
O Globo
Sentimental, arisco, corajoso, oportunista. Em cerca de 60 anos de vida pública, Winston Churchill colecionou adjetivos. Fez inimigos e conquistou admiradores fieis. Tornou-se símbolo da resistência europeia ao unir o Reino Unido contra Adolf Hitler, e, poucos anos depois, foi acusado de não entender a nova realidade do decadente império britânico.
Cinquenta e três anos depois da sua morte, o primeiro-ministro por dois mandatos, sempre citado entre os maiores estadistas do século XX, tem sua trajetória revisitada em produções recentes para o cinema e a TV.
Os primeiros dias de seu primeiro governo são tema do filme “O destino de uma nação”. A operação de retirada de 300 mil soldados acuados pelos nazistas no Norte da França usando embarcações civis, idealizada por ele, é retratada em outro longa-metragem, “Dunkirk”. Juntos, os dois filmes concorrem em 12 categorias ao Oscar deste ano. Na série para a TV “The Crown”, Churchill aparece em seu segundo governo, nostálgico de glórias passadas.
Historiadores entrevistados pelo GLOBO dizem que o interesse crescente por Churchill na indústria do entretenimento tem uma conexão com o atual momento político: a forma como ele uniu e liderou o Reino Unido em situações extremas, como a Segunda Guerra Mundial, contrasta com a fragilidade dos atuais governantes de uma nação divida entre a ligação com a Europa e o fortalecimento do nacionalismo representado pela saída da União Europeia, o Brexit, aprovado em plebiscito em 2016.
Diretor da Biblioteca e Centro Nacional Churchill da Universidade George Washington (EUA), Michael Bishop lembra que o premier começou sua carreira política quando o império britânico estava em seu auge, no início do século XX.
— Foi um político ativo por décadas, que entrou no Parlamento como conservador, bandeou-se para os liberais, e, alguns anos depois, retornou ao seu partido de origem — observa. — Apesar das mudanças, sua visão de mundo era coerente: manter a relevância da Grã-Bretanha mesmo quando o império passou a ser ofuscado por outras potências, principalmente os EUA.
Na primeira metade do século XX, a Europa passou pelas duas grandes guerras, com fronteiras e alianças políticas instáveis. A dominação britânica era crescentemente contestada nas colônias, e o país ainda viveu tormentas como a abdicação do rei Eduardo VIII, em 1938, que passou a coroa para o irmão, George VI, monarca durante os anos da Segunda Guerra (1939-1945).
Professor do Departamento de História e de Relações Internacionais da UnB, Estevão Martins acredita que as turbulências da época contribuíram para alçar Churchill, que antes havia sido ministro para as Colônias, chanceler do Tesouro e ministro da Defesa, ao cargo de primeiro-ministro, em 1940.
— Ele era considerado uma pessoa pouco afável, mas tornou-se uma alternativa quando a Inglaterra passou a ser humilhada pelos nazistas. Desde o início, assumiu o lema: o país apanha, mas não perde. Um exemplo disso foi sua determinação de trazer de volta os soldados presos na França, nem que fosse em barquinhos de borracha.
Segundo Bishop, Churchill costumava visitar bairros londrinos bombardeados para confortar a população. Muitas vezes foi visto chorando entre ruínas. Sua personalidade emotiva, avalia o historiador, contribuiu para que os ingleses se empenhassem na resistência ao Terceiro Reich.
Diretor do Centro de Arquivos de Churchill, no Reino Unido, Allen Packwood sublinha que o então premier soube defender o prestígio britânico no front, mas não conseguiu recuperar o protagonismo mundial da ilha.
— Para Churchill, nenhuma região do mundo tinha o poder acumulado pela Inglaterra na Europa, em seu império e em todas as regiões em que se falava inglês — conta. — No entanto, quando a guerra arrasou o Velho Mundo, e os territórios em outros continentes foram perdidos, ele teve que assistir à dependência cada vez maior que o poder britânico passou a ter de sua relação com os Estados Unidos.
Em julho de 1945, menos de três meses depois da rendição da Alemanha, Churchill perdeu as eleições e deixou o poder. Voltou seis anos depois — e não conseguiu se adaptar às transformações que haviam ocorrido.
RECUPERAÇÃO DA IDENTIDADE
Professora do Departamento de História da Unicamp, Raquel Gomes avalia que Churchill demorou a perceber a nova realidade por causa de suas crenças nos valores imperiais e no modo de fazer alianças políticas do início do século XX:
— Justamente por ser moldado como um homem do império, podemos pensar que boa parte das dificuldades políticas de Churchill no pós-Segunda Guerra passa por problemas de ajuste a um mundo que condena o militarismo e que tenta se reconstruir depois da tragédia humana e política que enfrentou.
Agora, observa Raquel, parte das ideias do ex-premier ganha terreno em meio às frustrações com o presente.
— É curioso pensar que a retomada contemporânea de um “Churchill heroico” seja explicada por movimentos como o Brexit, que dialogam com o retorno a valores que moldaram a experiência política e cultural do império britânico.

Estevão Martins lembra que Churchill foi contrário à entrada do Reino Unido na Comunidade Europeia do Carvão e Aço, criada em 1951 e embrião da União Europeia.
— É uma reação do país a iniciativas como os plebiscitos para a independência da Escócia, ou ainda o surgimento de lideranças que beiram o ridículo — diz, citando o atual chanceler britânico, Boris Johnson, autor de uma biografia sobre o ex-premier e apoiador do Brexit. — Os debates atuais sobre a vida de Churchill estão relacionados à necessidade da Grã-Bretanha de recuperar sua identidade. Ele representa uma mensagem política de força.
Allen Packwood concorda: “Vivemos em tempos incertos e olhamos para o passado em busca de líderes que superaram a adversidade. Por pior que seja, o Brexit não é tão ruim quanto a crise enfrentada por Churchill”.