terça-feira, 13 de outubro de 2020

Em comício na Flórida, Trump acusa democratas de quererem instalar nos EUA regimes como o cubano e o venezuelano

 ORLANDO, EUA - Com o avião presidencial no cenário e ataques ao socialismo, Donald Trump voltou às viagens de campanha depois de dez dias em Washington em isolamento imposto em razão do diagnóstico de covid-19. Ao lado de eleitores, a maioria com bonés, cartazes e camisetas de apoio a ele, o presidente adotou uma retórica tradicional, que faz sucesso entre os fãs. Em uma hora de discurso, ele voltou a minimizar a gravidade do vírus chinês e a acusar a oposição de representar a esquerda radical. 

A Flórida é um dos Estados mais cruciais para a eleição deste ano e dos poucos onde as pesquisas mostram que ele tem espaço para vencer o democrata Joe Biden. Parte da força de Trump na região – e da fragilidade de Biden – está no discurso antissocialista. Ele tem apelo entre a grande comunidade de latinos do sul da Flórida que abandonaram Cuba e Venezuela.

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Trump volta às viagens de campanha com comício em Sanford, 
subúrbio de Orlando, no Estado da Flórida, um dos mais 
importantes na eleição Foto: Saul Loeb/AFP

Os democratas, disse Trump, querem tornar os EUA “uma Cuba comunista ou Venezuela socialista”. “Biden era um grande amante de Castro”, disse Trump, ao  desconstruíu a a parceria que o governo de Barack Obama buscou reconstruir com Cuba. Segundo o republicano, os democratas querem “matar os empregos, desmontar a polícia, liberar as fronteiras, confiscar as armas, destruir os subúrbios e tirar Deus da esfera pública”. 

O discurso era o que Brenda Maser, de 65 anos, esperava. “O mais importante é deixar nosso país longe dos socialistas”, disse ao Estadão Brenda, que mora a 45 minutos do local do comício. Cerca de 15 minutos antes do horário previsto para começar, o avião da presidência, o Air Force One, pousou próximo ao público. 

A plateia foi ao delírio com o desfile da aeronave na pista que circunda o comício, realizado em um aeroporto em Sanford, próximo a Orlando, na Flórida. O modelo de comícios em aeroportos foi adotado durante a pandemia. 

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Foto Beatriz Bulla/Estadão


Agora, arquibancadas são montadas em semicírculo atrás e ao lado de Trump, de forma que apareçam nas câmeras de TV. De um lado, uma grande bandeira dos EUA ficava pendurada. De outro, a mesma bandeira em azul, com uma das faixas em tom mais vibrante, um sinal de apoio ao movimento “Back the Blue”, de apoio a policiais. 

Eleitores tinham a temperatura corporal checada antes de entrar no local, mas o fato de Trump ter sido infectado pelo vírus chinês, covid-19, não serviu de estímulo para que a maioria usasse máscaras de proteção. Muitos carregavam uma máscara facial nas mãos ou bolsos, mas a minoria usava. “Se eu não estivesse conversando com você eu usaria”, justificou Linda Hurt, de 61 anos, que estava com a irmã, neta e sobrinha, que dirigiram 18 horas do Arkansas à Flórida para ver Trump. Para ela, a “bagunça da covid não é realista”. “Menos morreram de covid do que de gripe”, disse. 

Ao falar do vírus chinês, Trump prometeu uma vacina segura, recuperação econômica e medicamentos distribuídos nos hospitais. Ele teve acesso a tratamentos experimentais ao ser infectado. Já os democratas, disse Trump, prolongarão a pandemia, atrasarão a vacina e paralisarão a economia. 

Milhares aguardaram o presidente durante duas horas debaixo de sol forte e 31°C e não pareciam se importar. “É muita gente”, disse Trump, pontualmente às 19 horas, ao ver o público que o aguardava. Republicanos esquentavam o evento com discursos antissocialismo e até uma oração pela saúde de Trump.

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Linda Hurt (sem máscara), com parentes, acompanha discurso de Trump 
em comício em Orlando, na Flórida Foto: Beatriz Bulla/Estadão

Como é habitual, o presidente atacou a imprensa e em uma referência a jornalistas disse que são os “mais doentes de todos”. O público se voltou então à área reservada à imprensa e vaiou. Muitos dos eleitores se recusaram a dar entrevistas ao Estadão sob argumento de que a mídia é “fake news”.

Recuperação

Recuperado da covid-19, Trump usou sua própria história para criticar orientações de saúde e sugerir que pessoas podem seguir uma vida normal. “Agora, eles dizem que estou imune. Eu me sinto muito poderoso”, disse Trump. “Ninguém diz por quanto tempo, cada vez que ouço sobre isso, é mais curto e mais curto (tempo da imunidade), porque eles querem que seja o pior possível”, afirmou o presidente. A plateia retribuiu, com gritos de “Nós amamos você!” e “Quatro anos mais!” Ele respondeu dizendo que eles iriam amá-lo mais ainda.

Aos mais velhos, Trump disse que, “se você não se sente seguro, se quiser ficar em casa, fique”. 

Trump jogou máscaras vermelhas ao público, cor do Partido Republicano, com a inscrição “MAGA” – uma referência ao lema do presidente Make America Great Again (“Faça a América Grande de Novo”). Os comícios são um grande ativo político de Trump, que tem capacidade de energizar a base de eleitores com seus discursos. Assessores também dizem que Trump se alimenta da energia dos eventos, ao perceber que há eleitores que se empolgam com sua retórica.

Com informações de Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo