
Suíço é o primeiro tenista a conquistar a marca de 20 Grand Slams; último foi no domingo passado, na Austrália
Após sacar uma diagonal que o croata Marin Cilic rebateu na rede, encerrando com um 3 a 2 a final do Aberto da Austrália 2018, o suíço Roger Federer foi até o meio da quadra e, antes de cumprimentar o adversário, abaixou a cabeça e apoiou as duas mãos no joelho. Ficou cerca de cinco segundos assim.
Depois, o campeão levantou os olhos, mirando em algum lugar acima das arquibancadas, e agradeceu a alguém lá em cima — talvez, a ele mesmo. Era seu sexto título em Melbourne e o 20º em torneios do Grand Slam, recorde obtido após ter sido quase descartado do circuito das competições de alto nível. Há mais ou menos dois anos, acreditava-se que estava em uma curva descendente que, em pouco tempo, o levaria a se espatifar no fundo do poço. Mas Federer quicou.
A palavra que o mundo escolheu para explicar o que aconteceu com Federer é reinvenção.
— Os fatores negativos que travam a performance são a dor, o constrangimento e o medo — diz o coach Paulo Vieira, que trabalha com atletas e é autor do best-seller “O poder da ação”.
A dor, o constrangimento e o medo provavelmente entraram na vida de Federer em julho de 2016, quando estava dando banho em seus filhos mais novos e tomou um tombo que quase inutilizou seu joelho. Parecia o fim. Naquele momento, ele já estava há quatro anos sem ganhar um torneio de grande expressão.
'É FUNDAMENTAL ACREDITAR EM SI'
Em janeiro de 2017, quando voltou a jogar, ocupava a 17ª posição no ranking da ATP, a pior desde 2003, ano em que começou a colecionar troféus. E foi naquele mesmo janeiro — quando surpreendentemente venceu o Aberto da Austrália — que deu os primeiros sinais de reinvenção. Federer — um viciado em títulos — tinha que voltar a vencer.
Quando ele começou a faturar títulos importantes, em Wimbledon 2003, Beyoncé lançava seu primeiro sucesso, o peixinho Nemo era procurado no fundo do mar e George W. Bush estava encalacrado com a invasão ao Iraque. De lá para cá, viu apenas outros três tenistas (Rafael Nadal, Novak Djokovic e Andy Murray) ocuparem o lugar mais alto do ranking da ATP — mas nenhum ficou tanto tempo por lá: 302 semanas. Ter despencado para a segunda página do ranking feriu de morte seu orgulho.
— No esporte, é fundamental acreditar em si — afirma Marcos Eduardo Neves, biógrafo de jogadores como Heleno de Freitas e Renato Gaúcho.
O mundo dos esportes tem exemplos clássicos de reinvenção. Ronaldo Fenômeno, quando saiu de uma contusão gravíssima que quase destruiu seu joelho para ser campeão do mundo em 2002, reinventou-se. Diego Hypólito, que caíra de bunda em uma Olimpíada para ser medalha de prata em outra, também. A saltadora Maurren Maggi, que saiu da suspensão por dopping para uma medalha de ouro, fez a mesma coisa. O piloto Niki Lauda teve metade do corpo queimado quando sua Ferrari pegou fogo em 1976 e, no ano seguinte, foi campeão mundial. Federer encontrou nas críticas o combustível para dar a volta por cima. “Cada vez que as pessoas me descartam, ou tentam me descartar, sou capaz de me recuperar”, disse certa vez.
A volta por cima de Federer é resultado de um plano que junta o óbvio talento pessoal a um rigoroso treinamento físico e mental. Ele contou ainda com conselhos estratégicos do amigo brasileiro Jorge Paulo Lemann (“Não jogue para a plateia, jogue para ganhar”) e a consultoria informal do técnico de vôlei José Roberto Guimarães, que lhe apresentou o mundo das estatísticas, mapeando também o jogo dos adversários. Como complemento, Federer passou a usar a tecnologia para dar ainda mais qualidade na batida da bola.
Por fim, no último ano, o tenista, que tem dois pares de filhos gêmeos, escolheu os torneios de que deveria participar (não virá ao Rio Open, por exemplo), poupando fôlego e tempo para a família.
Após a vitória na Austrália, Federer afirmou que a idade para ele é apenas um número.
Depois, agradeceu à família, à equipe e chorou como um menino de colégio. Aos 36 anos, fora um aprofundamento das entradas na fronte, pouca coisa mudou. A mesma estatura, o mesmo peso e a mesma vontade de vencer.
A reinvenção para Federer é sutil, interna, quase uma jogada de efeito, mais ou menos como a frase de Lampedusa de que as coisas precisam mudar para permanecer como sempre estiveram. Há nove anos está casado com a mesma mulher, a eslovaca Mirka Vavrinec. Só a conta bancária está em permanente mudança: pulou para a casa dos US$ 64 milhões ao ano em 2017.
Pelas contas de sua equipe, já em março, um outro Federer, reinventado, deverá retornar ao topo do ranking. (Colaborou Gustavo Loio)