domingo, 11 de junho de 2017

"Passa o cão: napoleões, Pilatos, Habacuque e a ira do profeta", por Vilma Gryzinski

PF faz varredura no plenário do TSE
Templo das cadeiras vermelhas: profissionais e ajudante canino fazem varredura de coisas suspeitas (Roberto Jayme/Ascom TSE/Divulgação)

Veja

Deu raiva? Fúria? Revolta? Calma, foi apenas mais um dia de conhecimentos compartilhados pelos sumos sacerdotes com a plebe ignara. Tem até algumas lições


Anátema: condenação, execração, excomunhão, maldição. No sentido original grego, era o animal oferecido em sacrifício.
O esclarecimento é necessário caso alguém, num caso de extrema distração ou repulsa terminal pela coisa toda, não tenha percebido o que aconteceu no templo das cadeiras vermelhas.
A palavra, carregada de significado religioso, foi invocada por um de seus sacerdotes. O sumo dos sumos estava mais bravo do que general de hospício.
Até gesto de degola fez, uma atitude muito apropriada a um supremíssimo.
Praticamente todo mundo espera que um togado do mais alto nível, um deus do mausoléu niemaryano, saia por aí fazendo isso, tipo normal.
Falou na ira do profeta e certamente sabia do que estava falando. Habacuque, era um profeta tão irado, mas tão irado, que reclamou para o caprichoso e ciumento Deus de Israel durante mais uma das longas provações a que seu povo era submetido: “Até quando, Javé, clamarei e tu não ouvirás?”
Isso que Habacuque nunca conheceu Brasilia. Ou “Brasília”, o cosmos paralelo onde essas coisas acontecem. Ai de ti, Babilônia.
Levar comida para Daniel na cova dos leões, uma das incumbências divinas dadas a Habacuque, foi complicado. Mas já pensaram se o profeta tivesse que sair do repasto com mala de dinheiro e dar a corridinha dos 500 mil?
MASSAS IGNARAS
Além do Livro de Habacuque, deve ter sumo dos sumos lendo Mikhail Bulgakov. Qual outra explicação para a súbita erupção de Pôncio Pilatos, assim, do nada, no templo das cadeiras vermelhas?
Pilatos, só para lembrar, é um dos espantosos personagens de um dos mais espantosos livros da história da literatura, O Mestre e Margarida.
Quem, se não um russo, e um russo da qualidade heróica de Bulgakov, para escrever na primeira pessoa, na pele do primeiro dos romanos, na primeira hora do julgamento, paixão e morte fundadores do Cristianismo?
”A covardia é o mais terrível dos vícios”, escreveu Bulgakov em sua perturbadora, arrasadora e assustadora sátira do stalinismo – sendo este, apenas um dos múltiplos aspectos do Mestre.
Deve ter sido por caridade, para ilustrar as massas ignaras, que os sumos dos sumos falaram de tantas coisas bacanas. A literatura, pelo menos, é de altíssima qualidade.
Também foi interessante ver a convivialidade jovial, quase saltitante, no trato recíproco dos sumos. “Vossa Excelência” para cá, “Vossa Excelência” para lá, piadinhas, brincadeirinhas, demonstrações de ardorosa admiração, juras de amizade eterna. As cadeiras vermelhas quase vergando de tanto ego.
SAUDOSA MALOCA
Abstraindo-se, ainda, o conteúdo, a cenografia também tem seu papel.
Garçons servindo água, suco, suco, água, suco, água, suco. Moderníssimo, parece o Google. O pessoal da Apple também deve ter ficado morrendo de inveja do azáfama dos “capinhas” acorrendo, rápidos, solícitos, refletindo indiretamente o brilho ofuscante dos sumos.
O templo em si é uma espanto, tanto pelo conteúdo quanto pelo continente.
Cinquenta anos antes, teria um certo frescor de Corbusier caboclo. Com um décimo de seus 115 mil metros quadrados, preservaria algum traço remoto de graciosidade, apesar da sintaxe repetitiva.
As ocas invertidas, que o sumo arquiteto colocou na entrada, em mais uma imitação de si mesmo, talvez tenham uma mensagem secreta, vai saber? Talvez cantem por toda a nossa breve eternidade: “Saudosa maloca, maloca querida”. Etc etc.
Outro ritual ilustrativo, chamado “medidas de segurança”, precedeu a celebração dos sumos. Ficou dele a imagem do solitário cão farejador fazendo a varredura de explosivos.
Graças à personagem policial de A Força do Querer, a melhor novela desde a espetacular Avenida Brasil, sabe-se que levar o ajudante canino para farejar coisas suspeitas é um ato chamado pelos profissionais de “passar o cão”.
Não dá vontade de “passar o cão” em todas essas coisas suspeitas? De lançar um anátema? De fazer o mesmo gesto do sumo irado?


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