sexta-feira, 6 de março de 2026

O sistema quer se blindar - Cristhian Costa, Davi Vittorazzi e Sarah Peres

Tentativas de salvar Toffoli e manter a CPI do Banco Master na gaveta escancaram o desespero do establishment para salvar a si mesmo


Ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli - Foto: Adriano Machado/REUTERS


“M otta diz que pedido de CPI sobre Banco Master precisa respeitar ‘ordem cronológica’”, informou um site. “Alcolumbre tentou trocar investigação do Master por dosimetria, diz presidente de partido”, acrescentou um jornal. “Ala do STF prepara blindagem a Toffoli”, advertiu uma revista. Essas notícias tomaram as primeiras páginas de toda a imprensa nas últimas semanas. Elas se somaram a uma enxurrada de reportagens a respeito do mesmo tema, que passou a dominar o noticiário político do Brasil desde novembro de 2025: o escândalo bilionário que envolve o banco e o dono da instituição, o empresário Daniel Vorcaro. 

À medida que mais detalhes emergem do lamaçal, o establishment homiziado nos Três Poderes se move, desesperadamente, no sentido de conter os estragos de cada revelação e tentar impedir que outras mais apareçam. Entre as bombas que já explodiram estão o contrato de cerca de R$ 129 milhões firmado pelo Master com a advogada Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a venda do resort Tayayá, ligado a Dias Toffoli, a um fundo de investimento pertencente a Vorcaro.


Venda de resort e contrato de quase R$ 129 milhões expõem as transações financeiras entre a cúpula do Judiciário e o banqueiro Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução/X 

Trincheira no Judiciário 

Um dos flancos da “Operação Estanca Sangria” vem, justamente, do STF. Decisões e gestos institucionais passaram a ser interpretados por parlamentares e investigadores como sinais de proteção a Toffoli, que acabou superando Moraes em evidência. Tudo começou na famosa viagem no jatinho particular do empresário Luiz Osvaldo Pastore, na qual o juiz do STF esteve com o advogado Augusto de Arruda Botelho, que atua na defesa de um dos diretores do Master, preso havia poucos dias em uma ação da Polícia Federal (PF). Posteriormente, o magistrado levou o caso todo da primeira instância para o STF e estabeleceu sigilo absoluto em todos os documentos. Toffoli só deixou a relatoria depois de uma negociação com a Corte, na expectativa de que a situação fosse se acalmar.

Os fatos, contudo, demonstraram o contrário, principalmente pela relação de Vorcaro com a venda do resort. Por isso, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado aprovou a convocação de dois irmãos de Toffoli, além da quebra de sigilo de uma empresa na qual o juiz do STF é sócio, a Maridt. Depois de dois dias, no entanto, o decano do STF, Gilmar Mendes, suspendeu essa medida. 

Mendes utilizou um mandado de segurança apresentado durante a CPI da Covid, em 2021. A ação foi movida pela produtora Brasil Paralelo, que interpelava possíveis abusos cometidos pela comissão à época. O decano aplicou esse mesmo processo para barrar a quebra de sigilo determinada agora pela CPI do Crime Organizado. Na decisão, Mendes argumentou que a determinação da CPI configurava “flagrante desvio de finalidade e abuso de poder”. De acordo com ele, a comissão “extrapolou suas atribuições ao direcionar a investigação a uma empresa sem ligação direta comprovada com os fatos apurados” da CPI. 

A manobra jurídica de Gilmar Mendes usa uma ação do passado para travar o avanço das investigações do Congresso contra o crime organizado - Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil 

O caso não foi o único movimento de blindagem. Embora tenha pressionado Toffoli para se afastar do caso, o STF divulgou uma nota em defesa do ministro. No texto, a Corte reconheceu a “plena validade” dos atos praticados pelo magistrado. Além disso, os ministros expressaram respeito à “dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento”. “Anote-se que Sua Excelência atendeu a todos os pedidos formulados pela PF e PGR”, observou o tribunal, no documento público.

Citada na carta, a Procuradoria-Geral da República (PGR) pareceu antever o desfecho que negaria a suspeição de Toffoli. Semanas antes, o PGR, Paulo Gonet, arquivou um pedido com a mesma natureza. Apresentado por parlamentares do partido Novo, o processo visava ao reconhecimento da parcialidade do magistrado na relatoria do Master, em virtude dos escândalos que a mídia divulgou.

Nesta semana, o novo relator do caso Master no STF, André Mendonça, deu um “puxão de orelha” em Gonet, que também não viu celeridade na cobrança de Mendonça por um parecer a requerimento da PF pela prisão de Vorcaro. “É preciso ressaltar que a urgência na tramitação deste feito decorre do perigo iminente a bens jurídicos da mais elevada relevância e de envergadura constitucional”, observou Mendonça, no despacho pela prisão de Vorcaro. “Diante desse robusto quadro fático-probatório, lamenta-se que a PGR diga que ‘não se entrevê no pedido, nem no encaminhamento dos autos […] a indicação de perigo iminente, imediato, que induza a extraordinária necessidade de tão rápida e necessariamente sucinta análise do pleito’, razão pela qual conclui que ‘não pode ser favorável aos pedidos cautelares, não podendo aboná-los’ antes que sua manifestação seja apresentada ‘no mais breve tempo’.”



Do outro lado da Praça dos Três Poderes, faz-se o diabo para conter qualquer avanço que possa aprofundar a investigação do Master. O requerimento para a CPI que busca desvendar mais elementos reúne centenas de assinaturas, número suficiente para sua leitura em sessão conjunta da Câmara e do Senado. Mesmo assim, o pedido segue parado. Segundo parlamentares da oposição, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem evitado convocar sessões nas quais o requerimento poderia ser lido. Obtidas pela PF, mensagens de Vorcaro com a namorada dão conta de uma reunião que avançou “até meia-noite” na residência de Alcolumbre, em Brasília.

O movimento de Alcolumbre ocorre em meio à disputa em torno do veto do presidente Lula ao Projeto de Lei (PL) da Dosimetria, que reduz as penas dos manifestantes presos por causa do 8 de janeiro. Nos bastidores, a análise do veto passou a ser tratada como instrumento de barganha política, em meio às tensões sobre a instalação da CPI. Ou seja, se a oposição ajudar a abafar a comissão, Alcolumbre poderia, então, destravar a votação do PL que ajudará o 8/1. 

O deputado Carlos Jordy (PL-RJ) suspeita que houve tentativa de negociação envolvendo outro tema sensível ao governo. “Ele está tentando negociar a questão do veto do PL da Dosimetria”, disse o parlamentar. Já o senador Eduardo Girão (Novo-CE) acusa a cúpula do Congresso de tentar impedir o avanço da comissão. Girão lembrou que há endosso de mais de 50 senadores para a instalação da CPI, mas o pedido continua dentro da gaveta. 

A resistência à CPI também se justifica pelos contatos “suprapartidários” de Vorcaro. O banqueiro circulava entre figuras de peso da política, a exemplo do presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Ambos chegaram a utilizar um helicóptero ligado a Vorcaro para deixar o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, depois do Grande Prêmio de Fórmula 1 de 2024. 

A intimidade de Daniel Vorcaro com líderes como Ciro Nogueira e Antonio Rueda explica a forte resistência do Congresso em avançar com a CPI - Foto: Montagem sobre reprodução/redes sociais

República apavorada 

O temor não se limita ao Judiciário nem ao Congresso. No Palácio do Planalto e nos corredores de Brasília, o escândalo do Master passou a ser tratado como uma bomba de efeito imprevisível. A decupagem do conteúdo do celular de Vorcaro ampliou esse clima de apreensão. Segundo relatos de bastidores, políticos do governo e da oposição acompanham o caso com preocupação. A razão é simples: o aparelho pode conter registros de conversas, encontros e tratativas envolvendo figuras influentes da política nacional. 

Avalia-se que novas revelações podem surgir a qualquer momento. Cada nova mensagem tornada pública expõe a extensão das relações cultivadas pelo banqueiro no coração do poder. Esse é o motivo pelo qual tantos atores da República parecem agir, ao mesmo tempo, para conter o avanço das investigações. Quanto mais fundo se cava no caso Master, maior é o risco de que os escombros atinjam personagens que hoje ocupam postos estratégicos no Estado brasileiro. No fundo, o receio que percorre Brasília é simples. O celular de Vorcaro pode. 

Cristhian Costa, Davi Vittorazzi e Sarah Peres -   Revista Oeste