sexta-feira, 30 de junho de 2017

Para o sucesso, é fundamental habilidade socioemocional, diz psicólogo

Erica Fraga - Folha de São Paulo


A inteligência com números e livros não é suficiente para resolver todos os nossos problemas. Segundo o psicólogo Oliver P. John, 58, professor da Universidade da Califórnia (Berkeley), as pessoas estão se dando conta disso, o que ajuda a explicar porque as chamadas habilidades socioemocionais –como empatia, persistência e autocontrole– estão sendo muito debatidas atualmente.

"Ter habilidades socioemocionais é ser inteligente com pessoas", diz John, que participou do seminário "Competências para a vida: onde estamos e aonde queremos chegar", no fim de maio, em Fortaleza.

Para o psicólogo, pesquisador do Instituto Ayrton Senna, um dos grandes problemas da educação é não valorizar nem treinar os professores de forma satisfatória. Segundo ele, os docentes deveriam receber investimentos para atuar como uma espécie de mães e pais substitutos.

"Meus pais brigavam muito, o que não era bom para nós, éramos quatro filhos. Mas eu tinha um professor que era muito calmo, organizado. Com ele aprendi que o mundo não precisava ser um caos", conta.
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Bruno Polengo - 2015/Instituto Ayrton Senna
Oliver John durante evento do Instituto Ayrton Senna
Oliver John durante evento do Instituto Ayrton Senna

RAIO-X: OLIVER P. JOHN, 58

Formação: Graduado em economia e psicologia pela Universidade de Bielefeld (Alemanha) e doutor em psicologia pela Universidade de Oregon (EUA)

Carreira: Professor de psicologia da Universidade da Califórnia e pesquisador e diretor do Instituto de Personalidade e Pesquisa Social

Pesquisa: Os efeitos da interação entre personalidade, fatores ambientais e situações específicas na vida dos indivíduos e na sociedade
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Folha - Por que tem se falado tanto em habilidades socioemocionais?
Oliver P. John - Acho que tem duas coisas acontecendo. Nos Estados Unidos, temos problemas com nossas escolas, temos problemas com o magistério, semelhante aos do Brasil. Nós não valorizamos nossos professores o suficiente e não os pagamos o suficiente.
Tenho muita vergonha disso, mas a professora da minha filha de 10 anos não ganha o suficiente para viver na cidade de Berkeley. Ela mora 45 minutos longe. E ela, de certa maneira, é a pessoa mais importante, porque está com minha criança mais tempo do que eu. Então, eu quero investir dinheiro nessa pessoa, de forma que ela possa fazer um bom trabalho. Como as crianças não estão aprendendo matemática, não estão aprendendo inglês, não estão soletrando bem, as pessoas focam nisso, porque são questões fáceis de avaliar. Portanto, a pressão pelo aprendizado estava nisso.
Mas, se você gasta todo seu tempo em leitura e matemática, não está lidando com outras coisas que têm a ver com relacionamentos, virtude, caráter, cuidar de outras pessoas.
Olhamos em volta e vemos que as pessoas têm todo o tipo de problemas. E não são problemas com matemática, mas com violência, tratar as pessoas mal, ter sucesso nos relacionamentos.
Já nos demos conta de que não conseguimos solucionar nossos problemas só com inteligência. QI não é tudo.
E outra questão nos Estados Unidos é que a psicologia está em ascensão. Se você pensa em biologia e medicina, elas se conectam com a psicologia. A forma como você se cuida hoje vai influenciar seu corpo e a forma como vai envelhecer. A psicologia se tornou mais importante conforme nossas vidas se tornaram mais globais e complexas. Precisamos ser mais capazes de nos comunicar com pessoas que são diferentes.

Há evidência de que inteligência e essas habilidades são coisas diferentes?
Sim. Vou te dar um exemplo. Fui convidado a falar sobre habilidades socioemocionais num congresso cheio de médicos inteligentes. Por que me convidaram? Porque um estudo mostrou que os médicos que têm mais empatia são menos propensos a ser processados.
O problema é que muitos médicos não prestam atenção, não ouvem seus pacientes, não estão realmente interessados. Isso gera problemas. Esses são os médicos que são processados quando há problemas. Por outro lado, se você é um médico com mais empatia, tem mais chance de se comunicar com seu paciente, descobre problemas mais cedo.

O que significa ser inteligente?
Resolver problemas. Significa saber calcular 712.000 dividido por 15. Alguém que seja inteligente com livros, com a vida acadêmica, com fazer testes. Mas tem outras formas de ser inteligente. Ter habilidades socioemocionais é ser inteligente com pessoas. Mas ser inteligente com livros não significa necessariamente ser inteligente com pessoas.

Mas ser inteligente com pessoas te ajuda na vida acadêmica?
Se você tem essa habilidade, você consegue aprender e aplicar sua aprendizagem melhor.
O maior efeito é em outros resultados na vida. Você deve conhecer pessoas realmente espertas que se divorciaram, mas isso pode ser realmente triste para elas. A inteligência delas não as ajudou com isso. Mas, se você tiver habilidades socioemocionais, é mais provável que escolha uma boa pessoa para se casar em primeiro lugar e tem maior probabilidade de fazer coisas que mantenham vocês dois juntos como um casal.
A inteligência tem um grande componente biológico, por isso não é a melhor coisa para tentar influenciar na escola. Você quer influenciar o conhecimento e ensinar habilidades socioemocionais.

Quais são os resultados já mensurados das habilidades socioemocionais na aprendizagem?
O efeito é tão grande quanto o de ter uma mãe com boa formação acadêmica ou não. Para crianças que vêm de contextos desfavoráveis, nos quais a mãe não estudou, o pai é ausente, não há livros na casa, as habilidades socioemocionais são ainda mais importantes porque elas podem compensar essas carências de alguma forma.

Em termos de políticas para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, o ideal seria focar nas famílias ou nas escolas?
Seria muito difícil fazer com que todos os pais mudem. Uma analogia é que o professor é como outra mãe ou outro pai para a criança. Meus professores mais significativos foram os que me ensinaram coisas que meus pais não sabiam ou não dominavam.
Meus pais brigavam muito, o que não era bom para nós, éramos quatro filhos, não tínhamos muito dinheiro. Mas eu tinha um professor que era muito calmo, organizado, tudo com ele era muito lógico. Com ele aprendi que o mundo não precisava ser um caos.
O professor é realmente o agente da mudança, é um multiplicador. Por isso, se eu tivesse dinheiro, o investiria em preparar melhor os professores e ajudá-los a lidar com os adolescentes.

O ensino das habilidades socioemocionais deveria ser incorporado nos currículos como um tópico separado?
Não, acho que isso não funciona. Tem de ser parte da escola. Não acho que todo professor deve entrar nisso, mas a ideia é que muitos professores façam isso.
Por exemplo, o professor de matemática vai ensinar divisão. Em vez de dizer vamos dividir 10 por 4, ele fala que você montou uma banca para vender limonada com quatro amigos e ganhou US$ 10. Depois pergunta como dividir esses US$ 10, que estão em moedas de US$ 0,25, por vocês quatro. Esse é um problema socioemocional, porque você quer que o aluno faça uma divisão justa.

O maior problema é que os professores estão sobrecarregados e ganham mal. O que acontece é que todos os anos dizem "há uma nova orientação", "agora vamos tentar algo novo", e vemos muita excitação. Mas, no próximo ano, há uma nova iniciativa. Então, precisamos ser sistemáticos, consistentes e garantir que todos –toda a escola– vão trabalhar juntos.

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