O Estado de São Paulo
Antes da era digital, em quase todas as famílias existia um álbum de fotos ou
uma caixa de sapatos cheia de fotografias. Lá estavam as nossas lembranças, os
nossos registros afetivos. Muitas vezes abríamos o álbum ou a caixa e a
imaginação voava. Era bem legal.
Agora, fotografamos tudo e arquivamos compulsivamente. Nossa antiga caixa de
sapatos foi substituída pelas galerias de fotos de nossos dispositivos móveis.
Temos overdose de fotos, mas falta o mais importante: a memória afetiva, a
curtição daqueles momentos. Fica para depois. E continuamos fotografando e
arquivando. Pensamos, equivocadamente, que o registro do momento reforça sua
lembrança, mas não é assim. Milhares de fotos são incapazes de superar a
vivência de um instante. É importante guardar imagens. Mas é muito mais
importante viver cada momento com intensidade.
Algo análogo, muito parecido mesmo, ocorre com o consumo da informação.
Navegamos freneticamente no espaço virtual. Uma enxurrada de estímulos dispersam
a inteligência. Ficamos reféns da superficialidade. Perdemos contexto e
sensibilidade crítica. A fragmentação dos conteúdos pode transmitir certa
sensação de liberdade. Não dependemos, aparentemente, de ninguém. Somos os
editores do nosso diário personalizado. Será?
Não creio, sinceramente. Penso que
há uma crescente nostalgia de conteúdos editados com rigor, critério e qualidade
técnica e ética. Há uma demanda reprimida de reportagem. É preciso reinventar o
jornalismo e recuperar, num contexto muito mais transparente e interativo, as
competências e a magia do jornalismo de sempre. É preciso olhar para trás para
dar saltos consistentes.
"Hoje", dizia Nelson Rodrigues, "ninguém imagina o que eram as velhas
gerações românticas da imprensa. Mudaram o jornal e o leitor. No ano passado,
houve uma chuva inédita, uma chuva bíblica, flagelando a cidade. Desde Estácio
de Sá não víamos nada parecido. E todo mundo morreu e desabou, e se afogou,
menos o repórter.
Não houve uma única baixa na reportagem. Fez-se toda a
cobertura do dilúvio e ninguém ficou resfriado, ninguém espirrou, ninguém
apanhou uma reles coriza. Por aí se vê que há, entre a nossa imprensa moderna e
o fato, uma distância fatal. O repórter age e reage como um marginal do
acontecimento. Antigamente, não. Antigamente, o profissional sofria o fato na
carne e na alma."
Jornalismo sem alma. É o diagnóstico de uma doença que contamina inúmeras
redações. O leitor não sente o pulsar da vida. As reportagens não têm cheiro do
asfalto. As empresas precisam repensar o seu modelo e investir poderosamente no
coração. É preciso dar novo brilho à reportagem e ao conteúdo bem editado,
sério, preciso, isento.
É preciso contar boas histórias. Com transparência e sem filtros ideológicos.
O bom jornalista ilumina a cena, o repórter manipulador constrói a história. Na
verdade, a batalha da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da
preguiça profissional e da incompetência arrogante. Todos os manuais de redação
consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Mas alguns
procedimentos, próprios de opções ideológicas invencíveis, transformam um
princípio irretocável num jogo de aparência.
A apuração de mentira representa uma das mais graves agressões à ética e à
qualidade informativa. Matérias previamente decididas em guetos sectários buscam
a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é
honesta, não se apoia na busca da verdade, mas num artifício que transmite um
simulacro de isenção, uma ficção de imparcialidade. O assalto à verdade culmina
com uma estratégia exemplar: repercussão seletiva. O pluralismo de fachada,
hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declarar o que o
repórter quer ouvir. Mata-se a notícia. Cria-se a versão.
Sucumbe-se, frequentemente, ao politicamente correto. Certas matérias,
algemadas por chavões inconsistentes que há muito deveriam ter sido banidos das
redações, mostram o flagrante descompasso entre essas interpretações e a força
eloquente dos números e dos fatos. Resultado: a credibilidade, verdadeiro
capital de um veículo, se esvai pelo ralo dos preconceitos.
A precipitação e a falta de rigor são outros vírus que ameaçam a qualidade. A
incompetência foge dos bancos de dados. Na falta de pergunta inteligente, a
ditadura das aspas ocupa o lugar da informação. O jornalismo de registro,
burocrático e insosso, é o resultado acabado de uma perversa patologia: o
despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento.
Quando
editores não formam os seus repórteres, quando a qualidade é expulsa pela
ditadura do deadline, quando as pautas não nascem da vida real, mas de pauteiros
anestesiados pelo clima rarefeito das redações, é preciso ter a coragem de
repensar todos os processos.
Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal The New York Times, Gay
Talese vê alguns problemas a partir da crise que atingiu um dos jornais mais
influentes do mundo. Embora faça uma vibrante defesa do Times, "uma instituição
que está no negócio há mais de cem anos", Talese põe o dedo em algumas chagas
que, no fundo, não são exclusividade do diário americano. Elas ameaçam, de fato,
a credibilidade da própria imprensa.
"Não fazemos matéria direito, porque a
reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações.
Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o
rosto das pessoas. Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um
avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando", conclui
Talese.
O jornalismo precisa recuperar a vibração da vida, o cara a cara, o coração e
a alma.