sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

'Arrancar as Fantasias', por Alexandre Garcia

 Do alto da torre de marfim, tapam o sol com a peneira, apostam numa acefalia do povo



Ministro Dias Toffoli em sessão de abertura do Ano Judiciário (2/2/2026) | Foto: Ton Molina/Estadão Conteúdo


Tenho feito um esforço enorme para não falar no Supremo. Fica parecendo samba de uma nota só. Mas jornalista é escravo dos fatos. E fatos viram notícia supremamente importante quando se trata de um Supremo Tribunal. Tudo que se refere a ele fica supremo; supremo desvio, suprema desonra, supremo perigo institucional. Já mostrei aqui o pacote de desvios que se acumularam e as oportunidades perdidas para voltar aos trilhos constitucionais. 

O Senado poderia dizer “não” ao desvio do art. 52, no impeachment de Dilma sem a punição estabelecida, mas as ausências impediram e prevaleceu a solução inconstitucional dada pelos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e do Supremo, Ricardo Lewandowski. Unidos contra a Constituição. E o país também se ausentou. E manteve a ausência a cada vez que a Constituição e o devido processo legal eram atingidos. A mídia não se manifestou e deveria ser porta-voz da nação, como ensina o bom jornalismo. 


Dilma Rousseff diante dos senadores durante sessão de julgamento do impeachment (31/08/2016) | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Depois foi o inquérito inventado por Toffoli e entregue a Moraes. A PGR Raquel Dodge insurgiu-se, mostrou a Constituição, que estabelece o Ministério Público como dono da iniciativa. O espírito de corpo foi mais forte que a procuradora-geral e o “Inquérito do Fim do Mundo” por sete anos vem obrando o fim do Estado de Direito no Brasil. Mas o espírito de corpo está virando alma penada. O Senado poderia ter evitado tudo isso, mas o então presidente, Rodrigo Pacheco, não teve a coragem dos estadistas. Não deu seguimento a requerimentos para investigar e julgar ministros que hoje estão caindo. É responsável pelo agravamento do caos. E quer uma vaga no Supremo. 

Poderia se candidatar a governador de Minas, para ser julgado pelo povo mineiro, que o elegeu para representar o Estado. Depois, Alcolumbre, do União Brasil do conhecido Antônio Rueda, sentou-se em cima dos requerimentos. Agora seu tesoureiro de campanha está enrolado com o Master, na Previdência do Amapá. Sofreu busca e apreensão, mas livrou-se do celular e não estava em casa às seis da manhã, quando a Polícia Federal chegou. Homem previdente, tem bons informantes. A CPMI, contida pela vontade de Alcolumbre, está cada vez mais um vulcão contido, elevando a pressão e sujeito a uma erupção gigantesca. 

Sobre o Supremo, parece haver uma bolha isolando a maioria do país real. Não percebem que a nação já percebeu. O resort e o contrato de R$ 129 milhões já são suficientemente cristalinos e eloquentes para se saber tudo, mas, do alto da torre de marfim, tapam o sol com a peneira, apostando numa acefalia do povo. Ou, como já comentei, crentes que podem voar, os trapezistas exibem evoluções sem rede. Imagine se há outra explicação para R$ 3,6 milhões mensais no contrato que merece registro no Guinness. Ou justificativas para o universo do resort-cassino dos irmãos do “amigo do amigo de meu pai”. Os funcionários do resort sabiam que Toffoli era dono. 

A cunhada de Toffoli sabia que o marido era só um nome no contrato da Maridt — ou Marília/Dias Toffoli. Todo mundo sabia que Toffoli era o dono. Mas só agora ele confessa “participação societária” na “empresa familiar” que, por coincidência, vendeu para o cunhado de Vorcaro e depois foi para o advogado da J&F, a que teve multas de bilhões perdoadas por Toffoli. Santa Cristalina! 


O ministro Dias Toffoli em sessão plenária do STF (12/02/2026) | Foto: Antonio Augusto/STF 

Moraes deve estar torcendo para que o resort com o Master abafe o contrato Guinness do Master. Mas as duas provas já andam sozinhas, não precisam de muletas. Moraes, Alcolumbre e o tal Jhonatan do TCU devem estar estranhando a mudança de rumos na mídia. A culpa, certamente, é do Bolsonaro, mais uma vez. 

Enquanto ele estava sendo perseguido, ninguém notava as movimentações de Vorcaro, do Careca do INSS, de ministros do Supremo, de líderes partidários, de fundos estatais, do Banco de Brasília. Agora, Bolsonaro foi preso e os holofotes viraram-se para aqueles cuja ação, digamos, heterodoxa, faz parte de suas naturezas. Agora até as pedras das ruas ficam falando em advocacia administrativa, obstrução de justiça, promiscuidade, corrupção, omissão, prevaricação. 

A Polícia Federal, numa ação inédita, ousando investigar um ministro do Supremo. E gente imaginando uma implosão no topo do Judiciário. E o Alcolumbre ainda a tentar segurar um vulcão descontrolado. Enquanto isso, a Acadêmicos de Niterói leva para a Sapucaí a esperança em Lula. Este Carnaval pode arrancar as fantasias. 


Alexandre Garcia -Revista Oeste