segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Celso de Melo está refletindo se Lula, ladrão mais reluzente da Lava Jato, pode ser solto. 'É uma questão q diz respeito aos direitos das pessoas em geral. Costumo refletir bastante para formar a minha convicção'. Para o 'decano', assalto à Petrobras deve ter sido miragem

Depois de dar o voto mais contundente no julgamento em que o Supremo Tribunal Federal contrariou o Palácio do Planalto e manteve a demarcação de terras indígenas com a Funai, o decano da Corte, ministro Celso de Mello, disse ao Estado que o presidente Jair Bolsonaro “minimiza perigosamente” a importância da Constituição e “degrada a autoridade do Parlamento brasileiro”, ao reeditar o trecho de uma medida provisória que foi rejeitada pelo Congresso no mesmo ano. “Ninguém, absolutamente ninguém, está acima da autoridade suprema da Constituição da República”, afirmou.
Ao longo dos últimos meses, o decano se tornou o principal porta-voz do
Supremo em defesa das liberdades individuais e de contraponto às posições
 do governo. Alvo de um pedido de impeachment após votar para enquadrar
 a homofobia como crime de racismo, Celso de Mello disse que a Corte não
 se intimida com manifestações nas ruas ou ameaças de parlamentares.
 “Pedidos de impeachment sem causa legítima não podem ter e jamais terão 
qualquer efeito inibitório sobre o exercício independente pelo Supremo
Tribunal Federal de suas funções”, disse.

Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal
Alvo de pedido de impeachment, Celso diz que protestar é legítimo, 
mas intimidar, não Foto: Dida Sampaio/Estadão
É do decano o voto considerado decisivo no julgamento da Segunda Turma do Supremo em que a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusa o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, de agir com parcialidade ao condenar o petista no caso do triplex do Guarujá (SP). O ministro defendeu celeridade na análise do habeas corpus do ex-presidente, mas disse que sua convicção sobre o tema não está formada. Celso de Mello falou ao Estado após a sessão plenária de quinta-feira, 1º.

Por unanimidade, o Supremo impôs nova 

derrota ao Palácio do Planalto e manteve a

 demarcação de terras indígenas com a Funai. 

Foi um recado ao presidente Jair Bolsonaro?

É fundamental o respeito por aquilo que se contém na Constituição da República. Esse respeito é a evidência, é a demonstração do grau de civilidade de um povo. No momento em que as autoridades maiores do País, como o presidente da República, descumprem a Constituição, não obstante haja nela uma clara e expressa vedação quanto à reedição de medida provisória rejeitada expressamente pelo Congresso Nacional, isso é realmente inaceitável. Porque ofende profundamente um postulado nuclear do nosso sistema constitucional, que é o princípio da separação de Poderes. Ninguém, absolutamente ninguém, está acima da autoridade suprema da Constituição da República.

Faltou um melhor assessoramento jurídico

 para o presidente Jair Bolsonaro nesse caso?

Isso eu não sei, eu realmente não posso dizer.

O senhor deu um voto contundente, apontando

 “perigosa transgressão” ao princípio da 

separação dos Poderes. O Supremo também

 contrariou o Planalto ao proibir o governo de

 extinguir conselhos criados por lei e foi 

criticado pelo presidente Jair Bolsonaro por

 enquadrar a homofobia e a transfobia 

como racismo.

Aqui (na demarcação de terras indígenas) a clareza do texto constitucional não permite qualquer dúvida, é só ler o que diz o artigo 62, parágrafo 10 da Constituição da República (o texto diz que é vedada a reedição, na mesma sessão legislativa, de medida provisória que tenha sido rejeitada ou que tenha perdido sua eficácia por decurso de prazo). No momento em que o presidente da República, qualquer que ele seja, descumpre essa regra, transgride o princípio da separação de Poderes, ele minimiza perigosamente a importância que é fundamental da Constituição da República e degrada a autoridade do Parlamento brasileiro. A finalidade maior da Constituição é estabelecer um modelo de institucionalidade que deva ser observado e que deva ser respeitado por todos, pois, no momento em que se transgride a autoridade da Constituição da República, vulnera-se a própria legitimidade do estado democrático de direito.

O voto na criminalização da homofobia, 

considerado histórico por integrantes do STF,

 lhe rendeu um pedido de impeachment,

 assinado por deputados da ala conservadora. 

O senhor vê como uma forma de intimidar 

a Corte?

A história do Supremo Tribunal Federal, desde a primeira década republicana, nos tem revelado que tentativas de intimidação não têm efeito algum. Isso ocorreu no governo do marechal Floriano Peixoto, do marechal Hermes da Fonseca e, no entanto, o Supremo manteve-se fiel ao cumprimento de sua alta missão institucional, que consiste na tarefa de ser o guardião da ordem constitucional. Pedidos de impeachment sem causa legítima não podem ter e jamais terão qualquer efeito inibitório sobre o exercício independente pelo Supremo Tribunal Federal de suas funções constitucionais. O direito de o público protestar é legítimo, ninguém neste país pode ser calado. Qualquer cidadão tem, sim, o direito de protestar. É o direito legítimo. Agora, intimidações não são.

Podcast – STF tende a contrariar agenda bolsonarista?

É aguardada com expectativa a posição

 do senhor no caso em que a defesa do 

ex-presidente Lula alega parcialidade do

 então juiz Sérgio Moro na sentença do

 triplex. O voto do senhor, que deve ser

decisivo, já foi concluído?

Eu tenho estudado muito, porque é uma questão que diz respeito não só a esse caso específico, mas aos direitos das pessoas em geral. Ainda continuo pensando, refletindo. Eu, normalmente, costumo pesquisar muito, ler muito, refletir bastante para então, a partir daí, formar definitivamente a minha convicção e compor o meu voto.

A convicção do senhor já está formada nesse caso?

Não, não, eu estou ainda em processo de reflexão.

O senhor acha que seria ideal julgar o caso 

da suspeição de Sérgio Moro o quanto antes?

A Constituição manda que o exercício da jurisdição se faça de maneira célere. O direito a um julgamento justo e rápido é um direito que hoje a Constituição assegura a todos, por isso eu acho que, sem distinção de casos, é possível e é necessário que o Supremo Tribunal Federal, como qualquer outro tribunal da República, decida com presteza, porém com segurança.

Como o senhor avalia a situação da democracia

 brasileira?

O regime democrático, muitas vezes, se expõe a situações de risco, mas eu confio que o regime democrático vai ser preservado em plenitude, ao menos enquanto o Supremo Tribunal Federal julgar com independência, como tem efetivamente julgado.

O senhor ainda trabalha madrugada adentro, 

ao som de música clássica e bebendo Coca-Cola?


Eu gosto de trabalhar ouvindo música clássica, mas Coca-Cola não mais. Coca-Cola me deixa acordado.

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo