domingo, 25 de junho de 2017

"Arte e democracia no Central Park", por Dorrit Harazim

O Globo


Entre os literati americanos, a publicação semanal “The Nation”, a mais antiga difusora de ideias progressistas dos Estados Unidos, ainda é cult. Fundada no ano do assassinato do presidente Abraham Lincoln (1865), ela sobreviveu com galhardia a todos os surtos de radicalização política da sociedade.
Em 2015, a revista presenteou seus leitores com uma edição comemorativa pelo 150º aniversário, com textos de convidados de peso. Coube à escritora Toni Morrison, Nobel de Literatura de 1993, contribuir com uma reflexão sobre arte que se tornou um clássico. É universal e não tem prazo de validade.
Em seu texto, Morrisson relembra ter atendido ao telefonema de um amigo no Natal de 2004, pouco depois da reeleição de George W. Bush, e da indignação com que ele ouvira a ladainha de queixas e desânimo criativo da escritora. Interrompeu-a sem piedade:
“Não, não, não e não!”, ouviu dele. “É justamente nas horas de inquietude que artistas precisam trabalhar, e não quando tudo está bem. É isso o que fazemos!” A escritora sentiu-se pequena. Passou a manhã lembrando dos que produzem em gulags, em celas de prisão, no exílio, enxotados, humilhados.
Foi a partir da lembrança desse telefonema que Morrisson escreveu o célebre libelo contra a autocomiseração e o medo que paralisa o artista. É sobretudo quando o discurso político se aprisiona em ódio e foge à razão que o artista precisa encontrar sua razão de ser.
[Nestas ocasiões] “Não há tempo para desesperança, não sobra espaço para a autocomiseração e não é hora de silêncio. O lugar para o medo some. Nos cabe falar, escrevemos, a linguagem é nossa. É desta forma que as civilizações saram. Eu sei que o mundo está ferido e sangra..., mas é crucial recusar-se a sucumbir à sua malevolência. O caos, da mesma forma que o fracasso, contém informação que pode levar ao conhecimento — mesmo à sabedoria. A arte também”.
Na semana passada, o receituário de Morrison pairou o tempo todo sobre o palco do Teatro Delacorte, situado em pleno Central Park de Nova York. Trata-se de uma arena a céu aberto onde, todos os anos, a chegada do verão local é celebrada com sete apresentações de alguma peça do repertório shakespeariano. O tradicional programa é considerado obrigatório e imperdível pelos nova-iorquinos, e comemorado como troféu pelos felizardos que conseguem ingressos — todos gratuitos.
A companhia que há décadas encena essa festança no parque, a Public Theater, tem pedigree consagrado, independe de verbas do governo e não lhe faltam patrocinadores privados de vulto. Sobretudo depois da consagração obtida no ano passado com a criativa “Hamilton”, peça que revolucionou a arte cênica de forma inebriante.
Para a curta temporada de saudação ao verão de 2017 — as apresentações duram uma única semana e a última ocorreu no domingo passado — o diretor artístico Oskar Eustis havia escolhido encenar “Júlio César”. Na verdade, a opção por esta trama específica lhe ocorreu na noite em que as urnas de novembro passado apontaram Donald Trump como o novo presidente da nação.
Apesar de escrita mais de quatro séculos atrás, a peça mantinha a atualidade desconcertante das obras de Shakespeare. Dante do cenário político que se delineava com Trump, porém, Eustis viu no “Júlio César” do Bardo a mensagem mais oportuna e necessária a ser repassada.
Sem esconder a provocação intencional, a direção deu roupagem contemporânea ao imperador romano que, como se sabe, termina assassinado: além de uma cabeleira loura, longa gravata vermelha e terno azul, ele tem uma mulher que fala com sotaque eslavo. De resto, é retratado como um demagogo vaidoso e autocentrado, que manipula com cinismo as paixões de seus seguidores.
A indignação dos partidários do presidente foi imediata. “Trump esfaqueado à morte na apresentação de ‘Júlio César’ no Central Park”, gritou a manchete da publicação de extrema-direita mais próxima do presidente, sugerindo tratar-se de um espetáculo-convite à violência. “Eventos como este são exatamente o motivo pelo qual condenamos a elite de Nova York que glorifica o assassinato de nosso presidente”, retuitou Donald Jr, o filho mais velho de Trump. Também não faltaram tentativas de fazer naufragar o espetáculo com insurgentes subindo ao palco para denunciar a apologia de um crime político real. Sem saber, estavam desempenhando o papel da turba plebeia manipulada por “César”.
Não foram só eles. Tanto a Delta Airlines como o Bank of America, as duas maiores empresas associadas ao Public Theater, retiraram o patrocínio ao espetáculo, alegando não poder associar-se a uma produção que mostra o assassinato do tirano romano travestido em Trump.
Pelo jeito, nenhum deles sequer folheou o texto original durante as aulas de Literatura do ensino médio. Não fosse isso, saberiam o que Shakespeare construiu de forma tão magistral em torno do seu personagem: aqueles que tentam defender a democracia por meios não democráticos acabam por destruir aquilo que lutaram para salvar. O assassinato de Júlio César pelos sete senadores resulta num desastre total para Roma.
Todas as noites, antes da entrada em cena dos atores, o diretor artístico do Public Theater subia ao palco para lembrar o público de que a arte e cultura precisam ter voz nas grandes questões do nosso tempo.
“Assim como a dramaturgia, também a democracia depende do conflito de diferentes pontos de vista. Ninguém é dono da verdade. A cultura pertence a todos nós”, avisou.
E “Júlio César”pertence à humanidade, não a uma interpretação fake da era Trump. Como escreveu o próprio Bardo, na tradução de José Francisco Botelho para a nova edição da Companhia das Letras:
“Em quantos séculos vindouros/ será reencenada a nossa grande cena, em línguas do futuro e em terras por nascer!”
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Tearo Delacorte, Central Park, Manhattan, NY (Foto: Joseph Moran / NYC The Offifial Guide)Tearo Delacorte, Central Park, Manhattan, NY (Foto: Joseph Moran / NYC The Offifial Guide)

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