
No Brasil existe uma obsessão quase patológica com a desigualdade. Ela é tratada como o grande pecado original da sociedade, a explicação mágica para todos os males nacionais: pobreza, violência, falta de oportunidades e até o mau humor nacional. Sempre que algo dá errado lá está ela: a desigualdade. Essa narrativa criou o vilão perfeito, e no Brasil ele atende pelo nome de bilionário.
A lógica é simples, emocional e profundamente equivocada: se existem bilionários, é porque alguém está sendo explorado. Logo, bilionários não deveriam existir. O problema dessa narrativa não é apenas sua carga moralista infantil, mas a inversão completa de causa e efeito. Onde enriquecer é exceção, a pobreza vira regra, e não o contrário. Países não empobrecem porque alguém enriqueceu, eles empobrecem quando quase ninguém consegue enriquecer.
Como seria um mundo sem Amazon, WhatsApp ou Netflix? Um mundo sem bilionários? A resposta é simples: um mundo mais pobre, mais injusto, com menos empregos, menos inovação, menos concorrência e produtos piores a preços mais altos. Tudo o que hoje existe porque alguém teve incentivo para investir, arriscar e crescer simplesmente não existiria. Bilionários não surgem por decreto nem por exploração mística; surgem quando milhões de pessoas, de forma voluntária, escolhem pagar por algo que consideram melhor do que as alternativas. Sem os bilionários, quem mais sofre não é o rico, mas o mais pobre, que perde empregos, produção em escala e, consequentemente, o acesso a bens e serviços mais baratos.
Bilionários não são a causa da pobreza. São um sintoma de sociedades que funcionam. Se a desigualdade fosse, por si só, um problema econômico, o mundo simplesmente não faria sentido. Afinal, países extremamente desiguais como Suíça, Estados Unidos e Singapura seguem atraindo investimentos, inovando, criando empregos e oferecendo padrões de vida incomparavelmente superiores aos de países “igualitários” na miséria. Já os que escolheram essa obsessão moral conseguiram um feito notável: igualaram quase todos… na pobreza.
O erro central não é uma mera confusão entre desigualdade e pobreza, mas uma estratégia recorrente de quem lucra com a expansão do estado. Desigualdade é uma comparação relativa. Pobreza é uma condição absoluta. Uma pessoa pode viver muito melhor hoje, ter acesso a bens, serviços e oportunidades impensáveis décadas atrás, e ainda ser considerada “desigual” em relação a alguém mais rico. Ao transformar essa diferença relativa em escândalo moral, desloca-se o foco do verdadeiro responsável pela miséria: o estado. O problema nunca foi alguém ter muito, o problema é alguém não ter o mínimo, e em vez de tentar mitigar o problema, o estado posa de salvador, atacando quem produz riqueza e mantendo a população obediente e dependente, com a promessa eterna de redistribuir o dinheiro dos outros.
Ninguém é obrigado a enriquecer um bilionário, ainda assim milhões de pessoas decidem todos os dias que aquilo que ele oferece vale mais do que o dinheiro que possuem. Até o crítico mais feroz dos “bilionários malvadões” os financia voluntariamente, sem a imposição, coerção e ameaça que são típicas apenas do estado. Em um mercado livre, bilionários só existem porque o consumidor assim decide. No Brasil, essa lógica parece ofensiva, aqui o sucesso é sempre suspeito. Quem enriquece precisa se explicar, quem fracassa precisa ser protegido. O empresário bem-sucedido é visto como alguém que “tirou” algo de outrem, e não como alguém que criou valor.
O discurso dominante encara a riqueza como um jogo de soma zero, quando ela é exatamente o oposto: um processo de criação contínua. Para um bilionário surgir no livre mercado, ele teve que criar um excedente de valor para a sociedade, que é muito maior do que a fortuna que ele acumulou. Como explica Ludwig von Mises, a desigualdade de renda e riqueza é uma característica essencial da economia de mercado, pois é justamente ela que faz o empreendedor servir melhor os consumidores.
Enquanto posa de paladino contra a desigualdade e trata bilionários como criminosos morais, o estado é o maior fabricante de desigualdade do país. É ele quem sufoca empregos com burocracia, insegurança jurídica e custos artificiais, pressionando salários para baixo e tornando cada vez mais difícil mudar de emprego ou conseguir o primeiro, algo que qualquer manual básico de oferta e demanda explica, mas que muitos políticos fingem ignorar. Ao mesmo tempo, são os políticos que tiram dinheiro do mais pobre por meio de impostos e inflação e transfere aos mais ricos e bem relacionados, disfarçando esse processo com a retórica de políticas “gratuitas”. Nada é de graça: o estado tira a perna de quem trabalha, entrega o dinheiro a empresários amigos do poder e depois devolve uma bengala, exigindo aplausos pela caridade. A desigualdade que ele diz combater é exatamente a que ele cria. E da qual vive.
O resultado é previsível: em vez de remover obstáculos para que mais pessoas prosperem, o estado torna-se um sócio majoritário indesejado que só aparece para cobrar e dificultar. O Brasil é pobre porque trata o sucesso como imoral, o fracasso como virtude e faz da inveja uma política pública. Essa hostilidade à riqueza não protege os pobres, protege apenas a mediocridade institucional.
Não é coincidência que o Brasil tenha poucos bilionários produtivos e muitos bilionários que enriqueceram próximos ao poder. Onde o mercado é sufocado, o capital não desaparece, ele muda de estratégia: em vez de inovação, busca privilégio; em vez de servir consumidores, passa a servir políticos. O problema não é a existência de bilionários, mas o tipo de bilionários que o sistema incentiva a criar.
Fingir combater a desigualdade atacando a riqueza é como tentar curar a febre quebrando o termômetro. Pode aliviar a angústia moral de alguns, mas não resolve nada, pelo contrário: piora a situação. Uma sociedade saudável não é aquela onde todos têm a mesma renda, mas aquela onde todos têm a chance real de prosperar, onde o sucesso não é tratado como crime. E se o estado, isto é, os políticos, desejassem que o Brasil saísse da espiral da miséria, já teriam abandonado há muito tempo a fantasia de igualdade imposta. Bilionários não são um defeito do sistema, mas um sinal de que ele está funcionando. A ausência deles, ao contrário, revela um ambiente hostil à criação de riqueza, perfeito para políticos administradores da pobreza.
O problema do Brasil nunca foi a desigualdade. O problema é que quase ninguém consegue prosperar sem pedir permissão ao estado.
Catharina Donato - Mises Brasil