos radicais alinhados ao petismo para que pudessem continuar cometendo impunemente suas ações de violência política

A macabra racionalização chomskyana não era uma posição excêntrica no seio da intelligentsia esquerdista mundial. De acordo com ela, os terroristas da Al-Qaeda foram irremediavelmente atraídos para o campo magnético das Torres Gêmeas, não tendo alternativa que não a de se explodirem contra milhares de inocentes. Bin Laden e seus pupilos haviam manifesto um instinto de liberdade que, sob condições de opressão, tende a se mostrar exasperado e eventualmente homicida. Quanto ao país agredido, sendo inexorável e aprioristicamente culpado no tribunal da história, o que lhe restava era assimilar o golpe com humildade e resignação, extraindo-lhe motivo para uma autocrítica. Como notou à época o analista Frédéric Encel, a lógica chomskyana funcionava “como se os trabalhadores no World Trade Center e os passageiros dos aviões sequestrados encarnassem o mal da América, tendo de expiar a culpa pelo culto do rei dólar, o destino dos apaches, o McDonald’s”.

Noam Chomsky, no Fórum Social Mundial, em 2003 | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Embora soe odiosa quando dita sem rodeios, a mensagem era clara: os EUA haviam pedido por aquilo. Poucos, obviamente, ousaram expressar a coisa nesses termos. Mas, incrivelmente, houve quem tenha perdido até mesmo esse mínimo de pudor. Destaca-se aí o filósofo francês Jean Baudrillard, que escreveu: “Olhando de perto, pode-se dizer que eles o fizeram, mas nós o desejamos… Quando o poder global monopoliza a situação a este nível, quando há tamanha condensação de todas as funções na maquinaria tecnocrática, e quando nenhuma forma alternativa de pensamento é permitida, que outro caminho há senão uma guinada situacional terrorista? Foi o próprio sistema que criou as condições objetivas para essa brutal retaliação” (grifos meus).

Obviamente, também entre os intelectuais brasileiros de esquerda houve quem justificasse o terrorismo como meio político aceitável e até mesmo inevitável. Também por ocasião do 11 de setembro, escrevendo para o Correio Braziliense, o psolista uspiano Vladimir Safatle seguiu a senda aberta por Baudrillard: “Verdade seja dita: a terça-feira negra mostrou como a ação política mais adequada para a nossa época é o terrorismo. Ele é o que resta quando reduzimos a dimensão do conflito social à lógica do espetáculo”.

Ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001 | Foto: Wikimedia Commons

Anos depois, em artigo com o significativo título “Invenção do terror que emancipa”, Safatle resenhava uma coletânea organizada por Slavoj Zizek (outro notório entusiasta da violência política redentora) e descrevia os terroristas de uma maneira bem peculiar: “Sujeitos não substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa”. O argumento consista basicamente na afirmação de que o rótulo “terrorismo” adviria, na verdade, de um juízo burguês, moralista e reacionário de práticas revolucionárias inerentes à história política moderna.

Por óbvio, os tortuosos argumentos avançados por intelectuais enragés acabam sempre formatando as cabecinhas do pessoal das províncias das redações e dos estúdios, levando-os a assimilarem como fato inconteste uma tese para lá de controversa, segundo a qual o terror “que emancipa” é sempre uma reação a uma agressão anterior. Retratando a América (ou Israel, ou mesmo o Ocidente como um todo) como o agente primeiro e transcendental do terrorismo, Chomsky, Baudrillard, Safatle e os jornalistas que consomem a sua papinha ideológica acabam equiparando terroristas e vítimas, ambos passivamente sujeitos à atuação de um ator histórico que, de fora e acima, os determina igualmente. Diante do algoz abstrato e categorial, as vítimas concretas (mortas pelo terror) e os agressores concretos (os terroristas da Al-Qaeda, do Hamas ou do Estado Islâmico) são nivelados na condição de pacientes históricos. Diante do “fato” primeiro da opressão, o terrorismo torna-se praticamente um imperativo categórico — ou, nas palavras de Safatle, “a ação política mais adequada para a nossa época”.

Fernando Haddad, Vladimir Safatle e Lula, em 2022 | Foto: Reprodução Redes Sociais

Não é espantoso que essa mesma esquerda, para a qual o terrorismo concreto sempre foi relativizado — quando não exaltado, como se vê na representação cultural benevolente do líder terrorista Carlos Marighella —, resolva agora absolutizar o termo para aplicá-lo irrestritamente a todos os bolsonaristas de algum modo associados aos atos de 8 de janeiro? Deliberadamente omitindo o fato de que, segundo a lei, nem mesmo os crimes efetivamente cometidos naquele dia (vandalismo, depredação, destruição de patrimônio etc.) poderiam ser tipificados como terrorismo, a militância de redação pró-PT não pensou duas vezes em estigmatizar como “terroristas” até mesmo quem não os cometeu, e, mantendo-se acampados em frente ao QG do Exército, nem sequer esteve presente na Praça dos Três Poderes.

Como mostra reportagem de Oeste, a própria PGR afirmou não ser possível enquadrar como “terroristas” os responsáveis pelos atos. De acordo com a Lei Antiterrorismo, de nº 13.260, sancionada por Dilma Rousseff em 2016, não faz parte dos tipos penais o cometimento de crimes por razões políticas. Na época, essa ressalva na lei foi concebida a fim de proteger grupos radicais alinhados ao petismo (a exemplo do MST, do MTST, da UJS etc.), para que pudessem continuar cometendo impunemente suas ações de violência política. Embora seu mérito seja questionável — pois baseada na ética das intenções, e não na das consequências —, o fato é que a ressalva foi aprovada e incorporada na lei, e, portanto, sua aplicação deveria ser isonômica.

Não é o que temos visto, obviamente. Porque o interesse não é saber o que é um terrorista — caso em que os militantes de redação deveriam perguntar, por exemplo, a Orlando Lovecchio, que, em 19 de março de 1968, perdeu a perna na explosão de uma bomba “pela democracia” detonada pelos rebentos de Marighella. O interesse é prender e neutralizar adversários políticos. E aí o nome das coisas vira um mero detalhe. O reino de Confúcio — “a verdadeira sabedoria é dar às coisas os nomes certos” — é substituído pelo do Humpty-Dumpty, o cabeça-de-ovo: “Quando uso uma palavra, ela significa o que eu quiser que ela signifique”.

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Revista Oeste

'A quem a autonomia do Banco Central incomoda?', revela Ubiratan Jorge Iorio

 

Fachada do prédio do Banco Central do Brasil | Foto: Arnaldo Jr/Shutterstock


No governo atual, por seu apego ao Estado, é evidente que austeridade de qualquer espécie é algo que não deve ser levado em consideração


Estamos assistindo diariamente a um desfile oficial de declarações estapafúrdias, que revelam um desconhecimento assustador a respeito de assuntos econômicos elementares — e não estou me referindo a teorias mirabolantes ou modelos macroeconômicos incompreensíveis para não iniciados, mas ao simples funcionamento das atividades econômicas no mundo real. Sinceramente, há que se ter muita paciência para acompanhar o noticiário.

Dentre tantas afirmativas descabidas recorrentes e que fazem piscar uma inquietante luz de advertência quanto ao futuro da economia, chama atenção a crítica tosca que o atual presidente fez nos últimos dias à autonomia do Banco Central. Fazendo uso de sua arte de escorraçar plurais, enxotar concordâncias e afugentar todo e qualquer sinal de boa gramática que ouse passar por perto — e, certamente, reverberando a visão bolorenta dos economistas de seu partido —, disse que “essa história de independência do Banco Central é uma bobagem” e imediatamente, como se estivesse apresentando um contra-argumento fulminante, sapecou a pergunta: “Por que o Banco Central é independente e a inflação está do jeito que está?”.

Hein? Como assim? Ora, a inflação de preços está “do jeito que está” — ou seja, entre as mais baixas do mundo — justamente porque o nosso Banco Central teve autonomia para fazer o que vem fazendo desde o fim de 2020, quando percebeu que a tendência dos preços em todo o planeta apontava para uma longa temporada de alta. É preciso salientar que a nossa autoridade monetária foi a primeira, dentre todos os bancos centrais, a ter a percepção correta do problema e a coragem, ainda em tempo de pandemia, para aumentar a taxa básica de juros, e que só foi seguida com grande atraso pelo Fed, um ano depois, e pelo Banco Central Europeu, quase dois anos após. A atuação do nosso Banco Central não apenas segurou a inflação de preços, como a colocou, pela primeira vez na história, abaixo das inflações dos Estados Unidos e dos países da Zona do Euro.

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Francamente, qualquer pessoa com conhecimentos básicos de economia, diante de tantos sinais — alguns, inclusive, que mais pareciam ameaças — de que a política econômica do PT seria desastrosa, anteciparia rapidamente fortes turbulências nos mercados financeiros e no setor real da economia e concluiria que o processo de deterioração seria inevitável. Se durante a campanha a sinalização era essa, agora que o novo governo vem cumprindo — com sobras, diga-se — o que prometeu, é óbvio que isso reforça as expectativas pessimistas.

A inflação, que não deve ser entendida simplesmente como um aumento contínuo e generalizado de preços (este é o seu efeito, não a sua causa), mas como uma queda progressiva do poder de compra da moeda em correspondência com a elevação dos preços — nada mais é do que um método pelo qual o governo, o sistema bancário que ele controla e os grupos que ele favorece politicamente adquirem capacidade de expropriar parte da riqueza dos demais grupos da sociedade. Portanto, contrariamente ao que o presidente do país repete frequentemente, é crucial que a sociedade, mediante o estabelecimento de instituições adequadas, impeça que a política monetária fique sujeita às pressões de natureza política. Existem três arranjos institucionais voltados para esse fim.

A evidência empírica mostra que no longo prazo os países com bancos centrais mais autônomos têm taxas de inflação mais baixas e com menores variações

O primeiro e mais tradicional é ancorar a moeda ao estoque de ouro dos bancos centrais, isto é, o regime do padrão ouro. O segundo, sugerido por Hayek, em 1974, consiste na “desnacionalização” da moeda, em que se estimularia a competição entre diversas moedas sobre as quais bancos privados passariam a ter poder de emissão, de modo que as moedas das instituições bancárias administradas mais eficientemente seriam mais procuradas do que as emitidas pelos bancos mal administrados, e, portanto, seus valores seriam mais elevados do que os das segundas, inclusive a moeda oficial, que continuaria sendo emitida pelo Banco Central, o que faria o sistema tender para a estabilidade. Uma variante moderna dessa proposta é a adoção de um sistema descentralizado de criptomoedas, que competem entre si. Por fim, o terceiro mecanismo para isolar a política monetária das pressões políticas é a “independência do Banco Central”, que equivale, como os anteriores, a separar a política monetária da política fiscal, ou, em linguagem menos técnica, a impedir que o rei Herodes seja o diretor da creche.

Hayek
Hayek é um dos principais expoentes da Escola Austríaca de Economia | Foto: Reprodução

A evidência empírica mostra que no longo prazo os países com bancos centrais mais autônomos têm taxas de inflação mais baixas e com menores variações. A Lei Complementar 179, de 25/2/2021, estabeleceu a autonomia do Banco Central, com  a adoção de mandatos de quatro anos para o presidente e os diretores, todos em ciclos não coincidentes entre si, bem como com o mandato do presidente do país. A lei atribui ao presidente da República a indicação dos nomes, que devem ser aprovados pelo Senado. O indicado para presidente do Banco Central assume no dia 1º de janeiro do terceiro ano de mandato do presidente da República e os mandatos dos oito diretores são escalonados de dois em dois e de ano em ano, a começar pelo primeiro ano do mandato do presidente da República. Na prática, isso significa que o presidente do país tenha de conviver com dirigentes indicados pelo governo anterior. A mesma lei passou a classificar o Banco Central como autarquia de natureza especial, caracterizada pela “ausência de vinculação a ministério, de tutela ou de subordinação hierárquica” (anteriormente, era vinculado ao Ministério da Fazenda).

Portanto, o atual presidente do Banco Central continuará no cargo até 31 de dezembro de 2024. Até lá, é razoável supor que as algazarras fiscais do governo não serão financiadas pela expansão da moeda e do crédito, o que significa que a inflação monetária vai continuar a ser controlada por mais dois anos, embora os níveis de preços possam subir, em decorrência das expectativas de descontrole futuro atiçadas pela farra fiscal.

No dia seguinte ao das desastrosas declarações do chefe do Executivo, aconteceu o que qualquer calouro de uma boa faculdade de ciências econômicas (desde que tenha escapado com vida inteligente dos professores doutrinadores no ensino médio) seria capaz de prever: as taxas de juros dos mercados futuros levantaram voo, pelo mesmo motivo que leva as pessoas a tirarem os guarda-chuvas do armário quando têm certeza absoluta de que vai chover. Era óbvio demais. Diante de tamanho retrocesso, o que se pode esperar? A resposta, seguramente, não é das mais agradáveis.

Em primeiro lugar, é bastante plausível supor que, na reunião de meio de ano do Conselho Monetário Nacional, a meta de inflação poderá ser elevada, seja porque a tendência dos gastos públicos é explosiva, o que certamente pressiona politicamente o governo a sancionar o crescimento exagerado nas despesas mediante a expansão monetária, seja porque a nova equipe econômica acredita piamente na maior balela teórica dos últimos tempos, a famigerada Teoria Monetária Moderna (TMM). Esses economistas parecem viver nos longínquos anos 1950, quando o equivocado estruturalismo da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) inspirou Juscelino a gastar e a inflacionar, agarrado à falácia “desenvolvimentista” de que “uma inflação moderada, além de não fazer mal para ninguém, faz bem para o país”. O governo, aliás, já sinalizou que pretende aumentar a meta de inflação. Não é aconselhável levar uma serpente venenosa para casa.

Sede da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina)
Sede da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) | Foto: Divulgação

Segundo, será muito importante olhar o perfil do escolhido para substituir o atual diretor de Política Monetária, cujo mandato termina em 28 de fevereiro. Infelizmente, a expectativa é que o indicado seja um petista de carteirinha, ou um economista que não vê problemas quando a oferta de moeda cresce acima do lastro recomendado pelo crescimento da produtividade, da população e do próprio PIB.

Em terceiro lugar, é bem razoável, também, esperar por tentativas de acabar com a autonomia do Banco Central, bastando lembrar que, por ocasião da sua aprovação pelo Congresso, os partidos de esquerda recorreram ao STF, alegando — descabidamente — a inconstitucionalidade dessa medida.

Quarto, cada vez que um governo sinaliza uma suposta preocupação com “os juros altos”, como o atual ministro da Fazenda vem fazendo, pressionando indiretamente o Banco Central para diminuir a taxa de básica de juros (Selic), é óbvio que as taxas longas e futuras sobem imediatamente, como, aliás, já aconteceu. Para piorar o quadro e considerando a tendência gastadora do novo governo, essas pressões serão cada vez mais fortes e, caso sejam atendidas pelo desfazimento da independência do Banco Central, este terá de promover quedas cada vez maiores na taxa de juros básica, o que significa, simplesmente, crescimento acelerado na oferta monetária e, portanto, maior inflação.

teto de gastos
Fernando Haddad, no Ministério da Fazenda | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Por fim, é necessário levarmos em conta uma questão com consequências práticas muito importantes, derivada da gritante diferença de visão econômica entre o governo atual e o anterior, já que perspectivas diferentes implicam necessariamente políticas econômicas diferentes. Refiro-me à questão da existência ou inexistência de coordenação entre a política (de curto prazo) fiscal e a política monetária, que por sua vez determinam se existe ou não coordenação entre os regimes (de longo prazo) fiscal e monetário.

No governo anterior, existia coordenação entre as duas políticas e os respectivos regimes, uma vez que o objetivo era estabelecer mudanças estruturais nas contas do governo, ou seja, adotar caminhos para estabelecer um regime fiscal austero, com equilíbrio garantido entre receitas e despesas, o que foi sendo feito por meio de medidas que impactavam as contas públicas no curto prazo, mas na presença de outras de fôlego maior, como o programa de privatizações, por exemplo. Do lado monetário, adotou-se a mesma postura de responsabilidade, sendo que a aprovação da autonomia do Banco Central representou um passo importante para a garantia dessa austeridade. Obviamente, durante a pandemia, mais precisamente em 2020, o governo precisou abandonar a austeridade nos dois fronts, mas retornou a ela já no início de 2021.

Já no governo atual, por seu apego ao Estado, é evidente que austeridade de qualquer espécie é algo que não deve ser levado em consideração e é por isso que a autonomia do Banco Central é um incômodo a ser removido.  Dado que a farra fiscal já está delineada e já começou a ser posta em prática, existem então duas possibilidades, conforme a autonomia do Banco Central seja mantida ou não.

No primeiro caso, pelo menos até o fim de 2024, quando expirará o mandato do atual presidente do banco, não vai ter “moleza” monetária: o crescimento dos gastos públicos vai ter de ser necessariamente bancado por maior endividamento, maior arrecadação, ou ambos. O resultado dessa briga de foice entre a cigarra fiscal e a formiga monetária é claro: explosão das taxas de juros e da relação dívida/PIB e desemprego, mas sem que a inflação dispare.

Na segunda possibilidade, em que a autonomia do Banco Central seria cassada — seja legalmente, por uma PEC, seja simplesmente na prática, com trocas de diretores e do presidente —, teríamos uma gandaia monetária para financiar a orgia fiscal. Tal combinação não tem como acabar bem: juros temporariamente para baixo, mas logo depois voltando a subir, relação dívida/PIB brevemente estabilizada, mas com tudo para explodir rapidamente, mais inflação, com possibilidade de hiperinflação e mais desemprego.

Nas duas hipóteses, não há como imaginar a possibilidade de crescimento econômico sustentado. E muito menos de melhoria do “social”. Não tem jeito mesmo, a esquerda não aprende. Em menos de um mês, já fez a águia desistir do voo e voltar a se esconder.

Foto: Shutterstock

Ubiratan Jorge Iorio é economista, professor e escritor.
Instagram: @ubiratanjorgeiorio
Twitter: @biraiorio

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