sexta-feira, 13 de março de 2026

'A mancha que nada remove' - Augusto Nunes

 Se assassinar a verdade, o STF vai virar comparsa do Master


Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ministros do STF envolvidos no caso do Banco Master - Foto: Rosinei Coutinho/STF 

A té novembro passado, a ladroagem no INSS parecia ter assegurado a primeira colocação no ranking das mais impressionantes roubalheiras descobertas em 2025. No penúltimo mês do ano, foi ultrapassada pelo caso Master, primeiro escândalo do gênero cujo elenco inclui, no grupo de atores principais, dois ministros do Supremo Tribunal Federal. Entre a proclamação da República e estes tempos estranhos, a permanência do país no pelotão dos mais corruptos do planeta foi garantida por figurões do Executivo e do Legislativo, apoiados por esforçados coadjuvantes muito bem remunerados. 

É verdade que já não espantam ninguém aparições no noticiário político-policial de juízes que prosperam com a venda de sentenças e outras patifarias facilitadas pelo cargo. Mas a cúpula do Judiciário ficou fora, por exemplo, do Mensalão, do Petrolão e outros casos de polícia excepcionalmente lucrativos. 

A única irregularidade cometida por um presidente do Supremo ocorreu quando o presidente Getúlio Vargas foi deposto e substituído por José Linhares, que governou o Brasil entre 29 de outubro de 1945 e e 31 de janeiro de 1946. A multidão de parentes nomeados pouco depois da posse induziu um amigo a sugerir-lhe que não exagerasse na prática do nepotismo. 

O presidente interino foi sincero: era melhor ser criticado por meio mundo durante dois meses do que aturar as queixas da família pelo resto da vida. Se vivesse para ver o espetáculo da promiscuidade criminosa em curso neste março, como reagiria Linhares? O que diria ao saber da transferência de Alexandre de Moraes e José Antônio Dias Toffoli da alta classe média para o clube dos milionários, financiada pelo banqueiro vigarista que protagonizou a maior fraude financeira da história do Brasil?


André Mendonça, relator do caso do Banco Master e os envolvidos: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Sessão plenária do STF no dia 11 de março de 2026 - Foto: Antonio Augusto/STF 

Surpreendida por revelações espantosas, a dupla de superdoutores fez de conta que não acontecera nada de mais. Moraes, por exemplo, atravessou semanas sem dar um pio sobre o contrato assinado por Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia pilotado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e tripulado por dois filhos do casal. Há dias, Viviane divulgou uma nota para provar que o dono do Master não havia rasgado dinheiro ao oferecer R$ 129 milhões, divididos em gordas parcelas mensais, para dispor dos serviços da doutora por três anos. Viviane cuidaria dos interesses do Master num território que abrange o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República, o Banco Central, a Receita Federal, a Polícia Federal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), além de vigiar no Congresso o andamento de projetos do interesse do contratante. 

A doutora jura que fez bonito na área de compliance. Tal estrangeirismo, que em inglês significa “conformidade”, é a palavra usada para identificar o pacote de regras, procedimentos e práticas que devem ser adotados por empresas ou organizações dispostas a garantir que suas atividades estejam em conformidade com leis, regulamentos e princípios éticos. Tudo o que o Master ignorou. Não foi a única piada pronta inspirada pelo uso da expressão. Viviane talvez tenha esquecido o nome da operação policial que a transformou na advogada mais bem paga do planeta: Compliance Zero.

O “Código de Ética” que obrigaria Vorcaro e sua turma a criarem juízo é ilustrado com imagens facilmente encontradas na internet. Mais: o copia-e-cola é desmoralizado por erros de grafia, pelas construções gramaticais incompletas e por uma escrita indigente. O contrato poderia ser reduzido a uma só cláusula: o marido da contratada recorrerá a seus poderes de gerente da democracia à brasileira para impedir que o Master seja liquidado e o contratante durma na cadeia. Deve-se registrar que Moraes esforçou-se para cumprir tal missão. Num único dia, telefonou seis vezes para o presidente do Banco Central, Gabriel Galipoli, para evitar a liquidação extrajudicial do Master.


Lula, Viviane Barci e Alexandre de Moraes - Foto: Flickr/STF 


Nesta semana, foi divulgada parte das mensagens extraídas do celular de Vorcaro apreendido no fim de 2025. Somadas, são um monumento ao convívio incestuoso entre um bandido e autoridades que deveriam encarcerá-lo havia muito tempo. No dia em que seria preso pela primeira vez, Vorcaro interpela Moraes: “Alguma novidade? Conseguiu bloquear?”. 

Nas respostas, o ministro recorre à visualização única do WhatsApp, que em tese apaga a mensagem depois de lida pelo destinatário. Naquela mesma manhã, Vorcaro relata negociações com possíveis investidores e informa que ficou preocupado com perguntas de uma jornalista sobre a situação do Master. “Fiz uma correria aqui para tentar salvar”, disse. “Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação.” A esperteza de Moraes pode ter colidido com os avanços da tecnologia: peritos da Polícia Federal garantem que as mensagens apagadas depois de lidas por Vorcaro foram recuperadas.


Tanto o dono do Master, Daniel Vorcaro, como o ministro do STF, Alexandre de Moraes, escreviam o texto no bloco de notas de seus aparelhos, tiravam prints e depois enviavam como imagens de visualização única — por isso não aparecem as mensagens de Moraes nas conversas - Foto: Reprodução/UOL 


Conversa do Daniel Vorcaro para Alexandre de Moraes - Foto: Reprodução/UOL


Outras peças do quebra-cabeça foram encontradas nas mensagens remetidas à namorada, Martha Graeff. Resgatou-se, por exemplo, uma reunião em Londres de que participaram Moraes, Toffoli, Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, o procurador-geral Paulo Gonet e Benedito Gonçalves, então corregedor-geral da Justiça Eleitoral, além de responsável por pareceres que tornaram o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível e anularam a conquista de uma vaga na Câmara dos Deputados por Deltan Dallagnol. “Eu sou muito louco”, disse Vorcaro a Martha, que concorda com o companheiro eufórico: “Essa realidade. Todos os ministros do Brasil. Do STF, STJ etc. Euzinho discursando”. 

Bem menos cauteloso que Moraes, Toffoli viajou para Lima num jatinho em companhia do advogado Augusto de Arruda Botelho, um dos destaques da tropa de bacharéis contratados pelo dono do Master, preso poucos dias antes. Todos os passageiros alegam que voaram rumo à capital peruana para assistir ao duelo entre Flamengo e Palmeiras na final da Copa Libertadores. Todos também juram que, na ida e na volta, só se falou de futebol. Foi por acaso, portanto, que no dia seguinte Toffoli confiscou o processo em nome do STF, declarou-se relator, emparedou o caso com o “sigilo máximo” e valeu-se de vários golpes de caneta para retardar investigações ou anular provas. 

A contra-ofensiva tropeçou em outra descoberta inquietante para o viajante: ele ganhara muitos milhões ao embolsar a parte que lhe cabia na venda a um fundo do Master do resort Tayayá, no interior do Paraná, pertencente à família Toffoli. Mal no retrato, o relator suspeitíssimo conseguiu piorar a situação com sucessivas decisões absurdas. Pressionado até por aliados, concordou em pedir para sair — desde que os nove colegas que participaram da reunião subscrevessem uma nota oficial atulhada de elogios ao bisonho desempenho. Escolhido por sorteio, 

André Mendonça vem tentando restabelecer a normalidade. Revogou regras que algemavam o trabalho da PF, decretou a prisão de Vorcaro e seus homens de confiança e transferiu a palavra final aos demais integrantes da Segunda Turma. Além de Mendonça, dela fazem parte Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques. Eles dirão neste 13 de março se as decisões do relator merecem ser aprovadas ou não. 

Entre o desempenho inaugural de Mendonça e a sessão marcada para esta sexta-feira, aumentaram as evidências de que o STF requer urgentes mudanças moralizadoras. Não rima com cortes supremas, por exemplo, o festim ocorrido em Londres na noite de 25 de abril de 2024, no refinadíssimo George Club. Os participantes do encontro saborearam pratos da culinária europeia contemporânea e esvaziaram garrafas de uísque escocês da marca Macallan. 

A depender da safra, o valor de uma unidade pode ultrapassar a marca dos R$ 10 mil. A conta do jantar: £ 7,3 mil, ou R$ 46 mil. Desse total, £ 1,77 mil foram gastos apenas com a bebida. O banquete integrou um evento mais amplo. Planilhas apreendidas pela PF indicam que a programação total custou US$ 650 mil, ou R$ 3,5 milhões. Tudo foi pago por Vorcaro. 


Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes e outros membros do STF tomaram uísque escocês da marca Macallan, no refinado o George Club, em Londres. Tudo pago pelo Vorcaro - Foto: Reprodução/X


Relatórios da PF registram gastanças semelhantes em encontros da mesma turma em outras capitais europeias. Uma das planilhas apreendidas registra, por exemplo, a reserva (formalizada pelo dono do Master) de uma mesa que seria ocupada por Moraes, sua mulher e Toffoli. Além de Vorcaro, claro. Todos participavam de um painel internacional bancado por empresas e instituições financeiras.

Na noite de quarta-feira, Toffoli declarou-se impedido de participar de decisões vinculadas ao caso protagonizado por Vorcaro. Depois de recusar-se a analisar o pedido de abertura de uma CPI do Banco Master, informou que não participará da sessão da Segunda Turma que endossará ou não as decisões de Mendonça. Com a ausência de Toffoli, serão quatro os julgadores. Fux deverá apoiar Mendonça. Gilmar votará contra. Nunes Marques anda sumido e calado. Caso se junte a Gilmar, o empate determinará a soltura do grupo que agora ameaça quebrar todos os dentes de jornalistas que cumprem seu dever e honram a profissão. Vorcaro ficará livre. O Supremo será para sempre prisioneiro de uma tramóia que insulta os brasileiros que cumprem a lei. 

A Operação Lava Jato, nascida para investigar um grupo de doleiros, percorreu veredas sombrias que desembocaram na devassa do Petrolão — e a transformaram na maior e mais bem-sucedida ofensiva anticorrupção da história. Foi tão longe que Lula teve de curtir mais de 500 dias na gaiola e milhões de brasileiros acreditaram que, até que enfim, todos se haviam tornado iguais perante a lei. A legião dos fora da lei homiziada nos três Poderes se uniu para deter o avanço da operação. A Compliance Zero foi concebida para investigar e desmantelar o bilionário esquema de fraudes montado por Daniel Vorcaro no Master e em empresas parceiras. Logo passou a apurar a compra do Master pelo Banco Regional de Brasília, controlado pelo governo do Distrito Federal.


O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha - Foto: José Cruz/Agência Brasil 


A Polícia Federal mirava a usina de delinquências, da emissão de títulos de crédito falsos à manipulação de mercado e lavagem de dinheiro, que provocaram prejuízos estimados em mais de R$ 12 bilhões. Como a Lava Jato, acabou descobrindo que as bandalheiras envolviam o governador do Distrito Federal, a direção do Banco Regional de Brasília e alguns reizinhos de toga. Em 2023, Ibaneis Rocha foi acusado de omissão durante os barulhos do 8 de janeiro e ficou fora do gabinete 90 dias por ordem de Alexandre de Moraes. Na semana passada, Moraes arquivou o inquérito por solicitação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que não encontrou elementos que justificassem o prolongamento da história.


Neste 13 de março — outra sexta-feira 13 — as semelhanças entre a Lava Jato e a Compliance Zero serão ampliadas caso a Segunda Turma do Supremo revogue as corretíssimas decisões do relator André Mendonça. Se Vorcaro e seus asseclas forem libertados, Dias Toffoli e Moraes talvez voltem a dormir em sossego. Mas só por alguns dias, porque a verdade é teimosa. O Brasil que pensa e presta perderá o respeito que resta pelo STF. Seja qual for o desfecho da sessão, o envolvimento no caso Master já danificou duas togas com uma espécie de mancha que nada remove. A mancha que identifica culpados é eterna. 


Augusto Nunes - Revista Oeste