segunda-feira, 5 de junho de 2017

Demétrio Magnoli: ‘fadiga dos partidos’ explica Trump e Brexit

Demétrio Magnoli, professor da USP, durante palestra no Fórum A Revolução do Novo: A Transformação do Mundo
Demétrio Magnoli, professor da USP, durante palestra no Fórum A Revolução do Novo: A Transformação do Mundo (Antonio Milena/VEJA.com)
Felipe Machado - Veja
As consultas populares que culminaram na eleição de Donald Trump e na saída da Inglaterra da União Europeia (o Brexit), que surpreenderam muitos analistas, não são decorrentes de desinteresse pela política, baixo nível de educação ou fenômenos isolados. Segundo o sociólogo Demétrio Magnoli, o que une os dois eventos é a expressão do descontentamento de setores que ficaram de fora dos benefícios da globalização e viram no nacionalismo e na extrema direita uma forma de expressar sua insegurança.
O professor da USP abordou o tema durante a palestra “A fadiga na política, a onda nacionalista, a antipolítica e o futuro da globalização”.  A exposição foi parte do fórum A Revolução do Novo – A Transformação do Mundo, promovido por VEJA e EXAME, em parceria com a Coca-Cola, que aconteceu na manhã desta segunda-feira, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
Para Magnoli, o momento é de renascimento do nacionalismo, motivado por fatores como uma crise econômica de grandes proporções e pela sensação de falta de representatividade dos partidos políticos. “Não existe uma fadiga da política, existe fadiga dos partidos políticos tradicionais. É um fenômeno mundial”, diz o sociólogo.
Essas instituições, diz Magnoli, foram tomadas por suas próprias militâncias e levadas a posições políticas mais extremadas. Os eleitores passaram a vê-las como representantes dos próprios interesses, em vez do interesse público.
O sociólogo apontou uma semelhança entre o crescimento do nacionalismo em 1930 e seu ressurgimento na atualidade: uma crise econômica de grandes proporções e que afetou vários países.  No caso do século passado, a grande depressão; mais recentemente, a crise econômica de 2008.
A dificuldade no campo econômico, somada ao baixo crescimento do PIB nos últimos anos, alienou uma parcela significativa de pessoas. “Os ‘órfãos’ da globalização, indignados com a perda de emprego e de renda, escolhem o nacionalismo para enfrentar seus medos”, diz Magnoli.
Ele ressaltou que, tanto na eleição de Trump como no Brexit, os eleitores que mudaram de orientação política e foram decisivos para esses resultados foram os trabalhadores de classe média empregados em indústrias tradicionais. Com a revolução tecnológica, muitos ficaram para trás. Nos EUA, os trabalhadores do Meio-Oeste americano, tradicionalmente ligados a sindicatos e aos democratas, escolheram Trump. Na Inglaterra, redutos tradicionais do partido trabalhista apoiaram a saída da União Europeia.
Segundo Magnoli, uma expressão desse movimento nacionalista é o sucesso eleitoral de  partidos de extrema direita. Eles conseguiram associar, incorretamente, o desemprego e o terrorismo aos imigrantes e se beneficiaram eleitoralmente nos Estados Unidos e na Europa. Assim como o nacionalismo da década de 30, o de agora emerge da soma dos medos. E vence quem consegue criar uma narrativa sobre esse medo, mesmo que incorreta, como no caso dos imigrantes. “Não importa que se constate, depois, que o terrorista mora há décadas na mesma cidade em que cometeu o atentado”, disse.
Para o sociólogo, contudo, esse movimento de radicalização já tem recebido uma resposta das grandes e médias cidades, que têm registrado participação política mais intensa. Esse maior engajamento pode deter uma onda de extrema direita em países como Áustria, Holanda e França. “Já disseram que o Trump seria o coveiro da União Europeia. Ele pode ter sido o salvador dela”, avaliou Magnoli.

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