sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A maior ressaca da Terra, por Guilherme Fiuza

 


Foto: Montagem Revista Oeste/IA

— E aí, curtiu o desfile? 

— Desmaiei. 

— Uau! De emoção? 

— Não. De vergonha. 

— Vergonha de quê? 

— Sei lá. Me deu um negócio esquisito na hora. Eu tava super animado pra entrar na avenida, mas no que a coisa começou, me deu um revertério. 

— Muito calor. 

— Demais. Estranho é que calor em geral não dá vergonha, né? 

— Não. Pode até desidratar, mas nunca vi ninguém desmaiar de vergonha por causa do calor. 

— Esquisito mesmo. No que comecei a cantar aquele “olê, olê, olê, olá” da homenagem, escureceu tudo. 

— Teve blecaute na avenida? 

— Não. Mas pra mim ficou tudo preto. Como se fosse uma sombra pesada, sabe? 

— Eu, hein. Filme de terror. 

— Exatamente isso. Terror. 

— De onde você acha que veio essa alucinação?

— Parecia uma sombra do passado. E não tinha cara de alucinação. A sensação era muito real. 

— Trauma de vidas passadas? 

— Acho que era dessa vida mesmo. A sensação era de que eu estava roubando os outros. 

— Roubando?! Como assim? Não vai me dizer que você já participou de algum assalto. 

— Claro que não. Por isso eu fiquei completamente tonto. De repente, me senti um assaltante, sem nunca ter assaltado ninguém.

 — Quer o telefone de um psiquiatra?

 — Acho que não vai resolver. 

— Por quê?

— Psiquiatra sabe apagar o passado? 

— Acho que não.

— Então não adianta. Tenho a impressão de que fui cercado por fantasmas. Eles vieram me trazer notícias de um passado comprometedor. 

— Que tipo de fantasma? Da ditadura? 

— Fantasma da democracia. 

— Existe isso? 

— Existe. Fantasma da democracia de fachada. E da censura dissimulada. E da roubalheira desenfreada. 

— São vários fantasmas, então.

— Sim. Mais do que você imagina. Tem também o fantasma da mentira oficial. E o da perseguição aos opositores. E o do conluio com a imprensa. E o dos bajuladores de picaretas. 

— Bajuladores de picaretas? 

— Isso. Acho que foi esse que me fez desmaiar de vergonha. Parecia que eu estava me olhando no espelho.

— Que loucura. Bom, estimo as suas melhoras. 

— Obrigado.

— Enquanto isso, tome todas as precauções para evitar uma recaída. 

— Que precauções?

— Tire todos os espelhos de casa.


Foto: Montagem Revista Oeste

Guilherme Fiuza - Revista Oeste