domingo, 25 de junho de 2017

"Via de mão dupla", por Marcos Lisboa

Apu Gomes/Folhapress
Alunos têm aula de português em escola pública na zona sul de São Paulo


Folha de São Paulo

Não tenho sido conhecido exatamente pelo meu otimismo. A meu ver, culpa mais das circunstâncias do que da personalidade. Afinal, ninguém escolhe ser diretor de escola a esta altura da vida se for incorrigivelmente pessimista.

Uma escola significa investir para que as novas gerações sejam melhores do que as anteriores. A convivência entre professores e alunos pode ser extremamente rica. Cabe aos mais velhos treinar os jovens nas técnicas e instrumentos analíticos.

Nestes novos tempos, porém, espera-se mais de uma escola. Deve-se atentar para o desenvolvimento de diversas competências, como a capacidade de pensamento crítico e de trabalho em equipe.

As técnicas atuais podem se tornar defasadas nos anos à frente e os alunos bem formados devem ser capazes de se atualizar por conta própria, o que requer "aprender a aprender", como se diz no nosso jargão.

A ênfase em educação é ainda mais urgente em decorrência da demografia. Desde 2005, temos o maior percentual de jovens terminando o ensino médio da nossa história. A partir do começo da próxima década, esse percentual irá se reduzir em um país que começa a envelhecer.

Quanto melhor o seu acesso à educação, maior serão a sua produtividade e a capacidade de geração de renda, para o bem de todos.

Uma escola também obriga os mais velhos a conviver com jovens que se tornam adultos em novos tempos e com novos valores.

Há muito de divertido nesse encontro. Surpreendem-me as muitas barbas e tatuagens, a mania de fotografar a comida e os seguidos selfies. A surpresa denuncia a minha idade tanto quanto o espelho.

Mais importante, a nova geração surpreende pelo seu compromisso com a construção de projetos relevantes. Alguns querem ser empreendedores, outros desejam colaborar com a política pública.

O traço dominante da minha geração foi o individualismo que descuidava da cooperação. Muitos dos jovens, por outro lado, combinam o seu interesse individual com a atenção a problemas que ultrapassam as relações de mercado.

Há uma bem-vinda preocupação com o meio ambiente, com a política pública e com o bem-estar dos demais, além do desejo de deixar um legado.

A política decepciona e os mais dos setores produtivos e das corporações reagem agressivamente à necessidade de aceitar sacrifícios para superar a grave crise. São poucas as vozes dissonantes entre os mais velhos.

Mas há muitas entre os mais jovens, ansiosos por contribuir para o debate, organizando-se em grupos de estudo, pedindo seminários à noite para entender os problemas e saber como podem colaborar para resolvê-los.

Em tempos difíceis, surpreende o silêncio público de muitos da minha geração.

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