sábado, 3 de fevereiro de 2018

'Churchill era um estadista que colocava os princípios acima da política', diz historiador


Timothy Riley: visitantes do museu perguntam por que o mundo atual não tem líderes como Churchill - Divulgação/Westminster College


Renato Grandelle, O Globo


Curador-chefe do Museu Nacional Winston Churchill no Westminster College (EUA), Timothy Riley avalia que a popularidade do estatista se deve a um conhecimento singular da História, que pode não estar relacionado especificamente a um partido político — ele começou sua trajetória no Partido Conservador, passou para o Liberal e, depois, retornou à legenda de origem.

Além de circular pelo meio político, Churchill não perdeu o contato com as ruas. Após os bombardeios em Londres, consolava os moradores e completava o apoio moral em discursos inflamados no rádio. Era tão convicto da resistência britânica que um jornalista americano observou: a arma mais potente do ex-premier foi "mobilizar a língua inglesa e enviá-la para a batalha".

Como Winston Churchill conseguiu assegurar que a Grã-Bretanha permanecesse relevante no cenário internacional?
Churchill era um vitoriano, que nasceu na época em que o Império britânico tinha força global. Quando tinha cerca de 40 anos, foi o ministro para as Colônias, tornando-se o responsável por criar o mapa moderno do Oriente Médio, incluindo o estabelecimento do Iraque. Para muitos políticos, este seria o maior trabalho de suas vidas. Não para Churchill. Esta foi apenas uma de suas muitas ideias sobre os "Estados Unidos da Europa", assim como investiu em uma "relação especial" com os Estados Unidos durante a Guerra Fria. Churchill via o mapa geopolítico como pintor. Ele sabia que a sombra de uma parte do mundo poderia esfriar o resto do globo, enquanto a luz refletida em outra poderia levar a "amplas terras iluminadas pelo sol". Como estadista, ele era um visionário.

Como podemos definir o posicionamento ideológico de Churchill?
Em 1954, ele disse: "Para mim, eu estou um otimista. Não faria sentido ser qualquer outra coisa". Winston Churchill era um estadista que colocava os princípios acima da política. Ele entrou no Parlamento como um conservador, mudou para o Partido Liberal, depois voltou para os conservadores. Isso foi frustrante para seus colegas.

Como ele manteve contato com a população durante a guerra?
Ele tomou decisões históricas em seu gabinete de guerra, que garantiram a proteção dos Aliados contra Hitler. Mas também foi para a rua para conversar com o povo em meio à destruição, após os ataques da Lutfwaffe (a Força Aérea do Terceiro Reich). Consolou as pessoas, deu força à nação. E, o que é ainda mais importante, discursou no rádio, mantendo o povo informado e inspirado. O jornalista americano Edward Murrow afirmou que "mobilizar a língua inglesa e enviá-la para a batalha", foi a arma mais potente do ex-premier.

Churchill conseguiu se adaptar às mudanças que ocorreram no mundo entre 1945 e 1951, quando foi reeleito primeiro-ministro?
Em 1945, poucos meses após a vitória dos Aliados na Europa, houve uma eleição geral na Grã-Bretanha. Mesmo antes de vencer a guerra, Churchill perdeu o pleito. Ele manteve-se como líder da oposição até 1951, mas, durante este período, fez uma série de discursos extraordinários. Em Zurique, por exemplo, falou: "Que a Europa se erga!", pavimentando o caminho para a recuperação da Europa no pós-guerra e delineando a política que venceu a Guerra Fria. Foi, portanto, uma época incrível para ele.

Por que Churchill está atraindo atenção recentemente?
Sua visão, liderança e compreensão da História — a sabedoria de pesquisar o passado para tomar decisões, com a esperança de criar um futuro melhor — é algo em que não vemos o suficiente no mundo de hoje. No museu, ouvimos quase todos os dias os visitantes murmurarem: "Por que não temos hoje líderes como Churchill?". Em um mundo tão dividido, procuramos coisas que podem nos unir, que evitem que nos separemos. Estamos procurando o que ele definiu como "sustentáculos da paz". Poucos líderes hoje possuem essa visão. Nenhum parece ser capaz de articular essa marca de otimismo com uma força parecida.