domingo, 22 de fevereiro de 2026

Rothbard e o papel essencial do empreendedor - Antony Mueller

 



Em seu livro Man, Economy, and State, Murray N. Rothbard investiga não apenas o papel do capitalista, mas também o do empreendedor em uma economia de mercado. Rothbard usa o conceito teórico da economia de rotação uniforme (ERU) para comparar o papel do capitalista com o do empreendedor. Os empreendedores obtêm lucros na medida em que corrigem com sucesso os desajustes na economia real e a aproximam da ERU, sem nunca atingir esse estado.

Economia de Rotação Uniforme (ERU)

A função do empreendedor é analiticamente diferente da do capitalista. Como a economia real, diferente da economia de rotação uniforme, é dinâmica e, portanto, sujeita a mudanças constantes, são necessários empreendedores que sejam ativos em lidar com os desajustes resultantes. Em uma ERU, não há necessidade de um empreendedor, porque não há incerteza. Embora os capitalistas ainda ganhem juros como compensação pela espera de acordo com a preferência temporal, não há lucros nem perdas na ERU. Rothbard usa a idealização da ERU como um contraste com o funcionamento de uma economia real.

O conceito da ERU foi desenvolvido por Ludwig von Mises. Ele descreve um sistema inexistente em que as mesmas transações de mercado acontecem repetidamente. Como tal, não há necessidade de ação empreendedora, porque os preços futuros serão os mesmos que os preços atuais. A ERU descreve uma condição em que os dados de mercado atualmente existentes — avaliações, tecnologia e recursos — permanecem constantes.

Na economia de rotação uniforme, não há incerteza nem risco. Assim, a taxa de retorno líquido é igual à relação de troca entre os bens presentes e futuros, que é a taxa de juros pura. Na ERU, os fatores de produção recebem sua remuneração de acordo com seus produtos marginais descontados. Como o risco e a incerteza estão ausentes na ERU, a taxa de juros reflete a preferência temporal pura. Consequentemente, não haverá lucros e perdas econômicos:

“Em uma economia de rotação uniforme, onde todas as ações do mercado se repetem em um ciclo infinito e, portanto, não há incerteza, o empreendedorismo desaparece. (Rothbard, Man Economy and State, p. 591)”

Embora a ERU tivesse capitalistas, nela não haveria necessidade de empreendedores. Na economia real, porém, ocorrem mudanças contínuas, e uma visão realista da economia reconhece um mundo de ação e mudança.

“As escalas de valores individuais, as ideias tecnológicas e as quantidades de meios disponíveis estão sempre mudando. Essas mudanças impulsionam continuamente a economia em várias direções. As escalas de valores mudam e a demanda dos consumidores muda de um bem para outro. As ideias tecnológicas mudam e os fatores são usados de maneiras diferentes. Ambos os tipos de mudança têm efeitos diferentes sobre os preços. As preferências temporais mudam, com certos efeitos sobre os juros e a formação de capital. O ponto crucial é este: antes que os efeitos de qualquer mudança sejam completamente resolvidos, outras mudanças intervêm. (p. 321)”

A economia de rotação uniforme, como uma construção imaginária, retrata uma economia sem incertezas. Consequentemente, não há lucro nem prejuízo. O empreendedorismo entra em cena como uma função especial para lidar com a incerteza do futuro no mundo real. Os empreendedores obtêm lucro e sofrem prejuízo quando a taxa de retorno de seus negócios está acima ou abaixo da taxa de juros natural. Os mercados competitivos eliminam as empresas que geram prejuízo e abrem espaço para os empreendedores mais capazes de prever as preferências futuras dos consumidores.

Capitalistas e empreendedores

Embora os empreendedores também possam ser capitalistas, sua função é bem diferente.

Diferentemente dos empreendedores, os capitalistas     

“ganham seus rendimentos de juros… fornecendo os serviços de bens presentes aos proprietários dos fatores antes dos frutos de sua produção, adquirindo seus produtos por meio dessa compra e vendendo os produtos posteriormente, quando se tornam bens presentes. Assim, os capitalistas fornecem bens presentes em troca de bens futuros (os bens de capital), mantêm os bens futuros e fazem com que sejam trabalhados até que se tornem bens presentes. (p. 352)”

Os capitalistas mantêm o processo de produção cujo valor, em última instância e exclusivamente, depende do pagamento feito pelos consumidores. Os capitalistas abrem mão de dinheiro no presente para obter uma soma maior no futuro. Os juros que eles ganham dessa forma são o ágio ou desconto sobre bens futuros em comparação com bens presentes. É o prêmio dos bens presentes sobre os bens futuros. A relação entre bens presentes e bens futuros representa a “taxa social de preferência temporal”. “Esse é o ‘preço do tempo’ no mercado como resultante de todas as valorações individuais desse bem” (p. 353).

Os capitalistas suportam o ônus de abrir mão do consumo presente ao gastarem dinheiro agora na produção de bens cuja remuneração final só virá mais tarde, quando os consumidores pagarem pelo produto final. Os capitalistas fornecem seu dinheiro poupado para a produção de bens ao longo de todo o conjunto das etapas de produção, até o ponto em que os bens são vendidos como bens de consumo. Somente depois que o bem percorre todas as etapas de produção e alcança seu estágio final é que os consumidores pagam por ele.

O trabalhador (como um ‘tipo ideal’) não precisa poupar nem abrir mão do consumo presente, porque os capitalistas pagam salários durante todo o período de produção, enquanto o pagamento final pelo bem ocorre apenas no futuro. A função do capitalista é uma função temporal. Os capitalistas adiantam bens presentes em troca de bens futuros.

A contribuição do capitalista para o processo de produção é a poupança e a restrição do seu consumo. Ao fazer isso, eles aliviam os trabalhadores da necessidade de sacrificar bens presentes e de ter que esperar até que os bens futuros se tornem disponíveis. Como proprietários da estrutura de capital, os capitalistas fornecem bens presentes aos trabalhadores. Assim, os trabalhadores recebem sua remuneração no presente, enquanto os capitalistas precisam esperar até que o bem se torne um bem final de consumo.

Papel do empreendedor

Enquanto os capitalistas adiantam recursos até que o consumidor pague pelo produto final, a função do empreendedor consiste em lidar com a incerteza.

Diferentemente do risco, a incerteza é incalculável e, portanto, não segurável. O empreendedor ajusta as discrepâncias que surgem no mercado devido à incerteza em relação ao futuro. Lucro e prejuízo — os retornos empresariais que ficam acima ou abaixo da taxa pura de juros — resultam da função de assumir a incerteza. Os prejuízos sinalizam um mau julgamento empresarial. Em uma economia competitiva, as forças de mercado atuam para eliminar os negócios que geram prejuízo, abrindo espaço para as empresas que são lucrativas graças a uma melhor atuação empreendedora. O capitalismo empreendedor não é uma “economia de lucro”, mas uma “economia de lucro e prejuízo”. Os prejuízos são tão essenciais para essa economia quanto os lucros.

Diferente da taxa de juros pura, que é o resultado da espera, o lucro empresarial é o resultado do enfrentamento bem-sucedido da incerteza. O mundo real é dinâmico. Os eventos e valores futuros são desconhecidos. Eles devem ser estimados. “Como resultado da arbitragem dos empreendedores, a tendência é sempre em direção ao ERU; em consequência da realidade em constante mudança, das mudanças nas escalas de valor e nos recursos, o ERU nunca chega” (p. 510).

Lucros e prejuízos

Não existe uma ‘taxa corrente de lucro’. A taxa de lucro é efêmera e momentânea, e qualquer lucro realizado tende a desaparecer em razão da ação empreendedora. Em contraste, a taxa de juros não desaparece, pois se baseia na universalidade da preferência temporal. No mundo real, lucros e prejuízos estão entrelaçados com os retornos de juros. A separação entre lucro e juros é um recurso analítico.

Na economia de rotação uniforme,

“Todos os fatores de produção são alocados às áreas em que seus produtos marginais descontados têm o maior valor. Esses valores são determinados pelas escalas de demanda dos consumidores. No mundo moderno de especialização e divisão do trabalho, são quase sempre apenas os consumidores que decidem, o que, na prática, exclui os capitalistas, que raramente consomem mais do que uma quantidade insignificante de seus próprios produtos…. Os consumidores, por meio de suas compras e de sua abstenção de comprar, decidem quanto e o que será produzido, determinando ao mesmo tempo as rendas de todos os fatores participantes. E todo homem é um consumidor. (p. 514)”

Os empreendedores obtêm lucros por meio de previsão e julgamento superiores. Para obter lucro, o empreendedor precisa descobrir os desajustes que necessariamente surgem em um mundo em mudança. O agente que obtém lucro reajusta a economia e a aproxima da ERU. Os prejuízos, em contraste, são um sinal de que o empreendedor contribuiu para aumentar o desajuste. A partir disso, Rothbard conclui:

“A quanto maior tiver sido o lucro de um homem, mais louvável é o seu papel, pois maior é o desajuste que ele descobriu e está combatendo. Quanto maiores forem as perdas de um homem, mais criticável ele é, pois maior foi a sua contribuição para o desajuste. (p. 515)”

A concorrência garante que os empreendedores propensos a incorrer em prejuízos sejam forçados a desaparecer do mercado. É por isso que a maioria dos empreendedores em atividade obtém lucros. Contudo, esses lucros só existem na medida em que são a contrapartida de prejuízos. Os lucros são, por assim dizer, “prejuízos evitados”. A função paradoxal do empreendedor consiste em obter lucro ao corrigir desajustes. Os lucros são a recompensa destinada àqueles empreendedores que estimam corretamente os preços futuros e, de acordo com isso, adaptam a estrutura de capital.

Conclusão:

A economia austríaca inclui o capitalista e o empreendedor em sua perspectiva, porque a teoria incorpora o tempo. O capital possui uma estrutura, e a organização dos bens de capital ocorre em etapas ao longo do tempo. Na perspectiva austríaca, o capital tem uma estrutura temporal e, portanto, essa abordagem consegue captar as funções de ambos: a do capitalista e a do empreendedor. A função temporal do capitalista é adiantar recursos àqueles que estão atualmente envolvidos na preparação de bens futuros.

Em certo sentido, a arbitragem do capitalista é a da preferência temporal entre bens presentes e bens futuros, enquanto a tarefa do empreendedor consiste em tentar prever e avaliar o valor dos bens futuros e reorganizar a estrutura de capital de acordo com isso. O campo de ação do empreendedor é a incerteza que acompanha a mudança, e sua remuneração, na forma de lucro, surge como resultado de uma antecipação correta.

Antony Mueller - Mises Brasil