sábado, 3 de junho de 2017

"Ao sair do Acordo de Paris, Trump deu ração aos cachorros", por Demétrio Magnoli

Kevin Lamarque/Reuters
U.S. President Donald Trump refers to amounts of temperature change as he announces his decision that the United States will withdraw from the landmark Paris Climate Agreement, in the Rose Garden of the White House in Washington, U.S., June 1, 2017. REUTERS/Kevin Lamarque ORG XMIT: WAS455
Trump, no anúncio da retirada, na última quinta-feira (1º), em Washington

Folha de São Paulo


Ao anunciar a decisão de retirada do Acordo de Paris, sobre o clima, Trump está dando ração aos cachorros. Na Casa Branca, o magnata dos negócios imobiliários descobriu que os EUA não são sua empresa. Dois sucessivos decretos presidenciais anti-imigração, que discriminam muçulmanos, foram barrados nos tribunais.

O prometido muro na fronteira mexicana permanece na nuvem rarefeita dos projetos. Sob pressões variadas, ele desistiu de abandonar o Nafta. Seus resmungos sobre o "comércio injusto" não se traduziram em ofensiva tarifária contra a China. A Coreia do Norte zomba de suas ameaças de retaliação militar, testando mísseis em ritmo semanal. Era preciso oferecer algumas bolinhas de proteína ao núcleo nacionalista de seu governo.

"Da perspectiva da política externa, é um equívoco colossal –uma abdicação de liderança americana", registrou Nicholas Burns, subsecretário de Estado no governo de George W. Bush. O vácuo aberto por Washington será preenchido: China e União Europeia divulgaram declaração conjunta de renovado compromisso com o acordo.

Essa circunstância distingue a abdicação trumpiana da rejeição do Senado ao Tratado de Versalhes, em 1920. A Liga das Nações nasceu moribunda devido à ausência americana. O Acordo de Paris pode vicejar, apesar de Trump, convertendo-se em símbolo do declínio da influência americana.

"A política global repousa em confiança, reputação e credibilidade, que podem se dissipar facilmente", explicou George Shultz, o secretário de Estado de Reagan. "Se os EUA não honram um acordo global que ajudaram a forjar, as repercussões atingirão nossas prioridades diplomáticas ao redor do mundo", concluiu. A retirada move os EUA para a gloriosa companhia dos dois únicos países não-signatários do Acordo de Paris: Síria e Nicarágua. O nacionalismo isolacionista de Trump, justificado sob o lema de "America First" (América Primeiro, em inglês), empurra os EUA para trás, minando o "soft power" americano.

"A transição para a energia limpa é um dos principais jogos econômicos desse século", alertou Todd Stern, líder da equipe do governo Obama nas negociações do Acordo de Paris. Servindo uma ração gordurosa a seus cães furiosos, Trump ignora apelos de empresas como Apple, Tesla, Goldman Sachs, Citigroup, Exxon e Shell, que apostam em ondas de inovação tecnológica propiciadas pelo salto a uma era pós-carbono, cujos efeitos já emergem na indústria, nos serviços e nas finanças. O presidente alega que, tirando o time dos EUA de campo, coloca "os trabalhadores americanos em primeiro lugar".

De fato, o que faz é trocar muitos empregos do futuro por escassos empregos do passado, concentrados em suas bases eleitorais dos Apalaches e do Meio-Oeste.

"Nem tudo em acordos internacionais é fake news", reagiu um sarcástico Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, à proclamação trumpiana de retirada. Juncker ensinou que o Acordo de Paris não é um motel de beira de estrada: a saída obedece a trâmites complexos e não se concluirá até novembro de 2020, mês da eleição de um novo presidente americano.

A União Europeia e a China deixarão aberta uma porta lateral, para permitir o reingresso dos EUA, quando o país tiver um governo esclarecido. Os cachorros lambem os potes, ainda excitados, sem saber que lhes deram comida velha, de baixo valor nutritivo.

Os EUA não são a Rússia ou a China. O presidente detém prerrogativas extraordinárias na esfera da política externa, mas não de poderes ilimitados. Grandes empresas americanas operarão com parceiros europeus, chineses, indianos e brasileiros no próspero setor da energia limpa.

A Califórnia, junto com outros Estados e inúmeras cidades americanas, comunica que seguirá aprovando leis destinadas a reduzir emissões de gases de estufa. Trump não é um detalhe, longe disso. Mas, enquanto os cães ladram, a caravana passa.



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