quarta-feira, 7 de junho de 2017

Marcos Troyjo: "Até quando vai durar o isolacionismo dos EUA?"

Folha de São Paulo

Abandonar o Acordo Climático de ParisSair do TPP (Parceria Transpacífico). Desmantelar o Nafta (Acordo de Livre-Comércio da América do Norte). Acenar com possível saída da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e da OMC (Organização Mundial do Comércio). Não faltam exemplos para indicar que os EUA encontram-se num processo de "abandonar o mundo".

Quando, em seu discurso que acompanhou a retirada da participação dos EUA do grande tratado do clima, Trump sugere que "foi eleito para defender os interesses do povo de Pittsburgh, não de Paris", o presidente norte-americano oferecia mais uma contribuição àqueles enxergam os EUA isolando-se da comunidade internacional.

Mike Theiler/Xinhua
O presidente dos EUA, Donald Trump, retorna à Casa Branca após anunciar a saída do Acordo de Paris
O presidente dos EUA, Donald Trump, retorna à Casa Branca após anunciar a saída do Acordo de Paris


Vale apontar que esse apego ao isolacionismo, longe de ser algo inventado pela presidência Trump, é algo que acompanha a própria trajetória dos EUA como Estado-nação.

O economista Ian Fletcher, autor de "O Livre Comércio Não Funciona", argumenta com os EUA foram fundados como uma nação protecionista.

Alexandre Hamilton, primeiro secretário do Tesouro norte-americano e cuja face estampa a nota de dez dólares, buscou proteger a nascente indústria norte-americana da superioridade competitiva dos britânicos em fins do século XIX.

Mesmo em meados do século seguinte, Abraham Lincoln, à época parlamentar e mais tarde primeiro presidente eleito à Casa Branca pelo partido republicano, teria dito: "Deem-nos uma tarifa protecionista, e nós lhes daremos a maior nação da terra".

Os EUA em grande medida moldaram sua diplomacia, para além do comércio, no entendimento de que a Europa era causa dos flagelos mundiais e de que nas Américas não havia rival à altura de Washington.

De tal percepção surgiu a famosa Doutrina Monroe —predileção pelo poderio naval nos dois oceanos que banham o território norte-americano. E, fosse a intervenção necessária aqui e ali, o objetivo seria apenas o do restabelecimento de balanças de poder que inviabilizasse o fortalecimento de atores potencialmente hostis aos EUA.

Claro que, com a Segunda Guerra Mundial e suas consequências, tudo mudou. Os EUA foram os principais arquitetos do mundo que dali emergiu. Washington não conseguiu mais sair da arena global. Aliás, Churchill via nisso uma espécie de pré-requisitos para a manutenção de economia de mercado e democracia representativa —pilares da noção de Ocidente.

Muito daquilo contra que a administração Trump se insurge, como a Otan, vem desse mundo moldado pela "superpotência EUA", categoria não utilizado para descrever o país antes da Segunda Guerra. Outras camisas-de-força para os EUA teriam surgido nas presidências "globalistas" de Clinton (1993-2000) e Obama (2009-2017), como o Nafta, o TPP e o Acordo do Clima.

As diretrizes isolacionistas de Trump representam então um reencontro dos EUA consigo próprios? Ao extrair os EUA de algumas molduras político-econômicas, Trump está sendo fiel a seu princípio de colocar a América em primeiro lugar? A busca por afastamento de palcos internacionais é uma tendência que veio para ficar?

Minha impressão é de que não. Se ainda sobrevivem formalmente muitos traços desse isolacionismo na alma norte-americana e eles encontraram plena expressão no fenômeno Trump, os EUA simplesmente não conseguirão mais "sair do mundo". Esta não é um opção.

Na esfera da prosperidade, os EUA são a principal fonte de investimentos estrangeiros diretos (IEDs) e, no fluxo inverso, o segundo maior receptor.

Em termos de comércio internacional, são o maior importador e o segundo maior exportador. Trata-se do país com maior número de empresas multinacionais (EMNs) e partir do qual se estendem as maiores e mais sofisticadas redes globais de valor.

No campo do poder (hard power), os EUA detêm o contingente militar mais espalhado pelo mundo e a única potência realmente dotada de capacidade de intervenção com forças convencionais em diferentes teatros de operação.

Nem é preciso gastar tempo ao salientar que são a mais equipada potência nuclear e a mais instrumentalizada para atuação em guerra cibernética ou intervenções por ar mediante aeronaves do tipo drone comandadas de forma remota.

E, no nível de ativos intangíveis, como a robustez de suas universidades, o apelo da indústria cinematográfica, a sofisticada polifonia de sua opinião pública, o aguerrimento de sua mídia jornalística ou a tecnologia das redes sociais, os EUA permanecem essencialmente globais.

Talvez seja mais correto abordar esse período Trump menos como símbolo irresistível de declínio e isolamento dos EUA e mais como reação espasmódica a uma globalização onipresente —que pode ser esculpida, mas não evitada. Nela, os EUA não são vítimas, mas grande beneficiários.

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