Chefe-adjunto de departamento orientava sobre como o Banco Master deveria apresentar documentos que seriam fiscalizados por sua própria área
A investigação da Polícia Federal (PF) que fundamentou a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de decretar a prisão de Daniel Vorcaro na terceira fase da Operação Compliance Zero revela que o banqueiro mantinha contato direto e recorrente com servidores do Banco Central (BC) encarregados da supervisão bancária.
Segundo os autos, ele teria atuado para viabilizar vantagens pessoais a um deles, incluindo a contratação de um guia para uma viagem à Disney, nos Estados Unidos.
De acordo com a decisão, as apurações revelam que Vorcaro tratava com os servidores de temas ligados à situação regulatória da instituição financeira e encaminhava previamente documentos e minutas à autarquia para avaliação informal.
A PF identificou mensagens em que o investigado buscava “orientações estratégicas” sobre reuniões institucionais, elaboração de documentos e abordagem de assuntos sensíveis diante de autoridades regulatórias.
Posteriormente, segundo a decisão, Paulo Sérgio chegou a aconselhálo sobre como se portar em reunião com o presidente da autarquia.
Para a investigação, o servidor passou a atuar como uma espécie de “empregado/consultor” de Vorcaro em temas de interesse exclusivamente privado do empresário. A PF afirma haver diversas mensagens que reforçam essa dinâmica.
Visitas de Vorcaro ao Banco Central em 2025 | Foto: Reprodução/Estadão
As investigações também identificaram trocas de mensagens entre Vorcaro e Belline Santana, outro servidor do BC. Segundo a decisão, a relação seguia o mesmo padrão, com atuação de Belline como consultor informal do empresário em assuntos relativos ao órgão regulador, inclusive com opinião sobre ofício que seria encaminhado ao setor sob sua chefia.
A decisão registra que Vorcaro teria coordenado a formalização de contratos simulados de prestação de serviços, por meio de empresa de consultoria, para justificar transferências financeiras destinadas a servidores do Banco Central como contraprestação pela “assessoria” privada prestada.
Banco Central, que decretou a liquidação do Master em 18 de novembro - Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Há também indícios de favorecimento pessoal. Conforme destacado, em mensagens nas quais Paulo Sérgio mencionava viagem a parques de Orlando, incluindo Disney e Universal, Vorcaro afirmou que precisaria “arrumar guia pra essas pessoas” e acionou um contato para providenciar o serviço.
Ao justificar as medidas cautelares, o ministro ressaltou que os servidores ocupavam funções diretamente ligadas à fiscalização de instituições financeiras, à aplicação de sanções administrativas e ao acesso a informações estratégicas e sigilosas.
Segundo a decisão, a permanência deles nos cargos poderia criar ambiente favorável à continuidade das condutas ilícitas e até à obstrução das investigações, comprometendo a credibilidade do órgão regulador.
Defesa de Vorcaro, dono do Banco Master, se manifesta
Os advogados do dono do Banco Master afirmam que Vorcaro “sempre esteve à diposição das autoridades”.
Leia a nota:
“A defesa de Daniel Vorcaro informa que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça.
A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia
que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua
conduta.
Reitera sua confiança no devido processo legal e no regular funcionamento
das instituições.”
Isabela Jordão - Revista Oeste