sábado, 7 de março de 2026

Wendy McElroy - A filosofia Bourne: a guerra é a saúde do estado

 

“A guerra é a saúde do estado”.

Essas sete famosas palavras apareceram em um manuscrito inacabado escrito pelo ensaísta progressista Randolph Silliman Bourne (1886–1918) durante a Primeira Guerra Mundial. Em uma coletânea de ensaios de Bourne intitulada War and the Intellectuals (1964), o editor Carl Resek explicou o significado da frase. Resek escreveu: “Em seu devido contexto, ela [a frase] significava que o poder irrefletido prosperava com a guerra porque a guerra corrompia o tecido moral de uma nação e, especialmente, corrompia seus intelectuais”. As sete palavras contêm uma complexidade de significado que frequentemente é ignorada por aqueles que as utilizam.

Os Estados Unidos estão em guerra há mais de uma década[1] e as hostilidades não diminuem. Muito pelo contrário. Tropas e influência americanas espalharam-se pelo mundo árabe e pelo Oriente Médio, deixando um rastro de vítimas e inimigos em crescimento. Se emergências econômicas inauguram conflitos, então mais guerra está por vir. A complexidade das percepções de Bourne precisa ser explorada para privar o estado de tanta “saúde” quanto possível.

O estado, o governo e a sociedade

Em tempos de paz, Bourne acreditava que a maioria das pessoas perseguia seus próprios interesses de acordo com seus próprios valores. Trabalhavam e cooperavam entre si, casavam-se e criavam filhos sem prestar muita atenção ao estado. Em vez disso, lidavam com o governo. Bourne definiu governo como:

“uma estrutura de administração das leis e de execução da força pública. O governo é a ideia do estado colocada em operação prática nas mãos de homens definidos, concretos e falíveis.”

O governo era o “conjunto de funções e repartições” do dia a dia de um estado, como os correios ou o sistema de escolas públicas, com os quais as pessoas tinham contato simplesmente ao viverem suas vidas. Não havia ritual nem canto de hinos nacionais ao comprar selos postais. Os servidores públicos cujo trabalho fazia o governo funcionar não eram vistos como sagrados. De fato, Bourne os descreveu como “homens comuns e não santificados”. Ele acreditava que isso era algo salutar e um reflexo do igualitarismo americano.

Enquanto isso, a pessoa comum raramente lidava com o estado — isto é, com instituições que eram sacralizadas e expressavam o estado “duradouro”, como a Suprema Corte. Assim, em tempos de paz, escreveu Bourne, “o sentido do estado quase desaparece da consciência dos homens”.

Em outras palavras, o estado é mais um conceito do que uma realidade física. Nos Estados Unidos, é a estrutura política estabelecida após a Revolução Americana, incorporada na Constituição e na Declaração de Direitos. Ele reivindica uma cadeia de legitimidade que remonta ao presidente George Washington. Enquanto os governos vão e vêm com as eleições, o estado permanece essencialmente o mesmo — apenas se tornando mais forte com o tempo. É o estado, e não o governo, que inspira emoções como reverência ou patriotismo. É ao conceito do estado americano — e não a qualquer governo específico, republicano ou democrata — que as pessoas juram lealdade com a mão sobre o coração.

Enquanto isso, a “sociedade” funciona de maneira diferente do estado, do governo ou do indivíduo que age por interesse próprio. A sociedade, à qual Bourne também se refere como “nação” ou “país”, é o conjunto de fatores que constituem a vida americana. Incluem atitudes características, tradições e literatura comuns, convicções religiosas, uma história compartilhada e normas culturais predominantes. São os fatores não políticos que tornam a sociedade americana diferente da chinesa ou da francesa. Em tempos de paz, Bourne acreditava que a maioria das pessoas se identificava mais com a sociedade do que com o governo. Por exemplo, a maioria das pessoas se definia principalmente em relação a uma comunidade, religião ou herança étnica, e não a um partido político.

Ao contrário do governo, a sociedade não é uma expressão do estado, nem pode coexistir pacificamente com ele; os dois conceitos são antagônicos. Em um ensaio intitulado “The State”, cuja primeira seção se chama “War is the health of the State”, Bourne observa:

“O país [sociedade] é um conceito de paz, tolerância, de viver e deixar viver. Mas o estado é essencialmente um conceito de poder, de competição; ele significa um grupo em seus aspectos agressivos. E temos a infelicidade de nascer não apenas em um país, mas em um estado, e, à medida que crescemos, aprendemos a misturar os dois sentimentos em uma confusão irremediável.”

Resumindo o argumento anterior de Bourne: em tempos de paz, as pessoas perseguem seus próprios interesses, identificam-se com a sociedade, interagem com o governo e apenas ocasionalmente se deparam com o estado sacralizado.

O impacto da guerra

Bourne definiu a guerra como o ato supremo da natureza do estado, o ato máximo de “um grupo em seus aspectos agressivos”. Ele escreveu: “A guerra é uma função… dos estados”, e não poderia existir fora desse sistema.

Bourne argumentou ainda que a guerra embaralha ou apaga as linhas que separam o governo do estado e ambos da sociedade. Esse embaralhamento acontece principalmente dentro do próprio indivíduo. Incitado pela emoção, o cidadão comum enche-se de patriotismo e perde “todo senso de distinção entre estado, nação e governo”. Bourne descreveu o processo:

“O patriotismo torna-se o sentimento dominante e produz imediatamente aquela intensa e desesperada confusão entre as relações que o indivíduo tem e deveria ter com a sociedade da qual faz parte.”

Em tempos de guerra, governo e estado tornam-se virtualmente idênticos, de modo que se opor ao governo passa a ser um ato de deslealdade ao estado. Por exemplo, embora criticar o presidente ou as atitudes militares seja um direito regularmente exercido pelos americanos em tempos de paz, tal crítica torna-se um ato de traição quando a guerra acaba de ser declarada. Como explicou Bourne:

“objeções à guerra, opiniões mornas sobre a necessidade ou a beleza do alistamento obrigatório, tornam-se sujeitas a penalidades ferozes, muito superiores em severidade àquelas aplicadas a crimes pragmáticos reais.”

Assim, em tempos de guerra, indivíduos que antes interagiam apenas casualmente com o governo tornam-se defensores fervorosos do estado.

“Todo cidadão individual que, em tempos de paz, não tinha nenhuma função pela qual pudesse imaginar-se uma expressão ou fragmento vivo do estado, torna-se um agente amador ativo… denunciando espiões e desleais, arrecadando fundos governamentais ou propagando medidas consideradas necessárias pelas autoridades.”

As atividades da sociedade — desde as palavras proferidas nos púlpitos até as escritas nos jornais, das trocas econômicas ao entretenimento — passam a se conformar aos propósitos do estado, e não ao interesse próprio dos indivíduos.

À medida que sociedade e governo se fundem no estado, o indivíduo começa a desaparecer. Ele se torna parte do que Bourne chamou de “rebanho”. Ele descreveu o termo: “O estado é a organização do rebanho para agir ofensiva ou defensivamente contra outro rebanho organizado de modo semelhante.”

Bourne reconheceu que o rebanho não era um todo emocional ou intelectual homogêneo, mas incluía uma ampla gama de reações aos acontecimentos e à própria guerra. Ainda assim, “por meio de uma engenhosa mistura de persuasão, agitação e intimidação, o rebanho é moldado, transformado em uma unidade mecânica eficaz, senão em um todo espiritual”.

Além disso, o estado utilizava incentivos poderosos para convencer as pessoas a “escolher” se alistar ou apoiar o esforço de guerra. Os indivíduos geralmente concordavam, relutantes ou não, porque, em “uma nação em guerra, cada cidadão se identifica com o todo e se sente imensamente fortalecido por essa identificação”.

Mas, se um indivíduo recusasse, então o estado revelava que a escolha nunca fora realmente uma questão.

Ao mesmo tempo, os homens são instruídos a ingressar na estrutura militar por sua própria vontade, como um sacrifício esplêndido pelo bem de seu país, e que, se não quiserem ingressar, serão capturados e punidos com as sanções mais terríveis.

E assim, os indivíduos obedecem às medidas de guerra, até o ponto de arriscar suas vidas nos campos de batalha. As pessoas deixam de ser indivíduos agindo por interesse próprio e tornam-se cidadãos do estado agindo em conjunto. O homem que discorda e permanece indivíduo sente-se “desolado e impotente”, enquanto aqueles que pensam e sentem coletivamente experimentam “o calor da obediência, a irresponsabilidade reconfortante da proteção”.

Bourne concluiu: “as pessoas em guerra tornam-se, no sentido mais literal, novamente crianças obedientes, respeitosas e confiantes, cheias daquela fé ingênua na onisciência e onipotência do adulto que cuida delas”.

O que ele chamou de “essa grande máquina-rebanho” funcionava sob “uma confusão indescritível de orgulho democrático e medo pessoal” que levava os indivíduos que constituíam o rebanho a “submeter-se à destruição de seu sustento, senão de suas próprias vidas, de uma maneira que anteriormente lhes pareceria tão odiosa a ponto de ser inacreditável”.

O indivíduo tornava-se uma “criança nas costas de um elefante enlouquecido”, que não podia controlar nem abandonar, mas era compelido a montar até que o elefante decidisse parar.

Esse é o significado teórico de “A guerra é a saúde do estado”. Em tempos de paz, as pessoas são amplamente definidas por seu interesse próprio e pela sociedade; interagem casualmente com o governo, dedicando pouca atenção ao estado. Em tempos de guerra, tudo se inverte em benefício do estado. Quanto ao impacto sobre o indivíduo: se a guerra é a saúde do estado, então a guerra também é a morte do individualismo.

Conclusão

Os ensaios de Bourne não são típicos da literatura antiguerra, pois oferecem pouca crítica a políticas específicas. Ele não se detém na “conta do açougueiro” de soldados e civis mortos. Não protesta contra os lucros colhidos pelo complexo militar-industrial, então conhecidos coletivamente como “fabricantes de munições”. Os ensaios de Bourne atacam a sacralidade da guerra ao mostrar como ela conduz ao colapso moral da sociedade, destruindo as interações pacíficas e os princípios sobre os quais a sociedade se sustenta.

Bourne argumentou eloquentemente que os EUA do pós-guerra estariam moral, intelectual e psicologicamente empobrecidos. Com essa observação, ele não queria dizer que a América em tempos de paz lutaria sob uma burocracia ampliada que nunca retorna aos níveis anteriores à guerra — ponto já destacado por muitos historiadores. Mais uma vez, ele se referia a custos menos tangíveis, embora possivelmente mais duradouros, da guerra. Por exemplo, a América pós-1918 estaria sobrecarregada por intelectuais que haviam “esquecido que o verdadeiro inimigo é a Guerra, e não a Alemanha imperial”. Ao transformar a Primeira Guerra Mundial no equivalente a uma guerra santa, lançou-se a base intelectual e psicológica para um futuro repleto do que ele chamou de “o esporte da classe alta” — o conflito global. Mas o impacto da guerra sobre os intelectuais é tema para um artigo futuro e foi abordado por Bourne em seu segundo ensaio mais aclamado, “The War and the Intellectuals”.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.


[1] N. do T.: Este artigo foi originalmente publicado em maio de 2011, portanto a autora se refere às guerras que se iniciaram no Oriente Médio primeiro contra a Al-Qaeda de Osama bin Laden e que mais tarde evoluíram para guerras no Afeganistão e no Iraque.



Wendy McElroy - Mises Brasil