
No Brasil o tempo dá voltas sem sair do lugar: a cada período eleitoral surgem as mesmas pautas, um lado quer estatizar ainda mais a economia e o outro deseja “enxugar o estado[1]” — termo pertinente, se considerarmos que o aparato estatal é um grande bloco de gelo derretendo. Os partidários dessa segunda vertente, convencionalmente chamados de direita, defendem uma espécie de livre mercado. Entretanto, há um desequilíbrio crônico pendendo para o estatismo, em que até mesmo a direita visa implementar esse livre mercado através do estado; uma contradição raramente notada.
Mas será que um mercado livre garantido dessa forma é capaz de gerar prosperidade? Para entender essa questão, consideremos um caso extremo: o que aconteceria se uma economia extremamente estatizada, feito Cuba, se tornasse livre da noite para o dia?
Além das dificuldades de mobilizar o capital — cujo conceito é muito mais fluido que sua existência concreta em máquinas, equipamentos e plantas industriais —, temos um outro fator: a falta de conhecimento sobre como agir no mercado. Poderíamos imaginar imigrantes cubanos que foram para os Estados Unidos e outros países, adquiriram riqueza e cultura capitalista, retornando a sua terra e infundindo nela capital e conhecimento empresarial. Mas e se não houvesse esse aporte externo? Seja dos conhecimentos trazidos pelos expatriados, seja adquiridos por outros meios? A economia conseguiria retornar aos seus anos de glória?
Os cubanos saberiam perceber livremente oportunidades econômicas, criar produtos e serviços novos, gerenciar capital usando contabilidade, construir cadeias de produção, distribuir produtos da maneira mais eficiente? Quanto tempo levaria para reaprenderem sozinhos as técnicas de negócios e empreendedorismo? Essas perguntas, longe de insinuarem qualquer incapacidade do povo cubano, servem para refletir sobre a importância da cultura empreendedora num país.
Alguém poderia responder que isso seria facilmente resolvido com um plano nacional de transição que conduziria as pessoas ao melhor gerenciamento dos recursos. Mas, com isso, não estaríamos confiando novamente na capacidade do estado de coordenar as atividades econômicas? Como o estado educaria essas pessoas para os negócios? Contrataria especialistas estrangeiros? Se assim fosse, estaria recorrendo a um aporte de saber externo; o que afirma precisamente que o conhecimento empreendedor não é inato.
Outros poderiam objetar, apelando à ideia de que o empreendedorismo é conhecimento natural ao ser humano, um conhecimento tácito. Entretanto, o conhecimento tácito também necessita de experiência para se desenvolver. Se o indivíduo nunca teve a experiência concreta do mercado, poderia simplesmente saber como funciona e como agir? Se esse conhecimento é tão natural e universal, por que a humanidade cometeu tantos erros econômicos gravíssimos ao longo da história; erros que levaram até à queda de impérios?
Afinal, o conhecimento empreendedor é inato ou cultural?
O início da morte lenta do empreendedorismo
No início do século XX, houve uma grande bifurcação na economia entre a organização macroeconômica, a análise dos grandes agregados regionais e nacionais, como se fossem entidades à parte e independentes da vida comum; e a e microeconômica, a atividade mecânica de indivíduos puramente racionais que invariavelmente otimizam o lucro.
A microeconomia neoclássica já existia antes dessa ruptura, foi dela que surgiu a ideia do homo economicus: um ser humanoexplicado por uma função matemática, uma força mecânica que atua sobre ele, impelindo-o a buscar um lucro objetivo dado por outra função matemática. Os macroeconomistas, sendo na maioria amantes da matemática como explicação de tudo quanto existe, pegaram emprestado a imperiosidade numérica dos modelos microeconômicos e a transportaram ao âmbito macro, acreditando que o que funcionasse ao indivíduo funcionasse ao governo.
Assim, inspirando-se na contabilidade e técnica empresarial, aplicaram seus princípios ao estado, como se fosse uma grande empresa. Após fortíssimas críticas a esse procedimento, os macroeconomistas passaram a dizer que a macroeconomia não era a simples soma das partes, mas um sistema complexo. Esse tipo de sistema é definido como aquele em que as interações entre as partes produzem propriedades emergentes, não previsíveis pela análise isolada dos componentes. Os macroeconomistas passaram a alegar que a economia nacional, por ser um sistema complexo, opera segundo leis diferentes daquelas que governam a ação individual — uma afirmação conveniente que os dispensa de fundamentar suas teorias nas realidades praxeológicas básicas da ação humana. O simples fato de um sistema ser complexo não significa que viole ou transcenda as leis fundamentais que governam seus componentes.
Muitos autores utilizam essa falácia para justificar intervenções estatais que, alegadamente, “coordenam” a economia de formas que indivíduos isolados jamais conseguiriam. Porém, ironicamente, essa argumentação ignora a própria complexidade concreta da economia — com milhões de agentes, preferências mutáveis, conhecimento disperso e contextos específicos — o que torna impossível que um planejador central possua a informação necessária para tomar decisões superiores às decisões descentralizadas dos próprios agentes econômicos.
Por mais que os macroeconomistas afirmem que o estado é outra coisa – e não a mera soma dos indivíduos –, todo o modelo de intervencionismo governamental emula a atividade empreendedora individual. Baseado na teoria de que produtividade é uma função matemática que impera sobre as atividades econômicas, acreditam ainda que o estado, executando as atividades da mesma forma, obterá êxito. Assim, o governo adota técnicas de gestão empresarial e contabilidade, como se o estado fosse uma grande empresa que precisa gerir seu fluxo de caixa para coordenar a produção nacional.
Assim, sendo a eficiência uma mera função, o estado poderia controlar a economia através de um grupo de burocratas ou mesmo de um computador. Os aficionados por ficção científica acreditam ser possível, no futuro, criar supercomputadores ou inteligências artificiais capazes de organizar totalmente a economia, como se nenhum conhecimento humano subjetivo fosse necessário, como se a própria economia não fosse a interação orgânica entre necessidades e desejos humanos, influenciados pela cultura, religião e circunstâncias particulares; enfim, como se o cálculo econômico numa economia socialista fosse possível.
A Supressão do Empreendedorismo Individual
É precisamente nesse contexto que surgiu a ideia de que os problemas econômicos não podem ser solucionados em âmbito individual, mas somente pelo governo através de suas políticas públicas macroeconômicas. Assim, se instaurou a crença de que a economia depende intimamente do Ministério da Fazenda e que basta decretar livre comércio, através de uma canetada, que tudo estará resolvido. Porém, isso não é possível, porque a economia é precisamente a atividade do homem mediante seus meios e fins; sendo o principal desses meios a própria cultura.
O empreendedorismo é uma categoria de ação, uma atitude que consiste em continuamente procurar, descobrir ou criar novos fins e meios. A função empresarial, em sentido estrito, é basicamente descobrir e avaliar oportunidades de alcançar um fim ou conseguir algum lucro, tendo em conta as circunstâncias e o modo de aproveitá-las[2].
Todo ser humano age; caso contrário, trata-se de um vegetal. Porém, para a manifestação da ação empreendedora em sua forma plena, é preciso uma cultura que possibilite seu desenvolvimento. A cultura, em seu sentido antropológico ou sociológico, pode ser definida como aquele todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, lei, costumes e outras muitas capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade[3]. Tudo aquilo que é inerente, mas social, carece da sociedade para desenvolver-se. Um exemplo disso é a linguagem. Se um menino é criado por animais, ou se uma pessoa se cria sozinha em uma floresta, apesar de ter a potência de se expressar linguisticamente, por não ter o aporte e estímulo cultural, não irá se desenvolver.
O indivíduo nasce com uma base orgânica e potências humanas sociais. O quanto essas potencialidades se realizarão depende da harmonia entre as capacidades físicas, de temperamento e de inteligência do indivíduo, e o meio natural e social em que vive. A época histórica pode excitá-las e desenvolvê-las, permitir que se desenvolvam ou dificultar-lhes a expressão[4]. Se a cultura inibe ou impede o desenvolvimento da potência, esta simplesmente não se manifestará.
A atitude empreendedora, potência humana que é, depende da organização social. Sua manifestação necessita de condições concretas: que cada pessoa ou família possa ter meios de produção, iniciar negócios, oferecer serviços, criar produtos, negociar livremente com outros. Além disso, é necessário que a eficiência e busca pelo lucro não seja socialmente condenada. Essa liberdade econômica não é meramente um arranjo entre muitos possíveis, mas uma condição necessária para a própria capacidade criadora em sua dimensão econômica.
A morte da técnica e o fim da capacidade criadora
A faculdade empreendedora fundamental é o alertnesses, ou perspicácia[5]. Mas perceber as oportunidades não é o suficiente, é preciso ação. Para agir e obter os melhores resultados é necessário técnica. O empreendedorismo é, portanto, parcialmente um uma inclinação do espírito e parcialmente uma técnica.
A técnica, technē no sentido aristotélico[6], não é meramente um conjunto de procedimentos mecânicos transmitidos de geração em geração. É, antes, conhecimento vivo incorporado na prática, sabedoria construída através de incontáveis tentativas, erros e refinamentos ao longo do tempo[7]. Cada ofício, cada arte, cada habilidade produtiva carrega consigo séculos de experimentação humana condensada em gestos, ritmos e percepções que transcendem qualquer manual escrito. Assim sendo, faz parte da cultura. Quando uma técnica desaparece, não se perde apenas um método de fazer coisas, mas toda uma tradição de pensar, resolver prolemas, perceber a matéria e suas possibilidades.
A economia e a sociedade são dinâmicas, nada é conquistado para todo o sempre, principalmente a riqueza, cuja natureza não é estática, que necessita ser reconquistada dia após dia, caso contrário se esvairá. Exemplos notórios são: as cidades mineiras durante o ciclo do ouro, os engenhos produtores de açúcar no Nordeste, municípios cafeicultores paulistas; casos em que, após o fim dos respectivos ciclos, nunca mais recuperaram sua vitalidade econômica. Isso ocorreu pois não desenvolveram uma cultura empreendedora diversificada, mas uma economia monocultural e frágil. Quando a mina se esgotou, o preço do açúcar caiu e o café migrou para outras regiões, não havia uma classe empreendedora capaz de identificar novas oportunidades, de criar novos negócios, de adaptar-se às circunstâncias alteradas. A população dependia de um único setor, de grandes empregadores, de políticas governamentais, mas nunca aprendeu a empreender; ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos da América, desde sua colonização[8].
Outro exemplo paradigmático é Brasília, capital federal do Brasil, que desde sua fundação em 1960 foi estruturada em torno do aparato estatal. Diferentemente de cidades que surgem organicamente da atividade comercial, produtiva e empreendedora, Brasília nasceu como sede do poder político; nunca desenvolveu uma economia genuinamente produtiva independente do estado. A maior parte de sua população vive direta ou indiretamente de dinheiro público: servidores públicos federais, funcionários de estatais, empregados que prestam serviços ao governo, lobistas, consultores políticos, toda uma economia parasitária que gira em torno dos recursos tomados do setor produtivo do restante do país. Não há indústrias significativas, não há agricultura, não há um setor empresarial robusto criando riqueza genuína[9].
Esta é a morte da cultura empreendedora em sua forma mais pura: uma cidade inteira estruturada em torno da negação da economia, da produção e criação de valor. A consequência civilizacional é devastadora: gerações inteiras são doutrinadas a crer que a riqueza vem de cargos públicos, concursos, conexões políticas, mas nunca de criar produtos, oferecer serviços e satisfazer consumidores. O espírito empreendedor é amputado desde a infância, pois a sociedade não valoriza a criação de riqueza, mas sua apropriação através do estado. O vencedor é quem consegue acesso aos cofres públicos.
A cultura empreendedora não é algo que surge ex nihilo, mas precisa ser cultivada e desenvolvida. Exige um ambiente que valorize a independência, a assunção de riscos e a responsabilidade individual. Necessita também o direito pleno à propriedade privada ― não condicionado a subjetivismos socializantes ―, moeda forte e liberdade comercial. Quando essas condições desaparecem, a cultura empreendedora definha. E, com ela, o próprio país.
O fim da capacidade criadora humana com o fim da economia individual
Uma economia deixa de ser individual quando o cidadão comum se torna mero empregado de grandes organizações burocráticas ou joguete de manipulações do mercado. Todas as decisões econômicas significativas passam a ser tomadas por tecnocratas distantes; assim, o planejamento central substitui a iniciativa descentralizada. A potência empreendedora morre: as novas gerações crescem subservientes, passivas, incapazes de imaginar que poderiam ser outra coisa, senão peças numa engrenagem alheia à força individual.
Se tudo quanto existe é a ideia de que o estado é o grande gestor, que precisa coordenar as atividades econômicas, independentemente da criatividade e conhecimentos individuais — sendo ele mesmo incapaz de gerir milhões de pequenas empresas —, a única possibilidade nesse esquema é a formação de grandes conglomerados econômicos. É a releitura do socialismo no século XXI: não a desapropriação direta dos meios de produção, mas a tentativa de controle e coordenação do capital através de megacorporações, nas quais o homem é um mero fator altamente substituível.
As consequências disso não são apenas econômicas: são antropológicas. O ser humano deixa de ser homo agens, senhor de sua vida, para tornar-se homo sovieticus, peão de planos alheios. O resultado é o empobrecimento generalizado, material e espiritual. Quanto mais longa e intensa é a estatização de um país, piores são as consequências civilizacionais: o povo precisa reaprender tudo o que foi sistematicamente destruído; o que pode levar séculos ou nunca acontecer. Engana-se quem pensa que a morte da capacidade criadora, base fundamental do ocidente ― em todo seu potencial artístico, filosófico, tecnológico, econômico ―, pode ser corrigida com uma simples caneta. A criatividade humana não se decreta.
[1] A escolha de escrever sempre o termo estado (poder público) com letra minúscula vem da recusa à distinção tipográfica que sugere uma pretensa superioridade metafísica ou moral do poder público sobre os indivíduos e suas associações voluntárias.
[2] HUERTA DE SOTO, Jesús. A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
[3] TYLOR, Edward B. Primitive Culture. Londres: John Murray, 1871.
[4] FREYRE, Gilberto. Sociologia: Introdução ao Estudo dos seus Princípios. São Paulo: É Realizações Editora, 2009. p. 124.
[5] HUERTA DE SOTO, Jesús. A Escola Austríaca: Mercado e Criatividade Empresarial. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
[6] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro VI, 1140a1-20. Tradução de Edson Bini. 4. ed. São Paulo: Edipro, 2014.
[7] Sobre conhecimento tácito incorporado na prática, ver: POLANYI, Michael. The tacit dimension. Chicago: University of Chicago Press, 1966. cap. 1.
[8] Sobre a atividade empreendedora e descentralizada nas colônias do norte dos Estados Unidos, ver: FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1963. p. 43.
[9] DISTRITO FEDERAL. Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF). Produto Interno Bruto do Distrito Federal. Brasília: IPEDF, 2025. Disponível em: https://www.ipe.df.gov.br.
Priscila Contim - Mises Brasil