Avanço da direita conservadora na América Latina começa a expurgar Foro de São Paulo
Q uando Donald Trump venceu a eleição americana, em novembro de 2024, analistas se apressaram em dizer que as transformações seriam principalmente internas, em contraposição ao trágico governo do democrata Joe Biden. As repercussões se estenderiam ao Oriente Médio, uma preocupação constante, e à Europa, dada a guerra na Ucrânia. A América Latina ficaria esquecida. A análise, com sério déficit de realismo, porque parada nos anos 1990 do século passado, repetia o mantra da preguiça acadêmica do lado de baixo do Equador: os EUA não se interessam pelo que fica além do México.
Quando, na madrugada de 3 de janeiro deste ano, militares da Força Delta, um grupo de elite do Exército norte-americano, entraram no Fuerte Tiuna, um complexo militar fortificado em Caracas, e capturaram o ditador venezuelano Nicolás Maduro, o mundo já não poderia fingir seu desconhecimento ou insistir em ideologias ultrapassadas. Os EUA estavam de volta e haviam acabado de demonstrar um olhar comprovadamente atento ao continente hispânico e brasileiro. Mesmo que o Brasil mereça notas à parte sobre como os EUA lidam com o país e os atentados aos direitos humanos por aqui, sobre os quais escrevo mais adiante, a realidade na região é outra.
A demonstração de força na operação Absolute Resolve (“Resolução Absoluta”), como foi designada a extração de Maduro, não teve nenhuma baixa americana. Mais que isso, a presença do maior portaaviões da Marinha dos Estados Unidos no Mar do Caribe, acompanhada de uma série de outros navios de guerra da mais poderosa Marinha do mundo, era um recado aos chineses sobre influência regional. Com a Casa Branca ocupada por um presidente que venceu na vida, um dos mais famosos e bem-sucedidos homens de negócio do mundo, o valor da América Latina foi recalculado.
Além do petróleo venezuelano e de todas as riquezas minerais e agrícolas da região, exploradas pelas ditaduras da China, do Irã e da Rússia, o novo cálculo de Washington passou a levar em conta que valores ocidentais, a própria segurança americana e a zona de influência no continente estavam sob crescente risco. A China já não era mais apenas a parceira comercial que comprava commodities e incensava o desenvolvimento econômico da região.
Era uma rival pelo coração e pela mente de governantes e líderes de empresas ao redor do mundo. O Departamento de Estado, hoje chefiado por Marco Rubio, filho de exilados cubanos, fez lembrar que a Crise dos Mísseis, de outubro de 1962, então a maior ameaça à segurança dos EUA, tinha ficado maior, menos visível, mas mais perigosa. Já não bastava uma frota no Atlântico para bloquear navios soviéticos com destino a Cuba. O capital, os interesses e uma simpatia econômica pelos chineses já estavam espalhados por toda a América Latina. Os russos da vez, antes movidos apenas por ideologia, vinham a reboque num projeto de interdependência econômica entre a região e a China muito mais amplo que mísseis balísticos apontados para Miami.
Seria insensato afirmar que os americanos desconheciam o Foro de São Paulo, o movimento populista da esquerda latino-americana liderado pelo PT de Lula e iniciado nos anos 1980, que tomou conta de quase todo o continente sul-americano, além de México e países da América Central. Mas é muito prudente dizer que não o entenderam na sua plenitude, no estrago que poderia causar na economia e na formação educacional da região. Tragédia econômica e gente com baixo nível de educação formal são matéria-prima para a esquerda política. O discurso maniqueísta da igualdade social e a facilidade em manipular pobres sem instrução foram usados à exaustão por governos locais. E mesmo destruindo economias inteiras e elevando dramaticamente os índices de pobreza e dependência estatal, tinham a admiração da falida — desde sempre — esquerda europeia, o que gerava certo verniz intelectual por aqui.
A China excluiu a questão política do negócio e pragmaticamente apostou em soluções econômicas para seus parceiros ideológicos, que ainda citavam Mao Tse Tung em convescotes universitários e viviam gerando pobreza. Investimentos em infraestrutura, compra de empresas locais sob o controle de matrizes chinesas e o consumo em massa das fartas commodities do continente fecharam o quadro da influência de Pequim na região. A eleição de Jair Bolsonaro em 2018, mesmo com farta relação comercial com a China, brecou em parte esse movimento. Sem entender o contexto completo ou mesmo pela forma estridente com que tratava o assunto, a visão do governo brasileiro sofreu resistências internas.
Prevaleciam o interesse econômico de exportadores ou os acessíveis investimentos chineses em infraestrutura. Mas Bolsonaro foi a inspiração de Javier Milei, o presidente liberal argentino que chegou ao poder com uma motosserra na mão e a promessa de cortar gastos e incompetência governamental da esquerda argentina — de Perón ao kirchnerismo — que tinham praticamente dizimado o que outrora fora o mais rico país fora do Hemisfério Norte. Com o país atolado em crise profunda, Milei e seu partido, La Libertad Avanza, fizeram a inflação descontrolada de 25% ao mês cair para 31% ao ano, em 2025, com projeção de 16% anuais em 2026. De déficit crônico, registrou um superávit depois de 20 anos. Com a recuperação da economia, o crescimento do PIB para este ano deve chegar a 5%.
Números de redução da pobreza, mesmo com um forte corte nos gastos públicos, demonstram a virada de chave do modelo baseado em assistencialismo compra-voto da esquerda populista para o crescimento sustentável da economia de mercado da direita técnica, com geração de riqueza coletiva pela aplicação da economia liberal, ou seja, aumento da produtividade e da renda pelo trabalho. Exatamente o oposto do Brasil de Lula, que está destruindo o legado econômico herdado de Bolsonaro.
O governo argentino atual bebe da fonte do liberalismo econômico e da drástica redução da intervenção estatal do ministro da Economia Paulo Guedes, o mais importante da equipe de Bolsonaro. Apesar da pandemia e da inflação global provocada pela guerra na Ucrânia, o Brasil apostou em desburocratização e redução de impostos. Cresceu quase 3% em 2022 e foi um dos primeiros países a sair da crise mundial, com forte atração de investimento externo. Sob Guedes, inaugurou-se o modelo liberal na economia e conservador nos costumes. Milei é hoje a voz mais ativa dessa linha de pensamento e modo de governar na América do Sul. Ao recuperar a economia argentina em um governo de contraste ao populismo kirchnerista, cortar privilégios da casta do funcionalismo público (notoriamente ligado à esquerda), defender valores ocidentais e criticar duramente o movimento woke, tornou-se o mais expressivo líder da região.
A Argentina acaba de fechar um acordo comercial com os Estados Unidos que inclui a redução ou eliminação de tarifas recíprocas de mais de 1,6 mil itens da pauta comercial bilateral, aumentando o acesso da carne argentina ao mercado americano e um acordo específico sobre minerais críticos, como o lítio.
Sob os ventos da liberdade do Norte e o Minuano da Patagônia argentina, a região se reinventa. O Chile expurgou o neossocialista pós-moderno Gabriel Boric, a esquerda caviar que tentou mudar a Constituição chilena. Depois da vitória de José Antonio Kast, do Partido Republicano, em dezembro do ano passado, o Chile se volta ao livre mercado que o projetou ao mundo e vira as costas à decadente agenda populista da esquerda latino-americana. Junta-se ao Paraguai de Santiago Peña, do Partido Colorado, que promove grandes mudanças na economia com significativa atração de investidores brasileiros; ao Equador de Daniel Noboa, da centro-direita Acción Democrática Nacional, que, além do liberalismo econômico, exibe forte agenda em segurança pública; e à Bolívia de Rodrigo Paz, do igualmente conservador e liberal na economia Partido Democrático Social.
A Bolívia talvez seja, além da Venezuela, uma das maiores vítimas da corrupção dos regimes alinhados ao Foro de São Paulo. Em especial pelo aumento exponencial da pobreza, movida a incompetentes e corruptos líderes da esquerda pretensamente milagrosa, que mais se assemelha a um ataque de gafanhotos vermelhos do deletério comunismo latino-americano.
A lista do continente é muito maior. Há ainda Panamá, Costa Rica, República Dominicana e Honduras, além do caso notável de El Salvador, de Nayib Bukele. A linha dura contra o crime transformou o país, antes um dos mais violentos do mundo, em um dos mais seguros do Ocidente, com redução de homicídios em 95%. A alta de 5% do PIB em 2025, acima das expectativas do FMI, veio por forte e consistente atração de investimentos externos depois da percepção da melhora na segurança pública. Em todos esses países, houve eleições democráticas e livres. Foi o voto popular que determinou a mudança.
As grandes exceções desses novos ares são o México, a Colômbia e o Brasil. E enquanto a mexicana Claudia Sheinbaum não abre mão de manter uma relação pragmática com os EUA, o recuo do colombiano Gustavo Petro, que foi à Casa Branca, é uma demonstração externa de que ambos abandonaram o empoeirado discurso antiamericano e se embrenharam em buscar acordos com o governo americano. Em todos os casos, quando o próprio país já não havia abandonado o Foro de São Paulo, houve uma certa conversão diante das evidências da opinião pública interna e da mudança na Casa Branca, o que impacta de modo frontal as relações externas. Os EUA exigiram cooperação no combate ao narcotráfico e maior parceria comercial.
A mão pesada das tarifas americanas ou a ação militar na Venezuela foram recados claros: os regimes populistas de esquerda que empobrecem os latinoamericanos enquanto seus governantes se aliam à China estavam com os dias contados. Uma nova ordem global de conservadorismo nos costumes, eficiência governamental e respeito com o dinheiro do pagador de impostos é um movimento sem volta.
Por fim, o Brasil é um capítulo à parte. Gigante e responsável por metade da economia sul-americana, sobretudo pela segurança alimentar que garante ao mundo, nem os corruptos governos petistas de Lula e Dilma conseguiram quebrar o país. A controversa eleição de Lula em 2022 devolveu o país ao retrocesso econômico com estragos diplomáticos sem precedentes. A pressão americana denunciando crimes contra os direitos humanos de brasileiros, perseguição política e ativismo judicial contra a própria Constituição começou forte. A aplicação da Lei Magnitsky ao ministro do STF, Alexandre de Moraes, a cassação de vistos de outros ministros da Corte alinhados ao governo federal e a aplicação de pesadas tarifas comerciais deram uma esperança de que algo aconteceria por influência externa.
Tudo isso esfriou recentemente quando Trump, indo contra seu próprio discurso, revogou a Magnitsky contra Alexandre de Moraes, a quem seu governo tinha chamado de “violador dos direitos humanos”. Depois do encontro na ONU, em que Trump denunciou o mundo woke e as pautas da esquerda mundial, aproximou-se de Lula, apesar de todas as atrapalhadas — até agressivas — declarações do presidente brasileiro e de seu entorno contra o americano. O retrocesso na defesa dos valores que os próprios EUA defenderam foi surpreendente.
No cálculo frio dos bastidores da geopolítica, a China e o Make America Great Again aparecem como as razões desse movimento contraditório da Casa Branca. O Brasil é peça vital no tabuleiro global e Trump aumentou a pressão sobre o Palácio do Planalto, antes estridente contra os EUA e afável com Pequim. Encurralado pelas tarifas comerciais e pelo parceiro de consórcio, o STF, incomodado com as sanções aos ministros, Lula capitulou. Para salvar o ministro Alexandre de Moraes, hoje um dos principais aliados do governo petista, cedeu com relação às terras raras brasileiras, aceitou se afastar da China, não repetiu mais as ideias do grupo dos Brics — como substituir o dólar como moeda global —, e prometeu cooperação na luta contra o terrorismo.
A lista de concessões do governo Lula, de extensão e detalhes ainda não divulgados por completo, deveria ruborizar os barulhentos petistas que falam tanto em defesa da soberania brasileira. O silêncio da esquerda brasileira é eloquente. A falta de comemoração deles por terem se aproximado de Trump, numa suposta vantagem em relação a Bolsonaro, também. O silêncio, quando constrangido, grita.
O presidente dos EUA, Donald Trump, acompanhado pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e pelo representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, reúne-se com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e outras autoridades, à margem da 47ª Cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), em Kuala Lumpur, Malásia (26/10/2025) | Foto: Reuters/Evelyn Hockstein
Ao Brasil sério que trabalha e produz restam as imagens dos encontros entre Lula e Alexandre de Moraes, cheios de abraços públicos adornados de cochichos seguidos de risos, que não guardam um mínimo de recato e liturgia inerentes aos cargos e respeito à separação de Poderes. É o encontro entre um presidente condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em três instâncias que, mesmo preso, foi reabilitado eleitoralmente por uma manobra estapafúrdia do Supremo Tribunal Federal. A mesma corte que hoje tem dois de seus ministros acusados em escândalos, um deles o próprio Alexandre de Moraes.
Dependendo só de si mesmos, os brasileiros têm a eleição de outubro próximo como o antídoto à realidade perniciosa do país. Só precisam que sejam realmente livres, sem o ativismo judicial de Brasília. Quando votaram nos candidatos às prefeituras, pouco mais de um ano atrás, não precisaram de ninguém para elegerem a direita e o centro numa dura derrota à esquerda e ao PT.