sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

'O Brasil e a carnavalização permanente', por Flávio Gordon

 “Mamãe, eu quero mamar” é a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por I


“Tudo isso se combina para preparar o terreno para a pompa ruidosa de pseudofestas a serem celebradas ao comando de qualquer despotismo.” (Josef Pieper, Em sintonia com o mundo: uma teoria da festividade)


N ão culpo o leitor que, porventura, atribua a causa desta coluna sobre o Carnaval brasileiro à rabugice e ao envelhecimento precoce do autor. Por um lado, como é de hábito natural, não há dúvida de que estou ficando mais velho. Por outro, tampouco há dúvida de que, assim como até mesmo o mais otimista dos cidadãos, ando um tanto quanto rabugento com a degradante situação sociopolítica nacional. Ainda assim, contudo, posso garantir que minha abordagem do tema não decorre do meu estado de espírito. 

Não é de hoje que o brasileiro se orgulha de sua vocação festiva. Eu mesmo, quando jovem e solteiro, já tive minha fase carnavalesca. Não há aqui, portanto, nenhuma diatribe contra a festa e a alegria. Muito pelo contrário. O problema não reside na alegria — essa disposição fundamental da alma que afirma o ser —, mas na mutação espiritual que a converte em estímulo incessante, em necessidade de excitação contínua, como se o silêncio fosse uma ameaça e o recolhimento, uma forma de fracasso, quase um ato de impiedade. 

Como, aliás, já observei em uma coluna antiga sobre o mesmo tema, o que tem me chamado a atenção no Carnaval no Brasil de hoje é justamente a sua aparência menos alegre e mais extática, como se se tratasse de uma necessidade desesperada de escape. O que outrora era intervalo ritualizado tornou-se uma atmosfera permanente, e o que antes funcionava como inversão temporária converteu-se em paradigma cultural. Falta ao folião contemporâneo a virtude que, sempre inspirado em Aristóteles, São Tomás de Aquino chamava de eutrapelia — o uso moderado do divertimento. 

Historicamente, o Carnaval encontrava sua inteligibilidade no contraste com a Quaresma. A exuberância precedia o jejum; o riso, o exame de consciência; o excesso, a disciplina. A desmedida possuía contorno, e exatamente por isso educava, ao reconhecer tacitamente um limite. A inversão ritualizada das hierarquias — o servo que zombava do senhor, o grotesco que ridicularizava o solene, o homem que se vestia de mulher — durava alguns dias, apenas o suficiente para reafirmar, ao término da folia, a estrutura da ordem. 

O riso, quando enquadrado, fortalecia aquilo que parecia subverter. Mas quando o intervalo se torna permanente, já não há contraste que eduque, nem retorno que reordene. Uma sociedade não pode permanecer saudável quando o rito se converte em rotina. É justamente o que o Brasil fez com o Carnaval. “Mamãe, eu quero mamar” — não é mais um refrão sazonal, mas a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá.


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

Quando se suprime o contraste, suprime-se também o sentido. Em sua meditação sobre a festa, o filósofo Josef Pieper recorda que ela não é mera explosão de energia coletiva, mas afirmação jubilosa da realidade enquanto criação. Celebrar é dizer “sim” ao mundo; é reconhecer, ainda que simbolicamente, que o ser é bom e digno de gratidão. A festa nasce do culto e a ele retorna; é derivada, não autossuficiente. Quando se emancipa dessa moldura ontológica, deixa de celebrar algo que a transcenda e passa a celebrar a si mesma, fechando-se num circuito autorreferente, degradando-se em entretenimento vulgar e daí ao puro hedonismo niilista. 

O Carnaval brasileiro contemporâneo, com toda a sua grandiosidade financeira, tecnológica e midiática, parece ilustrar essa rarefação simbólica: conserva a escala, mas perde a densidade; mantém o volume, mas dissipa o horizonte. Sem Quaresma — não apenas no calendário litúrgico, mas na consciência moral coletiva —, a festa deixa de ser prelúdio e converte-se na ordem social permanente. O excesso já não aponta para purificação alguma, mas limita-se à repetição infinita, convertendo-se em tautologia.

 Resta que esse deslocamento não permanece confinado às avenidas. Infiltra-se na própria forma da vida pública. O episódio do desfile da Acadêmicos de Niterói, financiado com recursos públicos e transformado em homenagem explícita ao mandatário da República, que ali compareceu como figura central da alegoria, não é apenas um crime eleitoral flagrante, mas também um sintoma da nossa carnavalização institucional. 

A oposição anuncia medidas judiciais, por óbvio, mas o tribunal eleitoral companheiro — no qual as togas viraram meros adereços — provavelmente fará o que vem fazendo desde, ao menos, 2022: agir politicamente e favorecer descaradamente o seu próprio partido. Deve-se, contudo, registrar para a posteridade o significado simbólico da cena: o governante convertido em enredo, o poder transfigurado em espetáculo, a cultura absorvida pela coreografia do aplauso.

Não é difícil reconhecer, sob o brilho carnavalesco dos trópicos, uma lógica antiga: aquela em que o Estado e a representação estética se fundem numa pedagogia de exaltação. Regimes totalitários do século 20 — de signos ideológicos distintos, quer fascistas, quer comunistas — compreenderam muito bem o poder da encenação pública como instrumento de legitimação. Nunca se elaborou tanto a liturgia do poder como durante esses regimes, modus operandi ora copiado pelo regime PT-STF-Globo. O que antes era sátira, converteu-se em consagração. Enquanto o carnaval tradicional ridicularizava o poder, o Carnaval do regime PT-STF-Globo o instrumentaliza e exalta.


Lula posa com a bandeira da escola de samba Acadêmicos de Niterói nas mãos - Foto: Acadêmicos de Niterói/Divulgação 

Essa inversão revela algo mais profundo do que um mero abuso de poder político. O grosseiro crime eleitoral cometido traduz uma cultura que já não distingue com nitidez entre representação e propaganda, entre celebração e mobilização, entre arte e aparato. Nessa cultura, tudo é performance, e nada é propriamente sério, uma vez que a seriedade exige forma e contorno. Tudo vira palco, e a própria República se converte em sambódromo. 

E é claro que, numa cultura que celebra sem penitência, os donos do poder tendem a governar sem contenção. Sem Quaresma — isto é, sem um limite reconhecido e interiorizado —, a festa degenera em vertigem e a política, em espetáculo permanente de pilhagem, brutalidade e escárnio. O hedonismo cultural encontra seu espelho na concupiscência institucional, não apenas na forma grosseira da corrupção, mas na erosão difusa do senso de responsabilidade, na incapacidade de reconhecer que o poder, como o riso, precisa de moldura. 

Talvez o traço mais inquietante de nosso Carnaval não seja, portanto, o excesso em si, mas a ausência de horizonte que o justifique. Ele explode, consome e se dissipa, deixando atrás de si não purificação, mas fadiga; não o silêncio dos satisfeitos, mas a expectativa ansiosa pela próxima explosão orgiástica, como um vício que já não produz euforia, apenas dependência. O mesmo se pode dizer de uma política que vive de narrativas grandiloquentes e de encenações simbólicas, enquanto a substância administrativa se dilui e a representatividade colapsa. 

Nada dessa constatação implica qualquer nostalgia de uma ordem ascética ou hostilidade à alegria. A verdadeira alegria, ao contrário da excitação, supõe forma. Ela não precisa de volume para afirmar-se. É possível que uma cultura que perdeu a capacidade de silêncio também tenha perdido a capacidade de júbilo — restando-lhe apenas a compulsão pela algazarra. 

Sem Quaresma, o Carnaval degenera em vertigem. Sem limite, a política degenera em espetáculo. Uma civilização pode sobreviver a crises econômicas e disputas ideológicas; o que dificilmente sobrevive é à dissolução do senso de limite. Sem limite, não há forma; sem forma, não há ordem; e sem ordem, a liberdade torna-se apenas palavra repetida em meio a um ruído que é tanto compulsivo quanto compulsório.


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA


Quando a festa não celebra mais uma realidade reconhecida como boa, ela tende a converter-se em compensação. E a compensação, diferentemente da celebração, carrega sempre um traço de tensão. Talvez por isso o êxtase carnavalesco brasileiro, tanto nas avenidas quanto nos palácios, raramente se pareça com contentamento. Ele se aproxima mais de uma catarse. Como se o país inteiro estivesse tentando, por alguns dias — ou permanentemente — esquecer algo que não consegue nomear. 

Esse algo — um mal-estar fantasiado — pode ser simplesmente a ausência de fundamento. Uma sociedade que perdeu o vínculo com qualquer horizonte transcendente tende a oscilar entre a tecnocracia fria e o hedonismo ruidoso ou, o que é pior, a misturar os dois registros, transformando a administração pública em farra. 

A verdadeira festa, lembra Pieper, é sempre um “sim” ao mundo. Quando esse “sim” se esvazia, resta apenas o eco, sonoro e estridente, de uma afirmação não formulada. Mas o som, por mais estrondoso, pode até abafá-lo na consciência nacional, mas jamais substitui o sentido. 


Flávio Gordon - Revista Oeste