domingo, 15 de fevereiro de 2026

O tempo violado: juros, inflação e o ciclo econômico austríaco nos trópicos – parte I - Por Marcos H. Giansante


 


Este ensaio adota deliberadamente um tom mais próximo de Friedrich Hayek do que de um tratado sistemático de Ludwig von Mises. A ênfase recai sobre ordem, coordenação, conhecimento disperso e previsibilidade institucional, sem abandonar o núcleo da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos.

Nas economias tropicais, a instabilidade não se apresenta como um evento excepcional, mas como uma condição permanente. Juros elevados, títulos públicos amplamente remunerados e sucessivas inovações financeiras coexistem com inflação persistente, insegurança jurídica e crescente dificuldade de planejamento. O paradoxo aparente é conhecido. Se o rendimento nominal é alto e os pagamentos são realizados, por que a sensação difusa de empobrecimento e desordem se impõe?

A resposta austríaca não se concentra no resultado imediato, mas na estrutura que o sustenta. O problema não reside na ausência de pagamento, mas na deterioração silenciosa das condições que tornam o pagamento possível. Trata-se menos de um fracasso financeiro pontual e mais de uma corrosão progressiva da ordem intertemporal que sustenta o cálculo econômico.

Para a tradição austríaca, os juros não são um instrumento técnico isolado nem um simples incentivo ao investimento. Eles expressam a relação entre presente e futuro, entre poupança real e projetos de longo prazo. Onde essa relação é respeitada, planos individuais dispersos podem ser coordenados sem comando central.

A ruptura ocorre quando os juros deixam de refletir preferências temporais genuínas e passam a responder a necessidades fiscais e monetárias. Estados que operam sob déficits estruturais transformam a dívida pública em regra permanente. O juro elevado deixa então de ser sinal e passa a ser sintoma. Sintoma de desconfiança institucional, risco inflacionário e instabilidade normativa.

Nesse ambiente, a expansão monetária surge não como exceção, mas como mecanismo de sustentação do próprio sistema. Multiplicam-se meios de pagamento sem expansão correspondente da produção. O resultado imediato é uma ilusão de abundância. Projetos parecem viáveis, investimentos são iniciados e gastos se ampliam, não por poupança real, mas por sinais distorcidos.

Esse é o núcleo da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos. Quando o crédito é artificialmente expandido, agentes racionais, respondendo a informações corrompidas, produzem resultados coletivamente desordenados. O erro não é moral nem psicológico. É epistemológico.

Em economias tropicais, títulos públicos frequentemente oferecem retornos nominais elevados e efetivamente os pagam. O engano não está na promessa descumprida, mas na interpretação do ganho. O rendimento elevado é prêmio de risco, não criação de riqueza. A inflação subsequente corrói o poder de compra, distorce preços relativos e compromete decisões futuras.

Mesmo o investidor prudente perde. Perde como consumidor, ao enfrentar preços crescentes. Perde como produtor, ao operar com sinais inconsistentes. Perde como cidadão, ao viver em uma ordem econômica que se torna progressivamente ininteligível.

Friedrich Hayek insistiu que a previsibilidade das regras é condição da liberdade e do planejamento racional. Ludwig von Mises foi ainda mais direto ao afirmar que a instabilidade monetária destrói a base do cálculo econômico. Sem preços confiáveis, a ação humana perde seu eixo coordenador.

O ciclo econômico austríaco, aplicado às economias tropicais, revela algo mais profundo do que inflação ou juros elevados. Revela a violação sistemática do tempo econômico. O presente é financiado à custa do futuro, e o futuro se torna incalculável.

Enquanto déficits estruturais, endividamento crônico e monetização persistirem, retornos elevados continuarão a iludir, e a desordem continuará a se acumular. Nenhuma sofisticação financeira substitui estabilidade institucional, moeda sólida e respeito à coordenação intertemporal.

Este é o primeiro ensaio de uma série. Na Parte II, examinaremos as respostas individuais a esse ambiente, como dolarização, estruturas offshore e a transformação da proteção patrimonial em indústria de compensação inflacionária.


 - Mises Brasil