— E aí, curtiu o desfile?
— Desmaiei.
— Uau! De emoção?
— Não. De vergonha.
— Vergonha de quê?
— Sei lá. Me deu um negócio esquisito na hora. Eu tava super animado pra entrar na avenida, mas no que a coisa começou, me deu um revertério.
— Muito calor.
— Demais. Estranho é que calor em geral não dá vergonha, né?
— Não. Pode até desidratar, mas nunca vi ninguém desmaiar de vergonha por causa do calor.
— Esquisito mesmo. No que comecei a cantar aquele “olê, olê, olê, olá” da homenagem, escureceu tudo.
— Teve blecaute na avenida?
— Não. Mas pra mim ficou tudo preto. Como se fosse uma sombra pesada, sabe?
— Eu, hein. Filme de terror.
— Exatamente isso. Terror.
— De onde você acha que veio essa alucinação?
— Parecia uma sombra do passado. E não tinha cara de alucinação. A sensação era muito real.
— Trauma de vidas passadas?
— Acho que era dessa vida mesmo. A sensação era de que eu estava roubando os outros.
— Roubando?! Como assim? Não vai me dizer que você já participou de algum assalto.
— Claro que não. Por isso eu fiquei completamente tonto. De repente, me senti um assaltante, sem nunca ter assaltado ninguém.
— Quer o telefone de um psiquiatra?
— Acho que não vai resolver.
— Por quê?
— Psiquiatra sabe apagar o passado?
— Acho que não.
— Então não adianta. Tenho a impressão de que fui cercado por fantasmas. Eles vieram me trazer notícias de um passado comprometedor.
— Que tipo de fantasma? Da ditadura?
— Fantasma da democracia.
— Existe isso?
— Existe. Fantasma da democracia de fachada. E da censura dissimulada. E da roubalheira desenfreada.
— São vários fantasmas, então.
— Sim. Mais do que você imagina. Tem também o fantasma da mentira oficial. E o da perseguição aos opositores. E o do conluio com a imprensa. E o dos bajuladores de picaretas.
— Bajuladores de picaretas?
— Isso. Acho que foi esse que me fez desmaiar de vergonha. Parecia que eu estava me olhando no espelho.
— Que loucura. Bom, estimo as suas melhoras.
— Obrigado.
— Enquanto isso, tome todas as precauções para evitar uma recaída.
— Que precauções?
— Tire todos os espelhos de casa.
Guilherme Fiuza - Revista Oeste