sábado, 7 de janeiro de 2017

"Demissão evidencia despreparo de May para o Brexit", editorial de O Globo

Negociador-chefe renuncia por falta de apoio político. Crise gera dúvidas sobre projeto de divórcio, estratégia de negociação e significado da separação

O pedido de demissão de Ivan Rogers, negociador-chefe britânico do processo do Brexit, gerou uma onda de críticas contra a premier Theresa May, acusada sobretudo de não ter um plano articulado para o divórcio com a União Europeia (UE). A saída de Rogers pegou a primeira-ministra de surpresa, demonstrando que seu governo não está preparado para dar início à aplicação do Artigo 50, do Tratado de Lisboa, a cláusula que formaliza a saída de qualquer membro do bloco europeu. A crise causada pelo pedido de demissão também evidenciou que o governo britânico e os políticos pró-Brexit ainda não compreenderam a complexidade e os custos do processo.

Rogers é um diplomata experiente, com profundo conhecimento dos processos políticos da UE e bom trânsito em Bruxelas, credenciais estratégicas para negociar um acordo que minimize o impacto da saída no Reino Unido. A rapidez da nomeação de Tim Barrow — um nome técnico — para substituí-lo, anunciada por Theresa May cerca de 24 horas após o pedido de demissão, foi interpretada como tentativa da premier de demonstrar que tem a situação sob controle, além de evitar pressões de políticos da base aliada para indicar nomes comprometidos com o Brexit, como o eurocético Michael Grove.

Seja como for, o troca-troca na equipe de negociação britânica a menos de três meses do início formal das negociações do desligamento do país da UE, representa uma dificuldade a mais para Theresa May e evidencia que boa parte dos políticos britânicos que apoiam o Brexit não compreendem a complexidade do divórcio e o preço a pagar. O próprio Rogers adotou um tom crítico ao renunciar, conclamando os membros de sua equipe a desafiar “os argumentos infundados e as elaborações confusas” dos políticos que lideram o processo do Brexit. Ele também disse que o governo ainda não definiu as metas a serem defendidas nas negociações com a UE.

Segundo Rogers, a equipe de negociação sofre com falta de estrutura de trabalho e apoio político. Além da inexistência de negociadores especializados e do despreparo dos ministros para liderar o processo, ainda não está claro, disse Rogers, o que, afinal, Theresa May espera obter nas negociações. Em outras palavras, às vésperas do início das conversações formais do Brexit, o governo britânico ainda não tem um projeto objetivo, uma estratégia de negociação e uma clara compreensão do que está em jogo. Sem esses elementos, os negociadores britânicos estão sem liderança.

O Reino Unido, por enquanto, caminha para um futuro obscuro depois que alertas de especialistas foram ignorados ante a miragem de um retorno a um passado heroico e grandioso. As dificuldades de Theresa May são um mergulho no princípio de realidade, bastante útil num ano com eleições presidenciais e legislativas marcadas em Alemanha, França e Holanda, onde correntes do nacional-populismo disputarão o poder, inspirados pelo processo britânico.