sábado, 17 de junho de 2017

"Barbárie é o preço do analfabetismo político na Venezuela", editorial de O Globo

O legado de 18 anos de poder de Chávez foi o colapso do país, agravado nos últimos quatro anos pela incompetência do herdeiro político do chavismo, Nicolás Maduro


Igrejas da Venezuela se mobilizam hoje na “Marcha da Fé” , evento interreligioso de protesto contra o governo Nicolás Maduro. A oposição marcou para segunda-feira nova marcha em Caracas. A Venezuela derrete em confrontos abertos nas ruas.

O legado de 18 anos do projeto de poder do coronel Hugo Chávez foi o colapso do país, agravado nos últimos quatro anos pela absoluta incompetência demonstrada pelo herdeiro político do chavismo, Nicolás Maduro. A “Revolução Bolivariana” confirmou a advertência de seu principal crítico, o falecido pintor e caricaturista Pedro León Zapata: “Nada mais perigoso que uma revolução armada e analfabeta.”

A exaustão da economia petroleira está expressa no recorde mundial de inflação (800% ao ano). A pobreza domina a vida de 82% dos 32 milhões de habitantes, e avança de forma dramática: uma em cada cinco crianças padece de desnutrição, com taxa de mortalidade infantil (20 por grupo de mil nascidos vivos) só comparável às das zonas de guerra, como a Síria.

Outra faceta do desastre político é a violência. Há uma epidemia de homicídios (82 por grupo de 100 mil habitantes), quase três vezes maior que a brasileira. E, ainda, uma crise humanitária derivada da aguda escassez de alimentos e de medicamentos. A falta de produtos anticoncepcionais, por exemplo, provocou um boom nas esterilizações voluntárias de mulheres jovens, registra a Igreja Católica.

Em meio à ruína, Maduro ainda recita as orações do “bolivarianismo”, com as quais Chávez entreteve parte da esquerda latina, bem remunerada. Não por acaso, o apoio do Partido dos Trabalhadores ao regime chavista, sob os governos Lula e Dilma, rendeu à Odebrecht lucro suficiente para financiar um terço dos US$ 3,2 bilhões em propinas distribuídas em 11 países.

Com o fim da bonança do petróleo, ecoa no caixa vazio a silenciosa retirada dos aliados latinos — PT, Lula e Dilma à frente —, e prolifera a discórdia no chavismo, capitaneada pela procuradora-geral Luisa Ortega Díaz. Antes fiel ao regime, ela tem se destacado pela oposição ao delírio ditatorial de Maduro. Tenta anular a convocação de uma Constituinte, nova manobra para legitimar o autoritarismo. Ortega Díaz não está só, indicam relatos sobre reuniões do alto-comando das Forças Armadas.

O naufrágio da Venezuela alarma vizinhos, já afetados pelas levas de refugiados — em Roraima já são 3.500. “Se não se faz nada, vamos terminar com um mar de sangue” , advertiu nesta semana o presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski. Ele tem razão. É preciso ação urgente, com engajamento dos mais influentes na vida da Venezuela: 

Colômbia, pela dependência econômica, e Cuba, cujos militares detêm — com a bênção de Chávez e Maduro — o controle civil e militar do Estado. A alternativa é assistir à debacle venezuelana na barbárie produzida pelo analfabetismo político.


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