segunda-feira, 5 de junho de 2017

“A internet é o spoiler da curiosidade”, diz Walter Longo

Revista Exame


Walter Longo, presidente do grupo Abril, durante palestra no Fórum A Revolução do Novo: A Transformação do Mundo

Walter Longo, presidente do grupo Abril, durante palestra no Fórum A Revolução do Novo:
A Transformação do Mundo (Antonio Milena/VEJA.com)

O presidente do Grupo AbrilWalter Longo, acaba de abrir a terceira edição do evento A Revolução do Novo, promovido por EXAME e VEJA com apoio da Coca-Cola.
“Vamos falar aqui sobre um tema que temos discutindo que é exatamente o Trilema Digital. Quem assistiu a série Black Mirror vê nela críticas mordazes a era digital e o seu impacto na sociedade. Meu objetivo aqui não é criticar mas é dizer que precisamos estar alertas sobre alguns desafios que estão à nossa frente”, disse Longo.
Como todo mundo novo, segundo o executivo, o universo digital traz infinitas possibilidades mas alguns desafios muito relevantes. Ele cita três grande tendências que estão preocupando cientistas sociais e tirando o sono de empresários e executivos.
“A primeira característica que deve chamar nossa atenção é a exteligência”, diz. Ou seja, hoje o conhecimento não precisa mais ser armazenado no cérebro se a toque no celular é possível ter acesso a um mundo de conhecimento.
“O problema é que se tudo o que eu tiver que guardar de informações, eu guardar em outro lugar que não o meu cérebro, os neurônios não se conectam e não fazem sinapses. Não há geração insights”, diz.
Como explica Longo, é a partir da referência que se gera repertório que, por outro lado, gera as ideias. “Ora, se eu não tenho nada na minha cabeça, sem dúvida a qualidade  do meu pensamento será reduzida.
Na visão do presidente do Grupo Abril, “sem o combustível do conhecimento embarcado não vamos tão longe”.
A facilidade de obter conhecimento deve ser celebrada: nunca foi tão fácil obter conhecimento e, além disso, nãoé mais necessário armazená-lo no cérebro.
Mas isso resulta na diminuição da curiosidade, segundo o executivo.” Curiosidade está para o conhecimento como a libido está para o sexo, disse Eduardo Gianetti”, disse.
De acordo com ele, estamos vendo uma polarização da sociedade entre os curiosos e os descuriosos. “A internet está tornando os espertos mais espertos e os estúpidos muito mais estúpidos”, disse Longo.
Segundo ele, a curiosidade pode estar se tornando na exclusiva província das elites cognitivas. “As elites não serão mais por dinheiro ou por lugar social e sim capacidade de pensar”, diz. Valter Longo define a internet como o spoiler da curiosidade.
O segundo tema preocupante desse trilema digital é o tribalismo. Antes da era digital, a televisão era dividida entre os membros da família. ” Eu estava sempre frente a frente com escolhas que não eram minhas.” Assistia jogos de futebol de times que eu não conhecia e passei descobrir o prazer o espetáculo esportivo”, diz.
Alguém de esquerda, conta Valter, se deparava com opiniões de direita no jornal, e muitas vezes acabava revisando as convicções. ” O contraditório nos obrigava a revisitar teses para estar constantemente confirmando ou alterando nossas crenças, hábitos e preferências”, diz. Foi assim com a geração X.
Mas hoje isso está acabando. As pessoas só leem o que quer, ouvem o que gostam, só assistem ao que gostam. “A polarização política que a gente enxerga hoje no Brasil tem seu palco nas redes sociais que só reforçam essa tendência maniqueísta”, disse Longo, apontando que o uso crescente de algoritmos torna esse fenômeno mais agudo. “Se entro no Spotify e peço para ouvir pagode, para o resto da vida sempre vão sugerir pagode”, disse.
Na visão dele, estamos assistindo ao fim do contraditório e à perda da opinião. “E isso traz como consequência pessoas cada vez mais sectárias”, diz. Violência e indiferença são riscos desse cenário.
A terceira característica que Longo apresenta dentro desse trilema Digital é o compartilhamento. De acordo com ele, é preciso avaliar qual é o impacto econômico dessa tendência de consumir menos e compartilhar mais.
Menos carros particulares e mais carros compartilhados, menos hotéis e mais casas compartilhadas, menos escritórios e mais espaços de coworking. Essa é uma tendência sem volta mas que traz o risco de criar a desaceleração da espiral econômica. ” Vamos ter aí na frente um desafio”, diz Longo.
Devemos ir em busca disso, na opinião dele, pois é o caminho do consumo consciente. “Novas gerações parecem querer consumir nada mas aproveitar todo”, diz Longo.
Tudo isso é bom, mas há que pensar no impacto disso para a economia, propõe o executivo Já que ninguém em sã consciência é a favor do consumo irresponsável.
De acordo com Longo, devemos e precisamos ser otimistas em relação ao futuro, e por isso ele chama todas as questões de trilema, já que não as vê como problema. A questão que se coloca é enfrentar, analisar e resolver. ” Não adianta achar que está tudo em ordem”, diz.
O mundo sempre se sobressaltou quando surgiram problemas que pareceriam insolúveis, lembra o executivo.”Quando o problema surge somos impactados e não vemos saída.A solução só aparece depois. Se aparecesse antes não existiria o problema”, disse.

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