domingo, 15 de março de 2026

Desconstruindo as notas da mulher de Alexandre de Moraes, por Mário Sabino

'Gente que acha que não deve satisfações a ninguém é muito ruim quando se vê obrigada a fazê-lo'


O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e sua mulher, a advogada Viviane Barci, que assinou contrato com o Banco Master - Foto: Beto Barata/PR


Depois que a casa caiu com a descoberta da conversa estarrecedora entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, no dia da primeira prisão do estelionatário, a doutora Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF, decidiu dar satisfações sobre o seu contrato com o Banco Master. As satisfações não satisfazem. 

Vamos à primeira por ordem de relevância: 

Em nota de esclarecimento à imprensa que a doutora Viviane divulgou na segunda-feira 9, ela afirma que o seu escritório fez 94 reuniões de trabalho com o Master e confeccionou 36 pareceres para o banco. O comunicado diz que a sua equipe atuou na área de compliance do Master, ajudando a estruturá-la. A piada já veio pronta, nada a acrescentar.

A nota também afirma que, para além dos trabalhos para a área administrativa do banco, os causídicos auxiliaram na “análise consultiva e estratégica de inquéritos policiais”, sem nunca ter representado o banco perante o STF. Não há explicação sobre a quais análises e estratégias o escritório se ateve. 

Quem redigiu a nota fez um esforço tremendo para esticar o texto ao máximo, como se cada linha a mais pudesse justificar cada milhão embolsado pelo escritório. Veja-se o seguinte parágrafo, um clássico master de encheção de linguiça:


“Elaboração e apresentação de processos para certificação de ética e governança, com mapeamento das atividades, levantamento de documentação-base, análise das oportunidades, elaboração e revisão e  treinamentos do público-alvo sobre as novas políticas, a partir da revisão do Código de Ética e Conduta, políticas de integridade, estruturação do departamento de compliance e apoio à alta administração.” 


De advocacia mesmo, tem-se “atuação contenciosa específica em ação penal, cujo ajuizamento ocorreu em 17/10/2024, e inquérito policial federal específico, cuja habilitação se deu em 8/4/2024”. 

As tarefas da mulher de Moraes 

Vamos fazer uma continha de padeiro pelo lado das quantidades ressaltadas pela nota: 94 reuniões, 36 pareceres e duas atuações, uma em ação penal e outra em inquérito policial, em 22 meses de trabalho, de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, período que consta na nota de esclarecimento. 

Portanto, ao todo, entre reuniões, pareceres e atuações elencados na nota de esclarecimento,132 tarefas foram executadas.

Muito bem, o valor total do contrato de três anos era de espetaculares R$ 129 milhões (não há menção a dinheiro na nota); mas, como o Master foi liquidado, calcula-se que o escritório da doutora Viviane tenha recebido R$ 79,2 milhões, visto que a quantia mensal prevista no acordo era de R$ 3,6 milhões.

Deixando de lado as especificidades e os diferentes graus de complexidade das tarefas, visto que são as quantidades que interessam aqui, isso significa que cada uma saiu pelo preço médio de R$ 600 mil, valor de apartamentos de médio padrão em São Paulo. 

É um preço que só existe no mundo que parecia maravilhoso de Daniel Vorcaro, um especialista em fazer amigos caros em Brasília.  

Se a conta fosse feita de modo ortodoxo, com base no alegado número de horas trabalhadas (advogados faturam por hora) e no que normalmente é cobrado na indústria de pareceres, a diferença entre a bolada efetivamente ganha pelo escritório da mulher de Moraes e os valores normalmente embolsados por grandes bancas seria igualmente escandalosa: algo como R$ 70 milhões a mais. 

Supõe-se que a evolução patrimonial da doutora Viviane, de R$ 24 milhões, no final de 2023, para R$ 79,7 milhões, no final de 2024, conforme publicou Lauro Jardim, o jornalista de quem Vorcaro queria “quebrar os dentes”, deva-se principalmente aos dividendos obtidos por meio do Master. Ou seja, o contrato assinado com o banco proporcionou à mulher de Moraes um lucro estratosférico, até mesmo estelar. 

Curiosamente, o valor atípico não acendeu o alerta da área de compliance do banco, estruturada com a ajuda do escritório da doutora Viviane.


Vamos à segunda satisfação: 

Como as emoções não param no Jardim Europa, a mulher de Moraes havia divulgado outra nota no sábado 7 para dizer que não foi ela quem recebeu as mensagens de Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro. 

É uma afirmação que só serviu para complicar a vida do ministro: se a advogada contratada a peso de ouro não foi consultada em momento tão crucial para o dono do Master, isso reforça a impressão de que o contratado por Vorcaro foi, na verdade, Moraes, não a advogada casada com ele. 

O ministro era o destinatário das mensagens, não resta dúvida, a doutora Viviane poderia ter poupado esforço. Ele até tentou negar na sexta-feira 6, mas o fez de maneira tão canhestra, que ficou ainda mais fácil para o jornal O Globo desmentir o desmentido de Moraes.

É que gente que acha que não deve satisfações a ninguém é muito ruim quando se vê obrigada a fazê-lo. E, pelo visto, contratou a assessoria de imprensa errada. 

PS: doeu na alma que os cenários do noivado tão faustoso quanto fajuto de Vorcaro com a influencer tenham sido Villa Adriana e o Palazzo Colonna. O estelionatário conseguiu sujar até mesmo a história da minha Roma.


Mário Sabino - Revista Oeste