sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando a Moderação se Torna Método: Cientificismo e o prestígio dos especialistas - Sergio Alberich e Marcos H. Giansante

 



A cultura contemporânea atribui prestígio crescente à figura do especialista que evita compromissos explícitos e se apresenta como moderado, técnico e “não ideológico”. Essa postura é celebrada como sinal de maturidade intelectual. Em um ambiente saturado por conflitos declarados, a recusa em escolher parece prudência. A moderação converte-se em virtude pública.

O problema surge quando essa moderação deixa de ser circunstancial e passa a operar como método. O especialista que se abriga na linguagem da técnica, dos dados e dos ajustes finos afirma não impor valores, apenas aplicar conhecimento. Suas recomendações parecem neutras, racionais e inevitáveis. O debate normativo é deslocado. O conflito de princípios é substituído por linguagem de otimização.

Esse deslocamento produz um tipo específico de autoridade. Não se trata da autoridade do legislador, nem da do governante, mas da autoridade do intérprete técnico da realidade. O especialista não governa, orienta. Não impõe, recomenda. Não decide, ajusta. Ainda assim, suas orientações passam a moldar comportamentos, políticas e expectativas sociais.

Esse padrão não é novo, mas assume formas renovadas. Ele reaparece sempre que sistemas complexos são tratados como suscetíveis a correção contínua por expertise. A intervenção não se anuncia como total. Instala-se por etapas, cada uma defensável quando considerada isoladamente. Em conjunto, porém, essas etapas transformam-se em administração abrangente daquilo que não pode ser administrado como projeto racional.

A fascinação contemporânea pela longevidade ilustra bem esse movimento. Cuidados preventivos, atenção metabólica e mudanças de estilo de vida não são problemáticos em si. Eles fazem parte da boa medicina. O deslocamento ocorre quando o cuidado prudente cede lugar à otimização permanente. O corpo passa a ser tratado como sistema administrável, cuja trajetória pode ser continuamente corrigida por dados, monitoramento e intervenção.

Nesse contexto, o envelhecimento deixa de ser condição humana que exige adaptação e passa a ser encarado como desafio técnico. O médico deixa de ser cuidador e se aproxima da figura do engenheiro. A saúde converte-se em projeto contínuo de aperfeiçoamento. O mensurável ganha primazia. O que escapa à métrica perde relevância.

Esse mesmo estilo aparece em outros domínios. Formadores de opinião tecnicamente sofisticados, dotados de linguagem científica refinada, evitam compromissos normativos claros. Apresentam-se como moderados, avessos a extremos, guiados apenas por evidências. A recusa em escolher princípios é apresentada como sinal de superioridade racional. A técnica assume o lugar do juízo.

É nesse ponto que a crítica austríaca se torna indispensável. Ludwig von Mises mostrou que o “meio do caminho” não constitui posição estável, como desenvolveu em Middle-of-the-Road Policy Leads to Socialism. Intervenções introduzidas como correções parciais alteram o próprio sistema que pretendem ajustar, criando novas distorções que passam a justificar intervenções adicionais. O que começa como moderação termina como expansão contínua do controle.

Friedrich Hayek aprofundou esse diagnóstico ao identificar o cientificismo como erro epistemológico, especialmente em The Counter-Revolution of Science. O problema não é a ciência, mas a transferência indevida de seus métodos para ordens complexas governadas por conhecimento disperso, tácito e contextual. Quando dados mensuráveis são tratados como conhecimento total, a humildade cede lugar à arrogância cognitiva. O que não pode ser quantificado é descartado como irrelevante.

Nesse quadro, a moderação desempenha papel decisivo. Ao evitar conflitos normativos, ela permite que decisões sejam apresentadas como exigências técnicas. A autoridade deixa de ser contestável, pois se esconde atrás da linguagem da necessidade científica. O especialista passa a operar como mediador entre conhecimento e poder.

Essa mediação raramente permanece neutra. Ajustes técnicos, padronizações e recomendações “baseadas em evidências” exigem respaldo institucional. A proximidade com o poder político torna-se funcional. Forma-se, assim, uma relação de conveniência: expertise em troca de alcance, legitimidade em troca de deferência. O que se apresenta como cooperação racional assume contornos claros de capitalismo de compadrio.

A moderação, convertida em método, revela então seu verdadeiro papel. Ela não limita o poder. Ela o suaviza. Não impede a expansão do controle. Apenas a torna aceitável, elegante e gradual. Sob a aparência de prudência, preserva a autoridade enquanto dilui a responsabilidade.

As formas mais eficazes de controle raramente se anunciam como radicais. Elas chegam educadamente, envoltas em dados, moderação e linguagem técnica. Não exigem obediência. Solicitam confiança. Avançam não por confronto, mas por acomodação.

Quando a moderação se torna método, ela deixa de proteger a ordem espontânea e passa a servi-la como ornamento retórico. O meio do caminho revela-se, então, não como equilíbrio, mas como inclinação suave em direção ao controle racionalizado da vida social.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.


Sergio Alberich e Marcos H. Giansante - Mises Brasil