terça-feira, 20 de junho de 2017

"Precisamos de alta dose de perspectiva paulista para o Brasil voltar a crescer", por Nizan Guanaes



Folha de São Paulo

Entre as reformas estruturais do Brasil, precisamos de uma reforma de mentalidade.

Não é só entregar a democracia, mas a democracia que entrega. Que entrega serviços eficientes e honestos, que não gasta o que não tem e gere bem o que tem, que permite a todos contribuir para o desenvolvimento pessoal e coletivo.

Ritmo é fundamental. O mundo está mudando rapidamente. O Brasil precisa retomar o rumo e apressar o passo para acompanhar o espírito rápido do tempo. 
Perder uma década hoje, como já perdemos no passado, é perder muito mais que uma década.

Cidadãos em geral, profissionais liberais, empreendedores e empresários começam a se engajar mais nas macrodiscussões. Esse debate nas condições atuais de pressão e temperatura é duro, é difícil, é definitivamente sair da zona de conforto. Mas não há zona de conforto dentro desse desconforto geral.

Não dá para ficar debatendo só no grupo do WhatsApp, do Facebook. As redes sociais podem virar guetos sociais. É preciso sair dos guetos e criar condições para o debate razoável. Que já pipoca aqui e ali, mas, por seu mérito e pertinência, pode se alastrar como água.

Precisamos de pautas unificadoras para o debate razoável. Vamos discutir empregos, investimentos, exportações e produtividade. Vamos explorar como desenvolver novas empresas e apoiar o crescimento das existentes. Vamos trabalhar em regulamentações e desregulamentações que atraiam mais investimentos e atualizem nossas leis.

Precisamos de previsibilidade. E, para chegar lá, só com debate razoável. Precisamos aprender com os nossos erros e os erros dos outros. Chega de ficar discutindo soluções que nunca dão certo.

Quero crer que os próximos anos serão muito positivos desde que a sociedade brasileira busque isso efetivamente e não caia no canto dos populistas.

Vivemos a dor e a beleza das situações extremas. Quando coisas do tamanho dessa crise acontecem, elas têm a força de trazer o melhor e o pior em nós. Será esta a nossa "finest hour"?

O Brasil é uma força da natureza. Basta olhar a nossa natureza, inclusive socioeconômica. Duzentos milhões de brasileiros compõem um mercado enorme, diverso e sofisticado. Devemos comparar o Brasil aos EUA, não à Venezuela ou à Bolívia, com todo o respeito.

Precisamos de perspectivas modernas e novas agendas. De cidadãos que entrem na política com novo olhar e novas práticas.

Contra populistas de toda sorte, a agenda da próxima eleição pode ser a da democracia que entrega, sem truques nem ilusões de almoço grátis.

Nós aprendemos a beber com as ressacas e precisamos aprender com essa ressaca nacional. Eu sou baiano, mas acho que precisamos de alta dose de perspectiva paulista para o Brasil voltar a crescer de verdade.

Comecei a escrever colunas com foco na crise em 2015, compartilhando pensamentos sobre liderança em momentos como esse. Defendi que, diante das grandes dificuldades nacionais, o líder deveria promover mudanças onde conseguia —dentro da sua empresa ou organização. Mas isso não basta.

Quase três anos depois, a crise não arrefece. Essa é uma de suas características mais relevantes. Ela é muito longa. E segue imprevisível.

A melhor novidade são os brotos da recuperação econômica que já aparecem. Como fortalecê-los?

A pauta econômica da retomada do crescimento, também vítima do debate irrazoável e odioso, pode ser o melhor caminho de convergência para sairmos juntos do atoleiro. E, se um entendimento mínimo é o máximo que podemos alcançar nessa era de atritos, ele pode ser o suficiente.

Chega de ódio. Vamos debater com a razão e com o amor pelo país, pelos nossos filhos e pelos nossos netos.




Nenhum comentário:

Postar um comentário