O relatório da Polícia Federal aponta que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, construiu uma ampla rede de conexões que abrange figuras influentes, como o senador Ciro Nogueira (PP) e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Vorcaro fez também laços no judiciário com os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Alexandre de Moraes e sua mulher Viviane Barci, além de pagamentos altos para o jornalista Diego Escosteguy - Foto: Montagem Revista Oeste/Divulgação/STF/SCO/Wikimedia Commons
P ara livrar o Brasil destes tempos soturnos, constatou uma das colunas de Oeste na semana passada, André Mendonça só precisa cumprir a lei e respeitar a Constituição. Como neste país do avesso fazer o certo ficou perigoso, também vai precisar de coragem, alertou o repto que encerra o texto sobre a missão confiada por sorteio ao novo relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal: “Não se intimide, ministro”.
A terceira fase da Operação Compliance Zero, desencadeada nesta primeira semana de março por ordem de Mendonça, confirmou que não lhe falta destemor para liderar a devassa do que até recentemente parecia a maior fraude financeira da nossa história. Já não seria pouca coisa. Agora se sabe que é isso e muito mais.
Trecho da decisão do ministro André Mendonça sobre a Operação Compliance Zero da Polícia Federal | Foto: Reprodução
Na quinta-feira, a Polícia Federal cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão. Somado a descobertas anteriores, o novo lote de provas revela a metodologia e o desenho administrativo dessa versão brasileira da velha máfia. O chefão é Daniel Vorcaro, um vigarista mineiro fantasiado de empreendedor audacioso e inventivo que se valeu de amizades espertas, subornos, ameaças, favores, festas adornadas por belas escandinavas importadas e outras práticas tipicamente mafiosas para a montagem de um conglomerado tão sólido quanto uma nuvem.
Na quarta-feira, preso de novo, voltou a dormir no presídio de Guarulhos em companhia do cunhado Fabiano Zettel. É improvável que a segunda temporada na gaiola seja tão breve e amena quanto a primeira, decretada em 17 de dezembro pela dora Solange Salgado, do TRF-1. Na manhã daquele mesmo dia, Vorcaro enviou um pedido de socorro ao ministro Alexandre de Moraes: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Alguma novidade. Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Moraes responde de imediato, mas não é possível saber o que ele disse. As três mensagens enviadas pelo ministro se auto destruíram logo depois de abertas pelo destinatário. Se conseguisse livrar-se da cadeia ou impedir a liquidação do Master, decretada no dia seguinte, Vorcaro acharia que valeu a pena pagar R$ 129 milhões à advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, contratada para atuar em favor do dono do Master “onde for necessário”. Na sala de jantar onde costuma conversar com o marido, por exemplo.
Passados dez dias, a mesmíssima doutora Solange Salgado reconsiderou a decisão e soltou o bandido. Alegou que, embora Vorcaro estivesse a bordo de um dos seus aviões na pista do aeroporto de Guarulhos, a viagem fora previamente justificada. Portanto, “não havia risco concreto de fuga”. A desembargadora talvez tenha acertado. Por que fugir de um país que não se espanta com conversas reservadas entre um delinquente e um ministro do STF? “To indo encontrar Alexandre de Moraes aqui perto de casa”, escreveu Vorcaro no dia 29 de abril de 2025. Por que morar fora se aqui há na cúpula do Judiciário um José Antonio Dias Toffoli? Em novembro passado, o ministro amigo já fora indicado para cuidar do caso Master, que seguia seu curso em instância inferior quando mudou de foro porque um depoente havia mencionado o nome de um deputado federal. Toffoli virou relator poucos dias depois da longa conversa com um dos advogados de Vorcaro, a bordo do jatinho que levou a dupla para ver em Lima a final da Libertadores. Em 3 de dezembro, o ministro ordenou que o processo fosse remetido ao STF e enquadrado na categoria protegida por sigilo máximo. Até 12 de fevereiro, quando foi induzido pelos próprios colegas a pedir para sair, tentou presidir acareações absurdas, escondeu bandalheiras coletadas pela Polícia Federal e fingiu que nem conhecia o pivô do escândalo, fora o resto (leia reportagem de Carlo Cauti na edição 309).
A primeira ofensiva autorizada por Mendonça foi concebida para avançar na investigação de quatro tipos de crime: corrupção, lavagem anização criminosa. O acervo de descobertas de grosso calibre foi ampliado pela varredura num celular do chefão que armazenava, entre outras provas e evidências de patifarias, mensagens remetidas por participantes do grupo de WhatsApp batizado de A Turma. A troca de ideias e informações revelou, por exemplo, que figuravam no esquema do Master dois funcionários de carreira do Banco Central, ambos integrantes do primeiro escalão: Paulo Sérgio Neves de Souza, que foi diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão à beira da promoção ao cargo desocupado pelo parceiro. Entre outras audácias inverossímeis, Paulo Sérgio autorizou em 2021 a aquisição pelo investidor Daniel Vorcaro do antigo Banco Máxima, mais tarde rebatizado com o nome de Banco Master.
Segundo a Polícia Federal, Vorcaro andou desembolsando milhões de reais para ficar melhor no retrato digital. Generosas mesadas financiaram ataques ao Banco Central publicados no Diário do Centro do Mundo (DCM) e no portal O Bastidor. Em troca de R$ 2 milhões, O Bastidor mudou subitamente de ideia em 2025 e substituiu os frequentes ataques ao dono do Master por artigos que atacavam sistematicamente o Banco Central, como fez o intitulado “O gabarito não fecha” e “A ausência de documentos do BC”.
Por meio de dois parceiros, Flávio Carneiro e Antônio Freixo, conhecido como “mineiro”, Vorcaro também se tornou sócio de veículos como o Brazil Journal, o jornal oficial da Faria Lima, as edições digitais da Istoé e da Istoé Dinheiro, o portal de celebridades de Léo Dias e o PlatôBR. Só agora, com a publicação de mensagens remetidas pelos integrantes de A Turma, jornalistas decentes souberam dos perigos a que estiveram expostos. É o caso de Lauro Jardim, colunista do Globo, que inspirou a mais infame troca de mensagens colhida pela Polícia Federal. Confira um trecho do diálogo virtual entre dois crápulas:
— Esse Lauro… — começa Vorcaro. — Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto…
— Pode? Vou olhar isso — responde Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, vulgo Sicário. (Os dicionários informam que sicário é o
— Pode? Vou olhar isso — responde Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, vulgo Sicário. (Os dicionários informam que sicário é o mesmo que “assassino de aluguel”). — Sim — autoriza o patrão. Trecho da conversa entre Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão (Sicário), ambos presos nesta última quarta (4) | Foto: Reprodução
Augusto Nunes e Carlo Cauti - Revista Oeste