quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

'A liberdade e a felicidade', por João Pedro Hoerde

 




O motivo de sociedades liberais serem mais felizes que países estatistas

Entre todos os fatores que explicam por que algumas sociedades são mais felizes que outras, poucos são tão consistentes quanto a liberdade. A autonomia individual, tanto em decisões cotidianas quanto na construção de trajetórias de vida, é um preditor central de bem-estar psicológico. Países com maior liberdade econômica e civil tendem a registrar níveis mais altos de satisfação com a vida, confiança interpessoal e senso de propósito.

Fonte: Report Heritage Foundation.

Essa relação aparece de forma clara em décadas de pesquisa. A Teoria da Autodeterminação, uma das mais robustas da psicologia contemporânea, parte da ideia de que seres humanos têm necessidades psicológicas básicas, e autonomia e competência estão entre elas. Quando essas necessidades são atendidas, florescem a motivação, o equilíbrio emocional e o senso de realização. Quando são frustradas, surgem sentimentos de impotência, apatia e alienação.

Ambientes liberais, que permitem escolha e valorizam a responsabilidade pessoal, são mais propensos a satisfazer essas necessidades. Culturas com maior liberdade incentivam um locus de controle interno: as pessoas sentem que podem moldar seu destino. Isso não só reforça a autoestima, como também cria resiliência. Estudos transnacionais mostram correlação estatisticamente significativa entre liberdade econômica e níveis médios de felicidade.

Fonte: Economic Freedom of the World 2023.

A relação é confirmada por outras fontes. O World Happiness Report utiliza a “liberdade para fazer escolhas de vida” como uma das seis variáveis principais que explicam a variação global de bem-estar subjetivo. Entre os países com os maiores índices de felicidade, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Nova Zelândia, Canadá, todos possuem alto grau de liberdade econômica, instituições estáveis, liberdade de imprensa e baixos níveis de corrupção. O padrão se repete anualmente.

Fonte: Our World in Data.

Já entre os países com menor satisfação de vida, frequentemente encontramos restrições severas à liberdade individual, instabilidade jurídica e economias centralizadas. Venezuela, Irã, Zimbábue, Afeganistão, Coreia do Norte. Cada um à sua maneira, todos reprimem a autonomia. As pessoas vivem sob regras que não escolheram, com acesso limitado à informação, à mobilidade e à propriedade. O custo psicológico disso não se traduz apenas em PIB, aparece na forma de desconfiança generalizada, medo crônico e perda de sentido.

Mesmo dentro de democracias estáveis, diferenças na cultura política têm implicações para o bem-estar. Pesquisas longitudinais nos Estados Unidos e Europa revelam que pessoas que se identificam com visões mais liberais ou conservadoras tendem a relatar níveis diferentes de felicidade. Em geral, indivíduos de centro-direita, mais favoráveis à liberdade individual e à responsabilidade pessoal, relatam maior satisfação com a vida do que os de centro-esquerda. Um estudo da Pew Research nos EUA encontrou que conservadores se dizem “muito felizes” com o dobro da frequência dos liberais. Há debate sobre causalidade, mas uma hipótese forte é que culturas que associam esforço ao mérito reforçam a autoestima e o protagonismo, ao passo que visões que enfatizam estruturas opressoras e vitimização reduzem a agência percebida e, com ela, a sensação de controle.

Fonte: Pew Research.

Outro pilar do bem-estar em sociedades mais livres é a valorização da família. Quando o estado não se coloca como tutor absoluto do indivíduo, abre-se espaço para que laços comunitários e familiares retomem sua centralidade. Modelos liberais, ao promoverem autonomia e responsabilidade, acabam atribuindo à família um papel mais ativo na formação de valores, no apoio emocional e no suporte material entre gerações. Esse enraizamento familiar oferece segurança afetiva sem abrir mão da liberdade individual. Em países onde a intervenção estatal é menor e a cultura valoriza o protagonismo dos núcleos familiares, como Estados Unidos e Suíça, observa-se maior coesão comunitária e menor solidão crônica, dois fatores fortemente associados à felicidade de longo prazo. A família, nesse contexto, não é substituída por programas centralizados, mas fortalecida como espaço natural de pertencimento e cuidado.

Autonomia também afeta a forma como as pessoas se relacionam com o estado. Quando o estado assume um papel excessivamente paternalista, o cidadão tende a se infantilizar, esperando soluções de cima, isso gera dependência psicológica. Em contraste, sociedades que equilibram proteção social com incentivos ao protagonismo pessoal tendem a produzir cidadãos mais ativos, cívicos e engajados. A responsabilidade individual incentiva a solidariedade, exigindo que a vida não seja terceirizada ao estado.

A confiança interpessoal é maior em sociedades abertas. Estudos do Fraser Institute e do Heritage Foundation mostram que países com maior liberdade econômica apresentam maiores níveis de confiança mútua. Isso tem implicações práticas: onde há confiança, há mais cooperação, menos burocracia, mais investimento. Confiança reduz atrito social. Ela emerge quando contratos são respeitados, regras são claras e os direitos de cada indivíduo são protegidos.

Fonte: Economic Freedom and Trust.

A liberdade é uma condição objetiva para o florescimento humano. Ela oferece mais do que renda. Oferece a chance de fazer escolhas com dignidade, de tentar e falhar, de buscar sentido em vez de apenas segurança.

Pessoas livres erram, mudam de ideia, trocam de cidade, começam do zero. Essa instabilidade pode parecer arriscada, mas é exatamente nela que se encontra a possibilidade de uma vida com sentido. Não há satisfação duradoura onde não há agência (agency). E não há agência sem liberdade.

Por isso, sociedades liberais oferecem algo precioso: a chance de cada um ser autor da própria história, e, no fim das contas, é isso que a maioria das pessoas deseja. Não um roteiro imposto de felicidade, mas a liberdade de buscá-la por conta própria.


João Pedro Hoerde - Mises Brasil