segunda-feira, 12 de junho de 2017

"Macron I, o imperador: com a faca e os 258 queijos na mão", por Vilma Gryzinski

Veja

Depois de tirar uma vitória presidencial do ar, ele consegue mais um impossível com avanço no primeiro turno para o congresso. Agora, vai ter que entregar



Emmanuel Macron
Vai para o trono: todos estão apaixonados por Emmanuel Macron; só falta fazer 
o que é preciso (Charles Platiau/Reuters)

Morar num palácio que já foi de Madame Pompadour, uma das amantes mais famosas da histórias, e dos dois Napoleões – os originais franceses -, deve dar alguma perspectiva histórica.
Em ombros menos resistentes, também pesaria um pouco. Emmanuel Macron, em seu momento de glória, não mexe nem uma franja da pashmina com que foi fotografado fazendo o simples, de bicicleta, na véspera de outra vitória impressionante, a do primeiro turno da eleição parlamentar.
Boa parte dos franceses, e de uma longa lista de bajuladores estrangeiros, está louca de paixão por Macron. Num gesto de confirmação desse amor, seu partido, agora conhecido como LREM (iniciais de A República em Marcha), inexistente até que o tirasse do ar, foi presenteado com quase 32% dos votos na eleição para o legislativo.
A maioria parlamentar, se projetada para o segundo turno, dá a Macron a faca para cortar todos os 258 tipos de queijo mencionados na frase mais famosa do general de Gaulle sobre os problemas de governabilidade da França.

CICLO DE OTIMISMO

Comparar Macron a Napoleão, o primeiro, com uma certa dose de exagero, virou quase normal. Direita, esquerda, centro, todo mundo se derrete diante do conquistador de pashmina. Um jornal de respeito como o Le Figaro, uma ilha de estabilidade na ultra-partidária imprensa francesa, editorializou a vitória na eleição parlamentar: “Macron dinamitou tudo”.
Antes, havia dado o seguinte título a uma reportagem sobre as novidades introduzidas pelo novo presidente no palácio que serve de local de trabalho e de residência presidencial, como a Casa Branca, com a diferença que é um palácio de verdade: “Como Emmanuel Macron sacode as tradições no Eliseu”.
Começa com uma informação de altíssima relevância: o inquieto Macron tem não só um, mas dois gabinetes de trabalho. O segundo fica no quarto transformado em sala que foi da imperatriz Eugenia, a espanhola afrancesada que fazia Napoleão Bonaparte miar de amor.
É um “lugar elegante”, sem os entalhes dourados dos outros ambientes majestosos. “De quatro grandes janelas emana uma doce luz”. Uau. Depois dessa, já pode ir para Austerlitz direto.
O encantamento com Macron abre espaço a algumas pequenas ironias, mas tem um aspecto encantador, e invejável também. É notável a rápida transição do profundo e habitual pessimismo dos franceses para um ciclo de otimismo e esperança.
Baseado por enquanto em expectativas, é verdade. Embora a importância das expectativas nunca deva ser subestimada. Historicamente, os franceses tendem a ser especialmente ótimos para fazer as coisas que acreditam que podem fazer. E péssimos quando acham que não podem.

HECATOMBE SOCIALISTA

As metáforas napoleônicas também são usadas ao contrário, para simbolizar a limpa eleitoral no Partido Socialista, a matriz agora desidratada que gerou Macron e encolheu formidavelmente na eleição legislativa. François Lamy, um dos nomões que sequer se reelegeram, evocou Borodino, a derrota de Napoleão que simboliza o monumental desastre da invasão da Rússia.
E ironizou: “Nesse dia de Borodino para a esquerda, um muito obrigado a François Hollande e Manuel Vals”. Nada como uma briguinha interna para animar as coisas.
Mas o formidavelmente impopular ex-presidente e seu ex-primeiro-ministro têm, sim, a parte do leão na culpa pela hecatombe – outro termo muito usado- do Partido Socialista. Vals pelo menos foi para o segundo turno, ao contrário de Benoît Hamon, o desditado candidato a presidente pelo partido.
A Frente Nacional, de Marine Le Pen, também levou um pancadão, ficando abaixo dos 14% dos deputados. Entre Os Republicanos, o partido de centro-direita que contava com a maioria, outra palavra do léxico de guerra definiu a situação: carnificina.
Tirar um partido do nada, eleger-se presidente, conseguir a maioria para seus candidatos na Assembleia Nacional e virar ídolo internacional, foi tudo, evidentemente, a parte fácil.
A parte tornada um pouquinho menos difícil com a vitória na eleição legislativa começa proximamente. Alguns exemplos: reforma trabalhista e previdenciária, reequilíbrio fiscal, dinamização da economia, modernização de processos administrativos, combate ao terrorismo islamista.
Micron aposta que a base disso tudo passa pelo fortalecimento da União Europeia, através de mais uma bilionária irrigação de euros. Não parece uma abordagem muito animadora ou inspiradora.

PROSTITUTA DO REI

“A cada dia, quero tornar o mundo um lugar mais belo do que encontrei”, dizia Madame Pompadour. Tecnicamente, marquesa de Pompadour, a amante oficial durante sete anos para quem Luis XV comprou o palácio construído em 1720 ao lado dos Campos Elísios, o paraíso da mitologia grega que nomeou uma nova região de Paris.
Jeanne-Antoinette, a cortesã de recursos escassos, com pai exilado por negociatas e mãe avoada, que virou rainha na prática durante vinte anos, foi tudo o que era possível a uma mulher nas suas condições.
Patrocinadora de filósofos iluministas, politiqueira de suntuosos corredores palacianos, sofredora de compulsão acumulativa, inventora de uma dieta de trufas e baunilha para acompanhar a batida do rei na cama, manipuladora do amante a ponto de evoluir para amiga e confidente, ansiosa terminal que não deixava seus fabulosos aposentos com medo de estar ausente caso ele subisse a escada secreta que desembocava neles.
“A prostituta do rei”, dizia uma pichação que apareceu no muro do Eliseu, o palácio que ficava então numa área relativamente nova de Paris e pode ser visto por turistas que fazem compras ou apenas olham as vitrines das butiques na Rue du Faubourg Saint Antoine. A palavra usada não era exatamente prostituta.

ASSESSOR DE IMAGEM

O imperador Macron I, evidentemente, sabe disso tudo. E muito mais. Acompanhou de perto o encantamento dos franceses quando elegeram François Hollande, cuja principal qualidade era não ser o vulgar Nicolas Sarkozy. Como ministro da Economia, viu a tibieza, a falta de objetivos, as manobras frustradas, os recuos – e as palhaçadas da vida privada de Hollande.
Deve saber também que empregar profissionais de imagem para aumentar o nível da bajulação traz vantagens apenas passageiras. “Se Luís o Grande derrubava as muralhas, o céu reservava a seu filho a honra de ganhar as batalhas”, escreveu um assessor de imagem que prestava serviço para Luiz XV. “Grande rei, Londres geme, Viena chora e te admira. Teu braço vai decidir o destino do império”.
Voltaire, o autor de tantos elogios, devia perceber que não teriam grandes repercussões futuras. No julgamento da história, Luís XV é considerado um monarca que enfraqueceu a monarquia e a França, insuflando as incontáveis correntes de ira subterrânea que explodiriam com a revolução. A definição mais conhecida dele é: “Um eterno adolescente chamado para fazer serviço de homem”.
Isola, Macron.

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