terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

João Pereira Coutinho: "Se o Oscar ficará na história será pela gafe e pelas críticas a Trump"


Binho Barreto/Folhapress
Folha de São Paulo


Todos vamos lembrar o Oscar de melhor filme em 2017. Por causa de uma gafe. Injusto para "Moonlight"? Talvez. Mas a obra de Barry Jenkins, com uma história poderosa, é afogada em sentimentalismo fácil e uma estética de videoclipe que nunca me convenceu. Digo mais: se não fosse pela gafe, o Oscar de 2017 seria igual ao de 2016.

Eis o ponto: qual foi o melhor filme do ano passado? Pense um pouco. Mais um pouco. Chega. Sem Google, nada feito. Então procuro. Foi "Spotlight". Sim, tenho memórias vagas: outro filme mediano sobre jornalistas e padres pedófilos. Mas, aqui entre nós, uma obra-prima?

Não minta. Aliás, quando foi a última vez que Hollywood abençoou uma? Recorro uma vez mais à sabedoria do dr. Google: desde a virada do novo século, é zero mesmo. O histórico é tão medonho que a pergunta deve ser formulada ao contrário: quando foi que Hollywood não premiou aberrações completas, como "Quem Quer Ser um Milionário?" ou "Chicago"?

Talvez em 2005, com "Menina de Ouro", um bom filme que está longe do melhor de Clint Eastwood. Até porque, falando no bicho, qualquer cinéfilo exigente sabe que a última vez que o Oscar acertou foi em 1993, 24 anos atrás, com "Os Imperdoáveis", uma elegia ao western que ficará na história do cinema americano.

Se o Oscar deste ano ficará na história será pela gafe, pelas críticas a Donald Trump (previsíveis) e pela busca de "diversidade" (leia-se: mais negros) entre os indicados.

Era quase inevitável. A revista "The New Yorker", insuspeita de inclinações "conservadoras", conta as mudanças: em 2016, o mundo desabou sobre a Academia ("Demasiado branca!") e perguntou: "Onde estão os negros?".

Pergunta absurda. A pergunta certa, para quem confunde arte com engenharia social, deveria ser "Onde estão os hispânicos?", que em termos demográficos excedem a população negra.

Mas houve mudanças, repito: a presidente (negra) da Academia, Cheryl Boone Isaacs, olhou para os 6.000 membros do clube e decidiu fazer pequenas limpezas na lista. Com direito de voto, só ficaram antigos indicados ao troféu, membros ativos da indústria nos últimos dez anos ou então pessoal com 30 anos de carreira (mínimo). Confirma-se: o único preconceito socialmente aceitável é mesmo a gerontofobia.

Além disso, entraram novos membros (683) e as cifras não mentem: 41% são "não brancos". O caso não é inédito, explica a revista: desde o início dos prêmios houve purgas na demografia votante.

A primeira premiou os "talkies" sobre os "silents" (na década de 1920, era preciso enterrar o cinema mudo e promover o sonoro). A segunda premiou os "hippies" sobre os "squares" (na década de 1960, a contracultura era, na verdade, a cultura dominante).

Hoje, Hollywood apenas se adapta à "política de identidade" que domina as boas consciências liberais. Por mim, tudo bem. Desde que a "identidade" ofereça ao mundo o que já não se vê há 24 anos: grande arte. Será possível?

Duvido. Não por razões artísticas ou filosóficas. Por razões demográficas. Anos atrás, li um importante estudo de Edward Jay Epstein ("The Hollywood Economist") que recomendo a qualquer interessado. Contava Epstein que, em 1948, 90 milhões de americanos (2/3 da população) frequentavam salas de cinema semanalmente; em 1958, o número reduzia-se para metade. A televisão já tinha feito os seus estragos.

Em 2010, ano da publicação do livro, só 30 milhões (10% da população) mantinham o hábito. Consequências? Duas. Os estúdios, na hora de investir, optam por projetos que possam ser rentáveis para além da bilheteria (DVDs, jogos, "merchandising" etc.). E a televisão (e a internet) recebeu o "crème de la crème" da criatividade cinematográfica (e, claro, consumidores mais exigentes e adultos).

Escrevi que o Oscar não acerta há 24 anos. Mas basta olhar para o Emmy, o premio da televisão, para ver como ele acerta quase todos os anos. Melhor ainda: o Emmy começou a acertar –"The West Wing", "The Sopranos", "Seinfeld"– quando o Oscar começou a falhar.

Foram semanas e semanas de excitação adolescente com o Oscar: notícias, reportagens, matérias, análises.

Uma excitação sobre o vazio.

Em 2018, quando alguém perguntar qual foi o melhor filme no Oscar de 2017, só mesmo a gafe salvará Hollywood do esquecimento.

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