sexta-feira, 30 de junho de 2017

"Falta de perspectiva é o que provoca a fuga de talentos do Brasil", por Pedro Luiz Passos



Folha de São Paulo


Em mais um efeito preocupante da supremacia da mediocridade sobre as necessidades que se avultam em todas as áreas, o Brasil assiste inerte à fuga de talentos para o exterior.

O desalento leva cientistas, executivos e empreendedores a buscar ambientes mais favoráveis para desenvolver suas potencialidades ou transformar boas ideias em negócios promissores.

O êxodo se estende para o mundo das pessoas jurídicas com um crescente número de empresas transferindo domicílio jurídico para outros países e fábricas para a vizinhança, como o Paraguai.

A diáspora avança no ritmo de evolução da crise. Segundo a Receita Federal, entre 2014 e 2016, período mais agudo na retração da economia, 55 mil brasileiros saíram definitivamente do país, aumento de 82% em relação ao triênio anterior, quando o cenário de recessão ainda não tinha contornos claros.

Nem os sinais de melhoria, registrados a partir do segundo semestre de 2016, parecem suficientes para reverter o quadro.

De acordo com pesquisa realizada pelo Insper e pela consultoria Hays, 66% dos presidentes de companhias aceitariam um convite para viver fora do país. Entre diretores, o índice sobe para 72%. É capacidade técnica e gerencial que se perde. 

No caso das empresas, é o volume de investimentos que se desidrata e, por tabela, trava o crescimento que tanta falta nos faz.

Intercâmbios com o exterior são eficaz instrumento de qualificação e e absorção de tecnologia, condições imprescindíveis para um país se inserir na economia global e no mapa da inovação. Índia e a China, por exemplo, mantêm programas bem-sucedidos voltados para esse fim.

No caso brasileiro, o que se vê é uma via de mão única, na qual empresas e empreendedores rumam para outras terras e lá se estabelecem em definitivo.

A raiz do problema se encontra na falta de perspectivas que se cristaliza na sociedade. Pior: a ameaça à agenda de reformas, como ocorre neste momento com a discussão de novas regras para a Previdência e a legislação trabalhista, reforça o sentimento de fatalismo.

O antídoto, portanto, seria oferecer a visão de um Brasil moderno, com economia dinâmica e políticas de estímulo à inovação e à tecnologia, semelhante ao que se vê em outras partes do mundo.

Ou seja, é necessário reduzir o imenso fosso que nos separa dos padrões internacionais, tanto na economia como na formação da inteligência, cuja deterioração nem sempre é percebida em toda a dimensão, mascarada pelo calor do debate político.

Já vivenciamos momentos nos quais a visão do futuro era embaçada pelas mazelas do presente. E transformamos a solução de graves problemas nacionais em oportunidades de crescimento da economia.

Tome-se o período da hiperinflação entre os anos 1980 e a primeira metade da década de 1990.

A volatilidade de uma moeda sem lastro levou, paradoxalmente, a um intenso desenvolvimento na tecnologia bancária, estimulando a criação de negócios, aprimorando a gestão do setor e desenvolvendo uma geração de executivos talentosos.

Hoje, boa parte das carências em áreas cruciais para o desenvolvimento econômico e social como saúde, educação e segurança tem as raízes em modelos de gestão ineficientes, estruturas sucateadas e tecnologias superadas.

Eis aí um mundo de problemas cujas soluções podem conjugar uma injeção de ânimo na economia com respostas inovadoras e melhorias na qualidade de vida, uma tarefa que cabe às nossas lideranças políticas e empresariais, assim que entenderem os riscos que essa diáspora da inteligência representa para o país.



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