domingo, 11 de junho de 2017

"Corrupção e ostracismo", por Carlos Heitor Cony

Antonis Nikolopoulos/Reuters
A Acrópole de Atenas, na Grécia
A Acrópole de Atenas, na Grécia


Folha de São Paulo

Durante os oito anos do mandato presidencial de Fernando Henrique Cardoso, critiquei-o quase diariamente, chegando ao ponto de me considerarem inimigo pessoal dele. No entanto, votei nele para a Academia Brasileira de Letras e fui compensado com uma brilhante palestra que ele fez sobre Joaquim Nabuco.

Entre outras verdades, ele acentuou que o Brasil, além de manter o seu regime democrático, devia repensá-lo e não poupou críticas à "democracia representativa", apelando para intelectuais e políticos de primeira linha sem compromissos ilícitos com o poder econômico.

A maior prova de que ele tem plena razão é a crise que estamos atravessando. A dependência integral dos partidos e candidatos às propinas e contrapartidas demonstram que um cheque de R$ 10, um almoço com vinho nobre, um jatinho de pequeno porte para uma viagem pessoal podem derrubar um bom candidato ou eleger um corrupto cinco estrelas.

Antes mesmo da palestra de Fernando Henrique Cardoso, eu já tinha a mesma opinião. Excetuando alguns poucos candidatos que podem bancar as mirabolantes despesas de uma campanha, os próprios partidos não têm dinheiro sequer para pagar o telefone de suas sedes.

Na Grécia antiga, país que inventou a democracia, os eleitores escreviam em ostras os nomes dos políticos que não deviam ser eleitos. Surgiu daí a palavra e o conceito do ostracismo.

Não precisamos dos varões de Plutarco nem de matronas de Éfeso, bastam os candidatos que nada recebem da Odebrecht nem masturbam a classe trabalhadora.

Apesar do respeito que devemos ter pela Grécia, que nos deu Platão, Aristóteles, Homero, a música, o teatro, a filosofia, a beleza de Helena e a coragem de Heitor, devemos repensar a democracia sem guerras, sem propinas e sem ostras.

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