quinta-feira, 22 de junho de 2017

"A apatia brasileira (ou A apatia dos brasileiros)", por Rogerio Chequer

Pedro Ladeira - 13.jun.2017/Folhapress
BRASILIA, DF, BRASIL, 13-06-2017, 12h00: Movimento Vem pra Rua faz protesto com coroas de flores em frente ao TSE. 27 coroas foram colocadas, todas com uma faixa com os dizeres: Aqui Jaz o TSE, assassinado por Gilmar Mendes, Napoleao Maia, Admar Gonzaga e Tarcisio Vieira. São os ministros que votaram contra a cassação da Chapa Dilma/Temer no julgamento ocorrido na semana passada. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
Movimento Vem pra Rua protesta diante do TSE; as faixas das coroas dizem: "Aqui Jaz o TSE"


Folha de São Paulo

O povo está revoltado, mas apático. Reclama, está inconformado com o que vê, mas nada faz. Por quê? As causas são diversas, e não exclusivas.

A primeira tem a ver com o processo de limpeza. Quando você faz faxina num lugar imundo, não há como a sujeira não aparecer. Pode ser no pano, na água, no aspirador, mas em algum lugar ela aparece. No nosso Brasil, a sujeira que está vindo à tona surpreende o mais velho dos demônios. Brota de toda parte. Em todas as geografias, elites e poderes. É tanta sujeira que o brasileiro comum não consegue mais acompanhar a velocidade das descobertas, a variedade das investigações, e as maracutaias jurídicas de cada uma. Qualquer um desses escândalos ocuparia o noticiário por semanas, mas temos dezenas deles ocorrendo simultaneamente, enquanto novos aparecem a cada dia. Perdido, o cidadão se sente impotente, e observa a lama que vem de todos os lados subir pelas suas pernas, sem nada poder fazer. A quantidade de sujeira, e sua natureza grotesca, egoísta e inescrupulosa, paralisa.

A outra causa da apatia vem da frustração com a Justiça. O brasileiro sempre soube que as instâncias inferiores, em sua grande maioria, fazem vista grossa aos crimes de colarinho branco e corrupção. Sabe da fanfarronice dos tribunais de contas regionais, que deixam a roubalheira correr a céu aberto, levando para os mais ricos e privilegiados os nossos escassos recursos públicos. Como se tudo isso não nos bastasse, o país agora passa a assistir o inesperado: a politização das cortes superiores, eleitorais e da última linha de defesa, o Supremo.

O povo, já pisoteado, descobre que não pode mais contar com os maiores magistrados do país para fazer justiça aos maiores criminosos da história do Brasil, criminosos esses que qualquer criança já consegue identificar. O vergonhoso processo do TSE (tribunal Superior Eleitoral) demostra que tudo, tudo é possível para safar os mais poderosos de serem presos, depostos ou meramente penalizados. Assistir aos políticos que protagonizaram o maior escândalo eleitoral da nossa geração —Dilma e Temer— saindo ilesos e os juízes que os defenderam fazendo cara de paisagem é a maior humilhação pela qual um povo do bem pode passar. Sem neutralidade na última linha de tribunais do país, o brasileiro toma um golpe fatal na sua outrora eterna esperança. E paralisa.

Talvez a explicação mais simples para a apatia seja cada brasileiro perceber que o esquema é tão grande, tão maior que si mesmo, que ninguém conseguirá resolvê-lo sozinho.

Como lidar com isso? Com uma grande coalizão. Ela vai permitir que os pequenos se tornem grandes. Vai fazer com que se deixe de olhar para baixo, para a lama, e se passe a olhar para a frente e enxergar a borda final do lamaçal se aproximando. E ao olhar para o lado, se vislumbre milhões de brasileiros marchando juntos, rumo ao fim deste triste período de nossa história.

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